Ascensão: subir à Galileia, descer ao mundo todo

Veja a reflexão elaborada pelo jesuíta padre Adroaldo Palaoro, comentando o Evangelho proclamado nesta Solenidade da Ascensão do Senhor e Dia Mundial das Comunicações Sociais. A passagem está em Mateus 28,16-20.

Ascensão: quando “subir” significa “descer”

“Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mt 28,20) Na dinâmica do Tempo Litúrgico, após uma longa e criativa caminhada com Jesus, a liturgia nos faz “desaparecer em Deus”, como o Cristo da Ascensão “desapareceu em Deus”. “Depois de sua paixão, Jesus mostrou-se vivo a eles, com numerosas provas; apareceu-lhes por um período de quarenta dias, falando do Reino de Deus” (At 1,3). Tivemos, portanto, 40 dias que nos prepararam para acolher a nova maneira de presença de Jesus, depois que, segundo nos diz o evangelho, Ele “ascendeu” ao céu. O número 40 aparece com frequência na Bíblia, sempre relacionado com tempos de experiências vitais profundas, cruciais, fundantes. Algumas vezes, tempo de caminho incansável, outras vezes, tempo de espera paciente, mas sempre tempos de busca, preparação, escuta e crescimento pessoal ou comunitário. Falamos, então, de tempo (40 dias) e espaço (a ascensão ao céu). Tempo e espaço que, de modo claramente pedagógico, são utilizados pelo evangelho como meios de preparação para que possamos amadurecer o nosso processo no seguimento de Jesus Cristo. Por tudo isso, é importante que estejamos atentos às últimas palavras que Jesus nos diz no evangelho de hoje: “Ide, pois, fazei discípulos entre todas as nações, e batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Fica claro que Jesus, ao “subir”, coloca seus seguidores em movimento. “Por que ficais aqui, parados?”, dirá o livro dos Atos. Portanto, não percamos tempo; já tivemos o tempo suficiente, 40 dias. Já não há desculpas. O Senhor não só nos preparou para esse momento, mas promete continuar ao nosso lado, atuar junto a nós e confirmar a nossa missão de sermos presenças inspiradas e criativas no mundo. Não fiquemos parados! Mateus culmina seu evangelho relatando a despedida de Jesus. Aqui não aparece nenhuma “subida”; o que há é a promessa de uma permanente presença de Jesus. Mais que uma “subida”, há um “permanecer”, um estar todos os dias, uma contínua solidariedade. Não há ausência de Jesus, mas um novo modo de presença, a “d’Aquele que não tinha deixado o Pai ao descer à terra nem tinha abandonado os seus discípulos ao subir ao céu” (S. Leão Magno). Por meio do Espírito se realiza este novo modo de presença. O Espírito faz com que Jesus Cristo, que se foi, venha agora e sempre de um modo novo. O Espírito não é uma compensação pela ausência de Jesus, mas o modo como Ele se faz presente. Graças ao Espírito, continua a atividade salvífica d’Ele; graças ao Espírito, as palavras de Jesus se fazem novas, atuais, presentes. Os Onze discípulos retornam à Galileia; são onze, porque um se perdeu, símbolo do perigo que correrá cada discípulo e cada comunidade. Eles voltam ao lugar onde tinham experimentado a sedução do primeiro chamado: “Segui-me e farei de vós pescadores do humano”. Tinham seguido Jesus com entusiasmo, embora lhes tenha custado muito entendê-lo e, sobretudo no final, o quão difícil foi superar o trauma de sua morte na Cruz e reconhecer no Crucificado a plenitude da Vida. Jesus lhes indica com toda precisão qual deve ser a missão deles. Não é propriamente “ensinar uma doutrina”, não é só “anunciar o Ressuscitado”. Sem dúvida, os discípulos de Jesus deverão cuidar diversos aspectos: “dar testemunho do Ressuscitado”, “proclamar o Evangelho”, “implantar comunidades”…, mas tudo está finalmente orientado a um objetivo: “fazer discípulos de Jesus”. A festa da Ascensão nos recorda que Jesus não “subiu” fisicamente ao céu. A Ascensão do Senhor é outra coisa; se “subiu” é porque primeiro “desceu”. Porque se “humanizou”, fazendo-se servidor, foi “exaltado por Deus” (Fl 2,9). “Quem se humilha, será exaltado” (Mt 23,12). Só a partir desta atitude é possível compreender a recomendação que Jesus faz a seus seguidores(as): aquele(a) que quer ser o primeiro, que seja o(a) servidor(a) de todos. Subir, elevar-se, estar acima dos outros, triunfar, conquistar o primeiro lugar… são expressões que se revelam sempre tentadoras. “Subir” é a aspiração de todo ser humano no terreno político, laboral, financeiro, esportivo, relacional… Assim funciona a nossa sociedade competitiva. Mas, “entre vós não deve ser assim”, nos diz Jesus. Quando buscamos as “subidas”, nossas obras serão de morte (ódio, competição, divisão, indiferença…) e as obras de vida serão esvaziadas; é preciso viver a “mística da descida”, ou seja, acolher o estrangeiro, atender ao enfermo, defender o maltratado, perdoar quem nos ofende… Se entrarmos no “fluxo de descida” de Jesus, nossas obras serão de vida. Agora, Jesus nos convoca de novo à Galileia, à montanha das bem-aventuranças, para nos confiar outra missão, muito mais exigente: “Ide e fazei discípulos meus todos os povos”. Não temos de voltar à Jerusalém, o centro do poder político e religioso, que havia crucificado o Mestre. O horizonte é agora universal: “todos os povos”, sem nenhuma discriminação. Encontraremos raças diferentes, línguas desconhecidas, culturas surpreendentes. Não teremos de mudá-las, mas iluminá-las com a verdade e a originalidade do modo de ser e viver de Jesus. Diremos só uma palavra essencial: “amem-se”. Amem-se com a riqueza de suas próprias tradições, com a originalidade de seus próprios costumes e ritos. Amem-se e conheçam Aquele que nos amou primeiro, que entregou sua vida por amor. Não translademos a outros povos nossa cultura, não imponhamos nossos costumes e nossas leis; não preguemos outra lei a não ser o mandamento do amor, pois muitos a praticam em diferentes formas, iluminados pelo mesmo Espírito que não se deixa prender por uma instituição ou religião. E batizemos “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”: inundemos o mundo do amor da Trindade santa, comunidade de amor que nos faz partícipes de sua vida divina. Esta é a nossa missão: fazer “seguidores” de Jesus para que conheçam sua mensagem, sintonizem-se com seu projeto, aprendam a viver como Ele e prolonguem hoje a presença d’Ele no mundo. Atividades tão fundamentais como o batismo, compromisso de adesão a Jesus e o ensinamento a observar tudo o que Ele ordenou, são vias para aprender a ser seus discípulos.

Solenidade da Ascensão do Senhor

“Afastou-se deles e foi levado para o céu”Lucas 24,46-53 Aqui temos o último trecho do Evangelho de Lucas. Quase todo o conteúdo deste capítulo é encontrado somente em Lucas e revela bem seu pensamento. Podemos dizer que o Evangelho todo culmina na postura dos discípulos, descrita no versículo 52: “Eles o adoraram”. Essa é a primeira e única vez que Lucas diz que os discípulos adoraram Jesus. Aqui há uma aproximação entre a cristologia de Lucas e a de João, em João 20,28. O trecho inicia-se com uma frase que faz lembrar os dois discípulos na estrada de Emaús: “Jesus abriu a mente deles para entenderem as Escrituras” (vers. 45). Vale a pena salientar que Ele fez com que eles “entendessem” as Escrituras, não que as “conhecessem”, pois estavam bem a par de tudo que as Escrituras falavam. O problema deles, como dos dois de Emaús, era entender como as Escrituras podiam iluminar sua caminhada, em sua situação concreta. Lucas frisa que o anúncio do Evangelho incluirá a grande Boa-Nova do perdão dos pecados. Essa Boa Notícia “será anunciada a todas as nações, começando por Jerusalém” (vers. 47). Aqui explica como a salvação chegará aos outros povos: pela pregação e testemunho das comunidades cristãs. Por isso devemos entender a frase “E vocês são testemunhas disso” (vers. 48) como referente não apenas aos Onze, mas a todos os discípulos e discípulas de Jesus. Podemos lembrar-nos de Lucas (24,9.33), o qual enfatiza que, além dos Onze, estavam também presentes “os outros”. Isso é importante para que não caiamos na cilada de achar que a missão de testemunhar os valores do Reino seja algo reservado aos ministros ordenados. O Documento de Aparecida insiste muito que não é possível ser discípulo, discípula de Jesus sem ser missionário, missionária. Essa incumbência, e privilégio, vem de nosso batismo. As comunidades poderão contar com um poderoso ajudante nessa missão gostosa, mas árdua, o Espírito Santo, prometido pelo Pai: “Agora eu lhes enviarei aquele que meu Pai prometeu” (vers. 49). O cumprimento dessa promessa será graficamente descrito na continuação da obra de Lucas, nos primeiros dois capítulos dos Atos dos Apóstolos. O último parágrafo contém numerosas referências a Lucas 1,5-2,25. O texto grego emprega o verbo que, no Antigo Testamento, é usado para descrever o Êxodo, quando diz: “Jesus levou os discípulos para fora da cidade” (vers. 50). Para Lucas, Jesus está prestes a completar seu Êxodo para o Pai. Mas, antes, “Ergueu as mãos e os abençoava” (vers. 50b). É a única vez que, no Evangelho de Lucas, se diz que Jesus abençoou alguém. No fim da liturgia de sua vida, Jesus dá sua bênção final aos que vão continuar sua missão. Os discípulos sentem grande alegria, um tema destacado no início da vida de Jesus, em seu nascimento em Belém, quando os anjos trouxeram notícias de grande alegria. A alegria prometida no início está presente no fim. Por isso, os discípulos se encontram no Templo, onde Jesus foi apresentado e onde Simeão louvou a Deus. O Evangelho de Lucas conclui afirmando que eles também “Estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus” (vers. 53). O autor termina, enfatizando a resposta que seus leitores devem dar, visto que eles aceitam que, em Jesus, chegou nossa salvação, mediante a ação gratuita do Deus misericordioso. Esta resposta de bendizer a Deus não é somente com os lábios, mas com uma vida dedicada e missionária, no seguimento de Jesus de Nazaré e comprometida com a construção de comunidades e sociedades alternativas, baseadas na partilha e na solidariedade. Esse é um dos grandes temas da segunda parte do Evangelho de Lucas, que nós conhecemos como “Atos dos Apóstolos”, um dos livros preferidos no estudo bíblico nas comunidades de hoje. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Solenidade da Ascensão do Senhor

“Vão pelo mundo inteiro e anunciem a Boa Notícia para toda a humanidade”Marcos 16,15-20 O texto de Marcos (16,9-20), que contém o fim desse Evangelho, interrompe o fio da narração precedente. É muito diferente em estilo e vocabulário do resto do Evangelho e está ausente dos melhores e mais antigos manuscritos. Por isso, normalmente está designado nas nossas bíblias como “Apêndice”, provavelmente escrito no segundo século e baseado sobretudo no capítulo 24 de Lucas, com alguma adição de João 20 e com referências de fatos narrados nos Atos dos Apóstolos. Embora não acrescente nada de novo para uma melhor compreensão de Jesus e dos acontecimentos pós-pascais, traz elementos muito importantes para a vida da Igreja hoje. Destaca-se muito o mandamento missionário de Jesus, o de levar a Boa-Nova para toda a humanidade (Mateus 28,18-20). A Igreja é, por sua natureza, missionária, e uma Igreja que descuidasse desse mandado estaria traindo sua identidade. Porém se faz necessário distinguir entre “missão” e “proselitismo”. Igrejas proselitistas têm como meta angariar para si fiéis de outras igrejas. Giram ao redor de si mesmas, identificando sua Igreja institucional com o Reino de Deus. Uma Igreja missionária tem como objetivo levar a Boa-Nova do Reino para todas as culturas e religiões, respeitando-as, sendo testemunha dos valores do Reino de Deus e ajudando a pessoas de boa vontade a descobrirem a presença do Reino (e do antirreino) em suas próprias culturas e tradições religiosas. Um aprofundamento desse mandado vai nos fazer lembrar que nós não somos donos da missão. A missão é do próprio Deus, cujo Filho Jesus foi o primeiro missionário da Trindade. Ele deixou uma comunidade de discípulos e discípulas para continuar sua missão da implantação do Reino de Deus, e nós somos herdeiros dessa missão. A serviço dela existem diversos carismas, ou dons do Espírito Santo, para o bem de todos. Mas ninguém está dispensado dessa tarefa missionária, fechando-se em sua própria comunidade, movimento ou Igreja; pelo contrário, devemos sentir-nos unidos aos irmãos e irmãs do mundo todo, e comprometidos com a construção da sociedade justa e solidária que será uma concretização da Boa-Nova do Reino de Deus. O objetivo da missão, a longo prazo, é reunir a humanidade inteira no Reino de Deus (que ultrapassa as fronteiras da Igreja visível). Nós o fazemos pela proclamação explícita da Boa-Nova e no estabelecimento de um diálogo respeitoso com membros de outras tradições religiosas, convidando homens a mulheres a pertencer a uma comunidade de testemunho e serviço, e levando a cada ser humano a missão divina de uma salvação integral. O texto explicita alguns elementos importantes nessa atividade missionária: “expulsão de demônios”: expulsando da convivência humana os sinais do mal, do antirreino, que escraviza e oprime milhões de pessoas, por meio de estruturas econômicas, sociais e até religiosas de exclusão; “falando línguas”: como em Pentecostes, criando uma língua do diálogo e respeito, a linguagem do amor, justiça e solidariedade; “vencendo veneno”: superando tanto o veneno semeado durante milênios na convivência humana, expressado pelo racismo, machismo, clericalismo e todos os “ismos” que excluem e nos dividem; “curando doentes”: lutando, na prática, para que “todos tenham a vida e a tenham plenamente” (João 10,10), como fez Jesus, não somente fazendo curas individuais, mas restaurando a saúde integral, das pessoas e da Criação, mediante a vivência comunitária e individual do projeto de Jesus. Seria trágica se esses elementos ficassem reduzidos à busca de “milagres” duvidosos, à falação de supostas “línguas dos anjos” e à satanização de tudo, confundindo expressões de desequilíbrio emocional com a presença diabólica. Durante séculos, muitas vezes, os cristãos do Brasil (e de muitas outras regiões) têm se acomodado com a vivência de uma religião individualista, acomodada e frequentemente alienada dos problemas do mundo. Vivíamos uma separação artificial entre o mundo e o espiritual, entre a prática religiosa e a transformação social. O mandado de semearmos a Boa-Nova do Reino nos ajuda para que sejamos mais fiéis a Jesus, não somente à sua pessoa, mas também à sua prática e mensagem, levando a Boa Notícia do Reino a toda a humanidade. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

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