Santíssima Trindade: a base espiritual da Família Arnaldina

Em 2025, a Solenidade da Santíssima Trindade foi celebrada em 15 de junho. Santo Arnaldo Janssen, fundador e inspirador de uma grande família espiritual, da qual faz parte a Congregação das Missionárias Servas do Espírito Santo, tinha em grande conta esse fundamento da fé cristã. Saiba como o modelo do Deus Uno e Trino ilumina o cotidiano de milhares de missionárias e missionários em todo o mundo.
Advento: chamado a esperar esperançando

Diferente de “esperar”, que pode dar a ideia de uma pessoa parada, aguardando alguém ou alguma coisa, “esperançar” traz em si atitude. Mas, afinal, os cristãos “esperam ativamente” o quê? Apresentamos uma breve reflexão sobre a espiritualidade do tempo do Advento.
Covid-19: socorro aos mais vulneráveis é luz em meio à tragédia

A pandemia causada pelo covid-19 aterroriza o mundo inteiro. As vítimas são contadas em centenas de milhares. A economia de muitos países sofre fortes golpes, e as relações sociais estão sendo transformadas como nunca. Não foi poupada nem a própria religião, com suas teologias, dogmas, métodos. Vai demorar muito tempo para que todas as lições advindas do fenômeno sejam assimiladas por esta e as futuras gerações. A doença deixou às claras ou mesmo acentuou muitos problemas sociais, ambientais, científicos, econômicos, espirituais que já existiam e, por ignorância ou má-fé, eram omitidos. No início, pensava-se que o vírus seria “democrático”. Todos corriam o mesmo risco de serem contaminados e de se tornarem vítimas. Aos poucos, contudo, as estatísticas mostram que as populações mais pobres, os excluídos, as minorias são os mais vulneráveis. Sem acesso pleno a políticas públicas de saúde, moradia, emprego, educação, alargam o subnotificado índice de atingidos. Entre os mais frágeis está o povo em situação de rua. Muitos sequer foram informados da gravidade da pandemia, como se queixou um homem que dormia sob uma marquise, em Belo Horizonte-MG. Ele reclamou que agentes de segurança chegaram e deram ordem para que ele e os companheiros não se aglomerassem, porém não lhes disseram o motivo. “Não sei o que fazer”, protestou. Nem tudo, porém, são trevas neste cenário de caos. Várias iniciativas de apoio à população mais vulnerável se destacam. Algumas já o fazem há muito tempo, outras surgiram como resposta aos danos causados pelo covid-19. Conheça três desses projetos. Rede Rua Em São Paulo-SP, a Rede Rua participa da ação “S.O.S. povo da rua contra o covid-19”, que envolve outras organizações. Numa das atividades, realizada no início de junho, foram distribuídos às famílias da região do Brás 46 cestas básicas, kits de higiene, máscaras e sabonetes. Os atendidos foram os que se encontram em situação de rua ou em ocupações. A equipe da Rede Rua acompanhou cada caso e redirecionou os alimentos aos que têm espaço para cozinha. A prioridade foi dada a mulheres chefes de família, desempregados e pessoas que ainda não tiveram acesso ao benefício emergencial, precariamente concedido pelo governo federal. A iniciativa não se reduziu apenas à entrega de donativos. Os agentes também deram dicas de como se proteger do covid-19 e organizaram atividades de recreação. A rua também é memória Na segunda-feira, 22, a ação de apoio foi com as pessoas que vivem debaixo do Viaduto Governador Roberto Abreu Sodré. No local, há uma comunidade de coletores de materiais recicláveis. Apesar de contribuírem para o desenvolvimento econômico e sustentável da maior metrópole da América do Sul, não são reconhecidos como trabalhadores. Não têm direitos e lutam cotidianamente pela sobrevivência. Eles receberam dos agentes 11 cestas de alimentos e produtos de limpeza. O viaduto em si já diz muito sobre a realidade da população pobre e injustiçada. A via é batizada com o nome de um dos políticos eleitos indiretamente à época da ditatura civil-militar (1964-1985). “Pode parecer bobagem, mas nomes de ruas e monumentos carregam uma carga de preconceito e desumanidade, a rua também é monumento, a rua também é memória”, diz uma nota do movimento. “A dor mais profunda da pessoa de rua é ter o olhar furtivo, evitado, não ser visto. Penso que o primeiro passo é este: dar visibilidade, dizer que são importantes”, afirma a irmã Maria Inês, missionária serva do Espírito Santo e membro da diretoria da Rede Rua. Alta demanda faz Inova pedir socorro Também em São Paulo, o Instituto Novos Valores (Inova) é especializado em atender famílias em situação de vulnerabilidade social e em conflitos. A obra existe há dois anos e está localizada na Vila Nova das Belezas, na Região do Campo Limpo, extremo sul da capital paulista. Normalmente, o Inova acompanha 300 famílias cadastradas, as quais recebem cestas básicas, material de limpeza e higiene pessoal. O socorro, contudo, começa a ser insuficiente para atender a uma demanda cada vez maior. Rosita da Cruz, que é assistente social e presidente da entidade, afirma que mais de 500 famílias foram socorridas entre os dias 26 e 29 de maio, em parceria com a organização não governamental Banco de Alimentos. Rosita assinou um comunicado, pedindo doações de cestas básicas e de outros itens de que as famílias necessitam. Ela relata que, até o dia 23 de junho, não houve resposta, nem mesmo do Poder Público. A diretora afirma que toda contribuição é bem-vinda. “Não vamos permitir que nenhuma família fique sem o alimento de cada dia”, convoca. No fim desta reportagem, veja como doar. Canto da Rua Emergencial Em Belo Horizonte, foi organizado o Canto da Rua Emergencial, um conjunto de ações de garantia e defesa dos direitos da população em situação de rua e dos catadores de materiais recicláveis. A iniciativa, prevista para durar dois meses, foi inaugurada em 13 de junho. Atende pessoas da capital mineira e de outros municípios da região metropolitana. Segundo dados do CadÚnico, em fevereiro deste ano, a capital mineira tinha 9.060 pessoas vivendo nas ruas. Já se sabe que, como ocorre na maior parte do Brasil, esse número tem aumentado rapidamente. Além de não terem onde se abrigar, essas pessoas são vítimas de várias violações de direitos, entre elas o pouco acesso a políticas públicas. O Canto da Rua Emergencial é uma parceria da Pastoral de Rua da Arquidiocese de Belo Horizonte e do Instituto Unibanco. O projeto envolve também outras entidades dos setores público e privado, como Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, Vicariato para a Ação Social, Política e Ambiental, Movimento Nacional da População de Rua, Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), Faculdade Arnaldo, Arcelor Mittal, Fiat Automóveis, Localiza, Transforma BH, Inaper e Colégio Santo Antônio. Cada uma, à sua maneira, busca fazer sua parte para dar suporte aos socorridos. Entre as ações está a articulação de um espaço, organizado na histórica e emblemática Serraria Souza Pinto, localizada no Centro da capital, onde os destinatários são acolhidos. No lugar, há serviços de escuta, alimentação, higiene pessoal e encaminhamentos diversos, como saúde
Crime ambiental de Brumadinho completa um ano

Exatamente às 12h29min de 25 de janeiro de 2019, ocorria um dos maiores crimes ambientais da história. Nesse horário, rompeu-se a Barragem I da Mina Córrego do Feijão, no Município de Brumadinho, Região Metropolitana de Belo Horizonte-MG. Em número oficiais, a tragédia vitimou 270 pessoas, sendo que, até o dia 31 de dezembro último, 13 destas permaneciam desaparecidas. Isso sem contar o incalculável dano ambiental, o que refletirá, por muito tempo, até em áreas bem distantes da barragem. A palavra “crime”, usada por organismos estatais, civis e mesmo a Igreja, não é um exagero. A Companhia Vale, responsável pelo empreendimento, parece não ter se preocupado em proteger a vida dos próprios trabalhadores e das pessoas que viviam no caminho da lama. Conforme investigações realizadas pelo Poder Público e outros profissionais de diversas áreas, a Vale sabia dos riscos do colapso da barragem e até mesmo já tinha na ponta do lápis o número de mortes que ela poderia causar: 214, segundo a Polícia Federal, que teve acesso aos relatórios. Tudo em números frios, tal como manda a idolatria do insaciável deus-mercado. Um relatório da PF, divulgado no fim de novembro último, mostra que a empresa TÜV SÜD não poderia ter emitido, em setembro de 2018, um aval de segurança da barragem de rejeitos de minério de ferro. Se o laudo da empresa tivesse dado um quadro real dos riscos, as autoridades poderiam ter se preparado melhor para minimizar os danos de uma possível tragédia. O Estado de Minas Gerais vem registrando esse tipo de crime desde que começou sua atividade minerária, no início do século XVIII. Um caso icônico ocorreu em 1884. Numa mina de ouro de Itabira da Serra, atual Itabirito, também nos arredores da capital, mais de cem trabalhadores ficaram presos dentro de uma galeria, após o desabamento de uma rocha. Como não havia tecnologia para abrir uma passagem para resgatá-los, a “solução” foi inundar o espaço, sacrificando todos os que gemiam no fundo da terra. As lições não foram aprendidas, em nome dos “benefícios” que a mineração leva à economia do Estado. Decisão inédita A Companhia também é acusada de outro crime, acontecido na tarde de 5 de novembro de 2015, em Mariana-MG. Dezenove pessoas morreram, e a bacia do Rio Doce, que passa por Minas Gerais e Espírito Santo foi contaminada. A Vale, juntamente com a anglo-australiana BHP Billiton, era responsável pela Samarco, que geria a Barragem do Fundão, zona rural da cidade história. A Justiça Federal decidiu não responsabilizar pelo crime os executivos. Se o julgamento não for revertido, ninguém responderá pelas mortes. Mas o caso foi denunciado ao Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH). Em dezembro passado, o órgão considerou o crime ambiental como sendo também contra a humanidade. Essa é a primeira decisão desse tipo no Brasil e pode servir de base para representações contra o País em tribunais internacionais. Feridas que não cicatrizam Não há dúvidas de que as centenas de famílias das vítimas do crime ocorrido em Brumadinho precisarão ter muita força para, pelo menos, aliviar a dor das perdas de seus entes queridos, de suas histórias. Houve muitos outros danos, além dos humanos. Hortas, granjas e pastos às margens dos cursos d’água atingidos foram danificados. O comércio sofreu um forte golpe e nem mesmo o simpático Museu de Arte Contemporânea e Jardim Botânico de Inhotim, lugar único no mundo, conseguiu devolver a vida aos eixos. A pacata Brumadinho, com cerca de 40 mil habitantes, já não é mais conhecida por seu museu, pelas festas, pelas construções históricas nem pelas alturas da serra do Rola Moça, local obrigatório para os adeptos do voo livre. Depois da tragédia, quando se fala na cidade, logo vem à mente as cenas da lama avermelhada e do esforço dos bombeiros para procurar as vítimas. A operação de resgate, aliás, prossegue e já é considerada a maior da história do Brasil. Deus ao lado dos sofredores Passado um ano, falta muito para que as famílias tenham acesso a indenizações devidas e justas. Aos poucos, os holofotes começam a se apagar. É importante que os missionários e outros profissionais que visitaram as famílias nos primeiros dias, rezando com elas e ouvindo-as, não deixem esfriar o ânimo. Também é essencial continuar acompanhando as investigações e exigindo das autoridades a punição aos responsáveis pelo crime, calculado e frio crime. O Deus, que é justo e está ao lado dos sofredores, console aquele povo, suas famílias, seus trabalhadores. De nossa parte, não permitamos que as trevas vençam as luzes. Brumadinho precisa voltar a ser o lugar da vida, da arte, das festas e de voos livres, bem livres. Sementes de esperança Luiz Felipe Ricobom de Sousa, aluno do 9º ano do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP, partilha um poema. A reflexão é fruto da experiência vivida na “Missão sem Fronteiras”, realizada em junho de 2019. Do alto daquele monte,vejo casas, ruas, praças, a igreja,o menino indo estudar.Do alto daquele monte,mineradores indo almoçar. De repente, a lama cobriu as histórias daquela gente.De repente, nada estava mais lá.Quanto valem as vidas ceifadas?Quanto vale o preço da gente?E o risco em toda Minas ainda é iminente. Flor da esperança brota em meio à lama.Brota no suor do bombeiro,na atitude voluntária que canta,nas cordas do violeiro. Todos juntos, no mesmo ideal,mãos dadas contra a impunidade,a barragem vai virar ponte,e o sonho de justiçaé um sonho de realidade. Diácono Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor de Língua Portuguesa de aspirantes e verbitas estrangeiros na Província Brasil Norte, revisor de textos para as irmãs servas do Espírito Santo.