Sábado Santo: um frio sepulcro nos interpela

O Sábado Santo é marcado pelo silêncio e pela expectativa da vitória de Jesus sobre a morte. Na série Semana Santa Orante, o jesuíta padre Adroaldo Palaoro propõe uma reflexão sobre um trecho do Evangelho de São João que nos ilumina nessa experiência.
Escuta, fala, pensamento na prática educativa e pastoral

Como articular pensamento, escuta e fala na prática educativa e pastoral? Vamos tecer algumas ideias e considerações que, certamente, terão como destinatárias aquelas pessoas que orbitam os ambientes formais da educação: a escola com seus educadores e estudantes. Iniciamos, contudo, propondo o tema do “silenciar”. Ponto de partida para o exercício do conhecimento de si mesmo, fonte de todo o conhecimento, segundo antiga tradição filosófica. Silenciar é uma autêntica sabedoria, atestada no tesouro herdado de culturas milenares e tradições religiosas: silenciar é uma via que nos permite, mesmo quando ainda é algo simples e superficial, dar-nos conta de nós mesmos. Não há oração (pessoal ou comunitária), prática espiritual ou de meditação e contemplação (e, por que não dizer, não há aula ou produção e aquisição de conhecimentos) que se iniciem sem um gesto e convite ao silêncio interior. Pelo silenciar a si mesmo, as sensações que transitam por nosso corpo, concatenadas ao ritmo da respiração e aos numerosos pensamentos que nos habitam e passeiam pela mente são percebidos, possibilitando uma acolhida serena dessas moções e movimentações interiores, aceitando-as e mesmo as serenando. Não à toa, no espaço educativo da sala de aula, professores e estudantes sabem com clareza: a aula só começa, o conhecer só se torna viável de ser partilhado com o ambiente adequado para tal, com corações e mentes minimamente atentos, com o pensamento e a vontade situados no momento e espaço presentes, corpos relativamente confortáveis, ocupando espaços apropriados e geralmente assentados. Com essas condições preenchidas, a aula começa, os saberes são partilhados e geram-se novos pensamentos, conexões e reflexões. Caso contrário, restam os barulhos, ruídos, distrações, conversas paralelas e resultados aquém das expectativas, além de muita energia despendida sem uma direção acertada. É útil a todo estudante começar o dia de estudos verificando sua agenda, colocando-se de modo consciente em relação às matérias, conteúdos, aulas do cronograma ou, numa linguagem mais atualizada, passando a limpo o check-in daquilo que está previsto para o dia. Isso já introduz certa sintonia com os afazeres, trazendo foco e atenção, favorecendo a presença atenciosa aos temas, conceitos, atividades propostas, predispondo a vontade e a determinação em tomar parte ativamente do momento presente, com suas informações novas e conhecimentos construídos e adquiridos no conjunto das atividades em aula. Estudar é um ato da vontade! Criando as condições favoráveis para essa vontade autodeterminada, o pensamento se orienta melhor e adere com mais ênfase aos objetivos do conhecimento, evitando ficar à deriva de distrações diversas que sempre se apresentam ao longo das atividades escolares e são, de certo modo, algo normal e comum, com os quais lidamos diariamente. O exercício e a prática do silêncio interior, como fonte de conhecimento de si mesmo, ampliam e favorecem, de algum modo, a capacidade de escuta do outro. Fala-se muito em “comunicação não violenta” ou comunicação empática, entendendo-se, com isso, que há modos de nos comunicarmos, utilizando palavras, expressões, tons de voz e atitudes que favorecem a comunicação entre as pessoas e salvaguardam o respeito e até mesmo a compreensão e sensibilidade necessárias entre os interlocutores. Mais que uma técnica ou escolha de palavras, a comunicação tem empatia quando considera que as pessoas afetam umas às outras e elas estão, portanto, inseridas num círculo ético e afetuoso. Podemos dizer tudo, considerando a necessidade de compreender que aquilo que foi dito seja comunicado com responsabilidade própria (sem culpabilizar o outro), considerando o interlocutor como um agente da comunicação, transmitindo as ideias com respeito, honestidade e verdade. Promover a escuta e a comunicação com empatia constitui prática imensamente valiosa no âmbito da educação e das ações pastorais. Aliás, pode-se afirmar que escutar e se comunicar com empatia são práticas, em si mesmas, de teor pastoral, pois se situam e seguem a inspiração de Jesus, que falava às multidões e a cada um utilizando-se de uma comunicação que fazia “arder os corações”. Suas palavras eram ditas com autoridade, reconhecidas e atestadas por sua prática e seu jeito de ser. Jesus se colocava voluntariamente à disposição e atitude de escuta de quem se aproximava dele, quer seja para pedir por saúde e bem-estar, ou a partir de um gesto de conversão. Igualmente escutava aqueles que se aproximavam por curiosidade em vista dos chamados milagres realizados por ele, ou até mesmo quando o interrogavam apenas para testar seus conhecimentos e sua fidelidade à Lei de Moisés e aos costumes do Templo. Invariavelmente, Jesus ouvia/escutava as pessoas, dedicando-lhes tempo e atenção. Por diversas vezes, é dito sobre ele nos evangelhos: sentia compaixão dessas pessoas, alegrava-se com elas por acolherem o evangelho e as exortava, procurando e até encontrando nelas algo de melhor, alguma abertura para acolherem a si mesmas, o outro e à própria experiência de Deus por ele revelada. Por fim, ainda vale dizer: saímos há pouco de uma pandemia global de covid-19, cujos efeitos continuam sendo estudados e compreendidos. Ela nos afetou a todos, de modos diferentes. Passamos por medos, dúvidas, perdas, restrições e muitas sensações e sentimentos contundentes e confusos. A pandemia, como fenômeno biológico, passou, mas seus efeitos ainda são sentidos nos espaços de convivência e aprendizagens (famílias, escolas, igrejas, grupos de amizades e interações sociais). Pais e mães, crianças, adolescentes e jovens, professores e demais profissionais das escolas, agentes de pastoral nas comunidades e igrejas ainda lidam com esses efeitos. Temos ansiedades e fragilidades diversas ainda atuantes nas vidas de tantas pessoas. Dificuldades econômicas, emocionais e até mesmo correlacionadas à saúde do corpo e da mente. Um tempo que nos convida ao cuidado com a vida e com o bem-estar de si mesmo e do outro. Um tempo, portanto, de escuta redobrada das palavras que são ditas e que saem das bocas vindas diretamente dos corações, como um pedido de solidariedade, e até mesmo daquelas que não são proferidas, mas se manifestam nos sinais, comportamentos, lacunas e vazios que esperam ser preenchidos com afeto, empatia, solidariedade e compaixão. Que nossas palavras e escutas, que nossos pensamentos nos movam na mesma direção, fazendo-nos aptos a acolher os que
Um instante de silêncio…

No apagar das luzes de 2021… silêncio. Onde estiver, nestes últimos dias do ano, seja na companhia de quem for, proponha um instante de silêncio. Tempo precioso que vai valer uma eternidade, pois vai nos colocar diante das marcas do que se foi. Um silencioso suspiro para fazer memória aos amores e às dores. Uma fração de tempo para se encontrar com Deus e sorrir, mesmo diante das adversidades. Nada a dizer, nada a ver, apenas um gélido e refrescante vácuo neste mundo tão agitado. Instante para fazer memória aos que estão distantes e para celebrar a vida de tantos que estão diante de nós. Uma sinergia muda e duradoura com tudo o que nos move, nos agiganta, nos encoraja e nos dá sentido para romper mais um ciclo. Um instante de silêncio pelos gritos de gol engasgados na garganta, pelas lágrimas contidas e pelos abraços dados. Muita mudez para os momentos de nudez. Calmaria para enfrentar a indignação. Um instante de silêncio crítico e acolhedor diante do que a vida reserva a cada um de nós. Um instante de fé irmanada, de mãos dadas em missão. Na calada da noite ou do dia, um encontro com o inaudível. A sensação de levitar, em que o silêncio milagrosamente nos coloca no colo e baila conosco. A beleza dos fogos de artifício sem estampidos. Aquele instante de silêncio que nos faz encontrar o caminho do perdão. Instante para escutar o coração pulsando. A quietude do silêncio que eleva nossas preces e desejos aos céus e ao infinito. Um gesto coletivo de silêncio edificante para construir pontes e novos caminhos. Um instante de silêncio indignado para as vítimas da covid-19 e um silêncio esperançoso em homenagem a cada criança que nasceu para renovar nossas esperanças. Onde estiver, nestes últimos dias do ano, seja na companhia de quem for, ou mesmo em sua própria companhia, deixe o silêncio passar e levar você para mais um ano que se inicia. Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
Quaresma: convocados a sermos melhores

Entramos no chamado ciclo litúrgico da Páscoa, que começa com o Tempo da Quaresma. É um período muito importante para nossa caminhada cristã, pois essa espécie de retiro favorece, em última instância, uma profícua celebração da ressurreição de Jesus. A Quaresma começa na Quarta-Feira de Cinzas e vai até o entardecer da Quinta-Feira Santa. Refere-se aos “quarenta dias” de penitência, jejum, oração, silêncio e práticas cristãs para nosso crescimento e em favor dos mais necessitados. Quarenta, neste caso, significa mais um conceito do que propriamente um número. Pelo calendário, notamos que os dias deste período litúrgico vão além de quatro dezenas. Desde o início, a Igreja não conta os domingos, pois o “Dia do Senhor” não pode ser de jejum ou penitência. Na Bíblia, quarenta costuma indicar um longo período de purificação, de espera de algo que marca uma mudança de vida. E esse também é o sentido da Quaresma. Ao ter no horizonte a Páscoa do Senhor, somos convidados a reorganizar nossa existência, reconhecer nossa condição de pecadores e de pessoas necessitadas da misericórdia de Deus. Também devemos responder ao chamado à justiça, à partilha e ao cuidado com as pessoas e o planeta. Eu gostaria de sublinhar alguns aspectos da Quaresma e até ousar dar algumas dicas de como vivê-la bem. Que todos nós aproveitemos bem essa oportunidade de nos tornar pessoas melhores. A oração A oração é a prática cristã mais elementar. Independentemente do método que cada um escolhe, por ela, podemos conversar com o Senhor e, o mais importante, ouvi-lo. Pela oração, “matamos a saudade” daquele que nos criou e nos ama. Na Quaresma, devemos intensificá-la, pois é um momento importante para reorganizarmos nossa vida interior, a qual nos conduz à madura vida cristã. A Igreja nos propõe, entre outras possibilidades, meditar a Palavra de Deus (sugiro acompanhar as leituras da liturgia de cada dia), contemplar as estações da Via Sacra e participar assiduamente da sagrada liturgia. O jejum O sentido religioso do jejum é muito rico. Por essa prática, disciplinamos nossos instintos, mostrando que devemos agir com verdadeira liberdade e não por impulsos vagos, vontades nocivas a nós, aos outros, ao planeta. O jejum, no âmbito espiritual, é vazio se ele não se transfigura em amor ao próximo. Conforme um ensinamento antigo da Igreja, se deixamos de comer ou beber algo, o que abdicamos deve ser convertido em auxílio a quem passa por necessidade. Note: o jejum cristão está bem longe de tradições estéreis. Não posso deixar de destacar outros jejuns tão importantes quanto o de alimentos. Um que nos pode fazer muito bem, sobretudo nestes tempos de avalanche de informações, de copia-cola-copia, é o de palavras. Que tal dominar o impulso de curtir, compartilhar, “cancelar” e comentar tudo nas redes sociais? Não precisamos ver e interagir com tudo o que está disponível para nós. Não necessitamos falar tudo. A busca do essencial é o tom da espiritualidade da Quaresma e precisa se prolongar pelo ano. A caridade A “esmola”, juntamente com a oração e o jejum, é um dos pilares da prática quaresmal. Essa palavra anda um pouco desgastada em nossos dias. Muitos preferem chamá-la de “caridade”, cujo significado parece ser mais amplo. Como a Quaresma nos chama à conversão (ou seja, voltar para o caminho seguro), o cuidado esmerado com os outros, com a sociedade e a natureza não pode ser deixado de lado. A caridade pode ser exercida de várias formas, como na luta pela justiça e pela paz, na atenção aos sofredores, na partilha de um dom ou de um tempo para engrandecer a comunidade, no atendimento às urgências dos irmãos e irmãs. Nesse espírito, no início da década de 1960, a Igreja do Brasil criou a Campanha da Fraternidade (CF). Oficialmente, ela começa com a Quaresma, porém se prolonga por todo o ano. Vez ou outra, é organizada com outras igrejas cristãs, em sinal de comunhão em torno de Cristo, o centro de nossa fé. Das propostas da CF nasceram diversas pastorais e movimentos que fazem um bem incalculável. Assim, é de se causar enorme estranheza quando indivíduos e grupos autodenominados católicos têm aversão à CF. Batismo Como itinerário à alegria da ressurreição de Jesus, a Quaresma tem uma espiritualidade fortemente batismal. Desde o início da Igreja, nestas semanas, os catecúmenos se preparam de modo mais profundo para, na maravilhosa Vigília Pascal, serem “mergulhados em Cristo”. Também é momento para os já batizados renovarem a consciência de sua condição de “configurados ao Cristo”, “sal da terra e luz do mundo”, membros do corpo místico de Jesus. Na liturgia, quando a comunidade está “grávida” de novos filhos que nascerão da fonte batismal, algumas leituras dominicais da Quaresma são as do ano A, bem vinculadas à catequese de iniciação cristã. Silêncio O silêncio, quando bem usado, é altamente libertador e até subversivo. Uma comunidade cristã que não tolera o silêncio acaba se alienando, pois deixa de ouvir o Senhor que se manifesta na brisa suave (cf. 1 Reis 19,11-13). Quem sabe silenciar-se pode ouvir também a própria consciência e meditar nas coisas da vida. Para o opressor, isso é um “perigo”. Essa prática também é uma forma de comunhão com quem é silenciado, anulado por diversas injustiças. Aplica-se aqui também o “silêncio digital”. Por que temos de ver, (des)curtir e comentar sobre tudo? Penitência Longe de ser algo fora de moda, pela penitência, nós nos colocamos em nossa real condição: somos criaturas; Deus é o Criador. É uma forma de reconhecer que, devido a nossas fraquezas, somos necessitados da misericórdia de Deus. Pela penitência, nós nos associamos a Cristo que, mesmo tendo natureza divina, esvaziou-se de sua glória, assumiu a condição de um escravo, humilhando-se, obedecendo até à morte humilhante numa cruz (cf. Filipenses 2,6-11). É um dom poder chorar nossos pecados e, principalmente, tornar essas lágrimas motivo de busca por uma vida mais reta, mais próxima da proposta de Jesus. Sinalizada pelas cinzas, o roxo e a sobriedade da liturgia, a penitência sincera nos conduz ao arrependimento e ao alegre
Porque o silêncio é tão importante no nosso mundo barulhento

Você acorda de manhã com o barulho do despertador, depois sai para o trabalho ou pra escola e ouve o som de carros, motos e buzinas, há pessoas em todos os lugares conversando alto. E no final do dia, quando você chega em casa, liga a TV para assistir seu programa favorito ou algum vídeo que te interessa no celular. Essa rotina é familiar para você? Passamos horas e horas do nosso dia em contato com pessoas e meios de comunicação e não paramos nenhum tempo para pensar sobre como esse excesso de barulho nos prejudica, não é mesmo? Por isso hoje, no dia do silêncio, quisemos falar sobre ele. Na Bíblia, em Lucas (5:16), está escrito “Mas Jesus retirava-se para lugares solitários e orava.”. Jesus não fazia esse movimento à toa. É na paz do silêncio que aquietamos a nossa mente para encontrarmos a calma necessária para as grandes decisões. Além disso, estar em silêncio, nem que sejam alguns minutinhos ao dia, pode trazer grandes benefícios. Confira alguns: Relaxa: Quanto mais sobrecarregado você estiver, menores as chances de ter um bom desempenho na sua rotina. É importante ter momentos para pensar em si mesmo, isto alivia qualquer tipo de tensão e ajuda a esquecer os problemas. Aumenta a produtividade: Enquanto permanece em silêncio, seu cérebro consegue processar as informações absorvidas ao longo do dia. Aproveite esses momentos para focar em memorizar tudo o que aprendeu, aumentando sua produtividade. Regenera as células cerebrais: O silêncio faz com que as células do cérebro sejam regeneradas. Dessa forma, o órgão consegue absorver mais facilmente qualquer tipo de informação que você receber ao longo das aulas e estudos. Ajuda a pensar melhor: O silêncio faz o com que a concentração seja mais profunda e por isso ajuda a raciocinar melhor na tomada de decisões. Então, que tal começar hoje mesmo a silenciar sua mente? Depois nos diga como foi a experiência.