Violência nas escolas: o ponto de vista da psicanálise

Neste artigo refletiremos sobre esta triste realidade e buscaremos luzes, na linha da psicanálise, para amenizar e ajudar a lidar com os impactos das notícias e imagens veiculadas exaustivamente pela mídia. Nos últimos 21 anos, calcula-se que aconteceram em torno de 25 ataques a escolas, ceifando a vida de cerca de 30 alunos, 6 professoras, 2 outros profissionais da educação. Cinco agressores foram mortos. O que podemos encontrar, nos escritos da psicanálise, que tenha relação com esses tristes fatos? No volume 13 das Obras psicológicas completas de Sigmund Freud, ao falar sobre o interesse educacional da psicanálise, Freud comenta, em 1913, que “somente alguém que possa sondar a mente das crianças será capaz de educá-las, e nós, pessoas adultas, não podemos entender as crianças, não entendemos nossa própria infância” (p. 132). Nós não entendemos, pois há uma espécie de amnésia em nós, adultos, que nos torna estranhos à nossa infância, segundo Freud. Para ele, somente a psicanálise pode trazer à luz detalhes dessa primeira fase de nosso desenvolvimento. Quanto ao universo escolar, podemos relacionar a repressão escolar com a seguinte afirmação do Pai da Psicanálise: “A supressão forçada dos fortes instintos por meios externos […] conduz à repressão, que cria uma predisposição a doenças nervosas no futuro” (p. 132). O autor descreve ainda o que ele chama de ambivalência. Isso seria o sentimento de amor e ódio, de críticas e de respeito em relação ao professor. Segundo ele, podemos cortejá-lo ou virar-lhe as costas, vê-lo como simpático ou como antipático. Ainda, ter prazer em encontrar nele suas fraquezas e, ao mesmo tempo, orgulhar-nos de sua excelência, competência e sabedoria. Freud explica que isso tudo tem base nos seis primeiros anos de vida da criança, na relação com os pais, irmãos, irmãs e até babás. Mais tarde, todos os que substituírem essas pessoas serão os “imagos” dessas figuras paternas e maternas. Segundo Freud, na mesma obra de 1913, todas as escolhas posteriores de amizade e amor seguem a base das lembranças deixadas por esses primeiros protótipos. Com o desenvolvimento natural, já na segunda infância, o menino (especialmente) começa a se desligar da imagem perfeita dos pais e começa a transferir para o professor esse papel. “Descobre que o pai não é o mais poderoso, sábio e rico dos seres, fica insatisfeito com ele, aprende a criticá-lo, a avaliar o seu lugar na sociedade; e então, em regra, faz com que ele pague pesadamente pelo desapontamento que lhe causou […], é nessa fase do desenvolvimento de um jovem que ele entra em contato com os professores, de maneira que agora podemos entender nosso relacionamento com eles. Estes homens, nem todos pais, na realidade, tornaram-se nossos pais substitutos […] começamos a tratá-los como tratávamos nossos pais em casa” (Freud, 1913, p. 164). Motivações complexas Que relação podemos estabelecer entre esse estudo da psicanálise com os fatos que aconteceram, nestes tempos, mais de cem anos depois dos escritos de Freud? Muito se especula sobre as causas dos ataques, o que teria influenciado os adultos e os adolescentes a serem os autores de tais tragédias. Alguns afirmam que isso é resultado dos jogos violentos da internet. Como sabemos, não há sustentação segura para essa afirmação, tendo em vista que os jogos sempre existiram e nem todos os que tiveram acesso a eles se tornaram violentos. No entanto, convenhamos, alguns dos ataques filmados por câmeras de segurança reproduzem a ação, a vestimenta, os gestos e os armamentos presentes em alguns personagens de jogos atuais viciantes. Há afirmações que transferem totalmente a responsabilidade para o ambiente familiar. Outros ainda, ao ambiente escolar. O fato é que não há um único cenário responsável. O artigo de Freud menciona o desenvolvimento saudável de uma criança. No entanto, ao falar da transferência da figura paterna, materna e fraterna, cita a possibilidade de um desenvolvimento patológico. Este, hoje, encontra suporte na internet, em alguns grupos on-line de apologia ao crime. Há incentivo, por parte de influencers, ao armamento, ao racismo, à misoginia, à xenofobia, à homofobia e a outras formas de preconceito. Soma-se a isso o bullying praticado pelo agressor e pela vítima no ambiente escolar. Trabalho multidisciplinar O governo de Porto Alegre-RS publicou um protocolo de prevenção à violência nas escolas (Previne). No documento, é apresentado um estudo feito pela Flacso (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais), revelando que, em seis cidades do Brasil, 84% dos estudantes consideram a escola violenta; 70% reportaram serem vítimas de violência escolar (física, discriminatória e de exclusão social). Em se tratando de Porto Alegre, 7% são vítimas de crimes convencionais; 18% revelaram ser maltratados; e 32% sofrem agressão familiar. Apesar de aversivos, esses números servem de base para uma correlação com alguns pensamentos da psicanálise, segundo o pensamento de Freud em 1913. Embora o Pai da Psicanálise não tenha abordado o tema violência nas escolas, alguns pensamentos dele nos dão luzes para compreender o universo escolar cem anos depois. A família, a escola e a sociedade brasileira estão pedindo socorro. A escola sozinha se torna impotente diante dessa insegurança. Um aluno convive somente quatro horas, em média, no ambiente escolar. As outras 20 horas são divididas entre a família, a rua e a internet. Por isso é necessário um trabalho multidisciplinar envolvendo o Estado, a sociedade, profissionais da Psicologia, da Assistência Social, da Pedagogia e da Segurança Pública. Como apoiar pessoas afetadas por uma tragédia em escola • Ofereça apoio incondicional à criança ou outra pessoa atingida pelos acontecimentos. • Deixe a pessoa afetada expressar os sentimentos, emoções, medos, inseguranças. • Use a linguagem adequada para falar com a pessoa afetada. • Não negue os fatos, mas também não dramatize com detalhes. • Informe a pessoa sobre as medidas de segurança que estão sendo tomadas na escola. • Monitore as redes sociais frequentadas por seu filho ou aluno. • Se for necessário, procure um profissional de saúde mental. Referências Freud, S. O interesse científico da psicanálise. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud, Totem e tabu e outros trabalhos (vol. 13). Rio de Janeiro:

A escola e a cultura de paz

A cultura de paz na escola é um conceito que tem ganhado cada vez mais importância nos dias atuais. Trata-se de um conjunto de valores, práticas e atitudes que visam a fomentar a convivência pacífica entre os indivíduos e a promoção da igualdade, da justiça e do respeito mútuo. Na escola, a cultura de paz se manifesta de diversas maneiras, como na promoção de atividades de cooperação entre os alunos, no incentivo à resolução, de forma pacífica, de conflitos e na valorização do diálogo como forma de comunicação. Uma das principais formas de cultivar a cultura de paz na escola é a educação para os valores. Isso significa que, além do ensino das disciplinas convencionais, a escola deve se empenhar em desenvolver nos alunos habilidades e atitudes que contribuam para a formação de cidadãos pacíficos e responsáveis. Essa educação pode ser promovida por meio de palestras, debates, jogos educativos, entre outras atividades que estimulem a reflexão sobre a importância da convivência harmoniosa. Nesse sentido, as escolas e centros educativos da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo vivenciaram, em abril, muitos momentos de atividades pela paz. De pés descalços, os alunos das escolas montaram um quebra-cabeça gigante para expressar o compromisso com a solidariedade, a cidadania e a empatia. Direcionar o olhar e as ações para a paz e para o outro, a fim de construir uma sociedade mais humana, torna-se o grande desejo que brota da sola dos pés e chega a nossos corações. Além disso, a cultura de paz na escola também depende do engajamento de toda a comunidade escolar, incluindo professores, funcionários e pais de alunos. Todos devem estar alinhados em relação aos valores que a escola deseja transmitir e trabalhar em conjunto para criar um ambiente de respeito e harmonia. Dessa forma, é possível transformar a escola em um espaço de convivência pacífica e de aprendizado para a vida toda, contribuindo para a formação de indivíduos mais conscientes e comprometidos com a construção de um mundo mais justo e solidário. Dimensão Missionária da Rede de Educação SSpS

Formação permanente: servas do Espírito Santo discutem as práticas de justiça e paz

“Desenvolvimento e prática da justiça e paz e integridade da Criação” foi o tema da formação permanente das missionárias servas do Espírito Santo, realizada, no formato on-line, no dia 18 de março. O tema é uma proposição do Governo-Geral para que as práticas de justiça e paz, legado dos fundadores, permaneçam como premissa para a missão. Como rezam as normas constitucionais da Congregação,a promoção da justiça, paz, integridade da Criação (Jupic) e defesa da vida humana é parte integrante do chamado religioso-missionário. O evento reuniu cerca de 150 irmãs representantes das missões nos Estados Unidos, Colômbia, Equador, México, Cuba, Paraguai, Chile, Bolívia, Argentina e Brasil. A assessoria foi das irmãs Petronella Maria Boonen e Maria Inês Aragão. Com base nos capítulos-gerais, Ir. Maria Inês aprofundou as práticas de justiça e paz na instituição. A expressão “justiça e paz” apareceu, pela primeira vez, em 1990, no 8º Capítulo-Geral, como desafio de servir à libertação integral da pessoa humana. “A missão justiça e paz, e integridade da Criação é vivida desde a fundação, pois os fundadores sempre tiveram um olhar para as populações mais pobres, o que vale dizer, faz parte do nosso carisma”, acrescenta. Ainda segundo Ir. Maria Inês, nos documentos capitulares, a justiça não se refere a uma justiça corretiva, vingativa, mas a uma justiça evangélica. “Ou seja, construção de comunidades e sociedade de justiça evangélica, reconciliação e cura, onde não haja lugar para qualquer violência pessoal e social, e exista a promoção da integridade da Criação, favorecendo a passagem do consumismo ao uso consciente de recursos, da exploração à ecorresponsabilidade, de uma consciência passiva a um envolvimento ativo nas mudanças sistêmicas.” As práticas de justiça e paz no dia a dia das servas do Espírito Santo Durante o encontro, algumas irmãs puderam testemunhar como se dão, no concreto, as práticas de justiça e paz e integridade da Criação. Irmã Mariel Clapassón, educadora da Escola de Diamante, na Argentina, falou sobre o Projeto Cuidado da Casa Comum, por meio do qual alunos e professores semearam árvores autóctones da zona costeira e limparam espaços públicos, como praças, ruas e a orla do rio Paraná. Quando prontas para o transplante, os alunos do ensino secundário plantaram as árvores nesses espaços, em acordo com a Câmara Municipal da Cidade de Diamante e com a ajuda e orientação dos Parques Nacionais. “A fitoterapia nos permite usufruir respeitosamente as plantas, tirando delas as essências que beneficiam o ser humano, sem danificar a própria natureza. Isso resulta em bem-estar para mim mesma, pois a natureza é minha sobrevivência”, explicou Ir. Maria Aparecida Ricardo Ribeira, de Três Passos, Rio Grande do Sul, que atua nessa área, no Brasil. Irmã Carolina Gonzalez, que trabalha junto às comunidades indígenas no México, afirma que, dentro da pastoral indígena, promove a Jupic, acompanhando os processos de defesa e fortalecimento da identidade cultural dos povos originários Zapotecas, Mixtecas e Chatinos. “Fazemos isso por meio da revitalização de sua língua materna, que se opõe à cultura homogênea, bem como tornando visível sua luta por sua terra e território, a partir da Remam” (Rede Ecológica Eclesial da Mesoamérica). “Trabalhamos com reflorestamento, enriquecimento de bosques com árvores frutíferas, cuidando da cobertura vegetal, cultivo associado de três plantas, em três tempos, no mesmo terreno. Essas plantas crescem e convivem juntas, uma dando força à outra (mandioca, milho e amendoim ou abóbora). Reforçamos, valorizamos e resgatamos o estilo de vida, de trabalhar e plantar dos povos que, muitas vezes, é depreciado”, contou a Ir. Angela Balbuena, que trabalha no projeto de produção agroecológica com as comunidades indígenas Ava Guarani, Mwya Guarani e Paî Tavy Terá (Kaiowá), no Paraguai. Vivat: presença religiosa nas Nações Unidas pela justiça e pela paz Ao ser questionada sobre a origem da Vivat, uma organização que traz em seu bojo a luta pela justiça e pela paz, Ir. Petronella Maria Boonen explicou que é uma fundação das congregações das Missionárias Servas do Espírito Santo e Missionários do Verbo Divino. “A proposta da Vivat é ser presença, diante das Nações Unidas, da vida religiosa, para levar as vozes dos povos e comunidades vulneráveis, seus problemas e preocupações com o cuidado da Casa Comum, a superação da desigualdade e a violação dos direitos humanos. Isso demanda um profetismo inspirado no Evangelho, que escuta e responde aos gritos dos pobres e da terra.” Ainda conforme Ir. Petronella, é preciso fomentar nos membros da Vivat a ação local em rede, conjugada com uma incidência global. “Articular a defesa de direitos humanos com instituições internacionais e pressionar governos locais significa trabalhar em um campo de missão que demanda investir na formação inicial e continuada.” Rosa M. MartinsMestra em Jornalismo, Imagem e Entretenimento pela Fundação Cásper Líbero, licenciada em Filosofia pela Universidade Salesiana de Lorena (Unisal), bacharela em Teologia pela Pontifícia Universidade São Boaventura de Roma. É missionária scalabriniana e vive em Santo André-SP. Indicada ao Prêmio Tarso Genro de Jornalismo em 2020, foi vencedora do Prêmio Papa Francisco, categoria mestrado, do Prêmio CNBB de Comunicação com a dissertação “Menores estrangeiros não acompanhados: uma análise da representação no fotojornalismo italiano”, em 2021.

Terra, vida e o extraordinário de nossa própria existência

A existência do planeta, assim como a nossa, é extraordinária. Se apenas uma das variáveis que sustentam o equilíbrio do sistema Terra entrasse em colapso, a vida, como a conhecemos, não existiria. O maravilhamento é ainda maior quando consideramos que o planeta orbita em torno do Sol e que o Sistema Solar do qual fazemos parte viaja em torno da Via Láctea. Enquanto o globo gira pelo Universo, dedicamos nossos dias a acumular sem compartilhar, numa sociedade que, por cobiça, flerta com o desequilíbrio do sistema e das condições de vida. Só tardiamente, na metade do século XX, com a evidente degradação do planeta e dos consequentes riscos para nossa espécie, começamos a reconhecer nossa pegada ecológica sobre o planeta. Rachel Carson fez do meio ambiente e da interconexão com a vida seu tema de literatura. Publicada entre 1941 e 1962, a talentosa escritora é creditada como uma das raízes do movimento ambientalista. Seus primeiros títulos Sob mar-vento e Mar que nos cerca, com graça, traduzem para leigos o conhecimento produzido por cientistas. Primavera silenciosa, seu último livro, mantém a escrita elegante, mas denuncia a destruição e os riscos decorrentes da imprudente ação humana sobre o solo, o ar, o mar e a vida ali abrigada. Na década de 1970, o surgimento de organismos e movimentos mundiais pela defesa do planeta foi mais expressivo. James Lovelock, uma das referências de Leonardo Boff para a ética do cuidado com a Mãe Terra, idealizou a teoria de Gaia, concebendo o planeta como um organismo vivo e autorregulador. Ao apresentar sua teoria, Lovelock recorreu às imagens espaciais que retratavam o globo azul flutuando na imensidão do Universo, revelando uma fragilidade que também é nossa. Na mesma década, a criatividade a serviço do mercado e dos processos industriais sofreu duras críticas por Victor Papanek, defensor de tecnologias de projeto atentas aos desafios ambientais e sociais. O tom crítico também está nas imagens em preto e branco do economista e fotógrafo Sebastião Salgado, que, com sua companheira e produtora Lélia Wanick Salgado, deu à luz o projeto mais consagrado: Êxodos. Entre as imagens, estava a mina de Serra Pelada, mostrando a ocupação humana à semelhança de um formigueiro mobilizado pelo ouro. Adoecido pelo registro da crise ecológica e da desigualdade humana, Salgado buscou restabelecimento fotografando a natureza e comunidades humanas em recantos intocados da Terra. A esse projeto nomeou Gênesis. Os livros bíblicos Gênesis e Êxodo, os projetos de Salgado, assim como as ideias dos ambientalistas entrelaçadas no texto, desvendam a fragilidade da vida e o quanto ela é dependente do planeta, das criaturas, da relação de carestia e fartura, e das condições climáticas. Comparando nosso tempo de vida com a duração da existência do Universo e da Terra, nossa passagem é efêmera: um piscar de olhos! Mas, a partir de um olhar de espiritualidade e solidariedade para além de nossa individualidade, somos um dos elos entre os que vieram antes e virão depois de nós. Tal consciência nos leva a uma decisão: aqui, na Terra, queremos existir apenas o tempo que nos foi concedido individualmente ou ter em perspectiva a pluralidade e as futuras gerações? Honrar condições de vida para quem vem depois de nós também é uma forma de escolher a eternidade e compreender o clamor da Terra.____________________ ReferênciasBOFF, Leonardo. O cuidado necessário. Petrópolis: Vozes, 2012. CARSON, Rachel. O mar que nos cerca. São Paulo: Gaia, 2013a. CARSON, Rachel. Primavera silenciosa. São Paulo: Gaia, 2013b. CARSON, Rachel. Sob o mar-vento. São Paulo: Gaia, 2013c. GÊNESIS. In: Bíblia sagrada. Revisada por Frei José Pedreira de Castro. São Paulo: Ave-Maria. p. 49-50. GEOGRAFIA E ENSINO DE GEOGRAFIA. Lisboa. Disponível em: https://www.geografia-ensino.com/. Acesso em: 27 mar. 2023. LOVELOCK, J. Gaia: a new look at life on Earth. Oxford: Oxford University Press, 1979. OS OBJETIVOS LAUDATO SI’. Disponível em: https://plataformadeacaolaudatosi.org/objetivos-laudato-si/. Acesso em: 27 mar. 2023. PAPANEK, V. Designing for the real word: human ecology and social change. Chicago: The University of Chicago Press, 1971. PAPANEK, V. The green imperative: ecology and ethics in design and architecture. London: Thames and Hudson, 1995. SALGADO, S. Sebastião Salgado quase desistiu da fotografia depois do projeto Êxodos. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=1coxzr_gdQ8 Marli Teresinha EverlingProfessora nos cursos de Graduação e Pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville (Univille), coordenadora do Projeto Ethos – Design e Relações de Uso em Contexto de Crise Ecológica, colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental.

Roraima: irmãs SSpS relatam como foi a 52ª Assembleia-Geral dos Povos Indígenas

“Onde uma ou mais SSpS estiverem reunidas, aí estarão as SSpS do mundo inteiro” Foi com esse sentimento de pertença à Congregação, que nós, irmãs Aurélia e Madalena, estivemos presentes na 52ª Assembleia-Geral dos Povos Indígenas de Roraima, realizada entre os dias 11 e 14 de março deste ano, no Centro Regional Lago Caracaranã, Terra Indígena Raposa Serra do Sol, tendo como tema “Proteção territorial, meio ambiente e sustentabilidade”. Para nós, missionárias servas do Espírito Santo (SSpS) atuando na missão aqui em Roraima, é de fundamental importância participar, ativa e integralmente, de todas as atividades e eventos dos povos indígenas, desde as instâncias comunitárias, regionais, estaduais e, quando possível, também a nacional. A Assembleia contou com a participação dos povos Macuxi, Wapichana, Sapará, Taurepang, Patamona, Wai-Wai, Ye’kwana, Yanomami e Ingaricó. Também teve, como sempre, a presença dos parceiros e parceiras, entre eles, a Diocese de Roraima, a Pastoral Indigenista, o CIMI Regional e Nacional, e representantes de organizações indígenas (OMIR – Organização das Mulheres Indígenas de Roraima; OPIR – Organização dos Professores Indígenas de Roraima; APITSM – Associação dos Povos Indígenas da Terra São Marcos; Hutukara – Associação Yanomami e Ye’kwana; APIW – Associação dos Povos Indígenas Wai-Wai; Coping – Conselho dos Povos Indígenas Ingaricó; e CIR – Conselho Indígena de Roraima), totalizando mais de 2 mil pessoas. Participaram ainda a Funai Nacional e Estadual, e o Ministério Público Federal em Roraima. Cada povo indígena teve a oportunidade de informar-se sobre suas atividades e planos de vida, bem como avaliar sua caminhada como organização diante dos cenários federal, estadual e municipal, durante os últimos quatro anos. Percebe-se que há vários pontos comuns entre as diferentes regiões, tais como a medicina tradicional, os PGTA (Planos de Gestão Territorial Ambiental) e a proteção territorial, por meio dos GPVTI (Grupo de Proteção e Vigilância Territorial Indígena). As lideranças Yanomami ressaltaram a atual situação, cruel e desumana, pela qual estão passando, destacando a morte dos rios, das florestas, da terra e o grande número de mortes, especialmente de crianças. Disseram que é preciso salvar o Povo Yanomami, que passou pelo processo de extinção durante os últimos anos. A esperança deles é a atuação do atual governo, que instalou uma grande força-tarefa nacional para reverter essa situação de morte que se agravou com a liberação geral do garimpo e do desmatamento descontrolado. É consenso de todo o movimento indígena e de todos os movimentos sociais que sejam retirados todos os invasores, especialmente os garimpeiros que já causaram tantas tragédias à Mãe Terra. Um momento muito forte e importante aconteceu no terceiro dia da assembleia, tendo como pauta principal a presença do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhado de Janja, primeira-dama, de alguns ministros e outras autoridades: José Múcio Monteiro (Defesa), Nísia Trindade (Saúde), Sônia Guajajara (Povos Originários), Márcio Macedo (Secretaria-Geral da Presidência), Paulo Pimenta (Secretaria de Comunicação Social), Ricardo Weibe Tapeba (Secretaria Especial de Saúde Indígena – Sesai), Joênia Wapixana (presidente da Fundação Nacional dos Povos Indígenas). Foi a primeira vez que um presidente participou de uma Assembleia Indígena de Roraima. Em seu discurso, o presidente reafirmou o compromisso de retirar todos os garimpeiros e invasores da Terra Indígena Yanomami e de todas as terras indígenas do Brasil. Ele ressaltou que apenas 14% do Brasil está ocupado por indígenas, sendo que 100% do território brasileiro já foi dos povos originários. Lula visitou e prestigiou também a feira agrícola realizada durante a 52ª Assembleia, onde ele pôde constatar a riqueza da produção 100% orgânica e sustentável. Ele se comprometeu em liberar investimentos para as produções dentro das terras indígenas. Toda a segurança do presidente e da comitiva foi feita pelo Grupo de Proteção e Vigilância Territorial Indígena. O movimento indígena não aceitou o aparato de segurança oferecido pelo governo do Estado de Roraima. Pelas mãos de uma jovem e uma criança indígenas, foi entregue nas mãos do presidente uma carta com as demandas dos povos indígenas de Roraima, referentes à saúde, educação, medicina tradicional, proteção territorial, retirada de garimpeiros, valorização da cultura, tradição, território e sustentabilidade indígena. Outro momento marcante da Assembleia foi a tomada de posse simbólica do novo coordenador do Distrito Sanitário Leste, órgão que até então sempre esteve nas mãos de apadrinhados de grupos políticos do Estado. Desta vez, foi o próprio movimento indígena que indicou Zelandes Patamona como primeiro coordenador indígena do DSEI Leste. Outra vitória foi a posse simbólica de Marizete de Souza Macuxi como coordenadora da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai-RR), cargo que também sempre esteve nas mãos de apadrinhados políticos. Para nós, missionárias servas do Espírito Santo, participar da Assembleia-Geral dos Povos Indígenas de Roraima constitui um momento forte de aprendizado, experiências, parceria, espiritualidade e fortalecimento na opção pela causa indígena, que é de todas nós. A luta continua, unidas venceremos! Sangue indígena, nenhuma gota a mais! Povo unido jamais será vencido! Diga ao povo que avance, avançaremos! Se Deus é por nós, quem será contra nós? Demarcação já! Irmãs Aurélia Prihodová e Maria Madalena HoffmannMissionárias servas do Espírito Santo, Alto Alegre-RR

Interculturalidade: uma dimensão contemplativa

A contemplação diária do Divino perpassa pelas diferentes expressões culturais, as quais nos conduzem à abertura ao novo, a uma dimensão sinodal. Quando refletimos sobre a interculturalidade, logo pensamos que esse processo pode resultar em significativos benefícios sócio-histórico-religiosos; ou, pelo contrário, pode deixar marcas negativas, que, muitas vezes, tornam-se questões inconciliáveis. Ao trabalhar em uma escola de ensino médio, na cidade de Tocantínia-TO, na qual quase 50% dos estudantes eram da etnia Xerente (Akwẽ), percebi que existe uma via de mão dupla na dimensão intercultural. A começar pela comunicação visual, linguística e comportamental. Para esse processo, existe a necessidade de acolhida e abertura de ambas as partes. Como todo grupo humano, boa parte dos povos indígenas está mergulhada na influência do consumismo, mercantilismo, tecnologia e mudanças drásticas de costumes e valores originários, o que altera significativamente as raízes culturais. Porém, é importante, para quem tem a missão e deseja “con-viver” com outra cultura (neste caso, indígena), dispor-se à prática do respeito, da humildade, da abertura para o aprendizado, livre de preconceitos. Dispor-se à compreensão da humanidade presente em cada uma dessas pessoas-cidadãs-filhas de Deus. Segundo o professor indígena Valteir Tpêkru Xerente (licenciatura intercultural e mestre em Letras – Ensino de Língua e Literatura), para quem quer se aproximar do indígena, é necessário ter interesse em conviver com esse povo. “É preciso conhecer a cultura por meio de pesquisas, ouvindo as histórias dos antigos, aproximando-se da realidade, convivendo dia a dia. E isso começa pelo aprendizado da língua, que é a identidade de um povo.” Por mais justo que seja o argumento linguístico, isso nem sempre é possível, por inúmeros motivos: estrutura física, financeira, recursos humanos e tempo, o aprendizado de uma nova língua para se criar laços de interculturalidade. Por isso, contemplar e valorizar, com a alma, os olhos e as mãos, uma nova cultura poderá tornar-se a linguagem que mais aproximará seres de uma única espécie e destino. Miriam de SouzaProfessora de Linguagem e missionária leiga.

Saúde e nutrição começam na infância

O cuidado com o corpo e uma boa alimentação devem ser ensinados às crianças desde cedo. Com uma abordagem lúdica, é possível mostrar a importância do cuidado com o corpo, tornando a vida mais saudável e aumenta nossa autoestima. Corpo e mente sã. Na educação infantil, valorizamos, por meio do campo de experiência “corpo, gestos e movimentos”, a vivência e a interação das crianças com o meio e o outro. As atividades ampliam seus conhecimentos, fazendo com que reconheçam as sensações e funções do seu corpo e seus limites. Com isso, elas desenvolvem, ao mesmo tempo, a consciência sobre o que é seguro e o que oferece risco à sua integridade física, comunicando-se e aprendendo mais sobre si e seu universo social e cultural. Como ressalta a BNCC (Base Nacional Comum Curricular), é possível formular objetivos de aprendizagem e desenvolvimento para as crianças pequenas, os quais nos permitem, como educadores, fazer com que a aprendizagem ocorra de forma significativa, pois assumimos a função de mediador, ao disponibilizar atividades que despertem a alegria no experimentar e no descobrir. Consideramos, assim, seus saberes, experiências, desejos, interesses, curiosidades, necessidades e ritmos de desenvolvimento em contextos que favoreçam brincadeiras, interações, investigações e explorações. Com as atividades desenvolvidas baseadas nos objetivos desse campo, entrelaçamos corpo, emoções e linguagem. É durante a fase da educação infantil que a criança está construindo sua identidade. A criança utiliza o corpo como instrumento relacional com o mundo. Esse é um processo natural que deve ser estimulado e incentivado desde a primeira infância. Esse movimento corporal saudável é uma prática que deveria ser mantida e incentivada por toda a vida escolar. Você sabia que cuidar do corpo é um ato de amor? E que, quando colocamos em prática hábitos que contribuirão decisivamente no cuidado com o corpo, de uma forma lúdica, tudo fica ainda mais divertido e prazeroso? Com uma simples brincadeira de “faz de conta”, foi criado um cenário no qual as crianças puderam vivenciar um dia no posto de saúde, dramatizando experiências como vacinação, atendimento, medicação… Verdadeiros doutores e doutoras mirins. E o que vimos foi uma turma interessada, curiosa, desfrutando de cada minuto da atividade proposta. Atividades educativas e divertidas tornam crianças mais participativas e felizes, fazendo com que coloquem em prática, com mais naturalidade, esses hábitos que as ajudam a viver melhor. Passam também a compreender que nosso corpo merece um carinho especial e que ir ao pediatra, por exemplo, é um momento que proporcionará descobertas e benefícios. Aquela tão famosa e “assustadora” injeção, aquele “geladinho” do termômetro, o curativo, o remédio que arde, entre outras ferramentas utilizadas por médicos e enfermeiros, passam a ser vistos pelas crianças com um pouco mais de leveza. Quem sabe sem medo, sem choro. Só sorrisos! Com esse olhar cuidadoso e a liberdade do brincar, a criança vai valorizando e adotando cada vez mais hábitos saudáveis. Esse é, sem dúvida, um dos aspectos mais importantes para se ter uma qualidade de vida, assumindo responsabilidades com seu corpo e sua saúde, tanto de forma individual como coletiva. Márcia Zochio, Suzi Gomes e Beatriz Floresta Professoras do Pré I no Colégio Imaculado Coração de Maria, no Rio de Janeiro-RJ.

Etarismo, como combater?

Existe uma idade limite para adquirir conhecimento? Com que idade um indivíduo pode estudar, fazer uma faculdade, aprofundar seus conhecimentos? De uns tempos para cá, é muito comum ver, na educação para jovens e adultos (EJA), senhoras e senhores que, depois da aposentadoria ou de estarem com os filhos já criados, voltam a estudar. Muitos dizem orgulhosamente que retornaram à escola para realizar um sonho. Por que será, então, que, algumas semanas atrás, três jovens estudantes de uma faculdade criaram polêmica com uma colega de curso pelo fato de ela ter mais de 40 anos? O fato é que elas cometeram o chamado “etarismo”. Que é “etarismo”? De acordo com a Sociedade de Geriatria e Gerontologia, é o preconceito contra as pessoas idosas quanto a saúde, capacidade e empenho, idade, fragilidade. A senhora estudante que sofreu o preconceito por causa da idade nem idosa é. No Brasil, geralmente, as mulheres se aposentam depois dos 50 anos e, se for pelo regime do INSS, somente com 62 anos, conforme os anos de contribuição. Dificilmente se aposenta com 40 anos. O etarismo é um tipo de preconceito que deixa muitas pessoas idosas, ainda lúcidas de suas faculdades mentais, indignadas e constrangidas. Logo, para combater o etarismo, precisamos informar as famílias, principalmente os jovens, sobre os direitos da pessoa idosa, inclusive o de ter acesso à educação. Assim, erradica-se o estereótipo de que quem tem certa idade não serve para mais nada, provocando a humilhação social por que muitos têm passado. E o que é humilhação social? O Brasil, em 2021, tinha 215 milhões de habitantes. Destes, 31,23 milhões eram pessoas idosas, representando 14,7% da população, conforme o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em 2031, há uma previsão de 43 milhões. A maioria é de baixa renda e com baixa escolaridade. O País ainda tem 11 milhões de pessoas analfabetas (conforme dados de 2010, do IBGE), e, entre eles, a maioria é de idosos. Devemos incentivar a pessoa idosa a aproveitar melhor o tempo que tem, respeitando suas fragilidades, oferecendo-lhes conforto, conhecimento, dignidade. Por isso, é importante que todos os cidadãos continuem os estudos para, no futuro, diminuir essa situação. Aquela senhora que sofreu preconceito tinha menos de 60 anos. Ela estava buscando realizar seu sonho de ter uma profissão. Segundo a antropóloga Guita G. Debert (Unicamp), a categoria “idoso” é uma “construção social”. Essa construção, discutida por diversos autores, retrata o papel da pessoa idosa na sociedade, antes e depois da Revolução Industrial, na cultura ocidental e nas sociedades milenares, o que varia de uma sociedade para outra. Os tipos de idosos são variados: urbanos, rurais, aposentados, profissionais, desempregados, os que moram pelas ruas, os que estão nos abrigos e nos hospitais, os que vivem com os parentes e os que vivem só. Todos têm a prerrogativa de ter acesso aos direitos fundamentais, como estudar. Alguns filósofos podem auxiliar a refletir sobre a importância do envelhecimento. Por exemplo, Cícero (século I a.C.), filósofo romano, escreve sobre a velhice com otimismo e coragem, aconselhando a refutar quatro aspectos indesejados que costumam rondar o imaginário de anciãos e anciãs: 1) o impedimento das atividades; 2) debilitação do corpo; 3) afastamento dos prazeres; e 4) que está à beira da morte. Outro filósofo, Sêneca (século I d.C.), chama a atenção para a brevidade da vida. Recomenda empregar o tempo da melhor maneira, na prática do bem e das virtudes, pois é a única coisa que levamos desta vida. Com as mudanças culturais no século XX, a filósofa francesa Simone de Beauvoir, ao dedicar-se sobre o assunto, divide em dois momentos a questão: a visão de fora, da sociedade; e a visão de dentro, do próprio idoso. A vida pelos olhos dos próprios idosos, seja pobre ou rico, apresenta seus sentimentos como jovens. Por isso, respeitar os sonhos das pessoas de idade avançada é uma forma de ter respeito. Em contraponto, há grupos da terceira idade que costumam programar reuniões ou viagens em excursão. Mas, ainda, há aquelas pessoas idosas que não têm condições de sair ou não querem sair, pois preferem ficar em seu cantinho. Ter empatia com todos é um ato de civilidade. Ler o Estatuto da Pessoa Idosa (Lei 10.741/2003), pesquisar os direitos, ter cuidados com a saúde física, mental e espiritual é importante. Devemos combater o etarismo e a humilhação social contra os idosos. Se sofre violência, seja ela física, psicológica, financeira, patrimonial, afetiva, denuncie. Ligue para 180 ou vá direto a uma delegacia da mulher e da pessoa idosa. Sejamos solidários, solidárias com todos. Que Cora Coralina, escritora aos 70 anos, inspire homens e mulheres a viver bem. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP e SBPC, membro da diretoria da APROFFIB, membro da Comissão de Prevenção e Combate à Tortura (ALESC) e voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis. Atualmente, professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC.

Narcisismo em tempo de Quaresma

Refletindo sobre a proposta da Igreja Católica para a Quaresma, a de viver um tempo de sobriedade por meio da oração, do silêncio e da abstinência, e olhando a dificuldade das cidades, inclusive onde moro (que tem 14 mil habitantes somente), indiferente diante desta proposta; olhando perplexo (sempre) aos apelos da mídia em tempo de carnaval, pré-carnaval e pós-carnaval, achei oportuno refletir sobre este tema da Psicologia: o narcisismo. Esse conceito foi mencionado por Freud em 1910. A Psicologia define o narcisismo quanto às duas fases: conforme o desenvolvimento saudável e o patológico. O desenvolvimento saudável é descrito como narcisismo primário. Este é identificado nos primeiros meses do desenvolvimento do bebê, no relacionamento com os pais, especialmente com a mãe. É elemento constitutivo do amor-próprio e da autoestima; portanto, destinado à autopreservação do sujeito e formação dos laços sociais. Já o narcisismo patológico, é encontrado no estudo das neuroses, perversão e psicose (Araújo, 2010). Assim, o que vemos na mídia, nos tempos atuais, é a manifestação de um narcisismo patológico, marcado pela necessidade de ser visto, notado e curtido. Nas redes sociais, cresce o número de digital influencers, cujo pesadelo é a possibilidade de perder seguidores ou serem cancelados. No carnaval, há uma neurose em relação ao corpo que vai ser exibido nas ruas, praças, avenidas e programas de tevê, tanto em pequenas cidades como em metrópoles. Gastam-se uma fortuna para realizar cirurgias plásticas, para mudar o formato do corpo. Absurdamente, faz-se harmonização facial em adolescentes de 15 anos, que ainda nem têm o corpo definido pela natureza. Num certo programa de tevê, um jovem brasileiro, que naturalmente corresponde ao padrão de beleza europeu, gastou mais de 100 mil reais para ficar parecido com um boneco chamado Ken. Outra “celebridade” aplicou substâncias gelatinosas nos glúteos para ficar famosa por ter os maiores glúteos do mundo. Outras não aguentam mais o peso dos seios aumentados, têm dores de coluna. Todos estão cientes do risco de morte que correm, mas, mesmo assim, atribuem a Deus a proteção que esperam. Nem percebem que estão brincando de serem Deus, assim como a Eva e o Adão da Bíblia. Os narcisistas patológicos estão entre nós. Eles estão na sociedade, na política, na religião, na vida consagrada, na vida sacerdotal, no trabalho e dentro de casa, na família. Uma ou outra destas características podem servir para identificá-los: insegurança, sentimento de superioridade, falta de empatia, necessidade constante de admiração e atenção, sensação de ser o centro de tudo e de todos, notável superficialidade, manipulação, grandiosidade, papel de vítima, agressividade, etc. O período da Quaresma é um tempo que inevitavelmente nos faz refletir sobre esse conceito. Para os cristãos católicos, este é um momento de nos converter, nos fortalecer espiritualmente contra essa patologia que chamamos de uma das tentações de Jesus no deserto: a tentação do ser. Para os nãos católicos ou não cristãos, este momento pode ser chamado de vacina contra esse mal, ou mesmo como antídoto. O fato é que a pedagogia que a Igreja usa, celebrar este tempo litúrgico logo após o carnaval, ajuda-nos a refletir sobre o sentido de nossa vida aqui neste mundo. Para se fortalecer contra a tentação que, na Bíblia, venceu o primeiro homem e a primeira mulher, a tentação de dispensar Deus, sendo igual a ele ou pondo-o a serviço da humanidade, Jesus se fortalece pelo esvaziamento, pela oração e pela penitência. É oportuno destacar também o fato de a tentação ter se manifestado justamente no momento em que Jesus sentia fome. Podemos associar esse momento, hoje em dia, ao vazio existencial, à fome de ser amado, de encontrar sentido na vida, que leva muitas pessoas a tentar preenchê-lo com o exibicionismo ou egocentrismo, com elementos externos e até mesmo pondo Deus a seu serviço. Isso nos leva a outro conceito filosófico, o hedonismo, que merece um artigo à parte. Como lidar com um narcisista neurótico? A primeira sugestão é convencê-lo a procurar ajuda terapêutica para ser diagnosticado quanto ao grau de seu narcisismo. Embora se acredite não haver cura para essa patologia, ela pode ser amenizada, buscando-se o autocontrole das ações para evitar danos a terceiros. Quando se trata de amigos, namorados ou namoradas, colegas de trabalho ou de estudo, o afastamento pode ser uma maneira de se autopreservar e preservar de danos à sua autoestima. No entanto, quando se trata de parentes, como pai, mãe, filhos ou irmãos, é preciso buscar até mesmo a ajuda terapêutica para se conscientizar de que o problema não está com você, como o próprio narcisista sugerirá quando confrontado. Para os religiosos, busque na espiritualidade, especialmente no estilo de vida de Jesus Cristo, o “antídoto” para esse mal, essa tentação. ReferênciaAraújo, M. G. (2010). Considerações sobre o narcisismo. Estudos Psicanalíticos, 34, 79-82. Pe. Aparecido Luiz de Souza, SVDPsicólogo.

Olhares sobre a floresta

Ao buscar bem-estar e conexão com o natural e o sagrado, estar em meio à floresta sempre me vem à mente. As suas trilhas, a temperatura, o jogo de luz e sombra, a sinfonia de vento e pássaros criam uma experiência estética indescritível. Não deixa de ser um templo, e há inclusive quem defenda que a arquitetura das catedrais góticas é inspirada na sensação de êxtase e enlevo produzida pela combinação da verticalidade dos troncos, da luminosidade filtrada por abóbadas formadas de copas. A floresta é muito mais que misteriosa, essencial e concreta; sua existência não pode ser reduzida à produção de encantamentos. Em uma visão sistêmica de mundo, uma árvore não é compreendida apenas pela subdivisão de suas partes em raiz, caule, folha, flor, fruto e semente. Sua importância está na relação que a fotossíntese estabelece entre a água do solo e a umidade do ar, na vida que habita sua sombra, na copa que abriga outros seres, na alimentação concedida a outras criaturas e nas conexões com a floresta; também está na serrapilheira, habitat de micro-organismos e fundamental para adubação do solo. Já em uma perspectiva mais econômica, que situa o capital e a lógica do lucro como justificativa para quase tudo que orienta nossas ações, as partes das árvores, assim como as propriedades medicinais, muitas vezes, são reduzidos a commodities. A mesma razão se aplica à vida e à riqueza que se esconde na floresta e em seus rios, em suas entranhas e no solo cuja extorsão fundamenta contínuas violações, algumas que se tornam notícia e outras que avançam oculta(da)s, sem que lhes seja dada importância. Construímos um reino para nossa sobrevivência em um recorte feito no mundo natural. Nós nos apartamos da floresta, embora os tentáculos desse reino já não respeitam seus limites e, com o poder de nossa ação sobre a terra ampliado pelo braço tecnológico, nós a usurpamos em escala industrial e nos tornamos risco à sua saúde. A cobiça estimulada pela publicidade, estratégias de comunicação e de design (aqui considerado em sua dimensão estética), ao mesmo tempo em que estimula tal processo, abstrai-nos do que realmente é valioso e imprescindível em nossas vidas: ar puro, água limpa, alimentos não processados e vida comunitária. Os povos da floresta, que vivem uma relação de sensibilidade mais aguda com o meio, parecem ter uma percepção mais clara e mais concreta de sua dependência em relação a ela e da importância do cuidado para preservação de suas condições de vida. Muito temos a aprender com eles; inclusive a considerar que a importância das florestas não pode ser reduzida à celebração de um dia no calendário de datas comemorativas, mas que a mudança deve iniciar-se em nós, com a construção de outra mentalidade que situe a preservação de condições de vida na terra acima da satisfação de necessidades artificiais e de nossa vaidade. Referências BRUM, Eliane. Banzeiro Òkòtó: uma viagem à Amazônia centro do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2021. CAPRA, Bernt Amadeus. O ponto de mutação. Filme produzido pela Atlas Company e Mindwalk Production. 110 min. 1991. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=iUkSmjXfEO8 CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 1986. JONAS, Hans. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto; Editora PUC-Rio, 2006. VIVAT INTERNATIONAL. Disponível em https://www.vivatinternational.org/. Marli Teresinha EverlingProfessora nos cursos de Graduação e Pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville (Univille), coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica, colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental.

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