Terciato 2023 leva membros da Família Arnaldina aos lugares de origem

As missionárias servas do Espírito Santo (SSpS) e os missionários do Verbo Divino (SVD) participam, em Nemi (arredores de Roma, Itália) e Steyl (Holanda), do Curso de Terciato 2023. O evento tem como objetivo favorecer aos participantes um tempo especial para aprofundamento da vida religiosa missionária, experienciar a riqueza da vida comunitária intercultural e ajudar a criar abertura para os desafios no processo de transformação e renovação. O curso tem como cenário os lugares importantes na origem da família espiritual fundada por Santo Arnaldo Janssen. A proposta é favorecer às missionárias e aos missionários a conexão com suas raízes. Para irmã Zoleide Adriana Renosto, SSpS, o Curso de Terciato está sendo um momento enriquecedor, de graça, bênçãos e renovação, por ser um tempo de estudo e oportunidades. “O que estudamos em livros e que as irmãs nos contaram, hoje, estou aqui, vivendo interiormente essa graça de estar onde teve início nossa Congregação, por meio do sonho de Santo Arnaldo Janssen e das Bem-aventuradas Maria e Josefa. Momento único, especial.” Irmã Zoleide se diz agradecida à direção provincial Brasil-Sul por poder fazer a experiência, junto à Família Arnaldina, nos locais de origem dos fundadores, onde toda a história das congregações teve início. “É uma experiência muito boa de convivência, como família, numa caminhada de fé, renovação espiritual, humana, da missão. É um momento de muita emoção interior, de muita fé. Estar em Oies, onde nasceu São José Freinademetz, foi um momento muito marcante para mim. Toda a cidade fala de São José, tudo é dedicado a ele, é um grande missionário. A experiência me alimentou para buscar nele inspiração para ser uma boa serva do Espírito Santo na missão que Deus me confia”, declara. Para a Ir. Nely, é uma possibilidade de conivência muito intensa e tensa entre irmãos e irmãs, com base na mesma espiritualidade e carisma e, ao mesmo tempo, de muitas culturas diferentes. “Foi quase que um laboratório que, às vezes, evidenciou nossas próprias limitações e nos mostrou lugares que nos convidam a crescer e compreensões que convocam a alargar nossas possibilidades de convivência e nossa compreensão de missão”, relata. O curso, diz Ir. Nely, “foi uma oportunidade de aprofundar os lugares onde nossas congregações começaram e ver a compreensão da geração fundadora, irmãos e irmãs, com o elã que se lançaram e com uma meta absolutamente definida, que é preparar uma vida missionária e enviar pessoas em missão. Encanta-me muito a certeza com a qual eles fizeram isso, o que será uma inspiração para novas iniciativas na minha vida religiosa”. “Este foi o melhor presente que pude ganhar nos meus 25 anos de vida consagrada. Eu me sinto tão feliz que não tenho palavras para agradecer”, confessa Ir. Maria Aparecida Ricardo Ribeiro. “O Terciário oferece momentos fortes de vida comunitária e oportunidades de partilhas em grupo das alegrias e dificuldades encontradas na missão”, completa. Também, segundo ela, é um tempo para aprofundamento teórico, bíblico, dos documentos da Igreja, missionário, da história da Congregação e da vida dos fundadores. “Pude pisar onde pisaram os fundadores, um lugar abençoado. Estamos terminando o lindo retiro personalizado, e estou fazendo uma experiência maravilhosa.” Para a Ir. Juliana de Andrade, a convivência entre as congregações, a partilha da missão, o orar juntos, retomar o carisma desde suas origens são experiências que fortalecem e enriquecem a missão. “Abre o desejo e a possibilidade de maior cooperação em nossos trabalhos e na busca de respostas aos desafios atuais”, explica. “O Terciário” – explica Ir. Juliana – “significou um aprofundamento de nossas raízes, de minha identidade como SSpS, assim como abriu novos horizontes, me dando um novo gás para o dia a dia da missão. Só tenho a agradecer à Província e à Congregação por tão bela oportunidade.” Perfil dos participantes Participam do Terciato conjunto 33 pessoas de 17 nacionalidades, entre missionários do Verbo Divino e missionárias Servas do Espírito Santo. Têm a faixa etária entre 42 e 64 anos, com o mínimo de dez anos de votos perpétuos. Missionárias Servas do Espírito Santo A Congregação das Missionárias Servas do Espírito Santo foi fundada, em 8 de dezembro de 1889, por Santo Arnaldo Janssen e com a indispensável colaboração das Bem-aventuradas Maria Helena Stollenwerk (Madre Maria) e Hendrina Stenmanns (Madre Josefa), e outras jovens aspirantes. A missão no Brasil iniciou-se em Juiz de Fora-MG, em 20 de agosto de 1902. Hoje elas marcam presença missionária em 11 Estados. Rosa M. MartinsMestra em Jornalismo, Imagem e Entretenimento pela Fundação Cásper Líbero, licenciada em Filosofia pela Universidade Salesiana de Lorena (Unisal), bacharela em Teologia pela Pontifícia Universidade São Boaventura de Roma. É missionária scalabriniana e vive em Santo André-SP. Indicada ao Prêmio Tarso Genro de Jornalismo em 2020, foi vencedora do Prêmio Papa Francisco, categoria mestrado, do Prêmio CNBB de Comunicação com a dissertação “Menores estrangeiros não acompanhados: uma análise da representação no fotojornalismo italiano”, em 2021.

1º Domingo do Advento

“A libertação de vocês está próxima”Lucas 21,25-28.34-36 Neste primeiro domingo do ano litúrgico, Lucas nos mergulha em um dos discursos escatológicos de seu Evangelho. Assim, usa imagens e símbolos que não são de nossa cultura e época, e por isso nem sempre são fáceis de serem compreendidos pelos ouvintes de hoje. Porém, na literatura apocalíptica, não é necessário interpretar cada imagem detalhadamente. O mais importante não é cada pedra do mosaico, mas o padrão inteiro, não cada imagem e símbolo, mas sua mensagem de conjunto. O texto nos apresenta a figura do “Filho do Homem”, o título que os Evangelhos mais usam para Jesus e que nós pouco usamos. Esse título vem de um trecho do livro apocalíptico de Daniel: “Em imagens noturnas, tive esta visão: entre as nuvens do céu, vinha alguém como um filho de homem… Foi-lhe dado poder, glória e reino, e todos os povos, nações e línguas o serviram. O seu poder é um poder eterno, que nunca lhe será tirado. E o seu reino é tal que jamais será destruído” (Daniel 7,13s). Jesus recorda a seus discípulos a mensagem de ânimo que trazia o Livro de Daniel aos perseguidos do tempo dos Macabeus, pelo ano 175 a.C., que, embora possa parecer que os poderes deste mundo, os impérios opressores, sejam mais fortes do que o poder de Deus, isso não passa de uma ilusão. Pois, na plenitude dos tempos, Deus, por meio de seu Ungido (o Filho do Homem), revelará seu poder e estabelecerá um Reino que jamais será destruído. Isso acontece agora, em Jesus! Qualquer interpretação de um texto apocalíptico que bota medo nos ouvintes que sofrem as consequências do reino opressor de qualquer época é necessariamente errada, pois a função da literatura apocalíptica é animar e dar coragem aos oprimidos e sofredores. Por isso, o ponto central de nosso texto de hoje é uma mensagem de ânimo, coragem e fé: “Quando essas coisas começarem a acontecer, levantem-se e erguem a cabeça, porque a libertação de vocês está próxima” (vers. 28). Esse trecho tem uma dimensão fortemente cristológica. Ele nos afirma que Jesus, o Filho do Homem vitorioso, tem em seu controle todas as forças, sejam elas de guerra (vers. 9) ou do mar, símbolo de forças indomináveis na literatura judaica da época (vers. 25). O versículo acima citado traz uma mensagem cheia de confiança: em contraste com a atitude de covardia dos malvados (vers. 26), os discípulos ficarão com a cabeça erguida, para acolher o juiz justo, o Filho do Homem. Mesmo assim, os eleitos devem ficar atentos para não caírem. Devem cuidar muito para que “Os corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida” (vers. 34). Pois é fácil assumir as atitudes do mundo sem que notemos, a não ser que sejamos vigilantes. Por isso, o texto de hoje termina com um conselho válido também para os discípulos dos tempos modernos: “Fiquem atentos e rezem todo o tempo, a fim de terem força” (vers. 36). O Advento é tempo oportuno para que examinemos nossa vida para descobrir se realmente estamos atentos, o tempo todo, para não perdermos as manifestações da presença de Jesus no meio de nós. É tempo de nos dedicarmos mais à oração, para renovarmos nossas forças, para não cairmos na armadilha da “inatenção” no meio das preocupações e barulhos do mundo moderno, para que nossos corações continuem “sensíveis” aos apelos do Senhor, por meio dos irmãos e irmãs, em nosso dia a dia. O ano litúrgico que se inicia neste domingo usa, nos domingos comuns, o Evangelho de Lucas, o Evangelho da Misericórdia por excelência. Sejamos vigilantes para que a misericórdia seja característica de nossas relações e para que não caiamos nas ciladas de atitudes de violência, vingança e dureza de coração, típicas de nossa sociedade e tão propagadas pela mídia hoje. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Passos bíblicos da interculturalidade

A interculturalidade na Bíblia segue um caminho muito peculiar. Apresenta os processos de inclusão e exclusão, acolhida e repúdio, abertura e fechamento, mostrando, assim, uma íntima ligação com a vivência intercultural do mundo contemporâneo. O mundo bíblico era tão intercultural quanto o de hoje, onde se pode perceber tanto inúmeros bons exemplos de interculturalidade quanto de intolerância em relação a outras culturas. É evidente que o Antigo Testamento é uma coleção de livros agrupados conforme os temas: Pentateuco e proféticos, nos quais se encontram também os livros históricos e sapienciais. Já o Novo Testamento inicia-se com os Evangelhos, depois os Atos dos Apóstolos e diversas cartas, finalizando com o Apocalipse. Em ambas as partes, não há um único autor, mas a coletânea de livros é resultado de um longo processo redacional e de transmissão da tradição do povo de Israel. Para ser um texto vivo, no entanto, pressupõe-se um leitor, e a leitura é feita pessoalmente e também pelas diversas comunidades de fé. Por isso fundamental é que, para se compreender a interculturalidade na Bíblia, como aponta Walter Vogels (2015), dois aspectos devem ser examinados: o contexto intercultural da produção da Bíblia e o contexto intercultural de sua leitura. O Antigo Testamento conta a história da caminhada do povo de Israel, e o Novo Testamento apresenta o processo intercultural iniciado por Jesus, continuado eficientemente por Paulo e, posteriormente, pela comunidade apostólica. O missionário do Verbo Divino Roger Schroeder (2020) aponta que o Antigo e o Novo Testamento refletem como as pessoas viveram a experiência de Deus e expressaram sua fé e espiritualidade por meio de seu contexto cultural e histórico, conforme épocas distintas. Podem-se citar como exemplo o chamado e a resposta de Abraão e Sara; o êxodo pascal, a travessia do Mar Vermelho; os ensaios e bênçãos na peregrinação de fé no deserto; as proclamações dos profetas e a literatura sapiencial; a adoração no Templo e na sinagoga; a experiência religiosa de Simeão e Ana no Templo; o chamado e a resposta dos primeiros discípulos; o encontro transformador de Jesus com um cobrador de impostos, um centurião romano e uma mulher samaritana; a travessia de limites culturais em Atos dos Apóstolos; a vida cristã e os desafios entre as comunidades de Paulo. Assim, o caminho intercultural da Bíblia se torna uma inspiração para nossa caminhada como batizados, em direção à atividade missionária promovida por Jesus. Além disso, a Família Arnaldina tem o dever de seguir o caminho intercultural bíblico em nossos contextos da missão. Padre Joachim Andrade, SVDMissionário do Verbo Divino natural da Índia, atua no Brasil desde 1992. Tem pós-doutorado pela PUC-PR, doutorado em Ciências da Religião pela PUC-SP e mestrado em Antropologia Social pela UFPR. É professor na PUC-PR, no Studium Theologicum e na Faculdade Vicentina, membro da equipe interdisciplinar da CRB Nacional. Foi provincial do Brasil Sul de 2008 a 2013.

Família Arnaldina: as fundações em datas marianas e a espiritualidade de Santo Arnaldo

A segunda metade do século XIX foi uma época turbulenta em toda a Europa: o auge do nacionalismo, colonialismo e imperialismo europeu, movimento operário, Revolução Industrial, novas descobertas, etc. Ao mesmo tempo, contudo, foi uma era de entusiasmo missionário. Naquele contexto de convulsão social, Santo Arnaldo Janssen reconheceu os sinais dos tempos e, por meio de sua obra missionária, buscou fazer a vontade de Deus. Ele foi um homem consciente das necessidades espirituais do povo de seu tempo. Mesmo que muitas pessoas abandonassem a fé católica, Santo Arnaldo Janssen queria plantar no coração do povo a semente da Palavra ou do Verbo Divino, fortalecer-lhe a fé e motivá-lo para a oração e a obra missionária. Também nessa época, as coisas eram difíceis na Alemanha. Bismarck havia declarado a Kulturkampf, que proibia as atividades missionárias no País. Porém o zelo missionário continuou ardendo no coração do Fundador e, com a ajuda de alguns bispos, Arnaldo inaugurou, em 8 de setembro de 1875, em Steyl, Holanda, a Casa Missionária ou o Centro de Formação e Missão. Essa data é considerada o dia da fundação da Congregação do Verbo Divino (SVD). Ele sempre dizia aos voluntários da Casa Missionária que o Senhor desafia nossa fé e nos incentiva a fazer algo novo para as missões. Para Arnaldo, assumir compromisso missionário era parte integrante da identidade verbita e despertava no coração dos novos missionários o mandamento do próprio Cristo, de ir e fazer discípulos entre todas as nações (cf. Mateus 28,19). Por isso, hoje, nossa Congregação está presente em mais de 70 países e ela tem caráter internacional e intercultural. Desde o começo, na Casa Missionária, entre os voluntários homens, havia também um grupo de mulheres que se dedicava ao serviço missionário da comunidade. Elas desejavam servir à evangelização como religiosas. Santo Arnaldo observou e reconheceu nelas a presença de um verdadeiro espírito missionário e aprendeu que a mulher tem um papel importante a desempenhar no anúncio do Reino de Deus. Assim, em 8 de dezembro de 1889, fundou a Congregação Missionária das Servas do Espírito Santo (SSpS). E em 1896, também em 8 de dezembro, escolheu algumas irmãs para formar o ramo contemplativo, conhecido como Congregação Missionária das Servas do Espírito Santo da Adoração Perpétua (SSpSAP). Esta deve rezar, dia e noite, pela Igreja e pelas obras missionárias das duas congregações: SVD e SSpS, dedicadas ao serviço missionário ativo. É interessante observar que Santo Arnaldo Janssen escolheu a data de fundação das três congregações em dias de festas de Nossa Senhora. Certamente ele teve suas razões. Em 8 de setembro, celebramos a Festa da Natividade de Nossa Senhora; e, em 8 de dezembro, a Solenidade da Imaculada Conceição de Maria. A família do Santo Arnaldo Janssen era sustentada por uma fé sólida e fidelidade ao Senhor. Geraldo Janssen, o pai do Fundador, mostrava grande amor pela missa dominical. A mãe, Ana Catarina, era uma mulher de oração contínua e também participava de todas as missas aos domingos. Sabemos que toda mãe, por graça de Deus, tem um pouco de Maria, que viveu por excelência o exercício da maternidade quando aceitou o convite do Pai a ser mãe do Filho de Deus, o Verbo Divino. E assim, a oração da família e, de maneira muito particular, a oração de sua mãe tiveram um profundo significado na vida de Santo Arnaldo Janssen. Ele recebeu da mãe uma boa educação na fé e, naquele ambiente familiar, mostrou grande devoção ao Sagrado Coração de Jesus, a Deus Uno e Trino, e ao Espírito Santo. Hoje, a Família Arnaldina (SVD, SSpS, SSpSAP e grupos de leigos) continua vivendo essa espiritualidade trinitária misericordiosa, legado da devoção da família de Santo Arnaldo. O Fundador sabia que a oração de sua mãe era uma grande força para a caminhada da própria família, por isso escolheu essas datas festivas marianas na esperança de receber a força e a proteção que vêm pela oração da Mãe de Jesus. O Verbo Divino se encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria e se fez homem na pessoa de Jesus, e Maria cuidou do menino Jesus com amor e carinho. No começo, as obras missionárias dessas três congregações precisavam de uma ajuda maior e de força espiritual. Na certeza de que tal como Maria cuidou do Menino Jesus, Ela certamente cuidaria de sua família missionária, o Fundador criou e confiou à proteção de Nossa Senhora as três congregações. No dia 8 de setembro de 2021, a Congregação do Verbo Divino completa 146 anos de sua fundação. Seguindo o carisma, o exemplo e os passos de Santo Arnaldo Janssen, a Família Arnaldina, formada de consagrados, consagrados, leigos e leigas, continua anunciando, pelas obras missionárias no mundo inteiro, a Palavra de Deus e os valores do Reino. Pe. Jwakim Ekka, SVDMissionário do Verbo Divino na Província Brasil Norte e vigário na Paróquia Nossa Senhora da Conceição, Porto Real do Colégio-AL.

Solenidade da Ascensão do Senhor

“Vão pelo mundo inteiro e anunciem a Boa Notícia para toda a humanidade”Marcos 16,15-20 O texto de Marcos (16,9-20), que contém o fim desse Evangelho, interrompe o fio da narração precedente. É muito diferente em estilo e vocabulário do resto do Evangelho e está ausente dos melhores e mais antigos manuscritos. Por isso, normalmente está designado nas nossas bíblias como “Apêndice”, provavelmente escrito no segundo século e baseado sobretudo no capítulo 24 de Lucas, com alguma adição de João 20 e com referências de fatos narrados nos Atos dos Apóstolos. Embora não acrescente nada de novo para uma melhor compreensão de Jesus e dos acontecimentos pós-pascais, traz elementos muito importantes para a vida da Igreja hoje. Destaca-se muito o mandamento missionário de Jesus, o de levar a Boa-Nova para toda a humanidade (Mateus 28,18-20). A Igreja é, por sua natureza, missionária, e uma Igreja que descuidasse desse mandado estaria traindo sua identidade. Porém se faz necessário distinguir entre “missão” e “proselitismo”. Igrejas proselitistas têm como meta angariar para si fiéis de outras igrejas. Giram ao redor de si mesmas, identificando sua Igreja institucional com o Reino de Deus. Uma Igreja missionária tem como objetivo levar a Boa-Nova do Reino para todas as culturas e religiões, respeitando-as, sendo testemunha dos valores do Reino de Deus e ajudando a pessoas de boa vontade a descobrirem a presença do Reino (e do antirreino) em suas próprias culturas e tradições religiosas. Um aprofundamento desse mandado vai nos fazer lembrar que nós não somos donos da missão. A missão é do próprio Deus, cujo Filho Jesus foi o primeiro missionário da Trindade. Ele deixou uma comunidade de discípulos e discípulas para continuar sua missão da implantação do Reino de Deus, e nós somos herdeiros dessa missão. A serviço dela existem diversos carismas, ou dons do Espírito Santo, para o bem de todos. Mas ninguém está dispensado dessa tarefa missionária, fechando-se em sua própria comunidade, movimento ou Igreja; pelo contrário, devemos sentir-nos unidos aos irmãos e irmãs do mundo todo, e comprometidos com a construção da sociedade justa e solidária que será uma concretização da Boa-Nova do Reino de Deus. O objetivo da missão, a longo prazo, é reunir a humanidade inteira no Reino de Deus (que ultrapassa as fronteiras da Igreja visível). Nós o fazemos pela proclamação explícita da Boa-Nova e no estabelecimento de um diálogo respeitoso com membros de outras tradições religiosas, convidando homens a mulheres a pertencer a uma comunidade de testemunho e serviço, e levando a cada ser humano a missão divina de uma salvação integral. O texto explicita alguns elementos importantes nessa atividade missionária: “expulsão de demônios”: expulsando da convivência humana os sinais do mal, do antirreino, que escraviza e oprime milhões de pessoas, por meio de estruturas econômicas, sociais e até religiosas de exclusão; “falando línguas”: como em Pentecostes, criando uma língua do diálogo e respeito, a linguagem do amor, justiça e solidariedade; “vencendo veneno”: superando tanto o veneno semeado durante milênios na convivência humana, expressado pelo racismo, machismo, clericalismo e todos os “ismos” que excluem e nos dividem; “curando doentes”: lutando, na prática, para que “todos tenham a vida e a tenham plenamente” (João 10,10), como fez Jesus, não somente fazendo curas individuais, mas restaurando a saúde integral, das pessoas e da Criação, mediante a vivência comunitária e individual do projeto de Jesus. Seria trágica se esses elementos ficassem reduzidos à busca de “milagres” duvidosos, à falação de supostas “línguas dos anjos” e à satanização de tudo, confundindo expressões de desequilíbrio emocional com a presença diabólica. Durante séculos, muitas vezes, os cristãos do Brasil (e de muitas outras regiões) têm se acomodado com a vivência de uma religião individualista, acomodada e frequentemente alienada dos problemas do mundo. Vivíamos uma separação artificial entre o mundo e o espiritual, entre a prática religiosa e a transformação social. O mandado de semearmos a Boa-Nova do Reino nos ajuda para que sejamos mais fiéis a Jesus, não somente à sua pessoa, mas também à sua prática e mensagem, levando a Boa Notícia do Reino a toda a humanidade. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

4º Domingo da Páscoa

“O bom pastor se despoja da própria vida por suas ovelhas”João 10,11-18 Hoje é o dia Mundial de Oração pelas Vocações, ou “Domingo do Bom Pastor”. O texto de hoje nos demonstra a compreensão que a comunidade do Discípulo Amado tinha da paixão, morte e ressurreição de Jesus. A imagem escolhida é a do “pastor”, uma imagem muito usada nos escritos do Antigo Testamento (Salmo 40,11; Ezequiel 34,15; 37,24; Eclesiástico 18,13; Zacarias 11,17, etc.). Algumas vezes, é aplicada ao próprio Deus (Salmo 23,1; Isaías 40,11; Jeremias 31,9); outras, ao futuro rei messiânico (Salmo 78,70-72; Ezequiel 37,24); e outras, aos líderes político-religiosos de Israel (Jeremias 2,8; 10,21; 23,1-8; Ezequiel 34). Também os evangelistas sinóticos usaram-na bastante (Marcos 6,34; 14,27; Mateus 9,36; 18,12-13; 25,32; 26,31; Lucas 15,3-7). Jesus é realmente pastor, pois Ele, o Filho do Homem, participa da condição humana, inclusive da morte, para nos conduzir à vida eterna. A palavra grega aqui usada para “bom”, “kalos”, significa “ideal” ou “nobre”, e não somente eficiência em sua função. Assim é Jesus, pois livremente despoja-se de sua própria vida para salvar a vida do seu rebanho. O texto contrasta a ação de Jesus com a atuação dos pastores mercenários, que não defendem o rebanho, mas somente cuidam dos próprios interesses. Aqui o texto está enraizado na tradição profética de Ezequiel (capítulo 34, o qual vale a pena ler) que condenava os “maus pastores” do povo de Deus: os líderes religiosos e políticos de seu tempo (antes do Exílio e nos anos entre a primeira deportação para Babilônia e a destruição de Jerusalém, em 587 a.C.), que somente exploravam o povo para o seu próprio proveito, abandonando-o nas horas de maior necessidade. Quanta coisa do tempo de Ezequiel e de Jesus pode ser aplicada quase que diretamente a muitos líderes políticos (e, às vezes, religiosos) de nossos tempos. O trecho destaca o verbo “conhecer”: Jesus conhece suas ovelhas como conhece o Pai e é conhecido pelo Pai. “Conhecer”, na linguagem bíblica, não significa um saber intelectual, mas implica um relacionamento íntimo de amor e solidariedade. O conhecimento que Jesus tem de seus discípulos nasce e se plenifica no amor que existe entre o Pai e o Filho. Não é um amor só de emoções ou sentimentos, mas um amor exigente, de assumir o outro até o ponto de doar a vida. Assim, a morte na Cruz (assumida livremente por Jesus) é a expressão suprema desse amor. O amor não pode se restringir aos irmãos e irmãs da comunidade. A utopia proposta por Jesus é da união entre todos “os seus”. Aqui, talvez haja uma referência às outras comunidades não joaninas do tempo do escrito, mas também podemos aplicar o texto à missão universal da Igreja: a de colaborar na realização do Reino de Deus, pois todos os povos do mundo, sem distinção de raça, cor, cultura ou religião, são misteriosamente ligados a Jesus, morto e ressuscitado. Não devemos imaginar esse sonho como um crescimento da Igreja visível até que toda a humanidade faça parte dela, mas muito mais como a realização do pedido do Pai-nosso, “Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu”, em que se procura o bem, a justiça e a fraternidade, mesmo fora da Igreja visível, onde se realiza o Reino, ou Reinado, de Deus. Como seguidores do Bom Pastor, também somos convidados à vivência desse mesmo amor que exige o despojo da própria vida. Isso não implica necessariamente a morte física, mas a morte ao egoísmo e a todos os “ismos” que nos dividem, seja por causa do gênero, raça, cor, classe ou cultura. Onde há luta em defesa da vida, lá existe a missão do Bom Pastor. Ele que veio “para que todos tenham a vida e a tenham plenamente!” (João 10,10). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

2º Domingo da Páscoa

“A paz esteja com vocês!”João 20,19-31 No texto do Domingo da Páscoa, Maria Madalena trouxe aos discípulos incrédulos a notícia da Ressurreição. Agora é o próprio Jesus que aparece a eles. Não há reprovação nem queixa em suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles, mas somente a alegria e a paz, que já tinha prometido no último discurso. Por duas vezes, Jesus proclama seu desejo para a comunidade de seus discípulos: “A paz esteja com vocês”. O tema da paz, do shalom, é importante na vida de Jesus. No Discurso de Despedida, na tradição da comunidade do Discípulo Amado, no contexto de uma certa angústia humana e da insegurança, junto como a promessa do dom do Paráclito, Jesus deixa com os seus o grande dom da paz: “Eu deixo para vocês a paz, eu lhes dou a minha paz. A paz que eu dou para vocês não é a paz que o mundo dá” (João 14,27). Ele teria usado a palavra tradicional dos judeus para a paz: “Shalom”. É uma paz baseada na vinda do Espírito, que será atualizada no texto de hoje: “A paz esteja com vocês! Recebam o Espírito Santo” (João 20,21-22). Enfatiza que não é a paz como o mundo a entende; muitas vezes, simplesmente como a ausência de briga ou até com repressão policial. Frequentemente, a paz que o mundo dá é aquela falsa, que depende da força das armas para reprimir as legítimas aspirações do povo sofrido, como tantos países experimentaram e continuam a experimentar hoje, durante as ditaduras da direita e da esquerda. O shalom é tudo o que o Pai quer para seu povo. Inclui tudo o que é necessário para uma vida digna: saúde, escolaridade, lazer, lar, moradia, emprego, etc. Só existe quando reina o projeto de vida de Deus. Implica a satisfação de todas as necessidades básicas da pessoa humana, da libertação da humanidade do pecado e de suas consequências. O shalom dos discípulos não pode ser perturbado pelo fato da partida de Jesus, pois é pela volta do Filho para o Pai que o shalom vai se instalar. O shalom, a verdadeira paz, é um dom de Deus, mas também um desafio para nós, seus discípulos e discípulas. Pede a colaboração humana! Diante de tantas barbaridades hoje, de tanta violência no campo, da exploração do latifúndio, do tráfico de drogas e das pessoas, da impunidade, qual deve ser a atitude do cristão? Se nós acreditamos no shalom, nunca podemos compactuar com sistemas repressivos ou elitistas que tiram da maioria (ou mesmo de uma minoria) os direitos básicos que pertencem a todos os filhos de Deus. Às vezes, esse shalom convive ao lado do sofrimento e perseguição por causa do Reino, mas quem experimenta na intimidade a presença da Trindade também experimenta a verdade da frase de Jesus: “Não fiquem perturbados nem tenham medo” (João 14,27), pois disse Ele: “Eu venci o mundo” (João 16,33). Frequentemente, uma leitura fundamentalista do Evangelho, fortemente influenciada por ideologias da direita, insistia que Jesus veio trazer a “paz”, entendido como “ordem e progresso”, na visão positivista das elites dominantes. Mas o próprio texto do Evangelho indica que esse tipo de paz estava longe da mente de Jesus. Ele mesmo diz, com todas as letras, em Mateus (10,34): “Não pensem que eu vim trazer paz à terra; eu não vim trazer a paz, e sim a espada”. Obviamente, Jesus não diz que veio trazer a violência, pelo contrário, veio desmascarar uma paz imposta pela força, com base ideológica numa falsa imagem de Deus, e que essa ação profética dele revelaria as divisões já existentes na sociedade, nas religiões, no coração das pessoas. Pois sua prática e pregação exigiram uma tomada de posição diante da violência, ostensiva ou ocultada. A não violência não é sinônima de não ação. Pelo contrário, levou Jesus a lançar-se em uma vida dedicada aos valores do Reino, entre os quais o shalom tinha lugar premente. Por isso, por uma aliança de poderes religiosos, políticos, judiciais e econômicos, Ele foi morto pelos interesses ameaçados por essa pregação do verdadeiro shalom. Por isso devemos sempre “fazer a memória de Jesus”, de sua pessoa e de seu projeto, para que tenhamos critérios certos para verificar a presença (ou ausência) do shalom em nossa sociedade e nos comprometermos com a criação do mundo mais justo que Deus quer. O Reino de Deus não é algo escrito em uma tábua rasa. Já existe a força contrária, a do antirreino. Assim também o shalom não nasce em um vácuo, cria-se em oposição à realidade dura da violência, mesmo quando disfarçada como paz. Por isso será sempre conflituoso, pois inevitavelmente provocará a reação dos que oprimem e violentam. A dedicação a ele exigirá uma mística profunda. Uma vida dedicada à construção do shalom tem como fundamento uma profunda experiência de Deus. A luta pela paz, pelos oprimidos, por um mundo de igualdade e solidariedade para nós cristãos não pode nascer de uma simples análise de conjuntura, nem de uma indignação ética, por tão necessárias que esses elementos possam ser. A inspiração última de nossa luta pelo shalom tem de ser enraizada em nossa fé, por ser coerente com o Deus em que nós acreditamos, o Deus que vê a miséria do seu povo, vítima da violência, que ouve o seu clamor em favor da verdadeira paz, que conhece os seus sofrimentos, e que desce para libertá-lo de todas as formas da violência que atentam contra a vida (cf. Êxodo 3,7-10). É coerência com o seguimento de Jesus, o Verbo Divino que se fez carne e armou sua tenda no meio de nós (João 1,1.14), vindo para que todos tenham a vida e a tenham plenamente (João 10,10). Por isso devemos ouvir de novo a voz profética de Jesus, que conclama todos nós à conversão: “Convertam-se e acreditem na Boa Notícia” (Marcos 1,14). As raízes da violência, do antirreino estão dentro de todos nós, como indivíduos e comunidade. Quando compactuamos com qualquer discriminação, quando defendemos a violência contra

Domingo da Páscoa

“Ele viu e acreditou”João 20,1-9 Os quatro evangelhos relatam os acontecimentos do dia da ressurreição, cada um de acordo com suas tradições. Certos elementos são comuns a todos: o fato do túmulo vazio, de que as primeiras testemunhas eram as mulheres (embora divirjam quanto a seu número e identidade, e o motivo de sua ida ao túmulo – para ungir o corpo ou para vigiar e lamentar) e que uma delas era Maria Madalena. Podemos tirar disso a conclusão de que as mulheres tinham lugar muito importante entre o grupo dos discípulos de Jesus e que elas eram mais fiéis do que os homens, seguindo Jesus até a Cruz e além dela. Infelizmente, outras gerações fizeram questão de diminuir a importância das discípulas na tradição (e a Igreja sofre até hoje as consequências). Lendo os relatos, um fato salta aos olhos: ninguém esperava a ressurreição. Para os discípulos, a Cruz era o fim da esperança, a maior desilusão possível. Se somarmos a isso o fato de que todos eles traíram Jesus (ou por dinheiro, ou por covardia), podemos imaginar o ambiente pesado entre eles na manhã do domingo. Nesse meio, chega Maria Madalena com a notícia de que o túmulo estava vazio (e ela, naturalmente, pensa que o corpo tinha sido roubado). Ressurreição… Nem pensar! Em nosso texto, Pedro (que tem um papel importante nos textos pós-ressurrecionais) e o Discípulo Amado (anônimo) correm até o túmulo. A passagem deixa entrever a tensão histórica que existia entre a comunidade do Discípulo Amado e a comunidade apostólica (representada por Pedro). Pois o Discípulo Amado espera por Pedro (reconhece a sua primazia), mas, enquanto Pedro vê sem acreditar, o Discípulo Amado acredita. No Quarto Evangelho, Pedro só realmente vai conseguir amar Jesus no capítulo 21, enquanto o Discípulo Amado é o tal desde capítulo 13. Só quem olha com os olhos do coração, do amor penetra além das aparências. Como em Lucas 24, na história dos Discípulos de Emaús, o texto demonstra que nossa fé não está baseada no fato de um túmulo vazio. Não é o túmulo vazio que fundamenta a nossa fé na Ressurreição, mas o contrário: é a experiência da presença de Jesus Ressuscitado que explica por que o túmulo está vazio. Cuidemos de não procurar bases falsas para nossa fé no Ressuscitado! Hoje em dia, quando olhamos para o mundo a nosso redor, é fácil não acreditar na vitória da vida sobre a morte. Há tanto sofrimento e injustiça: guerra, violência, corrupção endêmica, miséria, a saúde e a educação sucateadas. Só uma experiência profunda da presença de Jesus libertador no meio da comunidade poderá nos sustentar na luta por um mundo melhor, com fé na vitória final do bem sobre o mal, da luz sobre as trevas, da graça sobre o pecado. Nós todos somos discípulos, discípulas amados e amadas, pois “nada nos separa do amor e Deus em Jesus Cristo” (Romanos 8), mas será que somos discípulos “amantes”? Realmente amamos Jesus e o próximo? Lembramos que o “ágape”, o amor proposto pelo Evangelho, não é um sentimento, mas uma atitude de vida, de solidariedade, de partilha, de justiça. “O amor consiste no seguinte: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou, e nos enviou o seu Filho como vítima expiatória por nossos pecados. Se Deus nos amou a tal ponto, também nós devemos amar-nos uns aos outros” (1 João 4,10-11). Que a mensagem da Ressurreição, da vitória da vida sobre a morte, nos anime e dê força todos os dias de nossa vida, mas especialmente quando a Cruz pesar muito. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

5º Domingo da Quaresma

“Se alguém quer servir a mim, que me siga!”João 12,20-33 O texto de hoje traz muitos elementos que têm eco nos textos sinóticos. Até uma leitura rápida vai trazer lembranças de seus textos sobre o seguimento de Jesus; por exemplo, Lucas (9,22-25): “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e me siga”, entre outros. João faz uma redação conforme sua teologia e enfatiza que o seguimento de Jesus se dá no serviço a ele, ou seja, na luta em favor de seu projeto. Todo o Evangelho de João manifesta que o serviço a Jesus se dá no serviço aos irmãos e irmãs. Não é possível servir Jesus sem se colocar a serviço dos outros, especialmente dos mais sofridos. Pois o projeto de Jesus de fidelidade ao Pai vai custar-lhe a vida, Ele será como o grão do trigo que, se não cai na terra e não morre, fica sozinho; “mas, se morrer, produz muito fruto” (vers. 24). Não que Jesus quisesse a morte e o sofrimento, mas são inerentes no seguimento do projeto do Pai, por causa da oposição garantida de grupos de interesse da sociedade do seu (e do nosso) tempo, e, apesar das aparências, não levam à derrota, mas à vitória. Jesus não veio para ser triunfalista, mas para dar a vida em favor de todos. Essa visão que Jesus tinha da missão do Messias não era a comum. Em geral, as pessoas daquele tempo esperavam um messias triunfante, glorioso e guerreiro. A Bíblia nos conta que Deus criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança; mas, na verdade, muitas vezes, nós criamos Deus à nossa imagem e semelhança, para que Ele não nos incomode. A nossa tendência é de querer vencer e nos impor, de seguir um messias triunfante e não o Servo Sofredor. Mas, para Jesus, não há meio-termo. O discípulo tem de andar nas pegadas de seu mestre: “Se alguém quer servir a mim, que me siga” (vers. 26). O seguimento de Jesus leva à cruz, pois a vivência das atitudes e opções dele vai nos colocar em conflito com os poderes contrários ao Evangelho. Mas é importante compreender o sentido de “carregar a cruz”. Não é aguentar qualquer sofrimento. Se fosse assim, a religião seria masoquismo! Carregar a cruz é viver as consequências de uma vida coerente com o projeto do Pai, manifestado em Jesus. Segui-lo não é tanto fazer o que Jesus fazia em sua época e situação social e cultural, mas o que Ele faria se estivesse aqui hoje, diante dos desafios de nossa sociedade, convivência e situação concreta. Isso o levou a ser assassinado, não pelo povo, mas por grupos de interesse bem claros, “os anciãos, os chefes dos sacerdotes e os doutores da Lei” (a elite dominante em termos econômicos, religiosos e ideológicos), e, do mesmo jeito, seus seguidores entrarão em conflito com os grupos que hoje representam os mesmos interesses dos oponentes de Jesus, sejam eles sociopolíticos, econômicos ou religiosos (normalmente tudo vem misturado!). Por isso, sempre haverá a tentação de criarmos um Jesus “light”, sem grandes exigências, limitado a uma religião intimista e individualista, sem consequências sociais, políticas, econômicas ou ideológicas. Seria cair na tentação de Pedro, conforme o relato sinótico, quando rejeita o seguimento de um Messias que dará sua vida (Marcos 8,32). Mas que Jesus queremos seguir? A resposta se dará não tanto com os lábios, mas com as mãos e os pés. Respondemos quem é Jesus para nós por nossa maneira de viver, por nossas opções concretas, por nossa maneira de ler os acontecimentos da vida e da história. Tenhamos cuidado com qualquer Jesus que não seja exigente, que não traz consequências sociais, que não nos engaja na luta por uma sociedade mais justa. Há pouco tempo, fiquei triste ao ouvir uma senhora que tinha deixado a Igreja Católica para aderir a uma Igreja da teologia de prosperidade (na verdade, uma empresa multinacional) e exclamar “Agora achei o Jesus que eu queria”. Sem dúvida, o Jesus que ela queria, mas não o Jesus real! Pois o Jesus real, Jesus de Nazaré, o Jesus do Evangelho, não foi assim e deixou bem claro: “Quem tem apego à sua vida vai perdê-la; quem despreza sua vida neste mundo vai conservá-la para a vida eterna” (vers. 25). É claro que aqui se usa um semitismo (o contraste com o “apegar-se” é expresso no verbo “desprezar”, o que significa “amar menos”). Essa opção é difícil. Embora João não relate a agonia no Horto, ele expressa a mesma realidade quando Jesus diz “Estou perturbado” (vers. 27). Mas o Pai lhe deu força, como dará a quem faz a opção real pelo Reino, no seguimento de Jesus, no serviço aos irmãos e irmãs, na construção de uma sociedade, Igreja e comunidade sem exclusões, onde todos tenham a possibilidade de ter a dignidade e vida plena dos filhos e filhas de Deus e de cidadãos da sociedade. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

4º Domingo da Quaresma

“Deus enviou o seu Filho ao mundo não para julgá-lo, mas para que seja salvo por ele”João 3,14-21 Podemos dizer que o texto de hoje inclui uns versículos (16 a 21) que podem ser entendidos como resumo de todo o Evangelho de João. Inclui também muitas referências ao Antigo Testamento e ao pensamento judaico da época. Inicia-se com a primeira de três frases em João sobre o “levantar” do Filho do Homem, aqui usando paralelismo com a serpente de bronze de Números (21,1-9). O termo “levantado” refere-se tanto ao ser elevado na Cruz como ao ser levantado aos céus. A Cruz é o primeiro passo na volta de Jesus ao Pai. A parte central do texto insiste no infinito amor do Pai pelo mundo. Mais uma vez, cumpre reconhecer que o termo “mundo” tem diversos sentidos em João. Muitas vezes, refere-se às forças opostas a Jesus, e, portanto, tem uma conotação altamente negativa. Aqui se refere à criação de Deus, o universo, com uma conotação positiva. Infelizmente, nos dias de hoje, muitos adeptos das religiões veem o mundo como algo negativo e pecaminoso, frequentemente se justificando com uma interpretação errônea de João e, assim, criando uma religião dualista, onde o “espiritual” é santo, enquanto o “material” é pecaminoso. Assim, o mundo se torna mais o domínio do demônio do que de Deus e cria-se uma religião de alienação e fuga das realidades terrestres. Essa visão equivocada está muito presente em certos movimentos neopentecostais e diversos programas de televisão e rádio. Tal visão se deve mais a certas religiões pagãs do que à mensagem do Evangelho. A missão de Jesus não é de condenar, mas de salvar (vers. 17). Porém a própria presença de Jesus já constitui um julgamento, pois exige uma tomada de posição da parte de cada um. Para o judaísmo, e muitos escritos do Novo Testamento, o juízo deve acontecer no fim da história, mas, para João, dá-se quando alguém se encontra na presença de Jesus e conscientemente aceita ou recusa sua mensagem. O termo que a Teologia usa para essa visão é “escatologia realizada”. Na visão de um mundo dividido entre luz e trevas, há paralelos com os documentos do Mar Morto, provavelmente da seita dos essênios. O cerne da questão é crer ou não em Jesus. Mas é importante lembrar que “crer” não é somente um exercício intelectual de aceitar que algo seja a verdade. “Crer” é assumir o projeto de vida de Jesus, é seguir em suas pegadas. É fazer que suas opções concretas sejam nossas, ou melhor, de agir como Ele agiria se estivesse entre nós hoje. Como será que Jesus agiria diante dos escândalos e crises que assolam nosso mundo? Que posição tomaria diante da acumulação de bens e terras nas mãos de poucos? O que faria diante da questão da reforma agrária ou da destruição do meio ambiente? Diante da corrupção quase endêmica e da manipulação de grande parte dos meios da comunicação de massa? O que diria diante do sofrimento de milhões de desempregos na crise atual econômico-financeira mundial, criada por gananciosos que não sofrem as consequências de sua sede sem limites de lucro? O que Ele diria diante da crise que leva dezenas de milhares de migrantes a arriscarem as suas vidas tentando escapar da miséria? “Crer” nele não é afirmar teses teológicas, mas seguir na prática Jesus de Nazaré que se colocou sempre ao lado dos excluídos e sofridos, não por serem mais “santos”, mas simplesmente por serem mais sofridos. É bom notar que Jesus, enfatizando nesse texto a necessidade do nascimento novo espiritual (estamos ainda no discurso diante de Nicodemos), nega a importância de nascer fisicamente como membro do povo eleito. Mais uma vez, como em Caná e no Templo (2,1-11.13-22), Jesus substitui um dos pilares do judaísmo de sua época. Estamos em plena Campanha da Fraternidade, procurando criar um novo mundo em que todos tenham acesso a uma vida digna, lutando pela luz contra as trevas! Agir “segundo a verdade” (vers. 21) significa fazer o bem. Quem luta pelo bem, pela vida, contra a exclusão, realmente “crê” em Jesus, seja qual for sua confissão religiosa, e “não é condenado” (vers. 18). Quem não faz essa opção opta então pelas trevas, mesmo que professe, de uma maneira ortodoxa, as teses da fé, mas realmente “não crê no nome do Filho Único de Deus” (vers. 18). Ninguém escapa de fazer essa opção concreta, pelo bem ou pelo mal, pela luz ou pelas trevas, pelo Reino ou pelo anti-Reino! É pelos frutos que se conhece a árvore! A Quaresma nos convida para revermos, de uma maneira sincera, nossas opções e também nossa contribuição em favor da criação de uma sociedade justa, de vida e não da morte. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

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