O tesouro da liturgia doméstica no Natal

A pandemia não trouxe apenas dor, luto, lágrimas. Estamos sendo obrigados a rever várias atitudes, inclusive dentro da prática religiosa. Assim, eu gostaria de deter-me um pouco nesse aspecto. Antes de entrar no tema do Natal, acho bom partilhar algumas considerações. Nestes meses, foram revelados, escancarados alguns problemas que quase sempre existiram, mas andavam meio disfarçados pela correria do cotidiano. Sem querer esgotar a lista, destaco aqui o clericalismo (não apenas de clérigos, diga-se!); o desconhecimento da amplitude litúrgica de nossa Igreja (até hoje, muitos pensam a liturgia apenas como a missa); e o “assistir” passivamente aos ritos, seja pela tevê, seja pelas redes sociais; em resumo, aflorou-se a ignorância ou a omissão quanto às bases existentes desde o início da Igreja e restabelecidas, com louvor, pelo Concílio Vaticano II. Os perigos reais da famigerada covid-19 obrigaram comunidades de fé a terem de respeitar o isolamento, afetando gravemente a vida eclesial. Um dos lados positivos dessa história é a Igreja ter tirado a poeira que escondia um tesouro: as liturgias domésticas. Até pelos séculos IV, V, os seguidores de Jesus se reuniam na chamada domus ecclesiae para celebrarem os sacramentos, serem instruídos, organizarem a caridade e consolarem-se. Muitos de nossos ritos atuais são herança desse tempo. O cristianismo, contudo, passou a ser “religião oficial”, e isso levou os cultos para ambientes públicos, cheios de pompa. A liturgia doméstica valoriza o sacerdócio comum dos batizados. Essas celebrações, devem estar em comunhão com a Igreja, mas não se atrelam a certos protocolos dos ofícios comunitários. O despojamento, a brevidade e, claro, o ar familiar dão o tom. Por isso não é recomendável transferir mecanicamente para o lar o modelo da igreja paroquial. Em tempo: é importante sublinhar que esse formato é “outra liturgia” e não se opõe jamais à comunitária. Ambas podem (e precisam) conviver, mesmo depois da pandemia. Para a liturgia doméstica do Natal O Natal é oportunidade para uma tocante celebração na domus ecclesiae deste início de Terceiro Milênio. Há inúmeras propostas elaboradas por especialistas, quase todas maravilhosas! Vale reforçar: como é uma autêntica liturgia, o presidente é Cristo! Ele está presente, de forma real, na Palavra proclamada e na reunião dos batizados. Ouso sugerir alguns encaminhamentos. Evitarei aqui dar os textos prontos, pois cada Igreja-lar tem sua autonomia para dirigir ao Senhor as próprias orações. Nunca é demais recordar que o povo de Deus, em Cristo, é sacerdote, profeta e rei, e, pelo Espírito Santo, sabe como fazer (cf. Romanos 8,26-27). No que couberem, as orientações são válidas também para quem, devido ao isolamento, tem de celebrar sozinho ou para inúmeros outros contextos, como junto ao leito de um enfermo, por exemplo. Jesus veio para todos! O ambiente Escolha um lugar significativo para sua família. Pode ser em torno do presépio, da mesa das refeições cotidianas, na sala de estar, na varanda, no quintal… Evite ornatos alheios ao espírito cristão, próprio dessa solenidade. Considere como alienígenas figuras do Papai Noel, neve artificial, renas, trenós, duendes e outros penduricalhos. Jesus é o centro! A luz é um elemento significativo do Natal, por isso, se for oportuno, haja pelo menos uma vela. Ela pode ser acessa no início da celebração, na proclamação do Evangelho ou em outro ponto do rito. A Bíblia é outro sinal a estar presente desde o início da oração. Afinal, Cristo é a Palavra que se fez ser humano e veio viver conosco (cf. João 1,14). Em outros contextos, faça as devidas adaptações. Os ministérios Escolha com antecedência alguém para presidir o momento. É recomendável que a leitura bíblica seja proclamada por quem tem mais aptidão para leitura. Também seria muito significativo a pessoa mais idosa conceder a bênção final. Há outros ministérios que podem ser exercidos, como o de música. Como é uma liturgia, repito, haja o devido esmero: a preparação do espaço, o contato prévio com as leituras, o ensaio dos cânticos. Informalidade não significa falta de capricho. As crianças É muitíssimo louvável o envolvimento das crianças. Que tal, após a proclamação do Evangelho, uma delas colocar a imagem do Menino Jesus sobre a manjedoura? Em seguida, as outras podem depositar flores no presépio. O importante é elas se sentirem acolhidas. Essa é uma das heranças não corroídas pela traça (cf. Mateus 6,19-20). Com certeza, levarão por toda a vida uma doce recordação desse dia sagrado e, queira Deus, sigam o exemplo. As leituras Recomendo vivamente que as leituras acompanhem as da liturgia solene. Isso demonstra comunhão com toda a Igreja e ajuda a manter o foco na vinda de Jesus. Jesus está presente também no Pão da Palavra, por isso é uma hora especial. Podem-se proclamar todas as leituras ou apenas algumas delas, porém não se deve deixar de lado o Evangelho. A seguir, as indicações: Para quem celebra na tarde do dia 24 de dezembro: Isaías (62,1-5); Salmo 88/89; Atos dos Apóstolos (13,16-17.22-25); * Evangelho de Mateus (1,18-25). Para a celebração da noite de 24 de dezembro: Isaías (9,1-6); Salmo 95/96; Tito (2,11-14); * Evangelho de Lucas (2,1-14). Para quem celebra na madrugada do dia 25 de dezembro: Isaías (62,11-12); Salmo 96/97; Tito (3,4-7); * Evangelho de Lucas (2,15-20). Para a celebração nas outras horas de 25 de dezembro: Isaías (52,7-10); Salmo 97/98; Hebreus (1,1-6); * Evangelho de João (1,1-18 ou 1,1-5.9-14). Preces Com a família reunida, é salutar dirigir a Deus louvores, pedidos e agradecimentos; interceder por outros familiares, pelos sofredores, pelos vizinhos, pelos falecidos, pelo mundo. Recomendo que as preces sejam breves e bem objetivas. Depois todos rezam juntos o Pai-Nosso. Caso haja membros de diferentes denominações cristãs, pode-se recitar a versão ecumênica. Bênção à mesa Um gesto sacratíssimo é bendizer a Deus por Ele nos nutrir com o Pão da Palavra, da Eucaristia e com o alimento a sustentar-nos o corpo. Seria muito oportuno que todos, juntos, abençoassem a reunião em torno da mesa, um prenúncio do alegre banquete na Casa do Pai e anunciado por Jesus. Outra possibilidade é o membro mais idoso ou quem preparou a ceia
Natal da Casa Comum

Enfim, chegamos ao fim do ano de 2020. Para muitas pessoas, este é um período em que as reflexões sobre as próprias atitudes, desejos e planos passam a fazer parte dos pensamentos. Entretanto vivemos um período bastante atípico, pois tais reflexões permeiam os pensamentos de muitos de nós há meses. Muitas famílias precisaram se reestruturar. Muitos profissionais precisaram se reinventar. Muitos trabalhadores descobriram novas habilidades. Perdemos muitas vidas, não somente causadas por uma nova doença, mas também pela ganância de algumas pessoas, destruindo parte de nossa Casa Comum, em busca de riqueza material. Algumas pessoas perderam a esperança. Entretanto, em meio a tantas novidades, desafios, dor e medo, tem sido possível resgatarmos partes simples, mas fundamentais para a vida em qualidade de todos os seres. Tivemos, como nunca, a oportunidade de refletir, por um tempo maior, a respeito do que realmente importa. Para você, o que realmente importa? Como resposta a essa pergunta, em um momento entre alguns educadores do Colégio Espírito Santo, no qual partilhávamos reflexões e memórias de trabalhos já realizados neste período em anos anteriores, concluímos que, para nós, o que realmente importa é o amor. Amor às pessoas, à natureza, à vida. Neste ano, fizemos uso da tecnologia em situações que nunca havíamos imaginado. E, por que não a utilizar para dividir amor e bons desejos? Afinal, quando compartilhamos amor e emanamos energias positivas, não devemos escolher quem receberá, apenas nos permitimos sentir e contagiamos o outro com os bons sentimentos. Assim, para dividirmos os bons pensamentos, neste Natal, criamos, junto com nossos alunos da educação infantil, 1º e 2º anos do ensino fundamental, um livro virtual no qual cada criança registrou, por meio de desenhos, palavras, frases ou cartinhas, qual o significado do Natal para cada um e quais desejos nossas crianças querem compartilhar com todas as pessoas do mundo. A princípio, esse material será enviado a todas as famílias do Colégio Espírito Santo e todos os alunos de nossos centros educacionais. Mas a ideia (e nosso desejo) é que o amor registrado em cada página alcance e afete o maior número de pessoas possível e, assim, conseguiremos, juntos, celebrar o Natal, a vida e o cuidado em nossa Casa Comum. É com muito carinho que dividimos com você os dois volumes deste livro virtual. Para isso, basta acessar os links a seguir. Sinta-se abraçado, também, neste Natal! Clique na imagem. Nathalia Fernandes Soares Hino é coordenadora pedagógica da educação infantil do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP.
4º Domingo do Advento

“Faça-se em mim segundo a tua palavra”Lc 1,26-38 Maria de Nazaré é a terceira figura importante nas leituras do Tempo do Advento. O texto de hoje é riquíssimo e mereceria um tratamento muito mais pormenorizado. É essencial para entendermos a figura de Maria tal como apresentada nas Escrituras. No esquema de Lucas, a anunciação à Maria se contrapõe àquela feita a Zacarias (Lc 1,5-22). Naquele relato, é feita a um sacerdote, idoso, no Templo. No texto de hoje, a uma moça, jovem, no dia a dia de um lugarejo, Nazaré. O sacerdote não acredita e fica mudo, simbolizando que os ritos do Templo não têm mais nada a dizer. Maria acredita e é proclamada “bendita entre as mulheres” (1,42). Infelizmente, muitas vezes, este trecho é interpretado de maneira a nos apresentar uma Maria totalmente passiva, sem expressão. Ideologicamente, foi usado para insistir que as mulheres, no mundo e na Igreja, deveriam ficar passivas e sem expressão. Tal interpretação distorce totalmente o que Lucas quer nos dizer. Maria, embora não entenda plenamente (Lc 1,29; 2,19; 2,50ss), aceita não somente ser instrumento da vontade de Deus, mas ser protagonista da realização desse plano divino. A frase “faça-se em mim” não deve ser interpretada de uma maneira passiva, mas como o grito de entusiasmo de quem quer ser colaboradora na realização da visão que Deus tem para o mundo. Não se refere somente ao fato de engravidar (isso seria muito pouco), mas à grande visão de Deus para os seus filhos e filhas. Um pouco adiante Lucas vai mostrar o alcance dessa frase, quando, na boca de Maria, ele coloca o grande canto de libertação, que é o Magnificat. Não é possível entender a profundidade da frase de Maria, na Anunciação, sem ler também o Magnificat (1,46-55). O que Maria quer quando ela pede que seja feita nela a vontade de Deus? Ela quer a realização da viravolta no mundo, que é o advento do Reino de Deus, quando Deus vai “dispersar os homens de pensamento orgulhoso; precipitar os poderosos dos seus tronos e exaltar os humildes; cobrir de bens os famintos e despedir os ricos de mãos vazias” (1,51-53). Em um mundo onde a realidade é a prepotência e a violência dos poderosos contra pobres e indefesos, e onde as mulheres, muitas vezes, estão na liderança da resistência, Lucas nos apresenta Maria como protagonista da concretização do Reino. Como ela, quem realmente quer receber o Salvador no Natal deve comprometer-se, de uma maneira concreta, na construção de um mundo novo, de justiça e fraternidade, tão contrário ao que vivemos hoje, em tantos lugares, e que Maria canta no primeiro capítulo de Lucas. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
CIM celebra o Dia Internacional do Migrante e apresenta novidades

Em 18 de dezembro, o Centro de Integração do Migrante (CIM), localizado em São Paulo-SP, celebra o quinto aniversário e o Dia Internacional do Migrante. A data foi proclamada em 4 de dezembro de 2000, com a Resolução 55/93 da Assembleia-Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), diante do aumento do fluxo migratório no mundo. Há dez anos, em 18 de dezembro de 1990, a Assembleia adotou a Convenção Internacional sobre a Proteção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migratórios e de suas Famílias. Celebrar significa, antes de tudo, uma oportunidade para reconhecermos a contribuição das(os) migrantes ao bem-estar, à economia, à cultura, à religiosidade trazidos de tantas nações. É promover o respeito a seus direitos humanos e à cidadania universal de que são detentores como cidadãos membros da família humana. O CIM tem como propósito acolher e integrar as(os) migrantes na capital paulista. O centro oferece um espaço físico no bairro do Brás como uma alternativa de devolver a dignidade e a autoestima, muitas vezes deixadas para trás forçadamente. Para o CIM, nestes cinco anos de existência, o mais significativo é lembrar a acolhida, com o testemunho das(os) migrantes de encontrar um lar, uma casa, uma família. A escuta, a orientação, a capacitação, os acompanhamentos marcaram a vida desde as crianças até os mais idosos, pessoas vindas de países vizinhos ou dos mais distantes, com culturas riquíssimas e religiões diversas. O CIM aprende todo dia com essas riquezas. Muitos são os momentos oferecidos pelo CIM para integrar nacionalidades: momentos de convivência, intercâmbio, delícias gastronômicas, música, dança. As crianças, sempre uma alegria à parte, foram as mais beneficiadas com muitas atividades socioculturais e lúdicas, integrando diferentes países como Congo, Chile, Brasil, Bolívia, Peru, Paraguai. Especialmente neste tempo tão difícil por que estamos passando, de distanciamento físico, a partilha e a solidariedade chegaram a mais de 1200 famílias. Nossa especial gratidão a cada pessoa, a cada migrante e a cada instituição que fez sua doação generosa e solidária. O ano de 2021 nos espera com desafios ainda maiores, mas temos certeza de que poderemos retornar nossas atividades com as crianças, adolescentes, jovens, homens, mulheres tão sedentas de amor, respeito e conhecimento. Não param a saudade e os pedidos para o retorno dos cursos de português, inglês, espanhol, manutenção de computadores, empreendedorismos, bolos e salgados. A orientação segura sobre como obter documentos, acessar serviços públicos, o apoio psicológico, as rodas de conversa com as mulheres, enfim, o atendimento diário, a escuta ativa, o papo informal de quem confia batem todo dia à nossa porta. Teremos novidades. Uma delas é a formação de um grupo de mulheres; o reaproveitamento de retalhos, produzindo peças de artesanato; um espaço para uma enfermeira e orientação sobre saúde; alternativas de saúde, por meio da ioga, conhecimento do corpo e exercícios de relaxamento. No CIM, as necessidades e desafios se transformam em disposição e criatividade. A motivação em servir a irmã, o irmão migrante está sempre, graças a Deus, nos rodeando. Avante! Assista o depoimento da Ir. Malgarete falando sobre a história do CIM Irmã Malgarete Scapinelli Conte, SSpS
É tempo de celebrar

Estamos chegando ao fim deste ano tão desafiador. Desde o início da pandemia, sabíamos que não seria fácil enfrentar este momento inédito e global. Em março, entramos em crise. Não exclusiva de nosso país, de nossa cidade ou de nossa escola. Uma crise vivida em todo o mundo, sem distinção de classe social ou etnia. O mundo literalmente parou. Mais de 1,5 milhão de pessoas perderam suas vidas. Só no Brasil, já foram mais de 180 mil. Foi preciso adaptar-se, seguir novas regras e afastar-se dos que amamos como medida de cuidado. Foi difícil… E continua difícil, afinal somos todos humanos e permanecemos com medo e inseguros com o que ainda vem pela frente. Estamos completando nove meses em que nossas escolas estão fechadas, que nossos pátios estão silenciosos, as salas de aula vazias. Compartilhamos com nossos educadores e alunos a dor da saudade e da ausência. Para chegarmos até aqui, foi preciso nos unir e caminhar juntos. A tecnologia foi imprescindível nesse processo. No momento de maior complexidade, que foi a suspensão das aulas presenciais, tivemos a tranquilidade de saber que os colégios de nossa Rede de Educação contam, há mais de quatro anos, com uma plataforma digital educacional, que já estava em pleno funcionamento e inserida na rotina dos educadores e estudantes. Assim, seguimos firmes em nosso compromisso de garantir a educação de qualidade a nossos alunos, mesmo que de forma remota. E, para isso, a união entre nossos educadores foi fundamental. Não teríamos chegado até aqui sem o apoio de cada um que ressignificou a forma de ensinar com tanta dedicação e carinho. Estejam certos de nossa gratidão a cada de um de vocês. Em breve, teremos um novo ano pela frente, que ainda não saberemos como será… Contudo podemos lembrar São Paulo na Carta aos Tessalonicenses, que nos convida a dar “graças em todas as circunstâncias, porque essa é, a vosso respeito, a vontade de Deus em Jesus Cristo”. Por esse motivo, queremos celebrar. Celebrar o nascimento de Jesus Menino. Celebrar a vida. Celebrar 2020. Celebrar a esperança junto de nossos educadores no dia 18 de dezembro, às 20h, pelo canal da Rede de Educação. Ainda é tempo de reflexão, de esperança e de cuidado. Vamos exercer a solidariedade e empatia com o próximo! Um Natal feliz e abençoado, com orações por dias melhores. Irmã Maria de Fátima Marques, SSpS, diretora presidente da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo.
Coroa do Advento: símbolo da casa, símbolo doméstico

Desde sua origem, a coroa de Advento tem um sentido especificamente religioso e cristão: anunciar a chegada do Natal sobretudo às crianças, preparar-se para a celebração do santo Natal, suscitar a oração em comum em família, mostrar que Jesus Cristo é a verdadeira luz, o Deus da Vida que nasce para a vida do mundo. Compreendendo o símbolo Para compreender a coroa do Advento, precisamos mergulhar no mistério dos símbolos. Esse mistério é silencioso e despretensioso, sem muito interesse de convencer nem de impor-se racionalmente. O símbolo sempre vem e faz parte de nossa vida. Sem símbolos, sem gratuidade, sem beleza, a vida fica cinza, opaca e tristemente dura, pragmática, implacável e insuportável. Qual o sentido de cada vela do Advento? No tempo em que não havia energia elétrica nas casas, quando se fazia noite, e a escuridão impedia muitos afazeres, acender uma luz era uma coisa muito importante, até mesmo religiosa. Esta reflexão sobre o Advento serve para responder a uma pergunta: qual o sentido de cada vela do Advento? Essa pergunta fica muito difícil de responder, pois as palavras não dão conta de algo tão complexo e que fala de experiências. Símbolo é uma relação; como comer uma refeição preparada pela mãe. Não se explica. Apenas se come e se enche o coração do amor maternal. Poderia dizer ainda daquele abraço na hora do pranto. Agarra-se a outra pessoa, apertando forte, sem explicações, permitindo que apenas o corpo fale. Acender uma vela, de domingo a domingo, nas quatro semanas que precedem o Natal, perfaz um ciclo de espera. Tem a ver com aguardar alguém desejado, no meio da noite. Esse alguém pode ser aquele que vem iluminar a escuridão mais profunda da vida, como um noivo amado que nos aquece com o seu amor, ou um Senhor zeloso nos deixa guarnecidos para produzir luz, ou ainda Aquele que incendeia nossa lâmpada, pois o símbolo nos escapa da compreensão racional, é experiência… É preciso entrar no jogo do acendimento, esvaziar-nos das perguntas, não impor respostas nem arriscar explicações. Abrace a experiência sem buscar “os porquês”. Contemple o silêncio, arrisque-se. A coroa do Advento é originalmente um símbolo da casa, um símbolo doméstico. Quando for preparar uma coroa do Advento em sua casa, curta a experiência de colher plantinhas verdes de seu quintal. Ordená-las entre as quatro velas, que você poderá colocar numa vasilha circular (um vaso ou prato), onde se possa manter as plantinhas úmidas e viçosas; evite colocar plantas de plástico. Se necessário, renove as plantinhas. Além da coroa como tal, com as velas, é uso antigo pendurar uma coroa (guirlanda), neste caso sem velas, na porta da casa. Em geral, laços vermelhos substituem as velas, indicando os quatro pontos cardeais. Entrou também nas igrejas, em formas e lugares diferentes, em geral, junto ao ambão. A cada domingo do Advento, acende-se uma vela. Já não se pode pensar em tempo de Advento sem a coroa com suas quatro velas. Pelo fato de se tratar de uma linguagem simbólica, a coroa de Advento e seus elementos podem ser interpretados de diversas formas. Desde sua origem, ela tem um forte apelo de compromisso social, de promoção das pessoas pobres e marginalizadas. Trata-se de acolher e cuidar da vida onde quer que ela esteja ameaçada. A coroa de Advento e elementos O círculoA coroa tem a forma de círculo, símbolo da eternidade, da unidade, do tempo que não tem início nem fim, de Cristo, Senhor do tempo e da história. O círculo indica o Sol em seu ciclo anual, sua plenitude sem jamais se esgotar, gerando a vida. Para os cristãos, esse sol é símbolo de Cristo. Desde a Antiguidade, a coroa é símbolo de vitória e do prêmio pela vitória. Os ramos verdesOs ramos verdes que enfeitam o círculo costumam ser de abeto ou de pínus, de ciprestes. É símbolo nórdico. Não perdem as folhas no inverno. É, pois, sinal de persistência, de esperança, de imortalidade, de vitória sobre a morte. Para nós, no Brasil, esse elemento é um tanto artificial e, por isso, problemático, visto que celebramos o Natal no início do verão. Por isso a tendência de substituir-se o verde por outros elementos ornamentais do círculo: suculentas, outras ramagens e folhas verdes, frutos da terra, sementes, flores, raízes, nozes, espigas de trigo. Para ornar a coroa, usam-se também laços de fitas vermelhas ou rosas, símbolo do amor de Jesus Cristo que se torna homem, símbolo de sua vitória sobre a morte, pela sua entrega por amor. As velas As quatro velas indicam as quatro semanas do Tempo do Advento. O ato de acender gradativamente as velas significa a progressiva aproximação do nascimento de Jesus, a progressiva vitória da luz sobre as trevas. Originariamente, as velas eram três de cor roxa e uma de cor rosa, as cores dos domingos do Advento. O roxo, para indicar a penitência, a conversão a Deus, e o rosa como sinal de alegria pelo nascimento próximo de Jesus, usada no 3º Domingo do Advento, chamado de Domingo “Gaudete” (Alegrai-vos). Mas existem também outras tradições acerca das cores das velas, podendo-se usar velas brancas, vermelhas, ou até mesmo uma de cada cor (branca, verde, vermelha e roxa ou rosa). Conclusão Nessa perspectiva, podemos ver, nas quatro velas, as vindas ou visitas de Deus na história, preparando sua visita ou vinda definitiva em seu Filho encarnado, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo: • o tempo da criação: de Adão e Eva até Noé;• o tempo dos patriarcas;• o tempo dos reis;• o tempo dos profetas. Pré-visualizar em nova aba Aos domingos, antes das refeições, acenda as velas progressivamente, uma a cada domingo, cante um refrão (“A nós descei” ou “Ó luz do Senhor”, ou “Indo e vindo, treva e luz, tudo é graça Deus nos conduz”, ou ainda “Nossos olhos ganharão nova luz, com a tua presença, Jesus”), peça a Deus luz para sua vida, para sua casa e para sua família. ReferênciaBECKHÄUSER, Frei Alberto. Coroa de Advento: história, simbolismo e celebrações. Petrópolis: Vozes,
3º Domingo do Advento

“Aplainai o caminho do Senhor”Jo 1,6-8.19-28 Novamente a figura central do Evangelho deste domingo do Advento é o Precursor, João Batista. Desta vez, em um texto tirado do Evangelho do Discípulo Amado, o Batista é apresentado como testemunha de Jesus. Ele assume a identidade de quem veio gritar “Aplainai o caminho do Senhor”, usando uma frase tirada de Isaías (40,3). No texto de Isaías, essa frase é usada para preparar o Novo Êxodo, a volta dos exilados do cativeiro na Babilônia, no início do chamado “Livro da Consolação de Israel” (Is 40-55). A mensagem de João Batista também prepara o povo para um evento de grande alegria: a vinda do Messias, Jesus de Nazaré! Nesse texto, já no primeiro capítulo do Evangelho de João, entram em cena os que serão mais tarde os adversários de Jesus: as autoridades dos judeus. Embora, às vezes, no Quarto Evangelho, o termo “os judeus” designe o povo de Israel em geral (Jo 3,25; 4,9.22, etc.), aqui, como na maioria das vezes, o termo significa os representantes de um mundo que não compreende e, eventualmente, hostiliza a Jesus. Nesse sentido, ele caracteriza especialmente as autoridades religioso-políticas do judaísmo da época: os sacerdotes, fariseus e escribas. Atrás do texto, também dá para entrever a tensão que existia dentro da comunidade do Discípulo Amado entre os seguidores de João Batista e os de Jesus. Por isso a insistência no texto em informar que João “não era o Cristo”, mas testemunha do fato de que Jesus era o enviado de Deus. No mais, o Evangelho retoma a mensagem do domingo passado (Mc 1,1-8), um convite para que todos nós preparemos o caminho do Senhor. “Aplainai o caminho do Senhor” significa facilitar a sua chegada entre nós, tirando de nossa vida tudo que possa impedir um encontro real com Jesus. No nível individual, aqui há um convite para uma conversão pessoal, que é um processo contínuo na vida de todos nós. Mas também há o desafio para que nos empenhemos na luta contra tudo o que possa diminuir a vida humana, tudo o que causa sofrimento a nossos irmãos e irmãs. Pois o pecado que existe no mundo não é somente pessoal, mas também social, muito mais do que a soma dos erros individuais. O pecado social se manifesta nas estruturas sociais injustas e opressoras, que tiram de tanta gente a dignidade dos filhos de Deus. A voz do Precursor, como a de Isaías, quinhentos anos antes dele, nos desafia para que nossa conversão pessoal também se manifeste no esforço para a construção de um mundo mais digno, justo, humano e fraterno, o mundo que Jesus veio estabelecer. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
2º Domingo do Advento

“Começo do Evangelho de Jesus, o Messias, o Filho de Deus”Mc 1,1-8 O Evangelho de Marcos foi o primeiro dos quatro evangelhos canônicos a ser escrito, provavelmente pelo ano 70, na Síria ou em Roma. Marcos tem o grande mérito de ser o criador desse gênero literário, hoje tão conhecido, chamado “evangelho”, o que literalmente significa “boa-nova” ou “boa notícia”. Porém, no primeiro versículo de sua obra, quando ele se refere ao “começo do Evangelho”, ele não diz sobre o gênero literário, mas à própria Boa-Nova, que é a mensagem de salvação em Jesus, “o Messias, o Filho de Deus”. Pois o escrito é somente uma das maneiras viáveis para comunicar a experiência dessa boa notícia, tanto que Paulo, que nunca leu um dos quatro Evangelhos (pois morreu pelo ano 66,), pôde falar aos Gálatas do “Evangelho por mim anunciado” (Gl 1,11). Por isso devemos sempre levar em conta que os quatro Evangelhos do Novo Testamento não se propõem a nos dar uma biografia de Jesus, nem de fazer um relatório sobre a vida dele. Eles são a “boa notícia” de Jesus. Dessa forma, a pergunta que devemos ter em mente ao ler ou ouvir um trecho evangélico não é “aconteceu assim ou não?”, mas “onde está a boa notícia de Jesus neste texto?”. Como parte de nossa preparação para o Natal, o texto de hoje nos apresenta a pessoa e a mensagem de um dos grandes personagens do Advento: João Batista. Usando uma mistura de citações do Antigo Testamento, tiradas do profeta Malaquias (3,20), Isaías (40,3) e Êx (23,20), Marcos enfatiza o papel de João como Precursor, aquele que prepara o caminho do Senhor. O fato de João estar vestido com pele de camelo faz uma ligação entre ele e o “pai do profetismo”, Elias. Assim, João é a última voz profética da Antiga Aliança, anunciando a chegada da Boa-Nova na pessoa e atividade de Jesus de Nazaré. O batismo de João era um rito conhecido naquele tempo. Significava o reconhecimento dos pecados e a conversão aos caminhos de Deus. Embora o Advento não seja primariamente tempo de penitência, mas de preparação, o texto nos lembra de que não será possível a preparação para a vinda do Senhor no Natal sem que passemos pelo processo de arrependimento, conversão e experiência da gratuidade de Deus no perdão dos pecados. Mas a ênfase mesmo está na aceitação não somente do batismo de João, mas de quem viria depois dele, literalmente como ele disse, “atrás de mim”. A expressão, que denota a dignidade, como num cortejo, põe toda a importância na pessoa que vem, pois tirar as sandálias era serviço de um escravo. Jesus é o mais importante, pois, com a vinda dele, inaugura-se o tempo de salvação, esperado naquela época, por muitas pessoas e grupos (como os essênios), somente para o fim dos tempos. A voz de João ressoa de novo hoje, nos primeiros anos do novo milênio, convidando a todos nós, pessoalmente e em comunidade, Igreja e sociedade, a preparar os caminhos do Senhor, endireitando suas veredas. A preparação para o Natal implica a necessidade de um empenho de todos para que os males, individuais ou sociais, sejam tirados, para que o Natal seja experiência real da vinda do Salvador e não somente uma festinha, vazia de sentido. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Irmãs em preparação para votos perpétuos conhecem missão no Brasil

Cinco irmãs em preparação para os votos perpétuos (probanistas) na Congregação das Missionárias Servas do Espírito Santo aprenderam mais sobre os diversos campos de missão das SSpS na Província Brasil Norte. Elas também participaram de encontros formativos e conheceram outras religiosas da congregação. As visitas foram realizadas em novembro, mas o trabalho de preparação durou nove meses. Em março, elas já haviam visitado a missão das SSpS na Província Brasil Sul, em Ponta Grossa-PR. Ao longo de toda a atividade, as cinco irmãs, cada qual de uma nacionalidade, foram acompanhadas pelas irmãs Nilva Moro, formadora, e Ir. Rosil Ferreira Bueno. As probanistas contam como foram a experiência e a formação intercultural. Assista também ao vídeo, no fim da reportagem. Aprendizados “Aprofundar na experiência de oração, experiência de Deus. Foram os momentos de oração, deserto e o grande retiro de trinta dias que me ajudaram a renovar minha vida espiritual. Também tivemos aulas que nos ajudaram a integrar na área humana e pessoal, na espiritualidade e na vida comunitária, que foi tanto no conteúdo como na prática, nos momentos comunitários, avaliações e momentos de crescimento comunitário.” (Irmã Marcela Margarita Robles Vasquez, 30, México) “Despertou e me fez me apaixonar ainda mais por nossa missão. Também aprofundar os sonhos de nosso fundador e de nossas cofundadoras.” (Irmã Salud Osornio Garcia, 43, Estados Unidos) “A vida comunitária. Para mim, foi uma experiência que enriquece a vida intercultural, ajuda a aprender sobre a cultura das outras irmãs.” (Irmã Natália de Carvalho, 32, Timor Leste) “Para mim, se tornou mais claro e concreto meu caminho como missionária serva do Espírito Santo, seguindo Jesus. Confirmou que é isso que eu quero. Fui descobrindo através dos conteúdos, da vida de oração, sobre quem estou seguindo e a nossa missão.” (Irmã Mitilene Chihombo Chivanja, 34, Angola) “As celebrações culturais. Fizemos a proposta de celebrar a independência de cada país de onde vieram nossas irmãs. Por exemplo, celebramos a Independência do Brasil, e cada irmã teve a oportunidade de contar sobre a cultura de seu país, culinária, danças típicas, tradições, roupas, etc.” (Irmã Roselene Ventura de Oliveira, 32, Brasil) Dificuldades “Eu era a única que chegou quase na hora. Vim de um ambiente totalmente diferente, do México, e encontrei um programa cheio de muitas atividades que eu não tinha conhecimento. Depois fui me adaptando à nova realidade.” (Ir. Salud, sobre os primeiros três meses de integração.) “O idioma, no início, foi difícil. Embora sejam parecidos com espanhol, não é tão fácil se expressar em outra língua. Também as atividades, ritmos, comida, trabalhos, tudo foi muito diferente. Foi um desafio fazer algo novo, mas me enriqueceu. Por causa da pandemia, não tínhamos uma pastoral, mas aprendemos a fazer coisas simples, como bordado, costura. No início, foi desafiante, mas depois me adaptei.” (Ir. Marcela) Convivência “O que me deu mais prazer foram os momentos de recreação que tivemos, nos quais cada uma podia se expressar de uma outra forma, e as comemorações dos aniversários.” (Ir. Mitilene) “A possibilidade de fazer uma caminhada com um grupo, ter um grupo para compartilhar, escutar outras experiências. Isso me marcou muito, porque, antes, eu estava mais sozinha na formação.” (Ir. Rosilene) Experiências para a vida “Saber lidar com o diferente.” (Ir. Mitilene) “Estar aberta às novas realidades, tanto na vida comunitária como na missão.” (Ir. Marcela) “O valor da partilha e da acolhida do ser, da pessoa de cada um.” (Ir. Rosilene) “Estou levando a vida partilhada com minhas coirmãs. Elas me ensinaram as riquezas de suas vidas como também as dificuldades e que, juntas, podemos ir mais longe.” (Ir. Salud) Visita à Província Brasil Norte “Para mim, está sendo uma experiência de acolhida, de pertença à nossa Congregação e de conhecer as irmãs desta Província e também o lugar onde estão.” (Ir. Marcela) “Para mim, uma experiência de partilha, no sentido de conteúdos, mas também da vivência ou convivência com as irmãs.” (Ir. Mitilene) “Ajudou a estar em sintonia com nossas irmãs, sobretudo que têm a mesma missão que eu, e conhecer a realidade onde elas estão vivendo.” (Ir. Salud) “Pra mim, foi comunhão com as irmãs da Província e também conhecer a missão das irmãs.” (Ir. Natália) “Vir até aqui foi difícil. Primeiro, queríamos conhecer Aparecida. Era um desejo forte do grupo. Então expressaram o desejo. Havia a previsão de ter encontros on-line com as irmãs Maria Percila Vieira e Ana Elídia Caffer Neves. Não queria voltar para meu país sem conhecer as irmãs e ir ao Santuário de Aparecida. Conversamos com a irmã Nilva Moro. Começamos a rezar, porque não havia nada certo. Depois deu certo e foi uma bênção.” (Ir. Marcela) Assista ao vídeo com os depoimentos das irmãs.
Aids: problema não pode ser esquecido

A pandemia do novo coronavírus está em destaque desde o fim de 2019. Outros problemas graves, no entanto, não podem ser deixados de lado. Um deles é a aids, sigla inglesa para “síndrome da imunodeficiência adquirida”. Em 1º de dezembro, comemora-se o Dia Mundial de Luta contra a Aids. As estatísticas continuam assustadoras. Segundo a Unaids Brasil, entidade ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), no ano passado, houve 1,7 milhão de novas infecções. Até o fim de 2019, aproximadamente 38 milhões de pessoas em todo o mundo viviam com o HIV, mas o aceso à terapia antirretroviral abrangia bem menos pessoas: cerca de 25,4 milhões (dados de junho de 2019). Nos últimos anos, as pesquisas têm avançado muito. Já há casos de cura comprovada pelos cientistas, o que era algo impensável até há pouco tempo. A medicação está mais eficiente e menos agressiva. Algumas chagas, contudo, continuam a latejar, como políticas públicas deficientes em vários países, descuido na prevenção, abandono e até o famigerado negacionismo, que começa a surgir também em relação à aids. Talvez o preconceito seja a dor mais forte, presente desde os primeiros registros de casos, no início da década de 1980. Não somente as pessoas mais vulneráveis e os infectados pelo vírus HIV são estigmatizadas. Além das dificuldades comuns de quem tem de cuidar de um ente querido, as famílias dos enfermos também são obrigadas a conviver com a discriminação. Seres humanos preciosos Os números são importantes, mas frieza deles, como em outras pandemias, esconde histórias de seres humanos preciosos. Em 26 de setembro de 1994, um ano após ser diagnosticada com o HIV, falecia Leda Grecco Duarte Oliveira. Ela tinha três filhos e trabalhava como instrumentadora cirúrgica no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo-SP. Quem conta um pouco sobre Leda é Neyde Grecco, a mãe, e o filho, Gabriel Grecco. Pessoa linda “Meu nome é Neyde Grecco, tenho 86 anos. Há 26, perdi minha única filha para essa terrível doença. O céu ganhou uma pessoa linda por dentro e por fora. Leda era uma pessoa muito boa, caridosa, trabalhadora. Ela era instrumentadora cirúrgica no Hospital Sírio Libanês, local onde ficou por diversas vezes, aos cuidados do dr. Davi Uip, referência no tratamento da aids. Na época, quando foi diagnosticada a doença, o tratamento era muito agressivo, e não havia muita resposta positiva. A recuperação era impossível, e a morte era quase rápida. Havia muitos efeitos colaterais dos remédios. Minha filha ficou cega de um dos olhos. Foi assim se debilitando até o momento final, sendo atendida no momento da morte, recebendo sangue. Mas foi tudo em vão. O dr. Davi deu uma previsão de sobrevida negativa e calculou que a evolução do tratamento para essa doença levaria mais de dez anos. Leda tinha 42 anos quando nos deixou. Até hoje eu curto meus 3 netos e meus 5 bisnetos.” Desprezo com o restante da família “Meu nome é Gabriel Grecco. Perdi minha mãe quando eu tinha 14 anos. De quando ficamos sabendo da doença até o dia em que ela nos deixou, foi coisa de um ano; muito rápido. Foi um ano muito difícil, pois ver a evolução da doença foi triste, fora que tinha muito preconceito naquela época. Eu mesmo sentia desprezo de alguns vizinhos com o restante da minha família. Eu rezava para aparecer um tratamento eficaz o quanto antes ou que Deus a levasse, para ela não sofrer mais. Só quem estava do lado viu o quanto foi difícil e doloroso tudo isso. Sempre vou lembrar dela como uma guerreia, uma supermãe, carinhosa, educada, inteligente e aventureira, que vivia como ninguém. Viajávamos muito, moramos em muitos lugares legais, na cidade, na montanha, nas praias. Dos meus amigos, todos os que tiverem a oportunidade de conhecê-la sabem do que estou falando.” Para saber mais Unaids Brasil Ministério da Saúde Grupo de Incentivo à Vida (GIV)