Você é tolerante?

Para conscientizar sobre o respeito e à diversidade religiosa entre todos, foi instituída a data de 21 de janeiro como o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Para que todos os indivíduos possam ter um convívio pacífico, é preciso ser tolerante com a crença (ou não crença) do próximo. Maria Terezinha Corrêa partilha um artigo sobre o valor da coexistência em um país plural como o Brasil. Veja!

A paz depende também de nós

Ao ver tantas situações de sofrimento em nosso País e no mundo, tantas tragédias causadas pela natureza ou pela violência humana, conflitos e guerras em diferentes países, preconceito, fome, miséria, destruição da natureza, abusos de crianças, corrupção e todo tipo de crimes, sinto que estamos chegando ao limite. Muitas vezes, eu me pergunto: o que está acontecendo com nosso mundo? O que está acontecendo no coração do ser humano? Parece-me que estamos colhendo os frutos do ódio, da exploração, da ganância, da perda dos referenciais de fé e da falta de ética e cuidado com os seres humanos e com nosso planeta. Mas será que há alguma coisa que podemos fazer para reverter essa realidade? Com certeza, há, mas depende de cada ser humano, de cada pessoa fazer a sua parte. Num Universo onde tudo está interligado (cf. Laudato Si’), tudo o que acontece ao nosso redor influiu dentro de nós. Mas também o que acontece dentro de nós influiu no mundo a nosso redor. Por isso há uma grande variedade de pequenas ações que estão a nosso alcance e podem fazer uma grande diferença. Por exemplo, se queremos paz no mundo, podemos buscar a paz e a reconciliação dentro de nós e com as pessoas com quem nos desentendemos. Perdoar e pedir perdão pode ser o começo de uma grande transformação. Cultivar a serenidade de espírito, a harmonia, o acolhimento, a tolerância diante das outras pessoas pode transformar o ambiente de trabalho, diminuir o estresse e tornar a vida mais gratificante para mim e para os outros… A meditação e a oração têm o poder de criar o ambiente interior onde as mudanças do pensamento e das atitudes se tornam reais. Cultivar a raiva, o ódio, a crítica destrutiva, a reclamação vai gerar atitudes destrutivas, negativas que prejudicam a mim mesma e aos outros. Mas podemos mudar nossos pensamentos. Bons pensamentos geram bons sentimentos, os quais, por sua vez, levam a atitudes positivas que geram ações que constroem o bem comum. Acreditando nisso, convido você a rezar comigo esta oração, pedindo a Deus a graça da transformação deste mundo violento num mundo de paz, começando com a mudança do meu e do seu mundo interior, de tudo aquilo que ainda precisa ser pacificado e transformado em amor. Oração pela Paz Senhor, diante de ti, trazemos a dor da humanidade que luta e sofre em busca de paz. Trazemos a angústia das vítimas da violência, injustiças e opressão. Trazemos o desespero dos que perderam os entes queridos em situações de conflito. Trazemos também o nosso coração ferido, sedento de tua paz e de teu amor. Queremos, ó Deus, consagrar o dia de hoje à causa da paz, para que chegue o tempo em que todos os dias serão dias de paz. Dá-nos, Senhor, tua luz para construirmos a paz em nossos relacionamentos. Dá-nos, Senhor, tua paz, para aprendermos a acolher sem preconceitos e respeitar a dignidade de cada ser humano. Dá-nos, Senhor, tua paz, para reconhecermos, em cada pessoa, o nosso semelhante e, em toda a criação, o dom generoso de teu amor. Transforma a violência e a injustiça que habitam dentro de nós em dom do amor e compaixão que geram paz. Amém. Irmã Ana Elídia Caffer Neves, SSpSJornalista, membro da Equipe de Comunicação Congregacional e coordenadora de Comunicação da Província Stella Matutina (BRN)

Você acredita que tolerância tem limite?

O mundo comemora em 16 de novembro o Dia Internacional da tolerância. Esta é uma data que nós, missionárias, consideramos de extrema importância, principalmente para os tempos atuais onde o fundamentalismo religioso, a xenofobia, o terrorismo, o racismo, a marginalização e discriminação contra minorias e atos de violência e de intimidação cometidos contra pessoas que exercem sua liberdade de opinião e de expressão tem se acirrado. Mas o que é tolerância? A tolerância, segundo o dicionário online de significados, é o ato de suportar’” ou “aceitar”; agir com aceitação perante algo que não se quer ou que não se pode impedir. A tolerância é uma atitude fundamental para quem vive em sociedade. O apóstolo Paulo também nos pede em Efésios 4:2 “Sejam completamente humildes e dóceis, e sejam pacientes, suportando uns aos outros com amor”. Mas será que esta tolerância pode ser infinita? Não teria um limite? Acreditamos que sim. André Comte-Sponville, no livro “O Pequeno Tratado das Grandes Virtudes” (baixe aqui), afirma: “Ao contrário do amor ou da generosidade, que não têm limites intrínsecos nem outra finitude além da nossa, a tolerância é, pois, essencialmente limitada: uma tolerância infinita seria o fim da tolerância!”. “A tolerância infinita seria o fim da tolerância” é o que Karl Popper chama de “o paradoxo da tolerância”: “Se formos de uma tolerância absoluta, mesmo para com os intolerantes, e se não defendermos a sociedade tolerante contra seus assaltos, os tolerantes serão aniquilados, e com eles a tolerância”. Tolerar o sofrimento dos outros, tolerar a injustiça de que não somos vítimas, tolerar o horror que nos poupa não é mais tolerância: é egoísmo, é indiferença, ou pior. É ser conivente com o mal. Como então ser tolerante e não ser conivente com o erro? Como dizem, “o direito do outro termina onde começa o meu”. Pois bem, trazendo isto para um contexto mais específico, vemos na Justiça Restaurativa (já tratada AQUI no nosso blog), talvez, o exemplo máximo para o entendimento e desenvolvimento da tolerância como virtude. A Justiça restaurativa é uma prática para mediação de conflitos, busca do perdão e entendimento da responsabilidade dos atos. Criada na década de 70 e 80 nos Estados Unidos e Europa, o conceito e a filosofia de justiça restaurativa têm embasado programas sociais dedicados a cuidar das vítimas, dos ofensores e das comunidades, e têm orientado para a restauração de suas vidas e de sua interação social. A justiça restaurativa surge como contraposição à concepção tradicional da justiça criminal, a justiça punitiva-retributiva. Essa nova visão de justiça propõe um novo paradigma na definição de crime e dos objetivos da justiça. Nessa perspectiva, concebe-se o crime como violação à pessoa e às relações interpessoais, e o papel da justiça deve ser o de restauração dessas violações, ou seja, a reparação dos danos causados não somente à vítima, mas também à sociedade, ao ofensor e às relações interpessoais. Enquanto, em sentido contrário, a justiça punitiva-retributiva coloca o crime como um ato meramente violador da norma estatal, cabendo, como reação a essa conduta, a imposição de uma pena. Como funciona a justiça restaurativa? Um processo restaurativo procura dar assistência às necessidades e a recuperação da vítima, dando a oportunidade do ofensor e/ou qualquer indivíduo ou comunidade afetado pelo crime, de participar junto na resolução das questões envolvidas. O quadro abaixo mostra a diferença entre a proposta retributiva e a proposta restaurativa de justiça, demonstradas pelo esquema publicado por Highton, Alvarez e Gregório em ‘Resolución Alternativa de Disputas y Sistema Penal’. Justiça Punitiva-Retributiva Justiça Restaurativa Delito Infração da norma Conflito entre pessoas Responsabilidade Individual Individual e social Controle Sistema penal Sistema penal / Comunidade Protagonistas Infrator e o Estado Vítima , vitimário e comunidade Procedimento Adversarial Diálogo Finalidade Provar delitos Estabelecer culpas Aplicar castigos Resolver conflitos Assumir responsabilidades Reparar o dano Tempo Baseado no passado Baseado no futuro   O que acontece nesse processo? A vítima: Pode expor seus sentimentos e falar do dano sofrido, tem a oportunidade de fazer perguntas e contar o trauma que isto causou em sua vida. Também pode entender aspectos que levaram o ofensor a cometer o crime. O ofensor: Dá a possibilidade de conhecer o impacto de suas ações e de eventualmente seus atos e, a sua intenção, bem como o reconhecimento do erro. Quer aprender mais? Nossa irmã Petronella Maria Boonen, co-fundadora da linha de Perdão e Justiça Restaurativa do CDHEP, atualmente ministra cursos, oficinas e palestras sobre de Justiça Restaurativa, conflitos e habilidades emocionais para a área da socioeducação, área prisional, judicial e pastoral. Assista um vídeo no qual ele dá uma palestra sobre o tema no CHDEP Campo Limpo (http://cdhep.org.br/):

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