Vacinação: sinal de esperança

Uma simples palavra que atualmente tem um grande significado: esperança! O mundo clama por vacinas para que se estabeleça novamente uma vida normal. A ciência corre contra o tempo para que vacinas eficazes sejam desenvolvidas. Governos do mundo todo se mobilizam para que suas populações sejam vacinadas. Está claro que a solução para o caos estabelecido por uma pandemia mundial está na vacinação, mas, afinal, o que é uma vacina e quando surgiu? Em 1796, o médico inglês Edward Jenner, em meio a uma pandemia de varíola, observou que pessoas que já tinham sido contaminadas por uma doença chamada cowpox (varíola bovina), comum em vacas e muito semelhante à varíola nos humanos, tornavam-se imunes àquela doença. O dr. Edward extraiu o pus da mão de um ordenhador de vacas que havia contraído a cowpox e inoculou a substância em um menino saudável, James Phipps, de 8 anos. O menino contraiu a doença de forma branda e, em seguida, ficou curado. Naquele mesmo ano, ele extraiu o líquido de uma pústula humana contaminada por varíola e inoculou no menino James. Desta vez, o menino não contraiu a doença. Foi descoberta e comprovada a eficácia da primeira vacina. A palavra vacina tem origem no latim e significa “de vaca”, justamente pelo fato de que as primeiras observações e experimentos ocorreram com uma forma de varíola animal, ocorrida em vacas. Como funciona uma vacina? A vacina pode ser considerada uma forma de imunização ativa, ou seja, quando o próprio corpo produz os anticorpos que combaterão uma infecção. Baseia-se na introdução, no corpo de uma pessoa, do agente causador da doença (geralmente um vírus atenuado ou inativado) ou substâncias que esses agentes produzem, de modo a estimular a produção de anticorpos e células de memória pelo sistema imunológico. As vacinas são essenciais para “blindar” o organismo contra doenças que ameaçam a saúde, em todas as idades. Doenças altamente contagiosas, como a difteria, o tétano, a paralisia infantil, o sarampo, a caxumba e a rubéola, muito comuns no passado, e a covid-19 (doença recente), podem ser prevenidas por meio da vacinação. Quando começou a vacinação? A vacinação no Brasil teve início no Rio de Janeiro, em 1904, de maneira trágica. O médico sanitarista Oswaldo Cruz tornou obrigatória a vacinação para prevenir a varíola. Porém, a população, por falta de informações, protestou contra a obrigatoriedade do procedimento, desencadeando aquele que é conhecido com o maior motim da cidade, com um saldo de 30 mortos, 115 feridos e centenas de presos. Em 1973, o Brasil criou o Programa Nacional de Imunização (PNI). O País conseguiu, pela vacinação em massa, erradicar doenças como a varíola e a poliomielite. Atualmente, o PNI é o maior programa de vacinação pública do mundo, com 17 vacinas que protegem contra 20 doenças diferentes. O cenário atual é preocupante, pois, além dos problemas decorrentes da falta de vacinas para a prevenção da covid-19, também existe um movimento antivacinas que têm ganhado força devido à automedicação, estimulada principalmente pela internet, e pela circulação, nas redes sociais, de informações falsas sobre as vacinas. O resultado desses movimentos é uma queda expressiva da cobertura vacinal em todo País, fato comprovado pelo ressurgimento de doenças como o sarampo, que havia sido erradicada do Brasil. É importante se vacinar? A vacinação continua sendo a mais segura e eficaz forma de prevenir diversas doenças infectocontagiosas. É uma forma de prevenção individual e coletiva, pois protege não apenas quem a recebe, mas também a comunidade como um todo. Adultos e crianças, portanto, devem manter o cartão de vacinação sempre em dia. Afinal, vacinar é uma forma de demonstrar amor a si mesmo e ao próximo. Referências PONTE, Gabriella. Conheça a história das vacinas. Portal Fiocruz, Rio de Janeiro, 5 fev. 2020. Disponível em: Fiocruz SANTOS, Vanessa Sardinha dos. História da vacina. Brasil Escola, São Paulo. Disponível em:Brasil Escola Hélio Vilaça, professor de Química e coordenador de Ciências da Natureza no Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG.
Mulheres e ciência: uma parceria de longa data

Que a ciência é de suma importância para o desenvolvimento de qualquer sociedade, disso todos sabemos. E que a maioria de nós conhece pelo menos um nome de alguém importante nesse avanço, isso também é muito provável. Agora propomos um exercício: tente lembrar o nome de uma mulher que tenha uma posição de destaque na ciência. Se você não lembrou, fique tranquilo! Como a maior parte dos trabalhos que acabam tendo reconhecimento são aqueles liderados por homens, é comum que pensemos que as mulheres não são participantes ativas dessa área. Mas não se iluda! Exemplos não nos faltam. Temos Rosalind Franklin (1920-1958), que tem o título póstumo de “Mãe do DNA”, por ter descoberto o formato helicoidal da molécula; Marie Curie (1867-1934), pioneira nos estudos da radioatividade, foi a primeira mulher a ganhar um Prêmio Nobel e a primeira pessoa a conquistar por duas vezes essa premiação. Mais recentemente, Jaqueline de Jesus e Ester Sabino, que lideraram e sequenciaram o genoma do novo coronavírus. E esses são apenas alguns dos muitos exemplos de importantes mulheres que fizeram com que a ciência chegasse ao que conhecemos hoje. Por tudo isso, trouxemos a doutora Débora Ferreira Barreto Vieira, pesquisadora em Saúde Pública na Fundação Oswaldo Cruz, especialista em Virologia e doutora em Biologia Celular e Molecular, para responder às perguntas de alguns dos alunos da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo. Ela fala sobre sua carreira na ciência e a respeito de nosso cenário atual de saúde. Ao longo de sua caminhada até se tornar uma cientista, percebeu a presença do machismo em algum momento?Não! No decorrer de minha formação, as relações com os colegas foram sempre muito respeitosas. Dentro do cenário que estamos vivendo, você acha que o Brasil é capaz de dar conta de uma campanha de vacinação? Como você vê nosso futuro em relação à produção de vacinas?Sim! Temos um grande trunfo chamado SUS (Sistema Único de Saúde), que é modelo para todo o mundo e, dentro deste contexto, o PNI (Plano Nacional de Imunização), que mostra competência em nosso dia a dia, a exemplo das campanhas de vacinação para a poliomielite, sarampo e para tantos outros agravos. Estou bastante otimista! Temos no Brasil duas grandes referências em produção não só de vacinas como de fármacos, que é o Instituto Butantã (São Paulo) e a Fundação Oswaldo Cruz (Biomanguinhos/Rio de Janeiro). Obviamente que, no cenário atual, em que todo o mundo conflui para um só ponto, não estamos no “time” que gostaríamos. Com a transferência de tecnologia da vacina de Oxford para a Fiocruz e o IFA (ingrediente farmacêutico ativo) chegando dentro do cronograma preestabelecido, acredito que teremos um cenário mais positivo no segundo semestre deste ano. Em seu local de trabalho, você observa uma quantidade significativa de mulheres atuando?Sim! Temos muitas meninas e mulheres atuando no Campus da Fiocruz. Dos 71 laboratórios do Instituto Oswaldo Cruz, 45 são liderados por mulheres. Alguns desses laboratórios são de referência, a citar o Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo, que foi nomeado, em 2020, laboratório de referência da Organização Mundial da Saúde para a covid-19 nas Américas, que é chefiado, com maestria, pela doutora Marilda Siqueira. Em sua opinião, o que fez o movimento antivacina crescer nos últimos tempos?A desinformação, as fake news, as falas descabidas e a postura negacionista de chefes de Estado. Precisamos que grandes referências estejam à frente dos veículos de comunicação, informando à população. Precisamos de um diálogo consonante entre a ciência e a sociedade. Sendo cientista, acredita que a política interferiu diretamente na situação do Brasil?Sim! Não foram raras as cenas e falas negacionistas que presenciamos, vindas de importantes formadores de opinião. Corroboro a fala da cientista política Sara Wallace Goodman, da Universidade da Califórnia, quando diz “Em circunstâncias de alta desinformação e falta de informação, as pessoas observam os exemplos. Só podemos ser racionais se nossos líderes forem racionais”. Nós nos vimos numa disputa política pela primazia na aquisição dos imunizantes. Lamentável! Sua credibilidade já foi posta em dúvida por ser mulher?Não! Em algum momento, você se encontrou em um dilema entre ser mãe ou investir na carreira?Não! Tento equilibrar, da melhor maneira possível, essas duas delicadas esferas (maternidade e carreira). Quando as minhas filhas nasceram (sou mãe de trigêmeas), eu já tinha finalizado o doutorado e já era do quadro de servidores da Fundação Oswaldo Cruz. Qual foi a reação das pessoas quando você disse que queria ser cientista?Costumo dizer que eu sou reflexo da garra de minha mãe, Dona Maria José. Venho de uma realidade bastante humilde. Minha mãe só teve acesso a uma “cadeira escolar” depois dos 45 anos de idade. A frase que sempre reverberava nos quatro cantos da casa era: estudem para que a realidade de vocês (há mais uma cientista na família) seja diferente da minha. Imaginem a reação dessa mãe, pai, amigos! Mesmo sem entender direito todo o caminho que eu teria de trilhar, sempre tive muito apoio dos meus pais, que hoje são um orgulho só. Como você descobriu qual área da ciência queria estudar?Na verdade, não descobri a Virologia; fui, sim, tragada por ela. Em conversa com um professor do curso de Ciências Biológicas, relatei a minha frustração pelo fato de serem poucas as aulas práticas. Àquela altura, eu não me sentia preparada para o mercado de trabalho. E foi daí que tudo começou. Esse professor, que hoje é meu colega de profissão, apresentou-me ao Laboratório de Ultraestrutura Viral do Instituto Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz. Nesse laboratório, construí toda a minha trajetória científica, tive a oportunidade de ser orientada por grandes referências da área de Virologia e Ultraestrutura Viral, como a doutora Ortrud Monika Barth e o doutor Hermann Schatzmayr. Hoje tenho muito orgulho de liderar a equipe deste laboratório que me acolheu e que me deu a oportunidade de realizar todos os meus sonhos profissionais. Ao longo de toda a sua carreira profissional, vivenciar esse caos causado pela covid-19 foi seu maior desafio como cientista?Sem dúvida, este é o momento