29º Domingo do Tempo Comum

“Quem de vocês quiser ser o primeiro, deverá tornar-se o servo de todos.”Marcos 10,35-45 No esquema do Evangelho de Marcos, o texto de hoje se situa quase no fim da caminhada de Jesus com os seus discípulos para Jerusalém, o lugar do desfecho de toda a missão do Mestre. Pela terceira vez, Ele tem dado a seus mais íntimos colaboradores o anúncio sobre sua paixão e morte: “Eis que estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do Homem vai ser entregue aos chefes dos sacerdotes e aos doutores da Lei. Eles o condenarão à morte e o entregarão aos pagãos. Vão caçoar dele, cuspir nele, vão torturá-lo e matá-lo”. Novamente uma colocação mais do que clara sobre o que significa ser o Messias (Cristo em grego) de Deus, mas que não surte efeito. Os discípulos, cegados pela ideologia dominante, não são capazes de entender o sentido da vida de Jesus, e, por conseguinte, o sentido de ser discípulo dele. Como Pedro depois do primeiro anúncio, e todos os Doze depois do segundo, João e Tiago conseguem resistir ao ensinamento de Jesus, numa tentativa de impor a própria agenda. Apesar de ouvirem que Jesus veio para dar sua vida em serviço de todos, os irmãos pedem os primeiros lugares quando Jesus entrasse em sua glória. O desejo de dominar estava muito enraizado neles. É tão gritante o descompasso entre o ensinamento de Jesus e os desejos dos dois irmãos que Mateus, relatando a mesma história, suaviza o texto de Marcos, fazendo com que a mãe deles fizesse o pedido (Mateus 10,20). A queixa de Deus no Antigo Testamento, de que seu povo era um povo de “cabeça dura”, atualiza-se nos Doze. Não devemos pensar que eram somente os dois filhos de Zebedeu que sentiram o gosto pela dominação. É interessante notar a reação dos outros dez diante do pedido feito: “Quando os outros dez discípulos ouviram isso, começaram a ficar com raiva de Tiago e João” (vers. 41). Por que ficaram com raiva? Não porque achavam sem sentido o pedido dos dois, mas porque, no fundo, cada um deles queria ter o lugar de honra e poder. O vírus de dominação é mais do que contagioso. Mais uma vez, Jesus demonstra paciência histórica com seus seguidores. Contrasta o sistema de organização da sociedade com aquele que queria para a comunidade de seus discípulos: “Entre vós, não deve ser assim: quem quiser ser grande seja vosso servo; e quem quiser ser o primeiro seja o servo de todos” (vers. 43 e 44). E deixa bem claro o motivo: não por causa de uma humildade qualquer, mas porque Ele nos deu o exemplo: “Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e para dar a sua vida como resgate para muitos” (vers. 45). Ser discípulo de Jesus é ter o mesmo ideal, a mesma prática que ele. O texto torna-se muito atual para os dias de hoje. Infelizmente, o contraste feito por Jesus entre seus seguidores e o sistema da sociedade secular nem sempre se verifica. Existe, nos últimos anos, de modo mais acentuado, uma busca de status e do poder dentro do seio das igrejas, talvez especialmente entre o clero mais jovem. O Papa Francisco não cansa de combater essa tendência. Mas ninguém pode se achar imune diante dessa tentação, pois está bem enraizada dentro de todos nós. Somente uma mística bem cultivada do seguimento de Jesus, fundamentada na Palavra da Escritura, poderá nos ajudar para que realmente construamos uma Igreja onde se demonstre que “entre vocês não deve ser assim”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
A importância do professor em nossa formação

Tenho uma memória afetiva enorme com meus professores. Estudei a vida toda na mesma escola, e muitos me acompanharam desde a infância até a maioridade. Com alguns, eu tenho amizade nas redes sociais até hoje. Eles acompanham meu dia a dia como mãe de duas crianças em idade escolar: Lorenzo, de 8 anos, e Manuela, de 3. Eles estão sempre curtindo, comentando e relembrando a bagunça que eu fazia em sala de aula (que meus filhos não me ouçam, mas eu era da “turma do fundão” [risos]). Mesmo eu falando durante a aula e não entregando as tarefas em dia, eles têm ótimas memórias sobre mim e dizem que veem em meus filhos muito de quem eu era quando criança. E eu digo que queria que meus filhos tivessem a oportunidade de estudar com eles, porque muito do que sou hoje devo a todos os professores que tive ao longo da vida. Um ano e nove meses após o início da pandemia, ainda me pergunto como consegui manter meus filhos em casa por tanto tempo, isolados dos amigos e professores que fazem parte do cotidiano deles, com quem conviviam a maior parte do tempo. Foram 24 horas por dia comigo! Não conseguiria imaginar minha infância diferente do que foi, com tanto tempo longe assim. Recordo que 30 dias de férias já era demais, queria voltar logo para a escola e não conseguia dormir um dia antes do retorno, de tanta ansiedade para reencontrar todo mundo. Eu me pergunto também como as professoras e os professores conseguiram fazer o mesmo com seus filhos, enquanto se reinventavam entre vídeos, edições, lives, aulas remotas e com todas as dificuldades individuais de diversas crianças ao mesmo tempo. Ao longo da pandemia, diante dos maiores desafios como aulas remotas do mais velho e o desfralde da mais nova, ouvindo “MÃE” o tempo todo e sem poder contar com uma rede de apoio, depois de milhares de tentativas de atividades como desenhos, pinturas, colagens, massinhas (até BORDADO ensinei para o mais velho), e a bagunça pela casa toda, algumas frases eram inevitáveis nos momentos de esgotamento emocional: “Eu não fiz Pedagogia!”, “Sou fotógrafa, não professora!”, “Como as professoras conseguem?”, entre outras… Tive a oportunidade de fazer um vídeo na escola de meus filhos quando ela estava para reabrir parcialmente, durante a pandemia. Era um vídeo mostrando todos os protocolos e adaptações que a escola fez para poder reabrir. O sentimento de angústia em ver o espaço vazio, sem a alegria das crianças, o barulho, as risadas e aquela correria toda foi realmente triste. Durante as gravações, captamos o depoimento de uma das diretoras, que se emocionou e começou a chorar, dizendo que as crianças faziam muita falta e que não aguentava mais ver a escola vazia, porque elas levavam vida para aquele lugar. Chorei junto, porque sabia o quanto os meus estavam em casa sentindo a mesma falta. A pandemia nos mostrou que ser resiliente era a única opção, e os professores, sem dúvida, merecem todo o nosso apoio e reconhecimento. Imagino o quão desafiador foi para eles estipular rotina diária dentro de casa, com os seus, regras, os “combinados”, que parece tão fácil na escola. Enquanto ainda tinham de lidar com milhares de pais dos outros alunos, seus desafios e suas cobranças (gente, o grupo dos pais no WhatsApp é um lugar desafiador para se estar nesse período [risos]). O ensino a distância foi um desafio na vida de todos, e os professores estão esgotados. Não há como não estar. Nós, como pais, temos o dever de dar apoio e acolhê-los da mesma forma que fizeram com nossos filhos. Sinto muita gratidão por meus professores e, hoje, como mãe, não poderia ser diferente pelos professores e professoras de meus filhos. Esses profissionais dedicam suas vidas, dia e noite, para trazer não apenas conhecimento, mas dividem a educação deles conosco. Que nesse Dia dos Professores, eles sintam nosso abraço e saibam que somos muito gratos por eles existirem e se dedicarem, com tanto amor, por essa profissão e por nossas crianças. Bruna GobbiFotógrafa, empreendedora no Studio Gobbi, formada em Rádio e Televisão, pós-graduada em Administração em Marketing, especialista em Marketing Digital, mãe de Lorenzo e Manuela, esposa de Gabriel e sem formação em pedagogia (risos).
Nossa Senhora Aparecida, nos dê a mão!

O mês de outubro está chegando e com ele todas as comemorações a Nossa Senhora Aparecida, a grande padroeira de nosso Brasil. Querida Mãe, no fim de 2020, logo após eu e meu marido termos acompanhado pela TV Aparecida uma bela e santa novena, fui contaminada pelo vírus. Somente minha fé e as bençãos de Maria me proporcionaram forças para suportar o contágio da covid-19. Foram onze dias de muito sofrimento e risco na UTI, com respiração artificial, sem intubação, pois meus pulmões estavam com setenta por cento de comprometimento. A cada momento difícil, eu recorria aos meios de comunicação que estavam a meu dispor, como canais católicos, Youtube e Facebook. Sentia como uma brisa passando, visitando-me, encorajando-me… Só pode ter sido a Virgem Maria me falando à consciência: TUDO VAI PASSAR. Era o poder de uma missa, um terço ou uma oração que me faziam companhia naquele lugar, onde me faltavam o ar, o sono e também o apetite, mas não a fé e a certeza da presença de Deus com sua Mãe Maria. Durante a pandemia, em todos os cantos e recantos do mundo, os católicos mantiveram sua fé, com o auxílio dos projetos missionários das tevês católicas e de todas as redes sociais. Assim transformaram cada lar numa igreja doméstica, pois a frequência nas igrejas foi impedida. Relembrando: foi assim que o cristianismo começou. Não havia grandes templos nem grandes santuários. Os cristãos se reuniam em casa e em família. Sabemos e reconhecemos que o papel de Maria para com a Igreja é inseparável de sua união com Cristo, tendo a origem nas entranhas de Nossa Mãe, a Virgem Maria. A vida de Maria teve uma relação permanente com seu filho Jesus, desde sua concepção virginal até a hora da morte de Cristo. Maria, a bem-aventurada Virgem, avançou em sua peregrinação de fé e manteve sua união com o Filho até a Cruz, onde ficou com seu unigênito e associou seu sacrifício até a morte de Cruz. No fim, antes de ser morto na Cruz, foi dada como mãe ao Discípulo Amado, com estas palavras: “Mulher, eis aí teu filho”, e para nós foi dito: “Eis aí tua mãe!” (João 19,25-27). Grande presente para a humanidade! A fé em Nossa Senhora Aparecida também nasceu com a devoção familiar. Os pescadores encontraram a imagem de Aparecida e a levaram para casa, surgindo aí a primeira igreja. Hoje temos o grande Santuário Nacional, onde se reúne o maior número de devotos brasileiros e estrangeiros. Cada devoto o visita para seu encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo, pela mediação materna de Nossa Senhora. A Mãe de Jesus, por meio de cada celebração, convoca, convida, toca no coração de seus fiéis o amor, a esperança e a fé para perseverar no amor real a seu filho Jesus, expressando sua gratidão por gestos concretos com o próximo, principalmente com todos os menos favorecidos. Sabemos que a fé cristã nos ilumina e leva a compadecer-nos com os sofredores, compartilhar, sermos fraternos e solidários, mostrar interesse através do apoio, do amor, principalmente, da generosidade. Minorar, com gestos concretos, as dores do próximo sofrido, desempregado, para além das palavras de conforto. Interessar-se pelas ações e inciativas comunitárias. Lembrar-se sempre de todo o sofrimento humano. Assim, recebe sua redenção, seu valor e seu sentido transformador a partir da Cruz de Jesus. Bendita a fé que dá asas ao discípulo-missionário de Jesus quando lhe falta o chão. Que Maria, Mãe do Belo Amor, seja sempre bendita. Tenho certeza de que, para todos nós, sobram motivos para amar Nossa Senhora. Desde a mais remota memória da tradição cristã, os fiéis sempre olharam para Ela com carinho, com afeto, com devoção, por vários motivos: porque é discípula da Palavra, porque protegeu e amou Jesus, porque é a vocacionada do Pai e porque Ela é missionária, a primeira missionária, nosso modelo. A razão principal de nossa devoção a Maria esteja de fato ligada à sua maternidade divina. Ela é a mãe de Deus e nossa mãe. No coração de todos os cristãos vibra esta esperança, de que Deus nasceu de uma mulher. Maria, Mãe de Deus, significa o amor de quem nos criou, de quem nos acolhe, de quem nos estende a mão nos momentos de aflição. Podemos aí estender nossas mãos, pedindo à Mãe Aparecida intercessão a seu Filho Jesus. Maria estará sempre disponível com seu “sim”, como foi seu “sim” para o anjo Gabriel. Nós também somos chamados a dizer “sim” a Deus. O anjo Gabriel apresentou-se a Maria com um convite desafiante. E a resposta de Nossa Senhora foi “Faça-se em mim segundo a sua palavra” (Lucas 1,38). Jesus, quando veio a este mundo quis nascer de uma mulher. Todos os mistérios da vida de Jesus derivam exatamente da Encarnação. Jesus é verdadeiramente humano e verdadeiramente divino. A ressurreição de Cristo realmente é o núcleo. Crer na ressurreição de Jesus é crer na verdade fundamental de nossa fé. Que Nossa Senhora nos dê a mão e nos ajude a dizer “sim” a Deus e ao próximo todos os dias de nossas vidas. E que possamos cantar: “Nossa Senhora, me dê a mão,Cuida do meu coração,Da minha vida, do meu destino,Do meu caminho,Cuida de mim!”(Roberto Carlos, Nossa Senhora) ReferênciasCatecismo da Igreja Católica, cap. 3, art. 9, § 6, Maria – Mãe de Cristo, Mãe da Igreja.Disponível em: vatican.va/archive – Acesso em: 25 ago. 2021. Portal A12.Disponível em: a12.com – Acesso em: 25 ago. 2021. Revista Aparecida, a. 19, n. 233, out. 2020.Disponível em: mflip.com.br – Acesso em: 25 ago. 2021. Rosiná Lopes BressanCoordenadora do Grupo de Missionários Leigos de Deus Uno e Trino (MLDUT) do Rio de Janeiro.
28º Domingo do Tempo Comum

“Como é difícil entrar no Reino Deus!”Marcos 10,17-30 Nosso texto inicia-se com a frase: “Quando Jesus saiu a caminhar”. Novamente estamos na caminhada com Jesus, uma caminhada que é uma aprendizagem para o discipulado, uma caminhada que o leva a cada vez mais perto de Jerusalém, lugar da crise definitiva de sua vida. Ao longo dessa caminhada, Jesus luta com a incompreensão de seus discípulos, até dos mais chegados a Ele, pois a mentalidade deles era formada pela ideologia dominante e assim tinham a maior dificuldade em apreciar a reviravolta de valores que Jesus e sua mensagem significavam. Nos domingos anteriores, vimos essa tensão no trato das questões do poder, do divórcio, das crianças. Em nosso texto de hoje, Jesus põe em xeque o ensinamento comum sobre a riqueza e a pobreza. A cena é muito conhecida: um homem pede orientação sobre como entrar na vida eterna. Em um primeiro momento, Jesus coloca diante dele a exigência conhecida por todo judeu piedoso e ensinada pelas escolas rabínicas: o cumprimento dos mandamentos. Mas o homem (sem dúvida, um praticante piedoso da Lei) sente que isso não é o suficiente, pois é o mínimo. Assim, Jesus põe diante dele as exigências do Reino: o seguimento dele, o despojamento dos bens, a partilha e a solidariedade. Isso o homem é incapaz de aceitar. Estava amarrado a seus bens, pois era muito rico (versículo 22). Fez sua opção: escolheu uma vida “regular”, que não exigisse partilha nem despojamento, e, como consequência, foi embora “muito abatido”, pois tinha colocado bens secundários acima do bem maior. O centro do relato está no debate entre Jesus e seus discípulos. O Mestre afirma que “é mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!” (vers. 25). Muitas vezes, gastamos muita energia em debater o que significa “o buraco da agulha” (quase sempre tentando diminuir seu impacto!) e deixamos de lado o aspecto mais importante: a reação dos discípulos. Eles ficaram “muito espantados” quando ouviram isso e se perguntaram: “Então, quem pode ser salvo?”. Por que ficaram espantados? O que houve de espantoso na colocação de Jesus? Aqui está o âmago da questão. O espanto dos discípulos (todos eles também judeus praticantes e piedosos) era causado pelo fato de que, na ideologia religiosa vigente, a riqueza era considerada sinal da bênção de Deus, e a pobreza como sinal da maldição (uma ideia presente em certas seitas hoje e que, às vezes, infiltra em certas pregações sobre o dízimo na própria Igreja Católica). Para eles, quem não se salvaria era o pobre, pois o rico era abençoado. Aqui é bom lembrar que se trata de “entrar no Reino de Deus”, o que não é sinônimo de salvação eterna. A salvação depende da gratuidade e misericórdia de Deus e, diante de tal mistério, só cabe à gente calar-se. O Reino de Deus deve ser uma experiência já existente entre nós, mesmo que não em plenitude, e que significa experimentar na vida os valores do Reino. O rico dificilmente entra nessa dinâmica porque normalmente é autossuficiente, atrelado a um sistema classista e injusto, e com grande dificuldade para partilhar e de sentir sua dependência de Deus. A proposta de Jesus desafia as ideologias, disfarçadas de teologia e espiritualidade, que veem a riqueza como sinal da bênção de Deus. A proposta dele não é a riqueza, mas a partilha, não é a acumulação, mas a solidariedade e a justiça, para que todos possam ter o suficiente. O texto deixa claro que quem quer viver essa proposta vai sofrer, pois o mundo não vai aceitá-la. Quem segue Jesus na prática da solidariedade encontra uma felicidade mais duradoura, mas com perseguição; porém já vive a certeza da plenitude do Reino que virá (vers. 29 a 31). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Sobre infância e “desinteligência”

É outubro outra vez, o famoso Mês das Crianças. Nas tristes lembranças, os tiros que atingiram crianças ainda no ventre materno, as supostas “balas perdidas” nas comunidades, a estupidez no trânsito, o extermínio, o “desaparecimento”, a violência sexual, a violência doméstica, as drogas e o tráfico, os afogamentos, os sufocamentos, as agressões, as queimaduras, as vítimas da covid-19, enfim, um sem-fim de motivos. Nas doces lembranças, a alegria, as dancinhas, a espontaneidade, as conquistas motoras do dia a dia, as encantadoras perguntas e respostas no cotidiano, os segredos, as amizades, as músicas, as brincadeiras, a fantasia, as letras e números ganhando sentido, os desenhos e garatujas, as telas, os áudios, os vídeos, os gritos, os choros, as cólicas, as febres, as espinhas, os primeiros amores, a simplicidade complexa do cuidar, enfim, um sem-fim de registros de afeto e zelo. Das lembranças que se misturam e brotam em nós, lágrimas e sorrisos, uma certeza: crianças e adolescentes precisam de proteção integral para usufruir e fruir a infância e juventude, pois estão na peculiar condição de pessoas humanas em desenvolvimento. Aos olhos de uma criança de 6 anos que cunhou a expressão “desinteligente” numa banal cena do cotidiano, envolvendo uma ingênua crítica à conduta de um adulto a seu redor, um aprendizado para a vida. Em contraponto à infância e à adolescência como fase de formação e desenvolvimento, temos os adultos, aos quais cabe zelar, cuidar, oportunizar, proteger e, acima de tudo, ser porta-vozes de condutas e escolhas inteligentes que mudam o mundo. Diria que temos um “trio de adultos” dos quais se espera sabedoria e inteligência: o ESTADO, a FAMÍLIA e a SOCIEDADE em geral. A esse trio de adultos, um recado na potente voz de uma criança: “Não sejam desinteligentes”. O Estado precisa garantir, em qualidade e quantidade, as políticas públicas que garantam acesso e oportunidade de pleno desenvolvimento a todas as crianças e os adolescentes na complexidade do que é traduzir direitos na prática. Não seja “desinteligente”. A família, em sua multiplicidade de arranjos, precisa ser ambiente fértil e protetivo para dar conta dessa missão de proteção em sua dimensão cotidiana. Não seja “desinteligente”. A sociedade, como um todo, deve ser vigilante com relação ao dever de prevenir a ocorrência de ameaça ou violação dos direitos da criança e do adolescente, reagindo a toda forma de desproteção. Sociedade, não seja “desinteligente”. Este mês de outubro, quando celebramos a vida das nossas crianças, seja tempo para que esse “trio de adultos” possa olhar ao redor e para dentro para (re)ver e ter dimensão do alcance formativo e protetivo de nossas escolhas e decisões “inteligentes”, seja na dimensão cotidiana, seja na complexa dimensão social, política, econômica, cultural. Não sejamos “desinteligentes”! (Qualquer semelhança com os princípios do Estatuto da Criança e do Adolescente não é mera coincidência.) Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
Chamados à missão

Quando eu, Salete, recebi a notícia de que a Igreja do Paraná decidiu convidar-nos para uma missão em um país do grande continente africano, pensei logo: “Mas eu sou tão nada, tão pequena! Como poderei ajudar numa situação tão adversa de nossa realidade aqui vivida, ajudar alguém lá? Essa é uma missão tão grande, é algo tão grandioso, como pode Deus querer se utilizar de mim para essa realidade tão nova e diferente em minha, nossa vida?”. Mas aí percebi como esse nosso Deus é inesperadamente maravilhoso. Entendi que Ele queria nos conceder a graça de podermos experienciar mais de perto seu amor por nós. Foi então que percebi que Deus me ama muito, antes mesmo de eu nascer, e é o que me dá a certeza de que não estou nem estarei sozinha. Fui escolhida por Deus, na pessoa de nosso bispo, Dom Sérgio Arthur Braschi, para ser missionária além-fronteira do Brasil. E, com alegria, eu me dispus a levar a Boa-Nova àquele povo tão sofrido e necessitado; necessitado em todos os sentidos. Ir e levar a alegria do Evangelho, ou o Evangelho da Alegria, para o mundo. É a partir de nosso batismo que todos somos e estamos aptos para servir em missão. Este é o convite que Deus nos faz: “Ide por toda a terra”, “Ide por todas as nações e levai a alegria da Boa-Nova”. Que possamos ser o canal da graça de Deus e dar oportunidade de esses povos o conhecerem, dar-lhes oportunidade para que possam fazer uma experiência com o Deus de Amor. Isso é grandioso! Sabemos que não seremos os últimos da fila para despojar-nos de nossas vestes, despojar-nos das comodidades, deixar e desmontar a nossa tenda, que significa deixar nossa filha, genro, netas, demais familiares, amigos e nossa comunidade, onde vivemos momentos intensos, experiências de fé e, acima de tudo, de caridade uns para com os outros. Somos felizes, pois entendemos que o amor é a razão primeira da evangelização, conforme nos diz o documento Evangelii Gaudium, e também, “mesmo que eu tivesse o dom da profecia e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda fé a ponto de transportar montanhas, mas se eu não tiver caridade, nada seria” (1 Coríntios 13,2). Portanto ir e revelar um Deus de esperança é nossa missão. A nossa vida é puro dom. É preciso partilhá-la, doá-la por completo e não a guardar para si. A metodologia que usamos para nos aproximar daqueles nossos irmãos em Cristo é, necessariamente, a mesma de Jesus, ou seja, tocar, alcançar o coração deles. Nossa alegria também é saber que não estamos sozinhos na missão; temos uma comunidade inteira que reza por nós e pela missão, e essa comunidade se chama família, paróquia, Diocese e Regional, enfim, toda a Igreja do Paraná. O que nos anima e encoraja é saber que a missão para a qual fomos convidados e escolhidos para fazer parte é missão de Deus. Diariamente, Deus se manifesta por sua presença para nos mostrar que é Ele que conduz, que está à frente. É Ele que interfere em todos os momentos e, de modo especial, nos mais difíceis. Inúmeras foram as experiências de fé vividas na missão entre os muçulmanos, por quem a missão católica foi muito bem recebida. Viver e conviver em uma realidade de muçulmanos (90% da população de Quebo) parecia-nos algo difícil, aliás muito difícil. Mas o convívio foi uma grande surpresa para nós. A comunidade muçulmana nos acolheu muito bem. Fomos respeitados e os respeitamos, acolhidos e acolhemos o diferente, convivência e boa relação, convivência e boa relação e testemunho do bispo diocesano, Dom Pedro Zilli (in memoriam) com a comunidade muçulmana e demais etnias africanas (pelo menos trinta e duas). O povo africano tem uma cultura milenar, e é preciso saber respeitá-los nessa cultura e em suas tradições, até porque o missionário é, e sempre será, hóspede naquele chão. Os missionários presentes na missão não fazem distinção entre as pessoas. Todos são atendidos da mesma maneira, sem discriminação. Muitos são os muçulmanos que procuram a missão e aí se sentem muito bem acolhidos. Por outro lado, eles também sabem que, junto com uma missão católica oriunda de outro país, vem para a eles muitos benefícios: atendimento na saúde e na educação, porque a missão católica é posta, é constituída num tripé: evangelização, saúde e educação. E assim, aos poucos, vamos construindo essa missão com a ajuda de nossa Igreja do Paraná (Regional Sul 2). Somos e estamos felizes, confiantes no amor de Deus hoje e sempre. Depois de quatro anos de missão em Quebo, retornamos ao Brasil, para reiniciar aqui nossa vida e as atividades profissionais. Deixamos a missão, mas trouxemos no coração o povo africano. Mais difícil que a ida para a missão foi deixá-la para outros, porque tudo o que fizemos realizou-se no e com amor. Quem quiser saber mais sobre a experiência missionário do casal Pedro e Salete acesse https://youtu.be/gsZmfTZy_iw Diácono Pedro e Salete Lang, membros da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, Diocese de Ponta Grossa, missionários em Quebo por quatro anos (2015 a 2018).
27º Domingo do Tempo Comum

“O que Deus uniu, o homem não separe”Marcos 10,2-16 Durante a caminhada de Jesus rumo a Jerusalém, onde o poder central religioso-político vai condená-lo à morte, no intuito de acabar não somente com a pessoa dele, mas com seu projeto, o Senhor, no texto de hoje, entra primeiro em controvérsia com os fariseus, os guardiães da prática fiel da Lei. Estes, que gozavam de muito prestígio diante da população mais simples, outorgavam-se o direito de serem os únicos intérpretes autênticos da vontade de Deus, por meio de sua interpretação da Lei. Por isso entram em conflito com Jesus, não na busca de conhecer melhor a vontade do Pai, mas, como ressalta o texto, “para tentá-lo” (versículo 2). O campo de batalha escolhido era o debate sobre o divórcio. O texto de referência para eles era Deuteronômio (24,1-4), no qual não se trata da legitimidade do divórcio, mas dos critérios para que possa ocorrer. O Evangelho de Mateus, no capítulo 19, deixa mais claro do que Marcos o sentido do debate (veja Mateus 19,1-9). O pano de fundo eram os critérios necessários para que um homem pudesse divorciar-se de sua mulher (nem se cogitava a mulher pudesse divorciar do marido, pois ela era considerada “objeto” que pertencia ao homem!). No tempo de Jesus, havia duas tendências, simbolizadas pelas escolas rabínicas dos grandes fariseus Hillel e Shammai. Uma escola, mais laxista (Hillel), ensinava que se podia divorciar da mulher por qualquer motivo, mesmo dos mais banais. A escola mais rigorosa (do Shammai) apenas permitia o divórcio por motivos muito sérios. Por isso, em Mateus a pergunta se define melhor: “é permitido divorciar a mulher por qualquer motivo que seja?” (Mateus 19,4). Em ambos os evangelhos, Jesus se recusa a entrar no debate de casuística que cercava a questão e se limita a reafirmar o projeto do Pai para o casamento: “Portanto, o que Deus uniu, o homem separe”. Jesus reafirma, com toda a firmeza, o ideal do casamento cristão: uma união permanente, baseada no amor e fortalecida pela graça do sacramento. Seria inútil buscar nesse trecho uma teologia mais desenvolvida do casamento, muito menos orientações pastorais para os problemas práticos de casamentos malsucedidos, pois isso não foi a intenção do autor. Marcos simplesmente reafirma o princípio de que “o que Deus uniu, o homem não deve separar”. Deixa em aberto a questão de quando é que Deus realmente uniu o casal. Será que, só porque passaram por uma cerimônia validamente celebrada na igreja, um casal é necessariamente unido por Deus? Os problemas reais são muito mais complexos, angustiantes e difíceis de serem solucionados, como reconhece claramente o Papa Francisco, bem como qualquer pessoa com coração pastoral. O trecho continua com a questão das crianças. A questão aqui não é a criança como símbolo da inocência, mas de dependência. As crianças e os que se assemelham com elas vivem essa situação de dependência, de “sem-poder”. Quem quer entrar no Reino de Deus terá que se ab-rogar de todo poder dominador, tornando-se como criança. Recusando-se a aceitar a situação em que a mulher era simples objeto de posse do homem e assim passível de ser divorciada, e propondo o fraco e dependente como modelo em uma sociedade que valorizava o prepotente, Jesus mostra que os valores do Reino de Deus estão na contramão dos valores da sociedade de seu tempo (e de hoje). Propõe uma igualdade de dignidade entre homem e mulher, uma fidelidade e compromisso permanentes, e a busca de uma vida de serviço e não de dominação. Realmente, uma proposta no contrafluxo da sociedade pós-moderna, que nega o permanente, perpetua o machismo e admira o poderoso e dominador. O texto de hoje nos convida para que entremos com Jesus na “contramão” e criemos uma sociedade baseada em outros valores do que os que estão hoje em vigor, às vezes, até no seio das próprias igrejas. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
18 anos da Pastoral da Pessoa Idosa

Primeiro de outubro. Além de estarmos em plena primavera, é a abertura de um mês de muitas datas significativas. Para a Igreja, celebra-se o Mês das Missões, cuja padroeira é Santa Teresinha do Menino Jesus, acompanhada dos Santos Anjos. Lembramos também o Dia da Padroeira do Brasil e Dia das Crianças (12), do Fisioterapeuta (13), do Professor (15), do Médico (18), do Dentista (25), do Funcionário Público (28) e tantas outras homenagens. Nesse sentido, também se comemora a aprovação da Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003, que dispõe sobre o Estatuto do Idoso. Dá-se à sociedade, ao Poder Público, ao Estado, às famílias brasileiras a regulamentação de uma série de prerrogativas à pessoa idosa, como o direito à vida, à saúde, à educação, à cultura, à assistência e previdência social, ao lazer, ao esporte, à habitação e ao transporte. A velhice passa a ter uma proteção social como direito fundamental. Assim, nessa mesma data, celebra-se o Dia do Idoso. Diante do quadro demográfico da população brasileira, que tem demonstrado um perfil de envelhecimento, do Ano Internacional do Idoso, promovido pela ONU, e da Carta aos Anciãos, escrita pelo Papa João Paulo II em 1999, a CNBB lançou, em 2003, a Campanha da Fraternidade com o tema: “Fraternidade e as Pessoas Idosas”, tendo como lema: “Vida, dignidade e esperança”. Assim, no ano seguinte, sensibilizada pela situação das pessoas idosas, principalmente nas comunidades carentes, a dr.ª Zilda Arns Neumann, médica, irmã do arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns, decidiu iniciar um programa de acompanhamento às pessoas idosas, nascendo a Pastoral da Pessoa Idosa (PPI). Por dezoito anos, a PPI sempre foi marcada pela visita domiciliar. Com a pandemia, contudo, muitas visitas foram substituídas pela conversa ao telefone. Com a vacinação e os cuidados sanitários, a Pastoral da Pessoa Idosa vem retomando as visitas, pois muitas pessoas que moram sozinhas esperam ansiosamente receber os agentes missionários. A experiência da pessoa idosa tem muito a acrescentar à vida da família e da comunidade em geral. Seus ensinamentos e relatos fazem parte da memória da história local. Ouvir a pessoa idosa é importante, pois muito têm a nos ensinar. Infelizmente, o século XXI tem sido de muita correria. Ninguém parece ter tempo para visitar aquele avô ou avó que mora longe dos filhos e netos ou aquela tia que vive sozinha. Em contraponto, há grupos da terceira idade que costumam programar reuniões ou viagens em excursão. Mas, ainda, há aquelas pessoas idosas que não têm condições ou não querem sair, pois preferem ficar em seu “cantinho”. Nosso desafio está em encontrar um tempinho na semana para dar atenção a todos os que são necessitados de atenção e levar a Palavra, o conhecimento. Na educação para jovens e adultos (EJA), é comum ouvir de senhoras e senhores que, depois de aposentados, voltam a estudar: “Voltei para realizar um sonho que eu tinha de estudar”. Depois dos filhos criados, estão voltando… O Brasil ainda tem 11 milhões de pessoas analfabetas (conforme dados do IBGE de 2010) e, entre eles, a maioria é de idosos. Vamos incentivar a pessoa idosa a aproveitar melhor o tempo que tem, respeitando suas fragilidades, oferecendo-lhes conforto, conhecimento, dignidade. O Brasil precisa de todos. Leia o Estatuto do Idoso, procure pesquisar seus direitos. Ter cuidados com a saúde física é importante, mas com a saúde mental e espiritual também. Devemos combater o etarismo e a humilhação social contra os idosos. Se alguém sofre violência tanto física quanto psicológica, financeira, patrimonial, afetiva, denuncie. Ligue para 180. Que Santa Ana, São Joaquim, Zacarias, Isabel e outros exemplos bíblicos, os filósofos Sêneca e Cícero, nossa poetisa Cora Coralina e tantos outros nos inspirem a viver bem. Maria Terezinha Corrêa Mestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP e SBPC, membro da diretoria da Aproffib (Associação dos Professores de Filosofia e Filósofos do Brasil), atualmente é professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Comissão de Prevenção e Combate à Tortura pela ALESC e voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis.
Passos bíblicos da interculturalidade

A interculturalidade na Bíblia segue um caminho muito peculiar. Apresenta os processos de inclusão e exclusão, acolhida e repúdio, abertura e fechamento, mostrando, assim, uma íntima ligação com a vivência intercultural do mundo contemporâneo. O mundo bíblico era tão intercultural quanto o de hoje, onde se pode perceber tanto inúmeros bons exemplos de interculturalidade quanto de intolerância em relação a outras culturas. É evidente que o Antigo Testamento é uma coleção de livros agrupados conforme os temas: Pentateuco e proféticos, nos quais se encontram também os livros históricos e sapienciais. Já o Novo Testamento inicia-se com os Evangelhos, depois os Atos dos Apóstolos e diversas cartas, finalizando com o Apocalipse. Em ambas as partes, não há um único autor, mas a coletânea de livros é resultado de um longo processo redacional e de transmissão da tradição do povo de Israel. Para ser um texto vivo, no entanto, pressupõe-se um leitor, e a leitura é feita pessoalmente e também pelas diversas comunidades de fé. Por isso fundamental é que, para se compreender a interculturalidade na Bíblia, como aponta Walter Vogels (2015), dois aspectos devem ser examinados: o contexto intercultural da produção da Bíblia e o contexto intercultural de sua leitura. O Antigo Testamento conta a história da caminhada do povo de Israel, e o Novo Testamento apresenta o processo intercultural iniciado por Jesus, continuado eficientemente por Paulo e, posteriormente, pela comunidade apostólica. O missionário do Verbo Divino Roger Schroeder (2020) aponta que o Antigo e o Novo Testamento refletem como as pessoas viveram a experiência de Deus e expressaram sua fé e espiritualidade por meio de seu contexto cultural e histórico, conforme épocas distintas. Podem-se citar como exemplo o chamado e a resposta de Abraão e Sara; o êxodo pascal, a travessia do Mar Vermelho; os ensaios e bênçãos na peregrinação de fé no deserto; as proclamações dos profetas e a literatura sapiencial; a adoração no Templo e na sinagoga; a experiência religiosa de Simeão e Ana no Templo; o chamado e a resposta dos primeiros discípulos; o encontro transformador de Jesus com um cobrador de impostos, um centurião romano e uma mulher samaritana; a travessia de limites culturais em Atos dos Apóstolos; a vida cristã e os desafios entre as comunidades de Paulo. Assim, o caminho intercultural da Bíblia se torna uma inspiração para nossa caminhada como batizados, em direção à atividade missionária promovida por Jesus. Além disso, a Família Arnaldina tem o dever de seguir o caminho intercultural bíblico em nossos contextos da missão. Padre Joachim Andrade, SVDMissionário do Verbo Divino natural da Índia, atua no Brasil desde 1992. Tem pós-doutorado pela PUC-PR, doutorado em Ciências da Religião pela PUC-SP e mestrado em Antropologia Social pela UFPR. É professor na PUC-PR, no Studium Theologicum e na Faculdade Vicentina, membro da equipe interdisciplinar da CRB Nacional. Foi provincial do Brasil Sul de 2008 a 2013.
Um ato de amor e generosidade

“Você deu um belo e saudável rim para sua irmã”, disse o cirurgião à irmã Arnolda Kavanamur, que, em meio à pandemia de covid-19, decidiu doar um de seus rins para a irmã Kristina Lajar. Ambas são irmãs missionárias servas do Espírito Santo (SSpS), vivendo em Chicago, Estados Unidos. No Brasil, 27 de setembro, é Dia Nacional de Doação de Órgãos. Essa data foi instituída pela Lei nº 11.584/2007, com o objetivo de conscientizar a sociedade para a importância da doação de órgãos. Eis a história de Ir. Arnolda, natural de Papua-Nova Guiné. Ela chegou aos Estados Unidos em 2013. Lá conheceu a Ir. Kristina, natural da Indonésia. As duas religiosas, longe de suas famílias e fora de sua pátria, viveram uma experiência de fé, amor e doação que marcou a vida da Congregação nos 132 anos de presença em mais de 50 países. “A generosidade requer coragem para agir”, afirma Ir. Arnolda, ao compartilhar sua jornada de transplante do rim. Para ela, nossa escuta atenta da vontade de Deus nos orienta a tomar decisões que nos levam à felicidade, à realização e à doação gratuita. A Ir. Kristina Lajar foi diagnosticada com insuficiência renal em 2013 e fazia diálise peritoneal todos os dias. Ficava ligada à máquina de 3 a 8 horas, todas as noites, havia seis anos. “Era doloroso vê-la acamada com frequência”, relata a doadora. A Ir. Arnolda, recém-chegada de outro continente, logo tomou conhecimento da situação da Ir. Kristina. Foi no momento de um passeio pelos jardins do Convento Espírito Santo, em Northfield, Illinois, que a Ir. Arnolda sentiu e expressou seu desejo de ajudar a Ir. Kristina. Porém, como a Ir. Kristina não estava preparada, encontrou dificuldade em aceitar a proposta de sua coirmã. Em setembro de 2019, quando Ir. Arnolda retornava de sua terra, Papua-Nova Guiné, passou uns dias no Convento, antes de partir para sua missão, em São Cristóvão e Neves, no Caribe. Novamente foi passear pelo jardim do Convento. O pensamento em doar o rim para a Ir. Kristina veio novamente à tona. Com o resultado dos exames feitos, soube-se que tinham o mesmo tipo de sangue. Irmã Arnolda se dispôs a doar seu rim, dizendo: “Talvez eu possa ajudar”. E, depois de rezar, voltou a falar com Ir. Kristina e decidiram conversar com a coordenadora provincial. Após conversa e consentimento, fez-se contato com o Centro de Transplante de Rins da Universidade de Chicago. Realizados os trâmites legais, em dezembro de 2019, a irmã doadora foi chamada para realizar o processo de avaliação de doadores vivos, envolvendo análises médicas, psicossociais, consentimento livre, informações e cuidados pré e pós-operatórios. Após a avaliação da doadora, veio a grande notícia: “Eu era compatível com Kristina!”, celebra Ir. Arnolda. Naquele momento, o coronavírus já estava se espalhando pelos países, incluindo os EUA. O governador de Illinois, J. B. Pritzker, emitiu uma nota de “permanência em casa”. Com a pandemia, foram adiadas, por tempo indeterminado, todas as cirurgias eletivas. A Ir. Kristina continuava com o tratamento, porém cada vez mais debilitada. Finalmente, em 19 de maio de 2020, terminou a longa espera. “Às seis horas da manhã, fui submetida à cirurgia. Quando eu estava na metade da cirurgia, a irmã Kristina foi chamada e ficou em serviço cirúrgico… Graças a Deus, foi um sucesso”, respira aliviada Ir. Arnolda. A Ir. Arnolda conta que a decisão nem sempre foi tranquila. “Houve muitos altos e baixos ao longo do caminho; ansiedades e estresse, medo de não ser compatível. Mas sempre que há uma reposta generosa a um ‘chamado à ação’, Deus está sempre presente. Em resumo, a experiência foi estressante, mas a confiança plena em Deus me fez acreditar que Ele estava no controle o tempo todo.” O profundo ato de bondade salvou a vida de Ir. Kristina e transformou a vida de Ir. Arnolda. Ela lembra sentir-se mais forte na fé e com vida mais significativa. E conclui seu testemunho: “Todos os dias, eu me encontro buscando viver autenticamente meu chamado e ser feliz onde Deus me quer. Estou convencida de que o que fiz por Ir. Kristina foi uma intervenção de Deus. Ele lhe deu uma segunda chance de viver, porque Ele a ama muito”. “Embora um pedaço de mim esteja faltando para sempre, estarei sempre grata por esse pedaço de mim estar dando vida à minha irmã. Ela será para sempre parte de mim,” conclui a Ir. Arnolda. Ir. Zélia Cordeiro, SSpSCoordenadora de Comunicação na Província Brasil Sul das missionárias servas do Espírito Santo (BRS), mestra em Gestão e Negócios pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), curso com dupla titulação, vinculado à Université de Poitiers, na França, com dissertação na área de Desenvolvimento de Liderança.