Grupo MLDUT de Cascavel-PR apoia núcleo de apoio a ostomizados

As missionárias leigas do Deus Uno e Trino (MLDUT) de Cascavel-PR, Andreia, Irene, Loiva e Maria Tereza, visitaram o Renascer – Núcleo dos Ostomizados, localizado no Município. O centro é referência para as pessoas ostomizadas de 24 Municípios paranaenses, mas recebe também pacientes de outras regiões do Estado e do Brasil. A ação foi realizada no dia 1º de fevereiro. Segundo informações do Ministério da Saúde, a pessoa ostomizada é aquela que precisou passar por uma intervenção cirúrgica para fazer no corpo (geralmente na região abdominal) uma abertura ou caminho alternativo de comunicação com o meio exterior, para a saída de fezes ou urina, assim como auxiliar na respiração ou na alimentação. Essa abertura se chama estoma. Muitos procedimentos cirúrgicos necessários para tratamento do câncer acabam gerando estomas. As MLDUT conheceram Wilse, presidente do Renascer. Na adolescência, ela descobriu que precisaria passar o resto da vida com uma bolsa colada ao corpo, para servir como coletora de fezes. Na época, não havia um suporte especializado para isso em Cascavel. Foi a história dela que despertou em um médico a ideia de fundar um núcleo que pudesse dar mais informação e qualidade de vida aos ostomizados, como são chamadas as pessoas que precisam do recurso. O atendimento é multidisciplinar. O que também faz diferença é o paciente poder escolher o tipo de bolsa com a qual mais se adapta. A bolsa é um saco coletor que recebe as fezes ou a urina. Há vários tipos e são indicados conforme a localização do estoma, idade da pessoa e tipo de material a receber. Essas bolsas coletoras podem ser drenáveis ou não, opacas ou transparentes e em uma ou duas peças. O material é fornecido pelo CISOP (Consórcio Intermunicipal de Saúde do Oeste do Paraná), mas, para as demais despesas, o núcleo depende de doações, inclusive de ajuda financeira. A luta do Renascer é para que haja mais garantia dos direitos dos ostomizados, com mais informação sobre o assunto. Numa visita ao núcleo, realizada meses antes, as MLDUT participaram de uma reunião e ficaram sabendo das dificuldades. Na ocasião, Wilse relatou que o local havia sido invadido por ladrões. Foram furtados o ar-condicionado e outros objetos importantes para o funcionamento da casa. A diretora também informou sobre as despesas cotidianas do espaço. Após conhecerem o Núcleo, as missionárias, coordenadas pela Ir. Rosinda, SSpS, decidiram destinar um valor à entidade, como um gesto concreto. “Entregamos a eles o valor de mil reais em dinheiro, arrecadado pelo grupo ao longo do ano de 2022, com rifas e pequenas contribuições mensais das missionárias”, conta a professora Simone Lazzarotto e integrante das MLDUT de Cascavel. O contato com o Renascer – Núcleo de Ostomizados se deu porque uma das MLDUT precisou submeter-se ao procedimento há três anos. Como o trabalho é pouco divulgado, muitas das missionárias nem sabiam que o problema poderia acontecer com qualquer um. “Assim foi com nossa missionária. De um dia para o outro, ela precisou adaptar-se a essa nova vida, viver com uma bolsa coletora das fezes colada ao corpo”, declara Simone. O Renascer – Núcleo dos Ostomizados fica na Rua Carijós, 294 – Bairro Santo Onofre, em Cascavel-PR. Quem desejar obter mais informações e contribuir com o trabalho pode ligar para o número (45) 3326-5884 ou entrar em contato pelo e-mail ostomizadosoestedoparana@gmail.com. Para saber mais Atenção à Saúde das Pessoas Ostomizadas – Ministério da Saúde[Link: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/folder/atencao_saude_pessoas_ostomizadas.pdf] Simone LazzarottoProfessora de Biologia no Colégio Santa Maria, Cascavel-PR.
Crescimento sustentável pede também justiça social

Nos últimos anos, muito se tem falado sobre a necessidade de um crescimento sustentável para a manutenção da biodiversidade de nosso planeta. Todavia, para que isso aconteça, é necessário que uma série de fatores se desenvolva de forma equilibrada e equidistante. Explico. Não há crescimento sustentável se as populações mais vulneráveis não têm acesso à educação e saúde de qualidade; se diariamente aumenta o número de pessoas em situação de rua, e a miséria, fome e a pobreza atingem níveis volumosos; se os povos originários e as comunidades quilombolas têm suas terras invadidas e devastadas a fim de atender aos interesses de madeireiros e garimpeiros ilegais, movidos pela ganância desmedida; se permanecem as desigualdades de gênero. De que adianta a economia de um país apresentar dados de crescimento vultosos se, por trás desse crescimento, está o aumento da concentração de riqueza nas mãos dos mais ricos? Se a miséria e a desigualdade social se avolumam? Se a biodiversidade do planeta está sob risco de extinção? As pessoas precisam compreender que crescimento sustentável envolve ações que vão muito além de medidas que visam a proteger o meio ambiente; elas precisam promover o bem-estar social de todos. Assim, os povos do mundo têm compromisso muito importante. Devem eleger governantes preocupados em fomentar políticas públicas que visem a proteger o meio ambiente, os mais vulneráveis e a combater qualquer tipo de discriminação e desigualdade. Não há futuro para o planeta Terra se o progresso econômico e material estiver associado a ações que continuem a contribuir para a devastação climática e ambiental, bem como não há sociedade civil justa e pacífica se a riqueza produzida no planeta continua concentrada na mão de tão poucos. Como pode os 10% mais ricos do planeta controlarem 76% da riqueza global? E que 50% dos mais pobres fiquem com apenas 2%? Esses dados que apresento são de 2021 e produzidos pelo Relatório de Desigualdade Mundial, que reúne mais de cem pesquisadores em todo o mundo, fruto de mais de quatro anos de pesquisas. Os especialistas destacaram ainda que a fortuna dos mais ricos cresceu na pandemia, enquanto milhões de pessoas entraram na pobreza. Consequentemente, se continuarmos a mover nossas ações apenas baseados em interesses financeiros, infelizmente, estaremos comprometendo a existência das futuras gerações no planeta. Em 2022, em recepção a 1500 peregrinos das dioceses italianas de Alessandria e Spoleto-Núrcia, o Papa Francisco destacou que o amor se expressa por meio de ações de partilha: “Esta busca, através do discernimento, leva a comunidade a crescer com um conhecimento cada vez mais íntimo de Jesus Cristo. Dessa forma, o Senhor da Verdade torna-se fundamento da vida comunitária, entrelaçado por laços de amor. O amor expressa-se por meio de ações de partilha, da dimensão física à espiritual, que dão visibilidade ao segredo que carregamos em nossos ‘vasos de argila’.” O Papa nos recorda que a construção de uma comunidade cristã passa por uma ação pastoral que procure promover sempre a justiça social. Portanto, a economia, a política, o crescimento e o progresso devem estar a serviço do ser humano e do planeta Terra. Rafael Cupello PeixotoGraduado em História pela Universidade Federal Fluminense (2009), mestre em História Social pela Universidade Federal Fluminense (2013), doutor em História Política (2018) pela UERJ, Prêmio Arquivo Nacional de Pesquisa 2019 pela pesquisa de tese de doutoramento intitulada “O marquês de Barbacena: política e sociedade no Brasil Imperial (1796-1841)”. Professor Substituto na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), auxiliar no curso de História da Escola de Formação de Professores no Centro Universitário Celso Lisboa e professor de História para os ensinos médio e fundamental II no Colégio Imaculado Coração de Maria, no Rio de Janeiro-RJ.
A preservação das condições de vida na Terra

A terra, o ar e o mar que nos cercam configuram uma delicada teia que dá sustentação à vida. Ela é orgânica e desconsidera fronteiras geográficas, políticas e econômicas que nós, artificialmente, criamos. A maior obra humana é a estrutura que dá sustentação à nossa existência e seus tentáculos que se alastram, invadindo o mundo natural. Em seu meio, vigora uma mentalidade antropocêntrica que situa a vida humana, e não a vida do planeta, como sagrada. Em Gênesis, o firmamento, os ciclos dia-noite e manhã-tarde foram criados no primeiro e no segundo dia; continentes e oceanos, seres com semente e fruto foram criados no terceiro dia; animais que voam, que vivem na água, que rastejam, que vivem na selva, o homem, a mulher e animais domésticos foram criados no sexto dia. Esse enredo ilustra o quanto nossa vida e a nossa saúde dependem da vitalidade do meio que nos cerca e posiciona a vida do planeta também como sagrada. O garimpo em terra Yanomami é uma chocante evidência do impacto das atividades econômicas na saúde do território, do curso do rio, da floresta, da biodiversidade, da vida humana e de outras espécies. O garimpo, a exemplo da lógica de outras atividades econômicas, ocorre em escala industrial na qual a tecnologia é um braço artificial que amplifica o alcance da atuação humana, por vezes perversa, sobre o planeta. Em um contexto marcado pelo antropoceno, capitaloceno ou qualquer outro nome que se queira dar, a interação entre o sistema econômico e o meio ambiente está registrada nas pegadas que nosso modelo de vida deixa sobre a terra. Os vestígios estão tanto na degradação que acompanha o uso de recursos naturais quanto nos resíduos que ocupam espaço na terra e no mar, que contaminam o ar e circulam em nosso corpo e de outras espécies, a exemplo das partículas plásticas. Os desafios de nosso tempo e do futuro são complexos, contraditórios, inacabados. Muitas de nossas decisões carecem de certezas e estão fundamentadas em informação incompleta, especialmente quando consideramos as consequências, a responsabilidade da atuação humana sobre a terra e a importância da preservação de suas condições de vida. Mais importante do que a formulação limitada de respostas é a problematização adequada das ações políticas e do design do futuro. O que envolve avaliar se a meta de contínuo crescimento econômico deve continuar sendo o santo cálice da economia. Também diz respeito a analisar corretamente o valor da preservação da biodiversidade, do clima, de fontes de energia, dos minerais, assim como os ciclos das águas e do solo. O compromisso com a sacralidade do planeta e a preservação de suas condições de vida é, essencialmente, uma reafirmação do extraordinário de nossa existência e de reverência ao Criador. _________________________________ ReferênciasANDRADE, D. Economia e meio ambiente: aspectos teóricos e metodológicos nas visões neoclássica e da economia ecológica. In: Leituras de economia política. Campinas: 14, 2008. p. 1-32.BÍBLIA SAGRADA. Gênesis. Revisada por Frei José Pedreira de Castro. São Paulo: Ave-Maria. p. 49-50.BUCHANAN, R. Wicked problems in design thinking. In: Design Issues, v. 8, p. 5-21, primavera, 1992.COLTRO, F.; BORINELLI, B. Antropoceno e Capitaloceno: novas perspectivas, velhos combates. In: Estado e sustentabilidade: múltiplas e contestadas faces. Palhoça: Ed. Unisul, 2020, v. 1, p. 157-176.CAPRA, F. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix, 2006.CARSON, R. Sob o mar-vento. São Paulo: Gaia, 2013.CARSON, R. O mar que nos cerca. São Paulo: Gaia, 2013.IBAMA. Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis. Disponível em https://www.gov.br/ibama/pt-br. Acesso em 12 fev. 2023.CAPUCCI, R. O testemunho de Sônia Bridi e Paulo Zero sobre a tragédia Yanomami. In: podcast Isso é Fantástico. Disponível em https://open.spotify.com/episode/6GbHCEdFJFgLWaC98XqZYO?si=jin0I2lbTcavsFBT0r97PA. Acesso em 12 fev. 2023JONAS, H. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: PUC Rio, 2006.PONTES, N. “O Ibama voltou”, diz chefe da proteção ambiental do órgão. Deutsche Welle, 11 fev. 2023. Disponível em https://www.dw.com/pt-br/o-ibama-voltou-diz-chefe-da-prote%C3%A7%C3%A3o-ambiental-do-%C3%B3rg%C3%A3o/a-64673286. Acesso em 12 fev. 2023 Marli Teresinha EverlingProfessora dos cursos de Graduação e Pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville/Univille. Coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica. Colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental.
“O governo não pode ter medo de enfrentar os monstros da Amazônia”

A expressão é da irmã Madalena Hoffmann, missionária serva do Espírito Santo (SSpS) e membro do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) do Município de Alto Alegre, Roraima. Presente na Assembleia do Regional Norte 1 do Cimi, realizada de 11 a 14 de fevereiro, Ir. Madalena, que atua também na Pastoral Paroquial, com foco na pastoral indigenista, afirmou que terra, território e água serão o foco principal das atividades do Cimi, no Regional. Entre outras prioridades igualmente importantes, está a atuação, em rede, na região do rio Abacaxis, para garantir direitos; o apoio ao povo Yanomami em suas terras invadidas pelos garimpeiros e demais áreas; e as ações de proteção aos povos indígenas livres. O Cimi se propõe também a avançar na articulação e incidência política, e a fortalecer a aliança com outras entidades (entre elas, a Comissão Pastoral da Terra, universidades, Sares, Repam) que atuam no campo da luta contra a mineração e grandes empreendimentos em terras indígenas (BR-319, Bacia Sedimentar do Solimões)e promover estratégias de diálogo com o governo atual. Irmã Madalena falou ainda sobre a atuação do governo atual na proteção e cuidado dos Yanomami e sobre os desafios que os indígenas enfrentam para viver no mundo urbano. Veja a íntegra da entrevista. A Assembleia teve como tema “Cimi: 50 anos de existência, reafirmando a caminhada na mística, memória, resistência e esperança” e, como lema, “E diga ao povo que avance! Avançaremos!”. Por que esse tema e esse lema? O que eles querem dizer nas entrelinhas para a Igreja, a sociedade e os povos originários? Irmã Madalena: Diante de uma realidade vivida no País, onde era negado aos povos a vivência e o cultivo de seus costumes, crenças, saberes e tradições, pode-se dizer, com certeza e esperança, que o nascimento e a organização do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) foi o acontecimento por excelência, tanto na vida eclesial quanto na vida dos próprios povos originários. Aqui na Amazônia, se ainda existe preservação da natureza, floresta em pé, é inegável que isso se dá graças à luta, resistência, teimosia e valentia dos povos originários e de tantos missionários e tantas missionárias que, ao longo desses 50 anos, dedicaram-se incansavelmente a essa grande missão de estar junto a esses guerreiros e guerreiras, somando forças, enfrentando perigos. Muitos, até com seu próprio sangue, testemunharam essa paixão pela causa indígena, que é de todos nós. Portanto, voltar atrás, jamais! Avançar, sempre! Diga ao povo que avance! Avançaremos! Como a senhora avalia a atuação do atual governo ante a tragédia que se instaurou no mundo Yanomami? Irmã Madalena: É como um oásis no deserto! Um ressurgir da vida e da esperança no meio de tanto descaso praticado pelo governo anterior. Onde podemos dizer e repetir com toda a certeza: nunca mais um Brasil sem os povos originários! No momento, o governo foca no cuidado com os povos originários onde a vida está mais ameaçada, o que parece justo. Mas a Amazônia, como um todo, clama por atenção. O grande desafio do atual governo, em relação à Amazônia, é não ter medo de enfrentar os monstros que sempre sugaram as riquezas naturais às custas de tantas vidas machucadas, marginalizadas, ameaçadas e pisoteadas por esse sistema que gera morte, em nome de um falso progresso e desenvolvimento. Sabemos que não será uma tarefa simples e vai exigir do governo um pulso firme e destemido. E vai precisar, mais do que nunca, de uma sociedade civil organizada e forte, através dos movimentos sociais, igrejas e tantas outras instituições promotoras do bem viver. Os povos indígenas livres precisam de proteção, e essa é uma das prioridades abraçadas pelo Cimi na Assembleia do Regional Norte 1, que acabou de acontecer. Na prática, quais são as reais ameaças à vida dos povos indígenas livres? Irmã Madalena: Os povos livres sofrem constantemente o assédio de pessoas; e pasme, muitas vezes, pessoas religiosas das igrejas pentecostais. Recordemos que, durante o desgoverno passado, inúmeras vezes, pastores, “gente do bem e de Deus…”, em nome de uma fé esvaziada, entravam nos espaços dos povos, os quais eles chamavam de isolados, cuja alma tentavam salvar. Também a Igreja Católica teve atitude semelhante durante a primeira colonização. Mas, por trás dessa “boa” intenção, vieram também grandes interesses pelas riquezas naturais das florestas. Com isso, entram as doenças, os vícios dos brancos, o aliciamento de pessoas. Isso continua muito forte nos dias de hoje. O Cimi tem o projeto de trabalhar essas questões nos lugares onde já houve ou está havendo esses estragos, para que, justamente, possam existir mecanismos de proteção e denúncia dessas situações. Poderia falar sobre os principais desafios que os indígenas que vivem em contexto urbano, como os Yawaripë/Yanomami, enfrentam? Que tipo de acompanhamento seria eficaz? Irmã Madalena: Em relação aos povos da cidade, falando da situação concreta de Boa Vista, com a invasão dos garimpeiros, muitos foram aliciados através de “migalhas” a irem para a cidade. Ao chegar, sofrem as piores e atrozes consequências. Por exemplo, não têm onde ficar, ficam muito doentes, são atropelados e mortos pelas ruas de Boa Vista, são tidos como indigentes e assim são sepultados. Os filhos de quem morre se negam a voltar para o território, pois dizem “A mãe morreu aqui, e aqui eu quero morrer também”. Já existe uma equipe em Boa Vista acompanhando essas situações. É uma realidade também do Amazonas. Por isso, foi acrescentada como uma forte prioridade essa questão. Há algum desafio em ser mulher, missionária nessa luta? E alegrias? Irmã Madalena: Muitos desafios, mas muito mais alegrias, mesmo em tempos sombrios que passamos, pois só o fato de saber que estamos do lado da vida, especialmente lá onde ela é mais ameaçada, já é motivo de nos alegrarmos por nos sentirmos no lado certo. O misto de desafios e alegrias na vida missionária é o que nos impulsiona a avançar sempre nessa caminhada. Poderia falar um pouco sobre a atuação da mulher e mulher consagrada no Conselho Indigenista? O que faz a diferença com a presença delas? Irmã Madalena: Na verdade,
A conquista do voto feminino no Brasil

Conhece alguma senhora de 91 anos que foi votar nas últimas eleições? Já reparou que, ultimamente, no Brasil, quando chegam as eleições, durante a campanha eleitoral, há uma preocupação com o voto das mulheres e candidatas nas chapas? Mas nem sempre foi assim. Faz 91 anos que o voto feminino passou a ser um direito das mulheres no Brasil. O Estado do Rio Grande do Norte teve a professora Celina Guimarães Viana (1890-1972), com 29 anos, como a primeira eleitora, em 5 de abril de 1928, quando foi publicado o nome dela na lista das eleições. Em Mossoró-RN, o objeto de lutas sociais durante a década de 1920 passou a ser seguido não apenas no Brasil, mas também na América do Sul. Outra professora, de Natal, Júlia Alves Barbosa, também teve a sentença do juiz autorizando seu nome na lista eleitoral. Depois disso, mais 19 mulheres passaram a ter o mesmo direito de votar, como Joana Cacilda de Bessa, que teve apoio do marido. Alzira Soriano de Souza, em 1928, foi a primeira mulher a ocupar um cargo eletivo. Assim, em 24 de fevereiro de 1932, essa conquista passou a ser para todas as brasileiras alfabetizadas, conforme a então Constituição Federal. O feito de Celina Guimarães abriu espaço em toda a América do Sul, sendo exemplo para outros países, em outros continentes. A representatividade das mulheres na política brasileira, contudo, ainda é insignificante, considerando que a maioria da população é do sexo feminino. Observe quantas eleitas nas câmaras municipais, assembleias legislativas e Congresso Nacional. Quantas vezes tivemos eleitas para prefeitura, governo do Estado e Presidência? O artigo 10º da Lei n.º 9.504/1997 estabelece 30% da representatividade do sexo feminino nos partidos, o que ainda não ocorre, visto que essa porcentagem não representa a maioria da população brasileira, que tem 53% de mulheres. Conforme as mulheres ocupam seu espaço na sociedade, a consciência cidadã também vai crescendo. Pensadora como Simone de Beauvoir contribuiu para que o movimento feminista influenciasse em outros tantos direitos sociais e políticos. No Brasil, a bióloga Bertha Lutz e a professora Lacerda de Moura fundaram a Liga para a Emancipação Internacional da Mulher, um grupo de estudos que buscava a igualdade política das mulheres. Mais tarde, Lutz criou também a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, com o objetivo de promover o nível de educação da mulher, estimulando o espírito de sociabilidade e interesse pelas questões sociais, bem como de proteger as mães e a infância. A partir da conquista do voto feminino, outras vitórias foram alcançadas graças à luta das mulheres. Em 2006, foi criada a Lei Maria da Penha; em 2015, sancionada a Lei do Feminicídio; em 2018, a importunação sexual contra as mulheres passou a ser considerada crime; e, em 2019, houve um aumento de mulheres eleitas na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Há, contudo, muitos desafios ainda a serem superados pelas mulheres no Brasil em relação aos direitos, à igualdade e ao respeito que merecem. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP, SBPC, SITRAN, atualmente é professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Aproffib e da Comissão de Prevenção e Combate à Tortura (ALESC), voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis-SC.
Luto “saudável” e desenvolvimento humano

Estamos vivendo um mês de euforia para milhares de brasileiros, devido às expectativas para a festa do carnaval. Para outros milhares, há a expectativa para o início do grande retiro espiritual da Igreja Católica: a Quaresma. Para muitos, o tema deste artigo não seja apropriado para o momento. No entanto, ele é relevante, porque perpassa todas as fases de nossa vida. Até mesmo porque luto não tem a ver somente com a morte física de uma pessoa. Por esse motivo, é importante pensar no assunto antes que ele se torne realidade em nossa vida, pois é quase impossível pensar numa pessoa que não vivenciou tal momento. Quando pensamos em luto, a primeira memória que temos é a do luto pela perda física de uma pessoa. Imagens antigas nos vêm à mente, principalmente aquela do ritual após a morte de um ente querido: o de vestir-se de preto e respeitar a memória do falecido, nos primeiros dias e até meses. Isso varia de acordo com cada cultura. Embora o ritual faça parte de todo tipo de luto, nem todo luto é igual ou se limita somente à perda física de uma pessoa. Para a psicanálise, “O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante” (Freud, 1915/1917). Com base nessa conceituação psicanalítica, podemos constatar que várias situações que já vivemos tiveram a característica de um luto, sem termos necessariamente vivenciado uma morte física de uma pessoa querida. Outras situações de luto: o término de um relacionamento amoroso, o rompimento de uma amizade, uma separação matrimonial, uma mudança para outro país ou outra cultura. Até mesmo uma transferência de um local de trabalho, uma mudança de faixa etária, uma demissão do emprego, uma aposentadoria, etc., podem ser vividas como um luto. O luto “saudável” nos ajuda no desenvolvimento humano. Ele deveria ser superado sempre. É o curso normal da vida. Para isso precisa de elementos internos e externos. Por elementos internos, subentende-se nossa bagagem histórica, nossos valores, nossas crenças, nossos projetos de vida, nossa educação familiar e intelectual. Por elementos externos compreende-se a cultura e o ambiente em que vivemos; o meio externo. As amizades, a família e a comunidade social na qual estamos inseridos são essenciais. Às vezes, com a melhor “das intenções”, podemos atrapalhar o processo de elaboração do luto de uma pessoa querida por nós. Muitas vezes, apressamos o processo, exigindo que a pessoa se apresse a “voltar ao normal”. Frases como “você é uma pessoa jovem, alegre, bonita, tem um bom emprego…” mais atrapalham do ajudam. Isso porque a pessoa se sente mais culpada ainda por estar vivendo esse período. É preciso lembrar que cada um tem seu processo particular. “Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derrubar e tempo de edificar. Tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de dançar” (Eclesiastes 3,1-4). Pe. Aparecido Luiz de Souza, SVDPsicólogo.
Para a fome do corpo, o pão. Para a fome do saber, a educação

A cada ano, recebemos um convite para viver, em espírito de mudança pessoal, comunitária e social, o tema transversal nas escolas da Rede de Educação Missionárias SSpS. É ele que, ao ser incluído nos projetos pedagógicos, ajuda na compreensão e na construção de outra realidade social, dos direitos e responsabilidades relacionados com a vida pessoal e coletiva, e da afirmação do princípio da participação política. Ao nascer do tema da Campanha da Fraternidade, que, em 2023, traz ao centro a questão da fome, o tema transversal aponta para a necessidade da busca de ações conjuntas capazes de mudar essa realidade, garantindo a dignidade humana como direito básico. Em um país onde o mapa da fome revela que mais de 33% de sua população experimenta a triste e humilhante situação de não poder se alimentar nem de dar a seus filhos e filhas o sustento indispensável a cada dia, igualdade e fraternidade não podem continuar a ser as palavras mais temidas se, de fato, queremos construir e deixar para as futuras gerações o mundo desejado sobre o qual tanto falamos; afinal, onde aperta a fome, a fraternidade clama. Essa é a razão por que o Papa Francisco, sem rodeios, afirma não haver democracia se existe a fome, pois esta é um dos resultados mais cruéis da desigualdade e afeta inicialmente os mais necessitados, e atinge a sociedade por inteiro. Fome de pão, de paz, de fraternidade, de verdade, de cultura e de tantas outras “fomes” que somente o conhecimento, fruto de uma educação de qualidade para todos, será capaz de contribuir com soluções mais sustentáveis, garantindo a todos o acesso à alimentação e à educação. Que o tema transversal, “Para a fome do corpo, o pão. Para a fome do saber, a educação”, ajude a intensificar a vivência da solidariedade em nossos espaços escolares, ilumine nossos estudantes para que apliquem o conhecimento adquirido na busca de soluções criativas para a superação das grandes causas humanitárias, e que a cidadania solidária ajude a cobrar efetivamente de nossos governantes a realização de políticas públicas que garantam plenamente os direitos sociais de nossa Constituição. Agostinho Travençolo JuniorEducador e assessor da Dimensão Missionária da Rede de Educação Missionárias SSpS.
Na corrida frenética pelo ouro, quem paga o preço são os indígenas e a natureza

Desde os anos 1970, a Terra Indígena Yanomami (TIY) é cobiçada para a exploração do ouro não obstante a demarcação realizada em 1992. Com quase 10 milhões de hectares, a reserva em Roraima, com uma população de cerca de 20 mil indígenas vive uma crise sem precedentes que traz à tona o descaso do governo federal nos períodos de 2019 a 2022, de acordo com testemunhas que há anos vivem e labutam na defesa dos direitos dos Povos e da floresta. Se em 2014 os dados de adoecimento não superavam 2 mil, em 2022, esse número teve uma alteração de 10 vezes mais. A extração de recursos minerais, – como o ouro -, dos solos ou cursos d’água em escala ilimitada, – associado a organizações criminosas -, por meio de técnicas manuais ou de maquinários como retroescavadeiras e dragas tem sido a maior causa da crise humanitária que se instalou entre os Yanomami. Estudo conduzido por pesquisadores pelos Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE) e da Universidade do sul do Alabama, EUA, revela que quase todo o garimpo ilegal (95%), se se dá em três terras indígenas, Kayapó, Munduruku e a Yanomami, a mais afeta pela ilegalidade. Rica em depósitos de ouro, soma uma população de 26 mil Yanomami e Ye’kwana, distribuídos em 321 aldeias. Não é um cálculo difícil de se fazer para este problema matemático, social, político e ambiental. Nesse meio de campo quem tem mais recursos e forças na disputa, sai na frente. Os garimpeiros, por sua vez, contam com uma megaestrutura favorecida por poderes econômicos, elites locais e o aumento do preço do ouro no mercado internacional, e ainda teve garantido o apoio do governo anterior que durante o mandato favoreceu o transito no parlamento de um projeto de lei para regulamentar, abrir as terras indígenas ao garimpo, o que é inconstitucional. O missionário da Consolata ugandês, no Catrimani desde 2019, padre Bob Mulega, 34, enfatiza que os garimpeiros, também eles, são vítimas de um sistema de exploração dos povos e da natureza. “Os que atuam nos garimpos ilegais são os mais pobres que não tem outra opção, pois sabemos que no garimpo as condições de vida são péssimas”, conta. Como uma ferida aberta no coração da floresta, uma estrada de 10 km que adentra o território Yanomami para o desmatamento e as grandes crateras abertas que desnudam a terra na busca de fortuna, tem consequência drástica na vida, na cultura e na espiritualidade e na saúde física dos povos indígenas e, por outro lado, uma contaminação sem precedentes que devasta a natureza na sua limpidez. “Os postos de saúde ficaram desabastecidos de remédios básicos como dipirona, paracetamol, remédios para tratamento da malária. Mais de 500 crianças morreram por patologias que são curáveis. Abandono completo do posto de saúde usado como posto de combustível pelos garimpeiros”, desabafa em entrevista o padre Corrado Dalmonego, IMC, que realiza pesquisa de doutorado sobre os impactos do garimpo no território. Como uma rede de violação dos direitos humanos, o garimpo além de prejudicar a saúde por transmissão de doenças e por favorecer a negação dos devidos cuidados, impedindo a entrada de recursos, da presença dos missionários, desestrutura a vida familiar, quando se trata das questões de prostituição imposta às mulheres em troca de benesses. Quem adentra a floresta tem uma visão de ambição pelas riquezas naturais com o objetivo de obter lucro em detrimento do bem-viver da floresta e das pessoas que ali convivem em harmonia com ela. O garimpo afeta esse modo de vida. Para o padre Mulega, “a vida do povo tem piorado por causa do contato com as doenças que vêm de fora, a extração ilegal que destrói o meio ambiente, falta de assistência e atendimento adequado à saúde”. Uma séria consequência disso é a migração dos jovens indígenas para a cidade que, segundo o missionário os atrai para o mundo das drogas e outros contra valores. “Os empresários e políticos precisam ser responsabilizados pela tragédia do garimpo” Vale recordar que juntamente com os povos originários e a natureza, as pessoas que estão com a mão na massa extraindo o ouro, pobres, marginalizadas, também elas pagam e pagarão alto preço por suas ações, porque como dizem os antigos, “a corda sempre arrebenta pelo lado mais fraco”. Mas para a liderança católica, membro do Conselho Indigenista de Roraima, Gilmara Fernandes, os verdadeiros responsáveis pela tragédia do garimpo precisam ser responsabilizados e, do outro lado, o governo precisa dar atenção aos pobres garimpeiros que estão saindo das terras Yanomami. “Os que estão lá embaixo, trabalhando no garimpo, os mineiros, são a ponta do iceberg. Aqueles que dão a logística, a manutenção, a alimentação, que financiam, – que são os empresários e os políticos -, eles é que precisam ser responsabilizados, investigados”. Sem essa infraestruta os garimpeiros não conseguem viver dentro do território. Ainda, segundo Fernandes, é preciso se perguntar sobre a vida desses garimpeiros pós- saída deste trabalho financiado. Em 1993, garimpeiros foram tirados da terra indígena, porém, se tornaram agricultores, conseguiram acesso à terra, entraram em projetos de reforma agrária, mas hoje, com a chegada da soja, os valores da terra aumentaram significativamente. “A maioria das terras em Roraima está concentrada nas mãos de políticos, empresários, grandes produtores de soja, sendo impossível compra-la. Para onde eles irão, como manterão suas famílias? O governo precisa pensar nessas pessoas que saem do garimpo e vão para os municípios, que voltam para as suas casas ou vão para outras áreas de garimpo”, enfatiza. A vida yanomani por trás das Câmeras Daquilo que as câmeras não captam, tem conhecimento de causa os missionários da Igreja Católica que há mais de 50 anos convivem com os Yanomami, no Catrimani. Para Mulega os Yanomami são uma sociedade bem estruturada à sua maneira, a partir das suas crenças, do seu modo de conceber a vida e a criação. A forma e os horários de alimentação, as regras para bem-vive em sociedade, o cuidado com a natureza, o lugar das mulheres e das crianças, o papel
Missionários e missionárias indonésios participam de encontro em Brasília

A convite do embaixador da Indonésia no Brasil, Eddy Yusuf, missionários e missionárias, católicos e muçulmanos, provenientes do país asiático se encontraram para partilhar experiências. A reunião foi realizada entre os dias 30 de janeiro e 3 de fevereiro, em Brasília-DF, e ressaltou a unidade na diversidade. Os dias foram de muitas atividades e partilhas entre os missionários e o embaixador. Estiveram presentes 49 missionários e missionárias que trabalham em todas as regiões do Brasil. No caso dos católicos, havia representantes de dez congregações: missionários do Verbo Divino (SVD), irmãs missionárias servas do Espírito Santo (SSpS), irmãs da Divina Providência (SDP), passionistas (CP), servas de Maria de Galeazza (SMG), irmãs discípulas de Jesus Eucarístico (DJE), salesianos de Dom Bosco (SDB), xaverianos (SX), scalabrinianas (MSCS) e carmelitas (O.Carm.). O grupo recebeu uma saudação especial do Pe. Budi Kleden (Superior-Geral da SVD). Por meio de videoconferência, ele conduziu uma reflexão sobre como estar numa missão sem perder a identidade da terra natal. “Durante esses dias, parecia que estávamos na Indonésia. A equipe da embaixada ofereceu as refeições com comidas típicas. Tudo foi preparado com muito carinho”, conta a irmã Yustina Sri Ratna Giri, SSpS. Yusuf ressaltou a persistência de cada missionário e missionária. “Somos os embaixadores da nação. Para deixar a Indonésia orgulhosa, precisamos dessa colaboração e reunião como o primeiro passo para nossa colaboração de criar unidade e fazer a maior contribuição para deixar orgulhosa a Indonésia.” Também estiveram presentes o secretário-geral da CNBB, Dom Joel Portella Amado; a presidente da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), irmã Eliane Cordeiro de Souza; e o diretor do Centro Cultural Missionário (CCM), Pe. Djalma Antônio da Silva, SVD. “A presença deles nos motivou e nos animou. Esperamos que, onde quer que estejamos, tenhamos sempre esperança e a paciência para obter e espalhar essa paz aos que dela necessitem. Nosso dever é continuar o sonho de Deus. Somos missionários que vêm de diferentes culturas e origens, mas têm um coração para servir”, diz Ir. Yustina. Vida e missão no Brasil Para motivar os missionários e missionárias que chegaram recentemente ao Brasil, aqueles com mais tempo no País partilharam suas experiências de conquistas e dificuldades. Segundo Pe. Ferdinand Doren, coordenador das atividades, o grupo refletiu sobre como os missionários, com a própria bagagem cultural, podem contribuir com a Igreja e a sociedade, e se aproximar dos diferentes “Brasis”. No dia 2 de fevereiro, a missa pela Festa da Apresentação do Senhor foi marcada com danças e cantos indonésios. A celebração contou com a participação dos missionários, da equipe da Embaixada e dos fiéis da Paróquia São Sebastião, localizada no Gama-DF. Em seguida, houve uma noite cultural. Segundo o embaixador, 360 cidadãos indonésios estão registrados no Brasil, e 35% deles são missionários católicos. “A Indonésia é a minha amada pátria, uma herança eterna e gloriosa. Seu nome viverá sempre em nossos corações”, declarou Ir. Yustina. Equipe de Comunicação SSpS Brasil.
Sobre andar com fé…

Já se foram mais de sete décadas, e essa “senhora” de 74 anos ainda tem muito o que nos ensinar. E diria mais, segue inspirando, e seu conteúdo se torna cada vez mais atualizado e essencial. Para encarar retrocessos por aqui e pelo mundo afora, nunca foi tão urgente revisitar a Declaração Universal dos Direitos Humanos, essa sábia “senhora”, nascida em 1948. Eu destacaria seu artigo inicial: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência, e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.” Uma mistura de liberdade, dignidade, igualdade, razão, consciência e fraternidade em defesa da vida. Uma poderosa seta que indica caminhos e não permite atalhos nem arranjos que coloquem vidas em risco, que tem potência para reescrever nossa realidade mundial. Sigo escrevendo, com a permissão de quem pretende destacar a liberdade de crença nesse cenário de retrocesso, trazendo a discussão de uma maneira simplificada e que possa implicar a muitos. Agora, desatacaria o artigo 18 da Declaração: “Todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; esse direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença, e a liberdade de manifestar essa religião ou crença pelo ensino, pela prática, pelo culto em público ou em particular.” Também trago para o diálogo a nossa jovem Constituição Federal de 1988, que, em seu artigo 5º, inciso VI, estabelece: “É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias.” Diante de fatos que se acumulam, faço coro à indignação do Papa Francisco: “Como é possível que hoje muitas minorias religiosas sejam discriminadas? Como permitimos que as pessoas sejam perseguidas simplesmente por professar publicamente sua fé?”. Uma mistura de intolerância, discriminação, perseguição se opõe à liberdade de religião ou de crença, coloca em risco a coexistência pacífica e nos afasta da fraternidade. Supondo que, numa dimensão transcendental, na rota da fé e da livre expressão religiosa, iríamos nos tornar mais fraternos e complacentes com as diferentes concepções e visões de mundo, o que se vê é a intolerância e a discriminação ganhando força. Ao que parece, ao ferir a liberdade religiosa, colocamos em risco toda a humanidade e enfraquecemos os pilares da cultura de paz, da diversidade e da preservação da dignidade humana. Há de se encontrar e alargar os campos de intercessão que existem entre as mais diversas expressões religiosas, de crença, de culto e de fé. O que nos diferencia deve ser mediado pelo diálogo respeitoso e construtivo. De mãos dadas com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, vamos seguir construindo pontes e estradas que levem ao caminho do diálogo, do respeito, da paz no mundo e da dignidade humana. Como brasileiros, frutos da terra rica em diversidade de tradições e doutrinas, podemos mostrar ao mundo que andar com fé tem muitos caminhos. Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.