Vocação à vida religiosa consagrada

A vocação à vida religiosa consagrada decorre da experiência vivenciada por pessoas simples e normais que buscam o seguimento radical de Cristo, entregando sua vida a Jesus, no cotidiano.  A pessoa, ao sentir o apelo do chamado à vida religiosa, começa um processo de discernimento e amadurecimento, realizado por meio de uma caminhada de conhecimento espiritual e humano. Desse modo, começa a viver “o grande tesouro na Igreja naqueles que seguem o Senhor de perto, professando os conselhos evangélicos” (votos de pobreza, de obediência e de castidade), em uma congregação religiosa (Papa Francisco, Oração do Ângelus, 2 fev. 2020). E nesse seguimento, esforça-se para ser “sal e luz” de Jesus por onde passar.  No decorrer do processo de formação do vocacionado, é necessário o acompanhamento e ser acolhido numa comunidade de vida religiosa, em busca de crescimento e amadurecimento nas dimensões espiritual, intelectual, comunitária, afetiva e apostólica. Essa ajuda e esforço será para aperfeiçoar as motivações que sustentam a vocação do candidato à vida religiosa. A vivência dessas dimensões estará presente na vida toda do consagrado, da consagrada.  Durante a formação, há também os estudos acadêmicos, necessários para proporcionar competência e qualificação exigidas na missão. Na atualidade, torna-se cada vez mais necessário formar solidamente a pessoa, para seguir Jesus nos mais vulneráveis e fragilizados, e tornar-se capaz de fazer conhecida a ação de Cristo, levando-o a ser conhecido e amado.  Toda vocação cristã é seguimento a Jesus Cristo, o que muda é o como. Portanto há diversas formas de segui-lo e servi-lo. Todo seguimento é vivido na missão em formas de vida diferentes: vocação ao matrimônio (família), vida sacerdotal e vida religiosa consagrada. Na vida religiosa, o vocacionado escolhe uma congregação que responda aos apelos do carisma e dons recebidos para sua vida e viver sua vocação. Ou seja, “Graças especiais entre os fiéis de todas as classes, as quais os tornam aptos e dispostos a tomar diversas obras e encargos, proveitosos para a renovação e cada vez mais ampla edificação da Igreja, segundo aquelas palavras” (Constituição Dogmática Lumen Gentium, n.º 12). Em outras palavras, o carisma é a missão concreta vivida com base no Evangelho, do qual são partes integrantes a promoção da justiça, do diálogo inter-religioso, no contato com a cultura moderna. No seguimento à vida religiosa, são necessárias atitudes, valores e padrões de conduta que, em seu conjunto, constituem o que podemos chamar de pressupostos da vocação daqueles que desejam seguir o Cristo encarnado na condição dos pobres. Nesse caso, podemos elencar características ou pressupostos da vocação religiosa consagrada necessários no discernimento da vocação, tais como: Profundo amor pessoal a Jesus Cristo. A pessoa seguidora de Cristo nos pobres mais pobres é alguém que, embora pecadora, sente-se chamada a acompanhar os passos de Jesus. Dá de graça o que de graça recebeu: o dom do amor redentor de Cristo. Hoje, como sempre, é a profunda identificação pessoal com Jesus a principal característica da vocação. Contemplativos na ação. Seguir Jesus na pessoa dos mais pobres é sentir-se unido a Deus, pela salvação de todos. Deus atua nos acontecimentos e por meio das pessoas, no aqui e agora, e é no discernimento que o seguidor de Cristo assume a responsabilidade de suas decisões apostólicas, participa da missão do Senhor. Solidariedade com os mais necessitados. A pessoa seguidora de Cristo no pobre faz-se solidária com os pobres, os marginalizados e os sem vez e sem voz. Sempre em busca do bem maior. A pessoa seguidora de Cristo nos pobres mais pobres sente-se constantemente levada a descobrir onde está o mais necessitado. Para isso, é preciso que não se acomode com o já realizado e tenha uma audácia que a leve a novas fronteiras e a novos desafios. É a busca do bem maior que dá o dinamismo apostólico da missão. Por fim, muito mais que todos os pressupostos para a vida religiosa, necessitamos contar com a responsabilidade e o respeito por parte de toda a comunidade cristã e religiosa. O convite “Vinde e vede” (João 1,39) de Jesus aos vocacionados e aos que estão em formação depende intrinsicamente do testemunho e da oração de todos, os já consagrados e de toda a comunidade cristã.  Padre Domingos Chagas, SJMonge eremita na Ermida São Miguel, em Maringá-PR.

Solenidade da Assunção de Nossa Senhora

“Você é bendita entre as mulheres”Lucas 1,39-56 Para entender bem a finalidade de Lucas em relatar os eventos ligados à concepção e ao nascimento de Jesus, é essencial conhecer algo de sua visão teológica. Para ele, o importante é acentuar o grande contraste, mesmo que haja também continuidade, entre a Antiga e a Nova Aliança. A primeira está retratada nos eventos que giram ao redor do nascimento de João Batista, e tem seus representantes em Isabel, Zacarias e João; a segunda está nos relatos ao redor do nascimento de Jesus, com as figuras de Maria, José e Jesus.  Para Lucas, a Antiga Aliança está esgotada, deu o que era para dar. Seus símbolos são Isabel, estéril e idosa; Zacarias, sacerdote que duvida do anúncio do anjo; e o nenê que será um profeta, figura típica do Antigo Testamento. Em contraste, a Nova Aliança tem como símbolos a jovem virgem de Nazaré, que acredita e cujo filho será o próprio Filho de Deus. Mais adiante, Lucas enfatiza esse contraste nas figuras de Ana e Simeão, no Templo (Lucas 2,25-38), especialmente quando Simeão reza: “Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar o teu servo partir em paz. Porque meus olhos viram a tua salvação” (2,29).  Por isso não devemos reduzir a história de hoje a um relato que pretende mostrar a caridade de Maria em cuidar de sua parenta idosa e grávida. Se a finalidade de Lucas fosse essa, não teria colocado o versículo 56, que a mostra deixando Isabel antes do nascimento de João: “Maria ficou três meses com Isabel; e depois voltou para casa”. É só depois que Lucas trata do nascimento de João. Também não é verossímil que uma moça judia de mais ou menos 14 anos enfrentasse uma viagem tão perigosa como a da Galileia à Judeia! A intenção de Lucas é literária e teológica. Ele coloca juntas as duas gestantes, para que ambas possam louvar a Deus por sua ação nas suas vidas e para que fique claro que o filho de Isabel é o precursor do filho de Maria. Por isso Lucas tira Maria de cena antes do nascimento de João, para que cada relato tenha somente suas personagens principais: de um lado, Isabel, Zacarias e João; do outro, Maria, José e Jesus. O fato de que a criança “se agitou” no ventre de Isabel faz recordar algo semelhante na história de Rebeca, quando Esaú e Jacó “pulavam” no ventre dela, na tradução da Septuaginta de Gênesis 25,22. O contexto, especialmente o versículo 43, salienta que João reconhece que Jesus é seu Senhor. Com a iluminação do Espírito Santo, Isabel pode interpretar a “agitação” de João: é porque Maria está carregando o Senhor. As palavras referentes a Maria: “Você é bendita entre as mulheres, e bendito é o fruto do seu ventre” (vers. 42) fazem lembrar mais duas mulheres que ajudaram na libertação do seu povo: Jael (Juízes 5,24) e Judite (Judite 13,18). Aqui Isabel louva a Maria que traz em seu ventre o libertador definitivo de seu povo. Finalmente, vale destacar o motivo pelo qual Isabel chama Maria de “bem-aventurada” (vers. 45): “Bem-aventurada aquela que acreditou”. Maria é bendita em primeiro lugar, não por sua maternidade, mas pela fé; em contraste com Zacarias, que duvidou. Aqui Maria é principalmente modelo de fé. Podemos também acrescentar que, nesse primeiro capítulo, encontramos as frases da primeira parte da oração da Ave-Maria: “Ave, Maria” (1,28); “Cheia de graça” (1,28); “O Senhor é convosco” (1,28); “Bendita sois vós entre as mulheres” (1,42); “Bendito o fruto do vosso ventre” (1,42). Juntos com Isabel, saibamos honrar Maria, a mãe do Senhor, modelo de fé para todos nós!  Mas a fé de Maria (como, aliás, sempre é na Bíblia) não foi uma adesão somente intelectual a Deus. Era o assumir do projeto de Deus (justiça, libertação, solidariedade e salvação integral). Por isso Lucas põe na boca de Maria o grande Cântico do Magnificat, atualizando o Canto de Ana (1 Samuel 2,1-10), cantando a grandeza de nosso Deus, que se põe ao lado dos humilhados e sofridos, e derruba os poderosos e prepotentes! O texto de hoje nos lembra que Maria era uma mulher lutadora, totalmente comprometida com o projeto de Deus para um mundo fraterno. Se Ela estivesse entre nós hoje, sem dúvida (como também Jesus), estaria nos movimentos e pastorais sociais, lutando pela vida digna de todos e celebrando com os irmãos e irmãs a fé no Deus de justiça, libertação e salvação. Dia das Vocações à Vida ConsagradaHoje também é o Dia da Vida Consagrada, na diversidade de suas formas: vida religiosa apostólica, vida contemplativa e monástica, institutos seculares, leigos e leigas consagrados, etc. A vida consagrada, assim entendida, baseia-se numa experiência profunda de Deus, vivida em comunidade, no seguimento de Jesus que era pobre, casto e obediente. Essa experiência leva a um engajamento, dentro do carisma próprio do cada grupo, na continuidade da missão do Mestre, na paixão pelo Reino. Rezemos pelos consagrados e consagradas para que firmem cada vez mais os elementos essenciais da sua vocação específica. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Ser estudante

Ser estudante hoje é enfrentar um grande desafio, pois, na pandemia, há um ano e meio, toda a rotina das escolas e dos alunos foi mudada. Pude perceber como foi importante o uso de computadores, tablets e celulares no novo formato das aulas. Acredito que foi uma grande vantagem neste período estudar em um colégio católico. Recebi a minha primeira comunhão e percebi ainda o respeito entre as pessoas na forma on-line de aula. Um grande abraço virtual para meus amigos pelo Dia do Estudante. ______________________________________  Uma vez, uma vizinha me perguntou como era ser uma aluna do CICM (Colégio Imaculado Coração de Maria). Falou que deveria ser chato e cheio de regras, mas, na realidade, não chega nem perto disso… Desde pequenos, aprendemos que a escola é, sim, nossa segunda casa e que os amigos são a família que escolhemos. Ah, outra coisa que adoro na escola é o fato da minha família poder fazer parte da minha vida escolar. Fora que muita gente acha que, na aula de Ensino Religioso, estudamos só a religião católica. Durante as aulas, aprendemos sobre o certo, o errado e o princípio de cada religião. E eu só tenho a agradecer o colégio pelos amigos que fiz e pelos valores que vou levar para a vida toda. ______________________________________ Ser estudante hoje em dia é certamente um privilégio. Todos sabemos das dificuldades de cada dia na escola: acordar cedo, a exaustão que um modelo híbrido causa e também a pressão sobre o vestibular, que o ensino médio sofre bastante. Porém muitas pessoas queriam essa oportunidade. Muitos brasileiros queriam aprender sobre Física, Biologia e todas as outras matérias que nós estudamos. Antes de criticar o modelo estudantil para melhorar sua estrutura, é importante que o privilégio da escola chegue para todos os brasileiros. Para nós que estudamos, parabéns! Para os que não estudam, cabe a nós lutarmos por esse direito, visto que temos mais oportunidades. ______________________________________ Ser estudante nunca foi fácil, mas ficou um pouco mais complicado com a chegada da pandemia. Ser estudante atualmente é sinônimo de coragem. No meio do caos que o mundo está vivendo, nós estamos correndo atrás dos nossos sonhos, do nosso futuro. E ter uma escola que luta pelo estudante faz toda a diferença. O CICM incentiva e ajuda os alunos a passarem pelas dificuldades. Sou grata por estar em uma escola que batalha pelo meu futuro junto comigo. ______________________________________ O que é ser estudante? Não existe apenas uma resposta para essa pergunta. Porque ser estudante é buscar pelo conhecimento, é lutar contra o tempo para entregar trabalhos, é vencer obstáculos e é o desejo de seguir uma profissão. Mas o mais importante é que ser estudante é aprender coisas, fazer amigos e ter experiência que vão ser levadas para a vida toda. ______________________________________ Ser estudante pra mim é aprender a melhorar, descobrir um novo mundo a cada matéria nova, é ter professores que tentam sempre inovar e deixar coisas chatas com gostinho de quero mais. É ter uma segunda família, é ser acolhida nos melhores e piores momentos, é crescer e ajudar o mundo a crescer comigo. É ter certeza de que o amanhã é a gente que faz. ______________________________________ Ser estudante é ter a coragem de se permitir a aprender sobre a vida.É olhar ao redor e compreender o melhor – e o pior – da sua realidade.É se adaptar ao turbilhão de pensamentos simultâneos de sua cabeça.É definir seu futuro, mesmo que não entenda seu presente.Ser estudante é conciliar tarefas da escola, da casa e do mundo.É se descobrir como alguém, e conhecer o seu eu.É ser capaz de escrever novas páginas e reescrever momentos.É apontar um lápis quebrado e desenhar uma flor. ______________________________________ Ser um estudante é, na minha concepção, uma jornada na qual poucos param para observar os detalhes do caminho, mas são eles é que fazem a diferença. Costumamos nos ater às provas e trabalhos, a acordar cedo e às nossas responsabilidades, mas ser estudante não é só sobre isso. Estudar é conhecer, explorar, viver várias vidas em uma e adentrar diversos campos diferentes. Infelizmente, em meio a essa pandemia, nosso estudo teve de ser um pouco diferenciado: o fato de termos nos adaptado e resistido até então é algo a se vangloriar. Estudar é crescer humanamente em todos os âmbitos, e eu sou eternamente grata por ter a oportunidade de ser estudante. ______________________________________ Ser um estudante, para mim, é enfrentar todos os desafios impossíveis quando pensamos em aprendizado e, mesmo assim, se manter com foco e determinação por pensar que um dia tudo vai valer a pena. Ser estudante é ser uma pessoa que está constantemente testando seus limites e, mesmo assim, tenta ao máximo se manter firme por acreditar no processo. Isto, para mim, é o que define um estudante: a resistência e a fé no ensino. ______________________________________ Ser estudante, nos dias de hoje, é um desafio. Focar em tantas coisas ao mesmo tempo, neste período caótico em que estamos vivendo, é, na maioria das vezes, desesperador, mas também é reconfortante saber que existe um apoio da escola e dos professores na maioria do tempo. Por mais que existam dificuldades, não existe nada mais gostoso do que estar na escola buscando conhecimento e se relacionando com as pessoas em nossa volta.

Povo Pataxó Hã-hã-hãe: novo território, novos desafios

Em janeiro de 2019, um grupo de indígenas do povo Pataxó Hã-hã-hãe foi diretamente atingido pelo rompimento da barragem da mineradora Vale, ocorrido no Município de Brumadinho, Estado de Minas Gerais. O rio Paraopeba do qual dependiam para a alimentação, para a higiene e para seus ritos, tornou-se contaminado pelos rejeitos da mineradora. Com o surgimento de doenças e diante da impossibilidade de continuar na área, os indígenas foram obrigados a sair de seu território e ir para a periferia de Belo Horizonte. Vivendo em condições de vulnerabilidade, insegurança e precariedade, ao menos 23 pessoas foram contaminadas pela covid-19. Com a negligência tanto do Estado quanto da mineradora Vale, responsável pelo crime ambiental, os indígenas passaram a depender frequentemente de doações para a sobrevivência. Em junho de 2021, o alento veio de um grupo de japoneses. Em uma ação histórica no Brasil e na contramão das investidas do governo atual de retirada de terras dos indígenas, membros da Associação Mineira de Cultura Nipo-Brasileira doaram 70% de um território de 36 hectares, pertencente à entidade, em São Joaquim de Bicas, Região Metropolitana de Belo Horizonte. Os outros 30% foram negociados com os indígenas, sendo que o pagamento será feito com a futura indenização da mineradora Vale ao grupo.  A ocupação da então “Mata do Japonês” ocorreu imediatamente após o acordo. Cerca de 20 famílias foram para o território, que passou a ser denominado “Aldeia Katurãma”. Porém um novo desafio eclodiu. Desde 2010, a área vem sendo invadida por grileiros. Esses têm se recusado deixar o local. Mesmo se tratando de uma reserva de preservação permanente, os grileiros vêm provocando queimadas, derrubando árvores e ameaçando a segurança do grupo.  O Estado tem se mostrado ausente. A Polícia Federal, por exemplo, até o momento, não está fazendo a segurança dos indígenas, deixando suas vidas em situação de risco. Direitos fundamentais, como o acesso à água e à luz, também não estão assegurados.  Por outro lado, os indígenas têm buscado revitalizar a área, cuidando das árvores existentes e fazendo o plantio de outras nos locais devastados. Vários atores e coletivos da sociedade civil também têm sido solidários com os indígenas, ajudando-os a suprir as necessidades básicas, construir moradias e lutar por seus direitos.  Você também pode fazer parte da história dos pataxós hã-hã-hães e deixar que a história deles faça parte de sua vida. Em primeiro lugar, busque conhecê-los melhor. Se mora distante de São Joaquim de Bicas e não pode encontrá-los pessoalmente, na internet você poderá encontrar reportagens e artigos sobre essa comunidade. Em segundo lugar, divulgue nas redes sociais a atual situação deles. O mundo precisa saber que os povos originários continuam sendo tratados com descaso no Brasil. Em terceiro lugar, os indígenas estão precisando de ajuda para construir a nova aldeia. No momento, estão recebendo doações para a construir uma escola. Caso queira contribuir financeiramente, deixamos o número do pix da Associação Indígena do Povo Katurãma: 42 457 801 0001 20 Outras informações podem ser obtidas pelo e-mail stelamartins.to@gmail.com. A causa indígena é de todos nós! Irmã Stela Martins, SSpS, coordenadora da Redes (Rede de Solidariedade), graduanda no curso de Ciências Sociais.

19º Domingo do Tempo Comum

“Quem come deste pão viverá para sempre”João 6,41-51  Nesse texto, nós nos encontramos no meio do discurso de Jesus sobre o “Pão da Vida”. O gancho que João usa para pendurar a fala é o pedido dos judeus no versículo 35: “Senhor, dá-nos sempre desse pão”. Em resposta, Jesus começa sua grande alocução. Divide-se em duas partes. Na primeira (vers. 35-50), que inclui o texto de hoje, o pão celestial que nos nutre é a revelação ou o ensinamento de Jesus (o tema sapiencial); na segunda parte (vers. 51-58), será a Eucaristia (tema sacramental). O redator da comunidade joanina combinou “o pão do céu” com o material eucarístico da Última Ceia, e assim formou a segunda parte do discurso como texto paralelo à primeira. Isso explica a ausência de um relato da instituição da Eucaristia nos textos da Ceia em João, pois seu conteúdo básico foi colocado aqui. Como seus antepassados murmuravam no deserto contra o pão que Deus mandava (o maná), agora eles se queixam do novo maná. Aqui logo aparece uma característica do João, a ironia. Os judeus (aqui se entendem as autoridades judaicas e não o povo judeu) dizem que conhecem a origem de Jesus, pois só pensam em sua família de origem. Jesus mostra que, na verdade, não a conhecem, pois eles não viram o Pai, sua verdadeira origem. Aqui também aparece, no versículo 47, mais uma característica joanina, a “escatologia realizada”. Enquanto, para os Sinóticos, o juízo é algo que se dá no último dia, para João, frequentemente, já aconteceu, pois a pessoa é salva ou condenada já, por sua aceitação ou não de Jesus como o Filho de Deus. Aqui, de novo, João nos dá o que talvez seja uma variante das palavras da instituição da Eucaristia: “O pão que eu vou dar é a minha própria carne, para que o mundo tenha a vida” (vers. 51). João enfatiza que o Verbo Divino se tornou carne e tem entregado sua carne como alimento da vida eterna. O texto não é fácil, pois é extraído de um discurso muito mais comprido e que forma uma unidade. Mas está ligado, no capítulo 6, à multiplicação dos pães. A participação eucarística no Corpo e Sangue de Jesus exige uma vivência de partilha e solidariedade. Esse tema é caro a João e é retomado em sua Primeira Carta. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Pais-educadores, educadores-pais e a pedagogia de São José

Vivemos tempos tão difíceis… Como consultora educacional, em muitas cidades no Estado do Rio de Janeiro, acompanho partilhas e desabafos sobre os desafios enfrentados pelos pais: lidar com as próprias emoções; ajudar a família a manter a saúde física e mental; conciliar o home office com a atenção aos filhos estudando em casa; enfrentar a crise econômica, contratos suspensos, desemprego, aumento do custo de vida; lidar com a falta de tempo para família, consumido por compromissos profissionais; estabelecer limites e autoridade paterna; dar exemplo e demonstrar coerência para os filhos; prover as necessidades materiais; mas, sobretudo, cuidar e educar. Os desafios não param por aí… Com grande inspiração e senso de urgência, o Papa Francisco decretou 2021 como o “Ano de São José”, para celebrar os 150 anos da declaração do Esposo de Maria como Padroeiro da Igreja Católica. A Carta Apostólica “Patris corde – Com coração de Pai”,¹ sobre a pessoa e a missão extraordinária de São José, aponta sinais que iluminam e inspiram nossos caminhos. O Papa diz que “o objetivo é aumentar o amor por esse grande santo, para nos sentirmos impelidos a implorar a sua intercessão e para imitarmos as suas virtudes”. “A felicidade de José não se situa na lógica do sacrifício de si mesmo, mas na lógica do dom de si mesmo. Naquele homem, nunca se nota frustração, mas apenas confiança. O seu silêncio persistente não inclui lamentações, mas sempre gestos concretos de confiança” (Papa Francisco, Patris corde). A importância de preservar o silêncio em um mundo tão barulhento que nos tira a paz, reservar momentos e “olhar para dentro”, com esperança e confiança. Dedicamos tanto tempo “olhando para fora” e nos esquecemos de (re)descobrir o próprio interior. Tony de Mello diz que “o silêncio não é ausência de som, mas ausência de Ego”. “A vontade de Deus, a sua história e o seu projeto passam também através da angústia de José. Assim ele ensina-nos que ter fé em Deus inclui também acreditar que Ele pode intervir inclusive através dos nossos medos, das nossas fragilidades, da nossa fraqueza. E ensina-nos que, no meio das tempestades da vida, não devemos ter medo de deixar a Deus o timão da nossa barca. Por vezes, queremos controlar tudo, mas o olhar d’Ele vê sempre mais longe” (Papa Francisco, Patris corde). Mesmo em meio a tantas dificuldades, muitas vezes mergulhados no estresse, aprendemos com São José a nos deixar surpreender pelo amor poderoso de Deus, que cuida de nós, que nos surpreende. Aos pés de Jesus, somos todos famintos, e o alimento que dá sustento é o que recebemos das mãos dele, que nos dá força para enfrentar os desafios. “O acolhimento de José convida-nos a receber os outros, sem exclusões, tal como são, reservando uma predileção especial pelos mais frágeis, porque Deus escolhe o que é frágil (1 Coríntios 1,27), é pai dos órfãos e defensor das viúvas (Salmo 68,6) e manda amar o forasteiro. Posso imaginar ter sido do procedimento de José que Jesus tirou inspiração para a parábola do filho pródigo e do pai misericordioso (Lucas 15,11-32)” (Papa Francisco, Patris corde). Muitas vezes, em nossas casas, temos a tendência de tentar colocar os familiares dentro de “formas”, e essa postura autoritária sufoca e castra a identidade e a criatividades de cada familiar, especialmente dos filhos. Por isso, na pessoa de São José, nos gestos de escuta, paciência e acolhimento, buscamos inspiração no modo original de ser presença acolhedora. O Papa apresenta sete características da paternidade de São José: um pai amado, pai da ternura, pai na obediência, pai no acolhimento, coragem criativa (transformar um problema em oportunidade), pai trabalhador, e a sétima característica da paternidade de São José é a sugestiva imagem da sombra (o Papa lembra que não se nasce pai, mas se torna pai). Precisamos não temer como José não temeu (Mateus 1,20). Sigamos em frente, olhando o exemplo do amado São José. Rezemos com o Papa essa oração que ele reza todos os dias, há mais de quarenta anos: “Glorioso Patriarca São José, cujo poder consegue tornar possíveis as coisas impossíveis, vinde em minha ajuda nestes momentos de angústia e dificuldade. Tomai sob a vossa proteção as situações tão graves e difíceis que vos confio, para que obtenham uma solução feliz. Meu amado Pai, toda a minha confiança está colocada em vós. Que não se diga que eu vos invoquei em vão, e dado que tudo podeis junto de Jesus e Maria, mostrai-me que a vossa bondade é tão grande como o vosso poder. Amém” (Papa Francisco, Patris corde). Cristina Maia, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das irmãs missionárias servas do Espírito Santo. Referência¹ PAPA FRANCISCO. Carta Apostólica Patris Corde, por ocasião do 150º aniversário da declaração de São José como Padroeiro Universal da Igreja. Disponível em https://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_letters/documents/papa-francesco-lettera-ap_20201208_patris-corde.html

Vocação: um caminho para a santidade

A vocação batismal é o chamado para seguir Jesus, “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Marcos 1,17). No primeiro chamado, o batismo, somos interpelados a responder “sim”, entrar na dinâmica do discipulado de Jesus e, conscientemente, aderir ao projeto de Deus e viver com intensidade nossa vocação batismal. Desse modo, tornarmo-nos capazes de anunciar o amor compassivo e misericordioso de Deus às pessoas, por meio do apostolado e da missão. Ao redescobrirmos nossa vocação batismal, percebermos que todas as pessoas batizadas são chamadas por Deus e enviadas em missão. A vocação é, antes de tudo, chamado para o seguimento de Cristo, a tomar o caminho da santidade. Na comunidade cristã, não é importante ser isso ou aquilo, mas ser membro efetivo, como discípulo e discípula de Jesus. Os chamados de Deus para vocações específicas (sacerdócio, vida religiosa consagrada, matrimonial e leiga) são formas diferenciadas de viver o seguimento de Cristo. Poderíamos dizer que é a concretização da vocação batismal, realização do batismo mediante uma resposta pessoal, de acordo com os dons recebidos no próprio batismo e suscitados pelo Espírito Santo. Todo cristão precisa ser fiel à inspiração que o Espírito Santo segreda no seu coração e responder, com fidelidade, ao chamado. É todo o povo de Deus que se beneficia do carisma e da fidelidade de cada membro da Igreja-comunidade. “Segue-me!”, diz Jesus a cada um de nós, hoje. Precisamos ter a mesma atitude de disponibilidade e prontidão de tantos seguidores de Jesus… para entrar no projeto de Jesus. Assumamos nosso batismo para valer: testemunhar que vale a pena ser de Jesus, segui-lo, que vale a pena aderir a seu Reino e tornar-nos construtores do Reino de Deus aqui e agora. Ser fiel e perseverante ao chamado de Deus em nosso interior é, com certeza, garantia de realização e de vida plena e feliz. A fidelidade se consegue pela presença atuante do Espírito Santo. É um “deixar-se conduzir pelo Espírito” (Gálatas 5,16), na oração. Abramos nosso coração. Deixemos o Deus da Vida falar a nosso interior. Que Maria, a Serva do Espírito Santo, alimente a chama acesa de nossa vocação e continue acendendo essa mesma chama no coração de muitos jovens generosos e disponíveis. Irmã Hermelinda Maria Ruschel, SSpS, Ponta Grossa-PR.

18º Domingo do Tempo Comum

“Eu Sou o Pão da Vida”João 6,24-35 Continuamos uma série de leituras dominicais a partir do sexto capítulo de João. Esse capítulo é extraordinariamente denso em conteúdo e muito carregado com a simbologia judaica da época de Jesus. Hoje o tema central versa sobre Jesus como “O pão da vida”. No Antigo Testamento, muitas vezes, o termo “pão” é usado como símbolo da Palavra de Deus; por exemplo, em Isaías (55,10-11); Amós (8,11-12) fala de fome, mas não fome de pão nem sede de água, mas fome de escutar a Palavra de Deus; A Sabedoria convida os simples a comerem de seu pão e beberem de seu vinho (Provérbios 9,5); Sirac (Eclesiástico) fala da sabedoria que alimenta as pessoas com o pão de compreensão e a água de sabedoria (Eclesiástico 15,4). Até o maná no deserto chegou a ser usado como símbolo da Torá ou Lei (Deuteronômio 8,2-3). Podemos ligar essas ideias com capítulo 6 de João. Divisão do capítulo:  1-15: multiplicação e partilha dos pães; 16-21: Jesus anda sobre as águas; 22-24: situa o discurso;  25-29: introdução ao discurso; 30-40: discurso; 30-34: 1ª parte;  35-40: 2ª parte;  41-51: 2ª parte; 52-58: 3ª parte; 50: aparte; 60-61: reação e opção dos discípulos. O início do relato deixa claro que a multidão reconhece o poder de Jesus, mas é incapaz de entrar mais profundamente no sentido de seus sinais. Lembremos que o Quarto Evangelho não usa o termo “milagre” para as sete ações principais de Jesus (água transformada em vinho, em 2,1-12; a cura do filho do funcionário real, em 4,46-54; a cura de um paralítico na piscina, em 5,1-18; a partilha dos pães, em 6,1-15; o caminhar sobre as águas, em 6,16-21; a cura do cego de nascença, em 9,1-41; e a ressurreição de Lázaro, em 11,1-44), mas “sinais”, embora haja ainda edições da Bíblia que traduzem erradamente o termo. Com certeza, são “milagres”, mas João quer enfatizar o fato de serem sinais, ou seja, que devemos aprofundar o que eles querem nos ensinar sobre a identidade e missão de Jesus. O povo busca as vantagens imediatas que pode receber de Jesus, corre atrás dos milagres, mas não entende o sentido do sinal que cada milagre mostra. Jesus insiste que a fé nasce da capacidade de reconhecer as obras dele como sinais que demonstram uma verdade mais profunda, que Ele é o alimento que faz viver. Assim, o Filho do Homem vem do céu, e os sinais que Jesus opera garantem sua origem e sua missão. Ele quer que creiam e recebam o que Deus lhes oferece nele. A turba quer saber de um sinal para que possa “ver” e “crer” em Jesus. Mas, na visão de João, o “ver” real é conseguir descobrir a realidade completa de quem realiza os sinais, e não parar somente nos sinais externos. No fundo, a multidão quer que Jesus confirme suas expectativas messiânicas, realizando milagres, e não entende a profundidade da mensagem de Jesus, que ultrapassa tais expectativas. Os próprios judeus começam a falar da história do maná no deserto. No tempo de Jesus, muitos doutores da Lei ensinavam que o dom do maná era o maior prodígio do tempo do Êxodo. Jesus reformula as expectativas apocalípticas da época, que esperavam de novo maná do céu, insistindo que o verdadeiro pão da vida é dado pelo Pai e não por Moisés; que o Pai “dá”, não “deu”, e que o pão que o Pai dá é aquele que veio dar a vida ao mundo. Jesus é realmente o “pão da vida” porque crer nele é participar da verdadeira vida. Nesse trecho, encontramos Jesus usando a frase “Eu Sou”, o que soava aos ouvidos dos judeus da época como referência ao nome de Deus na história do Êxodo “Eu Sou aquele que sou” (Êxodo 3,14). Tudo aponta para a verdadeira origem de Jesus, e o fato de que a verdadeira vida só se acha nele. Hoje esses versículos nos desafiam para que ultrapassemos os limites de uma religião superficial e para que nos mergulhemos no mistério de Jesus, criando relacionamento cada vez mais profundo com ele e assumindo uma vida de verdadeiros discípulos-missionários, apaixonados por ele e por seu projeto, o projeto daquele que veio para que “todos tenham a vida e a tenham em abundância” (João 10,10). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Não é pesadelo… O tráfico de pessoas existe!

O ano era 2050. Uma curiosa neta puxava conversa com a avó, que já beirava os 90 anos. Ela perguntava sobre a vida nos idos dos anos 2020, sobre como era a realidade naquele período. De memória muito ativa, vieram à idosa as lembranças da pandemia da covid-19 e das manifestações nas ruas e também sobre… Imediatamente, a neta interrompeu a avó: “Não, Vovó, me fale sobre o tráfico humano, o tráfico de pessoas no Brasil e no mundo. Vovó, também quero saber se antigamente havia situação de trabalhadores que se encontravam em situações análogas ao trabalho escravo”. A avó não conseguia conectar na lembrança nada além de uma Campanha da Fraternidade e alguns fatos isolados que ganhavam repercussão. Não sabia o que dizer. Estava perplexa e seguia revirando memórias diante do que parecia uma natureza oculta de crimes contra a humanidade. E a neta seguia falando: “É que está chegando o dia 30 de julho, Dia Mundial contra o Tráfico de Pessoas, e o professor disse que é uma realidade criminosa que ‘ceifa a vida e os sonhos de milhares de pessoas em todo o planeta’. Ele disse ainda que pessoas e redes criminosas se ‘aproveitam das vulnerabilidades e pobreza de pessoas e oferecem falsas promessas de vida melhor, mas o que querem mesmo é lucrar e tratam pessoas como mercadoria’.” O requinte de crueldade seguia no relato da neta e calava a avó. A menina, com um tom de perplexidade, ia dando detalhes das armadilhas da realidade que envolviam “conflitos armados e crises humanitárias que sujeitam as pessoas a um maior risco de serem traficadas para exploração sexual, trabalho forçado, remoção de órgãos, servidão e outras formas de exploração”. Era uma espécie de globalização da indiferença, como dizia o Papa Francisco em algum momento, concluía a idosa que, àquela altura, aprendia o que não quisera enxergar no passado. Parecia um pesadelo, um filme de terror… A vida humana desfilando, como se mercadoria fosse, na vitrine do mundo. De repente, um som de latidos inundou o ar e acordou a idosa, que despertou sobressaltada. Olhou em volta, meio atordoada, e se deu conta de que estava sonhando, ou melhor, tendo um pesadelo. O ano era 2021. Tomou consciência de que ainda não tinha uma neta, sua pele não estava tão enrugada, o cabelo inaugurava um discreto grisalho, as pernas ainda estavam firmes e, de fato, a quinquagenária senhora pouco ou nada conhecia do assunto. Relendo documentos de 2014, encontrou uma importante reflexão no material da Campanha da Fraternidade contra o Tráfico Humano, quando a Igreja do Brasil afirmava que “O tráfico humano é um crime que atenta contra a dignidade da pessoa, pois explora o filho e a filha de Deus, limita suas liberdades, despreza sua honra, agride seu amor-próprio, ameaça e subtrai sua vida, quer seja da mulher, da criança, do adolescente, do trabalhador ou da trabalhadora”. Essa deplorável conduta explora e atenta contra a dignidade “de cidadãs e cidadãos que, fragilizados por suas condições de vulnerabilidades, se tornam alvos fáceis para as ações criminosas de traficantes”. Ela aprendeu que estruturas e formas perversas de exploração de seres humanos são combatidas com “ação firme de denúncia e intervenção solidária, político e profética”. E, como alicerce, sempre será necessária a “promoção de transformações sociais estruturais, visando à construção de uma economia e de uma sociedade que promovam a justiça, inclusive ambiental”. Além de “mobilizar a opinião pública mundial contra o tráfico de pessoas, identificar e denunciar práticas de tráfico humano em suas várias formas, é necessário prevenir por meio de ações educativas e ampliação do acesso à informação junto ao público de crianças e adolescentes”. Muito a se fazer para que o futuro não nos encontre desavisados. Não era pesadelo… O tráfico de pessoas existe e precisa ser enfrentado para acabar! Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas. Saiba mais enquanto há tempoDenuncie e consulte as referências:  Disque 100: canal da Secretaria de Direitos HumanosLigue 180: canal da Secretaria de Políticas para as Mulheres Coordenação de enfrentamento ao Tráfico de Pessoas da Secretaria Nacional de Justiça: traficodepessoas@mj.gov.br  Correio eletrônico de denúncia à Polícia Federal: urtp.ddh@dpf.gov.br Nota sobre trabalho escravo, publicada pela Pastoral da Terra e a Comissão contra o Tráfico Humano [link: https://www.cnbb.org.br/pastoral-da-terra-e-comissao-contra-o-trafico-humano-lancam-nota-sobre-trabalho-escravo/] Em carta pastoral, Comissão para o Enfrentamento ao Tráfico Humano convoca à ação [link: https://www.cnbb.org.br/em-carta-pastoral-comissao-para-o-enfrentamento-ao-trafico-humano-convoca-a-acao/] Campanha Coração Azul no Brasil [link: https://www.unodc.org/blueheart/pt/a-campanha-no-brasil.html] Campanha da Fraternidade 2014 [link: https://www.cnbb.org.br/campanha-da-fraternidade-2014/] Mensagem do Papa Francisco para a Campanha da Fraternidade 2014 [link: https://www.cnbb.org.br/papa-francisco-envia-mensagem-para-a-campanha-da-fraternidade-2014/] Número de vítimas de tráfico num ano ultrapassou 50 mil no mundo [link: https://news.un.org/pt/story/2021/02/1740252] O desafio do combate ao tráfico de pessoas [link: https://ssps.org.br/o-desafio-do-combate-ao-trafico-de-pessoas] Rede um Grito pela Vida: “Enfrentar o tráfico de pessoas é nosso compromisso” [link: https://ssps.org.br/rede-um-grito-pela-vida-enfrentar-o-trafico-de-pessoas-e-nosso-compromisso]

Uma pequena maleta é suficiente

Ao ler um texto que publiquei, uma pessoa reagiu com um comentário que dizia no contexto, “Uma pequena maleta é suficiente”, referindo-se ao que é necessário para viver. Isso me provocou pensar no acúmulo de coisas que guardamos sem necessidade. Se olharmos para nosso armário de roupas, há aquelas que não saem do cabide faz mais de ano. Certamente, essa é supérflua, não precisamos dela, mas está lá, guardada, apertando-se entre as outras, ocupando espaço inutilmente. Nesses dias, alguém sugeriu, que, neste tempo de frio, fosse levada no carro uma blusa que estivesse sobrando e a entregasse a alguém que se encontrasse passando frio pelo caminho. Gostei da sugestão e já consegui alocar no ombro de desconhecidos duas blusas que faziam parte de meu “supérfluo”. Tenho outra para o próximo que encontrar. Não me fazem falta, mas estavam fazendo falta para alguém. Assim são camisas, calças e outras bugigangas. Há muito supérfluo em nossa casa que são úteis para quem não tem e precisa dele. Então doe, não fique pensando “ah pode ser que eu venha a precisar…”. Se não precisou até agora, você tem outros recursos para suprir o que vai doar. Como disse o comentarista de meu texto, “Uma pequena maleta é suficiente” para nossa “viagem” nesta vida. Aliás, como disse o Papa Francisco, nunca se viu, atrás de um cortejo fúnebre, algum caminhão de mudança levando seus pertences. Nós temos a mania de guardar tudo e acumular muito. O medo de passar necessidade nos faz guardar até alimentos demais. Ficam lá na prateleira, até vencer o prazo de validade, para depois jogá-los fora, porque não se pode consumi-los. Esquecemo-nos de imitar os pássaros, que não acumulam nada para o dia seguinte e saem cantando de manhã para encontrar o necessário para o novo dia. Nesse sentido, confiamos pouco na Providência. Jesus, numa ocasião, enviou seus discípulos e disse-lhes que não levassem duas túnicas nem sacolas, nem dinheiro… Ele foram. Nenhum voltou reclamando que passou fome. Pelo contrário, voltaram felizes, contando as proezas que haviam feito. Pensando bem, quanto mais presos ficamos às coisas, menos livres para viver. Não estou sugerindo ser leviano, irresponsável ou despejar sobre os outros aquilo que é de nossa responsabilidade. Estou apenas dizendo que, por vezes, guardamos tranqueiras demais (digo por mim). Quando damos algo que é nosso, libertamo-nos um pouco de nosso egoísmo, experimentamos um pouco de alegria diferente daquela que sentimos quando compramos ou ganhamos uma roupa. É uma alegria mais prazerosa e duradoura. Além de tudo, abate um pouco de nossa “dívida”, porque aquilo que está demais em nossa casa é o que está faltando na vida de alguém. Façamos uma vistoria em nossa casa e vejamos quanto supérfluo há por lá. Coloquemos numa caixa para doação o que não precisamos. Enquanto fazemos isso, podemos também examinar nossa vida que, às vezes, está também cheia de coisas inúteis de outra espécie. Refiro-me aqui a bagulhos que não estão em armários, mas que atrapalham a vida mais livre também. São aqueles que sufocam a alma, o psíquico. Por exemplo, nossas lamúrias, nossos ódios, nossos rancores, nossos vícios, nossa mente poluída, nosso olhar cobiçoso, invejoso, ciumento. Esses adereços não enchem gavetas de armários, mas espaços psíquicos dentro de nós. Isso não é para doação, mas para liberar espaço para uma vida mais sadia. Livrar-se deles também é um alívio não somente para a consciência, mas também para o emocional, que se desgasta com esses “infantilismos” alimentadores de nossas imaturidades e apegos que impedem de viver nossas relações com mais amabilidade e solidariedade. Vamos, então, ao trabalho, vasculhar nossas gavetas e armários, tirando o supérfluo para doação e prescrutar o coração, liberando mais espaço nele para viver a solidariedade e a compaixão em nossas relações fraternas. Continuemos nossa “viagem” com “uma maleta menor”, carregando o indispensável, sem ambições que nos levem a acumular demais e nos cansar da vida antes da hora. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S

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