A diversidade nos enriquece, e o respeito nos une

Aos poucos, nossas escolas estão retomando e ganhando vida novamente. Porque escola só tem vida e alegria quando tem gente. Gente com G maiúsculo, aberta às possibilidades e que goste de gente. Por esse motivo, após viver oportunamente, em 2020, o tema “Escola viva, vê, sente e cuida”, em meio a um confinamento involuntário e necessário, nós nos tornamos mais resilientes e resistentes. Agora, abrindo este novo ano, ainda com muitos cuidados e protocolos, apresentamos o novo tema: “A diversidade nos enriquece, e o respeito nos une”. Antes de continuar, pare e pense um instante: o que esse tema provoca em você? A cada ano, inspirados pela Campanha da Fraternidade, os educadores da Rede de Educação, juntamente com as irmãs, participam do processo de elaboração e de escolha do tema transversal. O tema escolhido e lançado no início do ano letivo é responsável por permear e inspirar todas as ações pedagógicas e as vivências em nossas comunidades educativas. Falar em diversidade, respeito e unidade é sempre genial e desafiador. Genial porque diz respeito ao que buscamos como humanidade e pelas conquistas já realizadas. Desafiador por compreender que temos ainda um grande caminho a ser trilhado, em que a educação tem um papel fundamental. É fundamentalmente na escola que, além de pensar este e outros temas, temos a possibilidade de conviver com pessoas tão diferentes da gente, construindo relações harmoniosas e de respeito. Por isso ainda precisamos aprender muito sobre a diversidade. Precisamos entender que muitas são as visões de mundo, não uma única, e que somente com essa compreensão poderemos entender o outro em sua individualidade. Cada cosmovisão tem seu valor. Para isso, precisamos nos colocar em atitude de bons ouvintes e observadores, deixando de lado nossas formas impositivas. Pelo diálogo, conseguimos entender que todos cabem neste mundo, cada qual do seu jeitinho. Não por acaso, quando comecei a pensar e escrever sobre este tema, caiu em minhas mãos o livro Ideias para adiar o fim do mundo, o qual recomendo a você. Segundo Ailton Krenak, vivemos uma lógica atual que “suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existências e de hábitos. Oferece o mesmo cardápio, o mesmo figurino e, se possível, a mesma língua para todo mundo”. Talvez porque estejamos ainda condicionados a uma única ideia de ser humano e a um único tipo de existência possível. Por isso somos convidados a desconstruir essa concepção e fazer novas escolhas. Afinal, “definitivamente não somos iguais, e é maravilhoso saber que cada um de nós é diferente do outro, como constelação. O fato de podermos compartilhar esse espaço, de estarmos juntos viajando não significa que somos iguais, significa exatamente que somos capazes de atrair uns aos outros pelas diferenças, que deveriam guiar nosso roteiro de vida”. Com essa última ideia do líder indígena Krenak, deixo aberta nossa reflexão para o ano de 2021, convidando você e sua escola para ampliar nosso círculo de reflexão, a fim de contribuir na construção da sociedade que buscamos. Agostinho Travençolo JúniorEducador e coordenador da Dimensão Missionária da Rede de Educação SSpS

Uma pipa no céu

Estava eu numa cidade do interior de São Paulo. Era meia-tarde! Caminhava num jardim cercado de muros da casa onde me hospedava. Olhei para o céu e logo vi duas pipas (papagaios, pandorgas). Não vi quem as empinava. Era alguém que estava na rua. O céu estava ensolarado, com um azul de arrancar suspiros de tão bonito estava! O vento não era forte, mas refrescante. Parecia que a natureza, naquela hora, convidava a elevar o pensamento. Foi o que fiz. Comecei a observar as pipas, ziguezagueando no ar. Elas subiam e desciam. Suas caudas se espraiavam no ar, fazendo como uma onda suave, balançando, despertando em mim uma vontade de voar. Distraidamente, quase sem querer, comecei a pensar. Quem estaria lá na ponta da linha, manobrando com tanta maestria aquelas pipas? Poderiam ser umas crianças; elas gostam de brincar com pipas. Mas há também adultos que o fazem. Comecei a imaginar que aquelas pipas poderiam ser, além de objetos para brincar, símbolos daquilo que vai no coração das crianças e também da gente adulta. Subir para o céu e lá permanecer, num balancear suave, é um anseio do coração humano que não se contenta nem se satisfaz com aquilo que é só da terra! A alma humana precisa de algo que seja mais sublime, mais transcendente, mais eterno! Que mora lá no céu! Quando me veio esse pensamento, comecei a imaginar mais coisas. Por exemplo, não é todo dia nem toda hora que se empinam pipas! Se não houver vento, se o dia estiver chuvoso, se for noite, a pipa não sobe! Assim também na vida! Se ela não tiver “alma” que a eleve além dos horizontes que as mãos alcançam, ela fica sem graça e sem beleza. Se ela for como dia chuvoso, cheia de problemas, o sol não brilha, fica sem sentido, afundada no lamaçal das dificuldades. Se ela for como a noite escura, vivendo nas sombras, nos subterfúgios, ninguém a verá. A pipa é para viver no céu. Para ela ir lá e ficar, precisa de alguém que a manobre, alguém que lhe dê direção, alguém que a controle. Se a deixar ao léu, ela some, cai! É necessário um fio que a mantenha ligada à terra e, ao mesmo tempo, a conduza para o céu! Nossa vida também é assim. Tem sentido se vive para transcender-se, mantendo-se com os pés na realidade. Seu sentido está em alcançar o céu, mas não pode desligar-se daquilo que está na terra. Para manter o equilíbrio entre o céu e a terra, a linha tem de ser boa e flexível. Contudo há quem empine pipas e se veste de más intenções. Pode querer cortar a linha do outro. Passa cerol, e a linha fica perigosa. Quando se encosta à outra, corta, rompe, e a pipa se perde do rumo, e começa despencar. Um bando de crianças corre atrás, desesperado para agarrar a pipa que vai trambolhando sem lugar certo para cair. Quem a pega continua correndo, com medo de que alguém a tome, e assim, aquilo que era pura diversão e beleza torna-se competição, agressão. Não devia ser assim, pois, na vida, cada um tem o direito de cuidar da sua, levá-la para onde quiser, sem ameaças e sem medo de que o outro lhe roube o prazer de viver. As pipas só descem quando quem a empina enjoou da brincadeira ou quando cai a noite. A vida fica enjoada quando perde seu encanto ou quando fica escura, vazia, quando não se sabe mais o que fazer com ela. Aí é como o empinador de pipa: enrola sua linha, e ela fica amontoada em algum canto. A vida assim é ruim, fica sem sua graça e sem sua beleza. A vida é bela quando cada dia pode realizar seus sonhos, ficar com um pé na terra e outro no céu. Só na terra perde o sentido. Pior fica quando alguém, com o fio com cerol, encosta nela não para brincar junto, mas para cortar a linha. Este não só rouba o prazer da vida do outro como lhe tira as chances de continuar no céu e de lá voltar quando quiser. Tira-lhe a liberdade de escolher. Fere o prazer de viver seu momento de alegria. Quando a vida se torna isso, um derrubando o outro, alegrando-se com a desgraça alheia, ela perde o encanto e a poesia. Pipa é bonita no céu, balanceando sua cauda sem pressa para voltar e sem sofreguidão para subir demais! Só até onde a linha permite. Uma pipa no céu é sinal de uma criança (adulto) na terra feliz, é lá que a alma humana um dia quer morar para sempre! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

A simples observação

Pensar na estrutura da escola de hoje nos faz refletir sobre os grandes desafios da Educação. Vivemos numa era digital, com uma economia globalizada, tendo informações rápidas, em tempo real e em grande escala. Chamo a atenção para um pequeno, mas fundamental exercício: a observação dos alunos. Ter vários jovens, com diferentes aspirações e criações distintas, em um mesmo ambiente sempre foi um desafio. Mantê-los atentos por um longo período, então, é uma árdua missão. Os educadores têm de lidar não só com as questões comportamentais das crianças e dos adolescentes, mas também acompanhar e aprimorar-se com o uso das inovações metodológicas. Há pouco tempo, a preocupação de pais e professores era deixar os aparelhos celulares fora das salas de aula, hoje a cultura digital é uma das competências estabelecidas pela Base Nacional Comum Curricular. Essas inovações obrigam os docente a terem uma nova postura em sala de aula, utilizando recursos mais dinâmicos, atraentes e desafiadores para despertar a atenção de seus alunos. A cultura digital propõe compreender, utilizar e criar novas tecnologias educacionais que aprimorem a comunicação, o acesso e a produção de novos conhecimentos, além da resolução de problemas, o exercício da cidadania e tornando os alunos protagonistas da própria aprendizagem. Com todas essas mudanças, temos observado que muitas escolas priorizam cada vez mais a tecnologia e esquecem o que é essencial na formação do estudante: a criação de uma cultura que proporcione o diálogo, o respeito e a empatia para uma convivência fraterna. Estabelecer um vínculo baseado no acolhimento e em valores sólidos auxilia na criação de uma relação saudável em trocas frutíferas entre professor, aluno e família. Um dos desafios dos educadores é, portanto, perceber o comportamento de seus alunos, pela simples observação. Esse é um trabalho contínuo que ocorre em todos os espaços escolares. Não é possível, na sociedade contemporânea, abrir mão da discussão dos fenômenos tecnológicos, uma vez que as metodologias de ensino tradicionais não atendem mais às expectativas dos alunos do século XXI, mas sem perder de vista o desenvolvimento da pessoa humana. Lílian Correia SedlmayerDiretora Educacional do Colégio Stella Matutina, Juiz de Fora-MG.

Sobre cultura de paz

Meus olhos passeiam sobre uma linda paisagem, enquanto estou retirada para alguns dias de descanso, após um ano de trabalho intenso ao redor do tema “cultura de paz”. Cultura de paz é inseparável de ambiente saudável, garantia alimentar, educação universal e acesso a instituições eficazes e gratuitas. Assim, refletir sobre a cultura de paz desperta as mais diversas possibilidades de explorar o tema. Poderia ser via Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 16 da ONU, 1 que rege sobre “Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis”. Ou com base no Relatório de Desenvolvimento Humano (IDH), publicado no início de dezembro de 2020 pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). Segundo esse estudo, o Brasil é o sétimo país mais desigual do mundo, ficando atrás apenas de nações do continente africano. O último relatório do IDH introduziu uma novidade, ao incluir emissões de dióxido de carbono e quantidade de recursos naturais utilizados nas cadeias produtivas de países, proporcionalmente às suas populações. Esse novo índice, chamado de Índice de Desenvolvimento Humano Ajustado às Pressões Planetárias (IDHP), mostra a necessidade de ligar o desenvolvimento ao bem-estar das pessoas e à integridade do planeta. Para se ter uma ideia do peso desse indicador, observa-se que, quando incluídos a pressão planetária e os maus-tratos ao meio ambiente, a Noruega, que lidera a lista do IDH, perde 16 posições, e os Estados Unidos perdem 45. 2 Assim, o trabalho pela cultura de paz tem muitas facetas. Minha contribuição ao longo de 2020 foi na coordenação do projeto Rede Justiça Restaurativa, uma parceria entre o Centro de Direitos Humanos e Educação Popular (CDHEP), o PNUD, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Departamento Penitenciário. O objetivo é implantar uma política de justiça restaurativa em dez Estados, por meio dos Tribunais, na Justiça Criminal e no Sistema Socioeducativo. O foco das ações restaurativas está no assumir responsabilidade e reparar danos, mais do que na criminalização de condutas e no encarceramento. Foi uma grata satisfação aprofundar, junto com a equipe do CDHEP, a justiça restaurativa nesses Estados. Ao longo de muitas horas de formação, todos crescemos no conhecimento e no diálogo com novas possiblidades que o arcabouço jurídico existente oferece, também em matéria criminal. Justiça restaurativa é uma possibilidade para todos os crimes, pois a cada pessoa é oferecida a oportunidade de refletir sobres seus atos, assumir responsabilidade de reparar, na medida do possível, os danos causados. No entendimento do CDHEP, a justiça restaurativa também é uma possiblidade de restaurar vítimas de violências estruturais, o que pede uma abordagem ampla, complexa e ainda pouco usual. Quando o PNUD inclui a pressão e os danos sobre o meio ambiente de países que parecem ou pareciam ser modelo em muitos aspectos, essas novas informações fazem com que perdem algo de seu encanto. São chamados a olhar para essa verdade, que mancha sua reputação, e reparar o dano que estão causando. É assim também a justiça restaurativa, quando olha para a desigualdade social e pede que a Constituição seja aplicada em favor de todos, de forma igual. Restaurar o justo e instaurar o direito, no Brasil que ocupa a sétima posição de nação mais desigual do mundo, é um desafio para a cultura de paz. Ao mesmo tempo, trabalhar pela justiça e a paz é parte integral do mandato missionário das servas do Espírito Santo. Ir. Petronella Maria Boonen (Nelly) é co-fundadora da linha de Perdão e Justiça Restaurativa do CDHEP e doutora e mestra em Sociologia da Educação pela USP.) ______________________________1 Instituto Aurora 2 Agência Brasil

Religião não se discute?

“Você acredita em Deus?” Essa é uma pergunta comum em escola ou mesmo em rodas e redes sociais. “Não aponte o dedo para a estrela”, acreditam alguns. Tem gente que se benze quando passa diante de um cemitério ou de uma igreja, e até um despacho na curva de uma esquina, às vezes, é motivo de medo ou desprezo. Enfim, qual é sua religião? Ou você é agnóstico? As pessoas que creem deveriam ser mais tolerantes e testemunhas da justiça e da paz, mas, infelizmente, não é sempre assim. Há muitos estudiosos que afirmam que a maioria das guerras que ocorreram no mundo (e ainda acontecem) têm motivos religiosos. Até hoje, existe quem profana algo sagrado de uma religião, o que é um desrespeito e crime. Isso tem causado julgamentos e terrorismo entre nações. Há um ditado que diz que “futebol, política e religião não se discutem”, o que não é verdade. Já faz tempo que religião tem sido uma discussão mundial para educarmos nosso bom senso, a ponto de termos 21 de janeiro como Dia Mundial da Religião. Essa data foi criada em dezembro de 1949, em uma Assembleia Espiritual Nacional dos Bahá’ís, com o objetivo de promover o respeito, a tolerância e o diálogo entre as diversas religiões existentes no mundo. Após as Guerras Mundiais, a Organização das Nações Unidas (ONU) proclamou, em 10 de dezembro de 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Entre os 30 artigos, o de número 18 estabelece: Todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; esse direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença pelo ensino, pela prática, pelo culto em público ou em particular. O Brasil, por ser um Estado republicano e democrático, também é um Estado laico, isto é, um país onde toda crença deve ser respeitada, inclusive quem professa ser ateu. Conforme a Constituição Federal de 1988, art. 5º, “É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias”. Assim, todos podem manifestar sua religiosidade dentro dos limites do respeito e da fraternidade, pois o importante é que todos promovam a paz. Por que ainda há casos de preconceito religioso em nossa sociedade? Por que há disputa por adeptos entre as igrejas? Jesus disse que “Na casa de meu Pai, há muitas moradas” (Jo 14,2). E por que há pessoas que menosprezam aqueles grupos religiosos menores, de influência africana ou indígena? Jesus, um dia, afirmou à Samaritana que “Os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade” (Jo 4,5-42). Sabemos que a experiência mística é algo subjetivo. Somente na intimidade do ser, pode-se expressar a vivência transcendental. Muitas figuras bíblicas, como Moisés, José do Egito, profetas, José da Galileia, testemunharam a presença divina em suas vidas. O mesmo ocorreu e ocorre com homens e mulheres em tempos contemporâneos. Assim, não nos cabe julgar a revelação intrínseca daquele que crê. No entanto, a melhor maneira de combater a intolerância religiosa é com a prática do bem, observada pelo filósofo Immanuel Kant (1724-1804), ao escrever sua obra Crítica da razão prática. A data 21 de janeiro é também o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Foi instituído pela Lei n.º 11.635/2007, para que possamos viver fraternalmente em sociedade, promovendo, assim, a empatia, estudos sobre a diversidade religiosa e a paz entre todos aqueles que creem. Atos ecumênicos são uma boa forma de expressar o respeito pelo outro, de unir adeptos de diferentes credos e doutrinas, palestras, orações em comum. Independentemente da crença, somos todos seres humanos que necessitam melhorar nossas relações interpessoais.Pense nisso! Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP e SBPC, atualmente professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Comissão de Prevenção e combate à tortura pela ALESC, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, pertencente à Arquidiocese de Florianópolis-SC.

A experiência de quem contraiu a covid-19

A pandemia causada pelo novo coronavírus, causador da covid-19, entrará para os livros de História. O evento mexeu com quase tudo na vida, não apenas na saúde pública: das relações comerciais e diplomáticas aos contextos escolar, religioso; da experiência do luto ao cotidiano de pessoas, famílias. Neste espaço, você conhecerá o testemunho de quem viveu a experiência de ser infectado. Se você também passou pelo mesmo problema, fique à vontade para partilhar quais foram os aprendizados e o que você tem a agradecer. Veja alguns depoimentos: “Qual nossa essência moral, espiritual e social?” A pergunta que não quer calar: covid-19, quem é você? China, o que é isso? A covid era 19 e nos roubou 2020 inteiro! Pelo jeito, vai invadir também nosso 2021. Aqueles que fazem aniversário se esforçam para encontrar motivos para comemorar, soprar as velinhas de um ano, mas, infelizmente, não há muito o que brindar, mas muito a chorar! E por quanto tempo mais vamos chorar? Amigos se foram. Parentes não estão mais com a gente. A incerteza, o medo nos rodeiam. A saudade e o distanciamento apertam o coração e angustiam a alma. Não basta apenas sermos fortes, é muito além disso e, talvez por isso, as pessoas ainda não conseguiram entender que a essência e o valor de tudo se relativizou. Sapatos da Arezzo? Perfume Givenchy? Produtos de maquiagem? Quem disse Berenice? Boticário? Mara Mac? Roupa da Farm, Renner, Cantão, Riachuelo, Animale? Qual a real importância de tudo isso? Não quero dizer que não gosto disso, mas sim que, num período como este, temos de refletir e discernir do que somos constituídos. Qual nossa essência moral, espiritual e social? Pois é com base nessa consciência que nos reergueremos para esse novo normal que está por vir. E aí, quem sabe, começar a viver mais humanamente, verdadeiramente felizes! Susete Maria da Silva Vieira ParreiraGestora educacional do Colégio imaculado coração de MariaRio de Janeiro _____ “Vivenciar essa experiência me fortaleceu” Quando você recebe o resultado “detectado” no teste de covid-19, um buraco se abre, pois tudo é incerto diante do novo vírus. Eu me senti numa montanha-russa de sintomas e sentimentos: um dia, na reta, em plena recuperação; no outro, de cabeça para baixo, num looping, sem energia sequer para me levantar, para me alimentar. Manter-se com bons pensamentos, em oração, fortaleceu-me para superar esse momento tão difícil, pois não sabemos o rumo do vírus em nosso corpo. Passamos dias isolados de quem mais amamos. Uma loucura! Vivenciar essa experiência me fortaleceu. As mensagens diárias de carinho me encheram de esperança de que tudo ia passar e que eu ficaria bem. Que possamos valorizar o que de fato é importante em nossas vidas: um abraço, a família e o amor. Magda Cristina Bastos do NascimentoCoordenadora pedagógica do ensino fundamental IRio de Janeiro-RJ ______ “Somos seres vulneráveis” Estar mergulhado numa pandemia já é uma experiência inusitada e, quando nos encontramos sentindo, efetivamente, o efeito em nosso organismo, a proporção se torna maior, pois qualquer certeza que pudéssemos vislumbrar, ela não existe. Não existe por não sabermos que rumos seus efeitos fisiológicos tomarão. Somos seres vulneráveis, e a grande lição desta pandemia é nos dar a oportunidade de entender que a espiritualidade é a mola propulsora que nos faz agir. Rever nossa relação com Deus e nos aproximar a Ele, que pode ser pelo amor ou pela dor e, infelizmente, a humanidade necessitou que fosse pela dor. Valorizar o simples, amar e expressar esse amor, estar disponível ao próximo e vivenciar a beleza da gratidão. Sandra Demetrio PereiraGestora administrativa do Colégio imaculado coração de MariaRio de Janeiro ______ “Fortaleceu o lamento pelas diferenças sociais no tratamento da doença” “O que não me mata me fortalece”, disse Nietzsche e assim ilustro o que ficou após eu passar pela dor e pela insegurança, ao ser infectada pelo vírus da covid-19. Fortaleceu a importância do autocuidado. Fortaleceu o vínculo com as pessoas que se preocuparam comigo. Fortaleceu o lamento pelas diferenças sociais no tratamento da doença. Fortaleceu a convicção de minha missão de ajudar o meu próximo. Fortaleceu, sobretudo, a fé em Deus, que, mesmo na condição de fragilidade humana, perante os mistérios da finitude da vida, sempre, sempre é maior que tudo! Alice Takahashi PiresPedagógica do ensino fundamental 1 do Colégio Espírito SantoSão Paulo-SP

Conheça a Escola para Formadores Jesus Mestre

A Escola para Formadores Jesus Mestre nasceu com o objetivo de proporcionar uma formação integradora aos que vão acompanhar os jovens que querem seguir a vida religiosa e presbiteral. Foi fundada em Porto Alegre-RS, em 1983, por um grupo de professores formados pelo Instituto de Psicologia da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, Itália. Em 1989, a Escola se transferiu para São Paulo-SP, o que coincidiu com a conclusão de meus estudos e meu retorno ao Brasil. Desde então, faço o acompanhamento psicoespiritual de religiosas e presbíteros que fazem o curso, participo da equipe de professores e também da diretoria. Nosso desafio é preparar religiosos e religiosas, padres e leigos comprometidos, capazes de integrar, em suas próprias vidas, as dimensões psicológicas e espirituais, as quais se manifestam na vivência da própria vocação de maneira coerente e consistente. Isso significa uma formação integral que capacitará a acompanhar os jovens em sua busca vocacional e processo de formação numa congregação religiosa ou numa diocese. A formação é proporcionada durante quatro etapas, num período de quatro anos. Durante o mês de janeiro, é realizada a formação teórica e, ao longo do ano, a escola continua com os acompanhamentos personalizados e também com os trabalhos e estudos dos conteúdos recebidos, que incluem Antropologia Psicológica, Teoria da Personalidade, Desenvolvimento Humano, Psicodinâmica da Família, Psicologia Social, Psicopedagogia e Teologia da Vida Consagrada, entre outros. Para participar da escola, o candidato ou candidata faz um acompanhamento psicoespiritual com um dos professores e, depois, uma avaliação. Os princípios que norteiam a escola são os valores cristãos, religiosos e humanos. Temos experimentado que a Escola para Formadores Jesus Mestre tem contribuído para toda a Igreja no Brasil e em Angola, na África, onde tive a oportunidade de colaborar durante alguns anos na preparação de formadores, até que eles próprios assumiram a direção da escola de lá. Em relação à vida religiosa, ao oferecer uma base sólida àqueles e àquelas que estão na missão de acompanhar o processo de formação dos jovens, contribuímos também para a formação das lideranças. Nesse sentido, vale a pena ressaltar que um número significativo de religiosos que passaram pela Escola Jesus Mestre hoje atuam na linha de frente de suas congregações. O mesmo se dá entre os presbíteros, uma vez que vários deles foram ordenados bispos e aplicam, em suas atribuições pastorais, o que receberam. Como missionária serva do Espírito Santo, fazer parte da diretoria da escola, para mim, é uma resposta aos apelos do Espírito Santo, para que a vida religiosa consagrada e ordenada sejam instrumentos de transformação diante dos desafios atuais. Estamos contribuindo para a formação de pessoas para que sejam realmente instrumentos do Reino de Deus na realidade de hoje. Pessoalmente, sinto-me realizada quando acompanho pessoas que querem fazer parte da escola, especialmente quando buscam fazer um trabalho pessoal que as ajudem a serem pessoas livres, capazes de dar a vida sem reservas e a se comprometer com a causa dos mais excluídos. Durante este tempo da pandemia, tenho experimentado a ação do Espírito Santo nos impulsionando a sermos criativos para encontrar novas formas de animar, dinamizar os acompanhamentos pessoais e dar continuidade à escola, mesmo neste período em que as aulas não podem ser presenciais. Como fazer isso, quando um dos princípios da escola é a relação interpessoal? Como manter essa relação mesmo à distância? Buscando responder a esses questionamentos, criamos grupos para encontros on-line. Como não será possível realizar as aulas presenciais durante o mês de janeiro, organizamos grupos on-line de aprofundamento dos temas centrais da escola durante os meses de janeiro, fevereiro, março e abril. Assim, estamos acompanhando todos os alunos que já iniciaram a escola nos anos anteriores e também aqueles que querem conhecer a escola para poderem iniciar a formação. E já estamos colhendo os frutos! Irmã Maria Percila Vieira é a atual coordenadora provincial das missionárias servas do Espírito Santo na Província Brasil Norte e presidente da Escola para Formadores Jesus Mestre. É Pedagoga, Psicopedagoga e formada pelo Instituto de Psicologia da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, Itália.

Festa do Batismo do Senhor

“Tu és o meu Filho amado, em ti eu ponho meu bem-querer”Mc 1,7-11 Neste domingo que comemora o batismo de Jesus, mais uma vez, encontramos a figura do Precursor, João Batista, que foi uma das principais personagens das liturgias do Advento. Mas, na leitura de hoje, a ênfase mesmo está na aceitação não somente do batismo de João, mas de quem viria depois dele: literalmente, “atrás de mim”. A expressão, que denota a dignidade, como em um cortejo, põe toda a importância na pessoa que vem, pois tirar as sandálias era serviço de um escravo. Jesus é o mais importante, pois, com a vinda dele, inaugura-se o tempo de salvação esperado por muitas pessoas e grupos (como os essênios) somente para o fim dos tempos. Nesse texto de Marcos, o interesse volta-se menos para o batismo de Jesus como tal e mais para a revelação divina que se lhe seguiu. Sendo batizado por João, Jesus coloca-se dentro da humanidade caída e publicamente assume o compromisso com a vontade do Pai. A frase “Viu os céus rasgarem-se, e o Espírito como uma pomba descer sobre si” enfatiza que Deus intervém para realizar suas promessas (cf. Is 63,19) pelo envio do Espírito Santo. Descendo sobre Jesus, o Espírito o designa como sendo o Salvador prometido e esperado. A voz do Pai confirma que Ele reconhece Jesus, desde o início de seu ministério público, como seu Filho (cf. Sl 2,7), seu bem-amado, objeto da sua predileção. Um dos sentidos mais importantes de nosso batismo também é nosso compromisso público com a vontade do Pai. Todos nós podemos sentir a veracidade da mesma frase usada pelo Pai diante de Jesus. Cada um, cada uma de nós também é verdadeiramente filho, filha do Pai celeste (cf. 1Jo 3,1), a quem aprouve escolher-nos. Nada pode nos separar desse amor divino, nem nossa fraqueza nem o pecado (cf. Rm 8,39). O que é importante é reconhecer que Deus nos amou primeiro, incondicionalmente, e cabe a nós responder a esse amor gratuito por uma vida digna de filhos e filhas do Pai, no seguimento de Jesus (cf. 1Jo 4,10-11). Jesus não achou privilégio ser o amado do Pai, mas assumiu as consequências: uma vida de fidelidade, que o levaria até a Cruz e a Ressurreição (cf. Fl 2,6-11). Celebrando essa festa litúrgica, renovemos o compromisso de nosso batismo, comprometendo-nos com o seguimento do Mestre, no esforço de criação do mundo que Deus quer, um mundo onde reinam o amor, a justiça e a verdadeira paz. Nosso batismo confirma que somos parceiros de Deus no ato permanente de criação, fazendo crescer o Reino dele, que “já está no meio de nós” (cf. Mc 1,14). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

“Para educar uma criança, é preciso uma aldeia inteira”

“Para educar uma criança, é preciso uma aldeia inteira.” Esse sábio provérbio africano nos mostra o quanto é trabalhoso, importante e promissor educar uma criança. Se pensarmos sobre ele no contexto da pandemia da covid-19, tempo em que as famílias não puderam contar, ou puderam-no de forma restrita, com o apoio das instituições e da família extensa na educação das crianças, encontraremos crianças apresentando grande risco de não atingirem seu pleno potencial. O que fazer diante desse cenário? Em 2000, o economista norte-americano James Heckman conquistou o Prêmio Nobel de Economia, ao criar métodos científicos que avaliavam a eficácia dos programas sociais dedicados à primeira infância. O economista mostrou que as consequências desses investimentos (ou da falta deles) estão relacionadas ao futuro de uma sociedade, interferindo em taxas de criminalidade, gravidez na adolescência, evasão no ensino médio e níveis de produtividade no mercado de trabalho. Desde o início do século, pedagogos, médicos e cientistas, como Maria Montessori e Emmi Pikler, entre outros, vêm mostrando à humanidade o quanto os primeiros anos de vida são decisivos para o sucesso de uma vida inteira. A criança nasce com um incrível potencial para o desenvolvimento, precisando apenas de um ambiente seguro, de afeto, de cuidado e de estímulos para que conquiste a plenitude de seu potencial. Hoje, a tecnologia e o avanço das neurociências nos permitem comprovar que esse é um período de intenso desenvolvimento cerebral, no qual se estabelecem as bases da saúde, do bem-estar e da produtividade. Já dizia Maria Montessori, “Se houver para a humanidade uma esperança de salvação e de ajuda, esta ajuda só pode vir da criança, porque é nela que se constrói o homem”. Há alguns anos, percebe-se uma crescente valorização da educação da criança pequena. Aos poucos, indivíduos, governantes e instituições estão compreendendo que educar a criança não é só cuidar e brincar sem intencionalidade, e percebendo a importância da educação nessa faixa etária. O documentário O começo da vida, produção brasileira de 2016, divulgou amplamente, nos quatro cantos do planeta, a causa da primeira infância, sendo a principal ferramenta de uma campanha global da UNICEF. O filme nos convida a refletir: estamos cuidando bem dos primeiros anos de vida, que definem tanto o presente quanto o futuro da humanidade? Nesse contexto é que entra a pandemia causada pelo novo coronavírus, trazendo o fechamento das escolas por longo período, o distanciamento físico, o trabalho remoto para alguns, a necessidade de permanecer trabalhando presencialmente para outros ou a falta de trabalho para muitos. A ausência de ações que visem a minimizar os prejuízos deste momento terá consequências, a longo prazo, no capital humano futuro, para todas as camadas sociais, mas principalmente para aqueles que vivem em situação de pobreza e dependem ainda mais dos cuidados e estímulos fornecidos pelas instituições, e têm pouco ou nenhum acesso às ferramentas virtuais de aprendizagem, que, apesar de não serem as ideais, são as possíveis. É papel da família e de cuidadores proteger as crianças do estresse gerado pelo distanciamento social, pela falta de convivência com os pares e também promover desenvolvimento, saúde e bem-estar. Para isso, é preciso que as famílias sejam apoiadas, que haja iniciativas estatais e sociais para que quem cuida das crianças seja cuidado e possa desempenhar seu papel com um mínimo de segurança e a maior tranquilidade possível. Principalmente nestes tempos de incerteza, turbulência e sofrimento, para que não percamos a esperança no futuro, vale lembrar Milton Nascimento, em Coração de estudante: “Há que se cuidar do broto, pra que a vida nos dê flor e fruto”. Ana Amélia Rigotto FernandesProfessora, pedagoga e psicopedagoga, é diretora educacional do Colégio Sagrado Coração de Jesus, da Rede Missionárias Servas do Espírito Santo, em Belo Horizonte-MG.

Carta para um ano que chega

“Vamos receber esse desconhecido ser que chega. Ele vem sem nada, traz apenas a esperança.” Esse trecho foi tirado de um cartão que eu e Mônica enviamos aos amigos e familiares quando dos nascimentos de nossos filhos. Feito pelas irmãs do Mosteiro de Nossa Senhora das Graças, em Belo Horizonte-MG, ainda hoje, 30 anos depois, está presente em nossas vidas, porque fala de algo essencial para todos nós, os humanos: a esperança. Entre tantos sentimentos, a esperança é o que tem o poder de, mesmo em meio às tempestades, acalmar o coração e nos lembrar de que, sim, é possível superar, é possível avançar, é possível evoluir. Sempre! Enquanto escrevo aqui estas palavras, nesta manhã de Natal, penso: quem de nós, um ano atrás, poderia imaginar o tamanho dos desafios que a humanidade iria enfrentar logo depois? Reflito que, para além de todos os sofrimentos, reais e profundos que tantos vivemos, houve, junto, uma transformação silenciosa e profunda: uma grande metamorfose. Como lagartas, encerradas em nossos casulos-casas, tudo aconteceu incognitamente, longe dos olhos do mundo. Em nosso trabalho interno, fomos desafiados por uma avalanche de situações inéditas: famílias convivendo 24 horas por dia, 7 dias por semana, dividindo espaços, equipamentos, dificuldades e também apoios. Como lagartas em seus casulos, tivemos mesmo de reaprender, readaptar, reconsiderar tantas coisas, para que a convivência se tornasse possível e os atritos (inevitáveis) se transformassem em apoios, sorrisos, afetos. Desse modo, o ano que chega não encontrará em nós as mesmas pessoas de um ano atrás: definitivamente, somos outras, transformadas em nova dimensão, com novas habilidades, competências, hábitos e valores! Sim, valores, pois, em nosso recolhimento, pudemos reconhecer o que tem realmente valor e o que tem apenas um preço. Ao olhar para o ano que nos chega, nem posso imaginar o que ele nos trará, mas sei que, como uma folha de papel em branco, ele será um campo para todas as possibilidades… Eis aí a esperança! Então, caro amigo que lê estas linhas, vamos nos preparar para “receber esse desconhecido ser que chega. Ele vem sem nada, traz apenas a esperança”. Confiança, coragem e fé serão nossas melhores companheiras nesta linda viagem que é a vida e o viver. Feliz ano que chega! Carlos Ronan de Alvim Braga é um aprendiz da vida. Compartilha com seus alunos do Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte, o empreendedorismo, sabendo e fazendo saber que o maior empreendimento que podemos ter é nossa própria vida. Vamos juntos!

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