Resposta ao “Perseverança On-Line” surpreende professor

O professor Max de Oliveira Faria, do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP, apresenta a “Perseverança On-Line”. A proposta busca não deixar esfriar a fé de crianças e adolescentes e valoriza o encontro entre alunos e professores. Max recorda que todos têm necessidade do outro, desejo da companhia, assim surgiu o desejo de, no ambiente virtual, suprir essa demanda. “Estamos vivendo tempos de mudanças e renovações, dentro e fora de nossas casas, dentro e fora dos nossos corações, quando toda a sociedade foi ‘convidada’ a valorizar e explorar novos espaços, por isso não tivemos dúvidas em iniciar a ‘Perseverança On-Line’”, explica Max, que leciona Ensino Religioso e é responsável pelo grupo da Perseverança. A calorosa acolhida da ação surpreendeu o professor. “Quando fizemos a proposta desse formato, esperávamos alguma resistência por conta da demanda que hoje nossos alunos tiveram de assumir, porém, logo que receberam o convite, percebemos a alegria em cada mensagem de resposta, pois o reencontrar quem amamos é motivo de muita alegria”, conta.No primeiro encontro da “Perseverança On-Line”, foi pedido que os alunos apresentassem um símbolo que representasse a alegria e a esperança. “Ficamos impressionados com as partilhas e depoimentos, pois todos os alunos reconheceram na família, na escola e nos momentos com os amigos como os mais significativos e importantes, e já estavam morrendo de saudades”, relata Max. Ao fim do encontro, o professor confessa que percebeu a importância que os educadores e catequistas têm na vida de crianças e adolescentes. “Nós nos tornamos referências para boas práticas, ocupamos um espaço na vida deles que poucas profissões ocupariam, galgamos um lugar dentro da história e no coração desses jovens, mudamos perspectivas e os ajudamos na construção dos seus projetos de vida”, declara. “Nossa prática não se resume à sala de aula, mas vai além dos muros, dos conteúdos e avaliações. Somos responsáveis por regar sementes, descobrir tesouros e lapidar pedras preciosas.” O professor vê com esperança o futuro. “Tenho fé que sairemos deste momento transformados e com a certeza de que o melhor lugar do mundo é dentro de um coração amigo”, conclui. Assista ao vídeo que a turma do “Perseverança On-Line” preparou declamando o poema “Recomece” de Bráulio Bessa. Veja também a letra do poema. RECOMECE – Bráulio Bessa Quando a vida bater fortee sua alma sangrar,quando esse mundo pesadolhe ferir, lhe esmagar…É hora do recomeço.Recomece a LUTAR. Quando tudo for escuroe nada iluminar,quando tudo for incertoe você só duvidar…É hora do recomeço.Recomece a ACREDITAR. Quando a estrada for longae seu corpo fraquejar,quando não houver caminhonem um lugar pra chegar…É hora do recomeço.Recomece a CAMINHAR. Quando o mal for evidentee o amor se ocultar,quando o peito for vazio,quando o abraço faltar…É hora do recomeço.Recomece a AMAR. Quando você caire ninguém lhe aparar,quando a força do que é ruimconseguir lhe derrubar…É hora do recomeço.Recomece a LEVANTAR. Quando a falta de esperançadecidir lhe açoitar,se tudo que for realfor difícil suportar…É hora do recomeço.Recomece a SONHAR. Enfim, É preciso de um finalpra poder recomeçar,como é preciso cairpra poder se levantar.Nem sempre engatar a résignifica voltar. Remarque aquele encontro,reconquiste um amor,reúna quem lhe quer bem,reconforte um sofredor,reanime quem tá tristee reaprenda na dor. Recomece, se refaça,relembre o que foi bom,reconstrua cada sonho,redescubra algum dom,reaprenda quando errar,rebole quando dançar,e se um dia, lá na frente,a vida der uma ré,recupere sua fée RECOMECE novamente. Fonte: www.tudoepoema.com.br/braulio-bessa-recomece
“Não tenham medo!” (Mt 10,26-33)

Reflexão do Evangelho do 12º Domingo do Tempo Comum “Não tenham medo!” Essa orientação de Jesus ressoa três vezes neste curto trecho! Esse tipo de conselho indica que o contrário era realidade na comunidade para a qual o evangelho se dirigia. Como somente se toma remédio quando se tem uma doença, também somente se enfatiza tanto a mesma coisa quando é para combater um perigo na vida de uma comunidade. Então parece que o medo era um problema para os membros das comunidades mateanas. Medo de quê? O trecho que antecede o de hoje deixa bem claro. Nos versículos 16 a 25, Jesus fala das perseguições que seus discípulos terão de enfrentar. Inclui perseguição por parte do poder civil (“Entregarão vocês aos tribunais”), perseguição pela autoridade religiosa judaica (“Açoitarão vocês nas sinagogas deles”) e até perseguição e rejeição pelos membros das próprias famílias (“Irmão entregará à morte o próprio irmão; o pai entregará os filhos; os filhos se levantarão contra os pais e os matarão”). Quando Mateus escreve essas palavras, esse cenário já era conhecido no meio de suas comunidades. Pois, enquanto nos primeiros anos da Igreja, os cristãos eram tolerados dentro da comunidade dos judeus como uma seita não muito diferente das outras seitas judaicas, e eram, portanto, aceitos pelo Império Romano, que dava ao judaísmo o status de “religião lícita”, nos anos seguintes a 85, tudo mudou. Um grupo de rabinos fariseus, liderados pelos mestres Yohannan ben Zakkai e Gamaliel II tentava reerguer o judaísmo, sem Templo, sem sacerdócio, sem Jerusalém, ao redor da estrita observância da Lei. Era urgente reagrupar os judeus depois da destruição de Jerusalém e dar-lhes uma nova identidade. Para isso, aparecia-lhes necessário insistir na Lei, em sua interpretação farisaica. Assim, o “desvio” cristão parecia algo que poderia minar esse projeto, e os judeu-cristãos começaram a ser expulsos das sinagogas. Isso implicava ser rejeitados em sua identidade religiosa, familiar e cultural, e vistos como traidores por sua comunidade tradicional. Famílias se rachavam, e os judeus-cristãos eram denunciados pelos próprios familiares. Expulsos das sinagogas, não mais pertenciam a uma religião lícita e corriam o risco de serem perseguidos também pelo poder imperial. Como então não entrar em crise, ter medo? Mateus enfrenta o problema dando-lhes uma mística. Se assim aconteceu com o Mestre, como não acontecerá com o discípulo? A perseguição não era sinal de fracasso, mas de fidelidade no seguimento de Jesus. Por isso não deveriam ter medo, pois o Pai jamais iria abandoná-los. O grande perigo era deixar que o medo os paralisasse ou os levasse a mudar de opção de vida, escolhendo a aprovação humana em lugar da fidelidade do discipulado. Hoje, em geral, não somos perseguidos por causa de nossa religião, pelo menos enquanto limitamos a religião à esfera privada (na verdade, há mais cristãos perseguidos no mundo hoje do que nos tempos do Império Romano; outra realidade do que a do Brasil). O mundo nosso até aprova a religião como opção particular, uma vez que não tenha consequências sociais e econômicas. Mas persegue a religião que ousa tirar as conclusões práticas do seguimento de Jesus, que veio “para que todos tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Temos presenciado isso nas ameaças sofridas por líderes nossos, bispos, padres religiosos, religiosas, e leigos e leigas, especialmente no Norte do País. O mundo globalizado do neoliberalismo excludente, que prega o “evangelho” da competitividade e o paraíso do consumo, rejeita a religião que prega a justiça, a partilha, o cuidado dos mais fracos e indefesos, a solidariedade. Religião dentro do templo, sim, mas ai de quem procura concretizá-la na luta por terra, teto, salário, direitos humanos, etc. Por isso devemos levar a sério o que Jesus nos adverte quando diz “Não tenham medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma”. Devemos temer, sim, a tentação de nos conformarmos com as exigências duma sociedade egoísta e idolátrica, que ameaça matar a alma das Igrejas, deixando-as com seu “corpo” (templos, festas, honras, prédios, etc.), mas matando sua “alma” (a prática da opção evangélica pelos oprimidos). O Brasil também tem os seus mártires (e a lista é comprida), que deram a vida nas perseguições lançadas pelas ditaduras, latifundiários e elites. É sinal duma Igreja viva. Mas não é fácil manter-se firme diante das seduções da sociedade consumista, aliadas às ameaças dos detentores do poder. Assim soa atual a última advertência do trecho: “Quem me renegar diante dos homens, eu também renegarei diante do meu Pai”. Mas também deve nos animar para a luta e a coerência a frase anterior, “Quem der testemunho de mim diante dos homens, também eu darei testemunho dele diante do meu Pai”. Tanto o testemunho como a renegação normalmente não se fazem com a boca, mas com as opções concretas em favor dos oprimidos ou dos opressores, no nível individual e eclesial. Lembremo-nos do canto que tantas vezes cantávamos nas missas e encontros: “Não temais os que tudo deturpam pra não ver a justiça vencer; tende medo somente do medo de quem mente pra sobreviver”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
“Viva o coração de Jesus no coração de todas as pessoas”

Sou de uma pequena província do nordeste da Argentina, Missiones, que deve esse nome às missões jesuítas entre os guaranis. A região ainda é caracterizada por uma religiosidade muito profunda, expressa nas devoções e festividades do povo ao longo do ano. Desde a infância, lembro-me de ver, em muitas casas, uma pintura emoldurada da imagem do Sagrado Coração de Jesus. Na casa de minha bisavó paterna, essa imagem adornava uma parede pintada de azul claro, como se estivesse indicando a transparência do céu e refletida pelos que moravam naquela casa; eles eram muito religiosos. Quando vim para a África, especialmente quando trabalhava na Tanzânia, a imagem do Sagrado Coração de Jesus estava adornada com uma parede de barro, no interior de uma vila, ou em um belo gesso, em uma casa da cidade. Ainda mais para minha surpresa, encontrei a mesma imagem nos lares de irmãos e irmãs de outras denominações cristãs. Uma imagem muito doce de Jesus com o peito aberto, mostrando um coração ardente, saindo dele um raio de luz, perfurado por lanças, cercado por espinhos. Um coração que une e não se divide, um coração ecumênico, que reúne, numa grande família, aqueles que estão dispersos, o que leva a descobrir o outro não como inimigo, mas como irmão ou irmã. Que todos sejam um, esse foi um dos desejos e sonhos mais profundos de Jesus, antes de seu coração ser transpassado na cruz pela crueldade dos homens. O que o Coração de Jesus tem que tantas pessoas lhe prestam homenagem em várias culturas? Eu acho que uma das respostas para essa pergunta, e ainda mais no contexto global de pandemia que enfrentamos, é que a devoção proporciona conforto e incentiva a não perder a esperança, confiando em que sempre há uma saída, mesmo nas piores situações da vida. As dificuldades, desafios que tantas pessoas enfrentam no dia a dia, devido a dificuldades econômicas, problemas de saúde, deterioração dos relacionamentos familiares, isolamento, solidão e muitos outros, levam muitas pessoas a serem fascinadas e atraídas pelo Sagrado Coração de Jesus e a depositarem em Cristo suas aflições. De coração aberto, Ele espera cada um para dar conforto, descanso e encorajamento. O coração transpassado de Jesus sofre em cada pessoa que sofre e se alegra em cada ser humano que encontra um sopro de vida para a jornada. “Viva o coração de Jesus no coração de todas as pessoas.” É uma das orações e lema do nosso fundador, Santo Arnaldo Janssen, que era um grande devoto do Coração de Jesus e um fiel divulgador dessa devoção, antes mesmo de iniciar o trabalho missionário de Steyl. Não há dúvida de que nosso fundador descobriu o coração vivo de Jesus em todo ser humano que se dirigiu à graça divina. Ele sonhava que esse coração, que é a presença próxima de Deus, pudesse viver em todos os seres humanos e em todas as culturas. Por esse motivo, seu sonho era que seus missionários pudessem alcançar os lugares mais remotos do planeta para anunciar a boa-nova de consolo e esperança. Para os membros da Família Arnaldina, a oração de Santo Arnaldo é muito eloquente. Nós a recitamos muitas vezes, talvez, em várias ocasiões, com alguma complacência e um pouco de desdém, levando a rezá-la sem pensar em sua profundidade. Geralmente não há reunião ou sessão de oração em que essa prece não faça parte do repertório. Se formos um pouco mais longe com a nossa reflexão, fica claro que, sem o coração, não podemos existir. Segundo as Ciências Biológicas, o coração é o primeiro órgão que se forma e começa a bater apenas alguns dias após nossa concepção no útero. Quando o coração para de bater, a vida termina, um ciclo termina. O coração é o começo e o fim, é a fonte que permite que a vida flua para o corpo. Portanto podemos concluir que a vida de quem crê emana do Coração de Jesus e volta para ele quando sua missão termina. Além disso, o que queremos dizer quando falamos de um coração sagrado? Não podemos deixar de lado a referência à Bíblia. A palavra “coração” é mencionada mais de oitocentas vezes e não se refere apenas a um tecido muscular que bombeia sangue para o corpo. Em uma linguagem profunda e poética, é a morada de atitudes, emoções e inteligência. “Acima de tudo, vigie seu coração, pois aqui estão as fontes da vida” (Pr 4,23), “Pois onde quer que esteja o seu tesouro, também estará o seu coração” (Mt 6,21), “O homem bom tira coisas boas do bom tesouro de seu coração, mas o homem mau tira de seu mal coisas más, porque a boca fala daquilo de que o seu coração está cheio” (Lc 6,45), “Você deve amar o Senhor seu Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma e com toda a sua mente” (Mt 22,37). Esses textos bíblicos, entre outros, deixam bem claro que todo coração é criado como fonte da vida e motor do amor. É por onde ocorrem os sentimentos e pretensões mais profundas do ser humano, mas também é lá que se originam ressentimentos e violência de todos os tipos. O coração é sagrado, mas está contaminado com as sementes do mal. Em Jesus isso não ocorre, porque seu coração não está contaminado com o pecado que mancha e degenera o coração do ser humano. Jesus diz: “Venham a mim todos vocês que trabalham e estão sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Aceitem meu jugo e aprendam comigo, pois sou manso e humilde de coração”(Mt 11,28-29). Em um mundo dividido e dilacerado por todas as formas de miséria e tormento, longe de ser uma devoção antiquada, o Sagrado Coração de Jesus é mais válido do que nunca. Somos convidados a focar e guiar nossas vidas de e para Ele. Ele é a fonte pela qual nos entregamos no trabalho missionário com zelo ardente e coração apaixonado. Somente quando for focado nele, o nosso serviço missionário será mais eficaz, próximo dos
Missão com migrantes durante a pandemia

O Centro de Integração do Migrante (CIM) é um espaço alternativo de formação e orientação para migrantes, localizado no bairro do Brás, na região central da cidade de São Paulo. A obra está a caminho de seu quinto aniversário, em dezembro próximo. O CIM é uma das frentes de missão das irmãs missionárias servas do Espírito Santo na cidade de São Paulo. Hoje somos três irmãs aqui: irmãs Lucilene Soares, Nadir Pereira e Malgarete Conte. O CIM realiza sua missão em parceria com outras instituições, como Missão Paz (padres escalabrinianos), Caritas, Veredas (USP), Mary Knoll, Colégio Espírito Santo, Congregação dos Missionários do Verbo Divino (SVD). O centro também conta com a contribuição de muitos outros voluntários e voluntárias que dedicam seu tempo e seus talentos para acolher, servir e ser solidário com nossos irmãos migrantes, diante do quadro de mobilidade em que vivemos na cidade. As ações realizadas no CIM são diversificadas, buscando atender às necessidades e demandas dos migrantes que aqui chegam. Para crianças, as atividades são diárias: brincadeiras, reforço escolar, inglês, artes, educação física, computação. Para adolescentes e adultos, há atendimentos e suporte com a documentação, plantão psicológico, jurídico, assim como aulas de português, informática, manutenção de computadores, bolos e salgados, empreendedorismo e espanhol. O CIM também oferece atendimento em geral ao público durante a semana, como o Bazar da Solidariedade. As roupas obtidas em doação são vendidas a preço simbólico para quem mais necessita. Também o CIM é o lugar do encontro, da acolhida, da partilha do conhecimento cultural. Aqui nos reunimos para celebrar as festas das culturas, dias de festa, e celebrações. Um espaço de vida e alegria. Com toda essa demanda, e com a participação de muitos migrantes, percebemos a necessidade de um espaço maior para poder atender melhor e com mais condições a cada pessoa que vem até o CIM. Com isso, neste ano, foi adquirido um novo espaço, no mesmo bairro. O local é maior e com mais possibilidades de trabalho e integração com os migrantes. Precisa passar por um processo de restruturação, para já podermos encaminhar os novos trabalhos. De coração aberto e portas fechadas Faz mais de dois meses que, por conta da pandemia, tivemos de fechar o atendimento, assim como todas as atividades que realizávamos em conjunto com outros amigos e parceiros do Centro de Integração do Migrante. Hoje socorre muitos migrantes e brasileiros que perderam sua renda por falta de trabalho, e vivem em uma realidade de fome e de necessidades básicas. Impelidas diante dessa nova situação, somos chamadas a realizar algo, mesmo com as portas fechadas. E assim, com a colaboração generosa de tantos amigos e pessoas de boa-fé, de organizações, Igrejas que realizaram doações com cestas básicas de alimentos, higiene pessoal e limpeza, podemos garantir ao menos o básico para tantos irmãos e irmãs nesta grande cidade de São Paulo. Temos a oportunidade hoje de ser “ponte” e realizar a “entrega” dessas doações. Com isso, podemos abrir as portas ao menos uma vez por semana e realizar a doação desse material que, com alegria, recebemos. Por este tempo de pandemia, é assim que realizamos a missão a qual Deus confia a nós, valorizando a solidariedade do povo que oferece com alegria generosa. “A pandemia mudou a minha vida” Para os migrantes que frequentam o CIM, a pandemia está somando dificuldades ainda maiores àquelas que normalmente enfrentam. A boliviana Dionísia explica: “Eu me sinto triste porque não sabemos quanto tempo mais vai durar, quando vai terminar. Parece que esta pandemia veio para ficar conosco. Gostaria de sair com minha família, mas não posso”. Para a menina Annalia Boliva, de 8 anos, e seu pai Abel Boliva, 39, a situação é crítica. Eles são da Venezuela e moram num pequeno quarto alugado no bairro do Belenzinho, em São Paulo-SP. A mensalidade consome dois terços do salário de Abel, que está no Brasil há cerca de 2 anos e meio. Annalia chegou há 11 meses e conta: “A pandemia mudou a minha vida. Agora estou estudando na minha casa, que é um quartinho pequeno. Eu estudo, assisto à tevê, leio a Bíblia e fico aguardando o meu pai, que vai trabalhar das 5 da madrugada até 5 horas da tarde”. Antes ela ia para a escola de manhã e, depois, para o Educandário São José, no bairro do Belém. Frequentava as aulas de informática do CIM. Annalia diz que sente saudades das irmãs, do vovô Angel (um dos voluntários que precisou ser hospitalizado por causa do covid-19 e que está se recuperando), dos coleguinhas e dos brinquedos. Abel relata que não estão fáceis estes três meses de confinamento. “Graças a Deus, continuo trabalhando, mas minha filha, minha companheirinha de 8 anos, não pode mais ir à escola nem ao Centro do Migrante. Está confinada em um quarto onde vivemos só ela e eu, passa 24 horas aqui… Mas estamos vivos, temos saúde e seguimos lutando”, diz. Antes da pandemia, Abel complementava o salário fazendo bicos à noite e nos fins de semana. Dessa forma, ele conseguia se manter e enviar alguma coisa para ajudar a família na Venezuela. Agora mal consegue pagar as despesas. Ele também sente falta do Centro de Integração do Migrante, que considera um grande apoio e do qual tem prazer em participar. Irmã Lucilene Ferreira Soares é missionária serva do Espírito Santo, está concluindo o Curso de Teologia e faz parte da equipe do CIM.
Lives de São João e São Pedro

As soluções tecnológicas entram de maneira inusitada nos festejos de São João e São Pedro neste ano. Nos centros urbanos do Sudeste do Brasil, as danças juninas estão sendo adaptadas à realidade do isolamento social, forçado pela pandemia do covid-19. Restringiu-se a participação ao máximo de quatro a cinco pessoas (e somente dentro da convivência familiar), em ambientes que em nada lembram os velhos arraiais: apartamentos e salões de festas de condomínios. Algumas escolas em São Paulo-SP orientam professores e estudantes a ensaiarem em casa a quadrilha, com a separação dos participantes em duplas. Quando ocorrerem as apresentações, acessíveis pelas redes sociais, cada família filmará sua performance, e as imagens vão compor o mosaico de dezenas de duplas dançando alegremente. Um dos colégios que adotam um protocolo específico para as brincadeiras juninas é o Objetivo Saint Lucas, na Zona Leste de São Paulo. Inicialmente, a direção da escola pensou em realizar lives com as apresentações de alunos e professores, mas essa mudança na tradição do arraial ainda traz insegurança. “E se a internet estiver instável e, no meio da quadrilha, sair do ar a apresentação?”, pergunta a diretora Leila Cury. Diante do risco, o colégio deve editar um vídeo com as danças e até mesmo as receitas da culinária junina, sob coordenação da professora de Artes. A produção será publicada nas redes sociais. A intenção dos realizadores é evitar o adiamento dos festejos, opção escolhida pela Prefeitura de Campina Grande-PB, onde as comemorações serão em outubro. Em Salvador-BA e Aracaju-SE, o feriado de São João foi antecipado para maio, justamente para esvaziar (!) a festa e impedir aglomerações. No seu celular, os antigos arraiais Mesmo que as tecnologias “façam sua parte” e diminuam o impacto do isolamento social, a vivência da cultura popular e da religiosidade estará sob a influência do uso que se faz dos “facebooks” e dos “whatsapps”. A função mais humana que se pode esperar de ambos é que reconectem pessoas e suas comunidades. Já pensou se as redes sociais forem usadas, neste mês de junho, para aproximar você de quem fez a alegria dos antigos “arraiais” em sua escola ou paróquia? Lembre-se de que, com um simples celular, é possível falar com aqueles, aquelas que já prepararam iguarias deliciosas (quentão, bolo de milho, paçoca) ou que se destacaram por conseguir prendas inestimáveis, ou que, ainda melhor, organizaram, muitas vezes, a novena de São João ou a de São Pedro e trabalharam nas barraquinhas até tarde. Em 2020, os prédios não estarão embandeirados, as ruas perderão as cores dos vestidos estampados das moças caipiras, as quermesses que enchiam as paróquias de calor humano estarão canceladas… Mas aqueles voluntários e voluntárias continuam por perto. Talvez estejam dentro de nossas casas. E o contato com eles, com elas pode acender a fogueira da gratidão e da caridade, e não deixar morrer São João e São Pedro neste junho de noites frias e de pandemia que nos assusta. José Manoel Rodrigues é jornalista e educomunicador. Há três anos, atua na área de captação de recursos. É cofundador da Radar Consultoria de Projetos para Organizações Sociais.
Junho, mês dos santos populares

Junho é um mês que se caracteriza pela comemoração de santos populares: Santo Antônio, São João, São Pedro, São Paulo. São recordados e homenageados pela piedade que seus devotos nutrem em sua fé. Muitos o fazem sem mesmo ter razões profundas para isso. Fazem porque é tradição e é motivo de festa. Em algumas regiões, com mais intensidade e com grandes eventos. Que reflexão se pode fazer sobre isso? Por um lado, podemos dizer que essa fé na proteção vinda do santo traz para o crente um sentimento de ser cuidado, amparado nas horas difíceis. O santo é uma certa garantia para a vida, pois crê que, fazendo suas rezas, suas promessas, pedindo sua ajuda, vai preservá-lo de perigos ou ajudá-lo a sair de dificuldades. Há um fundo religioso transmitido pelos ancestrais e que gera uma certeza de que esse é o caminho para sua crença. A pessoa encontra no santo algumas virtudes que admiram e estimulam a imitá-lo. Por outro lado, para muitos, a celebração do santo é apenas uma expressão cultural, pouco religiosa, uma ocasião para fazer festa e divertir-se. Não conhecem nada a respeito da vida do santo e muito menos por que este é santo e por que se tornou popular. O importante é que, em seu dia, há festa, comidas típicas, danças e outras manifestações culturais. E o que é ser santo? Segundo a fé cristã, a vocação à santidade é própria de todo batizado. É algo inerente do ser cristão. Todos são chamados a viver buscando cotidianamente a santidade. Ela está ao alcance de todos. Consiste na prática diuturna de uma vida correta, honesta, em que se respeitam os valores humanos fundamentais e os valores religiosos do amor a Deus e ao próximo, bem como uma conduta moral e ética congruente com os princípios cristãos. Os santos canonizados pela Igreja tiveram uma vida comprovada por virtudes heroicas que servem de modelo para todos. Não é necessário, contudo, ser canonizado ou beatificado para ser santo. Há muitos santos anônimos. Pessoas que viveram praticando o bem, deixando um testemunho de vida admirado por aqueles que o conheceram. Quando nós recordamos a vida de santos dos quais somos devotos, eles passam a fazer parte de nossa piedade. Significa então que damos um reconhecimento àqueles valores vividos por eles e se tornam referenciais para a vida. Na verdade, é uma necessidade humana apoiar-se em modelos que estimulem as vivências, pois eles nos dão certa segurança naquilo que estamos fazendo. Atribuímos, às vezes, até poderes mágicos que dispensam o empenho pessoal. É como se pensasse “confio em tal santo, e por isso estou protegido, não preciso fazer nada a não ser uns ritos para ter a certeza de sua proteção”. E, nesses ritos, muitos deles bizarros, esconde-se uma fé pouco profunda e comprometida, mas que serve de alívio e diminui as tensões. Podemos pensar que, dentro disso tudo, há também algo de misterioso. Isto é, coisas que são aceitas ou feitas sem conhecimento profundo de suas razões, mas que exercem um poder condicionante no modo de pautar a própria a vida. Isso também nos revela que somos carentes e necessitados de certezas que vão além da lógica. Não nos bastamos sozinhos. Precisamos de suportes para nossa vida e nossa crença. Os santos de nossa devoção exercem esse duplo papel de assegurar um aliado nosso mais forte, com poder de interceder a nosso favor e dar uma legitimação a nossos modos de viver. Mês de junho, mês de santos populares. Que sua popularidade nos ajude a viver os valores que pautaram suas vidas. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.
Viver a fé sem a Eucaristia?

A presença constante de Jesus na Eucaristia é sustento na vida espiritual. A qualquer momento, podemos encontrar Jesus esperando por nós no sacrário, em quase todas as igrejas ou capelas católicas. Mas, neste tempo de pandemia, estamos privados da Eucaristia. As missas estão sendo celebradas a portas fechadas. Como então viver a fé sem poder comungar? Como celebrar a solenidade de Corpus Christi sem procissão e sem adoração ao Santíssimo Sacramento? Aqui no Convento Santíssima Trindade, em São Paulo-SP, nós nos consideramos muito privilegiadas, pois, apesar de não termos missa, acompanhamos pela televisão e, na hora da comunhão, podemos comungar, pois temos as hóstias consagradas conservadas em nossa capela. Isso para nós é motivo de alegria e gratidão. Mas a maioria do povo de Deus está vivenciando o jejum eucarístico. Claro que Jesus há de transbordar sua graça a todos os que o desejam sinceramente e não permitirá que, por falta do sacramento da Eucaristia, o seu povo fique abandonado. Em seu grande amor, Jesus sempre encontrará outras maneiras de saciar nosso coração e nossa alma. Mesmo sabendo que sempre e em qualquer circunstância podemos contar com Jesus, é importante sentir falta da missa presencial, da comunidade e de receber o corpo e o sangue de Cristo na comunhão. O perigo é nos acomodarmos com a situação e relaxar em nossa vivência de fé. Para que isso não aconteça, precisamos nos fortalecer interiormente com os recursos que temos a nosso dispor, mesmo que não podemos fazer o que antes era nossa prática diária ou dominical. O importante é manter sempre nossa conexão com Deus, pela oração, e com as pessoas, pelo amor, a gentileza e a solidariedade. Há também muitas famílias que, pela correria da vida moderna, perderam os referenciais religiosos cultivados no passado e se sentem perdidas e confusas. Já não sabem rezar e nem dão tempo para o cultivo da espiritualidade. A consequência é o vazio existencial e, muitas vezes, a falta de sentido e o desânimo diante dos desafios e sofrimentos da vida. Em tempos como os atuais, quase tudo pode se transformar em desespero. Como Deus é bondade e misericórdia, está sempre pronto a nos acolher e nos ensinar o caminho de volta à sua amizade. Basta abrir o coração e se deixar guiar por seu espírito. Mas, para ajudar neste caminho, trazemos aqui algumas práticas de fé muito simples, mas capazes de transformar a vida e preenchê-la de alegria e de plenitude. Sete práticas de fé para o dia a dia 1) Ao levantar, agradecer a Deus pelo novo dia e pedir a força para sempre fazer o bem. 2) Dedicar alguns minutos diários à Palavra de Deus. Jesus está presente, de forma real, também no Pão da Palavra, como nos ensina a Igreja. Sugerimos ler alguns versículos do Evangelho e refletir sobre eles, ou meditar as leituras diárias da missa (há vários aplicativos que podem ser baixados no celular). 3) Agradecer pelo alimento antes das refeições. 4) Em qualquer momento de dificuldade, pedir pela inspiração ou proteção de Deus. 5) O Pai-Nosso e a Ave-Maria podem ser rezados a qualquer hora do dia ou da noite. 6) Ajudar ao próximo em suas necessidades, sendo gentil com quem amo e também com quem não tenho afinidade. 7) Antes de dormir, repassar o dia para agradecer o que foi bom, aprender com o que não deu certo e pedir perdão se prejudiquei alguém. Há muitas outras práticas de oração que poderão ajudar a crescer na fé. O essencial é buscar Deus com simplicidade e conversar com Ele como o amigo que sempre está a nosso lado. A oração é um caminho de coerência entre o que falamos com Deus e o que fazemos em nossa vida pessoal e no relacionamento com as pessoas. Quanto mais perto de Deus, mais amor dedicamos às pessoas e mais nos sentimos comprometidos e solidários com os que mais sofrem. Isso é sinal de maturidade na fé. E, quando a pandemia passar, vamos celebrar novamente, e com muita alegria, os momentos litúrgicos e retomar com empenho nossa vivência eucarística. Vamos nos reencontrar em comunidade e manifestar nosso amor e gratidão a Jesus por permanecer sempre conosco.
Afetividade e relações

Diante de tantos fatos e feitos durante esta pandemia, como anda a afetividade? E as relações? O mundo tem passado por muitos traumas, e muitas vidas têm sido abaladas, desde crianças até idosos. Há muitas expectativas e medos. As incertezas têm operado a maioria de nossa vida. Embora haja muitos doentes por causa do contágio com o covid-19, devido a, ainda, não existir um medicamente eficaz para combatê-lo, muitas outras doenças têm causado perturbação às pessoas. A saúde, em geral, não é apenas física, mas também psíquica e espiritual. Por isso a afetividade faz parte desse “pacote” salutar. Afetividade deriva das palavras “afetivo” e “afeto”, abrange todos os fenômenos afetivos; muito importantes para o desenvolvimento humano. A afetividade, no sentido positivo, cultiva bons sentimentos, momentos prazerosos e trazem sensação de bem-estar. Por isso a importância de sermos amáveis com os outros (pessoas, animais e toda a natureza), pois afetamos, também, os demais, deixando boas impressões. No sentido negativo, a afetividade nos transmite medo, insegurança e até síndrome do pânico, pois nos transmite desconforto, momentos desagradáveis, gerando violência. Não podemos nos calar diante de tanto feminicídio (Brasil em quinto lugar no mundo), diante de tantos adolescentes, jovens e trabalhadores negros mortos, tanta desigualdade social… A palavra “pânico” vem do grego e tem um significado relacionado ao deus Pã. Na mitologia grega, essa entidade é o espírito guardião da floresta, dos bosques, protetor dos animais e dos pastores. Sua figura é representada metade homem e metade pernas de bode, e sobre sua cabeça, há chifres. O mensageiro Hermes o levou para o Olimpo quando ele era pequeno, para servir de mascote aos outros deuses, e passou a ser considerado um semideus. Mas Pã, quando cresceu, preferiu viver na floresta, já que era considerado preguiçoso. Pã gostava de brincar com as ninfas, e uma delas, por quem ele era apaixonado, disfarçou-se em caniço. Contudo Pã, quando soprou, o som que saiu de um deles foi tão lindo que fez uma flauta. Por isso, ele passava o tempo tocando flauta (flauta de Pã). Os humanos, ao atravessarem a floresta, sentiam muito medo, pois, sabendo que ele dormia lá, entravam em “pânico”, pois Pã, quando dormia, ficava muito irritado se fosse acordado. Na mitologia romana, Pã é conhecido por Lupércio. Na Idade Média, a figura foi confundida com a do Diabo, que é considerado mal. A partir da figura mítica acima ilustrada, podemos refletir nossa afetividade. Nosso interior pode estar ouvindo lindas melodias ou, de repente, entrar em pânico, porque estamos nos sentindo ameaçados por uma situação desconhecida, afetando, assim, nossas relações. A dor, quando é insuportável, restringe o uso da razão, e o que ocorre, muitas vezes, é desafeto. É importante mantermos a serenidade diante das circunstâncias que se nos apresentam e buscarmos o discernimento para agirmos de modo adequado nas relações: estamos tendo a paciência com as crianças e os idosos? Estamos sendo humildes ao aprender um serviço que não era executado? Somos compreensivos com o outro que cometeu uma pequena falta? Somos perseverantes diante da dificuldade? Ou usamos a tortura? Nossas relações têm várias dimensões: psicopessoais, sociais, culturais, socioambientais. Em cada uma delas, devemos perceber como anda a repercussão de nossas atitudes, condutas na família, no círculo de amizade, no trabalho, no lazer, na comunidade religiosa. A preocupação com o outro é um indicador importante, pois a vida é como um “bumerangue”: o que você lança voltará. Nesse sentido, nossa relação com o meio ambiente está retornando aos poucos. Procuremos cultivar mais flores e frutos, cuidar melhor dos animais, cultivar a paz a nosso redor. Cada semente plantada é uma árvore em potencial, já dizia um filósofo antigo. Então cada gesto solidário é um bem à coletividade. Cada palavra dita será uma nova história escrita. Cada oração será fruto do coração.Seja solidário, solidária! Respeite! Se preciso for, denuncie! Maria Terezinha CorrêaMestre em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, Teologia pelo Mater Ecclesiae, professora de Filosofia, filiada à ABA, APEOESP e SBPC; membro da Comissão de Prevenção à Tortura pela ALESC, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa pertencente à Arquidiocese de Florianópolis.
A manutenção da vida depende da preservação dos oceanos

O Dia Mundial dos Oceanos é celebrado em 8 de junho. Os oceanos são extensas áreas de água salgada que cobrem cerca de 71% da superfície do planeta e somam 97% de toda água da Terra. Eles têm extrema importância ecológica, sociocultural, econômica e política, a começar pela manutenção da vida. São responsáveis por regular a temperatura do planeta, produzir grande parte de oxigênio, por meio de microalgas, abrigar inúmeras espécies e também desempenhar um papel muito importante na alimentação, extração mineral, transporte, turismo, divisão de fronteiras e geração de renda. Por conta disso, são fundamentais para a sobrevivência de todos os seres vivos. Apesar de toda a amplitude, as atividades humanas podem causar danos irreparáveis aos oceanos e à vida marinha, pois estão sendo ameaçados pela superexploração dos biomas, gestão inadequada do lixo e do esgoto, e por padrões produtivos altamente poluentes. Com a demanda global por peixe crescendo a cada ano, locais de pesca em todo o mundo estão entrando em colapso por causa de práticas pesqueiras insustentáveis. Isso afeta, de forma significativa, populações de animais marinhos, colocando-os em risco de extinção. A aceleração do aquecimento global gera grandes desafios. O Relatório Especial sobre Mudanças Climáticas, Oceanos e Criosfera, divulgado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) em 2019, apontou que os oceanos estão mais quentes, mais ácidos e menos produtivos, o que ameaça uma ampla gama de espécies marinhas. O nível do mar está aumentando duas vezes mais do que no último século. Até 2100, ele pode se elevar acima de um metro se as emissões de gás carbono continuarem a subir intensamente, isso porque os oceanos absorvem mais de 25% das emissões de CO2. Em consequência, ocorrerão eventos extremos durante o aumento das marés e tempestades mais danosas. Há indicadores de que, com qualquer grau de aquecimento global, eventos que ocorriam uma vez a cada século no passado ocorram a cada ano, em diversas regiões, aumentando o risco para muitas cidades costeiras que estão abaixo do nível do mar ou regiões insulares. Sem investimentos, essas áreas podem ser expostas a progressivos riscos de enchentes, e algumas regiões insulares podem se tornar inabitáveis. Outra e mais visível ameaça aos oceanos é a poluição causada pelo descarte de resíduos sólidos e químicos, lançados diariamente nas águas. De acordo com a WWF (World Wildlife Found), conforme dados publicados em 2019, 14 bilhões de toneladas de lixo são acumulados nos oceanos todos os anos. Essa imensa quantidade de resíduos produz o aparecimento de organismos que prejudicam a vida marinha e comprometem o percentual de alimentos. Mais de 50% das tartarugas marinhas morrem por ingerir alguma forma de lixo. Cerca de 90% de todo o lixo flutuando nos oceanos são formados por plástico. Algumas estimativas apontam que, se não for diminuído o ritmo com que se descartam itens como copos, talheres, sacolas, canudos e garrafas descartáveis, os oceanos terão, até 2050, mais plásticos que peixes, e 99% das aves marinhas terão ingerido o material (ONU, 2018). Ainda há o problema dos microplásticos, presentes em produtos de higiene e roupas, que são lançados no mar por meio dos esgotos. Ainda é impossível retirá-los dos oceanos por causa do seu pequeno tamanho. Pesquisas do Greenpeace indicam que pelo menos 51 trilhões de partículas de microplástico já estejam em nossos mares atualmente. Isso coloca em risco não apenas os animais que ingerem esse lixo, mas também os humanos, que comem o material ao consumirem frutos do mar. Embora os problemas possam parecer intratáveis, é possível ajudar por meio de mudanças de atitudes. Então o que fazer para frear esses efeitos? 1. Reduzir o consumo de plástico São necessários pelo menos 450 anos para que uma garrafa plástica se decomponha e desapareça do meio ambiente. Em vez de continuar consumindo esse tipo de produto, substitua-o por uma garrafa de aço inoxidável que não seja descartável. Escolha produtos reutilizáveis, pois minimizam a quantidade de lixo gerado. 2. Diminuir a pegada de carbono Isso significa optar por deslocar-se de bicicleta ou transporte público, em vez de usar o carro; diminuir o consumo geral de energia; usar fontes de energia “verdes”, como a energia solar e a eólica; e fazer escolhas mais conscientes sobre o que comer e o que comprar. 3. Antes de comprar peixes ou frutos do mar, verificar a procedência Ajudar a reduzir a procura de espécies exploradas, ao optar por aquelas que sejam saudáveis e sustentáveis. 4. Participar de ações de limpeza das praias Depois de aproveitar o tempo na praia, é necessário se assegurar de que está deixando o espaço limpo. Organizar ações de limpeza com amigos, familiares, ONGs ou até mesmo sozinho é uma grande medida para evitar a contaminação dos mares. 5. Apoiar organizações que protegem e monitorem a vida marinha Há institutos e organizações nacionais que lutam para proteger os habitat dos oceanos e a vida marinha. Essas entidades necessitam de apoio financeiro ou de voluntários para trabalhos de campo ou na defesa de direitos. No Brasil, existem várias organizações dedicadas ao monitoramento, proteção e conservação dos oceanos e animais marinhos, como o Projeto Tamar, o Instituto Baleia Franca, o Projeto Verde Mar, o Mar Limpo e muitos outros. Sem ação direta e governamental, o futuro do planeta é sombrio. Toda a vida na Terra está ligada aos oceanos e àqueles que os habitam. Quanto mais se aprende sobre os desafios que enfrenta esse sistema vital, mais se empenhará na defesa da sua sustentabilidade, por isso é necessário partilhar o conhecimento para educar e inspirar outros. Izabela Mendes de Paula, graduada em Ciências Biológicas, especializada em Educação Ambiental. Atualmente é auxiliar de laboratório do Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG. _________ ReferênciasWWF – WWF Brasil. Disponível em: www.wwf.org.br. Acesso em 5 jun. 2020. INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE IPCC. The special report on climate change, oceans and cryosphere. Cambridge: Cambridge University Press, 2019.
Solenidade da Santíssima Trindade

“Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3,16-18) Hoje celebramos o mistério insondável de Deus, a Santíssima Trindade. Durante os primeiros séculos de sua existência, a Igreja lutou com dificuldades para expressar em palavras o inexprimível: a natureza do Deus em que acreditamos. Chegou à expressão profunda do Credo Niceno-Constantinopolitano o qual celebra o Pai “Criador de todas as coisas”, o Filho “Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial com o Pai”, e o Espírito que “dá a vida, e procede do Pai e do Filho”. Mas mesmo essas expressões tão profundas não conseguem explicar a Trindade, pois, se Deus fosse compreensível à mente humana, não seria Deus! Dentro das limitações da linguagem humana, tentamos expressar o mistério da Trindade como “três pessoas em uma única natureza”. Mas, mais importante do que encontrar fórmulas filosóficas ou teológicas abstratas para expressar o que, no fundo, não é possível definir, é descobrir o que a doutrina da Trindade pode nos ensinar para a nossa vida cristã. Talvez o livro de Gênesis possa nos ajudar. Lá se diz que Deus “criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus ele o criou; e os criou homem e mulher” (Gn 1,28). Se somos criados à imagem e semelhança de Deus, é de um Deus que é Trindade, que é comunidade, unidade perfeita na diversidade. Assim, só podemos ser pessoas realizadas quando vivemos comunitariamente. Quem vive só para si está destinado à frustração e infelicidade, pois está negando a sua própria natureza. O egoísmo é a negação de quem somos, pois nos fecha sobre nós mesmos, enquanto fomos criados à imagem de um Deus que é o contrário do individualismo, pois é trinitário. No mundo pós-moderno, onde o individualismo social, econômico e religioso é tido como critério fundamental da vida, a doutrina da Trindade nos desafia para que vivamos nossa vocação comunitária, criando uma sociedade de partilha, solidariedade e justiça, no respeito do diferente do outro, pois fomos criados à imagem e semelhança desse Deus que é amor e comunhão. O texto evangélico nos faz lembrar que somos continuadores da missão da Trindade encarnada em Jesus de Nazaré: a de testemunhar o Reino de Deus, vivendo em comunidade o projeto de Jesus, o missionário do Pai, que nos congregou na Igreja pela ação do Espírito Santo. Quando criarmos comunidades alternativas de solidariedade, fraternidade, justiça e paz, estaremos vivendo na imagem e semelhança do Deus Uno e Trino, comunidade e comunhão perfeita, que nos convida a participar da sua própria vida. A festa de hoje não é de um mistério matemático (como se fosse possível explicar “três em um”), mas do mistério do amor de Deus, que nos criou para que vivêssemos comunitariamente à sua imagem e semelhança. É, portanto, ao mesmo tempo, celebração e desafio, para que tornemos cada vez mais concreto o projeto de Deus para toda a humanidade, no caminho do discipulado de Jesus. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.