A ferida invisível da ingratidão: entre o ideal do bem e a dignidade do sujeito

Há dores humanas que não aparecem nos diagnósticos clínicos, mas que corroem silenciosamente a alma. Entre elas, a ingratidão talvez seja a mais profunda. Quando o servir implica anulação da pessoa, corre-se o risco de transformar vocações vivas em desertos áridos. Veja o artigo do Pe. Cristóvão Gonçalves, missionário do Verbo Divino.

Fardos pesados X fardos leves

A psicologia e a religião, historicamente, sempre tiverem embates. O pai da psicologia, Freud, considerava a religião como uma muleta para o ser humano lidar com o medo. Há preconceito dos dois lados. Parte também de religiosos, em geral, em relação à psicologia. No entanto, na história, houve psicólogos cristãos que contrariaram Freud e provaram que é possível usar a espiritualidade como ferramenta de cura. O mais conhecido deles é o neuropsicólogo Victor Frankl, o fundador da logoterapia, contemporâneo de Freud. Ele nasceu em 1905 e faleceu em 1997. Como ele, muitos outros reconhecem, nos ensinamentos de Cristo, elementos da psicologia. O escritor e religioso americano Mark W. Baker tornou-se muito conhecido ao publicar uma obra na qual reconhece a psicologia na atuação de Jesus. A obra, muito conhecida pelos brasileiros, chama-se Jesus, o maior psicólogo que existiu, publicado no País pela Editora Sextante, em 2005. Como psicólogo cristão, eu também encontro, em minhas reflexões dominicais dos evangelhos, elementos que podem ser usados como psicoterapia na busca da cura da alma. Tenho sempre a preocupação de não relativizar nem uma, nem outra: religião e psicologia. Assim, neste artigo, eu gostaria de apresentar minha reflexão sobre uma passagem bíblica que se encontra no Evangelho de Mateus (11,25-30). Esse texto narra que Jesus louva o Pai, Deus, por ter revelado (tirado o véu dos olhos) algumas coisas aos pequeninos, aquilo que os intelectuais da época não puderam compreender, pois estavam cheios da ciência da Lei antiga. Em seguida, Jesus faz um convite: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados pelo peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso”. Que fardos seriam esses? Sabemos que um fardo de materiais, principalmente cereais e alimentos, conforme os carregamos, tornam-se pesados. Por exemplo, um fardo de algodão ou de arroz, ou de feijão, ou de farinha pode começar pesando 60 quilos, mas, enquanto o carregamos, ele pode dar a sensação de pesar muito mais. Quanto mais tempo o carregarmos, mais pesado pode parecer. Olhando os sofrimentos da alma que as pessoas trazem até ao atendimento de psicoterapia, assim como ao atendimento do confessionário, posso associá-los metaforicamente a esses fardos mencionados por Jesus. Um fardo muito comum que as pessoas carregam por anos é o fardo da mágoa. A falta de perdão e a falta de ser perdoada pesam em tudo o que a pessoa faz. Alguns persistem por anos, até décadas. A doença da alma então se transforma em doenças físicas, somáticas, neuróticas. Tais pessoas se queixam de doenças, no entanto os exames laboratoriais não confirmam os lamentos. Há ainda outro fardo muito presente nos pacientes hoje. Trata-se da ansiedade. Essas pessoas vivem focadas no medo do futuro, do que de ruim possa acontecer. É difícil convencê-las de que o “perigo” é imaginário. Esse fardo se torna tão pesado que se transforma em alergias, quedas de cabelo, taquicardia, tremores, insônias, falta de apetite. Muitas vezes, desencadeiam uma depressão leve, moderada ou grave. Um terceiro fardo que gostaria de mencionar é o fardo da necessidade de visibilidade. Alguns pacientes têm medo de perder admiradores, seguidores, curtidores, etc. Por esse motivo, perdem o sono, perdem a paz. É uma mistura de vaidade, narcisismo e vazio interior. Isso pode evoluir a um quadro de arrogância, prepotência. Alternativa oferecida por Jesus E qual seria o fardo leve que Jesus oferece com alternativa a esses fardos pesados? Para o primeiro fardo, o das feridas produzidas pela mágoa, pela falta de perdão, Jesus propõe o oposto: o perdão. Um perdão sem limites. Ele afirma: “Não perdoe só sete vezes, mas setenta vezes sete vezes” (Mateus 18,21-22). Ensina ainda: “Se seu irmão tiver alguma coisa contra você, deixe a tua oferta e vá se reconciliar com ele enquanto ainda há tempo”. Quem já perdoou sabe a verdade dessas palavras. Após uma reconciliação, um reconhecimento de suas falhas, as pessoas sentem certa leveza. Após uma confissão, por meio do sacramento da reconciliação, a alegria se torna contagiante. Para o fardo da ansiedade, o Mestre propõe o fardo leve: “Por isso vos digo: não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida maior que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário? A cada dia basta a sua preocupação” (Mateus 6,25-34). Para o terceiro fardo mencionado, o do desejo de visibilidade, Jesus adverte: “Sabeis que os chefes das nações a dominam e os grandes fazem sentir seu poder. Entre vós, não deve ser assim. Quem quiser ser o primeiro entre vós seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o maior entre vós seja o vosso escravo” (Mateus 20,20-28). “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” (Mateus 11,29). Com esta reflexão, penso que se pode desvelar, revelar, tirar o véu a respeito da importância da espiritualidade e da religião como aliada da psicologia. Revela que a religião não é cafona, antiga, retrógrada, alienada, como muitos críticos o afirmam. Há muitas outras passagens bíblicas em que Jesus convida o ser humano a olhar para dentro de si mesmo, deixando-o livre para segui-lo ou não. Para aceitar sua ajuda ou não. Muitas vezes, ao afirmar “A tua fé te salvou”, ou “O que você quer que eu faça?”, Ele atua como um psicoterapeuta que leva o paciente a elaborar seus conteúdos. Como Ele próprio afirmava sempre, “Não tenha medo”. Faça uma sessão de terapia com o maior psicólogo que existiu. Não custa nada. Pe. Aparecido Luiz de SouzaMissionário do Verbo Divino e psicólogo.

Mindfulness”: a arte da atenção plena

O fim do ano se aproxima. Na Igreja, celebra-se o tempo de espera, chamado Advento. Depois virá o Natal, o réveillon. Dezembro e janeiro são marcados por muitas festas, confraternizações, passeios, férias. Haverá muitas reuniões de amigos e parentes. Muita gente estará presente fisicamente, mas será que, de fato, estará presente? Haverá sempre aquela pessoa que estará apenas fisicamente ali em cena, porque a mente estará divagando sabe-se lá por onde. Em tempos de ansiedade, algumas mentes estarão pensando na próxima refeição, no dia seguinte, no ano seguinte… Alguns estarão conversando de olho no celular. Muitos estarão conversando com alguém à sua frente, mas, ao mesmo tempo, observando o celular, navegando pelo Youtube, Facebook, Instagram, Twitter, TikTok, Kwai, etc. Cada sinal sonoro de notificação será capaz de interromper até mesmo a melhor experiência de convivência física. A melhor conversa, a melhor partilha, a melhor atividade, a melhor refeição. Quanto a você: já esqueceu o nome de alguém minutos após ser apresentado a essa pessoa? Muitas vezes, você já leu uma página da Bíblia ou de um livro e teve de voltar ao início da página porque já esquecera o que estava escrito no início? Já teve de usar o controle remoto para voltar o filme, porque você estava olhando, mas não estava assistindo às últimas cenas? Mais de uma vez, você já se distraiu numa missa, como celebrante ou como participante, e se perguntou se já tinha rezado uma determinada parte da liturgia? Já rezou o terço no automático, pensando nos afazeres logo após? Quantas vezes você tomou um suco ou comeu alguma comida sem observar o sabor? Já conversou com alguém olhando para o relógio ou bocejando durante a conversa? Se mesmo estando bem de saúde isso acontece com você frequentemente, eu o convido a pensar comigo sobre o significado de mindfulness. Em inglês, essa palavra significa atenção plena. Sugere estar atento, ter atenção e lembrar; estar alerta a todo o momento; manter nossa consciência viva para a realidade presente; estar clara e determinadamente alerta ao que realmente nos acontece em momentos sucessivos da percepção, ou seja, “sair do piloto automático”. É uma ferramenta muito útil na psicoterapia. Dá importância ao momento presente. É muito usada também na meditação. Na prática terapêutica, chama a atenção para a necessidade de estar por inteiro diante do paciente. Na prática pastoral, seja por parte dos religiosos, missionários, confessores, diretores espirituais, seja por parte das lideranças e coordenações leigas de comunidades, pastorais, grupos ou movimentos, esse conceito nos lembra do cuidado que deveríamos ter para com o outro diante de nós. É tratar a pessoa diante de você como se fosse o próprio Jesus. Esse conceito tem sido usado ultimamente, com frequência, para controlar a ansiedade, o estresse, a depressão e até a obesidade. Tem chamado a atenção também para a necessidade de sentirmos autocompaixão. Como podemos exercitar a atenção plena? Uma prática formal necessita da ajuda de um profissional de Psicologia. No entanto, práticas informais são possíveis, como o treinamento diário dos cinco sentidos (audição, visão, tato, olfato e paladar). Assim, dando atenção ao caminhar, ao comer, ao meditar, ao dirigir, ao ouvir o outro. Até mesmo olhar para nós mesmos e sermos mais compassivos com nossos próprios limites, problemas, incapacidades, medos e frustrações. Por que somos compassivos com os outros e rígidos com nós mesmos? Vale a pena pesquisar mais sobre o assunto. Pe. Aparecido Luiz de Souza, SVDPsicólogo.

Adoção: um ato de amor, um sentido para a vida

Em 2002, foi criado no Brasil o Dia Nacional da Adoção, estabelecido para ser comemorado em 25 de maio. Adotar uma criança ou um adolescente é, em primeira instância, um ato de amor. A despeito de todos os trâmites burocráticos e legais, adotar significa abrir nossa vida, nossa casa, nosso amor a um ser humano que precisa de nossa ajuda. Junto a esse status de ato de amor, pode-se dizer que adotar também é um ato de fé. Fé em um mundo melhor, com valores mais sólidos, respeito e dignidade para todas as pessoas. Ao adotar uma criança ou um adolescente, damos o maior passo que alguém pode dar na direção do cuidado com outro ser humano. Há um ditado japonês que fala que vive mais quem encontra um sentido na vida. Muitas vezes, as crianças adotadas passam a ser o sentido da vida dos pais. O legado deixado pelos pais, biológicos ou adotivos, no formato abstrato de ética e moral, é a mais valorosa dádiva que alguém pode receber. Doar seu amor, seu carinho, todas as condições necessárias para que uma pessoa se desenvolva, faz do ato de adotar um grande sentido de vida. No Brasil, as adoções ainda não conseguem dar conta do montante de crianças em abrigos, que esperam por alguém que resolva tomá-las como filhos. Somos um país pobre, que, infelizmente, nos últimos anos, voltou para o mapa da fome. Além das razões financeiras, adotar ainda exige a quebra de paradigmas quanto aos laços sanguíneos. Por mais que os estudos de genética do comportamento e do próprio genoma humano estejam muito avançados, ainda não se pode afirmar, com certeza, que o comportamento se deva somente a influências do meio. Tal fator, somado ao dado de que a maioria das crianças disponíveis para adoção são aquelas cuja história de desestruturação familiar, violência doméstica, morte dos genitores em situação violenta colabora para que as pessoas sejam resistentes à adoção. Mesmo assim, os números são animadores e têm crescido. O Brasil teve aumento de 11,9% nos casos de adoção em 2021, em relação a 2020. Tal dado corrobora a teoria de que, cada vez que a humanidade passa por períodos de grande agitação e estresse, em seguida, aumentam os números de nascimentos e adoções. Foi assim ao fim da II Guerra Mundial, quando a explosão de natalidade foi chamada “baby boom”. A pandemia de covid-19 talvez tenha trazido muitas indagações sobre o sentido da vida para as pessoas que aumentaram os números da adoção em 2021. Afinal, se, segundo Sigmund Freud, o maior medo do ser humano é o medo da morte, um de seus maiores deleites é buscar a felicidade. São inúmeros os casais cujo objetivo principal de se candidatarem à adoção é a busca desse sentido na vida, a oportunidade de amar uma pessoa em crescimento. O aumento da idade da mulher para se ter o primeiro filho também cresceu consideravelmente há mais de 30 anos. A entrada da mulher no mercado de trabalho, consequentemente sua necessidade de formação, tirou-a da linha reprodutiva e construtora de famílias por um tempo. Muitas começam a pensar em formar uma família após os 35 anos. Biologicamente, a mulher tem uma condição que a diferencia consideravelmente do homem na questão reprodutiva. Quanto mais velha, mais difícil se torna a gestação natural. Na falta de condições financeiras para a FIV (fertilização in vitro, processo de reprodução assistida), ou por outras impossibilidades biológicas e patológicas, a adoção acaba sendo a alternativa que mais certamente dará resultados para se ter um filho. Grupos de apoio a adoção estão espalhados pelo Brasil. Fazem reuniões obrigatórias para se entrar na fila da adoção, e os futuros pais aprendem sobre seus filhos, sem os ter ainda. Porém o exercício projetivo mostra pais esperançosos de que, nos meses seguintes, sejam capazes de carregar seu filho e não um boneco realista. Ao contrário de alguns países, como o Japão, por exemplo, que tem elevado índice de adoção de homens adultos, entre 20 e 30 anos, no Brasil, a adoção dos mais jovens é muito mais frequente. Quanto maior a distância temporal do nascimento, mais difícil se torna para a criança ou adolescente ser adotado. No Japão, a prática centenária se deve ao valor que a tradição sanguínea e a hereditariedade de direito têm. A busca de casais por filhos adotivos adultos, principalmente se são possuidores de alguma empresa familiar, é alta. Além de adotá-los como herdeiros, o processo também inclui se casar com a filha herdeira. Nesse caso, o homem herdará o nome da família da esposa para poder perpetuá-lo. Os brasileiros, por sua vez, acreditam que, quanto mais jovem, e mais “sem memórias” for a criança adotada, mais fácil será sua adaptação aos novos pais. Outro fator importante no Brasil é o propósito legal e jurídico de não se separarem irmãos. Ou seja, caso os pais biológicos percam o direito sobre todos os filhos menores de 18 anos, a preferência na adoção é que todos sejam adotados pela mesma família, evitando assim sua separação. Esse fator também acaba por impedir, muitas vezes, que a adoção se realize. Seja a adoção burocrática ou não, fato é que uma criança reacende a chama da vida numa família que pode estar desesperançada. É muito comum que técnicas para “revelação da origem”, ou seja, quando se conta para a criança que ela não é filha biológica, sejam apresentadas argumentações como: “O papai e a mamãe eram muito tristes até o dia em que Papai do Céu trouxe você de presente”; ou ainda, “Você não nasceu da barriga da mamãe! Você veio do meu coração! Por isso você é nosso filho do coração! Porque é no coração que a gente sente que ama uma pessoa. E eu sinto aqui, no meu coração, como eu amo você desde o dia em que você veio para a nossa casa”. Neste Dia Nacional da Adoção, que todos os brasileiros possam parar um minuto e pensar na importância que há em dar a uma criança ou

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