Navio-hospital Papa Francisco reforça combate à pandemia na Amazônia

Há um ano, o navio-hospital Papa Francisco vem percorrendo o rio Amazonas, levando assistência médica às populações ribeirinhas. O equipamento juntou-se agora ao combate ao novo coronavírus na região, segundo informações publicadas pelo Vatican News. A população da Pan-Amazônia vem sofrendo com a pandemia, que atinge tanto áreas urbanas como as mais isoladas. Os indígenas e ribeirinhos são considerados um grupo de alto risco, sobretudo por causa da baixa imunidade e o abandono histórico por parte do Estado. A embarcação, que começou a navegar em agosto de 2019, tem 32 metros de comprimento e conta com 23 profissionais de saúde. Entre os serviços oferecidos estão sala de operações, laboratório de análise, farmácia, sala de vacinação, consultórios médicos, oftalmológicos e odontológicos, além de leitos hospitalares e salas para exames de raios X, mamografia, ecocardiograma e testes de estresse. Um acordo entre o Vaticano e o Estado do Pará tornou possível a construção do navio-hospital. Para a realizar o projeto, o governo paraense destinou indenizações pagas pelas empresas Shell e Basf, após um acidente ambiental que causou 60 vítimas e sérios danos. “Não poderíamos ficar de fora desta luta. Nós nos unimos, nos reorganizamos em nossos serviços para que, juntos, lutemos contra o covid-19”, explicou o frei Joel Sousa, membro da coordenação do navio, numa entrevista ao Vatican News. Ele conta que os profissionais do navio estão atendendo principalmente as pessoas que apresentam sintomas de gripe ou sinais leves do covid-19. “Os doentes podem consultar com o médico e também entregamos os medicamentos, em colaboração com a Secretaria de Saúde local”, relatou o religioso. __________ Milhares de indígenas estão infectados Indígenas de vários países da América Latina estão entre os mais vulneráveis à pandemia. A doença causada pelo covid-19 está matando membros de diversas comunidades nativas. Além de terem defesas imunológicas precárias contra doenças, os indígenas também são vítimas de negligências por parte do Estado, conforme já denunciado neste blog. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), em meados de junho, pelo menos 20 mil indígenas estavam infectados na bacia do rio Amazonas. A área abrange Brasil, Peru, Colômbia, Bolívia, Equador, Venezuela, Guiana e Suriname. “Esses grupos vivem tanto em aldeias isoladas, com acesso mínimo a serviços de saúde, como em cidades densamente povoadas, como Manaus, Iquitos (Peru) e Letícia (Colômbia)”, disse a diretora da OPAS, Clarissa Etienne. No dia 13 de julho, a América Latina se tornou a segunda região mais atingida pela pandemia no mundo, em número de vítimas fatais. A área está atrás somente da Europa. O número de mortos já alcançou 150 mil e mais de 3,7 milhões de infectados. Os índices podem ser bem maiores, pois há relatos de subnotificação em diversos países, inclusive no Brasil.

Somos a favor da vida!

Nós, missionárias servas do Espírito Santo, estamos acompanhando com muita preocupação tudo o que está acontecendo no Brasil e sofrendo com o número espantoso de mortes, especialmente entre os mais pobres e com mais dificuldade de acesso a tratamento. Estamos profundamente indignadas com a situação dos povos indígenas e quilombolas e queremos manifestar nosso apoio à Conferência dos Bispos do Brasil em sua Carta aberta ao Congresso Nacional, que publicamos aqui na íntegra. Publicamos também o artigo do Frei Betto, pois ele denuncia com dados e fatos, explicando de maneira muito clara o que está acontecendo em nosso país. Respeitamos a opinião de quem pensa diferente, mas o Evangelho exige de nós, como consagradas e missionárias, que nos coloquemos a favor da vida, pois esta é nossa missão. Carta da CNBB Queridos amigos e amigas: No Brasil ocorre um genocídio! No momento em que escrevo, 16/7, a Covid-19, surgida aqui em fevereiro deste ano, já matou 76 mil pessoas. Já são quase 2 milhões de infectados. Até domingo, 19/7, chegaremos a 80 mil vítimas fatais. É possível que agora, ao você ler este apelo dramático, já cheguem a 100 mil. Quando lembro que na guerra do Vietnã, ao longo de 20 anos, 58 mil vidas de militares usamericanos foram sacrificadas, tenho o alcance da gravidade do que ocorre em meu país. Esse horror causa indignação e revolta. E todos sabemos que medidas de precaução e restrição, adotadas em tantos outros países, poderiam ter evitado tamanha mortandade. Esse genocídio não resulta da indiferença do governo Bolsonaro. É intencional. Bolsonaro se compraz da morte alheia. Quando deputado federal, em entrevista à TV, em 1999, ele declarou: “Através do voto você não vai mudar nada nesse país, nada, absolutamente nada! Só vai mudar, infelizmente, se um dia partirmos para uma guerra civil aqui dentro, e fazendo o trabalho que o regime militar não fez: matando uns 30 mil”. Ao votar a favor do impeachment da presidente Dilma, ofertou seu voto à memória do mais notório torturador do Exército, o coronel Brilhante Ustra. Por ser tão obcecado pela morte, uma de suas principais políticas de governo é a liberação do comércio de armas e munições. Questionado à porta do palácio presidencial se não se importava com as vítimas da pandemia, respondeu: “Não estou acreditando nesses números” (27/3, 92 mortes); “Todos nós iremos morrer um dia” (29/3, 136 mortes); “E daí? Quer que eu faça o quê?” (28/4, 5.017 mortes). Por que essa política necrófila? Desde o início ele declarou que o importante não era salvar vidas, e sim a economia. Daí sua recusa em decretar lockdown, acatar as orientações da OMS e importar respiradores e equipamentos de proteção individual. Foi preciso a Suprema Corte delegar essa responsabilidade a governadores e prefeitos. Bolsonaro sequer respeitou a autoridade de seus próprios ministros da Saúde. Desde fevereiro o Brasil teve dois, ambos demitidos por se recusarem a adotar a mesma atitude do presidente. Agora, à frente do ministério, está o general Pazuello, que nada entende de questão sanitária; tentou ocultar os dados sobre a evolução dos números de vítimas do coronavírus; empregou 38 militares em funções importantes do ministério, sem a requerida qualificação; e cancelou as entrevistas diárias pelas quais a população recebia orientação. Seria exaustivo enumerar aqui quantas medidas de liberação de recursos para socorro das vítimas e das famílias de baixa renda (mais de 100 milhões de brasileiros) jamais foram efetivadas. As razões da intencionalidade criminosa do governo Bolsonaro são evidentes. Deixar morrer os idosos, para economizar recursos da Previdência Social. Deixar morrer os portadores de doenças preexistentes, para economizar recursos do SUS, o sistema nacional de saúde. Deixar morrer os pobres, para economizar recursos do Bolsa Família e de outros programas sociais destinados aos 52,5 milhões de brasileiros que vivem na pobreza e aos 13,5 milhões que se encontram na extrema pobreza. (Dados do governo federal). Não satisfeito com tais medidas letais, agora o presidente vetou, no projeto de lei sancionado a 3/7, o trecho que obrigava o uso de máscaras em estabelecimentos comerciais, templos religiosos e instituições de ensino. Vetou também a imposição de multas para quem descumprir as regras e a obrigação do governo de distribuir máscaras para os mais pobres, principais vítimas da Covid-19, e aos presos (750 mil). Esses vetos, no entanto, não anulam legislações locais que já estabelecem a obrigatoriedade do uso de máscara. Em 8/7, Bolsonaro derrubou trechos da lei, aprovada pelo Senado, que obrigavam o governo a fornecer água potável e materiais de higiene e limpeza, instalação de internet e distribuição de cestas básicas, sementes e ferramentas agrícolas, para aldeias indígenas. Vetou também verba emergencial destinada à saúde indígena, bem como facilitar o acesso de indígenas e quilombolas ao auxílio emergencial de 600 reais (100 euros ou 120 dólares) por três meses. Vetou ainda a obrigação de o governo oferecer mais leitos hospitalares, ventiladores e máquinas de oxigenação sanguínea a povos indígenas e quilombolas. Indígenas e quilombolas têm sido dizimados pela crescente devastação socioambiental, em especial na Amazônia. Por favor, divulguem ao máximo esse crime de lesa-humanidade. É preciso que as denúncias do que ocorre no Brasil cheguem à mídia de seu país, às redes digitais, ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, e ao Tribunal Internacional de Haia, bem como aos bancos e empresas que abrigam investidores tão cobiçados pelo governo Bolsonaro. Muito antes de o jornal The Economist fazê-lo, nas redes digitais trato o presidente por BolsoNero – enquanto Roma arde em chamas, ele toca lira e faz propaganda da cloroquina, remédio sem nenhuma eficácia científica contra o novo coronavírus. Porém, seus fabricantes são aliados políticos do presidente… Agradeço seu solidário interesse em divulgar esta carta. Só a pressão vinda do exterior será capaz de deter o genocídio que assola o nosso querido e maravilhoso Brasil. Fraternalmente, Frei Betto Frei Betto é frade dominicano e escritor, assessor da FAO e de movimentos sociais.

Noviciado Panam em tempos de pandemia

Nas Américas, as missionárias servas do Espírito Santo (SSpS) estão presentes no Brasil, Argentina, México, Estados Unidos, Cuba, Bolívia, Chile, Paraguai, Equador, São Cristóvão e Névis, Jamaica e Antígua e Barbuda. Há vários anos, a formação das noviças do continente vem sendo realizada no Paraguai, com a colaboração das irmãs das 11 províncias e regiões, que é a forma como estão organizadas. No momento, são três noviças no primeiro ano e mais três do segundo ano em estágio missionário. São quatro brasileiras: Crislaine Mayra Lopes Pereira, Valdirene Pereira da Silva, Janice Santos de Santana e Patrícia Zeponi, uma do México, Tania López Silva, e outra da Argentina, Gilda Leguizamón. As formadoras são as irmãs Graciela Castro e Eva Tapia. As noviças do primeiro ano entraram no dia 9 de fevereiro. Elas receberam as Constituições SSpS e uma medalha para usar como sinal de pertencimento e compromisso de seguir a Cristo nessa etapa de formação. Assim descrevem a rotina delas: “Em um ambiente comunitário e fraterno, compartilhamos nossas experiências pessoais, culturais e espirituais, bem como a ajuda mútua no trabalho e estudo”. Além disso, elas se encontram com as comunidades vizinhas do postulantado e da Casa de Retiros, para participar da missa, comemorar os aniversários e as grandes festas da Igreja e da Congregação. Por causa da pandemia do novo coronavírus, as noviças não têm aulas fora, mas continuam normalmente com os estudos em casa e acompanham o que está acontecendo no mundo. “Como comunidade, seguimos as ordens sanitárias específicas e nos unimos à Igreja e às necessidades do mundo com nossas orações diárias e adoração ao Santíssimo. Participamos de celebrações eucarísticas diárias pelos meios de comunicação.” Elas também seguem as notícias e refletem como vivenciar a situação atual. Janice, que está no primeiro ano de noviciado, diz que está bem e aproveitando o tempo para rezar mais e estar mais presente na comunidade. Para ela, a pandemia não é só física, mas também espiritual. Experiência intercultural nas comunidades Durante o segundo ano de noviciado, as noviças são enviadas para um estágio de seis meses em comunidades SSpS, em diferentes realidades de missão. A experiência é em outro país, favorecendo a vivência da interculturalidade. Aqui trazemos um breve relato das experiências das duas noviças brasileiras. Crislaine está na pequena cidade de Governador Roca, em Missiones, Argentina. Segundo ela, um local bem organizado, mas onde se sente “a diferença entre poloneses e indígenas”, fruto “de uma história que não foi construída a partir da comunhão, mas por uma separação bem intensa”. Ela vive na Comunidade Nossa Senhora de Fátima, dentro de um colégio, com outras cinco irmãs que se dedicam à educação, casa de acolhimento para idosos abandonados e pastoral indígena. Antes de iniciar a quarentena, ela foi com uma das irmãs ajudar nas escolas das comunidades aborígenes e sente não poder continuar por causa da pandemia. “Foi forte para mim e intenso perceber o quanto são marginalizados e excluídos pela mesma sociedade, e a luta que têm para conseguir seus direitos”, conta Crislaine. A noviça ficou com as crianças de primeira a terceira série e se sentiu muito tocada: “O brilho no olhar de cada uma delas é fascinante; a confiança que têm nos professores me faz sentir a presença amorosa de Deus que vem todos os dias ao nosso encontro”, diz. No colégio das irmãs, colaborou com uma turma da primeira série e também acompanhou como as irmãs partilham a espiritualidade com os professores, alunos e famílias. Mas, na Argentina, durante a pandemia, as irmãs estão fechadas em casa e ninguém sai à rua sem motivo, sob pena de prisão… Enquanto isso, Crislaine está ajudando no trabalho na casa dos idosos, na cozinha, na limpeza e “em tudo o que for necessário para atender melhor nossos avozinhos”, explica. “Para mim, está sendo um momento bem reflexivo poder estar com eles. São lindos! E o que mais querem é que alguém que os escute e esteja ao lado deles segurando seu braço”, afirma. Valdirene foi enviada para a cidade de Nova Esperança, Argentina Norte, numa pequena comunidade com três irmãs que atuam em diversas pastorais, principalmente na catequese familiar e com crianças, Infância e Adolescência Missionárias (IAM), pastoral familiar, formação bíblica, liturgia, trabalho social numa enfermaria e com Cáritas. Ela começou muito animada o trabalho pastoral, as visitas às comunidades pertencentes à Paróquia Nossa Senhora das Mercês e a conhecer as pessoas. Conta que “o povo é muito simples, gentil e acolhedor”. Pediram-lhe que acompanhasse as catequistas e as famílias da periferia. Veio então o tempo de quarentena, e ela, junto com as demais irmãs, tiveram de interromper as atividades e seguir as orientações do governo, ficando em casa. Mas isso não impediu que a comunidade encontrasse outras formas de serem missionárias. Valdirene conta que, na comunidade, as irmãs estão fazendo uma hora de adoração de segunda a sexta-feira para rezar pelas famílias e pelo mundo durante o tempo de pandemia. Criaram também grupos pelas redes sociais para enviar mensagens de ânimo e de evangelização, a liturgia diária e vídeos. “Para estarmos conectadas uns com os outros e para levar fé e esperança àqueles que mais necessitam”, explica a noviça. A pesar de a pandemia ter mudado seus planos e expectativas, Valdirene diz que “está sendo uma oportunidade para aprender e experimentar a interculturalidade”, uma característica tanto da comunidade onde está como também da Congregação. Ela conta que se sente desafiada a lidar “com o sentimento de impotência frente o covid-19 e a incerteza de quando tudo isso termina, porque ninguém está livre de contaminação”, e conclui afirmando que está fazendo seu processo de aceitação.

Empatia, compaixão e cuidado na Rede de Educação SSpS

A Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo está promovendo uma série de atividades on-line como parte do projeto “Tecendo Relações”. O próximo webinar ao vivo é nesta quinta-feira, 9 de julho, às 19h, com o tema “Caminhos para viver bem: empatia, compaixão e cuidado!”. A convidada é a Monja Coen, reconhecida como autoridade na abordagem de práticas vivenciais baseadas na sabedoria, na compaixão e na empatia. A webinar será transmitida no endereço https://www.youtube.com/channel/UCJkRvCAyci2WxskppPEidEQ. O tema faz parte da proposta do projeto “Tecendo Relações” que, de acordo com a diretora-presidente da Rede de Educação, Ir. Maria de Fátima Marques, “Nasceu das reflexões realizadas em rede e da preocupação sensível e cuidadosa com as pessoas que fazem parte de nossa missão educativa, como o samaritano que viu, sentiu e se compadeceu”. Dessa forma, o projeto está alinhado com o tema da Campanha da Fraternidade deste ano e busca cuidar do emocional da comunidade educativa, incluindo alunos, educadores, familiares e interessados em aprofundar assuntos que possam ser iluminadores, especialmente durante este período de pandemia. A primeira webinar foi com a psicóloga Aline Souki, que desenvolveu o tema “Gerindo as emoções durante o isolamento social”. O encontro está disponível no Youtube, pelo link https://www.youtube.com/watch?v=rce0Rflu7io. Diante da necessidade de cuidar do emocional e das relações humanas, a Monja Coen vai dialogar e apontar caminhos do bem-viver, tendo a empatia, a compaixão e o cuidado como práticas possíveis e que fazem parte dos valores que iluminam a ação pedagógica das escolas da Rede de Educação SSpS e que ganharam reforço por causa do tema transversal deste ano, que é “Escola viva: vê, sente e cuida”. Coen é uma monja zen budista brasileira de ascendência portuguesa e missionária oficial da tradição Soto Shu, com sede no Japão. Ela vem ajudando muitas pessoas a pensar e a dar à vida um novo significado, com base na espiritualidade, motor que move cada ser humano.“Refletir sobre esses temas se torna necessário e oportuno para que saiamos ainda melhores deste momento de distanciamento social”, afirma Patrícia Campos, assessora de comunicação da Rede de Educação. Ela acredita que, “diante de tantas tribulações, parar um pouco, serenar o coração e ouvir se torna essencial”. O webinar está aberto também ao público em geral. Será uma oportunidade de refletir a partir de uma perspectiva inter-religiosa que certamente ajuda a abrir horizontes para uma compreensão mais ampla da realidade atual e da universalidade do ser humano.

Estou me guardando para (quando) a pandemia passar…

Vivemos tempos desafiantes. Nunca antes vi nem vivi nada parecido. De tudo, somado o assustador, o patético, o impactante, o alentador, o dolorido, o que acalma, o que assombra, misturado ao que virá, restam muitas emoções. Um certo mal-estar que insiste em zumbir o dia todo, aliado a momentos de encantamento pela simplicidade das coisas cotidianas. Aos que não podem estar em casa por suas ocupações essenciais, meus agradecimentos. Aos que não podem ficar em casa porque a vida urge e as desigualdades se agigantam, nossa solidariedade e compromisso de não desistir de mudar as coisas como elas estão. Aos que podem ficar em casa, um alento e a certeza de que estamos fazendo a coisa certa, mesmo nesse ambiente de tantas incertezas. Certo é que nada será como antes, e vem aí um “novo normal” que nenhum de nós sabe ao certo o que será. Certo é, também, que há coisas que são perenes e permanentes. Mais especificamente, digo das coisas vividas e desejadas. É com esse arsenal particular e subjetivo que vamos nos superar e fazer planos pra (quando) a pandemia passar. Digo da memória viva dos nossos afetos, digo da memória crítica para reinventar o que foi vivido até aqui. Não é nem o caso de escolher muita coisa para mudar. É deixar agigantar-se o que há de bom em nós… Que nossa generosidade nos surpreenda com atos concretos e solidários. Que aqueles abraços não dados fiquem na ponta dos dedos, prestes a encontrar outros braços abertos. Que nossa fé e espiritualidade nos guie para o campo fértil da crença fortuita e gratuita. Que o volume do som quase estoure os tímpanos com sua música preferida. Que a natureza siga nos inspirando em cada flor que nasce, em cada rebento. Que o perdão encontre o caminho e construa pontes. Que sejamos presença mesmo na distância. Que a gente seja criativa para se fazer presente mesmo na distância. Que nossa indignação nunca se apague. Que se agigante o que há de bom em nós… Só assim a impaciência, a desesperança, o desencantamento, a angústia e aquele mal-estar vão ganhando proporções de um componente paradoxal e essencial, e que não nos imobiliza. Estou me guardando para (quando) a pandemia passar… Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.

Pandemia escancara vulnerabilidade de povos indígenas

A pandemia do covid-19 está desvelando uma série de problemas muito além da saúde e da economia. No Brasil, o vírus veio para confirmar a frágil proteção de algumas populações, entre elas os indígenas. A situação é preocupante. Até o fim de junho, o número de mortes por 100 mil entre os povos indígenas foi 150% mais alto do que a média brasileira. Os dados foram divulgados pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). Segundo entidades como o Cimi (Conselho Indigenista Missionário), foram registrados mais de 4 mil casos e quase 400 mortes, contados em ambientes indígena e urbano. A taxa de letalidade também é alarmante. Entre os indígenas, é de 6,8%, enquanto a média brasileira é de 5% e, na Região Norte, de 4,5%. Segundo Nara Baré, coordenadora-geral da COIAB, a quantidade de vítimas é bem maior. “Devido ao número alto de subnotificações da doença, e a própria omissão do Estado em não acompanhar os casos dos indígenas em contexto urbano, esses números, na verdade, estão muito abaixo do real”. O socorro a esses brasileiros e brasileiras precisa ser específico, mas não é isso que vem ocorrendo. Apesar do esforço de agentes de saúde, as ações não têm sido suficientes. “Estamos vendo que não têm prioridade em dar proteção contra o coronavírus nos territórios indígenas. Temos uma vida diferenciada, uma vida cultural diferenciada”, diz Mário Nicácio, do povo Wapichana e vice-coordenador da COIAB. Violação de direitos Nos últimos anos, as violações de direitos indígenas vêm crescendo, segundo o Cimi. No contexto de pandemia, a invasão de territórios é um agravante e pode dizimar comunidades inteiras. De acordo a Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), os povos originários são mais vulneráveis a viroses, como a do covid-19. O órgão relata que as doenças respiratórias são a principal causa de mortalidade infantil entre esses brasileiros. A entrada de estranhos pode causar um genocídio. O líder indígena Dinamam Tuxá, vice-presidente da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), em entrevista ao site Amazônia Real, afirma que o Estado não está preparado para lidar com a especificidade dos povos indígenas. “Não há plano de contingenciamento. O gabinete de crise do governo [federal] estava recusando a entrada dos povos indígena nessa discussão. Hoje está sendo cumprida essa medida de entrada no gabinete, através do Fórum de Presidentes do Condisi [Conselho Distrital de Saúde Indígena], por causa da recomendação do MPF”, denuncia Dinamam. Ele também conta que recorrer à Justiça tem sido a saída para que os povos consigam o mínimo de atenção. O líder também critica a postura das autoridades estaduais e municipais, de apresentarem um “bloqueio histórico à presença indígena” e de negarem apoio logístico às aldeias, deixando de fornecer insumos, equipamentos de proteção e mesmo ajuda no bloqueio sanitário das aldeias. Para Dinamam, o resultado será o extermínio. Ação no STF para impedir genocídio Na terça-feira, 30 de junho, foi protocolada uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF), pedindo que o governo tome medidas emergenciais para proteger da pandemia os povos indígenas, sobretudo os isolados. A petição é assinada pela APIB e um conjunto de partidos políticos. Um relatório do Instituto Socioambiental (ISA) anexado ao pedido expõe o aumento das invasões em terras indígenas durante a pandemia. Garimpeiros, grileiros e desmatadores representam um grande risco para as comunidades. A ação solicita que o governo instale barreiras sanitárias nas 31 áreas com povos indígenas isolados e de recente contato. Também pede o atendimento de todos os indígenas pela Sesai e a execução urgente de um plano de enfrentamento à covid-19 em terras indígenas. Esse plano deve ser idealizado pelo Conselho Nacional de Direitos Humanos, com auxílio da Fundação Oswaldo Cruz, Associação Brasileira de Saúde Coletiva e representantes dos povos e conselhos distritais de saúde indígena. Além disso, o governo deve criar uma sala de situação que dê suporte às decisões durante a crise e conte com a participação de indígenas. Com informações de Agência Brasil, Amazônia Real, Cimi e Dom Total.

Coronavírus: uma oportunidade

Estamos sob os impactos que o coronavírus trouxe. O mal atingiu todo mundo e o mundo todo. Ninguém, com o mínimo de sanidade, desejou que esse vírus aparecesse. Contudo a realidade está aí, e todos estamos envolvidos nesta tragédia, por um lado, mas também em grandes oportunidades, por outro. Ninguém ignora o mal que o vírus causou e está causando, mas ele nos obrigou a revermos muitas coisas em nossa vida. Descobrimos o quanto somos criativos para nos livrar de alguns efeitos deletérios que ele causou. Vejam-se, por exemplo, quantos gestos de solidariedade ocorreram. Quantas formas novas de comunicação e entreajuda! O vírus obrigou os governos a repensarem muito de suas políticas e projetos. Em nível de educação, com os alunos em casa, fazendo suas lições e descobrindo suas próprias capacidades, antes ignoradas ou pouco usadas. Deu oportunidade para cada um encontrar maneiras novas para preencher seu tempo. Em nível de convivência familiar, quantas vivências novas os pais fizeram estando com os filhos! Quantas renúncias tivemos de fazer e, apesar disso, continuamos vivos! Muitas coisas supérfluas, das quais antes não se abria mão, agora se vive sem elas, numa boa, como se diz. Em nível de relacionamentos, quantos jeitos novos de se comunicar e uma nova percepção da importância dos outros em nossa vida! Todos aprendemos que somos dependentes uns dos outros. Sentimos falta das pessoas mais próximas, com as quais ficamos temporariamente sem encontrar pessoalmente, mas nem por isso deixaram de participar e ser importantes para nós. O vírus nos obrigou a olhar para os rumos que a vida estava seguindo! Todos estamos fazendo uma experiência inédita; ninguém havia passado por isso. Todos sofremos com as ausências de tantas coisas que antes faziam parte de nosso cotidiano. Sair à hora que se quisesse, sem preocupação de se ter uma máscara em mãos; de ir ao supermercado sem ninguém à porta orientando as entradas; de comprar nas lojas sem observar distanciamentos. De ir às igrejas e participar das celebrações. Quantas pessoas estão com saudades desses encontros da fé celebrada na comunidade cristã! Tudo isso nos diz que estamos num tempo diferente, não somos mais livres para fazer como antes. Agora somos obrigados a obedecer a condutas novas. O vírus virou o mundo de ponta-cabeça! Quer queiramos ou não, ele afetou o modo de viver de muitas maneiras. No aspecto econômico, tivemos de repensar como gastar o dinheiro. Aliás, quanta luta e desespero de muita gente para sobreviver, para conseguir os benefícios oferecidos pelo governo! Apesar do drama humano vivido por tantos, ficamos surpresos e indignados com a maldade de muitos que se aproveitam para enganar, roubar, fazer falcatruas para se beneficiar em cima do sofrimento alheio. Tivemos notícias de gente usando de artimanhas para se aproveitar do alheio, falsificando documentos, desviando recursos, superfaturando compras de respiradores, medicamentos, obras de emergência. O vírus está revelando as duas faces humanas. Uma da solidariedade e do compromisso com a vida e com a dor e sofrimento das pessoas; a outra, da maldade, que explora e aumenta o sofrimento sobretudo dos mais carentes. Eis uma oportunidade de as pessoas mostrarem se têm ou não caráter, se são do bem ou do mal, se são ou não humanas! Ninguém vai sair dessa experiência igual ao que era antes. Todos fomos afetados por ela. Depois que ela passar, vamos medir melhor as consequências as quais agora ainda não sabemos avaliar. A grande maioria espera que o mundo seja diferente. Para melhor ou pior? Ainda não sabemos, tomara que seja para melhor! Aliás, esse desejo está presente naqueles que já se convenceram de que vão ser diferentes, porque aprenderam, com a experiência, aquilo que é essencial à vida e aquilo que é relativo. Nesse sentido o vírus nos trouxe uma oportunidade de viver de um modo diferente, mais solidário e mais humano. Pensando bem, então, apesar do mal que o coronavírus provocou, trouxe também algum bem. Às vezes, é preciso que a morte nos ameace para aprendermos a cuidar melhor da vida! É preciso que alguém morra para se dar o valor que a vida tem. A “morte e ressurreição” continuam indicando o “caminho” e as opções que cada um pode escolher. Ninguém sai neutro desta pandemia. Se assim é, então aproveitemos a oportunidade de novos aprendizados, permitindo que a vida continue com um sentido mais profundo nos novos horizontes que estão se abrindo. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

Covid-19: socorro aos mais vulneráveis é luz em meio à tragédia

A pandemia causada pelo covid-19 aterroriza o mundo inteiro. As vítimas são contadas em centenas de milhares. A economia de muitos países sofre fortes golpes, e as relações sociais estão sendo transformadas como nunca. Não foi poupada nem a própria religião, com suas teologias, dogmas, métodos. Vai demorar muito tempo para que todas as lições advindas do fenômeno sejam assimiladas por esta e as futuras gerações. A doença deixou às claras ou mesmo acentuou muitos problemas sociais, ambientais, científicos, econômicos, espirituais que já existiam e, por ignorância ou má-fé, eram omitidos. No início, pensava-se que o vírus seria “democrático”. Todos corriam o mesmo risco de serem contaminados e de se tornarem vítimas. Aos poucos, contudo, as estatísticas mostram que as populações mais pobres, os excluídos, as minorias são os mais vulneráveis. Sem acesso pleno a políticas públicas de saúde, moradia, emprego, educação, alargam o subnotificado índice de atingidos. Entre os mais frágeis está o povo em situação de rua. Muitos sequer foram informados da gravidade da pandemia, como se queixou um homem que dormia sob uma marquise, em Belo Horizonte-MG. Ele reclamou que agentes de segurança chegaram e deram ordem para que ele e os companheiros não se aglomerassem, porém não lhes disseram o motivo. “Não sei o que fazer”, protestou. Nem tudo, porém, são trevas neste cenário de caos. Várias iniciativas de apoio à população mais vulnerável se destacam. Algumas já o fazem há muito tempo, outras surgiram como resposta aos danos causados pelo covid-19. Conheça três desses projetos. Rede Rua Em São Paulo-SP, a Rede Rua participa da ação “S.O.S. povo da rua contra o covid-19”, que envolve outras organizações. Numa das atividades, realizada no início de junho, foram distribuídos às famílias da região do Brás 46 cestas básicas, kits de higiene, máscaras e sabonetes. Os atendidos foram os que se encontram em situação de rua ou em ocupações. A equipe da Rede Rua acompanhou cada caso e redirecionou os alimentos aos que têm espaço para cozinha. A prioridade foi dada a mulheres chefes de família, desempregados e pessoas que ainda não tiveram acesso ao benefício emergencial, precariamente concedido pelo governo federal. A iniciativa não se reduziu apenas à entrega de donativos. Os agentes também deram dicas de como se proteger do covid-19 e organizaram atividades de recreação. A rua também é memória Na segunda-feira, 22, a ação de apoio foi com as pessoas que vivem debaixo do Viaduto Governador Roberto Abreu Sodré. No local, há uma comunidade de coletores de materiais recicláveis. Apesar de contribuírem para o desenvolvimento econômico e sustentável da maior metrópole da América do Sul, não são reconhecidos como trabalhadores. Não têm direitos e lutam cotidianamente pela sobrevivência. Eles receberam dos agentes 11 cestas de alimentos e produtos de limpeza. O viaduto em si já diz muito sobre a realidade da população pobre e injustiçada. A via é batizada com o nome de um dos políticos eleitos indiretamente à época da ditatura civil-militar (1964-1985). “Pode parecer bobagem, mas nomes de ruas e monumentos carregam uma carga de preconceito e desumanidade, a rua também é monumento, a rua também é memória”, diz uma nota do movimento. “A dor mais profunda da pessoa de rua é ter o olhar furtivo, evitado, não ser visto. Penso que o primeiro passo é este: dar visibilidade, dizer que são importantes”, afirma a irmã Maria Inês, missionária serva do Espírito Santo e membro da diretoria da Rede Rua. Alta demanda faz Inova pedir socorro Também em São Paulo, o Instituto Novos Valores (Inova) é especializado em atender famílias em situação de vulnerabilidade social e em conflitos. A obra existe há dois anos e está localizada na Vila Nova das Belezas, na Região do Campo Limpo, extremo sul da capital paulista. Normalmente, o Inova acompanha 300 famílias cadastradas, as quais recebem cestas básicas, material de limpeza e higiene pessoal. O socorro, contudo, começa a ser insuficiente para atender a uma demanda cada vez maior. Rosita da Cruz, que é assistente social e presidente da entidade, afirma que mais de 500 famílias foram socorridas entre os dias 26 e 29 de maio, em parceria com a organização não governamental Banco de Alimentos. Rosita assinou um comunicado, pedindo doações de cestas básicas e de outros itens de que as famílias necessitam. Ela relata que, até o dia 23 de junho, não houve resposta, nem mesmo do Poder Público. A diretora afirma que toda contribuição é bem-vinda. “Não vamos permitir que nenhuma família fique sem o alimento de cada dia”, convoca. No fim desta reportagem, veja como doar. Canto da Rua Emergencial Em Belo Horizonte, foi organizado o Canto da Rua Emergencial, um conjunto de ações de garantia e defesa dos direitos da população em situação de rua e dos catadores de materiais recicláveis. A iniciativa, prevista para durar dois meses, foi inaugurada em 13 de junho. Atende pessoas da capital mineira e de outros municípios da região metropolitana. Segundo dados do CadÚnico, em fevereiro deste ano, a capital mineira tinha 9.060 pessoas vivendo nas ruas. Já se sabe que, como ocorre na maior parte do Brasil, esse número tem aumentado rapidamente. Além de não terem onde se abrigar, essas pessoas são vítimas de várias violações de direitos, entre elas o pouco acesso a políticas públicas. O Canto da Rua Emergencial é uma parceria da Pastoral de Rua da Arquidiocese de Belo Horizonte e do Instituto Unibanco. O projeto envolve também outras entidades dos setores público e privado, como Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, Vicariato para a Ação Social, Política e Ambiental, Movimento Nacional da População de Rua, Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), Faculdade Arnaldo, Arcelor Mittal, Fiat Automóveis, Localiza, Transforma BH, Inaper e Colégio Santo Antônio. Cada uma, à sua maneira, busca fazer sua parte para dar suporte aos socorridos. Entre as ações está a articulação de um espaço, organizado na histórica e emblemática Serraria Souza Pinto, localizada no Centro da capital, onde os destinatários são acolhidos. No lugar, há serviços de escuta, alimentação, higiene pessoal e encaminhamentos diversos, como saúde

Missão com migrantes durante a pandemia

O Centro de Integração do Migrante (CIM) é um espaço alternativo de formação e orientação para migrantes, localizado no bairro do Brás, na região central da cidade de São Paulo. A obra está a caminho de seu quinto aniversário, em dezembro próximo. O CIM é uma das frentes de missão das irmãs missionárias servas do Espírito Santo na cidade de São Paulo. Hoje somos três irmãs aqui: irmãs Lucilene Soares, Nadir Pereira e Malgarete Conte. O CIM realiza sua missão em parceria com outras instituições, como Missão Paz (padres escalabrinianos), Caritas, Veredas (USP), Mary Knoll, Colégio Espírito Santo, Congregação dos Missionários do Verbo Divino (SVD). O centro também conta com a contribuição de muitos outros voluntários e voluntárias que dedicam seu tempo e seus talentos para acolher, servir e ser solidário com nossos irmãos migrantes, diante do quadro de mobilidade em que vivemos na cidade. As ações realizadas no CIM são diversificadas, buscando atender às necessidades e demandas dos migrantes que aqui chegam. Para crianças, as atividades são diárias: brincadeiras, reforço escolar, inglês, artes, educação física, computação. Para adolescentes e adultos, há atendimentos e suporte com a documentação, plantão psicológico, jurídico, assim como aulas de português, informática, manutenção de computadores, bolos e salgados, empreendedorismo e espanhol. O CIM também oferece atendimento em geral ao público durante a semana, como o Bazar da Solidariedade. As roupas obtidas em doação são vendidas a preço simbólico para quem mais necessita. Também o CIM é o lugar do encontro, da acolhida, da partilha do conhecimento cultural. Aqui nos reunimos para celebrar as festas das culturas, dias de festa, e celebrações. Um espaço de vida e alegria. Com toda essa demanda, e com a participação de muitos migrantes, percebemos a necessidade de um espaço maior para poder atender melhor e com mais condições a cada pessoa que vem até o CIM. Com isso, neste ano, foi adquirido um novo espaço, no mesmo bairro. O local é maior e com mais possibilidades de trabalho e integração com os migrantes. Precisa passar por um processo de restruturação, para já podermos encaminhar os novos trabalhos. De coração aberto e portas fechadas Faz mais de dois meses que, por conta da pandemia, tivemos de fechar o atendimento, assim como todas as atividades que realizávamos em conjunto com outros amigos e parceiros do Centro de Integração do Migrante. Hoje socorre muitos migrantes e brasileiros que perderam sua renda por falta de trabalho, e vivem em uma realidade de fome e de necessidades básicas. Impelidas diante dessa nova situação, somos chamadas a realizar algo, mesmo com as portas fechadas. E assim, com a colaboração generosa de tantos amigos e pessoas de boa-fé, de organizações, Igrejas que realizaram doações com cestas básicas de alimentos, higiene pessoal e limpeza, podemos garantir ao menos o básico para tantos irmãos e irmãs nesta grande cidade de São Paulo. Temos a oportunidade hoje de ser “ponte” e realizar a “entrega” dessas doações. Com isso, podemos abrir as portas ao menos uma vez por semana e realizar a doação desse material que, com alegria, recebemos. Por este tempo de pandemia, é assim que realizamos a missão a qual Deus confia a nós, valorizando a solidariedade do povo que oferece com alegria generosa. “A pandemia mudou a minha vida” Para os migrantes que frequentam o CIM, a pandemia está somando dificuldades ainda maiores àquelas que normalmente enfrentam. A boliviana Dionísia explica: “Eu me sinto triste porque não sabemos quanto tempo mais vai durar, quando vai terminar. Parece que esta pandemia veio para ficar conosco. Gostaria de sair com minha família, mas não posso”. Para a menina Annalia Boliva, de 8 anos, e seu pai Abel Boliva, 39, a situação é crítica. Eles são da Venezuela e moram num pequeno quarto alugado no bairro do Belenzinho, em São Paulo-SP. A mensalidade consome dois terços do salário de Abel, que está no Brasil há cerca de 2 anos e meio. Annalia chegou há 11 meses e conta: “A pandemia mudou a minha vida. Agora estou estudando na minha casa, que é um quartinho pequeno. Eu estudo, assisto à tevê, leio a Bíblia e fico aguardando o meu pai, que vai trabalhar das 5 da madrugada até 5 horas da tarde”. Antes ela ia para a escola de manhã e, depois, para o Educandário São José, no bairro do Belém. Frequentava as aulas de informática do CIM. Annalia diz que sente saudades das irmãs, do vovô Angel (um dos voluntários que precisou ser hospitalizado por causa do covid-19 e que está se recuperando), dos coleguinhas e dos brinquedos. Abel relata que não estão fáceis estes três meses de confinamento. “Graças a Deus, continuo trabalhando, mas minha filha, minha companheirinha de 8 anos, não pode mais ir à escola nem ao Centro do Migrante. Está confinada em um quarto onde vivemos só ela e eu, passa 24 horas aqui… Mas estamos vivos, temos saúde e seguimos lutando”, diz. Antes da pandemia, Abel complementava o salário fazendo bicos à noite e nos fins de semana. Dessa forma, ele conseguia se manter e enviar alguma coisa para ajudar a família na Venezuela. Agora mal consegue pagar as despesas. Ele também sente falta do Centro de Integração do Migrante, que considera um grande apoio e do qual tem prazer em participar. Irmã Lucilene Ferreira Soares é missionária serva do Espírito Santo, está concluindo o Curso de Teologia e faz parte da equipe do CIM.

Lives de São João e São Pedro

As soluções tecnológicas entram de maneira inusitada nos festejos de São João e São Pedro neste ano. Nos centros urbanos do Sudeste do Brasil, as danças juninas estão sendo adaptadas à realidade do isolamento social, forçado pela pandemia do covid-19. Restringiu-se a participação ao máximo de quatro a cinco pessoas (e somente dentro da convivência familiar), em ambientes que em nada lembram os velhos arraiais: apartamentos e salões de festas de condomínios. Algumas escolas em São Paulo-SP orientam professores e estudantes a ensaiarem em casa a quadrilha, com a separação dos participantes em duplas. Quando ocorrerem as apresentações, acessíveis pelas redes sociais, cada família filmará sua performance, e as imagens vão compor o mosaico de dezenas de duplas dançando alegremente. Um dos colégios que adotam um protocolo específico para as brincadeiras juninas é o Objetivo Saint Lucas, na Zona Leste de São Paulo. Inicialmente, a direção da escola pensou em realizar lives com as apresentações de alunos e professores, mas essa mudança na tradição do arraial ainda traz insegurança. “E se a internet estiver instável e, no meio da quadrilha, sair do ar a apresentação?”, pergunta a diretora Leila Cury. Diante do risco, o colégio deve editar um vídeo com as danças e até mesmo as receitas da culinária junina, sob coordenação da professora de Artes. A produção será publicada nas redes sociais. A intenção dos realizadores é evitar o adiamento dos festejos, opção escolhida pela Prefeitura de Campina Grande-PB, onde as comemorações serão em outubro. Em Salvador-BA e Aracaju-SE, o feriado de São João foi antecipado para maio, justamente para esvaziar (!) a festa e impedir aglomerações. No seu celular, os antigos arraiais Mesmo que as tecnologias “façam sua parte” e diminuam o impacto do isolamento social, a vivência da cultura popular e da religiosidade estará sob a influência do uso que se faz dos “facebooks” e dos “whatsapps”. A função mais humana que se pode esperar de ambos é que reconectem pessoas e suas comunidades. Já pensou se as redes sociais forem usadas, neste mês de junho, para aproximar você de quem fez a alegria dos antigos “arraiais” em sua escola ou paróquia? Lembre-se de que, com um simples celular, é possível falar com aqueles, aquelas que já prepararam iguarias deliciosas (quentão, bolo de milho, paçoca) ou que se destacaram por conseguir prendas inestimáveis, ou que, ainda melhor, organizaram, muitas vezes, a novena de São João ou a de São Pedro e trabalharam nas barraquinhas até tarde. Em 2020, os prédios não estarão embandeirados, as ruas perderão as cores dos vestidos estampados das moças caipiras, as quermesses que enchiam as paróquias de calor humano estarão canceladas… Mas aqueles voluntários e voluntárias continuam por perto. Talvez estejam dentro de nossas casas. E o contato com eles, com elas pode acender a fogueira da gratidão e da caridade, e não deixar morrer São João e São Pedro neste junho de noites frias e de pandemia que nos assusta. José Manoel Rodrigues é jornalista e educomunicador. Há três anos, atua na área de captação de recursos. É cofundador da Radar Consultoria de Projetos para Organizações Sociais.

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