2º Domingo da Quaresma

“Este é o meu Filho bem-amado. Ouvi-O!Mc 9,2-10 O texto de hoje vem logo após o diálogo com Pedro e os discípulos, na estrada de Cesareia de Filipe, sobre quem era Jesus e como deveria ser seu seguimento: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e me siga” (8,34). Começando essa passagem com as palavras “Seis dias depois”, Marcos quer ligar estreitamente o texto com a mensagem anterior sobre a cruz. O texto destaca um aspecto de Jesus que é muito importante, o fato de que Ele era um homem de oração. Durante a oração, aparecem Moisés e Elias, símbolos da Lei e dos Profetas. Assim, Marcos mostra que Jesus está em continuidade com as Escrituras, isto é, o caminho que Jesus segue está de acordo com a vontade de Deus. Os dois personagens, tanto Moisés como Elias, eram profetas rejeitados e perseguidos em seu tempo. Marcos aqui vislumbra, mais uma vez, o destino de Jesus: o de ser rejeitado, mas também de ser vindicado por Deus. Pedro, ao despertar do sono, faz uma sugestão descabida: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias” (v. 5). Claro, seria bom ficar ali, em um momento místico, longe do dia a dia, da caminhada, das dúvidas, dos desentendimentos, da luta. Mas é uma sugestão que Jesus não pode aceitar, pois seria uma fuga de sua missão de Servo de Javé. Terminado o momento de revelação, “Jesus estava sozinho” e, em seguida, “desceram da montanha” (v. 9). Por tão gostoso que possa ser ficar no Monte, é preciso descer para enfrentar o caminho até o Monte Calvário. A experiência da Transfiguração está intimamente ligada à experiência da Cruz. Talvez foi a força da experiência do Monte Tabor que deu a Jesus a coragem necessária para aguentar a experiência bem dolorosa do Calvário. Todos nós, seja qual for nossa vocação, precisamos de momentos de oração profunda, de união especial com Deus. Mas essas experiências não são “intimistas”. Elas aprofundam nossa fé e nosso seguimento para que possamos seguir o exemplo dele, que lavou os pés dos discípulos: “Eu, que sou o Mestre e o Senhor, lavei os seus pés; por isso vocês devem lavar os pés uns dos outros” (Jo 13,14). Também esse trecho pode nos ensinar a valorizar os momentos de “Tabor”, os momentos de paz, de reflexão, de oração. Pois, se formos coerentes com nossa fé, muitas vezes, teremos de fazer a experiência de “Calvário”. Somos fracos demais para aguentar essa experiência, por isso busquemos forças na oração, na Palavra de Deus, na meditação, mas sempre para que possamos retomar o caminho, como fizeram Jesus e os três discípulos. Para os momentos de dúvida e dificuldade, o texto nos traz o conselho melhor possível, por meio da voz que saiu da nuvem: “Este é o meu Filho bem-amado. Ouvi-o!” (v. 7). Façamos isso e venceremos os nossos calvários, como venceu Jesus e, mais tarde, seus discípulos. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
O valor do respirar

Quanto vale respirar? Ao nascer, a criança chora quando recebe oxigênio em seus pulmões, demonstrando o impacto do ar adentrando em seu órgão respiratório. Conforme crescemos, experimentamos o quanto é saudável estar em contato com a natureza e respirar ar puro. Quem mora em grandes centros industriais, geralmente poluídos, quando pode, nos fins de semana ou feriados, dirige-se a um sítio ou litoral em busca de encontrar o verde das árvores, brincar e cuidar de algum animal ou contemplar o azul do mar, e respirar fundo. Inúmeras criaturas precisam do oxigênio para respirar. E a principal produção de oxigênio para a vida do planeta Terra está presente nas árvores, nas florestas, nos bosques. Entretanto, infelizmente, nosso planeta anda sufocado com tanta poluição provocada pelas indústrias, a ponto de as pessoas, em alguns países, como a China, terem de usar máscara quando saem de casa para trabalhar, ir ao mercado ou passear, por causa do alto grau de gás carbônico. Com a pandemia, a situação se agravou. De fato, todo ser vivo precisa respirar, mas o homem moderno, ao explorar as riquezas da natureza, tornando industriais as sociedades, comprometeu o combustível fundamental para ele mesmo. Ao lermos o livro de Gênesis, que diz sobre a Criação, aprendemos que tudo foi preparado para receber o ser humano, que, ao ser modelado do barro, ganhou um “sopro de vida” em suas narinas (Gn 2,7). Esse sopro lhe deu vida, significando que se abriram os pulmões. O contrário acontece quando se diz que a pessoa deu “o último suspiro” e deixou o corpo. Você já reparou como é o formato dos pulmões? Os alvéolos e os brônquios em conjunto se parecem com raízes de uma planta, sendo a traqueia como se fosse o tronco. Maravilhas da natureza! Somos o universo em microscópio. Somos conectados. Por isso, se a saúde do planeta é afetada, também atinge a saúde de todos nós, seres vivos. A Ciência tem nos alertado a todos para a importância de preservamos a natureza, de respeitarmos o meio ambiente, para o bem de todos. O desmatamento, principalmente na Amazônia, a queima das matas, a exploração de madeiras e extração de minérios em terrenos de preservação ambiental têm afetado desastrosamente o respirar em todo o mundo, tanto dos seres humanos quanto dos animais. Há anos, o aquecimento global tem sido tema dos movimentos ambientalistas que lutam a favor da flora e da fauna, seja nacional ou internacional. Com a invasão do homem, que tem devastado o habitat dos animais, surgiu a covid-19, atacando principalmente o órgão respiratório, causando a pandemia que estamos vivendo. Desde 2020, em plena pandemia, milhões de pessoas sentiram falta de ar e, em nosso País, mais de 240 mil já morreram por falta dele. A falta de oxigênio nos hospitais do Estado do Amazonas recorda o pedido do negro sufocado para respirar. Isso tudo não deixa de ser um apelo para pararmos com a violência de asfixiar nosso semelhante. Pararmos com a violência, não só física, mas também psicológica e ideológica. Respirar é fundamental para todos nós. O que fazer para que não falte oxigênio nos hospitais e em nosso planeta? Para o planeta respirar, reflorestar onde foi desmatado. Plantando árvores, cada um de nós pode contribuir para que o bairro e a cidade tornam-se mais verdes, além de denunciar maus-tratos com a natureza, como desmatamento, poluição dos córregos, rios, mares; procurar preservar o meio ambiente; as indústrias respeitarem os acordos ambientais para diminuir a poluição. Para a saúde pública, fiscalizar e denunciar desvios de verbas, e descasos em relação ao acesso à saúde, como o caso dos cilindros de oxigênio. Individualmente, praticar ioga ou fazer exercícios respiratórios que ajudam a manter a saúde torácica. Enfim, o valor do respirar é tão grande que o Criador nos concedeu de graça… Sinta o perfume das flores, o cheiro da terra molhada, a maresia, o pasto, o suor… Seja grato por respirar! Inspire e expire! Mas, enquanto a pandemia não acabar, continue usando máscara e lavando as mãos. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP e SBPC, atualmente professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Comissão de Prevenção e combate à tortura pela ALESC, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, pertencente à Arquidiocese de Florianópolis-SC.
O silêncio na espiritualidade cristã e o tempo da Quaresma

Na Quaresma, a Igreja convida a um mergulho no mistério de nossa vida, fé, vocação e missão. As celebrações quaresmais nos motivam a uma sincera conversão. Jesus Cristo costumava retirar-se para rezar e propunha, com palavras e exemplo, o exercício do silêncio. Cultivou e ensinou aos discípulos a experiência do silêncio na vida pessoal e pastoral. Ao iniciar a missão, Jesus fez um retiro de quarenta dias, no deserto, com jejum e oração. Ensinou que é preciso alimentar-se da Palavra de Deus. Viver como criaturas novas, a caminho da Páscoa definitiva. O mandamento de Jesus reza: “Não julgueis…”. Isso significa emitir nossa opinião, sempre marcada pela verdade, mas jamais impor nosso ponto de vista. Existe a dificuldade em perceber que um jejum de comentário sobre outro, de conversas banais, possa ser mais custoso do que o jejum de chocolate… O silêncio autêntico nos eleva em prece, num gesto de amor ou penitência pela responsabilidade da vida, alimenta atitudes de delicadeza no falar com as pessoas, com atenção e carinho. A Quaresma nos orienta para prática da partilha e solidariedade. Tempo que dou a mim mesmo, no exercício do silêncio, de uma boa leitura e revisão de vida. Vivemos num mundo imerso no barulho, numa cultura de poluição sonora e visual. Atitude urgente de caridade é treinar o ouvido do coração para exercer o ministério da escuta, tão necessário a quem sofre as durezas da vida neste momento crucial da História. O desafio é calar o falatório, que abafa a paz do coração. A paz que procuramos pode estar no silêncio que não fazemos. Talvez seja por isso que, em dados momentos da vida, não entendamos o silêncio de Deus. A Igreja proporciona espaços de silêncio como meio de penitência, jejum e oração. O silêncio construtivo vem do exercício interno e externo, com esforço, avanços e recuos, paciência e perseverança. Santa Hildegarda de Bingen, doutora da Igreja, disse: “Deus marca prazerosamente encontro conosco, na casa do silêncio”. O silêncio educa à vigilância que revela a novidade. Proporciona possibilidade para observar, clarificar e concentrar-se sobre o essencial. Na espiritualidade cristã, a fé somente é possível com o exercício regular do silêncio. Pelo exercício do silêncio, os frutos da Páscoa do Senhor darão novo sentido para a vida e um relacionamento saudável com a criação, com os irmãos, irmãs, e de intimidade com Deus. Há médicos que propõem o silêncio como atitude indispensável para uma vida pessoal e comunitária saudável. Recomendam o retiro, em silêncio, como terapia preventiva dos acidentes cardiovasculares. O segredo da cura pelo silêncio é descobrir um Deus amigo, médico, que vem a nosso socorro, escuta e convida a entrar em sintonia com ele. Por vezes, pode-se dizer mais com o silêncio que com palavras. Santa Teresa de Ávila, ao contemplar as rosas no jardim, dizia: “Parem de gritar, eu já sei que Ele existe”. Silêncio não é mutismo, alienação. Ele nos capacita para um autêntico diálogo. Os mestres da vida interior ensinam a agir com calma. Silêncio no andar, silêncio dos olhos, dos ouvidos, da voz e assim criar condições para unir-nos a Deus. A imaginação é dom de Deus e alimenta nossa oração. A memória reaviva momentos de ação de graças por tanta misericórdia de Deus para conosco. De alegria, de dor, de pecado para purificar e tornar-nos aptos a acolher a graça da fonte de Deus, que jorra em nós. Adoecemos quando a imaginação nos leva para fora de nossa casa interior e faz perder o contato com a vida. Avançar para águas mais profundas, no silêncio do coração. Assim, nada poderá perturbar a paz interior, nem as criaturas, a memória nem a imaginação. Silenciar a natureza humana é fruto de trabalho lento e paciente. Silenciar o orgulho e o amor-próprio ferido. Superar desejo de vingança, por vezes revestido de aparente justiça. Remédio para não adoecer de orgulho, superioridade e considerar-se insubstituível é o silêncio do Espírito que leva a agir apenas pela glória de Deus. Quem busca viver a santidade dispensa toda duplicidade de vida. A ambiguidade é fonte de sofrimento e doenças físicas e psíquicas. O melhor de tudo é aprender a ficar em silêncio na gratuidade. Acordar bem cedo, todos os dias, para cultivar um pouco de silêncio. Sentar-se, meditar os acontecimentos do dia anterior, em sintonia com a Palavra de Deus ou apenas curtir o silêncio. É um momento inspirador e integrador. Em meio ao caos, Deus se faz presente. Irmã Marta Maria Arnhold, missionária serva do Espírito Santo na Província Divina Sabedoria (Brasil Sul), é graduada em Pedagogia, especialista em Orientação Educacional e em Aconselhamento Pastoral – Espiritualidade, pela Pontifícia Universidade Lateranense, em Roma. Trabalha na pastoral paroquial e como orientadora espiritual na Capela Missionária das SSpS.
Resta-nos (o) olhar

São muitos pontos de vistas pandêmicos… Eu escolhi um: o olhar. Em meio a tantas restrições, máscaras e distanciamento físico, o olhar nos aproxima. A sutileza da acolhida é percebida no sorriso que o olhar escancara. As preces são elevadas aos céus sob o emissário olhar de fé. O jeito de olhar não nos permite ser indiferentes. O olhar sempre chega antes. A maneira de enxergar pode alcançar o inimaginável. O olhar é uma força generosa que inspira amor e cuidado. A luz que o olhar captura tem a ver com a íris. A luz que o olhar emana dialoga com nossos desejos, concepções e receios. O olhar que se apaga vai ser esperança de vida eterna. É próprio do olhar criar uma imagem invertida que é convertida para a posição correta. Nem tudo o que se vê é o que parece ser. O olhar sempre chega antes. O olhar tem pressa e, às vezes, pode ser apressado. O olhar também pode ter a força de uma metralhadora que fuzila. Pode constranger, condenar e julgar. Um olhar generoso e solidário move pedras e planta flores. Um olhar sábio entende o valor do perdão, mesmo quando não correspondido. Um olhar lúdico se diverte com as cenas espontâneas capturadas. Os olhos lacrimejam e são vertedouros de emoções. A impossibilidade de enxergar de alguns nos ensina a ver de olhos fechados. Moram nos olhos abertos que relutam no silêncio da noite a desesperança e o medo. Os olhos cansados pelo tempo se nutrem de memórias. O descanso merecido tem no olhar sua melhor morada. Que ao abrir os olhos a cada novo dia, nosso olhar esteja impregnado de esperança, disponibilidade, empatia e alteridade. Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
1º Domingo da Quaresma

“Durante quarenta dias, no deserto, Ele foi tentado por satanás”Mc 1,12-15 Os três evangelhos sinóticos contam a história das tentações de Jesus no deserto. Marcos, de uma forma resumida; Mateus e Lucas, mais detalhadamente. Mas devemos lembrar que esses relatos procuram expressar uma experiência mística de Jesus, e então não devem ser interpretados ao pé da letra ou de uma maneira fundamentalista. Uma coisa logo chama a atenção: nos três evangelhos, as tentações vêm logo após o batismo de Jesus. O batismo significa o assumir público de sua identidade e missão, como Servo de Javé. Logo após esse compromisso, Ele tem de enfrentar as tentações. Aqui, a experiência de Jesus é como a nossa própria: nós temos compromisso com o projeto de Deus, mas, entre nosso compromisso e nossa prática do seguimento de Jesus, existem muitas tentações. Marcos sublinha que “o Espírito impeliu Jesus para o deserto”. O Espírito não conduz Jesus à tentação, mas é a força sustentadora dele, durante suas tentações. Como o Espírito dava força a Jesus, Marcos quer ensinar às suas comunidades que elas também poderão contar com esse apoio do Espírito Santo nos momentos difíceis da vivência de sua fé. O relato mais desenvolvido de Lucas (Lc 4,1-14) pode nos ajudar a aprofundar o sentido das tentações de Jesus. Nelas podemos reconhecer as mesmas tentações que nós, individualmente e comunitariamente, enfrentamos em nossa caminhada de fé hoje. Primeiro, Jesus é tentado a mandar que uma pedra se torne pão. Podemos ver aqui a tentação do “prazer”. Logo que enfrenta um sacrifício por causa de sua opção, Jesus é tentado a escapar dele. Uma tentação das mais comuns hoje, em um mundo que prega a satisfação imediata de nossos desejos, criando necessidades falsas por meio de sofisticadas campanhas de propaganda. Pois vivemos em uma sociedade que prega o individualismo, onde a regra é “se quer, faça!”, e onde sacrifício, doação e solidariedade são considerados como ladainha dos perdedores. É só olhar o número de casamentos que fracassam diante da primeira crise ou a quantidade de seminaristas, religiosos, religiosas e padres que desistem, às vezes pouquíssimo tempo depois de professar seus votos ou de serem ordenados, diante de uma sentida falta de “autorrealização imediata”. A resposta de Jesus é contundente: “Não só de pão vive o homem”. O homem vive de pão certamente, mas não só! Jesus não é sádico, contra o necessário para viver dignamente, mas salienta, muito bem, que não é somente a posse de bens que traz a felicidade, mas a busca de valores mais profundos, como a justiça, a partilha, a doação, a solidariedade com os sofredores. Não faz nenhum contraste falso entre bens materiais e espirituais; ambos são necessários para que se tenha a vida plena. Nessa frase, Jesus desautoriza tanto os que buscam a felicidade na simples posse de bens como os que dispensam a luta pelo pão de cada dia para todos. A segunda tentação pode ser vista como a do “ter”. De novo, algo muito atual. Nós vivemos na sociedade pós-moderna da globalização do mercado, do neoliberalismo, do consumismo, do “evangelho” do mercado livre. Diariamente, a televisão traz para dentro de nossas casas a mensagem de que é necessário “ter mais” e que não importa “ser mais”. Como sempre, a tentação vem em forma atraente. Até a Igreja pode cair na tentação de achar que a simples posse de bens, que podem ser usados em favor da missão, garantirá uma pregação mais evangélica. Isso sem falar das pregações midiáticas que glorificam um Deus que supostamente faz da posse de bens materiais sinal da sua bênção. Somos tentados a não acreditar na força dos pobres, de não seguir o caminho do carpinteiro de Nazaré. Jesus também teve de enfrentar essa tentação. Ele, que veio para ser pobre com os pobres, para mostrar o Deus que opta preferencialmente pelos sofredores, é tentado a confiar nas riquezas. Para o diabo, e para o nosso mundo que idolatra o bem-estar material e o lucro, mesmo sacrificando a justiça social, Jesus afirma: “Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a ele servirá” (v. 8). A terceira tentação pode ser entendida como a do “poder”. Uma tentação permanente na história da Igreja e dos cristãos. Quantas vezes, para “evangelizar”, a Igreja confiava mais no poder secular do que na fragilidade da cruz? Quanta aliança entre a cruz e a espada (a América Latina que o diga)! Ainda hoje, todos nós enfrentamos esta tentação: não de ter poder para servir, mas de confiar no poder aparente deste mundo mais do que na fraqueza aparente de Deus. Jesus, que veio para servir e não para ser servido, que veio como o Servo de Javé e não como dominador, teve de clarificar sua vocação e despachar o diabo com a frase: “Não tentará o Senhor seu Deus” (v. 12). Realmente podemos nos encontrar nas tentações de Jesus. São as tentações do mundo moderno (o ter, o poder e o prazer). Coisas boas em si, quando bem utilizadas conforme a vontade de Deus, mas altamente destrutivas quando tomam o lugar de Deus em nossas vidas. Jesus teve de enfrentar o que nós enfrentamos: o “diabo” que está dentro de nós, o tentador que procura nos desviar de nossa vocação de discípulos. O relato de Lucas nos coloca diante da orientação básica para quem quer vencer: “Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a ele servirá” (Lc 4,8). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Cristo é a nossa paz

Em 17 de fevereiro, Quarta-Feira de Cinzas, iniciamos a Quaresma. Também nesse dia, em todo o Brasil, abrimos a Campanha da Fraternidade (CF) que, neste ano, tem como tema “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor” e o lema “Cristo é a nossa paz: do que era dividido fez uma unidade” (Ef 2,14a). Esta CF nos convoca a todos para a construção de um mundo no qual reine a paz verdadeira, que nasce como fruto do diálogo e do compromisso de amor. O tema vem de encontro a um mundo dividido por ideologias, ódios, injustiças sistêmicas, notícias falsas (fake news) que perturbam a paz e a convivência pacífica entre pessoas e povos. Nosso mundo, que está marcado pela pandemia, a qual já trouxe tanto sofrimento a milhões de pessoas, precisa de paz e solidariedade para superar os males causados pelas doenças e para a construção de uma nova humanidade. A tarefa de superar as divisões e os males precisa ser assumida por todas as pessoas de boa vontade, pelos governantes das nações e por todos aqueles que têm responsabilidades que afetam o espírito de convivência pacífica e ordeira. A verdadeira paz é fruto do protagonismo do Evangelho que nos ensina que todos somos irmãos, mesmo que nascidos de pais biológicos diferentes. A imagem e semelhança colocada em nós pelo próprio Deus é fonte e certeza de que é possível uma vida mais humana, mais esperançosa e menos conflitiva. Nossas esperanças se voltam para todos os que podem contribuir com seu testemunho, deixando de lado toda desavença e disputa. A experiência da pandemia nos mostrou que todos somos frágeis e precisamos uns dos outros. Para superar esse mal, nossa esperança se volta para as vacinas que começam a ser injetadas em defesa do organismo, para combater o vírus. É uma luz diante do caos vivido por um ano inteiro. Superar, contudo, a pandemia é um dos desafios que nos afligem. A CF nos encoraja a superar todo tipo de divisão e a estabelecer novos modos de convivência que vençam tantos outros males que vão além da pandemia. A campanha nos propõe uma constante conversão como processo permanente. Ela nos pergunta “sobre como nos envolvemos com as transformações sociais, econômicas, espirituais, ecológicas, individuais e coletivas, a fim de que sejamos cada vez mais coerentes com os ensinamentos de Jesus nos evangelhos”. E prossegue dizendo: “Jesus nunca orientou seus discípulos e discípulas a criarem inimizades e perseguirem outras pessoas em seu nome”. A Quaresmo é um tempo de conversão. São 40 dias em que somos convidados à prática da oração, do jejum, da partilha do pão. “Viver um jejum que agrade a Deus e que conduza à superação de todas as formas de intolerância, violências e preconceitos.” O Tempo de Quaresma, de modo particular neste ano, incentiva-nos, nas palavras do poema de D. Pedro Casaldáliga, a viver a paz inquieta: “Dá-nos, Senhor, aquela paz inquieta que denuncia a paz dos cemitérios e a paz dos lucros fartos. Dá-nos a paz que luta pela paz! A paz que nos sacode com a urgência do Reino. A paz que invade, com o vento do Espírito, a rotina e o medo, o sossego das praias e a oração de refúgio. A paz das armas rotas na derrota das armas. A paz do pão da fome da justiça, a paz da liberdade conquistada, a paz que se faz ‘nossa’, sem cercas nem fronteiras. Que tanto o ‘shalon’ como ‘salam’, perdão, retorno, abraço… Dá-nos a tua Paz, essa paz marginal que soletra em Belém e agoniza na Cruz, e triunfa na Páscoa. Dá-nos aquela paz inquieta, que não nos deixa em paz!” Como no caminho de Emaús, no diálogo entre os dois discípulos e o desconhecido os levou a ter uma nova compreensão dos fatos, nós também somos convidados a descobrir, em nossa história, a história de salvação que Cristo vem operar aos que aceitam trilhar os caminhos por Ele proposto, numa visão nova de comunhão que vence os medos e nos torna anunciadores da realidade inaugurada pela Ressurreição de Cristo. Só com Ele, superaremos as visões distorcidas da história e encontraremos o caminho de volta ao convívio alegre com os irmãos de caminhada. Que a paz de Cristo habite em nós e em nosso mundo. É com esse espírito que queremos iniciar a Quaresma e a Campanha da Fraternidade de 2021. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.
Quaresma: convocados a sermos melhores

Entramos no chamado ciclo litúrgico da Páscoa, que começa com o Tempo da Quaresma. É um período muito importante para nossa caminhada cristã, pois essa espécie de retiro favorece, em última instância, uma profícua celebração da ressurreição de Jesus. A Quaresma começa na Quarta-Feira de Cinzas e vai até o entardecer da Quinta-Feira Santa. Refere-se aos “quarenta dias” de penitência, jejum, oração, silêncio e práticas cristãs para nosso crescimento e em favor dos mais necessitados. Quarenta, neste caso, significa mais um conceito do que propriamente um número. Pelo calendário, notamos que os dias deste período litúrgico vão além de quatro dezenas. Desde o início, a Igreja não conta os domingos, pois o “Dia do Senhor” não pode ser de jejum ou penitência. Na Bíblia, quarenta costuma indicar um longo período de purificação, de espera de algo que marca uma mudança de vida. E esse também é o sentido da Quaresma. Ao ter no horizonte a Páscoa do Senhor, somos convidados a reorganizar nossa existência, reconhecer nossa condição de pecadores e de pessoas necessitadas da misericórdia de Deus. Também devemos responder ao chamado à justiça, à partilha e ao cuidado com as pessoas e o planeta. Eu gostaria de sublinhar alguns aspectos da Quaresma e até ousar dar algumas dicas de como vivê-la bem. Que todos nós aproveitemos bem essa oportunidade de nos tornar pessoas melhores. A oração A oração é a prática cristã mais elementar. Independentemente do método que cada um escolhe, por ela, podemos conversar com o Senhor e, o mais importante, ouvi-lo. Pela oração, “matamos a saudade” daquele que nos criou e nos ama. Na Quaresma, devemos intensificá-la, pois é um momento importante para reorganizarmos nossa vida interior, a qual nos conduz à madura vida cristã. A Igreja nos propõe, entre outras possibilidades, meditar a Palavra de Deus (sugiro acompanhar as leituras da liturgia de cada dia), contemplar as estações da Via Sacra e participar assiduamente da sagrada liturgia. O jejum O sentido religioso do jejum é muito rico. Por essa prática, disciplinamos nossos instintos, mostrando que devemos agir com verdadeira liberdade e não por impulsos vagos, vontades nocivas a nós, aos outros, ao planeta. O jejum, no âmbito espiritual, é vazio se ele não se transfigura em amor ao próximo. Conforme um ensinamento antigo da Igreja, se deixamos de comer ou beber algo, o que abdicamos deve ser convertido em auxílio a quem passa por necessidade. Note: o jejum cristão está bem longe de tradições estéreis. Não posso deixar de destacar outros jejuns tão importantes quanto o de alimentos. Um que nos pode fazer muito bem, sobretudo nestes tempos de avalanche de informações, de copia-cola-copia, é o de palavras. Que tal dominar o impulso de curtir, compartilhar, “cancelar” e comentar tudo nas redes sociais? Não precisamos ver e interagir com tudo o que está disponível para nós. Não necessitamos falar tudo. A busca do essencial é o tom da espiritualidade da Quaresma e precisa se prolongar pelo ano. A caridade A “esmola”, juntamente com a oração e o jejum, é um dos pilares da prática quaresmal. Essa palavra anda um pouco desgastada em nossos dias. Muitos preferem chamá-la de “caridade”, cujo significado parece ser mais amplo. Como a Quaresma nos chama à conversão (ou seja, voltar para o caminho seguro), o cuidado esmerado com os outros, com a sociedade e a natureza não pode ser deixado de lado. A caridade pode ser exercida de várias formas, como na luta pela justiça e pela paz, na atenção aos sofredores, na partilha de um dom ou de um tempo para engrandecer a comunidade, no atendimento às urgências dos irmãos e irmãs. Nesse espírito, no início da década de 1960, a Igreja do Brasil criou a Campanha da Fraternidade (CF). Oficialmente, ela começa com a Quaresma, porém se prolonga por todo o ano. Vez ou outra, é organizada com outras igrejas cristãs, em sinal de comunhão em torno de Cristo, o centro de nossa fé. Das propostas da CF nasceram diversas pastorais e movimentos que fazem um bem incalculável. Assim, é de se causar enorme estranheza quando indivíduos e grupos autodenominados católicos têm aversão à CF. Batismo Como itinerário à alegria da ressurreição de Jesus, a Quaresma tem uma espiritualidade fortemente batismal. Desde o início da Igreja, nestas semanas, os catecúmenos se preparam de modo mais profundo para, na maravilhosa Vigília Pascal, serem “mergulhados em Cristo”. Também é momento para os já batizados renovarem a consciência de sua condição de “configurados ao Cristo”, “sal da terra e luz do mundo”, membros do corpo místico de Jesus. Na liturgia, quando a comunidade está “grávida” de novos filhos que nascerão da fonte batismal, algumas leituras dominicais da Quaresma são as do ano A, bem vinculadas à catequese de iniciação cristã. Silêncio O silêncio, quando bem usado, é altamente libertador e até subversivo. Uma comunidade cristã que não tolera o silêncio acaba se alienando, pois deixa de ouvir o Senhor que se manifesta na brisa suave (cf. 1 Reis 19,11-13). Quem sabe silenciar-se pode ouvir também a própria consciência e meditar nas coisas da vida. Para o opressor, isso é um “perigo”. Essa prática também é uma forma de comunhão com quem é silenciado, anulado por diversas injustiças. Aplica-se aqui também o “silêncio digital”. Por que temos de ver, (des)curtir e comentar sobre tudo? Penitência Longe de ser algo fora de moda, pela penitência, nós nos colocamos em nossa real condição: somos criaturas; Deus é o Criador. É uma forma de reconhecer que, devido a nossas fraquezas, somos necessitados da misericórdia de Deus. Pela penitência, nós nos associamos a Cristo que, mesmo tendo natureza divina, esvaziou-se de sua glória, assumiu a condição de um escravo, humilhando-se, obedecendo até à morte humilhante numa cruz (cf. Filipenses 2,6-11). É um dom poder chorar nossos pecados e, principalmente, tornar essas lágrimas motivo de busca por uma vida mais reta, mais próxima da proposta de Jesus. Sinalizada pelas cinzas, o roxo e a sobriedade da liturgia, a penitência sincera nos conduz ao arrependimento e ao alegre
Campanha da Fraternidade Ecumênica: um convite ao diálogo

No dia 17 de fevereiro, Quarta-Feira de Cinzas, teremos o início da quinta Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE) no Brasil. Em 2021, o tema é “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor”, e o lema, “Cristo é nossa paz: do que era dividido, fez unidade” (Ef 2,14a). A própria organização desta campanha já é um testemunho daquilo a que ela se propõe, uma vez que foi realizada por seis igrejas cristãs, membros do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil, além da Igreja Betesda de São Paulo e o Ceseep (Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e à Educação Popular). Ao propor o tema supracitado, as igrejas cristãs convidam homens e mulheres à urgência do diálogo, a fim de construir comunidades mais fraternas e justas. O convite não parte do vazio, mas das mazelas, problemas que a realidade social brasileira apresenta: o aprofundamento das desigualdades sociais, o racismo estrutural, as expressões de xenofobia, o feminicídio, a homofobia, a proliferação das fake news, a desconfiança nas instituições democráticas, o crescimento do fundamentalismo religioso, as manifestações de comportamentos autoritários nos governantes, a necropolítica, a agressão socioambiental, o negacionismo, a captura do Estado pela economia de mercado, entre tantos outros. O texto-base da CFE 2021 apresenta vários dados estatísticos comprobatórios dessa triste realidade. Diante do complexo quadro de nossa sociedade, as pessoas assumem atitudes distintas. Enquanto há aquelas que lutam para a transformação, outras, de forma consciente ou inconsciente, colaboram para o agravamento das múltiplas crises. Há também quem se sinta impotente diante da magnitude dos problemas. No entanto, o que a CFE propõe é algo aparentemente sutil, mas profundamente transformador: o diálogo. Dialogar é próprio de quem reconhece o outro, é base das relações humanas, a condição para a evolução do ser humano e a construção da fraternidade. É uma ação que neutraliza o individualismo, uma vez que supõe a presença de um semelhante para que aconteça. Abrir-se ao diálogo é reconhecer que existem outras verdades, outras crenças, outros modos de organização da vida para além daqueles que eu conheço e pauto minhas ações. Quanta violência seria evitada se as pessoas praticassem as simples atitudes de expressão, de escuta e de olhar uma determinada situação a partir da perspectiva do outro! A Quaresma é sempre uma oportunidade de olharmos para nós mesmos e entrar em sintonia com o projeto de Jesus. Ele, nas situações mais inusitadas, deu-nos inúmeros exemplos de aproximação com o diferente e de diálogos geradores de vida. Abramo-nos à graça de seu amor para que também nós sejamos construtores da paz e da fraternidade. Boa caminhada quaresmal a todos e todas! Ir. Stela Martins, SSpSCoordenadora da RedesRede de Solidariedade
6º Domingo do Tempo Comum

“E, de toda parte, as pessoas iam procurá-lo”Mc 1,40-45 O primeiro capítulo de Marcos termina com um trecho que pode esclarecer o que significava para Jesus “ir adiante e pregar a Boa Nova” (Mc 1,38s). Marcos, diferentemente dos outros evangelistas, raramente nos conta o conteúdo da pregação de Jesus. Mas ele ilustra esse ensinamento, relatando ações de Jesus que demonstravam o sentido da chegada do Reino e de sua Boa Notícia. O texto de hoje descreve a cura de um leproso. Os leprosos estavam entre os mais marginalizados da época. Por motivos higiênicos e religiosos (Lv 13,45-46), eram obrigados a viver fora da cidade ou aldeia, longe do convívio social. A única esperança do leproso de ser reintegrado à comunidade estava numa cura da parte de Jesus. Ele diz algo significativo: “Se queres, tu tens o poder de me curar”. Pois, em Marcos, Jesus nunca faz milagre para despertar a fé; pelo contrário, somente faz onde a fé já existe. O milagre em Marcos nunca causa a fé, mas é a fé que causa o milagre. Isto se torna importante: recordar em nosso mundo tão afoito em correr atrás de supostos milagres e milagreiros, e pouco adepto a aprofundar a fé em Jesus no seguimento dele até a Cruz. O Evangelho de Marcos tem pouco lugar para a religião “light”, tão em voga hoje em diversos segmentos das Igrejas cristãs, incluindo a Católica. A reação de Jesus é interessante: “Jesus ficou cheio de ira”, certamente não com o leproso, mas com o sistema social e religioso que marginalizava uma pessoa humana em nome de Deus. As leis de pureza, inventadas pelos homens e atribuídas a Deus, tinham o efeito de excluir muitas pessoas da convivência humana e religiosa. O Evangelho nos desafia para que tenhamos a coragem de examinar nossas leis e práticas para verificar se nós também não criamos, em nome de Deus, classes de excluídos e cristãos de segunda categoria. Depois da cura do leproso, encontramos um elemento característico do Evangelho de Marcos, o chamado “segredo messiânico”. Jesus proíbe que ele conte para os outros a história da cura. Que esperança! O homem sentiu necessidade de espalhar a boa notícia de sua cura. Essa proibição vai aparecer muitas vezes em Marcos. No relato da confissão de Pedro na estrada de Cesareia de Filipe, vamos ver o motivo por trás dele. Jesus não quer que o povo siga-o buscando prodígios e milagres, mas que todos se tornem seus discípulos como o Servo de Javé, pegando a sua cruz na luta por um mundo melhor, pela concretização do Reino de Deus no meio de nós. Por isso, é de se desconfiar de pregações e celebrações religiosas que se limitam a experiências intimistas de Deus, sem um engajamento na transformação do mundo e de suas estruturas. Finalmente o homem deve apresentar-se aos sacerdotes para que sua cura seja autenticada, segundo as leis levíticas. Pois, para Jesus, não basta a cura individual, Ele quer que todas as pessoas sejam integradas numa vivência comunitária, sem marginalização por causa de gênero, classe social, raça, cor ou saúde. A fé em Jesus leva a um mundo totalmente diferente do mundo de exclusão que é nossa atual sociedade neoliberal e consumista. Diante dessa boa-nova de inclusão, o povo excluído corre atrás de Jesus, pois Ele manifesta a verdadeira face de Deus a eles: o Deus de bondade e perdão, cujo rosto tinha sido escondido pelas leis de puro e impuro do Templo e do sistema farisaico da época, “e, de toda parte, as pessoas iam procurá-lo”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Retorno das escolas da Rede

Vivemos ainda em meio à maior pandemia de nossos tempos, e a pergunta frequente é: quando tudo voltará ao normal? Voltará? A peste, romance de Albert Camus, vai nos lembrar de que ela pode vir ou ir embora sem que o coração do homem seja modificado. Se isso prevalecer, sugerimos que não voltemos à normalidade nos moldes a que estávamos acostumados, porque, se assim retornarmos, é sinal de que não valeu de nada toda a tristeza vivida no mundo inteiro. Em 2020, vivemos a possibilidade de repensar muitas coisas. Que a vida é muito frágil. Que a simplicidade é um caminho possível. Que precisamos uns dos outros. A necessidade do essencial para se viver. Que a espiritualidade é a grande força interior que sustenta nossa caminhada. Que somos parte desta grande casa comum chamada planeta Terra. E veio deste enorme organismo vivo onde habitamos o convite, a voz que nos convocou a fazer silêncio, pois só assim poderíamos ouvir e transformar nosso coração. Nossos educadores, alunos e familiares vão, aos poucos, iniciando o retorno às nossas escolas. A maioria, introspectiva e com diferentes sentimentos. Alegria pelo retorno e pelo reencontro, medo pela realidade de um vírus desconhecido, ansiedade pela espera da vacina. Os protocolos conhecidos, álcool, máscara, o cuidado com as mãos… revelam a consciência do amor ao próximo e o precioso cuidado com nosso maior dom, a vida; eles estão presentes em nossas escolas desde o primeiro dia. É um recomeço cheio de novos desafios, novas adaptações que exigem de cada um a vivência de uma ética da reciprocidade. Fazer ao outro o que gostaríamos que fizessem a nós. Com essa consciência, retornaremos diferentes; entendendo “diferentes” como entregar o melhor de nós ao outro. Agostinho Travençolo JúniorEducador e coordenador da Dimensão Missionária da Rede de Educação SSpS