O encontro que busca respostas (Mt 11,2-6; Lc 7,18-23)

No começo dos evangelhos, encontramos João Batista como primeiro legitimador de Jesus (Jo 1,29-34; Mc 2,5), mas depois os relatos dão a entender que João não tem clareza sobre quem é o Nazareno e se interroga sobre ele: “És tu aquele que há de vir ou devemos esperar outro” (Mt 11,2-6; Lc 7,18-23). Para nós, que nascemos na época recente, a pergunta de João pode até soar discordante, pois, na atualidade, basta acessar o Youtube e encontraremos abundantes vídeos sobre Jesus. Dessa forma, até quem nem frequenta a catequese mais básica postula-se a ser um conhecedor do Cristo. As muitas informações, no entanto, nem sempre nos aproximam do Jesus dos evangelhos. Às vezes, somente criam imaginários que ou tranquilizam as consciências diante dos problemas sociais ou justificam comportamentos contrários ao Evangelho. É doloroso ver como, em nome de Jesus, agride-se, despreza-se, lucra-se, até mesmo se cometem assassinatos. Diante dessa realidade, é necessário interrogar-nos, ler os acontecimentos mais além da superficialidade e da banalização que se impõe. É necessário contemplar por onde o mistério de amor e vida plena revela sua face. Nesse marco, propomos o relato de Mateus (11,2-6), o qual encontra seu paralelo em Lucas (7,18-23), almejando que traga luz à nossa vida. 2João, ouvindo falar, na prisão, a respeito das obras de Cristo, enviou-lhe alguns dos seus discípulos para lhe perguntarem: 3“És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro”. 4Jesus respondeu-lhes: “Ide contar a João o que ouvis e vedes: 5os cegos recuperam a vista e os coxos andam, os leprosos são purificados e os surdos ouvem e os mortos ressuscitam, e aos pobres é anunciado o evangelho. 6E bem-aventurado aquele que não se escandaliza por causa de mim!”. O texto consta de uma pergunta de João (v. 2) e de uma longa resposta de Jesus (vv. 4-6). A resposta se articula com precisão. Assim, no versículo 5, temos seis frases breves, os dois pares primeiros estão unidos por χαί (e) e se justapõem em forma assindética, os dois últimos começam por χαι. O versículo 6 também começa com χαι, sendo que a força recai sobre esta última frase, por ser de maior extensão. O relato está emoldurado em seu contexto e apresenta uma unidade geral, com exceção do versículo 6, pois o tom da frase (“E bem-aventurado aquele que não se escandaliza por causa de mim!”) parece não se encaixar bem na pergunta de João. Além do mais, a bem-aventurança parece estar dirigida a todos os seguidores e não apenas a João e a seus discípulos. Ora bem, se a bem-aventurança é parte da resposta de Jesus, podemos compreender que a pergunta sobre “o que há de vir” não pode satisfazer-se teoricamente. Nesse terreno, são necessárias as decisões pessoais a favor ou contra Jesus. E as curas “do tempo de salvação” devem ajudar a fazer a escolha. O relato diz que João estava na prisão. Imaginemos a situação desse homem acostumado a andar e respirar o ar livre do deserto (Lc 3,2-3; Mt 3,1), e agora está confinado numa diminuta cela, afogado pelas paredes. Nessa situação crítica do cativeiro, a dúvida, a perplexidade ou até a surpresa pode ter surgido no coração do Batista. Os estudiosos concordam que não se trata de uma dúvida sobre se Jesus é ou não o Messias. João duvida porque não vê Jesus desempenhar o papel de “reformador fogoso” que ele esperava que fosse. No capítulo 3,17 de Mateus e 3,12 de Lucas, João apresenta o Messias reformador. Jesus não responde à pergunta de João de forma direta, mas indiretamente remete ao tempo de salvação que profetas e reis quiseram ver. E ainda remete à própria experiência dos interrogadores: “Ide contar a João o que ouvis e vedes: os cegos recuperam a vista e os coxos andam, os leprosos são purificados e os surdos ouvem, e os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciado o evangelho” (v. 5). Notemos que Jesus aponta os fatos, algo que João talvez não aguardasse como resposta. Quem sabe João esperasse que Jesus respondesse: “Os pecadores são destruídos. O juízo começou. A ira de Deus está em marcha!”. Nós também, diante da realidade de injustiça social, política e econômica, de gênero, da realidade de opressão, destruição da natureza, do extermínio de grupos étnicos minoritários, com certeza, gostaríamos de escutar que Deus virá como um trovão a destruir todos os males que nos afligem. Mas a resposta de Jesus foi: “Voltem e digam a João que chegou o amor de Deus”. Deus não age de forma intervencionista, desrespeitando a liberdade que nos deu. Ele age com o único fogo que é o do amor. E o amor nos abre à salvação de Deus e nos encoraja a viver e lutar por um mundo de amor, justiça e paz para todos. Nesse horizonte, compreende-se o fim da resposta de Jesus: “E bem-aventurado aquele que não se escandaliza por causa de mim!”. Trata-se da bem-aventurança que proclama ditoso quem se aproxima de Jesus sem ideias preconcebidas e sem preconceitos. Pois aquele poderá compreendê-lo como a personificação das bênçãos divinas anunciadas pelo profeta Isaías (61,1) e não como o reformador de fogo. Sejamos também nós parte dos bem-aventurados, levando a boa notícia do amor e da misericórdia de Jesus aos que ainda não o conhecem! Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México e é missionária em Moçambique.
O encontro que me fez escutar e proclamar (Mc 7,31-37)

O relato da cura do surdo gago (ler o texto Mc 7,31-37) está estrategicamente inserido logo após o diálogo de Jesus com a mulher siro-fenícia (Mc 7,24-30) e antes da segunda multiplicação dos pães (Mc 8,1-10). Provavelmente o autor quer mostrar aos leitores que é por meio de Jesus que os ouvidos dos gentios podem ser abertos à escuta da boa notícia divina, e suas línguas podem ser desatadas para proclamar a Palavra de Deus. A narrativa começa descrevendo uma interessante viagem, pois Jesus está indo de Tiro ao território que rodeia o mar da Galileia. Quer dizer que, de Tiro, no Norte, dirige-se à Galileia, no Sul. À primeira vista, parece uma travessia ilógica, entretanto pode ser que essa longa viagem seja proposital. O que permitiria a Jesus ter um tempo mais prolongado para preparar seus discípulos antes do fim iminente. A trama desenvolve-se na seguinte sequência: descrição do itinerário geográfico (v. 31); os mediadores apresentam o surdo gago e imploram a imposição das mãos (v. 32); Jesus de quem se espera que ponha a mão sobre o surdo; o ritual da cura (vv. 33-34); o efeito curativo do ritual (v. 35); o encargo por parte de Jesus e a reação do povo (vv. 36-37). É interessante, porém, que não é novidade que as personagens “mediadoras” sejam inominadas, pois isso ocorre também em outras passagens (Mc 1,32; 2,3; 6,55-56; 10,13-16). Compreende-se, portanto, que o interesse do autor, mais que destacar os mediadores, é evidenciar que o mal em questão é de caráter coletivo. Quer dizer, a enfermidade desse homem está afetando todo o grupo. Portanto mediar é uma disposição de buscar o bem da comunidade. Anteriormente dizemos que esse percurso foi um tempo de instrução aos discípulos, por isso chama nossa atenção que, subitamente, eles desaparecem da trama. É provável que sua ausência queira expressar uma atitude de incompreensão com seu mestre. Os discípulos reaparecem no texto quando Jesus os chama (cf. Mc 8,1). Por sua vez, o enfermo encontra-se numa situação de passividade e isolamento, pois nem recebe, nem comunica. A condição de surdez e gagueira o priva da palavra. Dessa forma, ele está condenado às margens da história de uma vida recriada por Deus. Se bem que o verbo μογιλάλον não indica surdez, mas sim dificuldade para falar. Provavelmente isso seja indício de que nem sempre ele foi surdo. Algo deve ter acontecido em sua vida que o tornara surdo. Vivemos numa sociedade global, em que as mídias sociais têm atingido amplos níveis, encurtando distâncias. Porém, nesse novo cenário, a visão das pessoas se ofusca ante a vastidão de informação. Além disso, quando as mídias estão atreladas ao sistema hegemônico, distorcem a informação para garantir domínio do sistema. A consequência é que quase não mais conseguimos distinguir o bem do mal. De alguma forma, ficamos surdos e gagos. Quase ninguém mais escuta os gritos dos pobres; dos que têm fome; dos que são injustiçados, escravizados; o grito das crianças e mulheres violentadas; o grito da terra e da natureza explorada. Para contrariar esse sistema de morte, é imperativo que se abram nossos ouvidos e se solte nossa língua. É mister ser curados por Jesus para recuperar o poder da palavra. No Oriente Antigo, a palavra tinha um poder que chegava a repercutir nas realidades das coisas da vida. Era como se tivesse uma força de destruição e uma força de vida. Isso nos ajuda a compreender o que os evangelhos querem dizer quando neles se indicam a força e a eficácia que tinha a palavra de Jesus. Em Jesus, o dizer e o fazer se identificavam e se fundiam de tal forma e tal extremo que o que Ele dizia e o que fazia dava vida e libertava as pessoas de seus males. A unidade da palavra e da ação consiste em que Jesus mesmo é a “Palavra de Deus” (Jo 1,1). Em Jesus Deus se expressa e se dá a conhecer. Por isso nele se manifesta a força de vida, de saúde, de plenitude da existência. “Colocou os dedos nas orelhas dele e, com a saliva, tocou-lhe a língua. Depois, levantando os olhos para o céu, gemeu e disse: ‘Effatha’, que quer dizer ‘Abre-te!’” (vv. 33-34). O gesto de Jesus, segundo alguns estudiosos, é ritual simbolizando o processo de cura do surdo gago. As ações realizadas por Jesus (Ele o levou à parte, colocou os dedos nas orelhas, com saliva lhe tocou a língua, levantou olhos ao céu, gemeu e falou) devem ser compreendidas no marco bíblico e sociocultural da época. A expressão idiomática “a sós” ocorre frequentemente em Marcos, em cenas nas quais os discípulos estão a sós com Jesus (cf. Mc 4,34; 6,31-32; 9,2-28; 13,3). Nesse trecho, é a única vez que essa expressão é usada com outra pessoa. Naquela época, atribuía-se poder curativo à saliva, sobretudo a saliva das pessoas influentes. Por isso, cuspir nas partes enfermas era algo comum naquela época. O gesto de levantar os olhos é realizado quando Jesus quer estabelecer um diálogo com o Pai (Mc 6,41). O gemido é sinal de quem está em profunda oração. Além dos gestos, Jesus pronuncia uma palavra “Effatha”, que o autor traduz como “Que se abra”. Pelo fato de o verbo aramaico effatha estar no singular, acredita-se que a expressão esteja dirigida à totalidade do homem e não somente aos órgãos da palavra e audição. A expressão “e falava corretamente” confirma a inserção dele no grupo com o qual se poderia comunicar. Porém, agora que o homem podia se comunicar, Jesus pediu às testemunhas não falar. Porém eles, ao invés de calarem-se, apregoam maravilhas que Jesus realizava: “Ele fez tudo bem…”. Nessa afirmação, encontra-se o reconhecimento do cumprimento da profecia anunciada em Isaías 35,5. O interessante é que, nesta ocasião, a proclamação é feita pelos gentios e não pelo povo da Aliança. Dessa forma, Marcos dá um giro ao exclusivismo isaiano. A difusão da boa notícia sobre Jesus não é exclusividade de um grupo seleto e não pode ser contida; ela
O encontro que me enviou em missão (Mateus 28,1-10)

O Sínodo da Amazônia tem despertado grande interesse nos cristãos e na sociedade em geral. A cada dia, assistimos a inúmeros comentários e reflexões sobre a busca, a partir da Amazônia, de novos caminhos para a Igreja. O grito dos pobres, dos indígenas, da natureza e das mulheres marcou pautas de debate no Sínodo. Além disso, o tema da possível ordenação de diaconisas repercutiu no mundo com vozes a favor e encontra. Não nos cabe analisar aqui esse tema, basta-nos apenas refletir o trecho de Mateus 28,1-10, buscando compreender, à luz da Palavra, a grande confiança que Jesus teve nas mulheres que o seguiam e o seguem. Confiança que, no dia de sua ressurreição, ele mesmo confirmou: Ide anunciar a meus irmãos… 1Após o sábado, no início do primeiro dia da semana, Maria de Mágdala e a outra Maria foram ver o sepulcro. 2E eis que produziu um grande terremoto: o Anjo do Senhor desceu do céu, veio rolar a pedra e sentou-se em cima. 3Seu aspecto era de relâmpago, e sua veste, branca como a neve. 4Com o medo que tiveram dele, os guardas ficaram estarrecidos e como mortos. 5Mas o anjo, dirigindo-se às mulheres, disse: “Não tenham medo! Sei que vocês procuram Jesus, que foi crucificado. 6Ele não está aqui, porque já ressuscitou, como havia dito”. 7Depois, “Ide depressa dizer a seus discípulos: ‘Ele ressuscitou dos mortos’. E eis que ele vai adiante de vós para a Galileia; ali o vereis. É o que tenho a vos dizer”. 8Deixando às pressas o sepulcro, com medo e grande alegria, elas correram para levar a notícia a seus discípulos. 9E eis que Jesus veio a seu encontro e lhes disse: “Alegrai-vos”. Elas se aproximaram dele e abraçaram-lhe os pés, e, prostrando-se, o adoraram. 10Então Jesus lhes disse: “Não temais. Ide anunciar a meus irmãos que eles devem ir à Galileia. Lá é que eles me verão”. Depois da narrativa da morte de Jesus, segue-se o relato da ressurreição. Lembremos que Jesus foi julgado e condenado à morte acusado de crime de blasfêmia (Mt 26,65). Isso ocorreu durante o governo de Herodes (Mt 27,2.14) e quando Caifás era o sumo sacerdote de Jerusalém (Mt 26,3). Era uma sexta-feira quando Jesus foi crucificado. É, portanto, significativo que os relatos da ressurreição comecem com o shabbat. Isso é um aviso de que o grande acontecimento da ressurreição ocorreu no primeiro dia da semana. No pano de fundo das narrativas, há uma chamada de atenção aos leitores para “algo novo” que está acontecendo. E dele as Marias foram as primeiras testemunhas. Elas tinham ido ao sepulcro, segundo o evangelista Marcos, com o objetivo de embalsamar o corpo (Mc 16,1). Ora bem, mesmo que Mateus refira-se somente a duas mulheres, Maria Madalena e a outra Maria, como as primeiras a inteirar-se da alegria da ressurreição (v. 1), é obvio que elas estariam junto com outras (cf. Mc 15,40; Mt 27,55; Lc 23,49). Tratava-se daquelas que tinham seguido Jesus desde a Galileia, tinham-no acompanhado em sua paixão e crucifixão, e estado presentes quando o puseram no sepulcro (Mc 15,47; Mt 27,61; Lc 23,55). E, desta vez, recebiam a alegre surpresa: Jesus estava vivo! Embora parecesse muito belo para ser verdade, era verdade! Depois dessa bela experiência, coube a essas mulheres reunir de novo os discípulos e levar a eles a Boa Notícia da ressurreição (Mc 16,1-8; Mt 28,1-10; Lc 24,1-8; Jo 20,11-17). O relato mateano está ornado de imagens: “grande terremoto”, “um anjo com aspecto como de relâmpago” e “vestes brancas como a neve”. São imagens que simbolicamente revelam o sentido escondido dos acontecimentos. Trata-se duma linguagem apocalíptica, própria dessa época. Com certeza, quer-se destacar e assegurar a veracidade da grande descoberta: o sepulcro estava vazio. Jesus havia ressuscitado! Estudiosos concordam que o “grande terremoto” pode estar rememorando o acontecido na sexta-feira. Porém, agora, em vez de avisar a morte de Jesus, mostrava a completude de sua missão. Notemos que esse terremoto era de maior proporção que o da crucificação, pois, por meio dele, era comunicada a nós a vitória divina, a prova da nova vida e a confirmação das promessas (Mt 17,9.22; Mc 8,31; 9,31; Lc 9,22). Além disso, o Anjo vindo do céu surgiu pela primeira vez fazendo uso de um poder assustador, vindo do Senhor. Em outras passagens, os anjos aparecem somente como mensageiros da Palavra de Deus (Lc 1,12.19.26; Mt 1,20; 2,13), mas sem usar do poder. O anjo tinha a aparência de um relâmpago, e suas vestes eram brancas como a neve. Isso remete à cena da transfiguração no monte (Mt 17,1-2; Mc 9,2-3; Lc 9,28-29). O anjo falou às mulheres usando dois imperativos: Não tenham medo! Falem! As mulheres que tinham chegado ao sepulcro se deparavam com duas barreiras: a grande pedra que fechava o túmulo e os guardas que tinham sido colocados pelas autoridades para resguardar o lugar. Mas, em vez de lutar contra as barreiras, ficaram perplexas: a pedra fora removida, os guardas ficaram como mortos, e o Anjo, radiante de luz, explicou-lhes a razão. O caminho estava livre, mas Jesus não estava lá, porque havia ressuscitado. As discípulas não tinham entendido que era necessário que tudo aquilo acontecesse para que a promessa de ressuscitar dos mortos se cumprisse. O Anjo as convidou a olhar o sepulcro, para que seu coração se acalmasse e pudessem logo contar aos outros discípulos: Falem! A promessa de ir diante deles à Galileia logo iria cumprir-se. As Marias, com medo e grande alegria, puseram-se a caminho. Tratava-se do medo de quem não estava ainda preparado para ver que aquele que morrera na cruz vivia! Pois bem, indo avisar aos discípulos, encontraram-se com Cristo. Ele as saudou: “Alegrai-vos”. As mulheres corresponderam à saudação, prostrando-se e adorando-o. O fato de adorar é sinal do reconhecimento de que Jesus é “verdadeiro Deus e verdadeiro homem”. Cristo repete às mulheres o que o Anjo lhes tinha dito, mas, no diálogo, existe uma mudança importante: em vez de os chamar de meus “discípulos”, Ele os chamou
O encontro com a felicidade (Mt 5,1-12) (2ª parte)

Tal como já vimos, no trecho das bem-aventuranças, condensam-se os ensinamentos que Jesus dá a seus discípulos (Mt 5,1-12). Dessa forma, em cada dito, encontra-se muita riqueza de conteúdo. Por esse motivo, neste breve escrito, daremos continuidade à reflexão publicada em setembro. Entretanto aqui nos deteremos especificamente nos versículos 5 a 12. Quando refletimos a primeira bem-aventurança, vimos que não podemos conceder importâncias às coisas, mas sim a Deus e, portanto, às pessoas. O caminho da felicidade que Jesus nos propõe nos impele a levantar os olhos à “Montanha”, impele-nos a olhar, sem medo, o presente e assumir, com alegria, o compromisso com nossa casa comum. Nesse sentido, a terceira bem-aventurança, “Felizes os que choram, porque serão consolados” (v. 5), não deixa de nos surpreender. Pois ninguém espera pelo sofrimento, mas, com certeza, desejam que as relações o façam sentir-se feliz. Contudo reconhecemos que as relações humanas, quando sustentadas na ótica patriarcal, androcêntrica e mercantil, desumanizam-nos. O risco é acreditar que é “normal” ser forte, dominador e intolerante com os outros. Diante dessa realidade, Jesus nos diz “que felizes são os que choram…”, porque, ao não concordarem com essa forma cruel de entender as relações, sofrem. Mas a dor que se padece buscando outras formas de se relacionar conduz às profundezas da vida. E é tocando nossas profundezas que ressurgimos mais humanos. Dessa forma, essa bem-aventurança de felicidade podemos interpretá-la em nossa atualidade com o seguinte significado: que felizes os que choram diante da dolorosa realidade de exclusão, marginalização, violência, pobreza, injustiça e destruição da casa comum. Porque quem sente a dor do mundo não aceita sua degradação. Que felizes são eles porque não se conformam com os sistemas injustos, os devaneios mercantis e a crescente violência. Porém ousam denunciar e buscar alternativas de vida digna. A partir desse choro é que se encontra a alegria de Deus. Essa bem-aventurança descreve muito bem a Jesus, por isso quem quer ser seu discípulo terá de abraçar esse mesmo caminho de felicidade. As palavras não existem no vazio. Têm uma história inscrita nas experiências de quem as usa: “Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (v. 6). Os evangelhos narram que Jesus ia de um lugar a outro, pregando a Boa-Nova. Nessas viagens, com certeza, experimentou a fome e a sede. Além do mais, na Palestina antiga, as condições geográficas e econômicas propiciavam estados de fome e sede extremas. Algo incompreensível nas sociedades atuais, sobretudo as de cunho ocidental. De modo que a fome dessa bem-aventurança não se pode compreender como aquela que se sacia comendo um petisco ou bebendo um refrigerante. Pois se trata daquela fome de quem, durante toda a sua vida, não comeu o suficiente para satisfazer-se. Essa bem-aventurança nos coloca, assim, diante da pergunta: qual é a intensidade real do desejo de justiça que nos anima? Até que ponto estamos dispostos a assumir o compromisso que a justiça demanda Entretanto nos cabe arriscar a diferença entre o conceito antigo e atual de justiça. No antigo Israel, a justiça concebia-se como sendo o valor mais elevado da vida. Sobre tal valor toda a vida se sustentava. Desse modo, a justiça era a base da paz e da benção. Na sociedade atual, porém, a justiça se resume em dar a cada parte o que as leis determinam. Notemos que essa bem-aventurança é exigente e radical, uma vez que não fala de desejar um pouco de justiça atual, mas de desejar a total justiça bíblica. A bem-aventurança em sequência, “Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (v. 7), requer pouca explicação, pois suas palavras são já um grande ensino. Dessa forma, basta-nos dizer que a misericórdia é muito mais que sentir piedade do outro. Trata-se da capacidade de nos adentrar no outro, a tal ponto de podermos ver com seus olhos, pensar com sua mente e sentir com seu coração. Numa sociedade individualista, essa bem-aventurança é uma grande luz, pois nos desafia a sair da falsa bondade e do conforto para identificar-nos com o outro. Dessa forma, podemos interpretar essa bem-aventurança como “que feliz é a pessoa capaz de entrar nos outros e sentir com eles, pois sentirá o mesmo dos outros e de Deus!”. “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus” (v. 8). Entendemos que ser puro de coração é aquele que não pratica o mal e cujas intenções são íntegras. Advirtamos que não se trata de viver numa falsa modéstia, mas de identificar-se com Deus e seu projeto. De tal modo, podemos ler essa bem-aventurança assim: “que feliz é a pessoa cujas motivações são completamente puras, porque ela verá a Deus!”. Em consonância está a seguinte bem-aventurança: “Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (v. 9). No hebraico, paz (shalom) significa tudo aquilo que contribui ao bem-estar integral do ser humano. Portanto essa bem-aventurança não é a aceitação passiva de qualquer situação; antes, é denúncia do mal e promoção da paz. A seguir, temos duas bem-aventuranças cujo tema é a perseguição por causa de Cristo: “Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. Felizes sois quando vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, dizerem todo o mal contra vós por causa de mim” (vv. 10-11). Como se pode perceber, os seguidores de Jesus estão sempre em conflito com um mundo que rejeita sua mensagem (Jo 16,2-4.8-11.20.33;17,14-16). Jesus não oculta a conflitividade de quem assume o projeto do Reino, porém procura transmitir um modo de vida que produz alegria e prazer: “Alegrai-vos e regozija-vos, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois foi assim que perseguiram os profetas que vieram antes de vós” (v. 12). A dinâmica egocêntrica leva a acumular e possuir para, assim, resistir à insegurança da vida. Entretanto, o dom de Deus inspira e motiva a pessoa para que esta se assemelhe a Ele e apreenda a relacionar-se gratuita e generosamente, como Jesus o fez. Pois quem vive para os outros vive para Deus. Enfim, o
O encontro com a felicidade (Mt 5,1-12; Lc 6,20-23)

O relato das bem-aventuranças encontra sua versão em Mateus e Lucas. Estudiosos concordam que não se trata somente de um sermão, que Jesus tenha pregado em uma ocasião concreta. Antes, é o resumo dos ensinos que, em diversas oportunidades, Ele ministrara a seus discípulos. Portanto, no trecho das bem-aventuranças, encontra-se o essencial dos ensinamentos de Jesus. De tal modo, todo seguidor de Jesus precisar abraçá-las como programa de vida. Quando Jesus anuncia as bem-aventuranças, o que faz, na realidade, é descrever sua própria vida. Uma vida identificada com os desejos dos pobres, dos que carecem do indispensável para viver com dignidade. Por isso sua vida atraiu e atrai multidões. Nesse tratado, o surpreendente é Jesus colocando que o que nos faz mais felizes é aquilo que, ao “simples olhar”, parece nos fazer mais míseros. Pois a pobreza, o sofrimento, ter fome e sede de justiça, ser perseguido e insultado (Mt 5,1-12; Lc 6,20-23) é muito difícil de suportar. Onde está, então, a chave da felicidade nesse tratado Nesta breve reflexão, tentaremos responder a essa questão. Mas, antes de continuar, recomendamos a leitura do texto de Mateus (5,1-12), o qual será comentado a seguir. Notemos, logo na introdução, três importantes chaves de leitura: “Subiu à montanha e, sentando-se, começou a ensinar”; “E pôs-se a falar”; “Ensinava-lhes, dizendo”. No Antigo Testamento, a montanha evoca o lugar do encontro com Deus (Êx 19,3.10-18; 20,1-18). O gesto de sentar-se era comum aos rabinos quando ministravam seus ensinamentos. Nesse marco, a postura de Jesus para ensinar pode dizer da importância do caráter essencial de sua doutrina. “E pôs-se a falar”; a tradução mais exata é “abriu a boca”. Essa expressão, entre outros sentidos, significa abrir o coração. Abrindo seu coração, Jesus mostra os conteúdos mais íntimos àqueles que seriam seu braço direito no cumprimento da missão. “Ensinava-lhes, dizendo”. O verbo “ensinava” está no imperfeito e, portanto, descreve uma ação habitual, repetida de Jesus; entende-se que Jesus ensinava continuamente. Observemos que cada bem-aventurança tem a mesma forma: “Felizes os…”. Estudiosos concordam que, no grego, falta o elo que, em nossas traduções comuns, une cada ditado. Isso se deve a que Jesus as pronuncia em aramaico-hebraico. No Antigo Testamento, é comum encontrar uma expressão, em forma de interjeição, e que significa: “Que feliz é…!” (Sl 1,1). Essa é a mesma forma que Jesus usa nas bem-aventuranças: “Que feliz é o pobre de espírito…!”. É muito importante ressaltar essa forma, porque significa que as bem-aventuranças não são piedosas exclamações de esperança de um possível futuro, mas são de alegria e encanto por algo que já existe. São felicitações no agora, certamente alcançarão a plenitude na eternidade. Ao falar da felicidade, não podemos ignorar o desejo, pois nele se encontra a chave da felicidade. Aquele que cobiça e deseja aquilo que não pode alcançar na presente ordem das coisas, aos poucos, submerge-se na amargura, ressentimento e violência. Por outro lado, aquele que orienta suas vontades e desejos pelo bem da felicidade dos outros, esse é quem alcança a felicidade na presente ordem das coisas. De fato, é demonstrado que as pessoas que se preocupam com os demais, as pessoas que lutam para que, neste mundo, haja menos carências, menos injustiças, menos violências e mais paz, justiça e perdão são mais felizes. Pelo contrário, aqueles que se preocupam tão somente com elas mesmas se afundam no egoísmo e na infelicidade. Os desejos de Jesus se identificam sempre com os anseios dos pobres, dos doentes, dos excluídos… Por isso, multidões seguiam Jesus (Mt 4,23-24; 8,16-17; 9,35; Lc 4,18-21; 4,40-41; 6,17-19). Sem pretensões de “rebaixar” o projeto de Jesus para que cada um tome o que queira, o que buscamos é propor um apelo a subir ao monte, contemplar Jesus e escutar dele como viver nossas relações humanas. Pois, em nossa contemporaneidade, parece irreconciliável individualidade e compromisso social. A sociedade de consumo nos faz acreditar que satisfará tudo e todos, porém o que falaciosamente faz é identificar a felicidade com o estar saciado. Nessa dinâmica perniciosa, a saciedade é a prisão do desejo. Cabe aqui perguntar-se: qual é meu desejo? É interessante que se comece a falar da felicidade dizendo: “Que felizes são os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (v. 3). Devemos deixar claro que Jesus não elogia a pobreza material. Ele sempre esteve contra essa classe de pobreza que esmaga pessoas e povos. Jesus elogia os pobres no espírito, isto é, os que reconhecem sua condição humana limitada diante das exigências da vida e colocam em Deus toda sua confiança. O “pobre no espírito” é quem compreende que nenhuma coisa satisfará seu desejo mais profundo, mas somente Deus. E, portanto, faz a vontade de Deus, tornando-se, assim, feliz cidadão do Reino de Deus. “Felizes os mansos porque herdarão a terra” (v. 4). Em grego, a palavra praus é equivalente a “manso”, e era de um significado elevado na ética. Aristóteles explicou a virtude como o meio-termo entre dois extremos. A virtude da mansidão era então o meio-termo entre muita ira e pouca ira. Entende-se então que é feliz o cristão que, diante da agressão, dos insultos à sua pessoa, não reage com agressividade, porém, quando os outros são ofendidos, ele manifesta indignação. Outro significado para praus é “domesticado”. Quando o animal tinha sido treinado para obedecer ao dono, era tido como manso. Nesse marco, pode dizer-se que é feliz a pessoa que sabe dominar suas paixões e desejos, pois têm domínio sobre eles. A atual sociedade se arroga por “liberdade”, porém, muitas vezes, estamos prisioneiros de nossas paixões. É imperativo, portanto, sempre se perguntar: sou eu a governar minhas paixões e desejos ou são eles a me governar Chama-me a atenção como as redes sociais concorrem por ocupar o centro de nossa vida. Parece que conhecem nossos gostos e se interessam por nossos sentimentos e pensamentos. Como elas, há outros mecanismos que que buscam é exaltar nosso ego. Mas Deus nos quer felizes e nos convida a sê-lo: “Felizes os mansos…”. O texto das bem-aventuranças
O encontro que me libertou (Jo 7,53-8,11)

A passagem de Jesus e a adúltera insere-se na narrativa das conversas entre Jesus e os “judeus”, inclusive interrompe esses debates. Os estudiosos se questionam sobre o sentido de a perícope encontrar-se justamente nessa seção. O tema em si mesmo é incomum no quarto Evangelho. Além do mais, a forma literária (apotegma ou paradigma) em que se expressa é um gênero mal atestado no restante do escrito joanino. Chama-nos também a atenção a mudança na atitude de Jesus. Nas seções anterior e posterior, nós o vemos discutindo; aqui, porém, fica calado e, somente no fim do episódio, toma a palavra. Uma das hipóteses explica que a razão de essa perícope estar nessa seção está em seu conteúdo. Entretanto, antes de seguir com a apreciação do texto, propomos sua leitura, para melhor acompanhar os comentários. 7 53E cada um voltou para sua casa. 8 1Jesus foi para o Monte das Oliveiras. 2De madrugada, voltou ao templo, e todo o povo se reuniu ao redor dele. Sentando-se, começou a ensiná-los. 3Os escribas e os fariseus trouxeram uma mulher apanhada em adultério. Colocando-a no meio, disseram a Jesus: 4“Mestre, esta mulher foi flagrada cometendo adultério. 5Moisés, na lei, nos mandou apedrejar tais mulheres. E tu que dizes 6Eles perguntavam isso para experimentá-lo e ter motivo para acusá-lo. Mas Jesus, inclinando-se, começou a escrever no chão com o dedo. 7Como insistiram em perguntar, Jesus endireitou-se e disse: “Quem dentre vós não tiver pecado atire a primeira pedra!”. 8Inclinando-se de novo, continuou a escrever no chão. 9Ouvindo isso, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos. Jesus ficou sozinho com a mulher que estava no meio em pé. 10Ele se endireitou e disse-lhe: “Mulher, onde estão eles Ninguém te condenou”. 11Ela respondeu: “Ninguém, Senhor!”. Jesus então lhe disse: “Eu também não te condeno. Vai e, de agora em diante, não peques mais”. Em 7,53-8,1-2, temos a conclusão da perícope anterior, e a introdução à seguinte cena. Nesta, os agentes da ação são os escribas, os fariseus, a mulher, Jesus e, provavelmente, também a presença de uma multidão que estaria ouvindo os ensinamentos de Jesus. A narrativa pode ser dividida da seguinte forma: vv. 3-6b, descrição o inquérito dos fariseus e escribas; vv. 6c-8, a reação de Jesus; e, nos vv. 9-11, o desenlace. O quadro está emoldurado de elementos-chave, tais como “ir para casa-templo”, os interlocutores vão para casa; “o Monte das Oliveiras”, nos sinóticos, há referências de Jesus dirigir-se, nas noites, ao Monte das Oliveiras (cf. Lc 21,37); “na madrugada, ou dia seguinte”, essa expressão realça a autoridade dos ensinamentos de Jesus. Há outros elementos que, por sua importância, merecem uma explicitação mais ampla. Chama nossa atenção, sobretudo, a reação de Jesus diante dos acusadores: “Jesus começou a escrever no chão com o dedo” (v. 6c). “Inclinando-se de novo, continuou a escrever no chão” (v. 8). Qual é o sentido desse movimento de Jesus Que significa escrever com o dedo no chão O que será que ele escreveu Em O Evangelho segundo João, Johannes Beutler, considera a observação de Thomas O’Loughin. Esse estudioso, por sua vez, trouxe à tona a leitura comparativa feita por Santo Agostinho, entre João 8,1-11 e a escrita do Decálogo. Lembremos que é no Decálogo que se assentam as bases de julgamento contra o adultério. O adultério era tido como um dos três pecados mais graves, portanto a Lei a seu respeito era a pena de morte (cf. Lv 20,10; Dt 22,23-24). Na época de Jesus, quando surgia algum problema legal difícil, costumava-se levá-lo aos rabinos, para que estes tomassem uma decisão. Dessa forma, compreende-se que os escribas e fariseus se aproximaram de Jesus como a um rabino. Trouxeram-lhe uma mulher surpreendida em adultério. Eles tinham razão em sua acusação, mas, observando atentamente a trama, percebe-se que faltam elementos para um processo formal de julgamento contra um caso de adultério, pois o parceiro, que igualmente deveria ser submetido à ação, estava ausente (cf. Lv 20,10; Dt 22,22-24). Isso leva a supor que o problema em questão era bem mais complexo. A cena traz o tom acusador, porém o foco da acusação é Jesus e não a mulher. O texto diz que os escribas e fariseus queriam experimentar e acusar Jesus. Jesus é colocando diante de um dilema, se concordasse com os escribas e fariseus que era preciso apedrejar a mulher, estaria contradizendo-se em seu amor e sua misericórdia. E ainda estaria atentando contra a lei romana, pois, sendo judeu, não tinha poder de impor a pena de morte. Se, pelo contrário, ele dissesse que era preciso perdoá-la, seria acusado de desobedecer à Lei de Moisés. É evidente que os escribas e fariseus pretendiam fazer Jesus cair numa armadilha. Diante desse cenário, a resposta de Jesus foi decisiva, porém Jesus se calou, curvou-se e escreveu com o dedo no chão. Seguindo a leitura comparativa de Santo Agostinho, estamos diante de um contraste entre a escrita em pedra do Decálogo e a escrita de Jesus na areia. Será essa diferença a grande mensagem dessa perícope? Em todas as épocas, as leis surgem visando a garantir o desenvolvimento integral dos indivíduos e das coletividades. Pois, quando a vida se vê ameaçada, requer mecanismos que a resguardem. Desse modo, em todas as sociedades, as leis se tornam necessárias. Entretanto, quando essas leis são manipuladas em benefício de uns poucos ou de alguma instituição, elas se tornam instrumentos de opressão e morte, sobretudo para os mais indefesos. Mas Deus não abandona. Ele, de diversas formas, impele-nos à conversão. Deus continuamente suscita no coração das pessoas a chama profética em favor da vida ameaçada (cf. Is 1,21-23; 58,3-7; Am 2,6-8; 5,10-12; Mq 3,1-4). No silêncio de Jesus, podemos ler a atitude profética de denúncia: “Por isso o sábio se cala neste tempo, porque é tempo de desgraça” (Am 5,13). O silêncio profético é um grito de denúncia contra a injustiça. Além do mais, o gesto desconcertante de Jesus de inclinar-se e escrever na areia obriga os acusadores a repetir a pergunta. Será que
O encontro na casa (Lc 10,38-42)

A narrativa sobre a visita de Jesus a Marta e Maria é própria do evangelista Lucas. Notemos que Lucas é quem mais faz questão de destacar, em seus escritos, como as mulheres, tal como os homens, são objetos da compaixão e da misericórdia divina (cf. Lc 1,46-55; 1,67-79; 7,36-37; 15,4-10). De diversas formas, Lucas insiste em apresentar a mulher, em conjunto com todos os marginalizados e sofredores deste mundo, destinatária da alegre mensagem de salvação trazida por Jesus Cristo aos pobres (cf. Lc 7,11-17; 7,36-50; 13,10-17; 18,1-8). Nesse preâmbulo, analisaremos o trecho de Lucas 10,38-42, o qual se compreende dentro da temática de todo o capítulo dez. Observemos alguns detalhes importantes da coesão entre as unidades. Nos versículos 1 a 24 (missão dos 72), Jesus enviou dois a dois; Marta e Maria também são duas. Na Parábola do Samaritano (v. 29-37), este levou o ferido à hospedaria-casa. O encontro com Marta e Maria tem lugar na casa (Igreja doméstica). Conclui-se, portanto, que o tema que percorre todo o capítulo é a diaconia e o discipulado na domus eclessiae (Igreja doméstica). No caso que nos compete, a casa é administrada e animada por mulheres: Marta e Maria. Assim, e em vista de uma compreensão mais abrangente, propomos uma tradução que nos parece mais conexa do grego. Ora, quando iam de caminho, entrou Jesus numa aldeia, e certa mulher, por nome Marta, o recebeu em sua casa. Tinha esta uma irmã chamada Maria, a qual, sentando-se aos pés do Senhor, ouvia sua palavra. Marta, porém, estava arrastada, inquieta, envolta da muita diaconia; e colocando-se por cima, disse: “Senhor, não se te dá que minha irmã me tenha deixado a viver a diaconia sozinha? Dize-lhe, pois, que me ajude”. Respondeu-lhe o Senhor: “Marta, Marta, estás ansiosa e perturbada com muitas coisas; uma, porém, é necessária; e Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada”. Os versículos 38 a 40a constituem a exposição da cena com as informações sobre os fatos: o tempo (quando iam de caminho à Jerusalém); as personagens (Jesus, os discípulos, Marta e Maria); seus estados (Jesus indo de viagem com os discípulos; Marta aflita com a diaconia; e Maria exercendo o discipulado); as primeiras ações (Jesus chegou, Marta o recebeu, Maria, a irmã de Marta, sentou-se aos pés de Jesus). É interessante observar que os outros discípulos saem da cena, ficando sós as duas irmãs e Jesus. Além do mais, o autor dirige nossa atenção para o conflito que contrapõe ambas as irmãs, por razão do Senhor Jesus. Marta recebe Jesus em sua casa, o verbo ὑπεδέξατο (receber) está no indicativo aoristo da terceira pessoa do singular. Pelo que é possível deduzir a independência familiar de Marta, ela não pertence ao pai ou ao esposo, pois então seriam eles que receberiam Jesus e a Igreja (cf. Gn 18,1-9). Logo, uma leitura que sustente que o papel de Marta é de uma empregada doméstica deve ser posto em dúvida. Além disso, no texto, não se fala de uma casa particular, mas, pelo conflito nela suscitado, o mais provável é que se trate de uma domus eclessiae da qual Marta é a autoridade. Isso deixa em claro que as igrejas, no começo, eram lideradas por ambos: homens e mulheres. Em épocas recentes, temos acompanhado reflexões sobre o papel da mulher na Igreja e sociedade. Mas, na prática, continua-se relegando a mulher aos serviços domésticos ou, o que é mais dramático, ao papel de escrava do homem e, portanto, objeto no qual ele descarrega sua violência. Percebe-se que ainda há um longo caminho para desmitificar os papéis de gênero pelo bem da igualdade. Por isso é mister, sobretudo aos cristãos, perceber a mensagem que, por meio dessas duas mulheres, Marta e Maria, ícones da comunidade, Lucas nos apresenta. Aliás, o evangelista faz questão de mostrar, ao longo de seus escritos, que, no Reino de Deus, homens e mulheres têm o mesmo lugar. Maria está sentada aos pés do Κυρίου (Senhor), escutando diretamente sua palavra. Lembremos que era costume dos judeus (homens) sentar-se para aprender dos rabinos, porém a mulher ficava longe e somente podia conhecer a lei por meio do marido. Na comunidade de Jesus, contudo, a mulher não precisa de intermediário. Ela mesma é inclusa como discípula que escuta e apreende a Palavra (o magistério de Jesus). Entretanto notemos que surge aqui a questão central do conflito, pois o tempo que Maria dedica a aprender faz com que a carga das funções recaia nas costas de Marta. “Marta, porém, estava arrastada, inquieta, envolta da muita diaconia” (v. 40a). Ora bem, entende-se a diaconia no sentido eclesial (pregação da Palavra, administração da comunidade). Marta está sobrecarregada com o serviço da administração e pede a Jesus que intervenha ante Maria, para que a ajude, porém Jesus responde inversamente e, em vez de enfrentar-se com Maria, enfrenta-se com Marta, mostrando-lhe a raiz de sua inquietação. “Respondeu-lhe o Senhor: Marta, Marta, estás ansiosa e perturbada com muitas coisas; uma, porém, é necessária; e Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada” (v. 42). Jesus não repreende Marta, mas a conduz a perceber o risco de dispersão em que se encontra. O esforço pela organização eclesial e perfeição externa das obras pode afastar da raiz da Palavra, da fonte do Senhor. Quando isso acontece, caímos no legalismo que destrói tanto a quem exerce o serviço como a quem o recebe. Diante do muito serviço que preocupa Marta, Jesus destaca o valor de uma coisa, e Maria o sabe, trata-se da busca do Reino (cf. Lc 12,31; Mt 6,33). “Uma, porém, é necessária; e Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada” (v. 42). A única coisa necessária não pode ser entendida como um simples sentar-se para rezar, mas se trata de acolher Jesus para segui-lo e viver de sua Palavra. O Evangelho, quando traduzido em formas de serviço que distraem e perturbam, provocará conflitos na comunidade. Entretanto, o Evangelho não é imposição, mas acolhida responsável; não é
O encontro que me fez permanecer (Jo 1,35-42)

“No dia seguinte, João se achava lá de novo, com seus discípulos. Ao ver Jesus, que passava, disse: ‘Eis o Cordeiro de Deus’” (vv. 35-36). João Batista é uma figura-chave nas comunidades do Novo Testamento, por isso seu testemunho, ao chamar Jesus de “Cordeiro de Deus”, é de suma importância. Esse título evoca a memória do Êxodo. Naquela noite da primeira Páscoa, os israelitas aspergiram as portas de suas casas com o sangue do cordeiro imolado, em sinal de libertação (cf. Ex 12,13-14). Mais tarde, os profetas Isaías e Jeremias usaram a imagem do cordeiro como alguém que redimiria o povo por meio de seus sofrimentos e sacrifício, aceitos com humildade e amor (cf. Jr 11,19; Is 53,7). Assim, evocando o Êxodo e, em sintonia com esses profetas, João apresenta Jesus a seus discípulos; de alguma forma, expressando: “Eis aqui que chegou o novo Cordeiro Pascal, Ele vem para libertar o povo”. João soube reconhecer em Jesus o Cordeiro-Messias e imediatamente lhe cedeu o lugar que lhe correspondia (cf. Jo 1,20-28), colocando-se em segundo lugar. Na atual sociedade, ocupar o primeiro lugar, o lugar divino, tornou-se a finalidade da vida. Os sistemas ideológicos, aberta ou sutilmente, conduzem-nos a competir pelo sucesso, riqueza, segurança, poder. Mas, na realidade, acontece que o objeto desejado constantemente muda e foge de nossas mãos. No entanto, essa forma de nos comportar tem trazido efeitos desastrosos para a humanidade e a natureza. Diante dessa realidade, o testemunho do Batista é imperativo. Ele nos recorda que o caminho da humanização está em seguir Jesus, o Cordeiro de Deus. Portanto é urgente sair da ilusão de que a finalidade de nossa vida é sermos os primeiros. “Os dois discípulos ouviram-no falar e seguiram Jesus. Jesus voltou-se e, vendo que o seguiam, disse-lhes: ‘Que procurais’. Disseram-lhe: ‘Rabi, onde moras’” (vv. 37-38). André é um dos dois discípulos que, animados por João, foram em busca de Jesus. Logo ele apresenta Jesus como o “Messias” a seu próprio irmão. Seguindo a narrativa, temos uma sequência de repetições: as pessoas que encontram Jesus o apresentam a outras, e assim sucessivamente. Entretanto, analisando todos os detalhes, perceberemos que, em todos os casos, a iniciativa do chamado é divina. Quando o ser humano começa a desejar estar com Deus, o Senhor mesmo sai a seu encontro (cf. Lc 15,20). Jesus voltou-se e os viu. O verbo “voltar” indica que foi Jesus o agente da ação. Ainda o sentido da palavra completa-se pelo verbo “ver”. O verbo “ver”, nos evangelhos sinóticos, está atrelado ao relato da vocação (cf. Mc 1,16.19;2.14; Mt 4,18-19.21; Lc 5,2.27). “Que procurais” é a pergunta mais fundamental para todas as pessoas que desejam se encontrar com Cristo. Pois, sendo honestos, há pessoas que vão atrás de Jesus procurando segurança, conforto, riqueza, prestígio, sucesso. Nesse marco, não há seguimento, apenas antitestemunhos (cf. Mt 6,21-23). André e o outro discípulo não buscavam satisfazer uma simples curiosidade, mas queriam saciar sua sede mais profunda: “Mestre, onde moras”. Eles queriam entrar na morada de Jesus e permanecer com ele. Jesus os percebe e responde-lhes não com uma informação, mas com um convite: “Vinde e vede”. O encontro com Jesus, quando nasce da busca sincera, leva à saciação da mais própria nostalgia do ser humano. “Então eles foram e viram onde morava, e permaneceram com ele, aquele dia. Era a hora décima” (v. 39). O movimento narrativo se desloca do morarpermanecer de Jesus ao permanecer dos discípulos. Agora estes participam da experiência da comunidade cristã de João. André e o outro discípulo vivenciaram o encontro com Jesus de uma forma tão profunda que nunca esqueceram. “Era por volta da hora décima” quando aconteceu o ponto de virada decisivo na vida deles. Logo, a vida nova não se contém, ela cresce como uma avalanche, envolvendo cada vez mais pessoas, pois a alegria de encontrar o Senhor é tal que desborda a outros: “Encontramos o Cristo”. Temos aqui mais um título de Jesus, por meio do qual as pessoas que vão sendo chamadas professam sua fé em Jesus. E nós, também queremos experimentar, na comunidade de Jesus e com Jesus, a saciação de nossa mais profunda nostalgia? “Ele o conduziu a Jesus. Olhando-o, disse-lhe Jesus: ‘Tu és Simão, filho de João. Chamar-te-ás Cefas’” (v. 42). André leva Simão a Jesus. O Senhor o olha. A palavra usada para exprimir esse olhar é emblepein e descreve um olhar profundo, um olhar que pode ler dentro do coração. Jesus o olha, diz a ele seu nome, “Simão”, e logo lhe dá outro (em aramaico, Cefas; em grego, Pedro, ambos significam rocha). No Antigo Testamento, uma mudança de nome selava uma nova relação da pessoa com Deus (cf. Gn 17,5; 32,28). O evangelista revela, porém, a novidade que traz Jesus com a mudança do nome. Jesus olhou a Pedro e viu não somente um pescador da Galileia, mas alguém cheio de possibilidades de se converter em rocha. Rocha que abrigasse as pessoas, independentemente da etnia, religião, gênero ou condição. Alegremo-nos, pois Jesus não só nos vê como somos, mas sim como podemos chegar a ser. Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e colabora na Animação Vocacional.
O encontro entre a casa e o sicômoro

No relato ( Lc 19,1-10) do encontro entre a casa e o sicômoro (espécie de figueira), nós nos deparamos com uma unidade bem estruturada. Sua introdução encontra-se na unidade anterior (o cego na entrada de Jericó). Ambos os relatos trazem a palavra “ver” como chave para o discipulado. Nos dois textos, também nos deparamos com dois homens tidos como pecadores, no entanto possibilitados por Jesus para a salvação. A trama inicia-se com as ações de Zaqueu, seguidas pelo diálogo com Jesus. Logo Zaqueu toma uma decisão, pois a salvação se torna ação em bem do Reino. E Jesus conclui, relatando sua missão: “O Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (v. 10). A salvação de Deus irrompe sem que ninguém possa controlá-la: “E, tendo entrado em Jericó, ele atravessava a cidade. Havia lá um homem chamado Zaqueu, que era rico e chefe de publicanos. Por ele ser de baixa estatura, procurava ver quem era Jesus, mas não o conseguia, por causa da multidão. Correu então à frente e subiu num sicômoro para ver Jesus que passava por ali. Quando Jesus chegou ao lugar, levantou os olhos e disse-lhe: ‘Zaqueu, desce depressa, pois hoje devo ficar em tua casa’. Ele desceu imediatamente e recebeu-o com alegria. À vista do acontecido, todos murmuravam, dizendo: ‘Foi hospedar-se na casa de um pecador!’. Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: ‘Senhor, eis que dou a metade de meus bens aos pobres…’” (v. 1-8). Zaqueu é símbolo da marginalização, pois, pelo fato de ser chefe de publicanos, é tido como “pecador”. Mas, depois de vivenciar a salvação de Deus, torna-se modelo de identificação, sobretudo para os ricos. Cabe destacar que, na obra lucana, avalia-se a riqueza de acordo com o motivo que se tem. Assim, egoísmo, cobiça e avareza são reprovados. Mas se a riqueza for partilhada com as pessoas necessitadas, é considerada boa (cf. Lc 12,33-34; 16,19-31; 18,18-23; At 2,44-46; 4,32-37). No pano de fundo, o autor mostra-nos que a riqueza, em si mesma, embora possa sê-lo, não é o obstáculo para encontrar-se com Jesus e nem impede a salvação. Nos tempos atuais, ainda ficam resquícios do pensamento que justificava a dominação imperial. Exemplo disso são os discursos maçantes dirigidos sobretudo para manter uma ordem social injusta. Nessa dinâmica perniciosa, faz-se acreditar que estão certos o egoísmo, a cobiça e a avareza; logo a partilha dos bens fica designada apenas a alguns. A inversão dos valores tem levado sociedades a mergulhar no absoluto egoísmo. Os resultados estão se mostrando nas barbáries cometidas contra o ser humano e todo o planeta. Diante dessa realidade, a Palavra salvadora de Deus nos impele a tomar posturas evangélicas de justiça e partilha, como Zaqueu o fez. Sobre esse tema, ainda há muito a ser dito. A nós, porém, é interessante nos advertir de interpretações reducionistas da Palavra de Deus, pois não podemos seguir sustentando a ideia de que Deus quer pessoas resignadas ao sofrimento, à pobreza e à violência, à espera de, um dia, alcançar recompensa no céu. E, por outro lado, justificar o egoísmo, a cobiça, em detrimento da vida. No encontro com Zaqueu, Jesus ratifica, mais uma vez, que a salvação de Deus começa já nesta vida: “Jesus levantou os olhos e disse-lhe: ‘Zaqueu, desce depressa, pois hoje devo ficar em tua casa’”. O olhar e a palavra jazem atrelados e são imperativos para colocar-nos em movimento rumo à nossa casa. Portanto, para melhor compreender o encontro que muda a vida de Zaqueu e mudará a nossa, se o permitirmos, cabe-nos observar algumas expressões-chave do texto: “é preciso”, “pressa”, “descer”, “aprimorar”, “hoje”, “ficar”, “receber”, “alegria”. Na Bíblia, essas palavras referem-se especificamente ao plano salvífico de Deus, que deve ser cumprido e, de fato, já está se realizando no decorrer da história. A expressão “ficar” denota duração, isso significa que Zaqueu experimenta a salvação não como um ato isolado, mas como algo que permanece sempre. A partir de então, Zaqueu, como justo, relaciona-se com Deus e com os outros. É interessante notar o contraste entre o rótulo com o qual Zaqueu é chamado (“Foi hospedar-se na casa de um pecador!”) e seu nome, pois Zaqueu significa “o que é puro”, “o que é inocente”. Jesus se dirige a ele designando-o como filho de Abraão. Quer dizer que o reconduz à condição de eleito de Deus que até então lhe estava negada. “Hoje a salvação entrou nesta casa, porque ele também é um filho de Abraão” (v. 9b). Observemos que a palavra “hoje” está unida duas vezes à palavra casa, e casa remete à família ou geração. Compreende-se então que a salvação é experimentada também pela família e geração de Zaqueu, ou seja, os filhos de Abraão. A alegria de Zaqueu, ao sentir-se perdoado e acolhido por Jesus, é tal que reage tomando a firme decisão de partilhar seus bens e fazer justiça: “Senhor, eis que dou a metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei a alguém, irei restituir-lhe o quádruplo” (v 8). O amor misericordioso de Deus faz Zaqueu enxergar, e também a cada um que se sinta verdadeiramente amado, a real necessidade dos pobres e como poder ajudar. Entre o sicômoro e a casa, encontramo-nos com a superação da ideia de que o pecador é alguém rejeitado por Deus. Isso gerou e segue gerando uma reviravolta nos corações, pois verdadeiramente a graça de Deus não tem limites: “Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”. Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e colabora na Animação Vocacional.
O encontro que rompeu minhas correntes (Lc 13,10-17)

A narrativa do encontro entre Jesus e a mulher encurvada se insere na sequência das curas realizadas por Jesus, em dia de sábado. Porém as narrativas trazem suas próprias peculiaridades. Neste pequeno escrito, nós nos deteremos especificamente nas características particulares do episódio da mulher encurvada. “Ora, Ele estava ensinando numa das sinagogas em dia de sábado. E eis que se encontrava lá uma mulher possuída, havia dezoito anos, por um espírito que a tornara enferma; estava inteiramente encurvada e não podia, de modo algum, endireitar-se. Vendo-a, Jesus a chamou e disse ‘Mulher estás livre de tua doença’” (vv. 10-12). É interessante percebermos a estrutura da narração, pois detalha cuidadosamente o contexto e as condições em que se encontrava a mulher à qual Jesus se dirige. Ela estava possuída havia dezoito anos. O número é simbólico e indica muito tempo. É possível, portanto, que ela estivesse por quase toda sua vida sofrendo desse mal. Aliás, ela estava “inteiramente encurvada”. No Antigo Testamento, o estar encurvado é considerado como uma atitude de humilhação (cf. Gn 4,5-6; Sl 57,7). Mas também encontramos vários textos nos quais o mesmo Deus se ocupa dos cegos, dos encurvados, das viúvas e dos órfãos (cf. Sl 146). Deus tem o poder de erguer o ser humano da prostração: “Mulher, estás livre de tua doença”. Entretanto, Ele conta conosco para romper as correntes e libertar da opressão cultural, social e religiosa. Não é por acaso que Jesus exerça sua atividade libertadora justamente no dia do shabbát (sábado). Jesus segue a tradição profética e lembra ao povo de Israel e a nós que o mandamento da assistência vem antes do mandamento do sábado. Salvar e promover a vida tem prioridade sobre a observância (cf. Mc 3,4). Quando queremos controlar e resguardar, acima da vida, as “leis”, caímos na total desumanização. Consequentemente teremos sociedades doentes e encurvadas. Nesse quadro, a degradação do ser humano se reforça. O exemplo claro é a sobre-exploração da vida em todas as suas formas: mortes violentas; fome massiva; deslocamentos forçados; o aquecimento global causando mudanças climáticas que ameaçam a existência de toda a humanidade. E o mais grave é que, diante desse cenário, os acordos comerciais têm prioridade em relação à vida. No entanto, Deus não nos abandona, segue confiando em nós. Ele, em seu Filho Jesus, aproxima-nos, olha-nos com compaixão e nos atrai, endireitando-nos. A mulher estava possuída por um espírito que a tornava enferma. Ou seja, há uma causa da decomposição, e é fundamental reconhecê-la. Observemos que Jesus é quem toma a iniciativa. Ele vê a mulher, a chama e, com sua palavra e seu toque, a cura. A palavra “chamou-a” é usada somente quando Jesus chama os discípulos (cf. Lc 6,13). Será que Jesus a chama como discípula? Mesmo a imposição das mãos, por parte Jesus, é crucial no texto, pois, mais do que um toque de cura, trata-se de um gesto simbólico. Lucas, no Evangelho, somente narra outra imposição em 4,40. Isso reforça a peculiaridade da imposição de mãos além do sanar. Na obra lucana, esse gesto é feito ao se eleger alguém para um cargo (At 6,5-6; 9,10-18). Será que a imposição de mãos na mulher significa que ela foi eleita? A mulher reage, louvando e glorificando a Deus. O verbo (louvar-glorificar) está em gerúndio, o que remete a uma atuação duradoura. Isso significa que a mulher não apenas expressou um breve louvor pela maravilha recebida, mas, com toda a sua vida, glorificava-servia a Deus na comunidade. Além do mais, seguindo as narrativas de Lucas, percebemos que ele usa elementos estilísticos dos duplicados. Portanto o episódio em questão encontra seu paralelo na cura do homem da mão atrofiada (Lc 6,6-11). Conclui-se que o duplicado “homem-mulher” traz a intenção de realçar a igualdade que mulheres e homens têm no Reino de Deus. O evangelista também nos chama a atenção para as reações dos personagens. A mulher reagiu, louvando a Deus por sua vida, por sua Palavra e por suas ações. A fé que demonstra é exemplar e, por isso, mostra-se como verdadeira filha de Abraão. Os dirigentes religiosos reagem aborrecidos. O povo dos “filhos de Abraão” se mostra cheio de assombro por ver realizarem-se as maravilhas de Deus no meio dele. Com a mulher e seu povo, reconheçamos que a salvação de Deus não está condicionada a atos pessoais. Nem a Lei ou o pecado podem coagir sua ação libertadora. Ergamo-nos! Pois o Reino de Deus já está no meio de nós, eis nossa alegria! Irmã Juana OrtegaMissionária serva do Espírito Santo, teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e colabora na animação vocacional.