No “chão da vida” está escondido nosso verdadeiro tesouro

“O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo…; é também como um comprador de pérolas preciosas” (Mt 13,44-45) As parábolas têm sua força na luz da proposta e não na agressividade do contraste. São implicativas, têm valor universal, não precisam de um passo prévio de preparação intelectual para poderem ser compreendidas. São entendidas porque são transparentes, pequenas, sem contornos sofisticados. As parábolas nos evangelhos despertam o dinamismo da fé para acolher a novidade do Reino apresentada por Jesus. É na mesma fé que elas adquirem força para serem propostas, compartilhadas e presenteadas. As parábolas são parte essencial dos métodos terapêuticos de Jesus. Ele cura por meio de histórias, cura usando palavras que abrem o coração dos ouvintes para a própria verdade e para uma relação mais sadia com o Pai. Com seus relatos, Jesus desperta e extrai o melhor e mais nobre presente no interior de cada um; quem o escuta sente um novo movimento que o faz sair de si e abrir-se às surpresas da vida. Por isso, as parábolas apresentam uma linguagem simples, comum, próxima. Para quem as escuta ou as lê, é preciso alargar seus espaços interiores numa atitude de atenção acolhedora, de encontro, de deixar-se envolver e provocar por elas, sem ter que forçar o texto ou uma interpretação. As parábolas apresentam-se sempre como relatos abertos, provocando diferentes reações, despertando e ampliando a vida. Podemos, então, dizer que as parábolas contadas por Jesus são “arriscadas”. Não pertencem à literatura de consumo; ampliam a vida e a comprometem; pronunciá-las ou assumi-las como estilo de vida dá medo… Colocam-nos no fluxo do divino e precisamente por isso tem um atrativo muito especial: são incontestáveis. As parábolas do tesouro escondido ou da pérola procurada, presentes em diferentes tradições sapienciais, constitui um convite a encontrar ou descobrir aquilo que, mesmo sem saber, desejamos: o que realmente somos. Elas contêm várias indicações valiosas: o tesouro e a pérola estão aí, o tempo todo; trata-se simplesmente de descobri-los. Não são algo separado de nós, nem algo do qual carecemos, mas justamente aquilo que somos. Quando os encontramos ou descobrimos, tudo o mais começa a ser visto como algo secundário; e essa descoberta se traduz em alegria perene. Todo ser humano anseia por esse tesouro e essa pérola. De fato, é essa aspiração que nos move, nos faz iniciar a busca e percorrer diferentes caminhos, atraídos sempre por seu aroma de plenitude. No entanto, nessa busca pode acontecer de tudo: nos distraímos e terminamos enredados; nos conformamos com pequenas “guloseimas” ou nos entretemos com “brinquedos”, esquecendo o tesouro real; calamos a voz do desejo profundo, abafando-nos com múltiplos ruídos; dizemos a nós mesmos que a aspiração profunda é inventada e que é necessário ser “práticos” e não acreditar em “contos” ilusórios… E, mesmo no melhor dos casos, quando a busca se apoia numa forte determinação, não é fácil superar a armadilha que nos incita a buscar o tesouro ou a pérola em “algo” fora, longe ou no futuro. Há em todos nós o “bom odor” da plenitude. Mas, nossa mente, identificada com nosso ego separado, nos faz crer que a plenitude se encontra fora e aí começamos a correria que não conduz a nenhum lugar. As parábolas deste domingo nos recordam esta inspiradora verdade: nós, em nossa verdadeira identidade, somos já o que estamos buscando. Não é preciso correr para fora, porque onde temos de chegar é no nosso eu mais profundo, na nossa essência, onde somos nós mesmos. Basta pacificar a mente e, se tivermos paciência e perseverança nisso, o silêncio nos mostrará o tesouro que desde sempre aspiramos. Quando isto acontece, a busca será concluída: descobrimos o que sempre fomos e que nos permanecia oculto. Só podemos encontrar o tesouro e a pérola dentro de nós se descermos ao chão de nossa vida, ou mergulharmos nas profundezas de nossa interioridade. É normal que nós nos surpreendamos frente a frente com um “eu” desconhecido, temido ou reprimido há muito tempo. O caminho para o nosso tesouro passa pelo diálogo com os nossos instintos, com nossas paixões, com nossos problemas e fragilidades, nossas angústias e nossas feridas, com tudo quanto grita dentro de nós e consome nossa energia. A espiritualidade cristã nos mostra que exatamente em nossas feridas nós descobrimos o tesouro do nosso verdadeiro “eu” escondido no fundo de nosso coração. “Lá onde nós fomos feridos, onde nos quebramos, aí nós também nos abrimos para Deus” (H. Nouwen). Se algo nos deixa claro nas parábolas deste domingo é que a renúncia ou desprendimento evangélico não é um meio para ter acesso ao Reino, mas consequência de tê-lo encontrado. É o tesouro e a pérola que exigem e possibilitam a renúncia, uma vez encontrado. Não o inverso. É muito curiosa esta íntima relação evangélica entre a alegria e a perda. Uma alegria que nos mobiliza… e nos despoja. “A alegria é o primeiro efeito do amor e, portanto, da entrega… Pelo contrário, a tristeza é um vício causado pelo desordenado amor de si mesmo, que não é um vício especial, mas a raiz geral de todos eles”(S. Tomás de Aquino). A partir daqui se entende muito bem a ligação direta entre alegria e entrega total, pois “cada um tanto se aproveitará em todas as coisas espirituais quanto sair de seu próprio amor, querer e interesse” (S. Inácio). Sempre e quando seja um sair que nos adentra em nós mesmos, nos desaloja para poder viver “em casa”. Talvez nos ajude a recuperar o sentido da abnegação e o “custo” (vendeu tudo) como condição necessária para uma vida evangélica. É o duplo movimento do “empobrecer-nos para sermos ricos” (2Cor 8,9), para que o tesouro que nos habita seja o centro de nossa vida e não o ego inflado e estéril. E isso porque se trata de descentrar-nos, de esvaziar o ego e converter o “eu” em um receptáculo cada vez mais disponível para que Deus possa irromper e manifestar-se através dos nossos melhores recursos. Enfim, podemos proclamar esta certeza: o tesouro
A paciência que nos faz criativos

“Deixai crescer um e outro até a colheita!” (Mt 13,29) A impressão que temos é que a paciência deixou de ser a virtude de nosso tempo; parece estar ameaçada de extinção. Aumenta a ansiedade que não espera, a angústia de não ter ainda o que se busca e a inquietude que parece não ter fim. Vivemos o tempo do imediatismo, da instantaneidade e da urgência. A pressa é a marca do nosso ritmo de vida, e, por isso, nossas ações, decisões e a construção de nós mesmos são tão efêmeras e sem raízes. O impaciente se afoga em sua instabilidade, atropela tudo e rompe a harmonia, a beleza e a relação com os outros. No entanto, a paciência é a atitude que faz vir à tona um conjunto de qualidades que nos fazem crescer como pessoas: saber esperar o ritmo das coisas e pessoas, tolerar o novo e diferente, aprender a conviver com aquilo que nos é próprio e respeitar o dos demais, firmeza na adversidade, levar adiante nossas próprias convicções, deixar-nos tocar pela crítica construtiva, olhar a realidade com uma visão mais ampla, crer naquilo que podemos chegar a ser, guardar no coração aquilo que ainda não está resolvido, não atropelar as pretensões dos outros, entrar em harmonia com a natureza, sonhar com uma realidade nova, trabalhar e confiar, respeitar o tempo de maturação das pessoas… A paciência não é um controle absoluto de tudo, senão impedir que a urgência das coisas nos arraste para o turbilhão de pressas que nos impede respirar, pensar, decidir e agir com criatividade. Em hebraico, a expressão “ser paciente”, significa “ter grandes narinas”.Isso quer dizer: respirar profundamente. De fato, ser paciente é ter uma respiração larga, uma respiração profunda. Observemos a maneira como respiramos, quando estamos impacientes; a respiração se torna curta quando estamos ansiosos. Ativar em nós a paciência é entrar no fluxo do ritmo tranquilo da respiração. Ser paciente é voltar sobre nossos próprios pés, enraizar-nos, aterrissar, estar aí, não nos deixar arrastar pela emoção. Após ter expirado profundamente, alguém é capaz de escutar o outro, é capaz de ser paciente. A paciência é tecida na espera, mas também é uma virtude que se ativa no esforço constante, muitas vezes rotineiro e pouco heroico. A paciência abre a possibilidade do novo futuro, mantém acesa a busca e movimenta valores como a perseverança, o discernimento, a confiança, a resistência, a contemplação… Segundo o evangelho deste domingo, o mistério escondido numa semente e as potencialidades presentes no ser humano merecem de todos nós o sagrado respeito pelo ritmo de crescimento, suscitando em nós uma atitude de admiração e encantamento. A sementeira já foi realizada com êxito, as forças de Deus continuam agindo, mesmo ocultas e desenvolvendo-se de uma forma silenciosa. Ainda não chegou a colheita, mas, com certeza ela virá. Enquanto isso, convém esperar pacientes e tranquilos e confiar na ação providente de Deus. O ativismo, a pressa e a inquietação não nos farão atingir os objetivos que almejamos; não são as pessoas que realizam o Reino de Deus por suas forças; o Reino chega pela força de Deus e vai crescendo silenciosamente, “por si só”, sem que se perceba a sua expansão. As três pequenas e inspiradas parábolas deste domingo nos falam de espera paciente, de respeito aos ritmos e processos, de confiança no dinamismo da vida… Jesus, em diferentes intervenções, faz referência a todo o processo agrícola, desde o plantio da semente até a colheita dos frutos. Semear, cuidar do crescimento, colher… tem seu ritmo próprio, o ritmo da natureza. As três parábolas têm uma mensagem comum. Nas três, o Reino de Deus se compara com algo pequeno e, ao mesmo tempo, carregado de vida, que cresce e se manifesta pouco a pouco, a partir de dentro, sem ruídos nem aparências. Não se impõe como uma superestrutura na qual vivemos ou temos, mas que perpassa e transforma tudo, como uma força silenciosa, mas potente, que vem da natureza, não de nós mesmos. Infelizmente, estamos perdendo o ritmo da natureza e queremos que tudo aconteça com a mesma rapidez quando nos comunicamos através dos meios eletrônicos. Temos “entranhas de impaciência”. Desistimos facilmente diante da falta de frutos ou as más ervas que crescem no campo da vida; queremos que as coisas sejam como imaginamos que devem ser; queremos plantar hoje e encher os celeiros amanhã. É preciso voltar a aprender com a mãe natureza. Um olhar repousado e paciente supõe capacidade contemplativa e vida interior, aprender a diminuir a velocidade de nossas vidas, ações e pensamentos, e preparar-nos para a serenidade e para a espera criativa. “A idolatria começa com um gesto de impaciência” (Onaknin). Na parábola do trigo e joio, a impaciência dos empregados leva-os a querer ter o controle do campo, onde fora semeada boa semente. A paciência, pelo contrário, está na entranha mesma da Vontade de Deus, que quer que cada coisa se desenvolva em liberdade, com seu tempo e seu espaço, sem que ninguém se sinta ameaçado. A paciência é mão estendida para Deus e para o outro, enquanto a impaciência é um punho que ameaça e arrebata. O “apressado” coloca-se em estado de revolta contra o que ainda está inacabado, sufocando seu amadurecer e impedindo o ritmo normal de desenvolvimento. A “pressa” tende a mostrar-se raivosa e impor-se, cega, à realidade. Prisioneiro de suas limitações, o impaciente julga absurda toda demora e mostra-se incapaz de ter interesse por tudo o que o cerca. Impaciente e irado, caracteriza-se pela intolerância que é destruidora. A paciência, por sua vez, nos dispõe a olhar ao nosso redor e sermos surpreendidos por tanta beleza; ela nos possibilita aguardar e deixar-nos “tocar” por algo surpreendente. Cada um de nós recebeu milhões de boas sementes ao longo de nossa vida. Também nos foram oferecidos todos os nutrientes que precisamos para crescer em meio às más ervas, misturadas em nossa realidade interior. Será que somos conscientes de que germinar e dar frutos, fermentar e mudar nosso ambiente é um processo lento que requer
Deus é “semente fecunda” em nosso interior

“O semeador saiu para semear” (Mt 13,3) O ser humano é surpreendente, inesperado, imprevisível… é pulsação original, é interpelação inquietante; é existência peregrina, é identidade dinâmica…; é uma mina de significados e riquezas. Com inesgotável potencialidade, ele recria a natureza e tem a possibilidade de inventar a sua própria vida. Onde há ser humano há espírito inteligente, impulso de liberdade e manifestação de tenacidade. Tratar com o ser humano é tratar com o imponderável, o misterioso… Ele é seduzido pela liberdade que lhe apresenta horizontes novos e lhe abre mares desafiantes. Ele é “espaço à vida aberta”, “vida que se expande”. Com seu pensamento e seu sonho, ele habita as estrelas e rompe todos os espaços. Essa capacidade é o que nós chamamos transcendência, isto é, “transcende, rompe, vai para além daquilo que é dado”. Numa palavra, o ser humano é um projeto infinito; tem sentido de transcendência, projeta-se em muitas direções. O ser humano é mais do que parece ser. Há nele algo maior que o leva a ser mais verdadeiro, mais justo, mais criativo, mais arrojado, mais responsável… “Desejando e elegendo aquilo que mais nos conduz…” (S. Inácio). Jesus expressa toda essa originalidade e riqueza do ser humano através da parábola do camponês que, com suas mãos abertas, espalha as “sementes” em diferentes terrenos. A parábola começa afirmando: “Saiu o semeador a semear”. Ele faz isso com uma confiança surpreendente. Semeia de maneira abundante. A semente cai em todas as partes, inclusive ali onde parece difícil que ela possa germinar. De fato, na semente encontra-se presente uma grande força de crescimento… A força da vida, contida no interior da semente, envelhecerá e se extinguirá se não houver quem confie nela, e arrisque a sua terra, seu tempo e seu trabalho. Quando a semente é enterrada na terra, ela já conhece o seu caminho; ela avança passo a passo, seja durante as horas em que as circunstâncias lhe são mais favoráveis, porque é de dia e existe luz e calor em abundância, seja porque é de noite, e o ambiente para seu crescimento já não é tão propício. Escondida ali, debaixo da terra, envolvida pelo absoluto silêncio, a semente germina e vai crescendo. O talo, a espiga e os frutos conduzem toda a vitalidade da minúscula semente até a maturidade da planta. E cada árvore vive intensamente o tempo que lhe cabe viver, o tempo suficiente para produzir frutos em abundância. Ao terminar o relato da parábola do semeador, Jesus faz este apelo: “Quem tem ouvidos, ouça!”. Ele nos pede que prestemos muita atenção à parábola. Mas, em que deve estar focada nossa atenção: no semeador? na semente? nos diferentes terrenos? Tradicionalmente, nós cristãos nos fixamos quase exclusivamente nos “terremos” onde cai a semente, para revisar qual é nossa atitude ao escutar o Evangelho. No entanto, é importante dirigir nossa atenção ao semeador e a seu modo de semear. Para nós que crescemos em um contexto religioso desde a infância, a leitura literal desta parábola condicionou nossa visão da realidade em dois aspectos determinantes: o dualismo e o moralismo. Em tal leitura aparecia a imagem do Deus semeador como um alguém separado e, portanto, distante. Essa crença de separação não só alimentava um dualismo religioso – Deus frente ao mundo – de nefastas consequências, mas que era a fonte de outras ideias igualmente perigosas em suas consequências: o pecado, a culpa, a alienação, o infantilismo religioso… Com frequência, o dualismo religioso era acompanhado de moralismo. Se a semente não dava fruto numa pessoa, devia-se simplesmente à sua própria maldade, já que não havia preparado adequadamente seu “terreno”. Assim se fazia presente a culpa em quem acreditava ser um terreno improdutivo ou caía-se no farisaísmo, passando a vida limitando-se somente a cumprir normas e leis. A verdadeira “semente” é o que há de Deus em nós. “O semeador saiu.” Para semear nos campos, na terra, é preciso sair de casa. Deus é, ao mesmo tempo, “semeador e semente”. Ele “desce”, faz um Êxodo, um deslocamento em direção à humanidade, onde encontra diferentes terrenos. Em nossa terra interior já está semeada a presença de Deus; é como a semente enterrada que permanece fértil debaixo da terra desértica pela seca prolongada, e o olhar de Deus é como a chuva que ao cair desperta a vida presente na semente. Também gerará novidades em nós, convertendo-nos em vidas germinais. Deus se derrama em todos e por todos da mesma maneira, não como produto elaborado, mas como semente, que cada deve acolher e deixar-se fecundar por ela, para poder frutificar. O decisivo é tomar consciência do divino que nos habita e viver em harmonia com essa realidade. O fruto seria uma nova maneira de nos relacionar com Deus, conosco mesmo, com os outros e com as criaturas. A semente é o mesmo Deus-Vida germinando em cada um de nós; sua presença é sempre fecunda. Deus habita em suas criaturas e se manifesta em todas elas como algo tão íntimo que se constitui como semente de tudo o que é. Não devemos dar a entender que nós os cristãos somos os privilegiados que temos recebido a semente (Escritura). Deus se derrama em todos e por todos da mesma maneira (a mão-aberta). Somente aquele que se deixa semear experimenta o sabor da seiva da vida de Deus entrando por suas raízes, percorrendo seu ser inteiro, fazendo-o crescer e dando os frutos de que nosso povo precisa. Aquele que não se deixa semear vive de ilusões e fantasias que envenenam sua existência. Entrar no fluxo da ação do Semeador divino é preciso sair de nossos espaços seguros, de nossas ideias e convicções atrofiadas, de nossos próprios esquemas fechados e abrir-nos aos diferentes terrenos. Semear é uma tarefa nobre na vida: semear trigo, trabalho, cultura, educação, semear ética, valores, esperança, respeito, dignidade, sentido da vida… Ao mesmo tempo que nobre, semear é uma tarefa de grande responsabilidade. Pais, mestres, escolas, universidades, meios de comunicação, igrejas, etc., todos temos a nobre e bela tarefa de semear. Ao nos
A gratidão dá “sabor e calor” à vida

“Dou-te graças, Pai, Senhor do céu e da terra!” (Mt 11,25) Sabemos, através dos evangelhos, que Jesus foi sempre um homem de oração, de intimidade profunda com o Pai, nos silêncios da noite, nas montanhas, nos desertos… Nenhum evangelista nos relata o conteúdo da oração nestes momentos de solitude (solidão habitada). No Evangelho deste domingo, Mateus “pega Jesus em flagra” e nos revela não só o modo como Jesus vivia sua relação com o Pai, mas o conteúdo desta intimidade, através de palavras carregadas de gratidão, de assombro, de admiração…; trata-se de um louvor, um canto à vida. Estes versículos deixam transparecer um estado de exultação que não nasce de nenhum estímulo exterior concreto. Nada do que precede justifica o canto que segue. Brota, sem dúvida, de um estado permanente, cheio de agradecimento assombrado, que vai mais além de um sentimento momentâneo. É um estado de gratidão que emerge do seu coração comovido, que nem a traição e o fechamento de cidades como Corazim e Betsaida são capazes de fazer sombras. Mateus reúne aqui vários ditos, que parecem expressar atitudes e sentimentos característicos do Mestre de Nazaré. E, nesses sentimentos, deixa transparecer sua verdade mais profunda: a gratidão, a intimidade com o Pai, a proximidade bondosa para com aqueles que estão suportando fardos desumanos, o convite a permanecer na mansidão e na humildade, o oferecimento de uma mensagem que é descanso… A gratidão parece brotar aos borbotões das entranhas mesmas de Jesus. Isso não é estranho se temos em conta que, junto com a compaixão, a gratuidade constitui a coluna vertebral de toda sua mensagem. E é impossível experimentar gratuidade sem que surja a gratidão. Quando tomamos consciência de que tudo é Graça, para além de todas as expressões superficiais, brota um agradecimento espontâneo, permanente e profundo. Mas isso requer uma condição: experimentar-nos em sintonia com a corrente da Vida que procede do Pai, na qual reconhecemos nossa verdadeira identidade. De fato, ao reconhecer-nos no fluxo da Vida, em meio a tudo o que acontece, descobrimos que a gratidão é outro dos nomes de nossa identidade profunda. Na medida em que cresce a compreensão de nós mesmos, reconhecemos que, vista a partir do plano espiritual, a gratidão não é simplesmente uma ação ou qualidade – algo que podemos viver com maior ou menor intensidade -, mas outro nome de nosso ser original: “somos gratidão”, é da nossa essência mais nobre. Por isso, ao vivê-la conscientemente, experimentamos comunhão, unificação e plenitude: estamos vivendo o que somos. A gratidão é, ao mesmo tempo, um sentimento e uma atitude admiravelmente terapêuticos, capaz de sustentar o nosso “tônus vital”. Por um lado, nos afasta do funcionamento da queixa; por outro, constitui o melhor antídoto frente ao desalento ou o desânimo. Na medida em que a exercitamos, ela vai nos transformando interiormente e enriquecendo nosso modo de viver a relação com os outros. Em certo sentido, poder-se-ia dizer que ela expande o nosso próprio coração, favorece a alegria de viver e facilita poderosamente a convivência. Por pouco que a observemos, poderemos advertir que a gratidão genuína não depende tanto daquilo que nos acontece, quanto do modo como recebemos aquilo que acontece. Se damos graças unicamente quando nos ocorre algo que consideramos “agradável”, não temos saído ainda de nosso egocentrismo. A gratidão autêntica é profundamente unida com a vida, flui com ela. Nasce e se apoia na compreensão de que, para além dos juízos que nossa mente possa fazer, no fundo, tudo é graça. A gratidão está intimamente relacionada com a capacidade de “ver”. Por isso, quando sabemos ver, a gratidão aflora sem obstáculos. Pelo contrário, se permanecemos aferrados às nossas expectativas – “a vida deve responder ao meu próprio querer, interesse e desejo” -, a frustração inevitável trará consigo a resistência e o sofrimento, o enfado, a queixa e o vitimismo. A gratidão, como força que nos “des-egocentra”, nos faz tomar distância de nossos pequenos interesses e nos abre à compreensão profunda de que, em último termo, tudo é dom, tudo é dado, tudo é graça… Somos seres agraciados, “cheios de graça”. Como o amor, como a alegria, a gratidão é uma arte. E, enquanto tal, precisa ser exercitada em um treinamento cotidiano, no qual, conscientemente, damos graças por tudo. Assim compreendido, poderíamos dizer que a existência inteira de uma pessoa sábia é vivida entre duas palavras: “agradecido” e “sim”. Por tudo o que aconteceu, agradecido(a)!; diante de tudo o que virá, sim! Ao entrarmos em sintonia com o coração “manso e humilde” de Jesus temos a oportunidade de recuperar algo que a cultura pós-moderna apagou de nossa consciência: a capacidade de admiração, a possibilidade do assombro diante de tantas realidades, simples, mas divinizadas, que nos passam desapercebidas. Custa-nos muito maravilhar-nos porque não despertamos a capacidade de assombro e de valorizar tudo o que desfrutamos, desde o cosmos até pequenos prazeres diários como tomar um café em boa companhia. Nosso contexto social não facilita um contínuo louvor, um “canto à vida”. Basta repassar o olhar sobre diferentes realidades – político-econômico-religioso-cultural-ecológico – para nos dar conta da dificuldade objetiva de sairmos dos trilhos das lamentações e queixas. Esquecemos muitas coisas porque não as valorizamos até que nos faltem: saúde, convivência, trabalho, possibilidade de ajudar os outros, a capacidade de superação das adversidades, a própria vida em si mesma como um campo maravilhoso no qual podemos nos esforçar para deixar transparecer as melhores potencialidades de nosso ser… “Dar graças”, “agradecer”, “louvar”… é também uma questão de memória. Por isso o Papa Francisco fala com frequência de “memória agradecida”. Só a “memória agradecida” está em condições de nos ajudar a entender o sentido, a profundidade e a verdade dos acontecimentos, das pessoas, da realidade que nos envolve…, pois temos de adotar determinada perspectiva e certo grau de isenção no julgamento, a fim de decifrar seu significado. Ela nos distancia estrategicamente dos acontecimentos para poder captar outro sentido, escondido neles. Eles passam a serem vistos sob nova luz para serem ressignificados. Só a “memória redentora” mobiliza nossos melhores
Como integrar “Pedro e Paulo” em nossas vidas?

“E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15) Neste domingo, a liturgia nos convida a “fazer memória” de S. Pedro e S. Paulo, dois personagens instigantes, inspiradores e motivadores para todos nós cristãos, seguidores(as) d’Aquele que continuamente nos desafia com sua pergunta: “E vós, quem dizeis eu sou?”. Não se trata de dar uma resposta teológica, mas de reforçar nossa adesão e identificação à pessoa de Jesus Cristo. Por isso, cada um responde de maneira diferente, porque não há um seguimento igual para todos. Foi assim que Pedro e Paulo, com suas personalidades tão distintas, deixaram-se impactar pela pergunta de Jesus e souberam responder com a vida; por isso, eles são referências para nós. Há perguntas inofensivas, fáceis de responder e que não nos comprometem. O problema está quando nos fazem perguntas nas quais nos sentimos implicados. Há perguntas que parecem ser de pesquisas; e há perguntas que nos desvelam por dentro. Há perguntas secundárias sobre as quais podemos dizer qualquer coisa. E há perguntas essenciais que nos movem a falar de nós mesmos. E essas perguntas doem porque são perguntas que desnudam o fundo de nosso coração. São perguntas que nos implicam naquilo que somos realmente. O perguntar é ousado, instigante; perguntar contém desafio, provocação; leva dose de irreverência. “Perguntar é mergulhar no abismo” (Exupèry). As perguntas têm uma força que não encontramos nas respostas. Enquanto perguntamos por alguém, palpita em nós um impulso, um interesse que não se apaga enquanto não sacia nossa curiosidade. A pergunta é movimento; é a pergunta que faz emergir a novidade, pois ela ativa a busca por uma resposta criativa. Mais ainda, perguntar põe em crise certas convicções, ideias fechadas, modos arcaicos de viver… e nos mantém em busca permanente. É neste nível que surge a pergunta de Jesus aos discípulos, na região de Cesareia de Filipe. Ele não pergunta aos seus discípulos sobre o que pensam a respeito do Sermão da Montanha ou sobre sua atuação curativa juntos aos doentes da Galileia. Para seguir Jesus, o decisivo é a adesão à sua Pessoa. Por isso quer saber o que eles pensam e sentem, depois de um tempo de convivência com Ele. Jesus propõe a pergunta fundamental, “e vós, quem dizeis que eu sou?”; uma pergunta exigindo que eles se examinem a sério, que tomem consciência do que pretendem, que explicitem as reais motivações que os levam a segui-lo. Responder à pergunta “Quem sou eu para vocês?” é fazê-los comprometer com um novo estilo de vida, é assumir o novo caminho com Ele, é arriscar-se numa aventura. A pergunta é desafiadora, e não simples curiosidade e inquietação, e se dirige a todos. Cada um tem de dar sua resposta. Ela exige uma tomada de posição, um ato de fé. Pedro e Paulo responderam com suas vidas à pergunta feita por Jesus; por isso, eles não são somente duas colunas que sustentam a grande comunidade cristã; eles representam as duas dimensões essenciais para o dinamismo da Igreja. A liturgia intuiu que é preciso integrar as identidades destes dois personagens. Não se pode privilegiar um em detrimento do outro. Nos Evangelhos, Pedro é o pescador que, impactado pela presença e pelo convite de Jesus, vai entrando, aos poucos, em sintonia com Ele. Um encontro que vai crescendo em adesão à proposta do Reino; um caminho de seguimento que tem seus momentos de obscuridade e de crise, sobretudo ao ver o fracasso do Mestre condenado pelas autoridades religiosas e políticas. Pedro é o protótipo do cristão que vai se convertendo, abrindo-se à presença desconcertante de Deus na conduta histórica de Jesus. Em Pentecostes, Pedro fala em nome dos primeiros discípulos, cuja fé vem a ser normativa para todas as gerações que se sucedem na história da igreja. Ele confessa o artigo central e original da fé cristã: “Jesus Cristo é o Filho de Deus vivo”. E se a Igreja se mantém firme nessa confissão, nada nem ninguém a destruirá. Entre os discípulos de Jesus, Pedro foi, sem dúvida, o mais atirado, o mais impulsivo, com o perigo que isso implica. Era o líder do grupo, o primeiro a falar em qualquer circunstância, sem medo de repreender Jesus quando este anuncia sua paixão, sem medo de levar uma reprimenda quando Jesus quer lavar os pés ou quando anuncia que todos o trairão. O fato de ser tão lançado o situa também no lugar mais perigoso, o da negação de Jesus. Mas, ele mesmo termina confessando depois da ressurreição: “Tu sabes tudo, tu sabes que te amo”. Não é novidade que Jesus o visse como o líder natural do grupo depois de sua morte e ressurreição. Paulo, por sua vez, é o homem universal. Alcançado e convertido pela presença do Ressuscitado, ele abriu a Igreja ao mundo grego e romano, superando os moldes da religião judaica. Com sua itinerância, rompeu as fronteiras geográficas, culturais e religiosas, pois, para ele, o Evangelho de Jesus é anúncio de salvação para todos os povos. O que muitos não conhecem é a revelação que Deus lhe fez e que ele tanto insiste em suas cartas: que a boa notícia de Jesus não era só para os judeus, mas também para toda a humanidade. A expansão da Igreja primitiva é humanamente inconcebível sem a figura de Paulo. Percorreu milhares de quilômetros e se expôs a todo tipo de perigos para levar o anúncio de Jesus “até os confins da terra”. Em chave de interioridade, podemos afirmar que Pedro e Paulo são também dimensões de nosso ser. “Pedro” representa a solidez interior, a certeza, a convicção, os valores… Viver a “dimensão Pedro” é cuidar dos fundamentos de nossa vida, a rocha sobre a qual construímos a maneira de viver o seguimento de Jesus. Nossa própria interioridade é a rocha consistente e firme, bem talhada e preciosa que temos, para encontrar segurança e caminhar no seguimento superando as dificuldades e os inevitáveis golpes na luta pela vida. É no “eu mais profundo” que as forças vitais se acham disponíveis para nos ajudar a
Medo ou confiança: quem determina nossa vida?

“Não tenhais medo!” (Mt 10,31) Uma das grandes insistências de Jesus no Evangelho é, sem dúvida, esta: “não tenhais medo!”. Jesus sempre se revelou um profundo conhecedor da condição humana; percebeu claramente que muitas pessoas eram marcadas por tremendos medos, impedindo-as de viver com sentido e plenitude. Ele tinha plena consciência de que os maiores medos eram alimentados pela religião, centrada nas leis, nos ritos, nas doutrinas… gerando sentimentos de culpa e angústia diante do futuro. Pior ainda, eram os controladores da religião que manipulavam os medos, tendo o controle sobre as pessoas e impondo a imagem de um Deus que ameaça e castiga. É o chamado “poder de consciência” exercido pelas autoridades religiosas que tem feito e continua fazendo tantos “estragos” nas consciências dos indivíduos. Diante dessa dura realidade, Jesus sempre procurou despertar a esperança nas pessoas, alimentando um clima de confiança no Pai e da busca de vida plena: “Vim para que todos tenham vida e vida em plenitude”. Medo e confiança são duas emoções fortes presentes no desenvolvimento do ser humano; dependendo de como alimentamos uma ou outra, assim será nossa vida: carregada de medo (atrofia, paralisia existencial…) ou de confiança (criatividade, mobilização dos melhores recursos internos, busca, inspiração…). O medo é o oposto da confiança. Os neurocientíficos confirmam que ambas as emoções usam as mesmas redes neuronais. Isso quer dizer que, alimentar o medo, consciente ou inconscientemente, significa solapar a possibilidade de confiar. O medo nos incapacita para a confiança, que é a atitude humana sobre a qual se assenta o dom da fé; o medo seca as fontes da esperança, impedindo-nos viver com prazer e alegria. Sabemos que o medo é uma emoção importante que nos permite detectar as ameaças e proteger-nos diante delas. Faz parte, portanto, de nosso equipamento biológico. Seu objetivo primeiro é defender-nos, seja fugindo, seja ativando energias para enfrentar a ameaça. O problema surge quando a ameaça não é real, mas fabricada e alimentada por nossa mente, como consequência de medos “herdados” através de gerações, de experiências infantis mais ou menos traumáticas ou da ignorância de quem realmente somos. O medo é um câncer que ameaça à fé, ao amor e à esperança de pessoas e instituições; ele corrói as fibras humanas, asfixia talentos, esvazia a vida e mata a criatividade. O medo encolhe o ser humano, inibe a decisão e bloqueia os movimentos em direção ao “mais”. A intensidade do medo pode anular a capacidade de reação das pessoas ou das instituições; ele impede o discernimento e a busca da solução mais inteligente para os problemas; longe de resolvê-los, pode agravá-los a médio e longo prazo. O medo nos acovarda e nos constrange, nos isola e nos obriga a viver na defensiva, em permanente estado de alerta. O medo é paralisante; o medo nos impede ser nós mesmos; o medo nos acovarda diante daqueles que não pensam como nós; o medo impede afirmar nossa identidade de seguidores(as) de Jesus. O medo nos mimetiza como alguns insetos que, diante do perigo, mudam de cor para não serem vistos e reconhecidos. O medo pode minar nossas esperanças, esvaziar a capacidade de amar, atrofiar a força de nossas ideias… Enfim, o medo obscurece o sentido e a direção da vida, tira o brilho tão próprio do amor, nos bloqueia e nos enterra na acomodação mesquinha. O medo não só é explorado por empresas que se dedicam a todo tipo de seguros, mas também pelas religiões, que exploram seus seguidores, vendendo-lhes o “paraíso”, depois de ter-lhes infundido um medo irracional ao sagrado. Somos bombardeados constantemente por uma “pastoral do medo”, que continua tendo uma influência nefasta. Geralmente, os controladores das religiões tentam manipular a “divindade” para colocá-la a serviço de seus interesses egoístas. O medo induzido é o instrumento mais eficaz para dominar os outros. Historicamente, as autoridades religiosas utilizaram sempre desse expediente para conseguir a docilidade de seus súditos. Evangelicamente falando, o medo é sinal de que ainda não entramos na dinâmica do Reino, no caminho de Jesus; o medo nos faz refugiar numa fé alienante, que não arrisca nada, que não se compromete com nada, que não vai mais além de nossa autorrealização narcisista, fechados numa prática devocional estéril. Os medos não costumam apresentar-se de rosto descoberto; mascaram-se, porque são sintomas de debilidade; tornam-se vergonhosos para nós. Eles se disfarçam para se tornarem mais aceitáveis. Existem muitos medos escondidos por trás das atitudes tirânicas de rigidez, de legalismo, de intransigência ou de intolerância. Recorremos a eles para ocultar-nos e defender-nos contra o novo e o diferente. O Papa Francisco afirma que por detrás das atitudes intolerantes está o frio hálito do medo. O medo empurra na direção dos individualismos, dos fanatismos e das soluções que contemplam simplesmente os próprios interesses. O medo enche de sombras o horizonte, tornando impossível uma decisão clarividente e ordenada. O medo cega, agita a imaginação e precipita juízos e decisões, criando impedimentos sérios para a vivência da fraternidade e para a coragem de compreender a vida como doação de si para o bem dos outros. Quem é capaz de sentir compaixão, bondade, mansidão… não se deixa afetar pelo medo e nunca será fanático nem intolerante, nem intransigente… Frente a tais medos-fantasmas, criados e alimentados por uma mente temerosa e ignorante, a mensagem das pessoas sábias aparece marcada pela confiança. É o que percebemos em Jesus de Nazaré, quem, de maneira constante, insiste: “Não tenhais medo”! Confiai! A confiança brota da compreensão, da certeza de que aquilo que somos se encontra sempre a salvo. Nas palavras do próprio Jesus: “podem matar o corpo, mas não podem matar a alma”. A confiança não surge de um voluntarismo a toda prova, mas da experiência profunda de quem é Deus para nós. Aceitar e acolher nossas limitações e descobrir nossas verdadeiras possibilidades é o único caminho para chegar à total confiança. Confiar em Deus é confiar em nosso próprio ser, na vida, naquilo que somos de verdade. Não se trata de confiar em um ser que está fora de nós
“Chamado-seguimento” com a marca da compaixão

“Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas…” (Mt 9,36) O atributo primeiro do Deus de Jesus não é o poder, a majestade, o senhorio…, mas a compaixão. Ele não vem para impor-se e dominar o ser humano. Aproxima-se para tornar nossa vida mais digna e ditosa. Esta é a experiência que Jesus comunica em suas parábolas mais comovedoras e a que inspira toda sua trajetória a serviço do Reino de Deus. De fato, na sua vida pública, Jesus deixa transparecer o rosto do Pai compassivo na sua relação com a humanidade, sobretudo com os sofredores, vítimas de violência e exclusão. A imagem do Deus revelado por Ele não está acima ou à margem do sofrimento humano. Jesus é a primeira testemunha da compaixão do Pai; Ele foi o primeiro a viver totalmente a partir deste sentimento tão divino e tão humano, desafiando claramente o sistema de santidade e pureza que predominava naquela sociedade. Ele quer que, a partir de então, os enfermos, os famintos, os excluídos… experimentem em sua própria vida a compaixão de Deus. A atuação de Jesus era diferente das autoridades religiosas, pois Ele via tudo a partir da compaixão de Deus. O que lhe preocupava, antes de mais nada, era o sofrimento que destruía, humilhava e marginalizava tantas pessoas. Jesus não caminhava pela Galileia buscando pecadores para convertê-los de seus pecados, mas aproximava-se dos enfermos, famintos e endemoninhados para libertá-los de seu sofrimento. É precisamente esta compaixão de Deus que faz Jesus tão sensível ao sofrimento e à humilhação das pessoas, que o atrai para as vítimas inocentes: os maltratados pela vida ou pelas injustiças dos poderosos. Sua paixão pelo Deus do Reino se traduz em compaixão pelo ser humano. O Deus do templo, o Deus da lei e da ordem, do culto e do sábado, não poderia alimentar sua entrega a todos os sofredores. Por isso, a compaixão, é a opção e atitude fundamental de Jesus diante dos sofredores, famintos e excluídos. Diante deles, Ele não permanece impassível, mas sente remover suas entranhas. A palavra hebraica que se traduz por compaixão é “rahamim”, derivada de “rahem”, ventre, entranhas. Na antropologia bíblica, ventre é o lugar da compaixão e é aplicado a Deus, pois só Ele é capaz de atuar compassivamente a partir de suas entranhas. A tradição bíblica do Êxodo apresenta Javé movido pela compaixão diante dos sofrimentos do povo hebreu; Ele escuta os gritos que chegam ao céu e compromete-se com a libertação da escravidão do Egito (Ex 3,7-12). A compaixão também está na base da legislação hebraica que defende os direitos dos órfãos, das viúvas e dos estrangeiros, os mais vulneráveis entre o povo. É o centro da mensagem e a prática dos profetas de Israel, para quem a religião verdadeira não consiste em oferecer sacrifícios, mas em fazer o bem, estabelecer o direito e praticar a justiça. A compaixão expressa, portanto, uma reação visceral, o estremecimento mais íntimo e humano que uma pessoa pode experimentar. Nesse sentido, a compaixão é o motor da vida e da conduta do ser humano. A partir de sua experiência radical da compaixão, Jesus introduz na história um princípio decisivo de ação: “Sede compassivos como vosso Pai é compassivo” (Lc 6,36). A compaixão é a força que pode mover a história para um futuro mais humano. A compaixão ativa e solidária é a grande lei da dinâmica do Reino, aquela que faz reagir diante do clamor daqueles que sofrem e mobiliza a todos para construir um mundo mais justo e fraterno. Esta é a grande herança que os cristãos precisam mantê-la sempre ativa. Afinal, eles são seguidores do Compassivo. A compaixão é a virtude por excelência proclamada no Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os compassivos…”. Felicidade e compaixão são inseparáveis. Uma pessoa é feliz partilhando e aliviando a dor das pessoas que sofrem. A falta de entranhas de misericórdia torna infelizes aqueles que não praticam tal virtude e aqueles que sofrem. Por isso, pode-se dizer que se trata de um princípio ético universal, que transcende todas as culturas e religiões, de maneira que, precisamente por isso, está presente onde há humanidade. A compaixão é comum a todos e é anterior a toda instituição religiosa. Ela está inscrita no mais profundo de todo ser humano, independentemente de sua opção religiosa. Fomos criados à imagem e semelhança do Deus Compassivo e trazemos “tatuado” em nossas entranhas a marca da compaixão, que é continuamente ativada diante dos dramas da vida humana. Este sentimento, tão humano e tão divino, constitui a essência do nosso “eu” verdadeiro e revelador da nossa identidade mais original e profunda. No entanto, quando nos deixamos seduzir pelo “ego inflado”, a compaixão se atrofia, a sensibilidade se petrifica, os afetos se esvaziam… Consequências: agravamento da cultura do ódio, da intolerância, do preconceito e da indiferença frente à realidade marcada pela violência, miséria e exploração. Compaixão bloqueada dá margem ao processo de desumanização. O eu entrincheirado em seu “bunker” necessita passar por um processo de higiene e saúde, respirar novos ares, não viciados ou contaminados; precisa abrir suas portas e janelas ao outro, sair às ruas, fazer-se presente junto às situações desumanizadoras. Viver fechado em si e para si termina por afogar-se nas águas poluídas do narcisismo. Só a compaixão vem a ser o melhor antídoto contra o egoísmo tão enraizado no ser humano. Impulsionado pelo sentimento da compaixão ele quebra as paredes de seu “bunker”, sai ao encontro do outro e se compromete com ele. Escreve E. Levinás: “a partir do momento em que o outro me olha, eu sou responsável por ele”. No evangelho deste domingo, Mateus nos deixa claro que foi no contexto da compaixão de Jesus diante da multidão faminta e sem pastor que o “chamado e o envio” acontecem. O chamado de Jesus emerge do calor da compaixão; só este sentimento tão nobre dará inspiração e sentido ao seu seguimento. Sem se deixar guiar pela compaixão, o seguimento de Jesus “passa pelo outro lado” diante do sofrimento humano e se torna cúmplice dele. A alternativa
Olhares que destravam vidas

“Ao passar, Jesus viu um homem chamado Mateus…” É curioso: nossa identidade também se revela no modo de olhar; somos o que olhamos; somos como olhamos. Alguns dizem: “Dize-me como olhas e te direi quem és”. Trata-se de uma linguagem universal, para além das palavras. Diariamente vivemos de olhares, imersos neles, amando ou condenando, acolhendo ou rejeitando. Quem não experimentou alguma vez sentir-se especial diante do olhar do(a) outro(a)? Quem não provou o peso de um olhar julgador que, como um dardo venenoso, atravessou as entranhas? O olhar diz muito mais do que pensamos. Há olhares que ocultam um poder imenso: maliciosos, sensuais, provocativos, inocentes… Há olhares intensos e penetrantes que conseguem despertar nosso lado mais selvagem e passional, e que ultrapassam a barreira de nosso ser, permanecendo gravados em nossa mente. Há olhares que falam por si sós, sem necessidade de nenhuma palavra, que transmitem sentimentos, desejos e afetos. Igualmente há olhares que deixam transparecer uma personalidade venenosa, destrutiva e daninha e que, muitas vezes, nos fazem afastar dessas pessoas pelas más sensações que nos causam. Não nos enganemos; os olhares não são neutros. Eles desvelam (tiram o véu) o mais profundo da pessoa. A maneira com que olhamos uma pessoa, a forma com que respondemos a um olhar, muitas vezes vai determinar a diferença entre um encontro memorável e grandioso ou um encontro repulsivo e constrangedor. Corações petrificados e insensíveis se expressam nos olhares que matam, que fecham as portas e condenam aqueles que são diferentes; há olhares que delatam, que invejam e que não suportam o bem alheio; olhares de morte, impessoais e indiferentes, superficiais e interesseiros; olhares embriagados de soberba, calculistas, gélidos. Olhares sem luz e sem Deus. Mas também sabemos que há olhares que curam e reconfortam; olhares que são oásis e sombra acolhedora, que protegem e bendizem; olhares que são bálsamos que aliviam feridas, derramam consolo e compreensão. Olhares cheios de amor para com o outro, que tornam a vida mais fácil. Olhares tolerantes, que não levam em conta o mal, mas tudo suportam e tudo esperam. Olhares que transmitem o bem e que embelezam seus destinatários, fazendo-os melhores e extraindo o melhor deles. A Revelação vem nos ensinar que Deus “olhou” para a humanidade, e seu olhar de amor foi tal que desceu até o mais profundo da condição humana. A Encarnação do Filho foi determinada a partir de um “olhar” que saiu do coração da Trindade, que pousou sobre o mundo e que voltou ao seu coração, estremecendo-a de compaixão e movendo-a à ação redentora. Assim também nossa presença no mundo deve ter sua origem no olhar misericordioso e compassivo, amoroso e esperançoso… Precisamos reaprender a olhar as pessoas nos olhos para despertar em nós a consciência da bondade humana, cujas raízes foram plantadas por Deus no coração de cada uma delas. E quando somos capazes de olhar nos olhos, com simplicidade, podemos encontrar no coração do outro uma imagem do nosso próprio coração. Quem é a referência e o modelo na arte de olhar? O Mestre da Galileia que, passando pelos lugares cotidianos, olhou a todos como ninguém nunca olhou, extraindo o melhor de cada pessoa em cada circunstância, ativando possibilidades inimagináveis, mobilizando todos os seus recursos vitais… Seu olhar transformava as pessoas em maravilhosas obras de arte. Durante sua vida, Jesus passou entre nós com um olhar profundo e que chegou a comover muitas e diferentes pessoas: os discípulos, convidando-os a segui-lo; os pecadores, oferecendo seu perdão; os enfermos, oferecendo cura; os excluídos, oferecendo sua acolhida… Seu olhar nos inspira a olhar o mundo e as pessoas de maneira diferente; olhar que recupera e vibra frente à novidade, que capta a verdade, a beleza e o bem presente em tudo e em todos; olhar que recolhe das margens os olhares perdidos, distraídos ou derrotados de tantos irmãos caídos que necessitam, com urgência de um “olhar cristificado” que os salve. O que salva é o olhar. O evangelho deste domingo nos situa diante do olhar arrebatador e transformador de Jesus. O sujeito do primeiro verbo é Jesus: “viu um homem chamado Mateus”. Jesus estava em movimento, e Mateus, pelo contrário, estava parado, passivo, “sentado junto à banca”, apegado à sua condição de cobrador de impostos, preso a uma profissão que o tornava desprezível aos olhos de todos. Mas os olhos de Jesus souberam ver além das aparências: viram no publicano um discípulo, um seguidor. Para esse olhar ninguém está sentenciado nem qualificado definitivamente, mas tem o futuro diante de si. Pela primeira vez, Mateus sentiu-se olhado de outra maneira: alguém acreditou nele e o chamou, e por isso ele se transformou em alguém dinâmico que deixou para trás seu passado, assumiu o protagonismo de sua própria vida e se pôs a caminho atrás d’Aquele que foi capaz de olhá-lo assim. No olhar de Jesus não há, nesse primeiro momento, nem exigência, nem correção, nem sequer chamado à conversão; tão somente um apelo para entrar em outro nível de relação com Ele. Com seu olhar provocativo Jesus arrancou Mateus de sua mesa (mesa que o distanciava dos outros, mesa da traição do seu povo e que o fazia colaborador do império romano, mesa que o fazia sentir-se inimigo do povo, mesa da exploração, da solidão, da acomodação, da fixação… mesa da morte). Em casa de Mateus, Jesus funda uma outra mesa: mesa da comunhão, da partilha, da festa, mesa da fraternidade onde todos se sentem iguais… Mesa da vida. Trata-se de uma mesa provocativa, questionadora, incômoda… que requer mudança de lugar, de mentalidade, de atitude… transformação interior. “Virar a mesa”, eis a questão! Porém, a aventura de “troca de mesa” requer uma troca de “senhor”. Para Mateus, a troca de mesa só foi possível a partir da troca de “senhor”: deixou a mesa da dependência ao imperador romano e abriu espaço interior para a presença de Jesus e dos outros. Ele correu o risco de assumir a mesa da liberdade e da comunhão. Mateus não tem mais mesa fixa (deixa de
Corpus Christi: “Eu sou o pão descido do céu”

“Quem consome a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna…” (Jo 6,54) Com a afirmação “eu sou o pão vivo que desceu do céu”, Jesus manifesta o sentido de sua Encarnação. Ele não usa como sinal o legado poderoso, os atributos régios, os resplendores, as armas, os tronos, as vestes nobres: usa como sinal o pão, ou seja, vida que se desfaz em favor dos outros. Vida expansiva para que outros vivam. Jesus compreendeu-se a si mesmo no pão, ou seja, ser para os outros alimento e alegria. Grãos e espigas moídos para alimentar. Jesus é reconhecido no pãoque “desce” e desaparece nos outros, dissolvendo-se no mais íntimo de cada um, despertando alento, dando calor, força e sentido a partir de dentro. Jesus Cristo, ao fazer-se pão, acolheu tudo quanto é humano e desta maneira tudo redimiu. Em sua humanidade, Ele alimentou e saciou nossas carências mais profundas; ao mesmo tempo, ativou e despertou outras grandes “fomes”: comunhão, compaixão, solidariedade… Assim, no gesto do partir e repartir o pão se condensou todo o caminho de Jesus: vida que se doou para aliviar todo “sofrimento humano” (curas), para proporcionar a “refeição partilhada” (ceias e multiplicação dos pães) e para ativar “novas relações humanas” (sermão da montanha). Celebrar o “Corpus Christi” é atualizar estas três preocupações centrais da vida de Jesus. Aqui se conecta a essência de Sua vida na vida dos seus(suas) seguidores(as). “Descer” e “subir”, portanto, são imagens para descrever o processo de transformação realizado por Jesus no interior de cada um de nós. Não podemos “subir” se não estivermos dispostos a “descer” com Ele ao nosso “húmus”, às nossas sombras, à condição terrena, ao inconsciente, à nossa fraqueza humana. Assim como na Encarnação o Verbo “desce” e se faz visível através das fendas e feridas da humanidade, Ele continua “descendo” e se fazendo “pão” nas profundezas de nosso ser, integrando e pacificando tudo. “Assim novamente encarnado” (EE 109), nos diz S. Inácio. A Encarnação, portanto, não é um evento ou um ato isolado da história; a Encarnação é atitude eterna de Deus. Ele “é” Encarnação contínua, desde toda eternidade. Esta é a verdade, a revelação emocionante, a grande novidade do evangelho, que recolhe o que há de mais profundo da mensagem e da vida de Jesus: para dar alimento é preciso fazer-se alimento. Jesus não só ensina e dá o alimento, mas Ele mesmo “desce” e se converte em alimento. Esta é a sua novidade “teológica”, sua novidade humana, a verdade mais profunda da Eucaristia: compartilhando o pão de Jesus (em memória de sua Encarnação, de sua vida e de sua morte), seus discípulos descobrem que Jesus mesmo é alimento e que eles devem se fazer alimento uns para os outros. Jesus, ao se “humanizar”, se faz “pão”, humanidade convertida em alimento para os outros. A Vida Eterna não se revela num gesto de pura interioridade, mas no encontro e comunhão de uns com outros… Quem crê nos demais, quem compartilha com eles a vida tem a vida eterna, porque entra no fluxo do “Pão Eterno” que se manifestou na Encarnação. Nesse contexto é preciso dizer que o verdadeiro alimento é a vida mesma do ser humano: Jesus se fez alimento para os outros, saciou a fome de justiça e amor. Ele é o alimento que gera vida nova no mundo, vida oferecida e compartilhada. Um alimento “subversivo” porque subverte a tradicional “ordem” das coisas. “Eu sou o pão da vida.” Antes de partir o pão, Jesus parte-se a si mesmo, faz-se alimento. Toda sua vida foi entrega, desde sua Encarnação. Sua vida inteira dá significado ao partir, compartilhar e repartir o pão da vida. Porque Jesus é “pão descido do céu” e porque compartilhamos sua vida, também nós podemos e devemos “descer” e sermos comunhão de vida. Neste sentido, todos somos “pão no Pão”. Cada ser humano é “pão vivo, descido do céu” para outro ser humano; cada homem, cada mulher é revelação de Deus, pão de vida eterna para os outros. Por viver neste nível, por entregar-se e compartilhar a vida neste plano, os homens e mulheres “não morrem”, tem vida eterna. E é isso que, no nível mais profundo, somos todos. Todos somos Vida, todos somos “pão de vida”. Somos pão quando alimentamos o outro na esperança, no perdão, na acolhida, na compaixão, no compromisso… Sim, podemos multiplicar o pão da festa, da alegria, o pão da justiça, o pão da ajuda fraterna… Quanto pão para ser dividido! “Tornar-nos pão” significa “descer” à nossa própria condição humana para expandi-la em atitudes de serviço, partilha, solidariedade… Jesus, ao se encarnar, quis resgatar a vida humana, fazendo-se gente, sentimento, fome, alimento…, na realidade humana. Seu caminho? A vida a partir da mesa, do pão e da festa da partilha. Uma das chaves de compreensão da pessoa de Jesus é a relação d’Ele com a “mesa do pão”, pois Ele passou de mesa em mesa, até se deixar fazer pão na grande mesa da Ceia Pascal. Em todos os encontros de Jesus com os excluídos do Reino, Ele sempre os incluiu em suas refeições. Se para nós, a mesa já era bendita, sagrada…, depois da Encarnação e da Vida de Jesus, ela se tornou mais ainda um lugar de encontro no sacramento do pão partilhado. Desde então, cada vez que dela nos aproximamos, o “Verbo feito carne” continua sua ação salvífica, recriando cada vez mais a vida em expansão. De fato, depois do Verbo fazer-se “carne” e “pão”, a mesa eucarística tornou-se lugar de transformação, de evolução humana e cósmica, o lugar de comunhão por excelência com o Criador. Na pregação de Jesus e, mais tarde, na experiência das primeiras comunidades, deu-se um salto qualitativo: do pão se passou ao pão vivo; da água aos rios de água viva que emanam nas entranhas; do vinho ao sangue que é expressão da vida. Jesus pediu “ir mais além” daquilo que os cinco sentidos podem captar, para abrir-nos ao mistério da vida partilhada e entregue. Simbolicamente,
“Se tu vês a caridade, vês a Trindade” (Santo Agostinho)

“Deus amou tanto o mundo…” (Jo 3,16) Com a festa da Santíssima Trindade, chegamos ao cume do tempo litúrgico pascal. A revelação nos diz que nosso Deus não é solidão, mas comunhão de Pessoas: Pai-Filho-Espírito Santo. A Trindade não é um problema numérico (três em um), mas um mistério de amor, de salvação e de vida. Deus-Trindade é, portanto, a relacionalidade por excelência; total relacionalidade de cada uma das pessoas divinas com respeito às outras, de tal forma que se implicam e incluem reciprocamente sempre e em cada momento, sem que uma seja a outra. Deus só existe como ser em relação. A grande novidade cristã é que a divindade só existe comunicada, partilhada. Deus é relação. Deus é só relação. Deus é só amor. “No princípio está a relação” (G. Bachelard). Deus é essencialmente relação; e essa relação, “num belo dia”, transbordando de vida, transbordando de gratuidade, pôde abrir-se a nós para nos fazer existir, concedendo-nos o ser e convidando-nos a entrar no fluxo dessa mesma relação trinitária. Jesus não pregou sobre a Trindade, mas abriu o caminho que conduz ao Pai e enviou seu Espírito. A partir de sua própria experiência de Deus, Jesus convida seus seguidores a se relacionarem de maneira confiada com Deus Pai, a seguirem fielmente seus passos de Filho de Deus encarnado e a se deixarem guiar e alentar pelo Espírito Santo. Ele os ensina, assim, a se abrirem ao mistério santo de Deus. Também os primeiros cristãos não elaboraram argumentos sobre a Trindade (nem Pedro, nem Paulo, nem os evangelhos, nem mesmo os chamados Padres apostólicos), mas todos falaram sem cessar do Pai, do Filho Jesus e do Espírito Santo. Só no final do séc. II e princípio do séc. III alguns teólogos audazes começaram a falar da Trindade e descobriram que esse nome era mais cômodo para referir-se, ao mesmo tempo, ao Pai, a Jesus e ao Espírito, de maneira que começaram a empregá-la com certa frequência. A Trindade não é um dogma separado da Bíblia ou da Igreja; no centro da Bíblia e da vida cristã se encontra o mistério de Deus-Pai, que conhecemos por Jesus e compartilhamos pelo Espírito Santo, em sua união e diferenças. Esses Três, que são Um, em amor e vida, constituem o que, com palavra imperfeita, mas talvez imprescindível, chamamos Trindade, para confessar por ela que o Deus dos homens é dinamismo de vida e impulso de amor na mesma história dos homens. Entendida assim, a Trindade constitui, com a Encarnação, o centro do mistério cristão: por ela sentimos e sabemos que Deus é fonte inesgotável e comunhão criadora de amor que anima e sustenta a história dos homens. Conta-se que, certa vez, um homem provocou S. Agostinho dizendo que não podia ver a Trindade. Este lhe respondeu: “Tu vês a Trindade quando vês a caridade” (De Trinitate VIII, 8,2). Esta resposta, tão fulgurante como esclarecedora, nos situa no coração do mistério de Amor que presidiu a Criação, centrou-se na Encarnação e alcançará sua plenitude na Ressurreição. A partir desse Amor vivemos a fé e a comunhão trinitária como a expressão mais adequada da vida única, radiante, irradiadora, do Pai, do Filho e do Espírito Santo que, contemplando-se um ao outro, se revelam como fonte e origem de tudo o que existe. A criação inteira procede das entranhas amorosas das Três Pessoas divinas; não só isso, a Criação é também morada da Trindade; em tudo encontramos “marcas” da ação trinitária e, de maneira especial, onde a caridade é vivida. Assim, à luz da afirmação de S. Agostinho, podemos sentir e “ver” a Presença da Trindade lá onde o amor se expande e se externaliza na prática da caridade. Esta é a nossa credencial como seguidor(a) de Jesus: a vivência do amor, desse amor que contempla a vida e sente o pulsar da Trindade na beleza da criação e na dignidade de cada ser humano. Portanto, o mistério da Trindade não é uma verdade a ser pensada, mas uma presença a ser vivida; presença que perpassa tudo e se faz visível em toda realidade; presença que ultrapassa tudo o que pensamos e refletimos sobre ela. Só quem tem olhos contemplativos vê as “marcas” da presença do Deus Uno e Trino em tudo e em todos. É da essência da Trindade ser “amor em movimento”; por isso, onde há amor e caridade, aí está a Trindade; e só corações solidários são capazes de entrar no fluxo desse amor e adorar o Deus trinitário. Sabemos que “caridade” provém de “cháris” = Graça. Caridade é Graça em ação, é amor incondicional, é dom gratuito, é favor concedido a alguém, é generosidade radical. A caridade é a visibilização da ação trinitária. O ser humano entra no movimento amoroso da Trindade quando sai de si e se revela presença solidária juntos aos mais necessitados; ali ele deixa transparecer o rosto amoroso da Trindade. Aqui está a grandeza do ser humano, criado à imagem e semelhança do Deus Trindade. E é fácil intuir isso: sempre que sentimos o dinamismo de amar e ser amados, sempre que sabemos acolher e buscamos ser acolhidos, quando compartilhamos uma amizade que nos faz crescer, quando sabemos dar e receber vida…, estamos saboreando o “amor trinitário” de Deus. Esse amor que brota em nós tem n’Ele sua fonte. Por isso, quem vive o amor a partir da Trindade aprende a amar a quem não lhe pode corresponder, sabe doar sem esperar recompensa, é capaz de compadecer-se dos mais pobres e excluídos, pode entregar sua vida para construir um mundo mais amável e digno de Deus. Nesse sentido, o melhor caminho para aproximar-nos do mistério da Trindade não são os tratados teológicos que falam dela, mas as experiências amorosas que compartilhamos na vida. Só encontramos e “vemos” a Trindade com o coração. Quem é incapaz de dar e receber amor, quem não sabe compartilhar nem dialogar, quem só escuta a si mesmo, quem resiste relacionar-se com os outros, quem só busca seu próprio interesse, quem só deseja o