Comer e beber é fácil… assimilar uma Vida é desafiante

Na Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo (Corpus Christi), com muita alegria, a Igreja celebra e reflete sobre o compromisso de “ser Eucaristia”. Veja a reflexão elaborada pelo jesuíta padre Adroaldo Palaoro, comentando o Evangelho proclamado na liturgia deste dia. A passagem está em João 6,51-58.
Eucaristia: enfeitar as ruas também com nosso testemunho

A Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, conhecida também como Corpus Christi, é celebrada com muito carinho pelos cristãos mundo afora. Data móvel, normalmente ocorre na primeira quinta-feira após a Solenidade da Santíssima Trindade, ou, dependendo do costume, no domingo seguinte. Essa liturgia foi instituída pelo Papa Urbano IV, em 8 de setembro de 1264. O objetivo era valorizar e celebrar a presença real de Jesus no pão e no vinho consagrados, uma verdade de fé cultivada com esmero desde o início da Igreja. Devido à importância do tema, o próprio Urbano IV encarregou o grande Santo Tomás de Aquino de elaborar os textos que até hoje são recitados ou cantados na festa. Nesse contexto celebrativo, é importante ampliar a reflexão sobre a Eucaristia, expandindo o tema para além da devoção às espécies consagradas (o que não é pouco). É uma oportunidade de redescobrirmos esse sacramento como ceia pascal, ou seja, sinal instituído por Jesus para marcar a passagem da morte para vida, das trevas para as luzes. É um valiosíssimo bendizer a Deus, ofertar-se ao Pai, partir o pão, acolher e curar. A famigerada pandemia, entre muitas coisas, escancarou uma falha enorme na catequese do povo e mesmo na formação do clero. Infelizmente, constatou-se certa redução da Eucaristia à presença real no pão e no vinho, esquecendo-se do aspecto pascal. Apenas para citar dois “exemplos”, o drive-thru de comunhão e a mal interpretada “comunhão espiritual” (compreendida, sem o devido questionamento, como a vista pela mídia) demonstraram um olhar restrito do que Jesus desejou em favor de seu povo. A ceia eucarística é o sentar-se à mesa, partilhando com o próximo e com, por e no Senhor as conquistas e os desafios da vida. É a hora de alimentar-se das palavras do Mestre (nas quais Ele também está presente de forma real), do pão que dá vida e do vinho que enche de alegria, agradecendo a Deus pelo triunfo da misericórdia, da graça e da justiça. A sagrada refeição é a fonte e o ápice do lava-pés, sinal de serviço. Nunca é demais recordar que tanto o trigo quanto a uva que deram origem às espécies sagradas, frutos da bênção de Deus e do trabalho humano, precisaram ser moídos, esmagados para se tornarem Eucaristia. No serviço, na doação, Deus quis estar entre nós. Corpus Christi nos questiona se o divino dom do qual comungamos nos transforma em Eucaristia em nossa casa, no trabalho, na Igreja, na escola, na política, no trânsito… Caso contrário, nós nos “alimentamos” sem nos “nutrir”. Novamente, temos uma preciosa chance de recuperar um lugar mais amplo desse alicerce que sustenta nossa fé, nossa caminhada de seguidores de Jesus, o Mestre da partilha do pão. Ao viver a Eucaristia, podemos adornar ruas com os tapetes coloridos (admirável gesto, diga-se) e com nosso testemunho, o ano inteiro. Que Jesus nos inspire e siga nos acolhendo no generoso banquete da Palavra, do Pão e do Vinho. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.
Corpus Christi: “Eu sou o pão descido do céu”

“Quem consome a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna…” (Jo 6,54) Com a afirmação “eu sou o pão vivo que desceu do céu”, Jesus manifesta o sentido de sua Encarnação. Ele não usa como sinal o legado poderoso, os atributos régios, os resplendores, as armas, os tronos, as vestes nobres: usa como sinal o pão, ou seja, vida que se desfaz em favor dos outros. Vida expansiva para que outros vivam. Jesus compreendeu-se a si mesmo no pão, ou seja, ser para os outros alimento e alegria. Grãos e espigas moídos para alimentar. Jesus é reconhecido no pãoque “desce” e desaparece nos outros, dissolvendo-se no mais íntimo de cada um, despertando alento, dando calor, força e sentido a partir de dentro. Jesus Cristo, ao fazer-se pão, acolheu tudo quanto é humano e desta maneira tudo redimiu. Em sua humanidade, Ele alimentou e saciou nossas carências mais profundas; ao mesmo tempo, ativou e despertou outras grandes “fomes”: comunhão, compaixão, solidariedade… Assim, no gesto do partir e repartir o pão se condensou todo o caminho de Jesus: vida que se doou para aliviar todo “sofrimento humano” (curas), para proporcionar a “refeição partilhada” (ceias e multiplicação dos pães) e para ativar “novas relações humanas” (sermão da montanha). Celebrar o “Corpus Christi” é atualizar estas três preocupações centrais da vida de Jesus. Aqui se conecta a essência de Sua vida na vida dos seus(suas) seguidores(as). “Descer” e “subir”, portanto, são imagens para descrever o processo de transformação realizado por Jesus no interior de cada um de nós. Não podemos “subir” se não estivermos dispostos a “descer” com Ele ao nosso “húmus”, às nossas sombras, à condição terrena, ao inconsciente, à nossa fraqueza humana. Assim como na Encarnação o Verbo “desce” e se faz visível através das fendas e feridas da humanidade, Ele continua “descendo” e se fazendo “pão” nas profundezas de nosso ser, integrando e pacificando tudo. “Assim novamente encarnado” (EE 109), nos diz S. Inácio. A Encarnação, portanto, não é um evento ou um ato isolado da história; a Encarnação é atitude eterna de Deus. Ele “é” Encarnação contínua, desde toda eternidade. Esta é a verdade, a revelação emocionante, a grande novidade do evangelho, que recolhe o que há de mais profundo da mensagem e da vida de Jesus: para dar alimento é preciso fazer-se alimento. Jesus não só ensina e dá o alimento, mas Ele mesmo “desce” e se converte em alimento. Esta é a sua novidade “teológica”, sua novidade humana, a verdade mais profunda da Eucaristia: compartilhando o pão de Jesus (em memória de sua Encarnação, de sua vida e de sua morte), seus discípulos descobrem que Jesus mesmo é alimento e que eles devem se fazer alimento uns para os outros. Jesus, ao se “humanizar”, se faz “pão”, humanidade convertida em alimento para os outros. A Vida Eterna não se revela num gesto de pura interioridade, mas no encontro e comunhão de uns com outros… Quem crê nos demais, quem compartilha com eles a vida tem a vida eterna, porque entra no fluxo do “Pão Eterno” que se manifestou na Encarnação. Nesse contexto é preciso dizer que o verdadeiro alimento é a vida mesma do ser humano: Jesus se fez alimento para os outros, saciou a fome de justiça e amor. Ele é o alimento que gera vida nova no mundo, vida oferecida e compartilhada. Um alimento “subversivo” porque subverte a tradicional “ordem” das coisas. “Eu sou o pão da vida.” Antes de partir o pão, Jesus parte-se a si mesmo, faz-se alimento. Toda sua vida foi entrega, desde sua Encarnação. Sua vida inteira dá significado ao partir, compartilhar e repartir o pão da vida. Porque Jesus é “pão descido do céu” e porque compartilhamos sua vida, também nós podemos e devemos “descer” e sermos comunhão de vida. Neste sentido, todos somos “pão no Pão”. Cada ser humano é “pão vivo, descido do céu” para outro ser humano; cada homem, cada mulher é revelação de Deus, pão de vida eterna para os outros. Por viver neste nível, por entregar-se e compartilhar a vida neste plano, os homens e mulheres “não morrem”, tem vida eterna. E é isso que, no nível mais profundo, somos todos. Todos somos Vida, todos somos “pão de vida”. Somos pão quando alimentamos o outro na esperança, no perdão, na acolhida, na compaixão, no compromisso… Sim, podemos multiplicar o pão da festa, da alegria, o pão da justiça, o pão da ajuda fraterna… Quanto pão para ser dividido! “Tornar-nos pão” significa “descer” à nossa própria condição humana para expandi-la em atitudes de serviço, partilha, solidariedade… Jesus, ao se encarnar, quis resgatar a vida humana, fazendo-se gente, sentimento, fome, alimento…, na realidade humana. Seu caminho? A vida a partir da mesa, do pão e da festa da partilha. Uma das chaves de compreensão da pessoa de Jesus é a relação d’Ele com a “mesa do pão”, pois Ele passou de mesa em mesa, até se deixar fazer pão na grande mesa da Ceia Pascal. Em todos os encontros de Jesus com os excluídos do Reino, Ele sempre os incluiu em suas refeições. Se para nós, a mesa já era bendita, sagrada…, depois da Encarnação e da Vida de Jesus, ela se tornou mais ainda um lugar de encontro no sacramento do pão partilhado. Desde então, cada vez que dela nos aproximamos, o “Verbo feito carne” continua sua ação salvífica, recriando cada vez mais a vida em expansão. De fato, depois do Verbo fazer-se “carne” e “pão”, a mesa eucarística tornou-se lugar de transformação, de evolução humana e cósmica, o lugar de comunhão por excelência com o Criador. Na pregação de Jesus e, mais tarde, na experiência das primeiras comunidades, deu-se um salto qualitativo: do pão se passou ao pão vivo; da água aos rios de água viva que emanam nas entranhas; do vinho ao sangue que é expressão da vida. Jesus pediu “ir mais além” daquilo que os cinco sentidos podem captar, para abrir-nos ao mistério da vida partilhada e entregue. Simbolicamente,
Serviço: a outra face da Eucaristia

Na quinta-feira, 3 de junho, celebramos a Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, também conhecida como Corpus Christi. Mesmo nestes tempos difíceis de pandemia, fadigas e muitas restrições, a data é (a)guardada com afeto por comunidades católicas de todo o mundo. Este também é um momento oportuno para reforçar a importância da Eucaristia para a vida cristã. Sempre é bom recordar o aforismo do cardeal francês Henri-Marie de Lubac, inspirado na teologia dos padres da Igreja: “A Eucaristia faz a Igreja, a Igreja faz a Eucaristia”. Dos quatro evangelhos, os sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) enfocam Jesus, na chamada “Santa Ceia”, proclamando o pão e o vinho como sendo seus próprios corpo e sangue. Perdoe-me, caro leitor, cara leitora, se abordo apressadamente a narrativa desses três evangelhos, ainda mais no calor de Corpus Christi. Mas eu gostaria de destacar como o quarto Evangelho, o de João, aborda a instituição da Eucaristia. No capítulo 13 (versículos de 1 a 15), o autor sagrado chama a olhar para um gesto ocorrido na refeição ritual, horas antes de Jesus ser entregue ao sacrifício na Cruz. A passagem começa com a base das bases de qualquer teologia eucarística séria: o amor. “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (João 13,1b). Pouco mais adiante, o evangelista começa a narrar não muito a refeição, mas a atitude do Mestre, que se abaixa (em todos os sentidos) para lavar os pés de seus discípulos. Como todo o Evangelho de João, o trecho pede uma leitura atenta, sem pressa. A Eucaristia, para ele, é principalmente o serviço. Não me atrevo a arriscar uma exegese. Partilho aqui uma modesta meditação. Espero que, aos olhos da fé, possamos identificar algumas coisas na cena na qual Jesus, mais uma vez, demonstra ter vindo a nós para servir e não para ser servido (cf. Mateus 20,28; Marcos 10,45; Lucas 22,24-27). Gestos que deveriam ser mais trabalhados em nossas catequeses eucarísticas. Até o fim do procedimento de “purificar” os pés de seus amigos, o Senhor realiza sete atos. João, como diz o ditado, “não dá ponto sem nó”. Muitas vezes, sete, na Bíblia, é mais uma ideia do que um mero algarismo. Entre outros significados, pode indicar perfeição e, no olhar cristão, a própria encarnação de Deus (a soma de três da Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo; e quatro dos elementos cósmicos: terra, fogo, água e ar). Jesus é o próprio “Sete”: o verdadeiro Deus e o verdadeiro homem. O primeiro gesto é “levantar-se”. No início, a Igreja era chamada de “O Caminho”. Como empreender esse caminho sem sair do lugar? Para servir, é preciso disposição, ânimo, entusiasmo (palavra, aliás, muito significativa). O segundo é “tirar o manto”. Para nós, isso deveria significar despojar-nos de nossas couraças, nossos personagens, nossos privilégios, nossos títulos e servir com o que temos de mais profundo. Deus vê o escondido (Mateus 6,4b), sabe de nossas contradições e fraquezas, mas Ele nos ama e nos convoca em nossa essência. A ação seguinte é “pegar a toalha”. Dias atrás, o Pe. Júlio Lancellotti, famoso pelo apoio aos mais necessitados, contou que Dom Luciano Mendes de Almeida, outro gigante no serviço, havia-lhe explicado sobre o significado da estola presbiteral que ele receberia na ordenação. Não transcrevo literalmente as palavras, mas era algo mais ou menos assim: atadura para curar as feridas, lenço para secar as lágrimas, toalha para enxugar os pés do irmão. A estola transversal usada por nós, diáconos, também tem esse sentido (e não um meio-sacerdócio como alguns ainda hoje pensam). O quarto movimento nessa narrativa eucarística de João é o “cingir a cintura”. O cingir-se indicava a prontidão. A ceia pascal judaica, segundo o preceito de Moisés, devia ser tomada com os “rins cingidos, sandálias aos pés e cajado na mão” (Êxodo 12,11). A toalha em torno da cintura poderia ser parte da vestimenta típica do empregado aliada à presteza no servir, como desejou o Senhor. O quinto gesto é o “derramar a água numa bacia”. Água, sinal de pureza, de vida, que cura nossas sequidões, elemento de nosso batismo a nos convocar a ser sinais de Cristo. É a seiva de nossa Casa Comum e de nós próprios; somos água. Com ela, o Senhor preparou seus irmãos para o grande momento da Cruz. O sexto é o “lavar os pés dos discípulos”. O serviço em si, sem discursos vazios, sem clichês, mas a realidade de qualquer ministério que se preze. Nessa hora, Jesus resume toda a sua vida e missão entre nós, conforme diz a Carta de São Paulo aos Filipenses (2,7): “Esvaziou-se de sua glória e assumiu a condição de um escravo, fazendo-se aos homens semelhante”. Nessa hora (e em outras), Jesus, o Senhor, olha-nos de baixo para cima. O sétimo é o “enxugar os pés”. O Senhor leva sua obra até o fim. Continua a ter seus frágeis e limitados discípulos como seus superiores e os segue vendo da perspectiva do chão. Os pés estão purificados e prontos para seguir “O Caminho”. Mais adiante, o Senhor recorda: “Se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (João 13,14-15). Com base em João, podemos dizer: não há Eucaristia sem também o lava-pés. O cristão ou cristã alimentado pela Palavra, o corpo e sangue do Senhor precisa, sim, colocar-se a caminho, à disposição do próximo. Creio estarem dispensados dessa missão apenas aqueles que, por motivo grave, não o podem fazer. Servir em, com e por Cristo é um agir sacramental, não há lugar para ativismo, mas para o seguimento dos passos do Senhor. Assim é a Sagrada Ceia. E não nos esqueçamos desta ordem de Jesus: “Fazei isso em meu memorial” (Lucas 22,19b). Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo.