Da sensibilidade na educação ambiental

Comemora-se o Dia Mundial da Educação Ambiental em 26 de janeiro. Com a data, inauguramos nossos textos mensais sobre espiritualidade e preservação de condições de vida na Terra. Duas emoções contraditórias me tomam ao iniciar a escrita: a primeira é de esperança, do verbo esperançar, sempre lembrado por Paulo Freire; a segunda é de temor e reverência pela delicada, provisória e complexa teia que dá sustentação ao equilíbrio do planeta. A narrativa da criação do mundo, em Gênesis (cap. 1), é feita de poesia e contentamento: “E Deus viu que isso era bom”. Aldo Leopold, Rachel Carson e Leonardo Boff assumem a mesma delicadeza para defender a ética da Terra, a ética do cuidado e a integração entre a vida na Terra, no ar e no mar. Vejamos, nas linhas de Boff, quando argumenta a favor de uma educação planetária: Conhecer nossos irmãos e irmãs da comunidade da vida significa reconhecer a importância do Sol, conhecer nossa flora e nossa fauna, a origem das montanhas, dos vales e dos rios e de onde moramos. Mas não só: conhecer a história humana desses lugares, quem foram seus primeiros habitantes, que sinais deixaram, que monumentos nos legaram, que textos literários produziram, que pessoas referenciais geraram como poetas, escritores, escultores, cientistas, músicos e sábios. Isso implica derrubar as paredes das escolas e fazer com que os estudantes entrem em contato direto com a natureza, a organização da cidade, com a distribuição dos espaços, não apenas na forma de curiosidade, mas de reconhecimento e de comunhão com todos os irmão e irmãs que nos circundam (Leonardo Boff. O cuidado necessário, 2012, p. 263). Akira Kurosawa, com igual lirismo, traduziu, em imagens e linguagem cinematográfica, a história de Dersu Uzala, escrita pelo romancista russo Vladimir Arseniev, em 1923. Dersu personifica um caçador que vive numa floresta asiática. Por sua intimidade com o ambiente, guia um grupo de topógrafos e impressiona pela sintonia com as leis naturais e sua relação com os habitantes da floresta, seus fluxos, seu tempo. Para Dersu, a floresta é habitada por muitas “gentes”, como os animais, a Terra e o rio. Estamos em 2023! Precisamos despertar coletivamente para a importância do cuidado de nosso habitat e situá-lo no topo de nossas prioridades. Trata-se de um tempo no qual a fragmentada ciência não dá conta dos complexos desafios que se apresentam; um tempo que pede por outro paradigma de conhecimento: o da sensibilidade, da emoção, da arte e da espiritualidade. Com isso em mente, lembramos o Dia Mundial da Educação Ambiental com pessoas e passagens que educam para a vida, por meio da beleza, de histórias, do ritmo, da experiência e da sutileza. Referências BÍBLIA SAGRADA. Gênesis. Revisada por Frei José Pedreira de Castro. São Paulo: Ave-Maria. p. 49-50 BOFF, Leonardo. O cuidado necessário. Petrópolis: Vozes, 2012. KUROSAWA, Akira. Dersu Uzala. Studio Mosfilm. 1975. Marli Teresinha Everling Professora nos cursos de graduação e pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville/Univille; coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica; colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental.
Setembro Amarelo: “Onde está o teu irmão?”

Em Êxodo, capítulo 4, versículo 9, Deus pergunta a Caim: “Onde está o teu irmão Abel?”. Caim responde: “Não sei. Acaso sou guarda do meu irmão?”. Este é o mês conhecido como “Setembro Amarelo”, tempo de campanha de prevenção e discussão sobre o suicídio e as tentativas de suicídio. Neste artigo, vamos refletir sobre o cuidado com o outro, tendo como referência a orientação bíblica, visto que este também é o mês dedicado à Bíblia. Nossa cultura moderna tem nos acostumado a não interferir na vida do outro, em seus problemas. Algumas frases repetidas no cotidiano traduzem essa ideia: “não se meter onde não é chamado”, “o problema é dele”, “cada um cuide de sua vida”, “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”, “cada um com seus problemas”, etc. No entanto, contraditoriamente, quando acontece um suicídio, muitas vezes, ouve-se: “por que ele/ela não pediu ajuda?”, “ah! Se eu tivesse prestado atenção aos sinais”, “como eu não percebi!?”… Aí é tarde demais. No fim de semana de 10 de setembro, dia especial da prevenção ao suicídio, coincidentemente, as leituras bíblicas da celebração da Palavra e da missa na Igreja Católica tinham como tema o cuidado com o irmão. Um trecho da primeira leitura, tirada do livro de Ezequiel (33,8), afirmava: “Se eu disse ao ímpio que vai morrer, e tu não lhe falares, advertindo-o a respeito da sua conduta, o ímpio vai morrer por própria culpa, mas eu te pedirei contas de sua morte”. Semelhante a isso, no Evangelho do dia, em Mateus (18,15-20), Jesus falava da correção fraterna. Para ganhar o irmão (não ganhar do irmão), há três passos: chamá-lo em particular; depois pedir a ajuda de outras pessoas; depois ainda, da comunidade, com o objetivo de alertá-lo a respeito da maneira como está conduzindo a vida. Antes de excluí-lo ou condená-lo, tentar, de forma criativa, recuperá-lo. Esgotadas todas as tentativas, respeita-se o princípio do livre-arbítrio. Apesar de a mensagem do profeta Ezequiel não dever ser levada ao pé da letra, pois o contexto da leitura é o cuidado com a nação, com o comportamento do povo de Israel, dos exilados e dos que ficaram em Jerusalém; embora não se possa reduzi-la e direcioná-la a uma pessoa específica, ainda assim, ela nos ajuda a refletir sobre o cuidado com o próximo. Nossa postura diante dos problemas do irmão, de acordo com as reflexões bíblicas, não tem o caráter de invasão de privacidade ou de intromissão, como pode parecer à primeira vista. Isso porque a iniciativa, nesse caso, tem como objetivo ganhar o irmão para o convívio harmonioso com a comunidade, com a família e com a sociedade, ajudá-lo a superar o sofrimento. O problema é que se confunde essa ajuda com outros interesses maléficos. Há pessoas que se aproximam dos outros com “a melhor das intenções”. No entanto, revelam-se com interesses egoístas, narcisistas, dominadores. Muitas vezes, o conteúdo do outro vira objeto de fofoca, intrigas e exposição do próximo. Pessoas se apresentam como modelos a serem seguidos. Muitas vezes, há ainda cobranças, comparações, pressões, humilhações. Daí surge a barreira em pedir ou aceitar ajuda. Embora os grupos de terapia como alcoólicos anônimos, de dependentes químicos e a psicoterapia exigem que a iniciativa de pedir ajuda tenha de partir de cada pessoa, devemos encontrar uma forma de estarmos atentos ao cuidado com o próximo. Afirma o grande Mestre: “Se dois de vocês estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus” (Mateus 18,19). Ainda: “Irmãos, não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser no amor mútuo, pois quem ama o próximo está cumprindo a Lei” (Romanos 13,8). Aparecido Luiz de Souza, SVD
Dos Diálogos Amazônicos à “Declaração de Belém”

Belém do Pará foi palco dos Diálogos Amazônicos, da Cúpula dos Povos Indígenas e da Cúpula da Amazônia. Entre outros resultados, foram produzidos documentos como a “Declaração de Belém”.Os diálogos amazônicos ocorreram entre 4 e 6 de agosto e antecederam a Cúpula da Amazônia. Reportagem de Cícero Pedrosa apurou que os debates sinalizaram a contribuição dos povos indígenas e das comunidades tradicionais para a proteção do território e a conservação da floresta. Valorizaram também os conhecimentos ancestrais para a manutenção da biodiversidade. Os produtos e serviços da sociobiodiversidade e a forma de produção das comunidades tradicionais foram considerados como importantes para o fomento de economias locais sem comprometer os ecossistemas. O repórter criticou, no entanto, a prevalência da visão da Amazônia como repositório de recursos e a ausência do reconhecimento mais enfático da participação dos povos originários assim como das comunidades tradicionais.O mesmo repórter relatou que, no segundo dia dos Diálogos Amazônicos, ocorreu um evento separado com 600 participantes: a Cúpula dos Povos Indígenas. A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) contribuiu com a estruturação do encontro, e seu representante destacou o simbolismo em excluir os principais conhecedores das florestas dos Diálogos Amazônicos e da Cúpula da Amazônia. Cícero apontou que os resultados da Cúpula dos Povos Indígenas vislumbram a Amazônia em um futuro com terras demarcadas, livre do garimpo, das hidrelétricas, da agricultura industrial, das ferrovias e de outros projetos dessa natureza. Foram criticadas intenções como a exploração de petróleo, o crédito de carbono e a bioeconomia, e foi reafirmada a luta pela demarcação dos territórios. Algumas questões criticadas pela Cúpula dos Povos Indígenas estiveram em pauta na Cúpula da Amazônia, que ocorreu entre os dias 8 e 9 de agosto, contando com representações de oito países vinculados ao bioma amazônico e a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA). Os países representados foram Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela. O encontro visou a debater assuntos relevantes para a manutenção da Floresta Amazônica espalhada pelos territórios desses países. Da Cúpula resultou a agenda conjunta aos países denominada “Declaração de Belém”. O documento destacou como pontos principais: As decisões envolveram 18 temas desdobrados em 113 itens. Autores consultados não isentam nem o evento, nem o documento de críticas. Os temas mais polêmicos são a ausência de menções ou sanções à exploração de petróleo; a origem de recursos e de medidas concretas em longo prazo. Por outro lado, a Cúpula e a Declaração foram consideradas importantes estratégias de preparação para a Conferência do Clima das Nações Unidas (COP-30), prevista para ser realizada em Belém do Pará, em 2025. Os eventos do Pará e a votação do marco temporal (em curso) estão profundamente conectados quando consideramos os biomas, os territórios e a natureza para além de repositório de recursos transformáveis em artefatos artificiais alienantes da experiência humana em meio natural. As consequências da aprovação do marco temporal foram abordadas com muita clareza por Cícero Pedrosa, Carlos Marés, Felipe Milanez: restringindo o reconhecimento de terras indígenas ao ano da promulgação da atual Constituição (1988), famílias estarão em situação de vulnerabilidade, e nosso planeta também. Carlos menciona estudo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, estimando que a aprovação do marco pode resultar no desmatamento de até 550 mil quilômetros quadrados de áreas nativas, ampliando a emissão de carbono e afetando um sistema, hoje considerado de captura de carbono, mas já afetado pelas mudanças climáticas, de acordo com a ONU. Refletir acerca dessas importantes questões atende aos princípios da equipe de comunicação da Rede SSpS Brasil, que considera acompanhar, debater e atuar sobre o que acontece à nossa volta como parte da missão. Também está em conformidade com a plataforma Ação Laudato si’ e com o apelo do Papa Francisco para o cuidado da nossa casa comum. Referências Nota: foram realizadas várias leituras, incluindo textos disponibilizados por: Instituto Humanitas Unisinos (https://www.ihu.unisinos.br/) Declaração de Belém – disponível no Portal do Ministério das Relações Exteriores (https://www.gov.br/planalto/pt-br/assuntos/cupula-da-amazonia/documentos-da-cupula) Justino Sarmento Resende – antropólogo, padre e indígena em entrevista para o IHU (https://www.ihu.unisinos.br/categorias/188-noticias-2018/584953-cosmovisao-indigena-criacao-encarnacao-e-saida-desse-mundo) Cícero Pedrosa – Repórter para o Portal Amazônia Real (https://amazoniareal.com.br/cupula-dos-povos-indigenas/) Tainá Aragão – Jornalista do Instituto Socioambiental – ISA (https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/dialogos-amazonicos-colocaram-sociobiodiversidade-no-centro-do-debate-para) Felipe Milanez – Jornalista para Carta Capital (https://www.ihu.unisinos.br/570680-marco-temporal-um-argumento-racista-para-legitimar-massacres) Carlos Marés – Professor de Direito Socioambiental para Revista Pub (https://www.ihu.unisinos.br/categorias/610997-marco-temporal-marca-do-atraso) Carta Encíclica Laudato si’ do Santo Padre Francisco sobre o Cuidado da Casa Comum (https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html) Plataforma de Ação Laudato si’ (https://plataformadeacaolaudatosi.org/objetivos-laudato-si/) Nações Unidas Brasil (https://brasil.un.org/pt-br/137094-decl%C3%ADnio-na-captura-de-carbono-na-amaz%C3%B4nia-%C3%A9-abordado-por-ag%C3%AAncia-da-onu-em-estudo) Marli Teresinha Everling Professora dos cursos de Graduação e Pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville (Univille); coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica; colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental (caranguejo.org.br); colaboradora do blog SSpS Brasil para temas ambientais (https://ssps.org.br/posts); colaboradora das redes sociais do design para temas ambientais – Instagram @designuniville
Florestas, sustentabilidade e outros significados

Em 21 de março, comemora-se o Dia Internacional das Florestas. Para o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, as origens passam por Nebrasca, nos Estados Unidos, que, em 1872, dedicou um dia para o plantio de árvores. O evento foi inspiração para a “festa da árvore” em outros países. Na década de 1970, a festa deu lugar ao Dia da Árvore. Essa data logo foi alterada para o Dia Mundial da Floresta, no intuito de sensibilizar para a preservação de condições de vida na Terra, tendo em vista as gerações futuras. Em 2013, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu 21 de março como o Dia Internacional das Florestas, num esforço alinhado com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Para 2022, o tema de reflexão é “Florestas: consumo e produção sustentáveis”. A relevância da data é ampliada pelas crises humanitária, ecológica, climática, sanitária, entre outras, que ocorrem em escala global e colocam em questão nossa inabilidade de habitar o planeta sem o explorar. O modo como afetamos as florestas é derivado da produção em larga escala, cuja insustentabilidade é ampliada quando consumimos de maneira irresponsável e inconsciente. Outro problema está relacionado às formas de produção que suprimem a vegetação em nome da eficiência dos processos tecnológicos. Além disso, ao submeter a natureza aos desejos e necessidades da humanidade, também afetamos as florestas e a Terra, especialmente quando extraímos matéria-prima para a construção de habitações, de dispositivos para mobilidade física e digital, de baterias e energia para os equipamentos eletrônicos, entre tantos outros produtos que poderíamos citar. Até aqui, falamos das condutas que afetam as florestas. Não abordamos ainda sua importância para sustentar a vida do planeta. A teia que entrelaça as florestas com a vida alcança o mar, o ar e a terra: desde as raízes no subsolo, passando pelas copas das árvores que abrigam a vida de várias espécies, até a camada de folhas que formam a serapilheira, contribuindo com a fertilização do solo. Peter Wohlleben, engenheiro florestal e ecologista, discute essas questões com brilhantismo na obra A vida secreta das árvores. A escritora e ambientalista Rachel Carson, em sua robusta obra que inclui Sob o mar-vento, O mar que nos cerca e Primavera silenciosa, aborda, com muita sensibilidade e coragem, a conexão entre todas as formas de vida. As florestas, com a fotossíntese e a umidade, contribuem para que a atmosfera ofereça condições de vida e que rios aéreos flutuem, de um ponto para o outro, distribuindo chuva e fertilidade. Também são elas que, como uma fortaleza, permitem a vitalidade dos rios. Mais do que isso, elas são fonte de cura, de espiritualidade e sabedoria. As flores, os frutos e os extratos da floresta alimentam e curam o corpo. O espírito também se beneficia com a temperatura, as formas de luz e sombra desenhadas pelo sol, assim como a chuva suavizada pela vegetação; o som da brisa e do vento, dos pássaros, dos riachos e de nossos passos sobre as folhas constituem experiências sensoriais que afetam nossa alma e permitem entrar em contato conosco e com o meio para estabelecer conexão com o Divino que habita em nós. Por esses significados e pela vida que nelas toma forma, as florestas merecem nossa reverência, atenção e cuidado. Referências CARSON, Rachel. O mar que nos cerca. São Paulo: Gaia, 2013.CARSON, Rachel. Primavera silenciosa. São Paulo: Gaia, 2013.CARSON, Rachel. Sob o mar-vento. São Paulo: Gaia, 2013.INSTITUTO DA CONSERVAÇÃO DA NATUREZA E DAS FLORESTAS. Disponível em: https://www.icnf.pt/. Acesso em: 17 mar. 2022.WOHLLEBEN, Peter. A vida secreta das árvores: o que sentem e como se comunicam. Rio de Janeiro: Sextante, 2017. Marli Teresinha EverlingProfessora nos cursos de Graduação e Pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville (Univille), coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica, colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental.
Estado laico e diálogo religioso

Todos nós sabemos que as religiões surgiram em meio a mistérios e polêmicas. Cada povo tem suas crenças que, em comum, transmitem valores e códigos sociais. Mas, por que, desde a Antiguidade, há tanta guerra envolvendo crenças religiosas? Desde os tempos das civilizações antigas, as divindades são invocadas para proteger, ganhar guerras, alcançar conquistas e, ou, obter vitórias. Muitas mortes inocentes aconteceram e, ainda hoje, em pleno século XXI, ocorrem mal-entendidos. Como ser tolerante e buscar o respeito com a religião do outro? Embora tenhamos um pequeno avanço na humanidade em relação à tolerância religiosa, ainda existem o preconceito, a discriminação, o fanatismo. Desde o início do cristianismo, a perseguição aos seguidores de Jesus ou simpatizantes levou muitos ao martírio, acusados de traírem o Império Romano. Este acreditava que o imperador era o filho enviado de um de seus deuses. Conforme o Estado monárquico se tornou adepto da religião cristã, toda autoridade era considerada escolhida por Deus e, por isso, vitalícia. E aí “a religião do rei passou a ser a religião do povo”. Cruzadas em nome de Deus passaram a conquistar novas terras, desvirtuando práticas evangélicas, o que ocasionou um cisma dentro da própria Igreja cristã, como historicamente aprendemos, no fim do Período Medieval, com a Reforma e a Contrarreforma. Em busca da paz entre os povos, a tolerância religiosa passou a ser defendida por um grupo de filósofos modernos que combatia o absolutismo. Um dos representantes foi o inglês John Locke (XVII). Este propôs a necessidade de um Estado laico ou civitas. Para uma civilização crescer e se desenvolver, é necessário o respeito para com todos. No Estado republicano ou laico, o direito positivo substitui as leis divinas, geralmente predomina apenas de uma determinada crença. O direito natural à vida, à liberdade e à segurança passa a ser garantido por uma Constituição que acolhe todas as crenças religiosas e respeita, também, os que se dizem agnósticos quanto ao Transcendente. O espaço para a diversidade em todas as dimensões, seja ela cultural, social, econômica ou política, seria para garantir a igualdade e a liberdade. No Brasil, a Proclamação da República, que se deu em 15 de novembro de 1889, já encontrou uma nação plural, isto é, com uma diversidade imensa de culturas. As rebeliões quilombolas em defesa de povos indígenas e dos negros, dos pobres colonos rurais já alertavam para a falta de tolerância. Depois de muitos séculos, as reivindicações dos brasileiros afrodescendentes tornaram o Dia da Consciência Negra também um grito importante para combater o desrespeito referente às religiões afro-brasileiras. Por isso, a necessidade de uma educação emancipada para todos é fundamental para construir um país consciente de seus direitos e deveres, democrático, onde a diversidade cultural, o diálogo religioso deveriam ser uma prática constante da cidadania. No Brasil, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2010, nós, brasileiros, somos de maioria cristã. Por que a intolerância com a crença do outro? Sejamos ecumênicos! Pratiquemos o bem uns com os outros, vivamos a fraternidade, para, assim, construirmos um Estado de paz. Maria Terezinha Corrêa Mestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP e SBPC, atualmente é professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Comissão de Prevenção e Combate à Tortura pela ALESC, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis, e membro da diretoria da APROFFIB.
Sobre infância e “desinteligência”

É outubro outra vez, o famoso Mês das Crianças. Nas tristes lembranças, os tiros que atingiram crianças ainda no ventre materno, as supostas “balas perdidas” nas comunidades, a estupidez no trânsito, o extermínio, o “desaparecimento”, a violência sexual, a violência doméstica, as drogas e o tráfico, os afogamentos, os sufocamentos, as agressões, as queimaduras, as vítimas da covid-19, enfim, um sem-fim de motivos. Nas doces lembranças, a alegria, as dancinhas, a espontaneidade, as conquistas motoras do dia a dia, as encantadoras perguntas e respostas no cotidiano, os segredos, as amizades, as músicas, as brincadeiras, a fantasia, as letras e números ganhando sentido, os desenhos e garatujas, as telas, os áudios, os vídeos, os gritos, os choros, as cólicas, as febres, as espinhas, os primeiros amores, a simplicidade complexa do cuidar, enfim, um sem-fim de registros de afeto e zelo. Das lembranças que se misturam e brotam em nós, lágrimas e sorrisos, uma certeza: crianças e adolescentes precisam de proteção integral para usufruir e fruir a infância e juventude, pois estão na peculiar condição de pessoas humanas em desenvolvimento. Aos olhos de uma criança de 6 anos que cunhou a expressão “desinteligente” numa banal cena do cotidiano, envolvendo uma ingênua crítica à conduta de um adulto a seu redor, um aprendizado para a vida. Em contraponto à infância e à adolescência como fase de formação e desenvolvimento, temos os adultos, aos quais cabe zelar, cuidar, oportunizar, proteger e, acima de tudo, ser porta-vozes de condutas e escolhas inteligentes que mudam o mundo. Diria que temos um “trio de adultos” dos quais se espera sabedoria e inteligência: o ESTADO, a FAMÍLIA e a SOCIEDADE em geral. A esse trio de adultos, um recado na potente voz de uma criança: “Não sejam desinteligentes”. O Estado precisa garantir, em qualidade e quantidade, as políticas públicas que garantam acesso e oportunidade de pleno desenvolvimento a todas as crianças e os adolescentes na complexidade do que é traduzir direitos na prática. Não seja “desinteligente”. A família, em sua multiplicidade de arranjos, precisa ser ambiente fértil e protetivo para dar conta dessa missão de proteção em sua dimensão cotidiana. Não seja “desinteligente”. A sociedade, como um todo, deve ser vigilante com relação ao dever de prevenir a ocorrência de ameaça ou violação dos direitos da criança e do adolescente, reagindo a toda forma de desproteção. Sociedade, não seja “desinteligente”. Este mês de outubro, quando celebramos a vida das nossas crianças, seja tempo para que esse “trio de adultos” possa olhar ao redor e para dentro para (re)ver e ter dimensão do alcance formativo e protetivo de nossas escolhas e decisões “inteligentes”, seja na dimensão cotidiana, seja na complexa dimensão social, política, econômica, cultural. Não sejamos “desinteligentes”! (Qualquer semelhança com os princípios do Estatuto da Criança e do Adolescente não é mera coincidência.) Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
Chamados à missão

Quando eu, Salete, recebi a notícia de que a Igreja do Paraná decidiu convidar-nos para uma missão em um país do grande continente africano, pensei logo: “Mas eu sou tão nada, tão pequena! Como poderei ajudar numa situação tão adversa de nossa realidade aqui vivida, ajudar alguém lá? Essa é uma missão tão grande, é algo tão grandioso, como pode Deus querer se utilizar de mim para essa realidade tão nova e diferente em minha, nossa vida?”. Mas aí percebi como esse nosso Deus é inesperadamente maravilhoso. Entendi que Ele queria nos conceder a graça de podermos experienciar mais de perto seu amor por nós. Foi então que percebi que Deus me ama muito, antes mesmo de eu nascer, e é o que me dá a certeza de que não estou nem estarei sozinha. Fui escolhida por Deus, na pessoa de nosso bispo, Dom Sérgio Arthur Braschi, para ser missionária além-fronteira do Brasil. E, com alegria, eu me dispus a levar a Boa-Nova àquele povo tão sofrido e necessitado; necessitado em todos os sentidos. Ir e levar a alegria do Evangelho, ou o Evangelho da Alegria, para o mundo. É a partir de nosso batismo que todos somos e estamos aptos para servir em missão. Este é o convite que Deus nos faz: “Ide por toda a terra”, “Ide por todas as nações e levai a alegria da Boa-Nova”. Que possamos ser o canal da graça de Deus e dar oportunidade de esses povos o conhecerem, dar-lhes oportunidade para que possam fazer uma experiência com o Deus de Amor. Isso é grandioso! Sabemos que não seremos os últimos da fila para despojar-nos de nossas vestes, despojar-nos das comodidades, deixar e desmontar a nossa tenda, que significa deixar nossa filha, genro, netas, demais familiares, amigos e nossa comunidade, onde vivemos momentos intensos, experiências de fé e, acima de tudo, de caridade uns para com os outros. Somos felizes, pois entendemos que o amor é a razão primeira da evangelização, conforme nos diz o documento Evangelii Gaudium, e também, “mesmo que eu tivesse o dom da profecia e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda fé a ponto de transportar montanhas, mas se eu não tiver caridade, nada seria” (1 Coríntios 13,2). Portanto ir e revelar um Deus de esperança é nossa missão. A nossa vida é puro dom. É preciso partilhá-la, doá-la por completo e não a guardar para si. A metodologia que usamos para nos aproximar daqueles nossos irmãos em Cristo é, necessariamente, a mesma de Jesus, ou seja, tocar, alcançar o coração deles. Nossa alegria também é saber que não estamos sozinhos na missão; temos uma comunidade inteira que reza por nós e pela missão, e essa comunidade se chama família, paróquia, Diocese e Regional, enfim, toda a Igreja do Paraná. O que nos anima e encoraja é saber que a missão para a qual fomos convidados e escolhidos para fazer parte é missão de Deus. Diariamente, Deus se manifesta por sua presença para nos mostrar que é Ele que conduz, que está à frente. É Ele que interfere em todos os momentos e, de modo especial, nos mais difíceis. Inúmeras foram as experiências de fé vividas na missão entre os muçulmanos, por quem a missão católica foi muito bem recebida. Viver e conviver em uma realidade de muçulmanos (90% da população de Quebo) parecia-nos algo difícil, aliás muito difícil. Mas o convívio foi uma grande surpresa para nós. A comunidade muçulmana nos acolheu muito bem. Fomos respeitados e os respeitamos, acolhidos e acolhemos o diferente, convivência e boa relação, convivência e boa relação e testemunho do bispo diocesano, Dom Pedro Zilli (in memoriam) com a comunidade muçulmana e demais etnias africanas (pelo menos trinta e duas). O povo africano tem uma cultura milenar, e é preciso saber respeitá-los nessa cultura e em suas tradições, até porque o missionário é, e sempre será, hóspede naquele chão. Os missionários presentes na missão não fazem distinção entre as pessoas. Todos são atendidos da mesma maneira, sem discriminação. Muitos são os muçulmanos que procuram a missão e aí se sentem muito bem acolhidos. Por outro lado, eles também sabem que, junto com uma missão católica oriunda de outro país, vem para a eles muitos benefícios: atendimento na saúde e na educação, porque a missão católica é posta, é constituída num tripé: evangelização, saúde e educação. E assim, aos poucos, vamos construindo essa missão com a ajuda de nossa Igreja do Paraná (Regional Sul 2). Somos e estamos felizes, confiantes no amor de Deus hoje e sempre. Depois de quatro anos de missão em Quebo, retornamos ao Brasil, para reiniciar aqui nossa vida e as atividades profissionais. Deixamos a missão, mas trouxemos no coração o povo africano. Mais difícil que a ida para a missão foi deixá-la para outros, porque tudo o que fizemos realizou-se no e com amor. Quem quiser saber mais sobre a experiência missionário do casal Pedro e Salete acesse https://youtu.be/gsZmfTZy_iw Diácono Pedro e Salete Lang, membros da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, Diocese de Ponta Grossa, missionários em Quebo por quatro anos (2015 a 2018).
18º Domingo do Tempo Comum

“Eu Sou o Pão da Vida”João 6,24-35 Continuamos uma série de leituras dominicais a partir do sexto capítulo de João. Esse capítulo é extraordinariamente denso em conteúdo e muito carregado com a simbologia judaica da época de Jesus. Hoje o tema central versa sobre Jesus como “O pão da vida”. No Antigo Testamento, muitas vezes, o termo “pão” é usado como símbolo da Palavra de Deus; por exemplo, em Isaías (55,10-11); Amós (8,11-12) fala de fome, mas não fome de pão nem sede de água, mas fome de escutar a Palavra de Deus; A Sabedoria convida os simples a comerem de seu pão e beberem de seu vinho (Provérbios 9,5); Sirac (Eclesiástico) fala da sabedoria que alimenta as pessoas com o pão de compreensão e a água de sabedoria (Eclesiástico 15,4). Até o maná no deserto chegou a ser usado como símbolo da Torá ou Lei (Deuteronômio 8,2-3). Podemos ligar essas ideias com capítulo 6 de João. Divisão do capítulo: 1-15: multiplicação e partilha dos pães; 16-21: Jesus anda sobre as águas; 22-24: situa o discurso; 25-29: introdução ao discurso; 30-40: discurso; 30-34: 1ª parte; 35-40: 2ª parte; 41-51: 2ª parte; 52-58: 3ª parte; 50: aparte; 60-61: reação e opção dos discípulos. O início do relato deixa claro que a multidão reconhece o poder de Jesus, mas é incapaz de entrar mais profundamente no sentido de seus sinais. Lembremos que o Quarto Evangelho não usa o termo “milagre” para as sete ações principais de Jesus (água transformada em vinho, em 2,1-12; a cura do filho do funcionário real, em 4,46-54; a cura de um paralítico na piscina, em 5,1-18; a partilha dos pães, em 6,1-15; o caminhar sobre as águas, em 6,16-21; a cura do cego de nascença, em 9,1-41; e a ressurreição de Lázaro, em 11,1-44), mas “sinais”, embora haja ainda edições da Bíblia que traduzem erradamente o termo. Com certeza, são “milagres”, mas João quer enfatizar o fato de serem sinais, ou seja, que devemos aprofundar o que eles querem nos ensinar sobre a identidade e missão de Jesus. O povo busca as vantagens imediatas que pode receber de Jesus, corre atrás dos milagres, mas não entende o sentido do sinal que cada milagre mostra. Jesus insiste que a fé nasce da capacidade de reconhecer as obras dele como sinais que demonstram uma verdade mais profunda, que Ele é o alimento que faz viver. Assim, o Filho do Homem vem do céu, e os sinais que Jesus opera garantem sua origem e sua missão. Ele quer que creiam e recebam o que Deus lhes oferece nele. A turba quer saber de um sinal para que possa “ver” e “crer” em Jesus. Mas, na visão de João, o “ver” real é conseguir descobrir a realidade completa de quem realiza os sinais, e não parar somente nos sinais externos. No fundo, a multidão quer que Jesus confirme suas expectativas messiânicas, realizando milagres, e não entende a profundidade da mensagem de Jesus, que ultrapassa tais expectativas. Os próprios judeus começam a falar da história do maná no deserto. No tempo de Jesus, muitos doutores da Lei ensinavam que o dom do maná era o maior prodígio do tempo do Êxodo. Jesus reformula as expectativas apocalípticas da época, que esperavam de novo maná do céu, insistindo que o verdadeiro pão da vida é dado pelo Pai e não por Moisés; que o Pai “dá”, não “deu”, e que o pão que o Pai dá é aquele que veio dar a vida ao mundo. Jesus é realmente o “pão da vida” porque crer nele é participar da verdadeira vida. Nesse trecho, encontramos Jesus usando a frase “Eu Sou”, o que soava aos ouvidos dos judeus da época como referência ao nome de Deus na história do Êxodo “Eu Sou aquele que sou” (Êxodo 3,14). Tudo aponta para a verdadeira origem de Jesus, e o fato de que a verdadeira vida só se acha nele. Hoje esses versículos nos desafiam para que ultrapassemos os limites de uma religião superficial e para que nos mergulhemos no mistério de Jesus, criando relacionamento cada vez mais profundo com ele e assumindo uma vida de verdadeiros discípulos-missionários, apaixonados por ele e por seu projeto, o projeto daquele que veio para que “todos tenham a vida e a tenham em abundância” (João 10,10). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Não é pesadelo… O tráfico de pessoas existe!

O ano era 2050. Uma curiosa neta puxava conversa com a avó, que já beirava os 90 anos. Ela perguntava sobre a vida nos idos dos anos 2020, sobre como era a realidade naquele período. De memória muito ativa, vieram à idosa as lembranças da pandemia da covid-19 e das manifestações nas ruas e também sobre… Imediatamente, a neta interrompeu a avó: “Não, Vovó, me fale sobre o tráfico humano, o tráfico de pessoas no Brasil e no mundo. Vovó, também quero saber se antigamente havia situação de trabalhadores que se encontravam em situações análogas ao trabalho escravo”. A avó não conseguia conectar na lembrança nada além de uma Campanha da Fraternidade e alguns fatos isolados que ganhavam repercussão. Não sabia o que dizer. Estava perplexa e seguia revirando memórias diante do que parecia uma natureza oculta de crimes contra a humanidade. E a neta seguia falando: “É que está chegando o dia 30 de julho, Dia Mundial contra o Tráfico de Pessoas, e o professor disse que é uma realidade criminosa que ‘ceifa a vida e os sonhos de milhares de pessoas em todo o planeta’. Ele disse ainda que pessoas e redes criminosas se ‘aproveitam das vulnerabilidades e pobreza de pessoas e oferecem falsas promessas de vida melhor, mas o que querem mesmo é lucrar e tratam pessoas como mercadoria’.” O requinte de crueldade seguia no relato da neta e calava a avó. A menina, com um tom de perplexidade, ia dando detalhes das armadilhas da realidade que envolviam “conflitos armados e crises humanitárias que sujeitam as pessoas a um maior risco de serem traficadas para exploração sexual, trabalho forçado, remoção de órgãos, servidão e outras formas de exploração”. Era uma espécie de globalização da indiferença, como dizia o Papa Francisco em algum momento, concluía a idosa que, àquela altura, aprendia o que não quisera enxergar no passado. Parecia um pesadelo, um filme de terror… A vida humana desfilando, como se mercadoria fosse, na vitrine do mundo. De repente, um som de latidos inundou o ar e acordou a idosa, que despertou sobressaltada. Olhou em volta, meio atordoada, e se deu conta de que estava sonhando, ou melhor, tendo um pesadelo. O ano era 2021. Tomou consciência de que ainda não tinha uma neta, sua pele não estava tão enrugada, o cabelo inaugurava um discreto grisalho, as pernas ainda estavam firmes e, de fato, a quinquagenária senhora pouco ou nada conhecia do assunto. Relendo documentos de 2014, encontrou uma importante reflexão no material da Campanha da Fraternidade contra o Tráfico Humano, quando a Igreja do Brasil afirmava que “O tráfico humano é um crime que atenta contra a dignidade da pessoa, pois explora o filho e a filha de Deus, limita suas liberdades, despreza sua honra, agride seu amor-próprio, ameaça e subtrai sua vida, quer seja da mulher, da criança, do adolescente, do trabalhador ou da trabalhadora”. Essa deplorável conduta explora e atenta contra a dignidade “de cidadãs e cidadãos que, fragilizados por suas condições de vulnerabilidades, se tornam alvos fáceis para as ações criminosas de traficantes”. Ela aprendeu que estruturas e formas perversas de exploração de seres humanos são combatidas com “ação firme de denúncia e intervenção solidária, político e profética”. E, como alicerce, sempre será necessária a “promoção de transformações sociais estruturais, visando à construção de uma economia e de uma sociedade que promovam a justiça, inclusive ambiental”. Além de “mobilizar a opinião pública mundial contra o tráfico de pessoas, identificar e denunciar práticas de tráfico humano em suas várias formas, é necessário prevenir por meio de ações educativas e ampliação do acesso à informação junto ao público de crianças e adolescentes”. Muito a se fazer para que o futuro não nos encontre desavisados. Não era pesadelo… O tráfico de pessoas existe e precisa ser enfrentado para acabar! Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas. Saiba mais enquanto há tempoDenuncie e consulte as referências: Disque 100: canal da Secretaria de Direitos HumanosLigue 180: canal da Secretaria de Políticas para as Mulheres Coordenação de enfrentamento ao Tráfico de Pessoas da Secretaria Nacional de Justiça: traficodepessoas@mj.gov.br Correio eletrônico de denúncia à Polícia Federal: urtp.ddh@dpf.gov.br Nota sobre trabalho escravo, publicada pela Pastoral da Terra e a Comissão contra o Tráfico Humano [link: https://www.cnbb.org.br/pastoral-da-terra-e-comissao-contra-o-trafico-humano-lancam-nota-sobre-trabalho-escravo/] Em carta pastoral, Comissão para o Enfrentamento ao Tráfico Humano convoca à ação [link: https://www.cnbb.org.br/em-carta-pastoral-comissao-para-o-enfrentamento-ao-trafico-humano-convoca-a-acao/] Campanha Coração Azul no Brasil [link: https://www.unodc.org/blueheart/pt/a-campanha-no-brasil.html] Campanha da Fraternidade 2014 [link: https://www.cnbb.org.br/campanha-da-fraternidade-2014/] Mensagem do Papa Francisco para a Campanha da Fraternidade 2014 [link: https://www.cnbb.org.br/papa-francisco-envia-mensagem-para-a-campanha-da-fraternidade-2014/] Número de vítimas de tráfico num ano ultrapassou 50 mil no mundo [link: https://news.un.org/pt/story/2021/02/1740252] O desafio do combate ao tráfico de pessoas [link: https://ssps.org.br/o-desafio-do-combate-ao-trafico-de-pessoas] Rede um Grito pela Vida: “Enfrentar o tráfico de pessoas é nosso compromisso” [link: https://ssps.org.br/rede-um-grito-pela-vida-enfrentar-o-trafico-de-pessoas-e-nosso-compromisso]
15º Domingo do Tempo Comum

“Dava-lhes poder sobre os espíritos maus”Marcos 6,7-13 Esses versículos dão início ao terceiro e último bloco da primeira parte do Evangelho de Marcos (6,6b-8,21) à qual podemos intitular “a cegueira dos discípulos”. É a continuidade dos primeiros dois blocos que tratavam da cegueira das autoridades e dos parentes de Jesus. Nosso texto trata da missão dos discípulos. Vale a pena examinar mais de perto as frases que Marcos usa. O primeiro elemento é que a missão de Jesus, a de construir o Reino de Deus, continua na missão dos discípulos. A base da missão é o compromisso com Jesus e seu projeto. Em nossos termos hoje, cumpre lembrar que a origem da missão está em nosso batismo. Todos somos discípulos-missionários. Se somos clero, religiosos ou leigos, é secundário. A missão comum vem do batismo comum de todos nós. A maneira de vivenciarmos a missão pode ser diferente e variar, mas a missão é fundamentalmente igual. Ele os enviou dois a dois. Uma maneira bonita de mostrar que a missão cristã é comunitária. Não existe um cristianismo individualista. Nossa fé tem consequências profundas comunitárias. Um alerta para que não caiamos na tentação de criarmos uma religião individualista e intimista, tão comum em nosso mundo de competitividade e Pós-Modernidade. Jesus lhes dava poder sobre os espíritos imundos. Claro, aqui se expressa uma realidade importante nos termos da cosmovisão da época. “Espíritos imundos” significam tudo o que pudesse se opor ao Reino. Tudo aquilo cujos valores fossem diferentes do Reino. Infelizmente, ainda hoje, muitos interpretam essas palavras ao pé da letra e criam uma religião que sataniza e demoniza quase tudo, uma religião de exorcismos e diabos (mas sempre no nível intimista e individual). Devemos nos perguntar: quais os espíritos imundos em nós, em nossas comunidades, em nossa sociedade, que precisam ser expulsos? Não é difícil achá-los: tudo o que se opõe à vida, à dignidade humana, à justiça e à solidariedade. Onde se vive o Evangelho, não há lugar para o espírito de individualismo, de competitividade, de exclusão, que é característica de nossa sociedade neoliberal, nossa sociedade de morte. O cristão não pode compactuar com tal sociedade e com suas estruturas. Nossas celebrações não são para nos refugiarmos nelas, mas para nos fortalecermos no esforço da criação de um mundo novo, diferente, pela utopia de Jesus. Por isso, em primeiro lugar, os discípulos tinham de se libertar do espírito de acúmulo: não levar coisas, como sinal da chegada do Reino. Em nosso caso, teríamos de examinar se, mesmo sem notar, não estamos vivendo o espírito de consumismo e materialismo, e acumulação e supérfluo, que marca a ideologia na sociedade hoje. Jesus os adverte que nem todos iriam acolher sua mensagem, pois a mensagem de Jesus necessariamente entra em conflito com o espírito do egoísmo, enraizado na sociedade. Vale para nossos tempos: uma Igreja comprometida com os valores do Evangelho será uma Igreja rejeitada pelos poderes deste mundo. Quando somos bem-aceitos por todos, é porque não questionamos, porque perdemos nossa voz profética. A Igreja verdadeira suscita mártires (literalmente, testemunhas) e não acomodados. Que alegria celebrar a beatificação de Dom Oscar Romero e testemunhar o início dos processos de beatificação de Dom Helder Câmara e Dom Luciano Mendes de Almeida, arautos e testemunhas da vida que Deus almeja! Nosso texto nos convida a um exame de consciência sobre a “missionariedade” de nossa vida. Minha vida, a de minha comunidade se resumem na vivência interna das estruturas da Igreja ou nos levam a ser testemunha no meio da sociedade, profetizando e demonstrando a chegada do Reino, não tanto pelas palavras, mas pelos valores que vivencio? Uma Igreja que não seja missionária (que não significa ser prosélita) é uma Igreja morta. Lembremo-nos de que, pelo batismo, somos todos discípulos-missionários, missionárias, continuadores da missão de Jesus. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.