Nações Unidas declaram 2019 como o Ano Internacional das Línguas Indígenas

A diversidade cultural é uma das maiores riquezas que temos no mundo, e é inegável a contribuição das comunidades indígenas para a preservação da história cultural da humanidade. Falantes da maioria das línguas mundiais, esses povos herdaram e continuam transmitindo às sucessivas gerações a história, os costumes, as formas artísticas, as tradições, a memória, o pensamento e significados dessas culturas. De acordo com dados da UNESCO, existem hoje 370 milhões de indígenas no mundo, presentes em 90 países. Ao todo, são 5 mil culturas indígenas distintas. É pela linguagem que esses povos mantêm viva a memória do passado e constroem seu futuro. Apesar dessa relevância, as línguas indígenas vêm desaparecendo em um ritmo alarmante. Assim, diante dessa perda progressiva do que é considerado patrimônio mundial, a UNESCO declarou 2019 como o Ano Internacional das Línguas Indígenas e pretende focar nas seguintes áreas: • aumento da compreensão, da reconciliação e da cooperação internacional; • criação de condições favoráveis para o intercâmbio de conhecimentos e difusão das boas práticas em relação às línguas indígenas; • integração das línguas indígenas no estabelecimento de normas; • empoderamento por meio da capacitação; • crescimento e desenvolvimento por meio da elaboração de novos saberes. Para melhor difundir pesquisas, eventos, vídeos, formas de participação e outras informações, foi criado o site (em espanhol) https://es.iyil2019.org/. Conhecer a cultura desses povos certamente é a melhor maneira para ajudar em sua preservação. A perda de elementos culturais, como as línguas indígenas, é um prejuízo enorme para toda a humanidade e não apenas para um grupo. Por isso empenhemo-nos, todos, na conservação das línguas indígenas! Por: Irmã Stela Maris MartinsPresidente da Redes (Rede de Solidariedade) e graduanda em Ciências Sociais pela PUC Rio.

A acolhida que muda a vida dos migrantes

O fenômeno da migração cresceu tanto no Brasil como no mundo que se tornou um forte apelo missionário para a Congregação, especialmente diante dos inúmeros sofrimentos e dificuldades que os migrantes enfrentam até se integrarem em sua nova terra. Em São Paulo-SP, as missionárias servas do Espírito Santo, ao escutarem as necessidades dos migrantes da região do Brás, deram início ao Centro de Integração do Migrante (CIM). Atualmente, o espaço oferece atividades educativas e culturais para crianças, adolescentes, jovens e adultos. A seguir, publicamos o depoimento de Lucélia Arrioja, imigrante venezuelana que trabalha no CIM como coordenadora de projetos sociais. O CIM ajuda a acalmar as angústias e a diminuir as dores O Centro de Integração do Migrante (CIM), localizado no bairro do Brás, na cidade de São Paulo-SP, funciona desde 12 de dezembro de 2015. Apareceu como uma luz no caminho dos migrantes que chegamos ao país, procurando uma mão amiga, entre tanto cansaço, angústia e momentos difíceis que passamos desde que decidimos começar a viagem até aqui. Nesse sentido, as pessoas que pensaram, criaram e materializaram o projeto trabalharam, dia após dia, com persistência, dedicação, humildade e, sobretudo, uma grande sensibilidade pelo próximo que não necessitava de palavras, porque, pelo olhar, o ouvir e o manter os braços abertos diante de qualquer circunstância, conseguiram ajudar a acalmar as angústias e diminuir as dores. E esse jeito de tratar as pessoas como seres humanos que são fez uma grande diferença que tocou no coração de muitas outras que eram cegas e surdas diante dessa realidade. No percorrer dos anos, multiplicou-se com o envolvimento e apoio de voluntários e pessoas da comunidade, convertendo-se em um espaço alternativo onde todas as pessoas são bem recebidas sem importar raça, cor, religião ou cultura. No entanto, não foi uma tarefa fácil, porque, como migrantes, sejamos de outros países ou dentro do Brasil mesmo, sofremos preconceitos. Muitas pessoas nos olham como ameaças e outras tantas se aproveitam de nossas necessidades e nos exploram com trabalhos forçados ou de muitas horas de duração. Porém o CIM tenta quebrar esses flagelos que nos afetam, usando a educação combinada com diferentes atividades que envolvem crianças, adultos e idosos. Nosso CIM, como muitas pessoas gostam de chamá-lo, veio para transformar a vida de todo aquele que passa ou faz parte dele, porque, em sua essência, tem como premissa proteger, integrar, promover e, sobretudo, acolher a todos e todas. Mas se esforçam para nos empoderar, por meio de cursos livres de capacitação, que nos ajudam a ter outras ferramentas tanto acadêmicas quanto espirituais para nos manter fortalecidos e sentindo que não estamos sozinhos em nossa caminhada nesta metrópole. No meu caso particular, eu considero o Centro como minha segunda casa e as irmãs e companheiros como parte dessa família que formamos baseada num vínculo que nos une, traduzido pelo amor que temos uns aos outros e que nos permitiu avançar nesta caminhada que empreendemos há pouco mais de dois anos, desde que saímos da Venezuela. E aconteceu porque, quando chegamos aqui, neste espaço, fomos acolhidos com tanto carinho e com uma “sorofraternidade” que jamais esqueceremos e que, para sempre, agradeceremos. Cada uma das irmãs e professoras(es) que já passaram ou que ainda se encontram trabalhando no CIM terão um lugar muito especial em nossos corações, como tenho a certeza de que estarão nos corações de outros tantos migrantes que estão no Brasil ou que já continuaram sua viagem. A mística de trabalho que aqui se tem faz com que cada vez somemos mais pessoas a participarem ativamente na criação de novos projetos ou na permanência e melhoria dos que já estão sendo executados. Para nós, isso é motivo de alegria e satisfação, porque é um resultado positivo que nos indica que estamos no caminho certo e que, para além dos tropeços, temos a convicção de estar colaborando, a partir de nosso CIM, para a construção de um Brasil melhor para todos os que aqui já vivemos e também para os que vêm chegando. Para finalizar, é importante mencionar que, nos últimos dois anos em que trabalhei nesta instituição, sinto muito orgulho, junto com os meus colegas, pelo fato de ter atendido muitas pessoas que enriqueceram o espaço com sua sabedoria e diversidade cultural. Lucelia del Valle Briceño ArriojaCoordenadora de projetos sociais do CIM

Escolas ainda mais vivas com o retorno às aulas

Um novo ano, um novo ciclo, uma nova etapa, novos aprendizados. Os colégios da Rede Missionárias Servas do Espírito Santo se prepararam para receber seus alunos para mais um ano letivo. Os educadores dos quatro colégios e dos três centros educacionais passaram por uma jornada pedagógica, na qual puderam pensar e discutir os próximos passos nesse encantador caminho rumo ao conhecimento. A irmã Maria Aparecida Ribeiro acompanhou as atividades do Colégio Stella Matutina, em Juiz de Fora-MG, o primeiro a ser fundado, e também de nossas creches. A irmã Maria de Fátima Marques esteve nos Colégios Espírito Santo, em São Paulo-SP, Imaculado Coração de Maria, no Rio de Janeiro-RJ, e no Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG. “Levamos a mensagem de nosso papel missionário. Ressaltamos a nossa responsabilidade na formação não só dos alunos, mas sim de toda as famílias. Uma tendência mercadológica vem transformando a educação em commodity. Nossa rede de educação não acredita nisso e não pratica essa visão. Os nossos educadores entendem e avalizam que o carisma missionário de nossa Congregação é a vanguarda da educação. Essa convicção é muito importante, pois são eles que fazem as nossas escolas pulsarem, fazem com que sejam escolas vivas”, enfatiza irmã Maria de Fátima, presidente da Rede de Educação. “Para dar as boas-vindas aos alunos dos colégios da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo, fizemos uma brincadeira divertida: transformarmos as escolas em um álbum de figurinhas”, conta irmã Maria de Fátima. No primeiro dia de aula, os alunos receberam o álbum, mas com apenas um pacotinho de figurinhas. Todos ficaram eufóricos, e a pergunta mais respondida pelos educadores era “Como fazemos para ganhar outras figurinhas?”. Para receber outros pacotinhos, eles devem participar de atividades pedagógicas preparadas especialmente para essa distribuição. Figurinha repetida completa álbum? Não! Então, em momentos de socialização, eles trocarão os cromos. Mesmo com décadas de idade (o caçula é o Colégio Espírito Santo, que tem 80 anos), os nossos colégios não param de se modernizar. O período de férias foi de movimentação intensa em todas as unidades, para deixar as estruturas preparadas para acolher os alunos. As benfeitorias são constantes. O Stella está recebendo novas salas de aulas e banheiros. O Coração de Maria está reformando o espaço que abriga o sistema semi-integral, além de toda a infraestrutura elétrica, telefonia e rede de internet que está sendo refeita, o que garantirá grande otimização na parte tecnológica. Já no Sagrado, a clássica e imponente fachada está sendo restaurada. O Espírito Santo modernizou o sistema de audiovisual das salas de aulas. Nós nos orgulhamos de sermos escolas vivas e estamos preparados para mais um ano letivo com muito empenho e alegria.

CURSO DE BIBLIODRAMA – 2019

O Bibliodrama é uma nova abordagem bíblica a partir da leitura contextualizada e criativa da Palavra de Deus, integrando-a no concreto da nossa vida e missão. Venha conhecer e fazer a experiência desta nova maneira de vivenciar a Bíblia em sua vida pessoal, profissional e na liderança. No Curso apresentaremos os Elementos do Bibliodrama em quatro etapas, cada uma num final de semana durante o ano de 2019: • 1ª etapa: 30 e 31 de março • 2ª etapa: 29 e 30 de junho • 3ª etapa: 17 e 18 de agosto • 4ª etapa: 30 de novembro e 1º de dezembro O curso acontece nos finais de semana com início na sexta-feira à noite com o jantar e momento de integração. Os participantes receberão certificado no final do curso. ……………………………………………………………………………………………………………………………………………………………… DESTINATÁRIOS Educadores (as) e Lideranças Leigas e Religiosas.Vagas limitadas a 25 participantes.Trazer para o curso: Bíblia, caderno para anotações e objetos de uso pessoal. ……………………………………………………………………………………………………………………………………………………………… LOCAL Centro Missionário Cultural Santíssima TrindadeRua São Benedito, 2146 – Santo Amaro – São Paulo/SP – Tel.: 11-5687-7229 ……………………………………………………………………………………………………………………………………………………………… FACILITADORES Ir. Paolo Delucca, SVD Ir. Maria de Fátima Marques de Oliveira, SSpS Ir. Heloise Matos, SSpS ……………………………………………………………………………………………………………………………………………………………… INVESTIMENTO R$ 380,00 para cada etapa, incluindo hospedagem e todas as refeições. O investimento total será de R$ 1.520,00. Cada pessoa custeia sua viagem. INSCRIÇÕES Preencha sua ficha de inscrição até 28/02/2019 pelo Bibliodrama 2019Só serão aceitas as inscrições de quem fizer todas as etapas. Venha vivenciar o Bibliodrama e aprofundar a EspiritualidadeMissionária e Trinitária transformando sua vida e missão.

Vida, missão e martírio: o testemunho da Ir. Dorothy nos desafia

Neste dia 12 de fevereiro, recordamos com indignação o assassinato da Ir. Dorothy Stang, ocorrido em 2005. Missionária da Congregação de Notre-Dame, Ir. Dorothy foi brutalmente alvejada no Município de Anapu–PA. Por décadas, ela se dedicou a aliviar o sofrimento do povo pobre, promover a reforma agrária e a proteger o meio ambiente. Sua ação profética por meio de projetos concretos incomodou os poderosos daquela região: latifundiários interessados na extração de madeira, na expansão do plantio da soja, na conquista do espaço para o gado e na mineração. Depois de 14 anos de seu martírio, percebemos que a Mãe Terra e os filhos do solo paraense continuam sofrendo devido aos avanços do capitalismo selvagem. Indígenas, quilombolas, ribeirinhos e comunidades pobres são os mais vulneráveis aos múltiplos impactos socioambientais gerados pelos megaprojetos. De acordo com informações do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, dos 2.441 km2 de área desmatada entre agosto de 2017 e maio de 2018, 852 km2 foram no Pará. Somente no mês de maio de 2018, a floresta amazônica perdeu uma área verde equivalente a duas vezes o tamanho de Belo Horizonte. Outro projeto de grande impacto para os comunitários e para o meio ambiente no Pará é a mineração de bauxita. A Mineração Rio do Norte (MRN) é a maior produtora de bauxita do Brasil e a terceira maior operação do mundo. As concessões de lavra da empresa abrangem 123.757,12 hectares de floresta amazônica. Além da contaminação das águas, a grande preocupação para os moradores da região são as barragens de rejeitos construídas pela MRN. Um campo de grandes contradições no Estado se refere à produção, distribuição e custos da energia elétrica. O Pará, depois do Paraná, é o Estado que mais gera energia de fonte hídrica. Com as novas instalações na hidrelétrica de Belo Monte, em 2020, tende a ser o primeiro. A Celpa (Centrais Elétricas do Pará S/A) é a única empresa de distribuição de energia elétrica para todo o Estado. Entre 2017 e 2018, ela acumulou um lucro líquido de 549,32 milhões de reais. No entanto, no Brasil, são os moradores do Pará que pagam mais caro pelo consumo de energia elétrica. Mais grave ainda é que existem comunidades onde não há energia nas casas. Estradas em péssimo estado, escolas precárias, falta de transporte, precariedade no sistema de saúde são outras realidades que ferem os direitos garantidos na Constituição, negligenciados ao povo do Pará. A Igreja local depara com esses desafios e enfrenta seus próprios limites. As distâncias entre as comunidades são grandes. O número de padres e religiosas é baixo para a demanda local. Nem sempre há consenso sobre a organização e a ação da Igreja ante a realidade do lugar. Diante desse quadro, Ir. Dorothy continua sendo um raio de luz no coração da Amazônia. Sua vida, consagração e missão conclama especialmente a vida consagrada religiosa a voltar o olhar para essa parte do Brasil. Sua entrega total e seu sangue derramado é o testemunho mais fiel de que seguir o Evangelho é comprometer-se com a integridade da criação até as últimas consequências. IRMÃ DOROTHY, PRESENTE! Por: Irmã Stela Maris Martins Presidente da Redes (Rede de Solidariedade) e graduanda em Ciências Sociais pela PUC Rio

Pré-noviças falam sobre a JMJ 2019

A Jornada Mundial da Juventude 2019 reuniu, no Panamá, entre 22 e 27 de janeiro, cerca de 200 mil jovens de 159 países. O evento mexeu também com os jovens que não puderam viajar. Assim foi com as pré-noviças da Congregação das Missionárias Servas do Espírito Santo (SSpS), que acompanharam a programação pelas redes sociais e pela televisão. No fim de janeiro, as pré-noviças voltaram das férias passadas com a família. Agora vão para a próxima etapa da formação, que será no Paraguai. Duas entram para o noviciado e três para o segundo ano do pré-noviciado, junto com jovens de outros países do continente pan-americano. Para Sabrina Souza da Cruz, 21 anos e pré-noviça do primeiro ano, o que mais a impressionou na Jornada Mundial da Juventude, além da quantidade de jovens participando, foi a missa de abertura e o discurso do Papa Francisco sobre Maria. Ela disse que se alegrou ao ver “o apoio que a Igreja está sempre dando aos jovens”. Ansiosa pelo que vem pela frente, Sabrina disse que “ir a outro país, conhecer outras culturas, outros povos, outras línguas exige uma entrega maior e traz mais desafios”. Para ela, Maria, a mãe de Jesus, é uma inspiração, especialmente pelo seu sim e confiança em Deus. Crislaine Mayra Lopes Pereira, 25 anos, já foi para o Paraguai e, no dia 10 de fevereiro, inicia o noviciado. Ela também acompanhou a Jornada Mundial da Juventude e destacou a missa de abertura e a via-sacra como os momentos mais significativos. O tema da jornada deste ano, “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38), e as palavras do Papa Francisco sobre Maria foram muito tocantes, segundo Crislaine. Recordando as palavras do Papa que chamou Maria de “influencer” de Deus, porque, mesmo em sua pequenez, ela influenciou a história do mundo, Crislaine se pergunta: “E eu, como vocacionada, como jovem, como posso ser uma influência de Deus na vida dos outros jovens e também das irmãs?”. Para Crislaine, a Jornada Mundial da Juventude é importante para os jovens do Brasil e do mundo por “mostrar que a Igreja está do lado do jovem”. Destaques da JMJ no Panamá Apresentamos aqui alguns momentos de destaque da JMJ, de acordo com as declarações do próprio Papa Francisco, logo depois que retornou do Panamá a Roma. Jovens indígenas: a JMJ foi precedida pelo I Encontro Mundial da Juventude Indígena, cinco dias antes. Segundo o Papa Francisco, foi “um belo gesto”, “uma iniciativa importante que manifestou ainda melhor o rosto multiforme da Igreja na América Latina”, que “é mestiça”. Chegada dos jovens de todo o mundo: “Ver todas as bandeiras desfilarem juntas, dançando nas mãos dos jovens alegres de se encontrar é um sinal profético, um sinal contracorrente em relação à triste tendência atual aos nacionalismos conflitantes, que levantam muros e se fecham para a universalidade, para o encontro com os povos”. Presença de Maria na vida dos jovens: “Foi forte ouvir as palavras proferidas pelos representantes dos jovens dos cinco continentes e, sobretudo, vê-las transparecer em seus rostos. Enquanto houver novas gerações capazes de dizer ‘eis-me aqui’ a Deus, haverá um futuro para o mundo”. Celebração da Via-Sacra: “Caminhar com Maria atrás de Jesus que leva a cruz é a escola da vida cristã: ali se aprende o amor paciente, silencioso e concreto”. Vigília do sábado à noite: “Na vigília, renovou-se o diálogo vivo com todos os jovens, entusiastas e também capazes de silêncio e escuta”. “Passavam do entusiasmo à escuta e à oração em silêncio.” Missa de encerramento: “Cristo Ressuscitado, com a força do Espírito Santo, falou novamente aos jovens do mundo, chamando-os a viver o Evangelho no ‘hoje’, porque os jovens não são o ‘amanhã’, são ‘o hoje para o amanhã’, não são o ‘entretanto’, mas o hoje, o agora da Igreja e do mundo”. Próxima JMJ A Jornada Mundial da Juventude ocorre a cada três anos. Em 2013, esta se realizou em nosso país, no Rio de Janeiro; em 2016, foi em Cracóvia, na Polônia; neste ano, na cidade do Panamá, capital do Panamá; e a próxima, em 2022, será em Portugal, na cidade de Lisboa.

A tragédia da privatização da Vale

Para a empresa privada Vale S.A., a hipótese de incorrer em crime ambiental é muito mais barata do que garantir a segurança das pessoas, dos animais, enfim, do meio ambiente. No último trimestre, o lucro da companhia ultrapassou a casa dos 5 bilhões de reais. É por isso que a lógica neoliberal-capitalista destrói, não se importa com a vida humana.  A tragédia da sexta-feira, 25 de janeiro de 2019, pelo rompimento de uma barragem da mina do Córrego do Feijão, da Vale S.A., é apenas mais uma das muitas que vêm aterrorizando a região, numa periodicidade média de aproximadamente um desastre a cada três anos. O número de vítimas fatais não é proporcional ao tamanho das barragens. Desastres como os das barragens da Mineração Rio Verde (atual Mar Azul/Vale, em Nova Lima-MG, em 2001) ou das minas de Fernandinho (Namisa/CSN, 1986) e Herculano (2014), em Itabirito-MG, tiveram vítimas fatais em número proporcionalmente maior do que o da Samarco, em Mariana-MG.  A mineradora Vale, privatizada em 1997, é a terceira maior empresa do Brasil. Está minerando em 30 países e é uma das maiores do mundo. Após cometer o crime trágico do dia 5 de novembro de 2015, em Mariana, o qual ceifou vidas de 19 pessoas, peixes, animais, vegetação… envenenou a mãe terra e a irmã água do Rio Doce, cerca de outras 30 pessoas, nos últimos três anos, foram mortas como vítimas do crime que continua. A VALE prossegue a matança com a cumplicidade de seus aliados, incluindo autoridades e órgãos do Estado de Minas Gerais, governo federal e Poder Judiciário.  Com grande perversidade, a Vale segue repetindo a mesma atrocidade anunciada. Dia 25 de janeiro, às 13h20min, o terror recaiu a partir do Município de Brumadinho-MG, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Esse crime cometido pela Vale pode ser muito maior do que o apontado pelos meios de comunicação. A lama tóxica CHEGARÁ AO RIO SÃO FRANCISCO, RUMO AO MAR!  Recordemos exatamente quando iniciaram as tragédias tendo como responsabilidade direta a privatização da Vale, na voracidade do neoliberalismo de Fernando Henrique Cardoso. Em 6 de maio de 1997, o governo FHC leiloava a principal empresa brasileira no ramo da mineração e infraestrutura, a Vale do Rio Doce (hoje apenas Vale).  A Vale do Rio Doce tinha um papel estratégico na economia nacional. A empresa foi criada em 1942, durante o governo de Getúlio Vargas, com recursos do tesouro nacional. Durante 55 anos, foi uma empresa mista, e o seu controle acionário pertencia ao governo federal. Batendo recordes atrás de recordes, a empresa se tornou uma das principais estatais do País.  Em 1996, a Vale era uma estatal gigantesca, com reservas de metais de US$ 40 bilhões. Mas, antecipadamente, soube-se que grupos de empresas pagariam apenas US$ 3 bilhões para assumirem o poder acionário da estatal. Lembremo-nos do patrimônio da Vale em 1996, segundo a Revista Dossiê Atenção, “Porque a venda da Vale é um mau negócio para o país”, fls. 282-292 da Ação Popular nº 1997.39.00.011542-7/PA.  maior produtora de alumínio e ouro da América Latina;  maior frota de navios graneleiros do mundo;  1800 quilômetros de ferrovias brasileiras;  41 bilhões de toneladas de minério de ferro;  994 milhões de toneladas de minério de cobre;  678 milhões de toneladas de bauxita;  67 milhões de toneladas de caulim;  72 milhões de toneladas de manganês;  70 milhões de toneladas de níquel;  122 milhões de toneladas de potássio;  9 milhões de toneladas de zinco;  1,8 milhão de toneladas de urânio;  1 milhão de toneladas de titânio;  510 mil toneladas de tungstênio;  60 mil toneladas de nióbio;  563 toneladas de ouro; 580 mil hectares de florestas replantadas, com matéria-prima para a produção de 400 mil toneladas/ano de celulose.  Um dia antes do leilão, Fernando Henrique Cardoso afirmou que existia um sentimento “tosco” (rude, grosseiro) aos que se opunham à venda da Vale do Rio Doce e disse que a batalha jurídica em torno da privatização não adiaria o leilão. “Essas pessoas têm um sentimento um pouco tosco e não entendem o significado do que está sendo feito, que foi um ato democrático”, afirmou o então presidente, em 28 de abril de 1997. Para o sociólogo neoliberal, estava ocorrendo era uma “batalha política” na Justiça para impedir o leilão. “Sempre foi assim. Foi assim com a CSN, até mais agressivo. Mas não se vai mudar a data do leilão.” Segundo Fernando Henrique, o fato de o país ter origem ibérica facilitava a disseminação da ideia de que o “mundo parece vir abaixo”: “Não vem abaixo”.  Mas já veio abaixo, várias vezes, para centenas de brasileiros!  Irmã Luciana Rzepka, SSpS – Professora universitária, educadora, teóloga, bióloga, palestrante, pós-graduada em Ciências da Religião, mestranda em Teologia Bíblica. _ _ _ _ Maria Inês C. Preza Freitas – Professora universitária, educadora, escritora, jornalista, filósofa, palestrante, pós-graduada em Ciências da Religião, Filosofia do Ensino Religioso e Filosofia Clínica; mestra e doutoranda em Filosofia Política e pesquisadora em Filosofia da Psicanálise. 

Testemunho Missionário – Irmã Terezinha Colombo

O Testemunho Missionário deste mês apresenta a Ir. Terezinha Colombo, missionária gaúcha apaixonada pela alfabetização. No Tocantins, criou uma escola municipal e assumiu uma paróquia. Atuou também na educação infantil, em São Paulo e em Brasília.

 Choramos com a Mãe Terra lágrimas de lama e sangue.  Não à impunidade! 

Publicamos este artigo de Iglesias y Minería (Igrejas e Mineração), pois reflete o pensamento das missionárias SSpS sobre a tragédia de Brumadinho-MG e traz informações que ajudam a entender por que esse desastre poderia ter sido evitadoe não foi. A rede Igrejas e Mineração chora junto às vítimas do crime ambiental de Brumadinho, Minas Gerais (Brasil).  Estamos escrevendo hoje desde esta comunidade violada, que bem conhecemos e voltamos a visitar, após termos celebrado com ela várias vezes, na caminhada, a vida e a resistência frente à expansão da mineração.  Escrevemos também desde as muitas comunidades latino-americanas atingidas pela violência arrogante do extrativismo, hoje abraçadas silenciosamente à pequena Brumadinho, em lágrimas.  Estamos solidários às famílias das vítimas e às comunidades de fé, que terão o árduo desafio de reconstruir a esperança. Unimo-nos também à Arquidiocese de Belo Horizonte, que, com as palavras do Evangelho, definiu a tragédia como “abominação da desolação”, referindo-se aos “absurdos nascidos das ganâncias e descasos com o outro, com a verdade e com o bem de todos”.  Seguimos acompanhando e assessorando as igrejas empenhadas nos territórios feridos pela mineração e em todos os conflitos abertos entre empresas extrativas e comunidades (só no Brasil há mais de 70 Dioceses onde foram mapeados conflitos).  A impunidade consolida o crime  A empresa Vale S.A., junto à BHP Billiton, é responsável por 19 mortes e pela contaminação da bacia do Rio Doce, em 05 de novembro de 2015. A repetição do mesmo dano, três anos depois, com um rastro de mortes e destruição bem mais grave, é a confirmação de sua incapacidade de gestão e prevenção dos danos, de descaso e de conduta criminal.  Esta responsabilidade envolve também o Estado, que licencia os projetos extrativos e deveria monitorá-los para garantir a segurança e a vida digna das comunidades e do meio ambiente.  A responsabilidade do Estado é dupla, porque a impunidade e a falta de reparações completas e suficientes para as vítimas do crime de Mariana foi uma das condições principais que permitiram o novo crime de Brumadinho.  Portas giratórias  De braços dados, o capital das mineradoras e o poder político facilitam a instalação ou ampliação de grandes projetos extrativos, minimizando as condicionantes e as regras de licenciamento dos mesmos. A própria mina Córrego do Feijão, cuja barragem de rejeitos estourou, obteve em dezembro de 2018 licença ambiental para expansão de 88% de suas atividades. No Conselho de Políticas Ambientais do Estado de Minas, só o Fórum Nacional da Sociedade Civil na Gestão de Bacias Hidrográficas (Fonasc) votou contra esta expansão, denunciando mecanismos “insanos” para reduzir as exigências no licenciamento de empreendimentos de mineração de grande porte.  Não se podem denominar “acidentes ambientais” os desastres provocados por condutas irresponsáveis das empresas aliadas ao poder público. iglesiasymineria.org  Sociedade civil organizada mas não escutada  Desde 2011 a população de Brumadinho e da região manifesta-se de forma organizada contra a mina, seus impactos e ameaças. O FONASC, em dezembro de 2018, escreveu comunicação oficial ao Secretário Estadual de Meio Ambiente, pedindo a suspensão do licenciamento da mina Córrego do Feijão. A Articulação Internacional dos Atingidos e Atingidas pela Vale denunciou na Assembleia Geral dos Acionistas da Vale, em abril de 2018, “o perigo do reiterado processo de redução de custos e despesas em suas operações”, fazendo explicita menção a diversas barragens de rejeitos.  Os responsáveis por estes crimes não podem alegar ou justificar desconhecimento dos riscos e ameaças. Ao contrário, em nome da ilusão do “progresso” e do lucro para muito poucos, há desqualificação sistemática das vozes dissonantes, dos que pedem cautela e cuidado, dos que identificam os riscos e exigem processos de licenciamento detalhados e escuta da população ameaçada, afetada ou atingida pelos projetos.  Teimosamente, fazemos ressoar as palavras de Papa Francisco na encíclica Laudato Si’: “no debate, devem ter um lugar privilegiado os moradores locais, aqueles mesmos que se interrogam sobre o que desejam para si e para os seus filhos e podem ter em consideração as finalidades que transcendem o interesse econômico imediato” (LS 183).  Flexibilizar até quebrar  O Presidente recém eleito no Brasil, atendendo às pressões de quem financiou sua campanha, manifestou o plano de flexibilizar ao máximo o controle e licenciamento ambiental. Criticou a suposta “indústria da multa ambiental”; seu Governo esvaziou de atribuições a pasta do Meio Ambiente, suspendeu contratos com ONGs empenhadas em defesa do meio ambiente, extinguiu secretarias que trabalhavam para políticas públicas contra o aquecimento global.  Também os Governos anteriores facilitaram a expansão desregrada da mineração no País, promovendo o Plano Nacional de Mineração e reformulando, por decreto, o Marco Legal da Mineração.  Os acontecimentos recentes demonstram, violentamente, que estas políticas são um suicídio coletivo e uma ameaça à vida das futuras gerações.  Este modelo de crescimento é insustentável e letal; não se pode chantagear quem precisa de emprego para sobreviver em regiões controladas pela mineração, sem garantir ao mesmo tempo segurança, saúde e bem-estar social. Os problemas não se resolvem “apenas com o crescimento dos lucros das empresas ou dos indivíduos”. “Não é possível conciliar, a meio termo, o cuidado da natureza com o ganho financeiro, ou a preservação do meio ambiente com o progresso. Neste campo, os meio-termos são apenas um pequeno adiamento do colapso. Trata-se simplesmente de redefinir o progresso” (LS 190, 194).  Falsos diálogos  Frequentemente, as empresas e os governos apelam à mediação dos conflitos com as comunidades através do “diálogo”. Buscam, inclusive, a intermediação das igrejas, para oferecer a estes processos maior credibilidade. iglesiasymineria.org  Também institucionalmente tem-se investido em mediações extra-judiciais e termos de ajustamentos de conduta para tornar mais efetiva e rápida a reparação de danos e violações ambientais.  A falta de execução das mitigações e reparações, a leniência em prevenir novos desastres e a repetição de práticas irresponsáveis e criminosas confirmam: este tipo de de proposta não é um diálogo verdadeiro. É uma estratégia das empresas para seduzir a opinião pública, garantindo uma espécie de licença social para poluir, reduzir a resistência popular e iludir que o grande capital pode se converter aos valores da sustentabilidade e

Nota de Solidariedade e Indignação

Nós, missionárias servas do Espírito Santo (Província Brasil Norte), manifestamos nossa solidariedade às famílias das vítimas e aos moradores de Brumadinho-MG que sofrem em consequência da tragédia ocorrida no dia 25 de janeiro, com o rompimento da barragem da mineradora Vale, na Mina Córrego do Feijão. A todo tempo, acompanhamos pelos noticiários a busca por sobreviventes. Também pedimos a Deus que ajude no resgate dos que ainda se encontram com vida e que dê força e coragem a todos os que perderam seus entes queridos e suas casas. Lamentamos, com profunda indignação, que outra tragédia de tão grande proporção tenha ocorrido apenas três anos depois do que aconteceu em Mariana. Como se trata de uma reincidência, é ainda maior a responsabilidade da mineradora e das autoridades, que não tomaram as providências necessárias para evitar que isso acontecesse. Sabemos que, no Brasil, há um considerável número de grandes barragens de rejeitos minerários, sendo que, apenas em Minas Gerais, são 450. Isso significa um grande risco para a população e o meio ambiente, e, se medidas de fiscalização e conservação dessas barragens não forem feitas, teremos, no futuro, muitas outras tragédias. Isso é inadmissível! Assim, repudiamos o descaso dos responsáveis e do governo para a questão das barragens e das vidas humanas que estão em risco em caso de acidentes criminosos, como os de Brumadinho e Mariana, e apelamos a todas as pessoas de boa vontade para: • estarmos atentos às providências que deverão ser tomadas em relação às barragens e às famílias atingidas; • exercer nosso direito, como cidadãos, para exigir o cuidado necessário pelo meio ambiente e medidas de segurança em áreas de mineração; • lutar para que os interesses de exploração econômica não sejam colocados acima da vida humana e da integridade da Criação. Comprometidas com a proposta de Jesus Cristo para que “todos tenham vida em abundância”, queremos colaborar para que as novas gerações tenham um futuro melhor. Irmã Maria Percila Vieira, SSpS – Coordenadora Provincial BRN e diretora-presidente do Instituto Trinitas.

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