Espiritualidade e ecologia integral (parte II): a prática de relações justas

No segundo texto da série “Espiritualidade e ecologia integral”, a Ir. Ana Elidia Caffer Neves, missionária serva do Espírito Santo e coordenadora da Província Stella Matutina, aborda a importância da prática de relações justas. Um dos passos propostos para uma sólida conversão ecológica. Veja!
Espiritualidade e ecologia integral (parte I): passos para uma conversão ecológica

Irmã Ana Elidia Caffer Neves é missionária serva do Espírito Santo (SSpS) e coordenadora da Província Stella Matutina. No dia 18 de março, ela conduziu uma palestra aos educadores da Rede de Educação SSpS, abordando o tema “Espiritualidade e Ecologia Integral”. A reflexão foi inspirada na Campanha da Fraternidade 2025 e no Ano da Transformação, celebrado pelas SSpS em todo o mundo. Numa série de três artigos, nosso blog publica o conteúdo apresentado pela irmã, propondo três passos para uma firme conversão ecológica. A seguir, a primeira parte. A Igreja no Brasil nos convida a assumir um compromisso com a ecologia integral, tema central da Campanha da Fraternidade deste ano. Paralelamente, nossa Congregação das Missionárias Servas do Espírito Santo (SSpS) nos propõe o Ano da Transformação, uma oportunidade para promover as mudanças necessárias em nossa vida pessoal, comunitária e missionária. Transformar significa também questionar e renovar estruturas arcaicas, buscando novas formas de organização e relacionamento, baseadas em uma vivência mais sinodal, participativa e circular. Ser sinodal significa caminhar juntos, superando a rigidez das estruturas piramidais para construir redes, nas quais todas as pessoas se relacionam, colaboram e se apoiam mutuamente. Tanto a Campanha da Fraternidade quanto o Ano da Transformação reforçam a urgência do cuidado com o meio ambiente e nos desafiam à conversão ecológica. No entanto, falar de transformação e conversão não é suficiente para enfrentar a crise climática que vivemos. Ninguém muda hábitos ou comportamentos apenas por ouvir palavras inspiradoras. A mudança verdadeira não acontece instantaneamente, somente porque uma ideia nos parece interessante ou correta. Toda transformação é desafiadora e nos tira da zona de conforto. É natural resistirmos a tudo que nos provoca e exige de nós novas posturas. A conversão ecológica é um conceito inspirador, mas sua prática exige esforço, persistência e, muitas vezes, um profundo questionamento sobre nossa forma de ser e de estar no mundo. Ao abordar o tema da espiritualidade e ecologia integral, gostaria de trazer algumas reflexões que nos ajudem a responder às seguintes perguntas: Como podemos realizar essa conversão ecológica? O que significa, de forma concreta, para nós, como missionárias servas do Espírito Santo, como Rede de Educação e como educadores comprometidos com um projeto político-pedagógico missionário, viver a conversão ecológica? Como podemos promover processos de transformação para uma vida mais sustentável junto a nossos alunos e às famílias que atendemos? De que forma podemos nos tornar agentes de transformação social no cuidado com a nossa Casa Comum? Para nos auxiliar nesse caminho e dar passos concretos rumo à conversão ecológica, proponho três linhas de ação e vivência: A vivência de uma espiritualidade ecológica. A prática de relações justas. O cuidado com o meio ambiente. Essas três dimensões estão profundamente interligadas e caminham juntas. A espiritualidade e as relações justas nos conduzem naturalmente ao cuidado com a Casa Comum. Quando nos conectamos com a natureza, também fortalecemos nossa conexão com Deus (espiritualidade) e com o próximo (relacionamentos justos). A vivência de uma espiritualidade ecológica Para que uma transformação real aconteça, ou seja, para que alcancemos uma verdadeira conversão ecológica, precisamos de uma motivação interior profunda, de valores que façam sentido para nós e deem um fundamento sólido às nossas decisões. Por isso, a espiritualidade é um caminho essencial. Sem ela, a conversão ecológica pode se tornar apenas uma ideia bonita, mas sem raízes profundas para sustentar a mudança de mentalidade e comportamento. Mas afinal, o que entendemos por espiritualidade? Certamente, cada um de nós tem seu próprio conceito e maneira de vivenciá-la. Como missionária serva do Espírito Santo, parto da espiritualidade trinitária e missionária, que é a base de nossa vida. Gosto também de comparar a espiritualidade à seiva de uma árvore: essencial para sua sobrevivência e crescimento, quase invisível, mas responsável por transportar a água e os nutrientes que dão vitalidade à planta. Da mesma forma, a espiritualidade nutre nossa vida interior, nos fortalece nos momentos de dificuldade e dá sentido à nossa existência. A espiritualidade é um conceito amplo e pode se manifestar de diferentes formas, dependendo da crença religiosa ou visão de mundo de cada pessoa. Em uma abordagem mais universal, podemos defini-la como a busca por significado, propósito e conexão com algo maior que nós mesmos. Pode envolver dimensões religiosas, filosóficas ou pessoais e se expressar através da fé, da meditação, da ética, do cuidado com os outros e com a natureza. Em sua essência, a espiritualidade promove um senso de transcendência e plenitude na vida. Ao relacionarmos espiritualidade e ecologia integral, é importante esclarecer esse conceito. A ecologia integral reconhece que tudo está interconectado: meio ambiente, sociedade, economia e espiritualidade. Essa abordagem, amplamente difundida pela Encíclica Laudato si’, do Papa Francisco, propõe uma relação harmoniosa entre todos os aspectos da vida no planeta, promovendo um desenvolvimento sustentável que respeita tanto a natureza quanto o ser humano. É uma visão holística, pois considera a vida em sua totalidade. O próprio termo “integral” remete à inteireza, plenitude (o contrário de algo fragmentado ou dividido). Na Laudato si’, o Papa Francisco nos alerta que a degradação do meio ambiente não afeta apenas a Mãe Terra, mas impacta sobretudo os mais pobres e vulneráveis. Portanto, o cuidado com o meio ambiente é também uma questão de justiça social, pois tudo está interligado. Se tudo está interligado, não podemos separar a crise ambiental das crises sociais e éticas. Podemos olhar para as diversas realidades que o mundo enfrenta hoje: As guerras entre Rússia e Ucrânia, Israel e Palestina, os conflitos na Síria e em tantos outros países que nem sempre chegam ao nosso conhecimento. O fenômeno da migração, com milhares de refugiados forçados a deixar suas casas. O crescimento da extrema-direita no mundo e as ameaças às democracias. O avanço do fundamentalismo, das polarizações, dos discursos de ódio. A violência contra as mulheres, o racismo, as calamidades naturais cada vez mais extremas, o aumento da fome, as epidemias e pandemias. Tudo isso está interligado. Mesmo quando acontece do outro lado do mundo, de alguma forma, nos afeta. Diante
Advento: chamado a esperar esperançando

Diferente de “esperar”, que pode dar a ideia de uma pessoa parada, aguardando alguém ou alguma coisa, “esperançar” traz em si atitude. Mas, afinal, os cristãos “esperam ativamente” o quê? Apresentamos uma breve reflexão sobre a espiritualidade do tempo do Advento.
“Academia da Espiritualidade”: suor, graças e bênçãos

A “Academia da Espiritualidade” é, de fato, muito exigente e requer muito suor e dedicação. A Páscoa é todo dia! Tempo de renovação e anúncio que se transforma num “estado de graça permanente”. Veja a reflexão de Maria José Brant (Deka)!
Equipe de Espiritualidade realiza encontro no Rio de Janeiro

A Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das missionárias servas do Espírito Santo (SSpS) se reuniu, nos dias 21 e 22 de julho, no Colégio Imaculado Coração de Maria (CICM), no Rio de Janeiro-RJ. O primeiro encontro presencial do grupo teve como objetivo fomentar a interação entre os participantes e o aprofundamento na herança espiritual deixada por Santo Arnaldo Janssen e a geração fundadora. Como tem sido prática na Congregação das SSpS, a equipe também é formada por irmãs e leigos. A programação começou com a acolhida da Ir. Maria Inês Aragão, coordenadora. Por meio de videochamada, a Ir. Maria Percila Vieira, superiora da Província Brasil Norte, também saudou os participantes. Em seguida, houve uma reflexão sobre a parábola do semeador, narrada no Evangelho de Mateus (13,1-23). Cada um recebeu uma sacola com um pequeno recipiente, terra fértil, um galho espinhoso, uma pedra, sementes de girassol, pincel atômico e papel. Usando o material, todos deveriam expressar as impressões sobre a passagem. A partilha foi um momento muito rico e emocionante. A Ir. Maria Inês conduziu um estudo sobre o tema “Paixão pela missão em Arnaldo Janssen”. Foi uma oportunidade para conhecer melhor os fundadores e primeiros missionários e missionárias da Família Arnaldina. No sábado, as atividades começaram ainda na madrugada, quando a equipe se dirigiu ao mirante do Parque do Leblon, para acompanhar o nascer do sol. Espontaneamente, os participantes elevaram a Deus uma oração de louvor. Na sequência, houve um passeio por alguns pontos da Cidade Maravilhosa. À tarde, a equipe revisou o planejamento, destacando as prioridades para os próximos meses. Após a avaliação do encontro, a equipe participou da celebração da Palavra. A liturgia do 16º Domingo do Tempo Comum destacou a parábola do joio e do trigo, presente no Evangelho de Mateus (13,24-43). Como é costume na Família Arnaldina, também foi dirigida uma prece especial à Santíssima Trindade. O momento concluiu-se com a bênção e o abraço da paz. Alessandro Faleiro MarquesMembro das equipes de Comunicação SSpS Brasil e de Espiritualidade da Província SSpS Brasil Norte, diácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte.
Traços, sons, cores e formas na vivência da espiritualidade com a criança

Quando as crianças experimentam a espiritualidade na infância, isso ajuda a desenvolver a mente, as emoções e os relacionamentos delas. A espiritualidade pode ser sentida de muitas maneiras, por meio de coisas como sons, cores e formas. Este texto fala sobre como esses elementos são importantes para as crianças experimentarem a espiritualidade e como isso pode ajudá-las a se sentirem conectadas a algo maior. Os traços, ou seja, as linhas que compõem uma imagem, podem despertar a curiosidade e a imaginação da criança, proporcionando uma maneira tangível de se conectar com o mundo espiritual. Desenhos, símbolos e representações visuais de conceitos espirituais podem ajudar a criança a compreender e internalizar essas ideias abstratas. Por exemplo, mandalas, que são desenhos circulares utilizados em algumas tradições espirituais, podem auxiliar a criança a desenvolver um senso de equilíbrio e harmonia. Os timbres têm um efeito profundo na experiência humana, e vivenciar a espiritualidade com uma criança não é diferente. Música, canto, mantras e rituais sonoros podem criar um ambiente propício à introspecção e à conexão espiritual. As canções, por exemplo, podem transmitir valores e ensinamentos, além de gerar um sentimento de pertencimento a uma comunidade. Além disso, a criança pode se expressar musicalmente, criando timbres que refletem sua própria experiência e compreensão de espiritualidade. As cores têm um impacto poderoso em nossas emoções e percepções. Na vivência com crianças, elas podem ser usadas para representar conceitos e estimular a criatividade. Diferentes tradições atribuem significados simbólicos a cores específicas, como azul para serenidade e confiança, e amarelo para alegria e energia. Ao explorar esses significados, a criança pode desenvolver uma compreensão mais profunda de sua própria espiritualidade e expressá-la por suas escolhas de cores. As formas e traços têm papel importante na vivência espiritual com crianças. A geometria sagrada, que usa formas como círculo, triângulo e quadrado, está presente em várias tradições espirituais. As crianças podem explorar essas formas para entender padrões universais e a ordem cósmica, e expressar sua espiritualidade criando mandalas, formas geométricas complexas que representem a totalidade e a conexão com o divino. A experiência da espiritualidade na infância é valiosa para o desenvolvimento pleno da criança. Sons, cores, formas e traços têm um papel importante nessa vivência, permitindo explorar, de maneiras palpáveis, o mundo e suas diversas espiritualidades. Ao proporcionar experiências sensoriais e simbólicas, despertam a imaginação, a criatividade e a conexão com algo maior. É crucial que pais, educadores e cuidadores reconheçam sua importância e criem um ambiente acolhedor e estimulante para a expressão espiritual da criança. Lucas Fortunato CarneiroProfessor e coordenador da Dimensão Missionária no Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG.
A Fazenda da Esperança e a espiritualidade

A Fazenda da Esperança é uma comunidade terapêutica presente na Ásia, África, América e Europa. Desde 1983, a entidade apoia a recuperação de pessoas que buscam a libertação de seus vícios, principalmente do álcool e da droga. Fundada pelo Frei Hans Stapel, OFM, seu método de acolhimento contempla três aspectos determinantes: o “trabalho” como processo pedagógico, a “convivência” em família e a “espiritualidade” para encontrar o sentido da vida. Em diálogo com dois jovens que fizeram a experiência da Fazenda da Esperança, apresentamos seus depoimentos que deixam clara a importância da espiritualidade na transformação e no processo de reconstrução. Veja a seguir. André Luiz: colocar em prática os propósitos “Meu nome é André Luiz e tenho 36 anos. Sofri com problemas de álcool e drogas por dez anos da minha vida, quando cheguei ao fundo do poço. Foi minha família que me apresentou a Fazenda da Esperança. Confesso que fui para o tratamento sem acreditar em minha recuperação; mesmo assim, eu fui. Chegando lá, comecei a entender os propósitos e decidi colocar em prática. Logo vi, junto com meus familiares, a mudança acontecendo. Na Fazenda da Esperança, vivemos o tripé que consiste em trabalho, espiritualidade e convivência, os três em equilíbrio. Para viver nossa espiritualidade, temos missa diariamente, rezamos o terço logo pela manhã, adoração ao Santíssimo todos os sábados e somos convidados a viver uma frase tirada da Bíblia todos os dias, para colocá-la em prática, como este exemplo sobre a compaixão: ‘Jesus encheu-se de compaixão’ (Mc 1,40-45) Ter compaixão é, de certo modo, participar do sofrimento de alguém. É difícil entender, mas, de algum modo, Deus participa dos nossos sofrimentos. E Ele pode, através dos nossos atos de amor, tocar cada pessoa que precisa da sua presença. Ter compaixão de quem sofre não é ‘ter pena’, mas ‘fazer-se um’ com o outro, sendo uma presença concreta, e fazendo o que estiver ao nosso alcance para aliviar o sofrimento de quem precisa. Muitas vezes, basta estar ao lado. Fazer-se um. Uma vez por semana, realizamos o ‘FFF’ (Frase, Fato e Fruto), quando partilhamos com os demais o que vivemos da Palavra de Deus em nossa semana. Também semanalmente, realizamos uma terapia em grupo chamada ‘comunhão de almas’. Uma vela que representa o Espírito Santo é acesa em nosso meio, e então partilhamos, de forma livre, o que a gente quer falar, sem que ninguém interfira. Assim que a atividade acaba, a vela é apagada, e tudo o que foi dito não sai daquela sala. Por esse motivo, ficamos à vontade para falar o que a gente quiser. A catequese é oferecida para os que querem, desde o batismo, para os que desejam e ainda não receberam o sacramento. Em todas as fazendas, temos a presença de freiras que nos ajudam muito com um olhar de mãe. Na fazenda, tudo é proposto, nada obrigado. Mesmo para entrar, é necessário escrever uma carta de próprio punho, pedindo ajuda e deixando claro o desejo de estar lá. O carisma do espaço vem do movimento dos focolares e, quando a gente termina nosso ano de recuperação, a gente pode se tornar um voluntário em obras do Brasil e em outros países. Concluí minha recuperação há três anos e venho colocando em prática tudo o que aprendi, e me considero limpo.” Márcio: transmitir alegria “Meu nome é Márcio e tenho 48 anos. Meu problema com as drogas começou aos 13 anos, quando comecei a beber e fumar cigarro e maconha. Com o passar dos anos, fui me envolvendo mais e mais com os vícios, e experimentando outras drogas até chegar ao crack, do qual fiquei em uso contínuo por aproximadamente 20 anos. O ápice da drogadição se deu com a morte da minha mãe, e percebi que também eu estava morrendo, mas não tinha forças para mudar de vida sozinho. Minhas irmãs me apresentaram a Fazenda da Esperança, e senti que aquela era a luz no fim do túnel. De pronto, aceitei fazer o tratamento. Foi uma grande aventura esse ano de recuperação. Eu descobri que o problema não eram as drogas e sim o que me levava a ir buscar refúgio e fuga nelas. Aprendi a me conhecer, a não ser egoísta, achar que o mundo girava em torno de mim, aceitar os ‘nãos’ da vida e saber lidar com todas as dificuldades que o dia a dia nos coloca. Por muitas vezes, eu me refugiei nas drogas por não ter coragem para encará-los de frente. Hoje estou como padrinho na Fazenda Mãe Admirável, em Braga-RS, e me sinto muito feliz por estar bem e poder me doar para outros irmãos que, assim como eu, hoje precisam dessa direção. Hoje, com a vivência do Evangelho de forma concreta, consigo manter minha sobriedade. Todos os dias, tento transmitir essa alegria para os acolhidos, para que eles também possam viver essa alegria que só existe quando estamos no amor de Cristo.” Para conhecer mais sobre a Fazenda da Esperança, acesse www.portalfazenda.org
Espiritualidade do (no) trânsito: por que não?

Em poucas palavras, a base da prática cristã, ouso dizer, é seguir os passos de Jesus, em todos os lugares e situações em que estamos. Assim não nos deveria estranhar dizer de uma espiritualidade do trânsito. No dia 25 de julho, os católicos celebram São Cristóvão, o padroeiro dos motoristas, como é conhecido em nosso País. A Igreja oficial não dá mais tanto destaque a esse santo, mas a coloridíssima fé popular cuida de louvar aquele que “carregou Cristo nos ombros”. O nome Cristóvão vem de Cristóforo (o portador de Cristo), e os cristãos e cristãs batizados precisam ser Cristóforos, Cristóvãos, levando Jesus a todos os destinos e sendo um sinal, um sacramento do Senhor, nas diversas rotas desta vida. Sobretudo no Brasil, o trânsito é um ambiente complicado para condutores, pedestres e autoridades. Não obstante o maior rigor das leis, continuamos sendo um país em cujas ruas e estradas são feridas ou mortas muitas pessoas diariamente. Em milésimos de segundo, podemos passar do céu ao inferno, dependendo de uma série de fatores, inclusive no profundo de nós. Num descuido, podemos ostentar o que temos de pior e mais nebuloso de nosso espírito, mas recordemos: “todos vós sois filhos da luz e filhos do dia. Não somos da noite nem das trevas” (1 Tessalonicenses 5,5). Nessa espiritualidade, tudo deve partir do entendimento de que jamais devemos compreender o tráfego como algo individualista. Pensar comunitariamente é o começo. Mesmo se estamos sozinhos numa via, nossas boas ou más atitudes influenciam a jornada de quem vem depois de nós ou cruza nosso caminho. Um objeto jogado na estrada, por exemplo, por mais “inofensivo” que pareça, pode, em graus diferentes, colocar em risco outras pessoas ou até prejudicar a natureza ao redor. Isso se acentua quando desobedecemos à sinalização, abusamos da velocidade ou, hipnotizados pelo celular, atravessamos distraídos uma rua. O trânsito também é um ambiente propício à prática da misericórdia. O cansaço, a inexperiência, a imprudência, a imperícia ou a negligência de um podem prejudicar o caminho de outros, causar prejuízo ou ferir alguém. Os melhores motoristas e pedestres erram vez ou outra. Aqui recorro ao óbvio: somente Deus é perfeito. Quem nunca aprontou alguma, mesmo que sem querer? É um grande exercício cristão relevar as falhas e, à maneira dos desportistas, procurar seguir o caminho. Sei que não é tão simples, mas quem disse que seguir os passos de Jesus seria fácil? Partilho outras experiências de estrada pelas quais fui agraciado com lições de vida. Ainda sobre o relevar as falhas dos outros, conto o que aprendi de meu pai. Certa vez, fui com ele em viagem de caminhão ao Alto Paranaíba, no Oeste de Minas Gerais. À noite, já voltando para Belo Horizonte, no meio de uma serra, local reconhecidamente perigoso, um carro pequeno veio com os faróis muito altos e, ignorando os avisos, ofuscou minha vista e, pior, a de meu pai. Na carroceria, umas boas toneladas de carga (levávamos outro caminhão). Na imaturidade de minha adolescência, pensei que meu pai jogaria nos olhos do outro condutor todas as luzes do “bruto” (eram muitas). Mas não houve revide à barbeiragem. Eu quis saber o motivo. Meu pai respondeu que seria melhor apenas um dos motoristas estar “cego” no mesmo lugar (repito, perigosíssimo) do que os dois. A possibilidade de tragédia estaria reduzida pela metade. E então, já com a vista recuperada, seguimos em paz o trecho. Um ensinamento a valer para outros desafios da vida. Outra vez foi quando, ao voltarmos de Brasília, sentimos um forte cheiro de diesel. Ao olharmos para o assoalho da cabine, tudo estava encharcado com o combustível. Tivemos de parar imediatamente no meio da estrada, em lugar isolado. Pensei que meu pai, meio “sangue quente”, começaria a esbravejar, mas outra surpresa! Com serenidade enorme, ele desceu do caminhão, tomou logo a providência de sinalizar o caminho, para dar segurança a quem pudesse passar (ninguém veio), e procurou reparar o veículo. Não aguentei e perguntei-lhe a razão de estar tão calmo. E a resposta: se temos fé, compreendemos até os imprevistos; talvez Deus poderia estar nos libertando de algo pior à frente. Mais uma da estrada que serve para a vida! Inicialmente, a Igreja, a grande comunidade dos seguidores de Jesus, era conhecida como “O Caminho”. E o caminho se faz percorrendo-o, já diz o ditado. A estrada tem seus altos e baixos, seguranças e obstáculos. Não podemos é desanimar da jornada ou deixar de socorrer, como o fez Jesus muitas vezes, aqueles que estão caídos às margens. Seguir as veredas do Senhor é compreendê-lo como o “Caminho, a verdade e a vida” (João 14,6a), e como companheiro de viagem, ávido por entrar na pousada de nosso coração e cear conosco (cf. Apocalipse 3,20). Seja como pedestres, seja como condutores, condutoras ou outros responsáveis pelo tráfego, tenhamos em nosso peito que o trânsito é, sim, lugar para a santidade, para nosso testemunho cristão. Oremos com as palavras do Salmo 24(25): “Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos e fazei-me conhecer a vossa estrada! Vossa verdade me oriente e me conduza, porque sois o Deus de minha salvação”. São Cristóvão, São Rafael e Nossa Senhora da Estrada, abençoai e protegei todos os que são e estão no trânsito. Amém! Dedico estas linhas a meu pai, Luiz Gracildo Rodrigues Marques, que, após cumprir por aqui suas muitas jornadas, agora descansa nas paragens de Nosso Senhor. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo.
O silêncio na espiritualidade cristã e o tempo da Quaresma

Na Quaresma, a Igreja convida a um mergulho no mistério de nossa vida, fé, vocação e missão. As celebrações quaresmais nos motivam a uma sincera conversão. Jesus Cristo costumava retirar-se para rezar e propunha, com palavras e exemplo, o exercício do silêncio. Cultivou e ensinou aos discípulos a experiência do silêncio na vida pessoal e pastoral. Ao iniciar a missão, Jesus fez um retiro de quarenta dias, no deserto, com jejum e oração. Ensinou que é preciso alimentar-se da Palavra de Deus. Viver como criaturas novas, a caminho da Páscoa definitiva. O mandamento de Jesus reza: “Não julgueis…”. Isso significa emitir nossa opinião, sempre marcada pela verdade, mas jamais impor nosso ponto de vista. Existe a dificuldade em perceber que um jejum de comentário sobre outro, de conversas banais, possa ser mais custoso do que o jejum de chocolate… O silêncio autêntico nos eleva em prece, num gesto de amor ou penitência pela responsabilidade da vida, alimenta atitudes de delicadeza no falar com as pessoas, com atenção e carinho. A Quaresma nos orienta para prática da partilha e solidariedade. Tempo que dou a mim mesmo, no exercício do silêncio, de uma boa leitura e revisão de vida. Vivemos num mundo imerso no barulho, numa cultura de poluição sonora e visual. Atitude urgente de caridade é treinar o ouvido do coração para exercer o ministério da escuta, tão necessário a quem sofre as durezas da vida neste momento crucial da História. O desafio é calar o falatório, que abafa a paz do coração. A paz que procuramos pode estar no silêncio que não fazemos. Talvez seja por isso que, em dados momentos da vida, não entendamos o silêncio de Deus. A Igreja proporciona espaços de silêncio como meio de penitência, jejum e oração. O silêncio construtivo vem do exercício interno e externo, com esforço, avanços e recuos, paciência e perseverança. Santa Hildegarda de Bingen, doutora da Igreja, disse: “Deus marca prazerosamente encontro conosco, na casa do silêncio”. O silêncio educa à vigilância que revela a novidade. Proporciona possibilidade para observar, clarificar e concentrar-se sobre o essencial. Na espiritualidade cristã, a fé somente é possível com o exercício regular do silêncio. Pelo exercício do silêncio, os frutos da Páscoa do Senhor darão novo sentido para a vida e um relacionamento saudável com a criação, com os irmãos, irmãs, e de intimidade com Deus. Há médicos que propõem o silêncio como atitude indispensável para uma vida pessoal e comunitária saudável. Recomendam o retiro, em silêncio, como terapia preventiva dos acidentes cardiovasculares. O segredo da cura pelo silêncio é descobrir um Deus amigo, médico, que vem a nosso socorro, escuta e convida a entrar em sintonia com ele. Por vezes, pode-se dizer mais com o silêncio que com palavras. Santa Teresa de Ávila, ao contemplar as rosas no jardim, dizia: “Parem de gritar, eu já sei que Ele existe”. Silêncio não é mutismo, alienação. Ele nos capacita para um autêntico diálogo. Os mestres da vida interior ensinam a agir com calma. Silêncio no andar, silêncio dos olhos, dos ouvidos, da voz e assim criar condições para unir-nos a Deus. A imaginação é dom de Deus e alimenta nossa oração. A memória reaviva momentos de ação de graças por tanta misericórdia de Deus para conosco. De alegria, de dor, de pecado para purificar e tornar-nos aptos a acolher a graça da fonte de Deus, que jorra em nós. Adoecemos quando a imaginação nos leva para fora de nossa casa interior e faz perder o contato com a vida. Avançar para águas mais profundas, no silêncio do coração. Assim, nada poderá perturbar a paz interior, nem as criaturas, a memória nem a imaginação. Silenciar a natureza humana é fruto de trabalho lento e paciente. Silenciar o orgulho e o amor-próprio ferido. Superar desejo de vingança, por vezes revestido de aparente justiça. Remédio para não adoecer de orgulho, superioridade e considerar-se insubstituível é o silêncio do Espírito que leva a agir apenas pela glória de Deus. Quem busca viver a santidade dispensa toda duplicidade de vida. A ambiguidade é fonte de sofrimento e doenças físicas e psíquicas. O melhor de tudo é aprender a ficar em silêncio na gratuidade. Acordar bem cedo, todos os dias, para cultivar um pouco de silêncio. Sentar-se, meditar os acontecimentos do dia anterior, em sintonia com a Palavra de Deus ou apenas curtir o silêncio. É um momento inspirador e integrador. Em meio ao caos, Deus se faz presente. Irmã Marta Maria Arnhold, missionária serva do Espírito Santo na Província Divina Sabedoria (Brasil Sul), é graduada em Pedagogia, especialista em Orientação Educacional e em Aconselhamento Pastoral – Espiritualidade, pela Pontifícia Universidade Lateranense, em Roma. Trabalha na pastoral paroquial e como orientadora espiritual na Capela Missionária das SSpS.
Novo espaço de espiritualidade na internet

Há mais de um ano, estamos trabalhando num projeto de evangelização que se tornou um sonho para nós… Um sonho porque, ao contrário do que imaginávamos inicialmente, surgiram muitos obstáculos no caminho… Mas agora temos a alegria de anunciar que estamos prestes a alcançar nossa meta e será um presente para você que acompanha nossas publicações. Imagine um espaço na internet para vivenciar a espiritualidade, acompanhar a liturgia diária, rezar, aprofundar a fé e até mesmo encontrar uma comunidade para rezar com você e por você… Gostou? Então imagine que você sinta vontade de conversar com alguém, esclarecer dúvidas, partilhar algo que está em seu coração ou simplesmente receber orientação em seu caminho espiritual… Pense que você está indo para o trabalho e, no caminho, ouve pelo celular a leitura orante do Evangelho do dia… Ou reza o terço junto com as missionárias servas do Espírito Santo. Você também encontrará orações variadas, o santo do dia, testemunhos missionários, reflexões e vídeos que ajudarão a aprofundar a fé e o compromisso com o Reino de Deus. Tudo isso estará disponível, em breve, em nossa Capela Missionária virtual. Uma capela real no mundo virtual A Capela será um espaço de oração e de espiritualidade acessível a todas as pessoas que desejarem, em meio à correria e desafios da vida cotidiana. Será uma oportunidade de dedicar alguns momentos do dia para crescer na relação com Deus e se conectar com a humanidade, num espírito missionário. Antes de iniciar o projeto, pesquisamos na Internet e não encontramos nenhuma capela virtual católica que tivesse uma identidade explicitamente missionária. Por isso temos a alegria de lançar a primeira e queremos contar com seu apoio para nos ajudar a torná-la um espaço de oração não apenas virtual, mas real, que possa acompanhar você em seu dia a dia. A Capela Missionária é uma iniciativa das missionárias servas do Espírito Santo do Brasil, que inclui duas sedes provinciais, uma em São Paulo-SP, no Convento Santíssima Trindade, e outra em Ponta Grossa-PR, no Convento Espírito Santo, além das quase 30 comunidades de irmãs espalhadas de norte a sul do Brasil, oito escolas, uma faculdade, cinco centros educacionais, um hospital, um centro de fisioterapia e diversas obras sociais. Seguindo as pegadas de Santo Arnaldo Para mim, é realmente uma alegria poder seguir as pegadas de nosso fundador, Santo Arnaldo Janssen, que, no século XIX, já utilizava o que havia de mais moderno em comunicação para a evangelização. Em seu tempo, existia apenas a imprensa e foi por meio dela que propagou a obra missionária de Steyl, através de revistas e almanaques que ofereciam formação religiosa, cultural e entretenimento às famílias. Tenho certeza de que, se Santo Arnaldo vivesse hoje, ele daria continuidade à obra missionária por intermédio das redes sociais, do rádio, da televisão e de todos os meios de comunicação disponíveis. Assim, o trabalho que fazemos por intermédio do blog, do Facebook, do site, do Twitter, Instagram e, em breve, também pela Capela Missionária está em profunda sintonia com nosso carisma missionário e contribui com o trabalho de evangelização da Igreja. Missão on-line Estamos trabalhando com muito carinho na Capela Missionária para, além de oferecer um espaço de oração e de vivência da espiritualidade, que ela seja também um ambiente de missão on-line. Por detrás da tecnologia, teremos quatro irmãs bem preparadas para interagir com as pessoas que frequentam o site da capela, oferecendo orientação espiritual. Também haverá duas orientadoras vocacionais à disposição. Além disso, todo pedido de oração será atendido pelas comunidades das irmãs dos nossos dois conventos, que rezarão nas intenções e necessidades encaminhadas pela Capela Missionária. Ofereceremos também a oportunidade para colaborar concretamente com a missão, por meio de nossas diversas obras sociais e missionárias. Muito em breve, será o lançamento da nossa Capela Missionária. Aguardem! Irmã Ana Elídia Caffer Neves, SSpSJornalista, membro da Equipe de Comunicação Congregacional e coordenadora de Comunicação da Província Stella Matutina (BRN)