O encontro que me devolveu à vida (Lc 7,11-17)

A instauração do Reino de Deus é real e palpável nos sinais e nos ensinamentos de Jesus. Nessa ótica, entendemos o encontro de Jesus com a viúva de Naim (Lc 7,11-17). A grande característica dessa perícope é que se trata de um relato de contrastes entre a morte e a vida. Portanto se emoldura nos costumes e ritos próprios dos cortejos fúnebres. Lembremos que, na maior parte do mundo antigo, o lamento da flauta e outras práticas rituais eram usados para acentuar a desolação e a separação definitiva pela morte. Ora, diante desse drama, Jesus nos mostra a face da compaixão do Abba (Pai), revelando-se como o Senhor da vida e da morte. “Jesus foi a uma cidade chamada Naim, e o acompanhavam seus discípulos com uma grande multidão. Quando chegou à porta da cidade, coincidiu que estavam levando um morto, um filho único filho, cuja mãe era viúva” (vv. 11-12). É interessante que o local do encontro fosse à porta da cidade. Na Antiguidade, as portas da cidade eram de grande importância, pois, além de dar segurança ao lugar, nelas se exercia a justiça, por isso porta e tribunal eram unívocos. Assim, conclui-se que o evangelista apresenta estrategicamente a porta para estabelecer o limite entre a caravana da vida e a caravana da morte. Outro detalhe a ser considerado é que o encontro deve ter acontecido no fim da tarde, pois os mortos comumente eram enterrados fora dos muros das cidades, e no fim do dia da morte. Além disso, o autor traz duas multidões caminhando em direções inversas, uma entrando na cidade com Jesus e outra saído da cidade com a viúva. Com Jesus vem uma grande multidão do povo de Deus. Entretanto a que acompanha a mulher é uma multidão suficiente. Significando que a mãe viúva tem a solidariedade de um grupo suficiente de pessoas da comunidade. Entretanto ambas as multidões logo formarão o novo povo de Deus. No desenrolar da ação, o evangelista nos chama a atenção para o momento-chave: o movimento interno de compaixão que se gera em Jesus diante da mulher. Aqui há algo muito bonito, o olhar de Jesus: “Ao vê-la, o Senhor foi movido de compaixão por ela” (v. 13). Esse “ver” de Jesus, seguido do verbo no passivo, indica que Jesus foi profundamente afetado. O sentido do verbo σπλαγχνίζομαι (“mover-se, ser movido de compaixão, comover-se”) é muito intenso, pois tem o significado de sentir com as entranhas. No Novo Testamento, esse verbo é referido somente ao comportamento de Jesus (cf. Mt 18,27; Lc 10,22; 15,20). Essa compaixão de Jesus é um sinal da compaixão de Deus, inaugurando seu Reino, e é destinada às pessoas mais desprotegidas e excluídas. Numa sociedade patriarcal, uma viúva que perdesse seu único filho significava que ela ficaria sem qualquer possibilidade de sustento físico e moral. Pois, com a morte do único filho, acabava-se a descendência da família. Dessa ótica, as mulheres que perdessem seu único filho ficavam na mesma posição de desonra e até de “castigo” de Deus que a mulher estéril. Os profetas compararam as catástrofes de Israel precisamente à mãe que perdia o seu único filho (cf. Jr 6,26; Am 8,10b; Zc 12,10b). Notemos então que não é o morto quem provoca a compaixão em Jesus, mas a mãe que chora imersa na morte do filho. “E disse a ela: não chores!” (v. 13). Essas palavras trazem já a certeza de que não há mais motivo para chorar. Dessa forma, concluímos que a reanimação do jovem é resultado de uma atitude de profunda compaixão de Jesus pela mãe. No Antigo Testamento, órfão e viúva, junto com o estrangeiro, eram os grupos mais pobres e indefensos, portanto Iahweh saiu em seu socorro. O povo da Aliança assim o experimentou e teve de ampará-los por meio das normas jurídicas (cf. Dt 10,18-19; 14,28-29; 24,17-21; 26,12-13; Is 1,17; Jr 22,3). Na atualidade, assistimos a líderes que se autoproclamam cristãos. Mas, em vez de propor ou resguardar leis que defendam os grupos sociais mais pobres e indefesos, atuam contrariamente. O mais escandaloso é que se resguardam sob o nome de Deus e de Maria para realizar sua destruição. Consequentemente, como a viúva de Naim, os mais fracos enfrentam situações de morte e risco. De modo que podemos perguntar-nos: qual é o choro dos marginalizados e excluídos de hoje O que temos perdido Conservamos a certeza de que com Deus nem a morte é uma derrota Diante das situações cruciais da vida, Jesus é o exemplo. E, com a força e autoridade da sua palavra, Jesus diz a ele: “Jovem, eu te digo, levanta-te…, e o morto sentou-se e começou a falar” (vv. 14 e 15). O jovem não somente é reanimado e torna à vida, mas também Jesus o restitui como filho (“Ele o entregou à mãe”), para que aquela mulher torne a encontrar a razão da sua vida e a alegria de doar-se ainda. Movido de “compaixão” com a mulher viúva e dando novamente vida ao menino morto, Jesus assume atitudes em favor da vida, como outrora Iahweh havia realizado em favor de seu povo. Deus sai a nosso encontro, dando-nos motivos para exultar de alegria e glória. Espalhemos essa boa notícia na práxis! Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e colabora na Animação Vocacional.
Testemunho Missionário – Irmã Juana Ortega Torres

Despedindo-se para retornar à missão em Moçambique, a missionária e teóloga mexicana fala sobre sua experiência no Brasil.
Encontro sobre o mar (Jo 6,16-21; Mc 6,45-52)

A relação entre as pessoas e Deus começa pelo conhecimento, por isso Jesus se empenhou em modificar a noção que as pessoas tinham sobre Deus. Nesse viés, podemos ler o encontro sobre o mar. Especificamente acompanharemos a narrativa dos evangelistas Marcos e João (Jo 6,16-21; Mc 6,45-52). Esse emblemático episódio também se refere a nós, discípulos e discípulas, hoje submersos na vertigem dos ventos que são contrários à vida. O sociólogo Zygmunt Bauman chamou de “mal líquido” esses ventos (cf. Zygmunt Bauman e Leonidas Donskis. “Mal líquido: vivendo num mundo sem alternativas”). Em sua narrativa, João nos diz que, depois da multiplicação dos pães, houve a tentativa de reter Jesus e fazê-lo rei (6, 15). Diante disso, Marcos acrescenta mais detalhadamente a reação de Jesus: “Logo em seguida, Ele forçou seus discípulos a entrar no barco e passar adiante, para o outro lado, a Betsaida (João menciona Cafarnaum) enquanto ele despedia a multidão. E, tendo-a despedido, foi ao monte para orar” (6,45-46). O pano de fundo é o discernimento de Jesus ante duas complexas questões: 1) a crescente hostilidade das pessoas ortodoxas; 2) o grupo que queria fazer dele um messias nacionalista. E o discernimento dos discípulos. Ambos os evangelistas nos situam no drama que os discípulos enfrentavam nessa travessia: “Já estava escuro, e Jesus ainda não viera encontrá-los. Além disso, soprava um vento forte, e o mar se encrespava” (Jo 6,17-18). Em vista do vento que soprava, eles estavam tentando aproximar-se da margem para obter segurança. João nos diz que os discípulos tinham remado de 25 a 30 estádios (é o equivalente entre cinco e seis quilômetros). Segundo alguns estudiosos, no extremo norte, o lago não tinha mais de seis quilômetros de largura; isso quer dizer que estavam quase chegando ao fim da viagem. Os detalhes que emolduram essa narrativa descrevem a situação das comunidades antes da chegada de Jesus (vv. 16-18) e o seu efeito depois de Ele ter vindo. Notemos, por exemplo, “ao anoitecer”, expressão de sentido figurado significando “tempo de angústia e de perigo”. Ainda se acrescenta o tema do “mar” que, desde os tempos antigos, traz o significado de ameaça e de forças contrárias a Deus. O “vento contrário” pode ser lido reforçando o mesmo cenário de desorientação e perigo. Cria-se, portanto, um contraste entre o antes e o depois da vinda de Jesus nas comunidades dos discípulos. Lembremos que o texto de Marcos nos diz que Jesus “forçou” os discípulos a embarcar e ir à outra margem (v. 45). “Ir, atravessar, seguir” exterioriza o desejo do Mestre de abandonar uma situação, mudando por completo de atitude e se afastando dela. Completa-se a ação do verbo com a expressão “outra margem, para…”, dissipando a dúvida sob o lugar a alcançar. Portanto podemos concluir que Jesus quis dirigir-se ao lado oposto do lugar ideológico dominado pelo grupo dos ativistas e pela multidão que queriam fazê-lo rei. E, do mesmo modo, quis que os discípulos se afastassem dessa ideologia. Certamente, em cada época, Jesus “força” seus discípulos a “atravessar”, a “ir à outra margem”. Pois ele quer salvar a humanidade dos ardis ideológicos que a tentam privar de sonhos e projetos alternativos. É que toda ideologia que é contrária ao Evangelho trabalha com a ideia de sedução, desunião e ainda oferece o “melhor”, porém deixa sem alternativas. A fé, ao contrário, é dinâmica, acolhe as diferenças, é otimista, confia que o bem pode vencer o mal e sempre nos abre possibilidades de um mundo melhor e mais humano. O mundo, provavelmente, nunca foi tão inundado de ideologias fatalistas e deterministas como hoje. Basta acessar qualquer meio informativo para perceber o emaranhado de projeções de iminentes crises financeiras, políticas e religiosas. As grandes instituições perdem credibilidade, e ameaças de todo o tipo nos transbordam. E, se analisarmos as informações, muitas delas se sustentam em uma “cultura do medo”. Nesse viés, os messias amorais e oportunistas entram em cena e, com os slogans de paz, segurança nacional, progresso da “nossa” nação, afiançam-se no poder. Mas, como os primeiros discípulos, também temos de levantar os olhos e aguçar os ouvidos, pois o Senhor não nos abandonou. “Viram Jesus aproximar-se do barco, caminhando sobre o mar. Ficaram com medo. Jesus, porém, lhes disse: ‘Sou eu. Não temais’” (Jo 6,19b-20). O relato nos mostra os fadigados discípulos absortos nos remos, tentando se abeirar. Mas, ao levantar os olhos, avistaram Jesus se aproximar deles, caminhando firme sobre as agitadas águas. Então se sentiram alarmados, achando que se tratava de um fantasma. Em seguida, por cima das águas, chegou esta voz tão amada: “Sou eu. Não temais”. O “Sou eu”, mais que uma identificação, refere-se a uma revelação de Deus como salvador de seu povo (cf. Is 43,1-3.10; 44,2.8; Gn 15,1; Lc 1,30). Trata-se, pois, de uma epifania de Jesus, exortando a confiar nele. Avistar Jesus causa-lhes primeiramente medo, porém sua palavra reveladora lhes dá coragem. Os discípulos ainda não estavam entendendo o que para eles significava ter Jesus consigo. “Quiseram, então, recolhê-lo no barco, mas Ele imediatamente chegou à terra para onde iam” (v. 21). Com Jesus Cristo, é possível fazermos a travessia neste “mal líquido”, pois, unidos a ele, poderemos alcançar a outra margem. Ouçamos sua voz! Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e colabora na Animação Vocacional.
Encontro além da Galileia (Marcos 7,24-30)

O encontro além da Galileia significou a Jesus adentrar não somente num território diferente, mas se inserir no próprio núcleo da hostilidade. Lembrando que ambos os povos, por vários fatos, ao longo da história, foram afundando na hostilidade (ver, por exemplo, 1Rs 16,31-33; Ez 26,15-21; 27,3-4.25-33; Zc 9,3). Por outro lado, o texto precedente do estudado aqui nos mostra que o confronto de Jesus com as autoridades judaicas tinha se tornado hostil. Quiçá esse fosse o motivo que fez Jesus ir para o território de Tiro. Considerando esse preâmbulo, será bem mais fácil ao leitor compreender que a cura que a mulher siro-fenícia procura para sua filha vai além de uma solução biológica, pois se insere na ótica das estruturas da existência social (a comunidade dos seguidores de Jesus estava vivendo o conflito de acolher ou rejeitar os pagãos). Observemos: “Saindo dali, Jesus foi para o território de Tiro… Logo em seguida, uma mulher cuja filha tinha um espírito impuro ouviu falar dele e veio a atirar-se a seus pés. Essa mulher era pagã, siro-fenícia de nascimento. Ela pedia a Jesus que expulsasse o demônio de sua filha” (vv. 24-26). O evangelista nos introduz no drama do encontro de Jesus e a mulher de origem pagã. Ela tem um forte motivo para ir ao encontro de Jesus: o desejo de liberdade. E, atirada a seus pés, pede a ele que expulse o demônio de sua filha. Jesus, porém, nos surpreende, já que responde defendendo a honra coletiva dos judeus, “os filhos”, para logo acrescentar “se fartem primeiro”, pois “não fica bem tirar o pão dos filhos para atirá-lo aos cachorrinhos”. Entretanto essas expressões que refletem a hostilidade étnica, cultural e religiosa mostram que Jesus toca o fundo do conflito, para desmitificá-lo e, novamente, restabelecer as relações. É interessante que, a seguir, a mulher retoma a imagem de Jesus e desenvolve-a em seu favor: “É verdade, Senhor, mas também os cachorrinhos comem, debaixo da mesa, as migalhas dos filhos!” (v. 28). Cabe observar que essa é a única vez que Marcos refere o título Kyrios (Senhor) em grego. É essa a invocação com que a comunidade de Marcos vai se dirigir a Jesus ressuscitado. Entretanto a resposta “comer as migalhas dos filhos” é o primeiro passo dado pela representante da comunidade dos pagãos vindos à fé, a mulher siro-fenícia, para restabelecer a relação há séculos rompida entre os judeus e os povos de origem pagã. Destarte os limites da identidade coletiva são redelineados por Jesus, na base da ética universal. Jesus é um pregador revolucionário que vem dos campos da Galileia e que propõe outra sociedade: não mais baseada nos privilégios raciais, na força do capital, nos latifúndios e propriedades privadas, mas fundada na igualdade da confederação das tribos. Portanto a base para a segregação social e racial se vê subvertida por Deus mesmo. E Deus conta com a nossa resposta livre e gratuita que teça relações criadoras (cf. Gn 1,26-28). Diante dessa boa notícia, caberia nos perguntar: quais são então as bases em que se apoiam nossas sociedades quando expressam leis que rejeitam, discriminam e excluem Que sustém e alimenta a ideologia do acúmulo de uns em detrimento de multidões Por que nossa cultura descarta os que são diferentes Além disso, poderíamos também nos perguntar: quais são os mitos que devem ser desconstruídos para restabelecer as relações entre nós e com o nosso planeta A que ou quem convém que caminhemos na contramão daquilo para o que fomos criados? O texto deixa ver que o problema não era simplesmente a nova ordem proposta por Jesus, mas sim o fato de ele questionar os códigos sociais, culturais e religiosos ancorados no mais profundo das pessoas, no coração. O coração, na concepção bíblica, designa o centro da pessoa, é o lugar dos sentimentos e do julgamento. É frequente encontrar na Bíblia referências teológicas ao coração de Deus. Trata-se do dom inesperado de Deus que transcende todas as relações de fidelidade e ultrapassa as expectativa e categorias humanas. No coração, pode-se dizer que se gesta o melhor que há em nós, mas também nele podemos cunhar o mal (cf. Mc 7,14-23). Diante dessa realidade, fica-nos o desafio de ir com Jesus além da Galileia para apreender a dialogar com as causas reais dos nossos conflitos. Situar-nos na fé na dinâmica histórica da vida concreta (território, raça, cultura, valores, ritos, expressões, educação, imaginários coletivos, etc.) implica uma conversão total. Isso porque a fé nos abre ao diálogo para desmitificar os códigos culturais que, muitas vezes, cegam-nos, fazendo crer que somos os únicos e, portanto, temos o direito de “filhos”. O amor a Deus, o amor aos outros e o amor a nosso planeta deverá ser nossa bússola e nunca “o direito dos escolhidos”, que é privilégio de alguns. “E ele lhe disse: ‘Pelo que disseste, vai. O demônio saiu de tua filha’” (v. 29). Jesus expulsa o demônio da exclusão, afirmando que Deus está com os excluídos (pagãos) exatamente para mostrar-lhes que são iguais aos “filhos” e que essa igualdade será defendida por Deus, pois ela é base de nossa identidade (cf. Gn 1,26-27). “Ela voltou para casa… O demônio tinha ido embora” (v. 30). A siro-fenícia compreendeu que realmente Deus liberta, salva e inclui todos, como filhos, na mesa do Reino. E, por isso, é possível pensar, do fundo de nosso coração, outras formas de ser e de nos relacionar. Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e colabora na Animação Vocacional.
Encontro com Nicodemos (Jo 3,1-13)

Olhando os evangelhos, vemos Jesus quase sempre rodeado de pessoas pobres, doentes, excluídas. Inclusive, muitas vezes, nem o nome destas é citado. Por isso não deixa de chamar-nos a atenção o relato do encontro entre Jesus e Nicodemos. Pois o texto nos diz que Nicodemos era membro da aristocracia de Jerusalém. A palavra usada para descrevê-lo é archon. Quer dizer, o que era membro do Sinédrio. Este era um tribunal de setenta membros e era a suprema corte dos judeus. Aliás, Nicodemos deve ter sido ser muito rico (cf. Jo 19,39). Outro detalhe que temos é que Nicodemos era um fariseu (v. 1) e, portanto, era gente boa. Como assim, gente boa? Pois é, ao contrário do que comumente ouvimos, os fariseus eram a melhor gente de todo o país, porque se dedicavam a observar a Lei. Lembremos que, para um judeu, a Lei é sagrada, pois ela é a mais perfeita Palavra de Deus. Na Lei, explícita ou implicitamente, encontra-se tudo o que uma pessoa precisa para viver uma vida digna. A Lei encontra-se expressa nos primeiros cinco livros do Antigo Testamento. A Lei consta de grandes, nobres e amplos princípios que o homem deve elaborar por si mesmo. Contudo, com o passar do tempo, entre os estudiosos da Lei, surgiu uma afirmação que dizia: “A Lei é completa; de maneira que, nela, deve haver uma regra e uma regulação para governar todo o possível da vida”. Logo, eles se dedicaram a extrair dos grandes princípios da Lei um número infinito de normas e regulamentos. Os escribas eram os que elaboravam esses regulamentos, e os fariseus eram os que dedicavam suas vidas a obedecê-los. Sendo fariseu, Nicodemos era convencido de que agradava a Deus, por isso nos surpreende que procurasse Jesus. O Evangelista nos diz que era de noite quando Nicodemos se aproximou de Jesus (v. 2). Temos duas possíveis explicações para a afirmação “de noite”. Primeiro pode ter sido uma medida de precaução, para não expor o Sinédrio ou porque Nicodemos sinceramente não tenha querido comprometer-se. Outra razão, no caso, mais plausível, é que os rabinos afirmavam que a noite era o melhor momento para o estudo da Lei. De algum modo, na escuridão da noite, é que Nicodemos procurou Jesus. Quem sabe nele achasse luz à suas mais profundas interrogações? No diálogo entre ambos, há uma série de perguntas e declarações que suscitam mais interrogantes. Será que a intenção do autor é propor-nos uma metodologia que nos faça pensar e encontrar, também nós, as respostas que buscamos “… ‘Rabi, sabemos que vens da parte de Deus como mestre, pois ninguém pode fazer os sinais que fazes se Deus não estiver com ele’. Jesus lhe respondeu: ‘Em verdade, em verdade, te digo: quem não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus’” (vv. 2b-3). Num primeiro momento, vemos um Nicodemos maravilhado pelos sinais que Jesus vinha realizando no meio do povo. Os sinais de Jesus que deslumbraram Nicodemos seguem fascinando hoje muitas pessoas. Tanto é assim que o comércio, sabendo de nossas buscas, tem-se mascarado de religioso e, a todo custo, vende-nos a ilusão dos sinais de Jesus. Mas estejamos atentos, pois a proposta de Jesus a Nicodemos, de uma mudança radical, também é para nós! “Jesus lhe respondeu: ‘Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus’” (v. 3). Será que, por detrás desse desafio, Jesus está pedindo que permitamos que seja Ele quem nos faça nascer de novo? A resposta de Nicodemos deixa transparecer sua busca por esse novo nascimento, mas questiona sua possibilidade: “Como pode um homem nascer, sendo já velho” (v. 4). O nascimento novo não era lago estranho aos conhecedores da Escritura hebraica, portanto Nicodemos sabia dele (veja, por exemplo, 1Sm 10,6; Is 32,15; Ez 36,25-27; 37). Entretanto, parece-nos que o problema era que Nicodemos não estava reconhecendo Jesus como Messias, apenas queria discutir com ele como mestre, num nível de conhecimento semelhante. Jesus, porém, fala a Nicodemos numa analogia terrena (água, carne, vento…) e, se Nicodemos não podia compreender isso, como poderia crer se lhe falasse das coisas do céu? Crer é mais do que aceitar racionalmente Jesus e seus ensinamentos. Crer é ter a certeza de que Deus caminha conosco. Crer é confiar que as palavras de Jesus, o Filho de Deus, podem-nos mudar e que essa mudança é tal que somente pode descrever-se como voltar a nascer. Mas essa mudança só é possível pela graça de Deus: “O Vento sopra onde quer, e ouves o seu ruído, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito” (v. 8). Jesus usa a metáfora do vento para descrever a maravilhosa experiência que podemos ter quando Deus se move em nós por meio de seu Espírito. Pois nem o vento nem os movimentos do Espírito de Deus podem ser controlados por ninguém. A presença do Espírito nas pessoas é comprovada pelo efeito que exerce em sua vida. Por isso o seguimento de Jesus não se mede por guardar a Lei nem pelas belas pregações ou pelo conhecimento dos textos sagrados, mas por um amor igual ao de Jesus. Um amor capaz de pôr-nos em movimento para testemunhar que Deus vive e, por isso, o mal que destrói a humanidade pode ser vencido. Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e colabora na Animação Vocacional.
Encontro ao amanhecer (Jo 20,1-18)

Nos relatos da Páscoa, os evangelistas narram, de diversas formas, as experiências de encontro dos discípulos com Jesus ressuscitado. Neste breve escrito, porém, nós nos deteremos concretamente no encontro entre Jesus e Maria de Mágdala, narrado pelo evangelista João. É interessante observar os elementos que compõem a cena: tempo, lugar, agentes e ação: “No primeiro dia da semana, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, Maria Madalena foi ao túmulo e viu que a pedra tinha sido retirada do lugar” (v. 1). Tanto Maria como todos nós, quando perdemos alguém que amamos, sentimos intenso desejo de recuar no tempo, para estarmos junto dessa pessoa e retê-la conosco. O fluxo narrativo dessa cena nos introduz a compartilhar da “hora zero” da salvação, ou seja, a participarmos da transição da morte para a vida, da escuridão para a luz (“bem de madrugada, quando ainda estava escuro”). Nesse primeiro versículo, vemos Maria totalmente tomada pelo luto, e isso lhe impede de compreender a ressurreição. Os dois primeiros verbos, “foi” e “viu”, movimentam já o posterior desenlace, pois descrevem a chegada de Maria ao sepulcro e a descoberta do túmulo vazio. A seguir, temos mais três verbos que nos situam na expectativa de um novo encontro: “corre” e “vem” até Pedro e o Discípulo Amado e lhes “diz”: “Tiraram do túmulo o Senhor e não sabemos onde o colocaram” (v. 2). Maria aparece ainda bem confusa. Nossa formação religiosa parece deter-se na crucifixão e deixar por entendida a experiência da ressurreição. Nessa ótica, a confusão de Maria perante os sinais da ressurreição torna-se sinal para sairmos do costume ritual, dos chavões e adentrar-nos na experiência da ressurreição de Jesus Cristo. Maria considerava o cadáver de Jesus como se fosse o Senhor Jesus e por isso retornou ao sepulcro: “Maria tinha ficado perto do túmulo, do lado de fora, chorando. Enquanto chorava, inclinou-se para olhar dentro do túmulo (v. 11)”. O primeiro momento dela é de desilusão. A descrição do estado de ânimo de Maria (ela chora) reafirma a incompreensão diante dos acontecimentos, pois ela ainda estava pressa à ideia de que a morte é o fim de tudo. Certamente o sepulcro vazio é uma prova de que Jesus não está mais ali, porém ainda não é a evidência definitiva da ressurreição. Entretanto nos chama a atenção a repetição do movimento: ela se “curva para ver dentro do túmulo: vê os anjos… Logo se vira para fora” e vê Jesus, mas não o reconhece; pensa que é o jardineiro (cf. vv. 12 e 14). Ou seja, Maria ainda não “entendeu” a aparição. “De fato, ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual Ele devia ressuscitar dos mortos” (v. 9). Seguindo o brevíssimo diálogo entre Jesus ressuscitado e Maria Madalena, notamos o processo de saída à luz de Maria. Pois, submersa na tristeza e na desesperança, não percebe que a vida é que vence a morte e não o contrário. Por isso, quando Jesus lhe pergunta por que ela chora e quem ela buscava, ela está mais ainda no escuro e não o reconhece. “Então Jesus falou ‘Maria!’. Ela voltou-se e exclamou em hebraico ‘Rabbuni!’, isto é, Mestre” (v. 16). O tom do diálogo agora é pessoal (“Maria!”, “A quem procurais”). Imediatamente Maria deixa de observar o túmulo e fixa o olhar no brilho do Senhor ressuscitado, o seu “Mestre”. Em nenhum momento Jesus se impôs, porém, deixando-se encontrar, tenta responder às inspirações mais profundas do discípulo, da discípula. Maria se encontra com Jesus vivo, início da nova Criação. E a experiência de ser amada e acolhida como discípula a fortalece para ir anunciar e testemunhar o Ressuscitado: “Vai dizer a meus irmãos: ‘Subo a meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus’” (v. 17). Maria Madalena se torna então a primeira missionária na pregação e no ministério da Igreja: “‘Eu vi o Senhor!’, e contou o que ele lhe tinha dito” (v. 18). O caminho percorrido por Maria de Mágdala é o da fé, que passa pela crise para chegar a ver, face a face, o Ressuscitado. Existem experiências nas nossas vidas que, pelo seu impacto, jamais serão esquecidas. O encontro ao amanhecer é uma destas que marcaram os discípulos desde o começo. A partir de então, eles caminhariam numa relação de intimidade e convivência no amor com o Ressuscitado. Como Maria Madalena, alegremo-nos, pois Cristo está vivo e está presente entre nós! E seja de noite ou ao amanhecer, o Ressuscitado nos segue, chamando cada um pelo nome e nos espera no amor. Jesus Cristo confia em nós como confiou em Maria e em tantos outros discípulos e discípulas. Por isso nos envia a tecer relações de vida nova e a superar as ideologias de morte do capitalismo monopolista. Deixemo-nos interpelar pela experiência de Maria e que, no Espírito Santo, possamos hoje com ela dizer: “Eu vi o Senhor!”. Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e colabora na Animação Vocacional.
Encontro no Getsêmani

Os sinóticos narram o encontro de Jesus no Horto das Oliveiras, ou Getsêmani, enfatizando os dois fatos cruciais nesse lugar: a oração e a prisão de Jesus. Ambos os momentos estão impregnados de simbolismos e detalhes que devemos contemplar se almejarmos uma aproximação da experiência que os evangelistas nos querem transmitir, sobre a própria história da paixão de Jesus (ler Mc 14,32-42; Mt 26,36-46; Lc 22,40-46). Seguindo a narrativa de Marcos (14,32-42), a oração no Horto nos insere no quadro do chamado de Jesus aos discípulos, expresso em Marcos (8,34): “autorrenúncia”, “tomar a cruz” e “perder a própria vida para salvá-la”. Todos os elementos estão ligados entre si e já predizem o tema da paixão que se concretizará naquela “noite silenciosa”, no Getsêmani. O evangelista nos mostra, assim, que os acontecimentos da paixão e morte de Jesus são esperados, contudo a linguagem que usa para descrever a experiência de Jesus no Horto é muito forte: ele “mergulha na tristeza” (ekthambeisthai) e na “angústia” (ademonein). Trata-se da revelação de um alto grau de sofrimento e até de terror próprio do ser humano ante a proximidade da morte. Em nosso contexto, a tortura e o assassínio, em suas diversas facetas, tornam-se cada vez mais triviais. É incrível ver como as sociedades que justificam e acolhem mortes cruéis mergulham, sem culpa nem remorso, em dinâmicas perniciosas. Isso se percebe até mesmo na midiatização dos acontecimentos, pois há casos de extermínios (genocídios, etnocídios, feminicídios, atentados, etc.) nos quais as notícias focam em detalhes menores, distraindo-nos da gravidade do problema social. Algumas mídias, inclusive, favorecem veladamente que os assassinatos e outras mortes sejam considerados como coisa banal. Há muitos casos nos quais a vítima termina sendo assinalada como a causadora de sua desgraça. Dessa forma, justifica-se a injustiça, a agressão e o extermínio. Esse problema é bem mais grave do que parece. Como disse a filósofa Hannah Arendt, vivemos a “banalidade do mal”. O ódio político, social, cultural e sexual se espalha por todo canto e, como consequência, cresce o número de crimes hediondos. Diante dessa realidade, é importante observar que Deus Pai não quis a morte de Jesus, “o Filho Amado” (“Este é meu Filho muito amado. Escutai o que ele diz!” – Lc 9,35). Mas Deus acolheu a consagração de Jesus ao Reino, e essa consagração levará Jesus a ser assassinado pelos que rejeitaram o projeto de vida de Deus revelado no Filho, Jesus. Jesus também não buscou a morte, ele não era um sádico. Porém não recuou diante da cruz, porque ele é coerente com o anúncio do reinado de Deus e, portanto, assumiu as consequências. As sociedades, quando erguidas na injustiça e opressão, não aceitam o Evangelho do amor, da justiça, da paz e vida digna, mas preferem matar as pessoas que as desafiam. Por isso, deve-nos ficar claro: não é Deus quem quer a morte, mas são os seres humanos que usam de sua liberdade para fazer o mal, e ainda alguns usam o nome de Deus para verem-se justificados. Porém Deus não é indiferente ou passivo, mas está a nosso lado, segurando-nos no sofrimento e nutrindo nossa esperança de vida plena. No Getsêmani, nós nos encontramos com Jesus, plenamente humano, em diálogo (na oração) com o Abbá (Pai), e, ao mesmo tempo, nós o vemos sofrendo pelo “silêncio” dos amigos mais próximos: “E dizia: ‘Abbá, tudo é possível para ti: afasta de mim este cálice; porém não o que eu quero…’, ao voltar, encontra-os dormindo e diz a Pedro: ‘Simão, dormes’” (vv. 36 e 40). Nos momentos de maior dificuldade é quando mais precisamos do apoio das pessoas que amamos, por isso o silêncio deles pode ser bem mais duro que os golpes dos inimigos. Jesus tinha admitido, diante dos discípulos, que estava abalado até a profundeza do coração: “Minha alma está triste até a morte”. Podemos ler nas entrelinhas das palavras de Jesus a busca de solidariedade dos amigos, entretanto o relato nos diz que os discípulos caíram em profundo sono. Deve ter sido muito difícil para eles aceitarem a dor e o sofrimento real de Jesus, pois não combinava com a imagem do Messias que desejavam. A nós também nos custa aceitar um Messias compassivo, que se faz frágil por amor e que conta com nossa solidariedade para aliviar o sofrimento dos crucificados de hoje. Por isso a pergunta e a recomendação de Jesus a Pedro quiçá sejam hoje o imperativo que precisamos para acordar: “Dormes, Simão Não tiveste força para permanecer acordado por uma hora Fica acordado e ora para não entrar em tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (v. 37). Jesus não buscava, entretanto, obter um intervencionismo de Deus, mas queria expressar ao Abbá (Pai) sua tristeza e angústia. Certamente Jesus saiu fortalecido desse encontro para enfrentar a paixão e a morte que o esperavam. Destarte, Jesus mostra-nos que é preciso sobreviver às situações difíceis e lutar contra o mal. É preciso orar, pois a comunicação contínua com Deus nos fortalece para enfrentar o sofrimento e as consequências que, pelo Reino de Deus, apresentam-se inevitáveis. Cristo, assumindo a cruz, solidarizou-se com as vítimas que não têm como evitar o mal e, ainda na dura experiência de abandono dos amigos, manteve-se fiel na entrega a Deus e seu projeto, sem o renegar. Que a consumação e a oblação de Jesus ao projeto de Deus, evidenciadas no Getsêmani, nos fortaleçam na confiança em Deus. E que, acordados, sigamos seus passos, entregues totalmente a Deus e seu projeto do Reino. Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e colabora na Animação Vocacional.
Encontros que movimentam a água

É interessante que o evangelista sublinhe que eram muitos os que esperavam a cura e logo dirija nossa atenção no encontro a sós entre Jesus e o homem que estava enfermo: “Encontrava-se ali um homem enfermo havia trinta e oito anos. Jesus o viu aí deitado e, sabendo que estava assim desde muito tempo, perguntou-lhe: ‘Queres ficar sadio’” (versículos 5 e 6). O relato nos diz que o homem ficou curado antes mesmo de proferir qualquer palavra de fé: “Jesus lhe disse: ‘Levanta-te, toma tua maca e anda!’” (v. 8). O diálogo que se estabelece entre Jesus e esse homem deixa-nos mais desconcertados, pois, embora se trate de uma cura milagrosa, foge do esquema típico das curas de doenças. Geralmente há um pedido e uma afirmação da fé, mas, neste caso, é Jesus quem, por iniciativa própria, apresenta-se ao enfermo com uma oferta. Mesmo diante da negativa deste, Jesus insiste. Cabe observar que, no caso, o imperativo “Levanta-te” antecipa já a autoridade de Jesus para ressuscitar os mortos (cf. Jo 11). Nessa ótica, o acontecimento transcende a cura física e nos situa perante questões mais profundas que paralisam internamente o ser humano. Podem ser ideologias religiosas ou culturais, indiferença social, sofrimento, injustiça, etc. Na lógica de nossa sociedade, a gratuidade parece absurda. Em geral, somos educados na ideologia mercantilista. Assim, oferecemos algo (inclusive afeto) ou fazemos favores esperando retribuição (que ganho com isso De que me serve isso…, etc.) Dessa forma, quando é evidente que não seremos retribuídos, nós nos negamos a ajudar e até mesmo nos justificamos com razões socialmente válidas (não faço mal a ninguém, eu trabalho, meu dever é cuidar da minha família…). Também colocamos a Deus a concepção retributivo-mercantil, por isso nos custa tanto confiar na gratuidade de seu amor e misericórdia (no fundo, acreditamos mais na recompensa e no castigo). Destarte, preferimos pagar que ofertar, cumprir ritos religiosos que ser compassivos com quem está sofrendo da paralisia sociocultural e religiosa. Aliás, se no mais recôndito de nosso coração, estamos satisfeitos sendo como somos, não haverá uma mudança capaz de acolher a oferta libertadora de Jesus. O enfermo esperava que a água da piscina fosse movimentada e que, daquela vez, conseguisse mergulhar. “O enfermo respondeu: ‘Senhor não tenho ninguém que me leve à piscina quando a água se movimenta. Quando estou chegando, outro entra na minha frente’” (v. 7). O fato de querer curar-se, embora não visse como, pois ninguém o ajudava, foi a primeira atitude para ele receber a cura. E Jesus manda-o que faça o que parecia impossível. Ele diz “Levanta-te!”. Além do mais, é interessante que Jesus o mande o enfermo carregar a maca na qual este esteve deitado por trinta e oito anos. Porém o homem não se queixa, não se autocompadece; ao contrário, faz o esforço de levantar-se, carregar sua maca e andar. É, no entanto, um sábado. Logo, a lei rabínica proíbe estritamente as pessoas de carregarem qualquer objeto. Parece, pois, uma ironia que o homem que foi curado agora esteja quebrando a lei. Essa transgressão poderá levá-lo a ser apedrejado até a morte. Por isso, ao ser questionado, ele se defende, colocando a culpa no homem que o curou. É notável que não saiba quem é Jesus, por isso diz: “Aquele que me curou disse: ‘Toma teu leito e anda!’”(v. 11). Na realidade, somente busca ver-se livre da situação. “Mais tarde, Jesus encontra-o no templo e, desta vez, lhe diz: ‘Ficaste saudável, não peques mais’” (v. 14). Agora não é o profundo da piscina que se mexe, mas é o homem, em seu mais recôndito, estremecendo-se ao descobrir que aquele que o curou e mandou carregar sua maca é Jesus. Certamente, depois disso, as acusações se deslocam à pessoa de Jesus. Entretanto a defesa de Jesus é surpreendente: “Meu Pai trabalha sempre, e eu trabalho também” (v. 17b). Jesus mostra-nos que o cerne da lei de Deus é o amor, a misericórdia e a compaixão. Indiscutivelmente, o Filho e o Pai não descansam. Eles continuam procurando-nos junto à “piscina”. Eles nos desafiam a levantar-nos da paralisia, para chegarmos àquilo que devemos ser: filhos de Deus. Jesus nos quer de pé, quer-nos carregando nossa maca como testemunho de que é possível sermos seus seguidores! Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e colabora na Animação Vocacional.