Entidades cobram do governo mais empenho no combate à covid-19

Seis entidades que formam o chamado “Pacto pela Vida e pelo Brasil” publicaram uma mensagem ante o contexto de agravamento da covid-19 no País. O texto, intitulado “O povo não pode pagar com a própria vida!”, traz críticas firmes ao desempenho das autoridades, sobretudo as federais, no combate à pandemia. A nota cobra maior cuidado com a população e se solidariza com os profissionais da saúde e as famílias das vítimas. Assinam o comunicado a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), a Comissão Arns, a ABC (Academia Brasileira de Ciências), a ABI (Associação Brasileira de Imprensa) e a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência). “A ineficiência do Governo Federal, primeiro responsável pela tragédia que vivemos, é notória”, diz o texto. As entidades afirmam apoiar os esforços de governadores e prefeitos para socorrer a população e destacam a importância do SUS (Sistema Único de Saúde). As organizações ainda pedem um olhar atento dos poderes Legislativo e Judiciário. Também sublinham a urgência de um auxílio financeiro digno aos trabalhadores impedidos de obterem o sustento. A nota também conclama os jovens a defenderem a vida e a evitarem ações negacionistas. Veja, a seguir, a íntegra do documento. O POVO NÃO PODE PAGAR COM A PRÓPRIA VIDA! Nós, entidades signatárias do Pacto pela Vida e pelo Brasil, sob o peso da dor e com sentido de máxima urgência, voltamos a nos dirigir à sociedade brasileira, diante do agravamento da pandemia e das suas consequências. Nossa primeira palavra é de solidariedade às famílias que perderam seus entes queridos. Não há tempo a perder, negacionismo mata. O vírus circula de norte a sul do Brasil, replicando cepas, afetando diferentes grupos etários, castigando os mais vulneráveis. Doentes morrem agonizando por falta de recursos hospitalares. O Sistema Único de Saúde – SUS continua salvando vidas. No entanto, os profissionais da saúde, após um ano na linha de frente, estão à beira da exaustão. A eles, nosso reconhecimento. É hora de estancar a escalada da morte! A população brasileira necessita de vacina agora. O vírus não será dissipado com obscurantismos, discursos raivosos ou frases ofensivas. Basta de insensatez e irresponsabilidade. Além de vacina já e para todos, o Brasil precisa urgentemente que o Ministério da Saúde cumpra o seu papel, sendo indutor eficaz das políticas de saúde em nível nacional, garantindo acesso rápido aos medicamentos e testes validados pela ciência, a rastreabilidade permanente do vírus e um mínimo de serenidade ao povo. A ineficiência do Governo Federal, primeiro responsável pela tragédia que vivemos, é notória. Governadores e prefeitos não podem assumir o papel de cúmplices no desprezo pela vida. Assim, apoiamos seus esforços para garantir o cumprimento do rol de medidas sanitárias de proteção, paralelamente à imunização rápida e consistente da população. Que governadores e prefeitos ajam com olhos não só voltados para os seus estados e municípios, mas para o país, através de um grande pacto. Somos um só Brasil. Ao Congresso Nacional, instamos que dê máxima prioridade a matérias relacionadas ao enfrentamento da COVID-19, uma vez que preservar vidas é o que há de mais urgente. Nesse sentido, o auxílio emergencial digno, e pelo tempo que for necessário, será imprescindível para salvar vidas e dinamizar a economia. Ao Poder Judiciário, sob a liderança do Supremo Tribunal Federal, pedimos que zele pelos direitos da cidadania e pela harmonia entre os entes federativos. Que a imprensa atue livre e vigorosamente, de forma ética, cumprindo sua missão de transmitir informações confiáveis e com base científica, sobre o que se passa. Enfim, que a voz das instituições soe muito firme na defesa do povo brasileiro! Fazemos ainda um apelo particular à juventude. O vírus está infectando e matando os mais jovens e saudáveis, valendo-se deles como vetores de transmissão. Que a juventude brasileira assuma o seu protagonismo histórico na defesa da vida e do país, desconstruindo o negacionismo que agencia a morte. Sabemos que a travessia é desafiadora, a oportunidade de reconstrução da sociedade brasileira é única e a esperança é a luz que nos guiará rumo a um novo tempo. __________________________________________________________Quarta-feira, 10 de março de 2021. Dom Walmor Oliveira de AzevedoPresidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB Felipe Santa CruzPresidente da Ordem dos Advogados do Brasil – OAB José Carlos DiasPresidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns – Comissão Arns Luiz DavidovichPresidente da Academia Brasileira de Ciências – ABC Paulo Jeronimo de SousaPresidente da Associação Brasileira de Imprensa – ABI Ildeu de Castro MoreiraPresidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC
Retorno das escolas da Rede

Vivemos ainda em meio à maior pandemia de nossos tempos, e a pergunta frequente é: quando tudo voltará ao normal? Voltará? A peste, romance de Albert Camus, vai nos lembrar de que ela pode vir ou ir embora sem que o coração do homem seja modificado. Se isso prevalecer, sugerimos que não voltemos à normalidade nos moldes a que estávamos acostumados, porque, se assim retornarmos, é sinal de que não valeu de nada toda a tristeza vivida no mundo inteiro. Em 2020, vivemos a possibilidade de repensar muitas coisas. Que a vida é muito frágil. Que a simplicidade é um caminho possível. Que precisamos uns dos outros. A necessidade do essencial para se viver. Que a espiritualidade é a grande força interior que sustenta nossa caminhada. Que somos parte desta grande casa comum chamada planeta Terra. E veio deste enorme organismo vivo onde habitamos o convite, a voz que nos convocou a fazer silêncio, pois só assim poderíamos ouvir e transformar nosso coração. Nossos educadores, alunos e familiares vão, aos poucos, iniciando o retorno às nossas escolas. A maioria, introspectiva e com diferentes sentimentos. Alegria pelo retorno e pelo reencontro, medo pela realidade de um vírus desconhecido, ansiedade pela espera da vacina. Os protocolos conhecidos, álcool, máscara, o cuidado com as mãos… revelam a consciência do amor ao próximo e o precioso cuidado com nosso maior dom, a vida; eles estão presentes em nossas escolas desde o primeiro dia. É um recomeço cheio de novos desafios, novas adaptações que exigem de cada um a vivência de uma ética da reciprocidade. Fazer ao outro o que gostaríamos que fizessem a nós. Com essa consciência, retornaremos diferentes; entendendo “diferentes” como entregar o melhor de nós ao outro. Agostinho Travençolo JúniorEducador e coordenador da Dimensão Missionária da Rede de Educação SSpS
A experiência de quem contraiu a covid-19

A pandemia causada pelo novo coronavírus, causador da covid-19, entrará para os livros de História. O evento mexeu com quase tudo na vida, não apenas na saúde pública: das relações comerciais e diplomáticas aos contextos escolar, religioso; da experiência do luto ao cotidiano de pessoas, famílias. Neste espaço, você conhecerá o testemunho de quem viveu a experiência de ser infectado. Se você também passou pelo mesmo problema, fique à vontade para partilhar quais foram os aprendizados e o que você tem a agradecer. Veja alguns depoimentos: “Qual nossa essência moral, espiritual e social?” A pergunta que não quer calar: covid-19, quem é você? China, o que é isso? A covid era 19 e nos roubou 2020 inteiro! Pelo jeito, vai invadir também nosso 2021. Aqueles que fazem aniversário se esforçam para encontrar motivos para comemorar, soprar as velinhas de um ano, mas, infelizmente, não há muito o que brindar, mas muito a chorar! E por quanto tempo mais vamos chorar? Amigos se foram. Parentes não estão mais com a gente. A incerteza, o medo nos rodeiam. A saudade e o distanciamento apertam o coração e angustiam a alma. Não basta apenas sermos fortes, é muito além disso e, talvez por isso, as pessoas ainda não conseguiram entender que a essência e o valor de tudo se relativizou. Sapatos da Arezzo? Perfume Givenchy? Produtos de maquiagem? Quem disse Berenice? Boticário? Mara Mac? Roupa da Farm, Renner, Cantão, Riachuelo, Animale? Qual a real importância de tudo isso? Não quero dizer que não gosto disso, mas sim que, num período como este, temos de refletir e discernir do que somos constituídos. Qual nossa essência moral, espiritual e social? Pois é com base nessa consciência que nos reergueremos para esse novo normal que está por vir. E aí, quem sabe, começar a viver mais humanamente, verdadeiramente felizes! Susete Maria da Silva Vieira ParreiraGestora educacional do Colégio imaculado coração de MariaRio de Janeiro _____ “Vivenciar essa experiência me fortaleceu” Quando você recebe o resultado “detectado” no teste de covid-19, um buraco se abre, pois tudo é incerto diante do novo vírus. Eu me senti numa montanha-russa de sintomas e sentimentos: um dia, na reta, em plena recuperação; no outro, de cabeça para baixo, num looping, sem energia sequer para me levantar, para me alimentar. Manter-se com bons pensamentos, em oração, fortaleceu-me para superar esse momento tão difícil, pois não sabemos o rumo do vírus em nosso corpo. Passamos dias isolados de quem mais amamos. Uma loucura! Vivenciar essa experiência me fortaleceu. As mensagens diárias de carinho me encheram de esperança de que tudo ia passar e que eu ficaria bem. Que possamos valorizar o que de fato é importante em nossas vidas: um abraço, a família e o amor. Magda Cristina Bastos do NascimentoCoordenadora pedagógica do ensino fundamental IRio de Janeiro-RJ ______ “Somos seres vulneráveis” Estar mergulhado numa pandemia já é uma experiência inusitada e, quando nos encontramos sentindo, efetivamente, o efeito em nosso organismo, a proporção se torna maior, pois qualquer certeza que pudéssemos vislumbrar, ela não existe. Não existe por não sabermos que rumos seus efeitos fisiológicos tomarão. Somos seres vulneráveis, e a grande lição desta pandemia é nos dar a oportunidade de entender que a espiritualidade é a mola propulsora que nos faz agir. Rever nossa relação com Deus e nos aproximar a Ele, que pode ser pelo amor ou pela dor e, infelizmente, a humanidade necessitou que fosse pela dor. Valorizar o simples, amar e expressar esse amor, estar disponível ao próximo e vivenciar a beleza da gratidão. Sandra Demetrio PereiraGestora administrativa do Colégio imaculado coração de MariaRio de Janeiro ______ “Fortaleceu o lamento pelas diferenças sociais no tratamento da doença” “O que não me mata me fortalece”, disse Nietzsche e assim ilustro o que ficou após eu passar pela dor e pela insegurança, ao ser infectada pelo vírus da covid-19. Fortaleceu a importância do autocuidado. Fortaleceu o vínculo com as pessoas que se preocuparam comigo. Fortaleceu o lamento pelas diferenças sociais no tratamento da doença. Fortaleceu a convicção de minha missão de ajudar o meu próximo. Fortaleceu, sobretudo, a fé em Deus, que, mesmo na condição de fragilidade humana, perante os mistérios da finitude da vida, sempre, sempre é maior que tudo! Alice Takahashi PiresPedagógica do ensino fundamental 1 do Colégio Espírito SantoSão Paulo-SP
“Para educar uma criança, é preciso uma aldeia inteira”

“Para educar uma criança, é preciso uma aldeia inteira.” Esse sábio provérbio africano nos mostra o quanto é trabalhoso, importante e promissor educar uma criança. Se pensarmos sobre ele no contexto da pandemia da covid-19, tempo em que as famílias não puderam contar, ou puderam-no de forma restrita, com o apoio das instituições e da família extensa na educação das crianças, encontraremos crianças apresentando grande risco de não atingirem seu pleno potencial. O que fazer diante desse cenário? Em 2000, o economista norte-americano James Heckman conquistou o Prêmio Nobel de Economia, ao criar métodos científicos que avaliavam a eficácia dos programas sociais dedicados à primeira infância. O economista mostrou que as consequências desses investimentos (ou da falta deles) estão relacionadas ao futuro de uma sociedade, interferindo em taxas de criminalidade, gravidez na adolescência, evasão no ensino médio e níveis de produtividade no mercado de trabalho. Desde o início do século, pedagogos, médicos e cientistas, como Maria Montessori e Emmi Pikler, entre outros, vêm mostrando à humanidade o quanto os primeiros anos de vida são decisivos para o sucesso de uma vida inteira. A criança nasce com um incrível potencial para o desenvolvimento, precisando apenas de um ambiente seguro, de afeto, de cuidado e de estímulos para que conquiste a plenitude de seu potencial. Hoje, a tecnologia e o avanço das neurociências nos permitem comprovar que esse é um período de intenso desenvolvimento cerebral, no qual se estabelecem as bases da saúde, do bem-estar e da produtividade. Já dizia Maria Montessori, “Se houver para a humanidade uma esperança de salvação e de ajuda, esta ajuda só pode vir da criança, porque é nela que se constrói o homem”. Há alguns anos, percebe-se uma crescente valorização da educação da criança pequena. Aos poucos, indivíduos, governantes e instituições estão compreendendo que educar a criança não é só cuidar e brincar sem intencionalidade, e percebendo a importância da educação nessa faixa etária. O documentário O começo da vida, produção brasileira de 2016, divulgou amplamente, nos quatro cantos do planeta, a causa da primeira infância, sendo a principal ferramenta de uma campanha global da UNICEF. O filme nos convida a refletir: estamos cuidando bem dos primeiros anos de vida, que definem tanto o presente quanto o futuro da humanidade? Nesse contexto é que entra a pandemia causada pelo novo coronavírus, trazendo o fechamento das escolas por longo período, o distanciamento físico, o trabalho remoto para alguns, a necessidade de permanecer trabalhando presencialmente para outros ou a falta de trabalho para muitos. A ausência de ações que visem a minimizar os prejuízos deste momento terá consequências, a longo prazo, no capital humano futuro, para todas as camadas sociais, mas principalmente para aqueles que vivem em situação de pobreza e dependem ainda mais dos cuidados e estímulos fornecidos pelas instituições, e têm pouco ou nenhum acesso às ferramentas virtuais de aprendizagem, que, apesar de não serem as ideais, são as possíveis. É papel da família e de cuidadores proteger as crianças do estresse gerado pelo distanciamento social, pela falta de convivência com os pares e também promover desenvolvimento, saúde e bem-estar. Para isso, é preciso que as famílias sejam apoiadas, que haja iniciativas estatais e sociais para que quem cuida das crianças seja cuidado e possa desempenhar seu papel com um mínimo de segurança e a maior tranquilidade possível. Principalmente nestes tempos de incerteza, turbulência e sofrimento, para que não percamos a esperança no futuro, vale lembrar Milton Nascimento, em Coração de estudante: “Há que se cuidar do broto, pra que a vida nos dê flor e fruto”. Ana Amélia Rigotto FernandesProfessora, pedagoga e psicopedagoga, é diretora educacional do Colégio Sagrado Coração de Jesus, da Rede Missionárias Servas do Espírito Santo, em Belo Horizonte-MG.
Como os indígenas xerentes estão enfrentando a pandemia

Neste ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou a pandemia do novo coronavírus, causador da covid-19 (sigla inglesa para “doença do coronavírus de 2019”), uma enfermidade letal que põe em risco a vida de muitos povos, de modo especial os indígenas do Brasil. Pôde-se observar o quanto o mal afetou diretamente a vida familiar e comunitária desses povos. As poucas informações por parte dos órgãos públicos especializados em saúde indígena e as notícias falsas deixaram confusos os indígenas, sem saberem como agir em casos de contágio. Isso gerou grande medo entre esses brasileiros. Após os primeiros casos de infecção e morte de lideranças e anciãos, iniciou-se uma corrida contra ao tempo. Com a participação das organizações de lideranças indígenas, com o apoio da Igreja Católica, por meio do Cimi (Conselho Indigenista Missionário), e organizações não governamentais, foram organizadas iniciativas importantes. Para que chegassem às aldeias orientações confiáveis, foram produzidos vídeos breves e cartilhas instruindo que as pessoas ficassem em casa, nas aldeias, em seus territórios. Boa parte do material com as orientações da OMS foi transmitida no próprio idioma das comunidades. Os indígenas também contaram com muitos gestos de solidariedade, como doações cestas básicas e máscaras. Desde o início da pandemia, a Articulação dos Povos indígenas do Brasil (APIB) vem realizando um levantamento independente a respeito do total de casos de covid-19. Os números apurados são bem maiores que os divulgados pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), que conta somente as ocorrências em terras indígenas homologadas. A compilação de dados da APIB tem sido feita pelo Comitê Nacional de Vida e Memória Indígena e pelas organizações indígenas de base da APIB. Outras linhas de enfrentamento à covid-19 organizadas no Brasil também colaboram com a iniciativa. Diferentes fontes de dados têm sido utilizadas nesse esforço. Além da própria Sesai, o comitê tem analisado números das secretarias municipais e estaduais de Saúde e do Ministério Público Federal (MPF) (veja a seguir). A covid-19 entre os indígenasConfirmados: 36.428Indígenas mortos pela covid-19: 846Povos afetados: 158 Dados dos indígenas no Estado de TocantinsSuspeitos: 6Confirmados: 882Descartados: 505Infectados (quadro de 15 de outubro): 14Cura clínica: 857Óbitos: 9 Dados atualizados em 15 de outubro de 2020. Fonte: Cimi e APIB. Risco maior aos povos indígenas A pandemia do novo coronavírus pode ter consequências muito graves para os povos originários, alerta o Cimi, com base nas informações da Sesai, ao reconhecer que os indígenas são mais vulneráveis a viroses, especialmente a infecções respiratórias, como a covid-19. Segundo a Secretaria, as doenças respiratórias são, ainda hoje, a principal causa de mortalidade infantil entre indígenas. Outras doenças do tipo causaram o genocídio de povos inteiros. Como parte de uma história de contatos forçados, guerras e extermínios, contribuíram para reduzir a população indígena no Brasil ao longo dos séculos. Já o MPF avalia que, devido às especificidades dos povos indígenas, a vulnerabilidade social de diversas comunidades e o alto índice de propagação do coronavírus, é real o risco de genocídio em meio à pandemia. Por isso o MPF emitiu uma série de recomendações a órgãos públicos, ministérios, Estados e Municípios. Dentro dessa realidade, tanto os xerentes (um dos povos indígenas do Tocantins), como os missionários que atendem às comunidades (Ir. Sílvia Wewering, Ir. Maria Leonice Neves e Pe. Martins Rodrigues Putêncio) estão em isolamento social. Seguindo as orientações da vigilância sanitária e da Arquidiocese de Palmas-TO, alguns projetos tiveram de ser interrompidos, como o I Congresso dos Clãs Xerentes, que já estava sendo preparado. Os organizadores já tinham iniciado o plantio das roças de mandioca e de grãos, uma ação contra a fome denominada “Plantar Mais!”. A proposta também era ter mais alimentos para o próprio Congresso. “Estamos ainda desconfiados” Em um comunicado, o cacique Sawrepte e o professor Nelson Praze, também indígena, dão detalhes sobre como os xerentes estão enfrentando a pandemia. “No início, nós ficamos surpresos, como todo o mundo. Claro, também um pouco assustados sobre essa doença. Pensamos até que essa doença não iria entrar nas aldeias. Tivemos que adiar o Encontro de Clãs, o Congresso Xerente. Mas, quando o primeiro parente nosso adoeceu e faleceu, nós ficamos muito preocupados. Ao todo, chegaram a morrer três xerentes, um sofrimento muito grande para nós todos aqui. Logo, os nossos anciãos (pajés) ensinaram para todos nós, que somos mais jovens, os remédios do mato, cascas e raízes. Isso nos ajudou bastante, tanto que agora não tivemos mais nenhum caso novo. Além da medicina tradicional, tivemos a proteção do nosso Waptokwazawre, Pai Grande. Estamos ainda desconfiados, com medo de surgir a doença de novo. Por isso estamos cuidando, sempre usando a máscara quando saímos das nossas aldeias. As crianças pararam de ir às escolas. Só as aldeias maiores têm internet, com isso vamos ter um atraso no estudo. Esperamos que tudo possa melhorar no futuro, para nós, para todos!” O Povo Akwẽ Xerente luta pela vida. Os membros dessa comunidade estão se cuidando e continuam reivindicando seus direitos por saúde, especialmente para seus anciãos, que são os guardiões da cultura, das tradições. Irmã Maria Leonice Neves é missionária serva do Espírito Santo, pós-graduada em Pedagogia Social com o tema “A atuação das mulheres indígenas xerentes na sua cultura”. ______ Irmã Sílvia, Thekla Wewering, SSpS, trabalha com o Povo Xerente, no grupo NIPAX (Núcleo de Intercâmbio do Povo Akwẽ Xerente), nos encontros frequentes, no estudo-pesquisa, registro de dados, elaboração de textos e na articulação, apoio e organização de material pedagógico, como cartilhas na língua akwe, do livro “Povo Akwẽ Xerente: Vida/Cultura/Identidade”, e outros.
Reflexões de uma professora/mãe na pandemia: os desafios e as aprendizagens no período de isolamento

Iniciamos o ano de 2020 repletos de sonhos, planos e metas a cumprir. Não sabíamos muito bem como ele seria. Até então, o que nos aguardava permanecia um doce mistério. Demos um salto de fé e começamos este ano maravilhoso, acreditando, realizando e também sonhando. No mês de março, entretanto, fomos surpreendidos por um vírus desconhecido, por uma pandemia que mudou completamente os rumos de nossas vidas. O novo coronavírus trouxe impacto em nível global, chamando a atenção pelo alcance que teve e pela velocidade com a qual se disseminou. A sociedade está diante de uma emergência de saúde pública. Vivemos um contexto de incertezas, medo, ansiedade. Tememos uma recessão global. Como podemos iniciar nossas reflexões? Se pudéssemos eleger alguns sentimentos, neste ano, seriam medo, falta e saudade. Mas medo de quê? Falta de quê? Saudade de quê? A pandemia de covid-19 isolou os indivíduos em suas casas, fechou nosso comércio. Nos parques de diversão, as luzes se apagaram, cidadãos ficaram desempregados, nossas casas se transformaram em estações de trabalho, enquanto plataformas digitais foram disponibilizadas aos professores e aos alunos, praticamente da noite para o dia. Isolamento social, crianças longe da escola, dos avós e familiares… Acostumados que estávamos a nosso antigo cotidiano, pais e mães passaram então a ser a principal companhia para os filhos, algo inesperado para ambas as partes. Deparamo-nos com uma rotina com a qual nunca havíamos vivido, com as emoções de nossos filhos e com nossas emoções. Todos nós nos vimos presos em casa e reclusos em nós mesmos, só que não demorou para percebermos que a aparente clausura em que a sociedade estava sendo colocada podia ser, na verdade, também libertadora. Logo explico. O que é a vida? Perguntamo-nos… Penso que a vida é isso: um eterno adaptar-se e readaptar-se. Darwin já dizia que os sobreviventes não eram os mais fortes, mas os que melhor se adaptavam às mudanças… E que mudanças! Haja criatividade, mas, vamos lá, nós vamos conseguir! Nossa palavra de ordem é esperança!Para quem não sabe, sou professora há quase 12 anos. Sou mãe de uma criança de 6 anos e de uma de 3 anos. Sou esposa há dez anos, filha há 36 anos e irmã também. Estou trabalhando em casa, numa mistura louca de mãe e professora. Não consigo dissociá-las; elas se complementam. Estamos colocando em prática estratégias de aprendizagem e relações por meio do afeto, do vínculo e do respeito ao ritmo e ao tempo de cada criança. É um desafio organizar a rotina da casa, o trabalho remoto e a maternidade, entretanto não temos uma receita, temos vontade e força para lutar. Desistir jamais! A situação emergencial nos fez abraçar a tecnologia como uma ferramenta pedagógica, com a qual nos aproximamos das crianças e de seus familiares para uma troca fundamental. Toda adaptação exige tempo, porém não tínhamos esse tempo, tampouco fórmula mágica. Mas tínhamos de ter bom senso e generosidade… Minha casa se transformou num espaço de aprendizagens. Resolvi desacelerar. Envolvi meus filhos nessa rotina desafiadora. Recebemos kits pedagógicos do colégio e embarcamos numa viagem de grandes descobertas. Recebemos fita-crepe, lupa, quebra-cabeça magnético, tinta, pincel, cola colorida, jogo da batalha de palavras, boneco ecológico. A fita-crepe foi fixada na sala e transformou-se em uma trilha mágica de carrinhos; a lupa nos transformou em pesquisadores de animais de jardins; os rolos dos projetos do papai viraram telas dos meus pequenos artistas… Quanta riqueza nessa infinidade de materiais! Quem já fez massinha caseira quando era criança? Minhas crianças amam brincar com massinha! Nossa cozinha virou um laboratório de pesquisa. A turma do infantil III do Colégio Sagrado Coração fez uma experiência com a batata-doce antes da pandemia. A batata tem até nome: é a Filomena. A professora Renata Paiva precisava de um lar para acolher a querida Filomena. Então recebemos a Filomena em nossa casa. Não é que ela ficou satisfeita? Precisamos dar tempo e liberdade às crianças, para que elas explorem, conheçam e se relacionem com o mundo. Segundo a psiquiatra e educadora Maria Montessori, “As crianças precisam ter licença para fazer ciência. E fazer ciência quando se é uma criança começa pela exploração sensorial de tudo”. Isso significa que elas precisam tirar a casca da banana, devem colocar as mãos e os pés na terra, podem tirar as pétalas da rosa para ver como é no centro e até prenderem um inseto dentro de um vidro por algumas horas, para poderem ver seu corpo e o soltar depois dessa observação. Esses momentos ricos em aprendizado podem e devem ser documentados por meio de desenhos e fotos. Experiências, contato com a natureza, mesmo com o isolamento social… Mãos na terra, aprendizado para a vida! A partir de agora, o projeto continua em nossa casa. As hipóteses estão surgindo, e nós vamos adorar investigar. Como podemos cuidar da Filomena? Ela gosta de sol? Podemos colocar água todos os dias? Muita ou pouca? De uma forma diferente, estamos ensinando nossos filhos, levando em consideração o modo como eles pensam e aprendem, possibilitando-lhes diversos tipos de interações e experiências significativas. Essa é uma história de pais, tios e avós super-heróis, que encontraram formas de suprir a ausência da rotina escolar na vida da criança. O amor é o fio condutor de nossa história. Meu filho João relata que está aprendendo muito, mesmo que seja pelo computador. Diz que sente falta da escola, dos amigos e dos professores. Quer voltar à escola para brincar e pesquisar. Finalizou seu depoimento, dizendo que é muito feliz na escola, pois tem muitos amigos. Ele não apresentou dificuldades para adaptar-se às aulas on-line. Demonstra independência e autonomia para realizar suas atividades diárias. Consulta o Google sala de aula para verificar os materiais que serão utilizados pelos professores. Fica frustrado quando não há conexão de internet. Minha filha Maria Beatriz quer ir para a escola, mas sabe que o colégio está fechado. Relata que sente saudades dos amigos e do parquinho. Ela tem apenas 3 anos, mas sente muita falta desse espaço mágico que é
Da Pátria à cidadania justa

Há seis meses, a população brasileira está vivendo um tempo diferente, sofrido. Muitos perderam seus entes queridos… O período da pandemia do covid-19, para alguns, tem sido difícil, todavia, para outros, tem sido de oportunidades. Como pátria, somos solidários com todos os familiares que passam por momentos de dor. Mas, o que é “pátria”? Conforme estudos, pátria é um lugar onde o ser humano nasce ou vive por muitos anos e ao qual se sente afetivamente ligado por valores históricos e culturais. Como cidadãos, defendemos o mesmo território, criamos leis para cumprirmos os deveres e termos garantidos os mesmos direitos. Mas, de que adianta nos reunirmos, votar em representantes se não levarmos em conta as necessidades essenciais dos outros?Embora ainda a maioria dos cidadãos brasileiros esteja confinada em casa, como idosos, crianças, jovens estudantes e funcionários em trabalho remoto, é muita a empatia com aqueles que são vulneráveis, em situação de rua e desempregados. Mas o que move indivíduos e grupos a se (re)unirem em favor dos mais necessitados? A Palavra. Não é qualquer palavra, mas a Palavra de Deus, o Verbo; a Palavra que se faz ação. Do mesmo modo que o Verbo (Palavra) se fez carne, também agimos no bem quando nos colocamos no lugar do outro ou procuramos estar a serviço dos mais necessitados. Costurar máscaras, criar cozinhas comunitárias, buscar e, ou, entregar remédio ou marmita, ir à padaria para a vizinha, ligar para uma pessoa idosa ou que mora sozinha, enfim, transmitir a Palavra. E assim, entrar em comunhão com outros e, consequentemente, consigo mesmo. O alimento que sacia a matéria corporal transcende as paredes ou bancas solidárias, criando laços de reconhecimento da prática cidadã e, também, cristã. O exemplo das comunidades cristãs, onde “todos tinham tudo em comum” permite que os “invisíveis” tornem-se “visíveis”, isto é, todo cidadão ou grupo de indivíduos passa a ter seus direitos respeitados, embora ainda não seja plenamente o ideal. O Brasil é a nossa pátria, nossa nação. Todos nós, brasileiros e estrangeiros que aqui habitam, somos responsáveis pela manutenção de nossa flora e fauna, de nossas fronteiras, de zelar pelo meio ambiente, de cuidar uns dos outros, colocando-se no lugar do outro, ter empatia. Para isso, exercitar as virtudes da justiça, da honestidade, da lisura, da prudência, buscar a sabedoria para agirmos com ética é fundamental para eliminarmos os desvios de conduta prejudicial à coletividade. Nossa Pátria, sendo um Estado laico, acolhe todas as crenças religiosas e respeita os que se dizem agnósticos quanto ao sobrenatural. Há espaço para a diversidade nas dimensões social e política no Brasil, mesmo porque somos uma nação culturalmente plural. As diferenças nos enriquecem. Como um jardim de várias flores, sejamos botões de esperança, sementes da Palavra que gera vida. Aproveitemos, portanto, este tempo de pandemia para sermos éticos, solidários e também bíblicos, no sentido de buscarmos praticar uma cidadania justa. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia, Pedagogia e Teologia pelo Mater Ecclesiae, professora de Filosofia, filiada à ABA, APEOESP e SBPC; membro da Comissão de Prevenção e Combate à Tortura pela ALESC; voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis.
A pandemia na perspectiva de uma comunidade de idosas

Vivendo nesta época da pandemia, cada pessoa tem uma história para contar às gerações futuras sobre a pandemia causada pelo novo coronavírus, que transformou a vida comum em um “novo normal”. Santana é uma comunidade de missionárias servas do Espírito Santo já idosas. São vinte irmãs, algumas acamadas, outras na cadeira de rodas, outras andando com a ajuda de bengala. Todas têm muito para contar. O covid-19 está afetando drasticamente a população global. Em muitos países, os idosos, por serem mais vulneráveis, enfrentam riscos maiores. Em relação às irmãs da Comunidade de Santana, os cuidados estão sendo redobrados. “Nossa responsabilidade é apoiá-las e protegê-las para não contraírem essa doença”, explica a Ir. Maria Percila Vieira, coordenadora provincial. Por orientação médica, as religiosas não recebem visitas, nem mesmo das outras irmãs de congregação. Irmã Maria Percila descreve os cuidados que elas recebem. Regularmente, as missionárias passam por consultas médicas e por acompanhamento de dentista, fisioterapia, nutricionista, enfermeiras e cuidadoras que estão sempre ao lado das missionárias. Ela também as acompanha nas reuniões e as ajuda a se organizarem melhor nas orações, missas e outras práticas espirituais. “Isso as ajuda a ter saúde física e mental. Estão todas felizes e com boa saúde, graças a Deus”, afirma a provincial. “A população de rua e os pobres passam fome e não têm quem cuide deles neste tempo de pandemia”, lamenta Ir. Maria das Graças Mallmann, 80 anos, coordenadora da comunidade. Ela se sente muito agradecida pelos cuidados recebidos, quando tantas pessoas não têm o necessário. “As cuidadoras estão se arriscando para cuidar de nós e de nossas necessidades”, acrescenta. “Agora a nossa única missão é rezar, e repito sempre a oração ‘Vinde, Maria, chegou o momento, se humano socorro vier a faltar, com o vosso sempre podemos contar’”. Irmã Mansuetis Santanna, 92, falou sobre calamidades naturais que vêm acontecendo nos últimos anos, e agora reflete sobre a pandemia que tira a vida de milhares de pessoas: “Somos vulneráveis. O futuro parece incerto”. Apesar disso, Ir. Mansuetis tem muita fé e esperança que Deus transformará toda essa situação e cita a frase do Apocalipse (21,5): “Eis que eu faço novas todas as coisas”. A Ir. Maria Catarina Schneider, 79, explica que sua visão em relação à própria vida mudou. “O coronavírus levanta questões metafísicas”. E ela se pergunta: “Por que isso está acontecendo? O que isso significa?”. Para ela, questionamentos como esses podem levar à oração. “Em vez de caminhar lá fora, caminho por dentro de mim. Agora compreendo melhor o que é a transitoriedade da vida”, partilha. Acompanhamento profissional A fisioterapeuta Daniela Aparecida Mourão se sente feliz e grata por trabalhar em um ambiente seguro e protegido: “Quando entro no convento, meu medo desaparece. Cada dia é uma batalha diferente, e tenho que vencer”. Ela explica que a Fisioterapia desempenha um papel importante no aumento da imunidade e da saúde mental durante a pandemia; a respiração melhora quando se fazem exercícios, ajuda no tratamento e na recuperação de pacientes também com covid-19. “Quando cuido da saúde dos outros, Deus cuida de mim; é uma bênção para mim e para minha família”, declara a fisioterapeuta. Maria das Graças Serrão da Silva, uma das enfermeiras que cuida das idosas, recorda o pronunciamento da Organização Mundial de Saúde, que declarou 2020 o “Ano da Enfermeira e da Parteira”, em comemoração ao 200º aniversário de Florence Nightingale (1820–1910). “Foi completamente inesperada esta crise internacional de saúde”, afirma. “Como cuidadoras de saúde, temos de buscar formas de proteger aqueles que estão em maior risco, como as irmãs idosas aqui”, explica Marisa Ferreira Gomes, outra enfermeira da comunidade. Apesar de seus medos e ansiedades, “temos de ser esperança e otimismo para as situações de desesperança”, acrescenta Maria das Graças. “A pandemia me faz pensar que a vida é curta, e desejo ser feliz, e as pessoas ao meu redor também. O que está acontecendo no mundo, com certeza, nos deixa tristes e deprimidos”, confessa Marcela Soares da Silva, uma das funcionárias da casa. Ela encontra sua própria maneira de tornar sua vida feliz e satisfatória. Ela costuma ouvir música no celular enquanto trabalha e aproveita breves momentos para conversar com as irmãs idosas e rir com elas. “Estou feliz e grata por ser capaz de trabalhar em um ambiente de silêncio e paz”, acrescentou. Com muita sabedoria, Norma Suely Barbosa dos Santos, uma das cuidadoras, acredita que “Deus está cuidando de nossas vidas, e nós na terra temos que cuidar de nosso próximo”. Ela recorda a parábola do “Bom Samaritano”. “Hoje essas irmãs precisam de nossa ajuda e cuidado, e amanhã podemos estar na mesma situação. Por isso precisamos ser mais humanas e bondosas com todos”, conclui.
Em tempo de máscaras: o olhar, o ouvir e a ação

“#Fiqueemcasa, mas, se sair, use máscara.” O compromisso com a vida, com o outro atualmente começa com um gesto simples, o uso de máscara cobrindo o nariz e a boca. Essa solidariedade, além de ser uma recomendação dos especialistas da área da saúde, é um ato de empatia. E você, tem usado sua máscara de modo correto? Quais modelos você utiliza? São tantas, profissionais e caseiras, não importa. O importante é não ficar sem o uso da máscara. O fato de se cuidar demonstra que está cuidando do outro, lembra a frase “Faça aos outros o que gostaria que fizessem a você”. Essa máxima nunca foi tão verdadeira quanto na atual conjuntura mundial. Somos todos conectados, afirma a Física Quântica. Nesse sentido, o uso da máscara passou a ser um acessório indispensável para todos, independentemente da classe social. Não basta apenas lavar as mãos, deixar os calçados num canto da casa ou evitar aglomerações, o ar que respiramos não é mais o mesmo… Analisando esse momento de pandemia gerado pelo covid-19, em que todo cidadão precisa usar máscara, podemos aprender algumas coisas. Em tempos de máscaras, chama a atenção o olhar de cada um. Há décadas, as pessoas não se olhavam mais por causa da televisão ou do computador e, recentemente, do celular. Agora, olhar para o outro é um desafio constante, pois os olhos revelam a alma que está dentro de você. E, dependendo do seu olhar, de sua empatia, entenderá o outro, devendo colocar-se no lugar dele. Quantos estão precisando de sua ajuda neste momento de crise, por causa de desemprego ou por causa de desafetos, ou mesmo porque estão doentes, sozinhos? Dar as mãos ou abraçar devemos evitar, mas ouvir é de graça! A máscara sinaliza não falar, mas olhar, ouvir e agir. Ter compromisso com a vida. Ficar em casa significa ouvir-se também. Quantos apelos dentro de si o têm transtornado? Ouvir os filhos, a esposa ou o esposo, os pais, os avós… Imagino o quanto de apelos os agentes de saúde (médicos, enfermeiros, técnicos da área de saúde) ouvem todos os dias e a todo instante quando chega mais um enfermo nos hospitais. Há muitos desesperados, desolados. E os cientistas então? Estão a ouvir o apelo mundial pela vacina ou por uma medicação eficaz. E quantos estão a orar pedindo a Deus que os ouça? Muitas famílias, neste tempo de pandemia, têm reencontrado com seus afetos antes dispersos. No entanto outras estão amarguradas pelos desafetos, buscando quem as ouça, quem as socorra. Infelizmente, há muitas máscaras invisíveis que não demonstram quem a pessoa é. Geralmente, os que não querem ouvir automaticamente puxam a máscara protetora para o pescoço ou então, por descaso, nem a usam. Mas quem tem o olhar de empatia e o ouvir solidário busca agir de modo fraterno e justo. A ação passa a ser coerente com a situação. A realidade social clama por pessoas que saibam ver o outro e ouvir os apelos dos mais fracos, dos mais vulneráveis, dos mais isolados, dos mais empobrecidos, porque são os menos ouvidos por aqueles que deveriam ouvir e agir mediante decisões sensatas. Além de ouvir os infectados pelo covid-19, não deixemos de ouvir e agir em prol da vida de negros e mulheres sufocados pela desigualdade, pelo preconceito e pela discriminação. No momento, ainda são os apelos mais expressivos que existem Em tempos de máscaras, olhar, ouvir e agir são características de todos aqueles que são vocacionados a dar sua vida pela vida do outro, que colocam em prática seus conhecimentos e também suas virtudes, como a bondade e a solidariedade, buscando uma ação justa. Neste mês de agosto, mês dedicado a ouvir o chamado, a ouvir o apelo do Espírito, ouça os que ainda não têm quem os ouça. Faça valer cada minuto que existe para dar sentido a uma vida sem “máscaras” sociais, que somente têm causado decepções e corrupção humana. Cuide-se sem esquecer de cuidar do outro. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, Teologia pelo Mater Ecclesiae, professora de Filosofia, filiada à ABA, APEOESP e SBPC; membro da Comissão de Prevenção e Combate à Tortura pela ALESC, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, na Arquidiocese de Florianópolis.
Bispos se manifestam diante da crise atual

No último dia 26 de julho, foi divulgada a “Carta ao Povo de Deus”, assinada por 152 bispos da Igreja Católica no Brasil. Enfatizando a missão evangelizadora da Igreja e com um tom altamente profético, os bispos deixam claro o posicionamento deles diante da atual conjuntura brasileira. Leia a íntegra da carta a seguir. CARTA AO POVO DE DEUS “Somos bispos da Igreja Católica, de várias regiões do Brasil, em profunda comunhão com o Papa Francisco e seu magistério e em comunhão plena com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que no exercício de sua missão evangelizadora, sempre se coloca na defesa dos pequeninos, da justiça e da paz. Escrevemos esta Carta ao Povo de Deus, interpelados pela gravidade do momento em que vivemos, sensíveis ao Evangelho e à Doutrina Social da Igreja, como um serviço a todos os que desejam ver superada esta fase de tantas incertezas e tanto sofrimento do povo. Evangelizar é a missão própria da Igreja, herdada de Jesus. Ela tem consciência de que ‘evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no mundo’ (Alegria do Evangelho, 176). Temos clareza de que ‘a proposta do Evangelho não consiste só numa relação pessoal com Deus. A nossa resposta de amor não deveria ser entendida como uma mera soma de pequenos gestos pessoais a favor de alguns indivíduos necessitados […], uma série de ações destinadas apenas a tranquilizar a própria consciência. A proposta é o Reino de Deus […] (Lc 4,43 e Mt 6,33)’ (Alegria do Evangelho, 180). Nasce daí a compreensão de que o Reino de Deus é dom, compromisso e meta. É neste horizonte que nos posicionamos frente à realidade atual do Brasil. Não temos interesses político-partidários, econômicos, ideológicos ou de qualquer outra natureza. Nosso único interesse é o Reino de Deus, presente em nossa história, na medida em que avançamos na construção de uma sociedade estruturalmente justa, fraterna e solidária, como uma civilização do amor. O Brasil atravessa um dos períodos mais difíceis de sua história, comparado a uma ‘tempestade perfeita’ que, dolorosamente, precisa ser atravessada. A causa dessa tempestade é a combinação de uma crise de saúde sem precedentes, com um avassalador colapso da economia e com a tensão que se abate sobre os fundamentos da República, provocada em grande medida pelo Presidente da República e outros setores da sociedade, resultando numa profunda crise política e de governança. Este cenário de perigosos impasses, que colocam nosso país à prova, exige de suas instituições, líderes e organizações civis muito mais diálogo do que discursos ideológicos fechados. Somos convocados a apresentar propostas e pactos objetivos, com vistas à superação dos grandes desafios, em favor da vida, principalmente dos segmentos mais vulneráveis e excluídos, nesta sociedade estruturalmente desigual, injusta e violenta. Essa realidade não comporta indiferença. É dever de quem se coloca na defesa da vida posicionar-se, claramente, em relação a esse cenário. As escolhas políticas que nos trouxeram até aqui e a narrativa que propõe a complacência frente aos desmandos do Governo Federal não justificam a inércia e a omissão no combate às mazelas que se abateram sobre o povo brasileiro. Mazelas que se abatem também sobre a Casa Comum, ameaçada constantemente pela ação inescrupulosa de madeireiros, garimpeiros, mineradores, latifundiários e outros defensores de um desenvolvimento que despreza os direitos humanos e os da mãe terra. ‘Não podemos pretender ser saudáveis num mundo que está doente. As feridas causadas à nossa mãe terra sangram também a nós’ (Papa Francisco, Carta ao Presidente da Colômbia por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente, 05/06/2020). Todos, pessoas e instituições, seremos julgados pelas ações ou omissões neste momento tão grave e desafiador. Assistimos, sistematicamente, a discursos anticientíficos, que tentam naturalizar ou normalizar o flagelo dos milhares de mortes pela covid-19, tratando-o como fruto do acaso ou do castigo divino, o caos socioeconômico que se avizinha, com o desemprego e a carestia que são projetados para os próximos meses, e os conchavos políticos que visam à manutenção do poder a qualquer preço. Esse discurso não se baseia nos princípios éticos e morais, tampouco suporta ser confrontado com a Tradição e a Doutrina Social da Igreja, no seguimento Àquele que veio ‘para que todos tenham vida e a tenham em abundância’ (Jo 10,10). Analisando o cenário político, sem paixões, percebemos claramente a incapacidade e inabilidade do Governo Federal em enfrentar essas crises. As reformas trabalhista e previdenciária, tidas como para melhorarem a vida dos mais pobres, mostraram-se como armadilhas que precarizaram ainda mais a vida do povo. É verdade que o Brasil necessita de medidas e reformas sérias, mas não como as que foram feitas, cujos resultados pioraram a vida dos pobres, desprotegeram vulneráveis, liberaram o uso de agrotóxicos antes proibidos, afrouxaram o controle de desmatamentos e, por isso, não favoreceram o bem comum e a paz social. É insustentável uma economia que insiste no neoliberalismo, que privilegia o monopólio de pequenos grupos poderosos em detrimento da grande maioria da população. O sistema do atual governo não coloca no centro a pessoa humana e o bem de todos, mas a defesa intransigente dos interesses de uma ‘economia que mata’ (Alegria do Evangelho, 53), centrada no mercado e no lucro a qualquer preço. Convivemos, assim, com a incapacidade e a incompetência do Governo Federal para coordenar suas ações, agravadas pelo fato de ele se colocar contra a ciência, contra estados e municípios, contra poderes da República; por se aproximar do totalitarismo e utilizar de expedientes condenáveis, como o apoio e o estímulo a atos contra a democracia, a flexibilização das leis de trânsito e do uso de armas de fogo pela população, e das leis do trânsito e o recurso à prática de suspeitas ações de comunicação, como as notícias falsas, que mobilizam uma massa de seguidores radicais. O desprezo pela educação, cultura, saúde e pela diplomacia também nos estarrece. Esse desprezo é visível nas demonstrações de raiva pela educação pública; no apelo a ideias obscurantistas; na escolha da educação como inimiga; nos sucessivos e grosseiros erros na escolha dos