Poesia: alunos e professores da Rede de Educação SSpS lançam coletânea

Segundo Cassiano Ricardo, poeta, jornalista e ensaísta, a poesia é uma ilha cercada de palavras por todos os lados. Em homenagem ao Dia Mundial da Poesia, comemorado em 21 de março, alunos e professores da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo prepararam a coletânea de poemas “De tudo um pouco”. A obra de 38 páginas contou com a participação de representantes dos ensinos fundamental e médio dos colégios Imaculado Coração de Maria (Rio de Janeiro-RJ), Espírito Santo (São Paulo-SP), Sagrado Coração de Jesus (Belo Horizonte-MG) e Stella Matutina (Juiz de Fora-MG). Acesse o e-book:

5º Domingo da Quaresma

“Se alguém quer servir a mim, que me siga!”João 12,20-33 O texto de hoje traz muitos elementos que têm eco nos textos sinóticos. Até uma leitura rápida vai trazer lembranças de seus textos sobre o seguimento de Jesus; por exemplo, Lucas (9,22-25): “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e me siga”, entre outros. João faz uma redação conforme sua teologia e enfatiza que o seguimento de Jesus se dá no serviço a ele, ou seja, na luta em favor de seu projeto. Todo o Evangelho de João manifesta que o serviço a Jesus se dá no serviço aos irmãos e irmãs. Não é possível servir Jesus sem se colocar a serviço dos outros, especialmente dos mais sofridos. Pois o projeto de Jesus de fidelidade ao Pai vai custar-lhe a vida, Ele será como o grão do trigo que, se não cai na terra e não morre, fica sozinho; “mas, se morrer, produz muito fruto” (vers. 24). Não que Jesus quisesse a morte e o sofrimento, mas são inerentes no seguimento do projeto do Pai, por causa da oposição garantida de grupos de interesse da sociedade do seu (e do nosso) tempo, e, apesar das aparências, não levam à derrota, mas à vitória. Jesus não veio para ser triunfalista, mas para dar a vida em favor de todos. Essa visão que Jesus tinha da missão do Messias não era a comum. Em geral, as pessoas daquele tempo esperavam um messias triunfante, glorioso e guerreiro. A Bíblia nos conta que Deus criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança; mas, na verdade, muitas vezes, nós criamos Deus à nossa imagem e semelhança, para que Ele não nos incomode. A nossa tendência é de querer vencer e nos impor, de seguir um messias triunfante e não o Servo Sofredor. Mas, para Jesus, não há meio-termo. O discípulo tem de andar nas pegadas de seu mestre: “Se alguém quer servir a mim, que me siga” (vers. 26). O seguimento de Jesus leva à cruz, pois a vivência das atitudes e opções dele vai nos colocar em conflito com os poderes contrários ao Evangelho. Mas é importante compreender o sentido de “carregar a cruz”. Não é aguentar qualquer sofrimento. Se fosse assim, a religião seria masoquismo! Carregar a cruz é viver as consequências de uma vida coerente com o projeto do Pai, manifestado em Jesus. Segui-lo não é tanto fazer o que Jesus fazia em sua época e situação social e cultural, mas o que Ele faria se estivesse aqui hoje, diante dos desafios de nossa sociedade, convivência e situação concreta. Isso o levou a ser assassinado, não pelo povo, mas por grupos de interesse bem claros, “os anciãos, os chefes dos sacerdotes e os doutores da Lei” (a elite dominante em termos econômicos, religiosos e ideológicos), e, do mesmo jeito, seus seguidores entrarão em conflito com os grupos que hoje representam os mesmos interesses dos oponentes de Jesus, sejam eles sociopolíticos, econômicos ou religiosos (normalmente tudo vem misturado!). Por isso, sempre haverá a tentação de criarmos um Jesus “light”, sem grandes exigências, limitado a uma religião intimista e individualista, sem consequências sociais, políticas, econômicas ou ideológicas. Seria cair na tentação de Pedro, conforme o relato sinótico, quando rejeita o seguimento de um Messias que dará sua vida (Marcos 8,32). Mas que Jesus queremos seguir? A resposta se dará não tanto com os lábios, mas com as mãos e os pés. Respondemos quem é Jesus para nós por nossa maneira de viver, por nossas opções concretas, por nossa maneira de ler os acontecimentos da vida e da história. Tenhamos cuidado com qualquer Jesus que não seja exigente, que não traz consequências sociais, que não nos engaja na luta por uma sociedade mais justa. Há pouco tempo, fiquei triste ao ouvir uma senhora que tinha deixado a Igreja Católica para aderir a uma Igreja da teologia de prosperidade (na verdade, uma empresa multinacional) e exclamar “Agora achei o Jesus que eu queria”. Sem dúvida, o Jesus que ela queria, mas não o Jesus real! Pois o Jesus real, Jesus de Nazaré, o Jesus do Evangelho, não foi assim e deixou bem claro: “Quem tem apego à sua vida vai perdê-la; quem despreza sua vida neste mundo vai conservá-la para a vida eterna” (vers. 25). É claro que aqui se usa um semitismo (o contraste com o “apegar-se” é expresso no verbo “desprezar”, o que significa “amar menos”). Essa opção é difícil. Embora João não relate a agonia no Horto, ele expressa a mesma realidade quando Jesus diz “Estou perturbado” (vers. 27). Mas o Pai lhe deu força, como dará a quem faz a opção real pelo Reino, no seguimento de Jesus, no serviço aos irmãos e irmãs, na construção de uma sociedade, Igreja e comunidade sem exclusões, onde todos tenham a possibilidade de ter a dignidade e vida plena dos filhos e filhas de Deus e de cidadãos da sociedade. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

“Com coração de pai”: um grande louvor a São José

Em 19 de março, celebramos a Solenidade de São José, patrono universal da Igreja, título que o Esposo de Maria recebeu em 8 de dezembro de 1870, pelo Bem-Aventurado Papa Pio IX. Para marcar os 150 anos dessa proclamação, o Papa Francisco convocou um ano especial dedicado ao Patriarca de Nazaré, a ser comorado até 8 de dezembro de 2021, e publicou a Carta Apostólica Patris Corde (“Com coração de pai”, em tradução livre), assinada em 8 de dezembro de 2020. A devoção a São José pode ser considerada mais uma das grandes características do atual pontificado. Por uma feliz providência, o início oficial do ministério do Papa Francisco deu-se exatamente em 19 de março de 2013. Um de seus simpáticos costumes é colocar debaixo de uma imagem de São José dormindo algumas anotações sobre temas difíceis, que pedem melhor discernimento, como explicou o próprio Papa. Desde então, a curiosa figura do santo dormindo é uma das lembranças mais procuradas tanto nos arredores da Praça São Pedro, no Vaticano, quanto em lojas especializadas em artigos religiosos ao redor do mundo. A mensagem de Patris Corde quer mais dirigir um grande louvor a São José, homem discreto, mas exemplar, que ajudou a proteger e a formar a personalidade humana de Jesus. Francisco desejou partilhar algumas reflexões pessoais sobre aquele a quem denomina de uma “figura extraordinária, tão próxima da condição humana de cada um de nós”. “Depois de Maria, a Mãe de Deus, nenhum santo ocupa tanto espaço no magistério pontifício como José, seu esposo”, explica. Assim, o Papa destaca que o Bem-Aventurado Pio IX declarou São José como “Padroeiro da Igreja Católica” (1870); o Venerável Pio XII o apresentou como “Padroeiro dos Operários” (1955); e São João Paulo II o proclamou como “Guardião do Redentor” (1989). Francisco lembra que o povo também invoca o pai adotivo de Jesus como “Padroeiro da Boa Morte” (Catecismo da Igreja Católica, cân. 1014). O texto do Pontífice sublinha sete atributos de São José: Pai amado, Pai na ternura, Pai na obediência, Pai no acolhimento, Pai com coragem criativa, Pai trabalhador, Pai na sombra. Sobre cada um, o Papa expõe meditações para reafirmar que, em sua atitude silenciosa, aquele homem deixa importantes exemplos a guiarem os cristãos no seguimento de Jesus. “São José lembra-nos de que todos aqueles que estão, aparentemente, escondidos ou em segundo plano têm um protagonismo sem paralelo na história da salvação”, diz Francisco, em tom de reconhecimento e de gratidão. Homem de fé Em Patris Corde, Francisco destaca uma atitude de José que intriga muitos de nós, homens, sobretudo quem vive o matrimônio. O Carpinteiro de Nazaré aceita Maria, mesmo tendo uma imensa angústia ante a gravidez incompreensível da noiva. Que situação complicada! Talvez possamos ter uma ideia do tamanho da decepção a invadir o coração de José! Contudo aquele operário decide não difamar Maria (o que poderia levá-la a punições indizíveis), mas, de modo secreto, deixa a gestante (veja o primeiro capítulo do Evangelho de Mateus). Mais surpreendente ainda é a fé do Patriarca. Ele dá crédito à mensagem de Deus, representado por um anjo, que lhe fala em sonho: “José, filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados” (Mateus 1,20-21). Justificativa difícil! Mas José acredita! Daí podemos inferir que esse trabalhador é um homem de oração, atento à voz de Deus; um gigante na fé. “Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor havia mandado” (Mateus 1,24). Segundo o Papa Francisco, “José acolhe Maria, sem colocar condições prévias. Confia nas palavras do anjo”. O Pontífice completa: “Com a obediência, [José] superou o seu drama e salvou Maria”. “Hoje, neste mundo onde é patente a violência psicológica, verbal e física contra a mulher, José apresenta-se como figura de homem respeitoso, delicado, que, mesmo não dispondo de todas as informações, decide-se pela honra, dignidade e vida de Maria. E, em sua dúvida sobre o melhor a fazer, Deus o ajudou a escolher iluminando seu discernimento” (homilia em Villavicencio, Colômbia, 8 de setembro de 2017). Francisco faz outra observação interessante: tal como Maria, na Anunciação (solenidade celebrada uma semana depois, em 25 de março), e Jesus, no Getsêmani (Marcos 14,36), ao longo da vida, “José soube pronunciar o seu ‘fiat’” (“que se faça”). Um “sim” dado nos desafios do cotidiano de uma família pobre, que vivia em uma periferia e tinha de lutar muito para sobreviver, tal como vemos muitas em nosso tempo. “A Sagrada Família teve que enfrentar problemas concretos, como todas as outras famílias, como muitos dos nossos irmãos migrantes que ainda hoje arriscam a vida atormentados pelas desventuras e a fome. Nesse sentido, creio que São José seja verdadeiramente um padroeiro especial para quantos têm de deixar sua terra por causa das guerras, do ódio, da perseguição e da miséria”, diz o Papa.Na Carta Apostólica, o bispo de Roma chama a atenção para um dado dos evangelhos que pode passar despercebido. Ao fim de cada passagem na qual José é protagonista, vê-se “que ele se levanta, toma consigo o Menino e sua mãe, e faz o que Deus lhe ordenou” (cf. Mateus 1,24; 2,14.21). O dom da paternidade Para o Papa Francisco sempre que alguém assume a responsabilidade pela vida de outra pessoa, em certo sentido, exercita a paternidade em relação a esta. “Não se nasce pai, torna-se tal… E não se torna pai apenas porque se colocou no mundo um filho, mas porque se cuida responsavelmente dele”, completa. A Carta Patris Corde encerra-se com uma singela prece, bem ao estilo de Francisco e do Padroeiro da Igreja: “Salve, guardião do Redentore esposo da Virgem Maria!A vós Deus confiou seu Filho;em vós, Maria depositou sua confiança;convosco, Cristo tornou-se homem. Ó Bem-aventurado José, mostrai-vos pai também para nóse guiai-nos no caminho da vida.Alcançai-nos graça, misericórdia e coragem,e defendei-nos de todo o mal.

Clima e crianças: pistas para mudar o mundo!

Para começar, uma confissão: ando um pouco sem esperança. Mas sempre que isso acontece, minha intuição me leva a aproximar-me das crianças. Então, é exatamente isso o que farei… Se você, adulto, está lendo este texto, compartilhe e traduza esta mensagem em forma de recado para alguma criança. Primeiramente, um pedido público de desculpas: crianças, nós, adultos, falhamos!  Sim! Podem acreditar que adultos não são infalíveis, por isso é hora de dar as mãos e ouvidos à infância e contar um pouco sobre essa confusão e contradição que é falar das mudanças climáticas que ameaçam a vida no planeta. Nós, adultos, que fazemos parte dos governos, das instituições privadas e da sociedade civil como um todo, estamos perdendo as chances de buscar soluções conjuntas e globais para minimizar os efeitos das mudanças climáticas. Nossa Casa Comum está pedindo socorro, e sabemos: o que acontecer à natureza que nos foi confiada estará acontecendo a nós mesmos. Nossa Casa Comum está se esgotando pela forma com a qual a ação humana vem interferindo na natureza. Fato é que mudanças climáticas podem ocorrer por alterações na radiação solar e dos movimentos orbitais da Terra, mas o grande problema é quando ela é consequência das atividades humanas, e é sobre isso que vamos conversar. De forma gradual, começamos a perceber, em nosso cotidiano, os efeitos das mudanças climáticas com o aquecimento global, com a subida do nível das águas do mar, o derretimento acelerado de gelo nos polos, a incidência radical de chuvas e seca, a água se tornando mais escassa, perda da biodiversidade, a desertificação, entre outros. Inspirada nas referências de conteúdo aqui citadas, podemos dizer que nosso planeta é protegido por uma camada de gases que ajuda a manter e viabilizar a vida na Terra. Didaticamente apropriando desses conteúdos, o que acontece é que a “radiação solar que chega a nosso planeta é refletida e retorna diretamente para o espaço, outra parte é absorvida pelos oceanos e pela superfície terrestre, e uma parte é retida por essa camada de gases que causa o chamado efeito estufa. O problema não é o fenômeno natural, mas o agravamento dele. Como muitas atividades humanas emitem uma grande quantidade de gases formadores do efeito estufa, essa camada tem ficado cada vez mais espessa, retendo mais calor na Terra, aumentando a temperatura da atmosfera terrestre e dos oceanos e ocasionando o aquecimento global”.  E então, crianças, depois dessa introdução, chegamos ao que interessa. Enquanto esperamos e apostamos que vocês vão crescer e vão nos ajudar a consolidar saídas e alternativas viáveis e criativas, já temos vários caminhos globais, árduos e adultos para fazer “diminuir o desmatamento, investir no reflorestamento, investir em energias renováveis não convencionais (solar, eólica e biomassa, por exemplo), investir na produção e uso de biocombustíveis, reduzir o consumo, reduzir, reaproveitar e reciclar materiais, investir em tecnologia de baixo carbono…”.  Enquanto vocês estão crescendo, também temos vários caminhos que dependem de gestos conscientes e opções cotidianas que já podem assumir a liderança e fazer a diferença:  pratiquem o consumo consciente e sejam cuidadosas com o que compram e desejam comprar; sempre que puder, usem transporte coletivo; façam a coleta seletiva e aprenda a reutilizar e reaproveitar materiais; economizem energia elétrica e sejam cuidadosas e econômicas no uso da água em geral e na hora do banho; prefira adotar animais, não os comprem; plantem uma horta em família, nem que seja em vasos, e adote o consumo de produtos orgânicos; andem a pé e de bicicleta sempre que puderem; diminuam o consumo de carne e alimente-se com qualidade… Eu poderia seguir com essa lista interminável, mas já vou concluir. Estudem… Estudem muito para que as saídas brotem nas mentes criativas e inquietas que são vocês. E amem, amem muito a diversidade e o mistério da vida na Terra. Referências https://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/reducao_de_impactos2/clima/mudancas_climaticas2/ https://www.biologianet.com/ecologia/mudancas-climaticas.htm Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.

4º Domingo da Quaresma

“Deus enviou o seu Filho ao mundo não para julgá-lo, mas para que seja salvo por ele”João 3,14-21 Podemos dizer que o texto de hoje inclui uns versículos (16 a 21) que podem ser entendidos como resumo de todo o Evangelho de João. Inclui também muitas referências ao Antigo Testamento e ao pensamento judaico da época. Inicia-se com a primeira de três frases em João sobre o “levantar” do Filho do Homem, aqui usando paralelismo com a serpente de bronze de Números (21,1-9). O termo “levantado” refere-se tanto ao ser elevado na Cruz como ao ser levantado aos céus. A Cruz é o primeiro passo na volta de Jesus ao Pai. A parte central do texto insiste no infinito amor do Pai pelo mundo. Mais uma vez, cumpre reconhecer que o termo “mundo” tem diversos sentidos em João. Muitas vezes, refere-se às forças opostas a Jesus, e, portanto, tem uma conotação altamente negativa. Aqui se refere à criação de Deus, o universo, com uma conotação positiva. Infelizmente, nos dias de hoje, muitos adeptos das religiões veem o mundo como algo negativo e pecaminoso, frequentemente se justificando com uma interpretação errônea de João e, assim, criando uma religião dualista, onde o “espiritual” é santo, enquanto o “material” é pecaminoso. Assim, o mundo se torna mais o domínio do demônio do que de Deus e cria-se uma religião de alienação e fuga das realidades terrestres. Essa visão equivocada está muito presente em certos movimentos neopentecostais e diversos programas de televisão e rádio. Tal visão se deve mais a certas religiões pagãs do que à mensagem do Evangelho. A missão de Jesus não é de condenar, mas de salvar (vers. 17). Porém a própria presença de Jesus já constitui um julgamento, pois exige uma tomada de posição da parte de cada um. Para o judaísmo, e muitos escritos do Novo Testamento, o juízo deve acontecer no fim da história, mas, para João, dá-se quando alguém se encontra na presença de Jesus e conscientemente aceita ou recusa sua mensagem. O termo que a Teologia usa para essa visão é “escatologia realizada”. Na visão de um mundo dividido entre luz e trevas, há paralelos com os documentos do Mar Morto, provavelmente da seita dos essênios. O cerne da questão é crer ou não em Jesus. Mas é importante lembrar que “crer” não é somente um exercício intelectual de aceitar que algo seja a verdade. “Crer” é assumir o projeto de vida de Jesus, é seguir em suas pegadas. É fazer que suas opções concretas sejam nossas, ou melhor, de agir como Ele agiria se estivesse entre nós hoje. Como será que Jesus agiria diante dos escândalos e crises que assolam nosso mundo? Que posição tomaria diante da acumulação de bens e terras nas mãos de poucos? O que faria diante da questão da reforma agrária ou da destruição do meio ambiente? Diante da corrupção quase endêmica e da manipulação de grande parte dos meios da comunicação de massa? O que diria diante do sofrimento de milhões de desempregos na crise atual econômico-financeira mundial, criada por gananciosos que não sofrem as consequências de sua sede sem limites de lucro? O que Ele diria diante da crise que leva dezenas de milhares de migrantes a arriscarem as suas vidas tentando escapar da miséria? “Crer” nele não é afirmar teses teológicas, mas seguir na prática Jesus de Nazaré que se colocou sempre ao lado dos excluídos e sofridos, não por serem mais “santos”, mas simplesmente por serem mais sofridos. É bom notar que Jesus, enfatizando nesse texto a necessidade do nascimento novo espiritual (estamos ainda no discurso diante de Nicodemos), nega a importância de nascer fisicamente como membro do povo eleito. Mais uma vez, como em Caná e no Templo (2,1-11.13-22), Jesus substitui um dos pilares do judaísmo de sua época. Estamos em plena Campanha da Fraternidade, procurando criar um novo mundo em que todos tenham acesso a uma vida digna, lutando pela luz contra as trevas! Agir “segundo a verdade” (vers. 21) significa fazer o bem. Quem luta pelo bem, pela vida, contra a exclusão, realmente “crê” em Jesus, seja qual for sua confissão religiosa, e “não é condenado” (vers. 18). Quem não faz essa opção opta então pelas trevas, mesmo que professe, de uma maneira ortodoxa, as teses da fé, mas realmente “não crê no nome do Filho Único de Deus” (vers. 18). Ninguém escapa de fazer essa opção concreta, pelo bem ou pelo mal, pela luz ou pelas trevas, pelo Reino ou pelo anti-Reino! É pelos frutos que se conhece a árvore! A Quaresma nos convida para revermos, de uma maneira sincera, nossas opções e também nossa contribuição em favor da criação de uma sociedade justa, de vida e não da morte. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

12 de março: o bibliotecário em tempos de educação remota

O Dia do Bibliotecário é celebrado em 12 de março, em homenagem ao nascimento do primeiro bibliotecário concursado do Brasil, Manuel Bastos Tigre (1882-1957). Mas essa profissão pouco conhecida surgiu há séculos, nos tempos remotos da civilização.  E o que é que faz um bibliotecário? Bem, esses profissionais organizam, guardam, identificam os assuntos dos livros e dos documentos, traduzem para o sistema da biblioteca e, mais ainda, permitem que eles estejam acessíveis para todos os que possam se interessar. Legal, né?! Não é só na biblioteca que um bibliotecário trabalha, mas provavelmente esse é seu lugar preferido. Já faz um tempo que o mundo digital não é novidade, mas muitos ainda acreditam que as bibliotecas não acompanharam esse ritmo. Será? Bem, posso garantir que isso não é verdade. É só “dar um Google” para descobrir o tanto de bibliotecas digitais e virtuais que existem mundo afora. Sem falar nos inúmeros recursos digitais e on-line que as bibliotecas presenciais oferecem.  No Brasil, por exemplo, temos o Domínio Público, http://www.dominiopublico.gov.br/ uma biblioteca virtual criada pelo Ministério da Educação que conta com mais de 180 mil títulos em diversas mídias, disponíveis para baixar gratuitamente. Já a ONU tem um projeto chamado Biblioteca Digital Mundial, https://www.wdl.org/pt/ que reúne documentos oficiais sobre a cultura de diversos países. Acesse e confira! Em tempos de pandemia Só que veio o novo coronavírus, e o digital e o on-line deixaram de ser exceção. Em muitos casos, viraram regra. Há um ano, espreitávamos o que nunca imaginamos viver: a maior pandemia dos nossos tempos.  Deixamos nossas salas de aula e passamos a ocupar os cantos da casa. Nossos celulares e computadores ficaram cheios de atalhos e arquivos ocupando suas memórias. Os professores e colegas passaram a ser vizinhos de tela no Classroom, cada um ocupando, literalmente, seu próprio quadrado.  Mas onde fica a biblioteca nessa história toda? É engano nosso pensar que a biblioteca está fechada atrás dos portões dos colégios. Tal qual nossa escola é viva, assim também são nossas bibliotecas. Atravessando muros de concreto e a distância, a biblioteca, em tempos de pandemia, tem nos aproximado no amor e na esperança de um breve e caloroso reencontro. Seja nas “aulas de biblioteca” on-line ou nos eventos remotos abrilhantados por um conto ou poema, o papel dos bibliotecários é presente e, às vezes, quase invisível, mas precioso na biblioteca escolar. O paraíso Desde os anos iniciais, os momentos de “contação” de histórias são repletos de encanto e auxiliam no processo de formação de nossos pequenos estudantes, promovendo a resiliência, ampliando o repertório sociocultural e desenvolvendo a comunicação, para a autonomia das crianças.  Em cada ação, esses guardiões dos livros carregam a missão de incentivar o pensamento crítico, a imaginação e a curiosidade, ampliando o gosto pela leitura. Dentro desse ambiente aberto e imaginativo, promovido pelos contos, tudo é possível. Os livros, sejam eles digitais ou físicos, permitem-nos encontros preciosos, arrancam-nos suspiros de medo e curiosidade, transbordam-nos alegria e nos encantam profundamente.  Aprendemos muito, nesse último ano, sobre o valor da vida. Percebemos que o que realmente importa, muitas vezes, esteve sempre conosco e não precisamos de muito mais para sermos felizes.  O escritor argentino Jorge Luis Borges disse: “Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca”. Parece que ele está certo, não é mesmo? Nem precisamos estar dentro delas para perceber o quanto as bibliotecas são nosso lugar de repouso e alento. Nunca foi um lugar só para aprender e estudar. Em nossas escolas, isso não é novidade. É só observarmos os olhares dos alunos para percebermos que a leitura é a receita que diminui qualquer distância. Teily Ane Teles de AssisBibliotecária escolar no Colégio Stella Matutina, Juiz de Fora-M

A mulher na política brasileira

Quantas vezes você ouviu as expressões “lugar de mulher é na cozinha” ou “mulher no volante, perigo constante”? Essas frases transmitem uma mentalidade machista e preconceituosa. Em tempos remotos, cozinhar já era uma atividade fora da moradia, como acontece em algumas culturas. E quais foram as mulheres que criaram movimento para combater o preconceito e lutar pela liberdade feminina no Brasil?  Sabemos que as mulheres brasileiras começaram suas conquistas com muita persistência e busca de ideais. Graças à luta delas pelo direito à vida, à terra, ao estudo básico e superior, ao voto, à dignidade, conquistaram reconhecimento perante a sociedade atual. Como exemplos, temos Dandara, esposa de Zumbi dos Palmares (falecida em 1694); a indígena Clara Camarão (século XVII); Luísa Mahin, mãe de Luís Gama (falecida em 1882); Maria Quitéria, que lutou pela Independência do Brasil (falecida em 1853); Nísia Floresta, primeira educadora negra do Brasil (falecida em 1885); a bióloga e política Bertha Lutz, que lutou pelo direito do voto feminino (falecida em 1976); Lélia Gonzalez, filósofa e antropóloga, cofundadora do Instituto de Pesquisa das Culturas Negras do Rio de Janeiro (falecida em 1994); Therezinha Zerbini, advogada e ativista dos direitos humanos, fundadora do movimento feminista pela anistia (falecida em 2015); e tantas pensadoras e batalhadoras de nosso dia a dia, como Maria da Penha. A discriminação da mulher ocorre em todas as camadas sociais. A violência contra o sexo feminino vem de longa data. Infelizmente, o Brasil é o quinto país no mundo em feminicídio. De acordo com dados do IBGE (2020), com a pandemia, 35% das mulheres brasileiras têm sofrido violência sexual e psicológica. Todavia, graças à coragem de Maria da Penha, vítima de violência doméstica, depois de várias denúncias policiais contra seu parceiro, reivindicou proteção à vida, garantindo para as demais companheiras o direito a um recomeço longe de seus desafetos, ao ser criada a Lei n.º 11.340/2006, que tenta coibir maus-tratos e desrespeito. O Disque 180 e as delegacias da mulher têm sido uma ferramenta de amparo e esperança. Caso precise ou conheça alguém que necessite, utilize. Conforme o censo do IBGE de 2010, a maioria da população brasileira é do sexo feminino (51,5%, sendo 43,6% brancas e 56,10% que se declaram pardas e negras, destacando 9,7% de mulheres indígenas). Isso demonstra que, mesmo sendo a maioria no País, a cidadã brasileira ainda é pouco reconhecida na sociedade. Com efeito, a cada eleição, as brasileiras têm procurado seu espaço na política. No Congresso Nacional, atualmente temos como representantes do povo 76 deputadas federais, o que corresponde a 15% do total de 513 parlamentares, e 12 senadoras, entre os 81 senadores. Percebe-se que há, ainda, uma tímida participação feminina nas eleições também das câmaras municipais, mesmo com a Lei n.º 9.504/1997, que estabelece 30% de mulheres nos partidos políticos. Entretanto sabemos que, na realidade, a participação das mulheres na política brasileira não é satisfatória. Na eleição de 2018, apenas uma governante é do sexo feminino, a do Estado do Rio Grande do Norte, tentando cumprir seu mandato. Na História do Brasil, até hoje, somente tivemos uma presidente, Dilma Rousseff, que sofreu com as pressões machistas. Em 2022, teremos novas eleições e precisamos nos conscientizar da força e da responsabilidade política que todos nós temos. Sabemos que a educação da mulher tem, no Brasil, em seu núcleo familiar, uma história conservadora, gerando preconceitos e discriminação, reproduzindo a mentalidade machista, já que a educação dos filhos, por várias gerações, ficou sob sua responsabilidade. Nesse sentido, desde quando a mulher passou a trabalhar fora, percebeu a exploração da mão de obra, o assédio sexual, além da violência doméstica. Com a união e a força do movimento feminista/feminino, o respeito pelo “sexo frágil” passou a ser conquistado. A afirmação da pensadora francesa Simone de Beauvoir (1905-1986), “Não se nasce mulher; torna-se mulher”, provoca muitas reflexões que geram ações de busca pela liberdade feminina de construções culturais equivocadas. A educação da mulher, embora tímida, reflete na educação bem como em várias esferas sociais. Reconhecer a participação feminina nos projetos de políticas públicas, nas universidades, nas manifestações artísticas e desportivas é necessário para a emancipação da sociedade brasileira, que busca viver uma democracia plena. Infelizmente o “empoderamento” feminino tem incomodado o sexo oposto, acostumado, culturalmente, a ser o poder, tanto no espaço público quanto no privado. A compreensão dos papéis de ambos os sexos se faz necessária para uma parceria que, naturalmente, deveria ser para o bem comum.  Que o Dia Internacional da Mulher não seja apenas uma demonstração do carinho, da ternura e da delicadeza estereotipados como características do sexo feminino, que, muitas vezes, se “coisifica” nos comerciais, sendo objeto de desejo, recebendo flores, mas seja de engajamento nos movimentos de luta pela conscientização de políticas públicas à dignidade humana. Maria Terezinha Corrêa Mestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP e SBPC. Atualmente, professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Comissão de Prevenção e Combate à Tortura pela ALESC, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis. 

3º Domingo da Quaresma

“Mas Ele falava do templo do seu corpo”João 2,13-25 Nosso texto relata, na tradição do Quarto Evangelho, um dos eventos mais conhecidos na vida de Jesus: a expulsão dos vendedores do Templo. No Quarto Evangelho, esse evento está situado no início da vida pública de Jesus, enquanto, no Evangelho mais antigo, Marcos, está situado no início de nossa “Semana Santa”. Assim, os dois autores relatam o acontecido segundo o esquema de seus escritos, mas ambos trazem uma mensagem bem clara: o que vai finalmente levar Jesus à morte é seu conflito com as autoridades do Templo. Estas se sentiram ameaçadas em seu poder político, religioso e econômico pela pregação e atuação libertadora de Jesus, que revelava o verdadeiro rosto de Deus e seu projeto de vida plena, ofuscados pelo ritualismo de exploração por parte da classe sacerdotal de Jerusalém, aliada ao poder opressor romano. Para João, esse conflito estoura desde o início da vida pública de Jesus. Para Marcos, o evento é a gota d’água que desencadeou o conluio que levaria Jesus à Cruz. Na cena apresentada pelo texto, Jesus vai a Jerusalém para a primeira das três Páscoas mencionadas em João; nos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), a vida pública de Jesus só durou um ano, e eles só mencionam uma Páscoa. No Templo, que deveria ser o lugar do culto ao Deus verdadeiro da Bíblia, o Deus de libertação, o Deus dos pobres e sofridos, Ele encontra um verdadeiro mercado, onde, no pátio externo, era possível comprar os animais para os sacrifícios e trocar a moeda, uma vez que a moeda corrente do país não era aceita no Templo. Quando atacava esse comércio, Jesus estava indo além da mera condenação de um abuso. Pois os animais e o câmbio eram necessários para o funcionamento do Templo. Como Jesus substituiu a purificação dos ritos judaicos no sinal das bodas de Caná, aqui Ele demonstra que o centro do culto judaico perdeu seu sentido. Pois a presença de Deus, antes achada no Templo, agora deturpado pela elite religiosa e política, doravante residirá em Jesus, o Filho de Deus encarnado. Ele cumpre as profecias de Jeremias e Zacarias que predisseram uma religião sem um templo que fosse nacionalista e explorador econômico do povo (Jeremias 7,11-14; Zacarias 14,20-21). João entende que o verdadeiro templo é o corpo de Jesus, que será ressuscitado em três dias. Ele usa de propósito o verbo “reerguer” em lugar do “reconstruir” dos Sinóticos (Mateus 26,61). As autoridades judaicas destruíram o sentido do Templo, abusando do povo economicamente, como também vão destruir o corpo de Jesus, matando-o; mas Jesus tem o poder de reerguer o verdadeiro Templo onde habita Deus, na ressurreição, depois de três dias. Mais uma vez, Jesus, por uma ação profética, desmascara a deturpação da religião por parte das autoridades de Jerusalém. Embora o Templo fosse muito bonito e imponente, com liturgias pomposas bem frequentadas, sua religião era vazia, pois escondia o rosto amoroso e misericordioso de Deus. As Igrejas sempre correm esse mesmo risco. Além da descarada exploração financeira de seus fiéis por parte de algumas seitas e pregadores (cuidemos para não generalizarmos aqui e evitemos que a mesma coisa aconteça em nossa Igreja!), aos poucos, muitas comunidades cristãs perderam sua dimensão profética de denúncia e anúncio, configurando-se ao mundo neoliberal de consumismo e gratificação emocional imediata, tornando o Evangelho uma mercadoria a ser vendida através de um marketing, que jamais pode questionar os valores da sociedade vigente. Como escreveu anos atrás o Frei Betto, a religião assim “Brilha sob as luzes da ribalta, trocando o silêncio pela histeria pública, a meditação pela emoção, a liturgia pela dança aeróbica. Na esfera católica, torna o produto mais palatável, destituindo-o de três fatores fundamentais na constituição da Igreja, mas inadequados ao mercado: a inserção dos fiéis em comunidades, a reflexão bíblico-teológica e o compromisso pastoral no serviço à justiça. As homilias se reduzem a breves exortações que não incomodam as consciências” (O Estado de São Paulo, 3-11-1999). Assim, o texto de hoje nos traz um alerta: Jesus não veio compactuar com uma religião exploradora, alienadora e aliada ao poder, mas para encarnar as opções do Deus Javé, libertador dos males e de toda exploração. Ele veio “para que todos tenham a vida e a vida em abundância” (João 10,10). Uma religião que abandona sua função profética é tão traidora quanto a religião decadente das elites do Templo. Nos últimos anos, as vozes dos papas Francisco e Bento XVI, do arcebispo Desmond Tutu, do Dalai Lama e de outros líderes religiosos soaram profeticamente ao redor do mundo, lembrando-nos de que a religião não se confina à sacristia, mas tem de levar à prática dos princípios do Reino, que recusa a legitimar o derramamento de sangue em troca de petróleo ou minérios. Aproveitemos o “tempo oportuno” que é a Quaresma para reavaliar a nossa prática religiosa, para que não caia na desgraça do Templo, de ser uma prática bonita, atraente e emocionante, mas vazia de sentido. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Pandemia: Vivat Brasil denuncia política de morte

A Vivat Brasil, entidade que reúne diversas congregações religiosas, entre as quais as missionárias servas do Espírito Santo (SSpS) e os missionários do Verbo Divino (SVD), divulgou a nota intitulada “Discriminação racial no Brasil no contexto da emergência covid-19”. O texto, assinado também por diversas outras instituições, denuncia o descaso dos poderes públicos em relação à contenção da covid-19. Segundo a mensagem, grupos minoritários têm sido os mais afetados, sofrendo com as mortes, o abandono por parte das autoridades e a falta de gêneros básicos.  O texto recorda que, a cada dez pessoas mortas no mundo, uma é brasileira. As entidades alertam que “há o empenho da União em favor da disseminação do vírus em território nacional” e uma estratégia de propaganda contra a saúde pública. A mensagem também destaca o caos na Região Amazônica, onde chegou mesmo a faltar oxigênio para os enfermos. Com base em estudos, chama a atenção para as disparidades nas mortes, vitimando mais analfabetos, negros e indígenas. Veja, a seguir, íntegra da nota. Discriminação racial no Brasil no contexto da emergência covid-19 Manaus e o Brasil estão se sufocando pela pandemia e pelo descaso do poder público A cada dez pessoas mortas por covid-19 no mundo, uma é do Brasil. Mais uma vez, o grito de socorro se faz mais alto na Amazônia, onde a onda de contaminação está desenhando cenários de indizível degradação e total desrespeito da dignidade humana.  A pandemia, alimentada por uma conduta política, econômica e social contraditória, negacionista, indiferente à dor, está amplificando as profundas desigualdades em nosso País.  Nossas organizações denunciam que a emergência de hoje deriva de escolhas políticas de ontem. A Lei de Teto de Gastos, por exemplo, dificulta o investimento público e contribui para o aumento das desigualdades, com a privatização de serviços essenciais para o desenvolvimento econômico, como o saneamento básico, educação e saúde. As populações mais afetadas por esta opção política são as pessoas negras e indígenas, fortalecendo assim o racismo estrutural de nossa sociedade.  Uma investigação da Faculdade de Saúde Pública da USP e da Conectas Direitos Humanos [1] mostra que a grande proliferação e as mortes por covid-19 não resultam apenas da incompetência ou da falta de condições econômicas e de estrutura pública de saúde. Este estudo indica que, sob o argumento da retomada da atividade econômica a qualquer custo, há o empenho da União em favor da disseminação do vírus em território nacional. A análise detalhada das decisões do governo, em relação à pandemia, revela uma estratégia de propaganda contra a saúde pública, um discurso político que mobiliza argumentos econômicos, ideológicos e morais. Faz-se amplo uso de notícias falsas e informações técnicas sem comprovação científica, com o propósito de desacreditar as autoridades sanitárias, enfraquecer a adesão popular às recomendações de saúde baseadas em evidências científicas e promover o ativismo político contra as medidas de saúde pública necessárias para conter o avanço da covid-19.  Outro estudo recente, publicado na revista científica The Lancet Respiratory Medicine, [2] mostra que a proporção geral de mortes hospitalares é maior entre pacientes analfabetos (63%), negros (43%) e indígenas (42%). As disparidades regionais também são marcantes. No Norte e no Nordeste, os índices de mortes hospitalares são de 50% e 48%, enquanto no Centro-Oeste, no Sudeste e no Sul, de 35%, 34% e 31%, respectivamente.  A orientação política do governo federal em relação à pandemia foi assumida pelos governos municipal de Manaus e do Estado do Amazonas. Há, portanto, responsabilidades compartilhadas entre as diferentes esferas de poder. Sob o argumento de “salvar a economia”, não ocorreram medidas efetivas para a conter a disseminação da covid-19 na Região Amazônica. O resultado desta firme opção pela economia foram os 945 óbitos por coronavírus em Manaus nos primeiros 20 dias de janeiro de 2021, quase a mesma quantidade do que a somatória de mortes por covid-19 entre agosto (início da segunda onda) e dezembro de 2020. A principal causa de tantas mortes foi a falta de oxigênio nos hospitais e a frágil estrutura hospitalar.  O pesquisador Jesem Orellana, do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia), afirma: “Isto parece ser parte de um projeto que muitos insistem em não enxergar e, neste caso, Manaus é o laboratório a céu aberto, onde todo tipo de negligência e barbaridade é possível, sem punição e qualquer ameaça à hegemonia dos responsáveis pela (não) gestão da epidemia nos mais diferentes níveis”.  Nossas organizações denunciam o descaso dos poderes públicos, na esfera federal, estadual e municipal, pelos fatos apresentados e exigem investigações em vista de toda possível responsabilização. Apoiam os mais de 60 pedidos de impeachment do Presidente da República, em particular pelos crimes de responsabilidades com respeito às políticas de saúde pública em tempo de pandemia. Também solicitam a atuação e denúncia da actores internacionais na Região Amazônica, ligados à Organização Mundial da Saúde (OMS), Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e à Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos (CNUDH) e outros mecanismos de direitos humanos das Nações Unidas, considerando que não há transparência nas informações e menos ainda confiança nas decisões tomadas pelas representações políticas em relação à contenção da covid-19.  28 de janeiro de 2021  Comissão Especial para a Ecologia Integral e Mineração da CNBB  Conselho Nacional de Igrejas Cristãs no Brasil (Conic)  Conselho Indigenista Missionário (Cimi)  Franciscans International  Fundação Luterana de Diaconia  Rede Eclesial Panamazônica (Repam-Brasil)  Rede Igrejas e Mineração  Serviço Interfranciscano de Justiça, Paz e Ecologia (Sinfrajupe) Articulação Comboniana de Direitos Humanos  Vivat International  Missionários da Sociedade Verbo Divino  Missionárias Servas do Espírito Santo  Congregação do Espírito Santo  Irmãs Missionárias do Espírito Santo – Espiritanas  Congregação das Irmãs da Santa Cruz  Missionários Combonianos do Coração de Jesus  Irmãs Missionárias Combonianas  Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeu – Scalabrinianas  Missionários Oblatos de Maria Imaculada  Congregação das Irmãzinhas da Assunção  Irmãs Adoradoras do Sangue de Cristo  Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus (grifos conforme o texto original) Notas: [1] Disponível em: https://www.conectas.org/wp/wp-content/uploads/2021/01/Boletim_Direitos-na-Pandemia_ed_10.pdf. Acesso em: 21 jan. 2021.  [2] O estudo analisou, entre fevereiro e agosto de 2020, 254.288 mil pacientes no Brasil, com idade média de 60 anos, internados

Diálogo: compromisso de amor

A Campanha da Fraternidade chegou para ajudar na consciência de que o diálogo é o único caminho possível para um compromisso de amor e fraternidade. Esse é um dos motivos de ser mais um projeto de campanha ecumênica. Ao chamar a atenção para a necessidade de aceitar plenamente as pessoas que são diferentes e ver, nas diferenças, a riqueza da família humana, convida a trilhar caminhos que redescubram a força e a beleza do diálogo como compromisso de realizações mais amorosas e humanas; afinal não é possível acreditar na diversidade e, ao mesmo tempo, discriminar e desrespeitar por diferenças étnicas, religiosas ou de gênero. Muito além de pensar, avaliar e identificar caminhos para a superação, pelo diálogo, das polarizações e violências, testemunhando a unidade na diversidade, compõem os objetivos da Campanha o engajamento em ações concretas de amor ao próximo, a conversão de uma cultura de ódio para uma cultura do amor, a convivência fraterna como experiência humana irrenunciável, em meio a diferentes crenças, ideologias e concepções, e em um mundo cada vez mais plural, e a partilhar de experiências concretas de diálogo e convívio fraterno. E quando falamos em experiências concretas de diálogo, vale a pena lembrar que ele é muito mais que uma conversa pontual. O diálogo é um estilo de vida É a capacidade de compreender o outro por sua forma de ver o mundo e compreender as coisas. Assim, quanto mais crescemos no diálogo como capacidade de escuta ativa, mais a paz se torna presente em nosso meio. Em um mundo de polarizações como lembramos acima, o diálogo pode ser o caminho para a construção desse lugar que buscamos. Jesus nos ensina a capacidade da escuta, da compreensão do outro, de forma empática. Ensina ainda que, no diálogo, não existem ganhadores, afinal seu objetivo é compreender uns aos outros, o que não deixa de ser também uma forma de amar o próximo. Mesmo nas diferenças, devemos buscar sempre o que nos une, o que nos conecta como família humana, e destruir os muros de separação. Para isso, faz-se necessário favorecer espaços para a vivência do diálogo, da diversidade, da união que gera necessariamente o respeito. O maior testemunho cristão e humano que podemos dar ao mundo é nossa capacidade de acolher a diversidade e possibilitar a união e o respeito para que, assim, possamos sempre celebrar a vida. Recuperar a nobre capacidade de dialogar diante de tantas fragmentações, quando parece que já não conseguimos mais escutar uns aos outros, é sim uma das formas de amar. Fazer a opção pelo diálogo significa recuperar em nós a nobre capacidade de um coração capaz de cuidar uns dos outros, por meio de uma escuta que dá ao outro a possibilidade de ser por inteiro. Muitas vezes, alguém mal começa uma conversa, e nós já estamos pensamos na resposta a ser dada, perdendo a oportunidade de compreender o outro a partir de um espírito cristão de entendimento, de sua história de vida, de como compreende o sentido da vida e o sentido do mundo. Cada uma das campanhas sinaliza que o diálogo é nosso melhor testemunho, e nossa fé anima-nos a prosseguir pelo caminho da unidade na diversidade. Oxalá, como discípulos de Jesus, aprendamos que só o diálogo com Jesus faz o coração arder; afinal, se o coração arde em chamas pelo projeto de Jesus, os pés partem em missão. ReferênciaCONIC/CNBB. Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021: texto-base. Brasília: Edições CNBB, 2020. Agostinho Travençolo Junior é educador e assessor da Dimensão Missionária da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo.

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