Atividade didática destaca o valor da mulher

A questão do feminino nos provoca a pensar um mundo mais afetivo e humano. Partilhamos um texto e um poema elaborados pelos alunos Nycolas Daibert Vieira e Kimberly Lopes Galvão César. A atividade foi motivada pelas professoras de Redação, Cristiane Imperador, do Colégio Espírito Santo (São Paulo-SP), e Erika Vullu, do Colégio Stella Matutina (Juiz de Fora-MG). A comemoração do Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, inspirou o trabalho. Veja as composições a seguir. Para todas as mulheres do mundo O dia 8 de março é uma data internacionalmente especial: é a homenagem às mulheres, que marcam a nossa vida e melhoram os lugares pelos quais passam. Mas, no cotidiano, a situação é diferente. Infelizmente, elas vivenciam vários desafios no trabalho, nas redes ou nas ruas. Todos os dias, milhares de mulheres são assassinadas pelos maridos ou namorados, são expostas, assediadas e estupradas. Neste mundo machista e opressor em que vivemos, normalmente as pessoas dizem que é “mimimi”, falam que é por causa da roupa, do gênero, da sexualidade ou do estilo de ser. Mesmo passando por diversas situações, as mulheres conseguiram seu lugar de fala e de poder na sociedade atual, mostrando que são inteligentes, fortes e mais capacitadas que vários homens por aí. Sabemos que o mundo não é um lugar fácil de se viver, mas, com respeito e solidariedade, podemos construir um lugar mais justo e igualitário, onde mulheres e homens sejam reconhecidos por seus feitos e não julgados por seu gênero. A vocês, mulheres, obrigado por serem tão importantes e estarem presentes nas nossas vidas. O mundo certamente seria um lugar muito pior sem vocês. Nycolas Daibert Vieira (2ª série do ensino médio, Colégio Stella Matutina, Juiz de Fora-MG) A mulher Mulher,você é incrível!Você gera e traz uma vida ao mundo,mas não lhe damos o devido valor. Mulher é um ser sensível:emociona-se,apaixona-se,ama, sente, chora…Há acontecimentos que a machucam,não porque são frágeis, mas porque sentem.Você não é obrigada a nada! Mães, profissionais, esposas, adolescentes, meninas, amigas… Eu sou mulher.Sei que devemos lutar pela nossa felicidadee que, se nossa luta incomoda,estamos no caminho certo. Mulher,você é extraordinária,só precisa conquistar o seu lugar e mostrar o seu valor.Nossa voz é mudança!Merecemos o nosso destaquee está na hora de descobriremque somos iguais. Kimberly Lopes Galvão César (1ª série do ensino médio, Colégio Espírito Santo, São Paulo-SP)

5º Domingo da Páscoa

“Sem mim, vocês não podem fazer nada”João 15,1-8 Esse texto inicia a seção do Quarto Evangelho a qual tem os trechos que mais se aproximam dos discursos da vida pública de Jesus nos Evangelhos Sinóticos. Aqui temos um exemplo raro de uma parábola em João: a da vinha e dos ramos, uma metáfora que expressa o amor íntimo entre Jesus e seus discípulos. Em contraste, o segmento seguinte (15,18-16,4) vai tratar do ódio do mundo para com os seus seguidores. No Antigo Testamento, frequentemente se retrata Israel como a vinha (ou videira) escolhida de Deus, que Ele tem cuidado com muito amor, mas que deu frutas amargas. Na primeira parte de João, vimos como Jesus substitui as instituições e festas judaicas; agora, Ele se manifesta como a vinha do novo Israel. Se ficarem unidos a ele, os cristãos darão somente frutos que agradarão ao vinhateiro, o Pai. No Antigo Testamento, muitas vezes, Deus ameaçava podar ou até desenraizar a vinha improdutiva. Embora a vinha do novo Israel não falhe, sempre haverá ramos secos a serem tirados e queimados. A Bíblia sempre insiste que o fruto que Deus quer é a prática da justiça e solidariedade. Esse tema perpassa a Bíblia toda, tanto no Antigo como no Novo Testamento. Mas os cristãos somente poderão dar esse fruto agradável se ficarem unidos a Jesus, pois “sem mim, nada poderão fazer”. Mais uma vez, volta-se à ideia de que é pelos frutos que se conhece a árvore. Assim, leva-nos a refletir sobre os frutos que mais de 500 anos de evangelização têm dado no Brasil e na América Latina, como fez alguns anos atrás a Conferência de Aparecida e o documento que foi publicado por ela. Com uma das piores distribuições de renda no mundo, com uma das maiores concentrações de terras nas mãos de poucos, com indígenas e pobres marginalizados, com tanta gente sofrida, talvez muita coisa tenha de ser podada pelo Pai para que realmente sejamos a verdadeira videira na vinha do Senhor. Como dizia o mártir salvadorenho Dom Oscar Romero: “Uma religião de missa dominical, mas de semanas injustas não agrada ao Deus da vida. Uma religião de muita reza, mas de hipocrisias no coração não é cristã. Uma Igreja que se instala só para estar bem, para ter muito dinheiro, muita comodidade, porém que não ouve o clamor dos injustiçados não é a verdadeira Igreja do nosso divino Redentor” (Discurso de 4 de dezembro de 1977). Sem dúvida, há muita coisa realmente boa ocorrendo nas comunidades cristãs do Brasil bem como na sociedade civil em geral, mas o teste mesmo é a construção de uma sociedade baseada nos princípios de justiça, fraternidade e solidariedade, e não no lucro, competitividade e na lei da selva. Hoje, diante da recessão mundial, um dos sentimentos mais comuns em todas as camadas da sociedade é a da impotência. Parece que estamos sem forças diante do rolo opressor do sistema hegemônico, do neoliberalismo, da globalização, das forças do mercado. Seria fácil cairmos na tentação de desistir da luta de melhorar a sociedade, pois os resultados parecem ínfimos. Por isso urge cada vez mais ficarmos unidos a Jesus, na oração e no compromisso, a Ele que parecia também um derrotado, mas que teve a vitória final na Ressurreição. Se sem ele nada podemos fazer, o contrário é também verdade: com ele tudo podemos! Talvez não da maneira que gostaríamos, mas, sem dúvida, como colaboradores dele na construção do Reino de Deus. As dificuldades enfrentadas pelos movimentos populares em favor dos excluídos e pelos setores mais comprometidos das Igrejas (às vezes, dentro da própria Igreja), os sofrimentos dos mártires da caminhada e de suas famílias são podas, mas podas que darão mais fruto ainda. Como as forças opressoras do Império Romano, aliadas às elites do judaísmo, não conseguiram matar o projeto de Jesus, nem as forças opressoras de hoje conseguirão matar o crescimento do Reino entre nós, uma vez que fiquemos unidos a ele, e entre nós, pois Jesus mesmo nos disse “Sem mim, nada poderão fazer”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

A dança no bibliodrama

“És, Senhor, o Deus da vida,És a festa, és a dança.No banquete de tua casa,somos povo da Aliança.” (“Mesa pronta, toalha limpa”, José Edson R. de Freitas e Maria Luiza P. Ricciardi, Campanha da Fraternidade, 1992.) Assim cantamos em nossas comunidades de fé.O bibliodrama, como método de aprofundamento e experiência viva com o texto sagrado, apresenta-se por diversas formas de expressão: verbal, emocional, gráfico-artístico, com a fotolinguagem ou por representações expressivas com o corpo e seus sentidos. Cada participante representa e expressa o que percebe como “autêntico” interiormente, estimulado pela passagem bíblica meditada. Tudo isso faz com que o grupo e o texto sagrado, no bibliodrama, se aprofundem, se expressem e se interpretem reciprocamente. O método do bibliodrama se apresenta de forma muito flexível e individualizado. Pode facilmente se integrar com outros métodos e com várias artes expressivas, como a dança, a música, a produção de vídeo, e assim por diante; enfim, aonde a criatividade chegar. A dança é uma das formas de linguagem e expressão artística mais expressivas e antigas que conhecemos. Dançar é exteriorizar, por meio de movimentos, o que trazemos dentro. Se é verdade que o corpo fala, é no corpo que podemos experimentar e expressar os sentimentos que pulsam em nós. E um dos elementos mais bonitos da técnica do bibliodrama é a dança. Traduzir em expressão corpórea o que se aprofundou em determinado texto bíblico é concretizar, pelos gestos, o que ele provocou em nós. Se buscarmos nos próprios textos sagrados a importância da dança, percebemos que ela fazia parte da vida corrente, entre os judeus, e até dos jogos infantis, como lemos em Mateus (11,17) e Lucas (7,32). Nos textos bíblicos, encontramos a dança como expressão de alegria, de festa, de convívio e de adoração a Deus. Não distante de nossa infância, quando, de forma natural e orgânica, ela também brotava em nossas brincadeiras infantis e nos aproximava e nos conectava com outras crianças. Por 28 vezes, no mínimo, a Bíblia fala sobre dança em suas páginas. Cada referência que encontramos está relacionada a celebrações de acontecimentos especiais, festivais e encontros familiares e, curiosamente, praticadas principalmente por mulheres e crianças. Nos Salmos 149 e 150, o salmista também convida os fiéis a louvarem a Deus com dança e com a música: “Alegre-se Israel no seu Criador,exulte o povo de Sião no seu Rei!Louvem eles o seu nome com danças;ofereçam-lhe música com tamborim e harpa.” (Salmo 149,2-3) “Louvem-no com tamborins e danças,louvem-no com instrumentos de cordas e com flautas,louvem-no com címbalos sonoros,louvem-no com címbalos ressonantes.Tudo o que tem vida louve o Senhor! Aleluia!” (Salmo 150,4-6) Na Parábola do Filho Pródigo (Lucas 15,25), a dança também assume um caráter bastante significativo e expressivo. Não somente por ser uma alusão referida por Jesus, o Verbo que atualizou a Palavra de Deus e a personificou (Hebreus 1,1), mas também porque essa parábola ilustra a relação do homem com Deus e a alegria que existe no céu quando alguém se arrepende e deseja mudança. Essa alegria é traduzida de várias formas, sendo uma delas a dança. Na data em que comemoramos o Dia da Dança (29 de abril), queremos nos unir ao balé dos corpos e das constelações celestes para que, juntos, possamos bailar agradecidos em contemplação à obra da Criação. Nas experiências bibliodramáticas realizadas com distintos grupos na Província Brasil Norte das irmãs missionárias servas do Espírito Santo, temos percebido a profunda conexão que a dança tem proporcionado aos que se entregam e fazem do corpo o canal de conexão com a sua espiritualidade. Por esse motivo, o convite é: dancemos! E que estendamos o convite a todos, para que se juntem a nós, para que, assim, a Palavra se torne vida em nós. Irmã Fátima Marques, SSpS, e Agostinho Travençolo Junior Referência:Semente Viva Brasil

Vacinação: sinal de esperança

Uma simples palavra que atualmente tem um grande significado: esperança! O mundo clama por vacinas para que se estabeleça novamente uma vida normal. A ciência corre contra o tempo para que vacinas eficazes sejam desenvolvidas. Governos do mundo todo se mobilizam para que suas populações sejam vacinadas. Está claro que a solução para o caos estabelecido por uma pandemia mundial está na vacinação, mas, afinal, o que é uma vacina e quando surgiu? Em 1796, o médico inglês Edward Jenner, em meio a uma pandemia de varíola, observou que pessoas que já tinham sido contaminadas por uma doença chamada cowpox (varíola bovina), comum em vacas e muito semelhante à varíola nos humanos, tornavam-se imunes àquela doença. O dr. Edward extraiu o pus da mão de um ordenhador de vacas que havia contraído a cowpox e inoculou a substância em um menino saudável, James Phipps, de 8 anos. O menino contraiu a doença de forma branda e, em seguida, ficou curado. Naquele mesmo ano, ele extraiu o líquido de uma pústula humana contaminada por varíola e inoculou no menino James. Desta vez, o menino não contraiu a doença. Foi descoberta e comprovada a eficácia da primeira vacina. A palavra vacina tem origem no latim e significa “de vaca”, justamente pelo fato de que as primeiras observações e experimentos ocorreram com uma forma de varíola animal, ocorrida em vacas. Como funciona uma vacina? A vacina pode ser considerada uma forma de imunização ativa, ou seja, quando o próprio corpo produz os anticorpos que combaterão uma infecção. Baseia-se na introdução, no corpo de uma pessoa, do agente causador da doença (geralmente um vírus atenuado ou inativado) ou substâncias que esses agentes produzem, de modo a estimular a produção de anticorpos e células de memória pelo sistema imunológico. As vacinas são essenciais para “blindar” o organismo contra doenças que ameaçam a saúde, em todas as idades. Doenças altamente contagiosas, como a difteria, o tétano, a paralisia infantil, o sarampo, a caxumba e a rubéola, muito comuns no passado, e a covid-19 (doença recente), podem ser prevenidas por meio da vacinação. Quando começou a vacinação? A vacinação no Brasil teve início no Rio de Janeiro, em 1904, de maneira trágica. O médico sanitarista Oswaldo Cruz tornou obrigatória a vacinação para prevenir a varíola. Porém, a população, por falta de informações, protestou contra a obrigatoriedade do procedimento, desencadeando aquele que é conhecido com o maior motim da cidade, com um saldo de 30 mortos, 115 feridos e centenas de presos. Em 1973, o Brasil criou o Programa Nacional de Imunização (PNI). O País conseguiu, pela vacinação em massa, erradicar doenças como a varíola e a poliomielite. Atualmente, o PNI é o maior programa de vacinação pública do mundo, com 17 vacinas que protegem contra 20 doenças diferentes. O cenário atual é preocupante, pois, além dos problemas decorrentes da falta de vacinas para a prevenção da covid-19, também existe um movimento antivacinas que têm ganhado força devido à automedicação, estimulada principalmente pela internet, e pela circulação, nas redes sociais, de informações falsas sobre as vacinas. O resultado desses movimentos é uma queda expressiva da cobertura vacinal em todo País, fato comprovado pelo ressurgimento de doenças como o sarampo, que havia sido erradicada do Brasil. É importante se vacinar? A vacinação continua sendo a mais segura e eficaz forma de prevenir diversas doenças infectocontagiosas. É uma forma de prevenção individual e coletiva, pois protege não apenas quem a recebe, mas também a comunidade como um todo. Adultos e crianças, portanto, devem manter o cartão de vacinação sempre em dia. Afinal, vacinar é uma forma de demonstrar amor a si mesmo e ao próximo. Referências PONTE, Gabriella. Conheça a história das vacinas. Portal Fiocruz, Rio de Janeiro, 5 fev. 2020. Disponível em: Fiocruz SANTOS, Vanessa Sardinha dos. História da vacina. Brasil Escola, São Paulo. Disponível em:Brasil Escola Hélio Vilaça, professor de Química e coordenador de Ciências da Natureza no Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG.

4º Domingo da Páscoa

“O bom pastor se despoja da própria vida por suas ovelhas”João 10,11-18 Hoje é o dia Mundial de Oração pelas Vocações, ou “Domingo do Bom Pastor”. O texto de hoje nos demonstra a compreensão que a comunidade do Discípulo Amado tinha da paixão, morte e ressurreição de Jesus. A imagem escolhida é a do “pastor”, uma imagem muito usada nos escritos do Antigo Testamento (Salmo 40,11; Ezequiel 34,15; 37,24; Eclesiástico 18,13; Zacarias 11,17, etc.). Algumas vezes, é aplicada ao próprio Deus (Salmo 23,1; Isaías 40,11; Jeremias 31,9); outras, ao futuro rei messiânico (Salmo 78,70-72; Ezequiel 37,24); e outras, aos líderes político-religiosos de Israel (Jeremias 2,8; 10,21; 23,1-8; Ezequiel 34). Também os evangelistas sinóticos usaram-na bastante (Marcos 6,34; 14,27; Mateus 9,36; 18,12-13; 25,32; 26,31; Lucas 15,3-7). Jesus é realmente pastor, pois Ele, o Filho do Homem, participa da condição humana, inclusive da morte, para nos conduzir à vida eterna. A palavra grega aqui usada para “bom”, “kalos”, significa “ideal” ou “nobre”, e não somente eficiência em sua função. Assim é Jesus, pois livremente despoja-se de sua própria vida para salvar a vida do seu rebanho. O texto contrasta a ação de Jesus com a atuação dos pastores mercenários, que não defendem o rebanho, mas somente cuidam dos próprios interesses. Aqui o texto está enraizado na tradição profética de Ezequiel (capítulo 34, o qual vale a pena ler) que condenava os “maus pastores” do povo de Deus: os líderes religiosos e políticos de seu tempo (antes do Exílio e nos anos entre a primeira deportação para Babilônia e a destruição de Jerusalém, em 587 a.C.), que somente exploravam o povo para o seu próprio proveito, abandonando-o nas horas de maior necessidade. Quanta coisa do tempo de Ezequiel e de Jesus pode ser aplicada quase que diretamente a muitos líderes políticos (e, às vezes, religiosos) de nossos tempos. O trecho destaca o verbo “conhecer”: Jesus conhece suas ovelhas como conhece o Pai e é conhecido pelo Pai. “Conhecer”, na linguagem bíblica, não significa um saber intelectual, mas implica um relacionamento íntimo de amor e solidariedade. O conhecimento que Jesus tem de seus discípulos nasce e se plenifica no amor que existe entre o Pai e o Filho. Não é um amor só de emoções ou sentimentos, mas um amor exigente, de assumir o outro até o ponto de doar a vida. Assim, a morte na Cruz (assumida livremente por Jesus) é a expressão suprema desse amor. O amor não pode se restringir aos irmãos e irmãs da comunidade. A utopia proposta por Jesus é da união entre todos “os seus”. Aqui, talvez haja uma referência às outras comunidades não joaninas do tempo do escrito, mas também podemos aplicar o texto à missão universal da Igreja: a de colaborar na realização do Reino de Deus, pois todos os povos do mundo, sem distinção de raça, cor, cultura ou religião, são misteriosamente ligados a Jesus, morto e ressuscitado. Não devemos imaginar esse sonho como um crescimento da Igreja visível até que toda a humanidade faça parte dela, mas muito mais como a realização do pedido do Pai-nosso, “Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu”, em que se procura o bem, a justiça e a fraternidade, mesmo fora da Igreja visível, onde se realiza o Reino, ou Reinado, de Deus. Como seguidores do Bom Pastor, também somos convidados à vivência desse mesmo amor que exige o despojo da própria vida. Isso não implica necessariamente a morte física, mas a morte ao egoísmo e a todos os “ismos” que nos dividem, seja por causa do gênero, raça, cor, classe ou cultura. Onde há luta em defesa da vida, lá existe a missão do Bom Pastor. Ele que veio “para que todos tenham a vida e a tenham plenamente!” (João 10,10). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Irmãs renovam compromisso de proteger a Casa Comum

Conscientes da gravidade da situação planetária e da veloz rota da humanidade rumo ao colapso ecológico, a questão da integridade da Criação tem se tornado um ponto central nas discussões das várias instâncias da Congregação. O tema é abordado tanto nas pequenas comunidades espalhadas pelos cinco continentes quanto nos Capítulos-Gerais, quando representantes das irmãs de todo o mundo se reúnem para tomar decisões que orientam toda a Congregação. Impelidas a escutar o grito da Terra e o clamor dos pobres, no fim de 2020, as irmãs missionárias servas do Espírito Santo da Província Brasil Norte renovaram coletivamente o compromisso de assumir um estilo de vida, tanto pessoal quanto comunitário, que leve em consideração a ecologia integral e o cuidado com o planeta, nossa Casa Comum. Os eixos fundamentais que atravessam esse compromisso dizem respeito à relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta, à convicção de que tudo está estreitamente interligado e à crítica ao paradigma das formas de poder que derivam da tecnologia e da cultura do descarte. Apontam para um novo estilo de vida regido pela espiritualidade do cuidado que deve permear a vida em missão de cada irmã. Nesse sentido, as irmãs se comprometem a buscar meios que corroborem a consciência de que a vida humana está estreitamente interligada com todas as formas de vida planetária; a discernir constantemente sobre o estilo de vida, considerando os hábitos de consumo (reduzir, reutilizar e reciclar), o uso responsável dos recursos da natureza e das novas tecnologias; a cultivar uma vida saudável em conexão com a natureza, com especial atenção à alimentação mais natural. As irmãs também têm clareza de que o cuidado com a Casa Comum é uma causa que todas as pessoas deveriam assumir. Por essa razão, tendo como base os documentos da Congregação, as encíclicas Laudato si’ e Fratelli tutti, bem como a Carta Brasileira pela Economia de Francisco e Clara, as irmãs querem incentivar a reflexão e o engajamento sobre a ecologia integral com as pessoas com as quais mantêm contato nos diversos campos de missão. Além disso, comprometem-se a apoiar e, na medida do possível, participar dos movimentos que lutam pela integridade da Criação, desenvolvendo parcerias, criando redes em defesa do bem comum e fortalecendo a atuação da Vivat, organização fundada pelas próprias missionárias servas do Espírito Santo e os missionários do Verbo Divino. Que possamos, como humanidade, crescer na consciência ecológica e na corresponsabilidade no cuidado e proteção da Casa Comum, a partir de nossas pequenas ações e práticas cotidianas. Irmã Stela Martins, SSpS, coordenadora da Redes (Rede de Solidariedade), graduanda no curso de Ciências Sociais.

Colégio Espírito Santo e comunidade Xerente estreitam laços

Pensar a Casa Comum e a saúde de nosso planeta tem a ver com uma reflexão profunda sobre a atuação humana, a qual deve refletir em ações concretas que possibilitem a continuidade da existência da vida na Terra. E não é de hoje que falamos sobre isso, porém nossas ações ainda são muito tímidas. Quem sabe a esperança esteja no brilho dos olhos das crianças da etnia xerente? Educadoras e alunos das turmas de infantil 5, primeiros e segundos anos do Colégio Espírito Santo, de São Paulo-SP, refletindo sobre o poder da partilha e da educação, conversaram sobre a responsabilidade que temos de manifestar atitudes de amor e de cuidado para com todas as pessoas que fazem parte de nossa “Casa Comum”. Nasceu, então, o projeto “Natal da Casa Comum”, que teve como propósito trabalhar a importância do reconhecimento do outro e das atitudes de amor ao próximo. A comunidade indígena Xerente, localizada no Estado do Tocantins, foi um dos muitos espaços alcançados pelas manifestações de afeto de nossos alunos. Um livro virtual foi encaminhado às crianças que estudam na escola da aldeia. O presente foi recebido da melhor forma possível. Segundo Wakukepre, professor na escola do povo xerente, os alunos realizaram batismos do material como manifestação de gratidão pela troca de conhecimento, de acordo com a tradição da etnia. Foi pensando não somente em nossa relação com as pessoas, mas também em nossa Casa Comum e na saúde de nosso planeta que pretendemos, por meio desse projeto, possibilitar um espaço de troca e reflexão profunda sobre o sentido de sermos humano e, assim, buscarmos ações concretas que possibilitem a continuidade da vida na Terra. Respeitar e reconhecer diferentes culturas é questão fundamental como comunidade escolar. Receber o retorno do projeto “Natal da Casa Comum”, que foi apenas uma pequena manifestação das reflexões que buscamos estimular em nosso cotidiano escolar, e poder compartilhar o resultado dessa ação coletiva só reforça a importância do trabalho que buscamos desenvolver como educadores missionários. Ponte intercultural Outra parceria foi realizada com a ajuda das missionárias servas do Espírito Santo que trabalham com a etnia xerente. Por meio de diálogos de aproximação proporcionado com lideranças da comunidade indígena, nossos educadores vêm realizando trocas de livros, outros materiais didáticos e experiências educativas. A experiência já criou uma ponte intercultural e de fraternidade. Em fevereiro, foram encaminhados aos xerentes diversos materiais escolares e um valor em dinheiro para que eles pudessem adquirir roupas para as crianças da comunidade. A doação também possibilitou a compra de material esportivo para os pequenos, que adoram praticar o futebol.Assim, seguimos cheios de esperança, conseguindo encontrar nas crianças, nas comunidades indígenas, nas atitudes de cuidado, afeto, amor ao próximo, justiça social e tolerância, a cada dia, a cultura de paz que almejamos. Beatriz Von Lasperg Careli é professora do Colégio Espírito Santo, e Agostinho Travençolo Junior é assessor Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo.

Sempre fomos nós…

Nunca foi sobre um índio incendiado; éramos nós ardendo em chamas. Nunca foi um massacre de crianças dormindo na porta da Candelária; morremos juntos com cada uma delas. Nunca foi sobre uma distante bomba atômica; nós nos explodimos ao mesmo tempo. Nunca foi incêndio na Amazônia; padecemos juntos a cada milímetro queimado. Nunca foi um acidente nuclear longe daqui; nós nos infectamos e nos deformamos juntos. Nunca foi sobre uma mulher espancada que inspirou uma lei; estamos todos paraplégicos. Nunca foram corpos alheios soterrados pela lama criminosa; nossos poros estarão eternamente impregnados de terra. Nunca foi um massacre num presídio; somos nós eternamente acorrentados nessas celas. Nunca foi desaparecimento e morte na ditadura; seremos gritos à exaustão pela democracia. Nunca foi um terremoto arrasador; éramos nós tremendo de medo e nos apegando a cada possibilidade de sobreviver. Nunca foi trabalho análogo à escravidão; éramos nós experimentando a indignidade. Nunca foi um rio tampado e uma nascente assoreada; somos nós morrendo de sede. Nunca foi uma pandemia distante. Ela se fez cotidiana e arrasadora. Somos nós! Que este texto chegue em forma de um silencioso e indignado abraço a cada vítima da covid-19 e aos familiares e amigos enlutados. Sintam-se irmanados na dor e, controversamente, encham-se de esperança para seguirmos adiante. Sempre somos nós! Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.

Diálogo

A palavra diálogo tem sua raiz no grego, cujo prefixo “diá” significa “através de” e “logos” que quer dizer “palavra”, “saber”. Resumindo: diálogo é o processo de conhecimento através da palavra. O diálogo, nesse sentido, envolve sempre duas ou mais pessoas que, pela conversa, buscam o conhecimento sobre um determinado assunto. É uma conversa interativa entre duas ou mais pessoas. Supõe, portanto, que um compreenda o outro em sua maneira de ver o mundo e interpretá-lo. Parte-se do princípio de que todos têm algo a contribuir na busca da verdade. Para dialogar, é preciso uma atitude de abertura para acolher a opinião do outro, livre de preconceitos, procurando ouvir o sentido real da forma como o outro vê. Muitas vezes, ocorre que, quando alguém começa a emitir uma opinião, alguém já o corta e diz “Ah, já sei o que você quer dizer”, e conclui pela pessoa, sem dar ouvido às conclusões do outro, que podem ser bem diferentes do “ah, já sei”. Num diálogo nem sempre se chega a uma conclusão consensual. Na verdade, não se é obrigado a concordar com alguém se a opinião dele diverge frontalmente com as próprias convicções. Contudo o bom dialogante respeita a opinião divergente sem se tornar inimigo ou beligerante. O diálogo supõe respeito pelo outro e pelo que pensa. A Campanha da Fraternidade deste ano de 2021 propõe “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor”. Ela é ecumênica, que significa que várias igrejas cristãs participam dela, sendo que cada uma tem a própria doutrina, com alguns aspectos divergentes umas das outras, contudo o diálogo é possível sobre os pontos em comum. O grande objetivo da campanha é a busca da “paz” oriunda de Cristo. Como a Campanha diz, Cristo é nossa paz. Quanto a isso todas as igrejas participantes concordam, e o diálogo é feito para realizar essa paz na sociedade dividida por discórdias, ódios, separações, preconceitos. Num mundo tão plural em ideias e ideologias, mais do que nunca, é necessário o diálogo permanente na busca da verdade para uma convivência pacífica. O igualitarismo seria tedioso e negaria uma característica humana que é a da complementariedade em todos os níveis. Nenhum cientista é capaz de realizar todas as descobertas. Cada nova iniciativa de pesquisa sempre parte de algo já conhecido, portanto, de alguém que pesquisou antes e abriu janelas para novos conhecimentos. Nesse sentido, nenhuma ciência é completa em si mesma. A Física precisa da Química, que precisa da Matemática, que precisa da Sociologia, da Filosofia, da Teologia; assim cada uma contribui com o seu saber para complementar o conhecimento mais amplo do mundo e da complexidade que envolve o universo. Pode-se falar em diálogo então em todos os níveis, desde a convivência familiar, diálogo entre seus membros; da convivência social com grupos heterogêneos; das relações entre povos e nações; das teorias econômicas, das relações de negócios; das crenças diferentes, das cosmologias discutidas nas diversas teorias. Dialogar é preciso para manter viva uma característica básica do ser humano, que é a convivência com seus pares e com o mundo em que habita. Não estar aberto ao diálogo é caminhar na contramão da vida e fechá-la em horizontes muitos pequenos. Quem não dialoga se perde no próprio caminho e se distancia da convivência pacífica com os demais. O diálogo envolve um aprendizado, que supõe respeito pelo outro e pelo que pensa, admitindo que a verdade total não está só de um lado e que há espaço para todos e liberdade de expressão das próprias ideias e sentimentos. O bom senso diz que ninguém pode ultrapassar os limites quando isso ofende, intimida ou menospreza o outro. A liberdade de cada um termina onde começa a do outro. Dialogar é também respeitar limites. Por isso é dialogando que se pode chegar ao mais próximo da verdade. Ninguém dialoga sozinho, isso seria manifestação de doença psíquica. Dialogar, portanto, implica relação com o outro. Dialogar é abrir a porta para a convivência sadia e humanizadora. Humanize-se dialogando! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

2º Domingo da Páscoa

“A paz esteja com vocês!”João 20,19-31 No texto do Domingo da Páscoa, Maria Madalena trouxe aos discípulos incrédulos a notícia da Ressurreição. Agora é o próprio Jesus que aparece a eles. Não há reprovação nem queixa em suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles, mas somente a alegria e a paz, que já tinha prometido no último discurso. Por duas vezes, Jesus proclama seu desejo para a comunidade de seus discípulos: “A paz esteja com vocês”. O tema da paz, do shalom, é importante na vida de Jesus. No Discurso de Despedida, na tradição da comunidade do Discípulo Amado, no contexto de uma certa angústia humana e da insegurança, junto como a promessa do dom do Paráclito, Jesus deixa com os seus o grande dom da paz: “Eu deixo para vocês a paz, eu lhes dou a minha paz. A paz que eu dou para vocês não é a paz que o mundo dá” (João 14,27). Ele teria usado a palavra tradicional dos judeus para a paz: “Shalom”. É uma paz baseada na vinda do Espírito, que será atualizada no texto de hoje: “A paz esteja com vocês! Recebam o Espírito Santo” (João 20,21-22). Enfatiza que não é a paz como o mundo a entende; muitas vezes, simplesmente como a ausência de briga ou até com repressão policial. Frequentemente, a paz que o mundo dá é aquela falsa, que depende da força das armas para reprimir as legítimas aspirações do povo sofrido, como tantos países experimentaram e continuam a experimentar hoje, durante as ditaduras da direita e da esquerda. O shalom é tudo o que o Pai quer para seu povo. Inclui tudo o que é necessário para uma vida digna: saúde, escolaridade, lazer, lar, moradia, emprego, etc. Só existe quando reina o projeto de vida de Deus. Implica a satisfação de todas as necessidades básicas da pessoa humana, da libertação da humanidade do pecado e de suas consequências. O shalom dos discípulos não pode ser perturbado pelo fato da partida de Jesus, pois é pela volta do Filho para o Pai que o shalom vai se instalar. O shalom, a verdadeira paz, é um dom de Deus, mas também um desafio para nós, seus discípulos e discípulas. Pede a colaboração humana! Diante de tantas barbaridades hoje, de tanta violência no campo, da exploração do latifúndio, do tráfico de drogas e das pessoas, da impunidade, qual deve ser a atitude do cristão? Se nós acreditamos no shalom, nunca podemos compactuar com sistemas repressivos ou elitistas que tiram da maioria (ou mesmo de uma minoria) os direitos básicos que pertencem a todos os filhos de Deus. Às vezes, esse shalom convive ao lado do sofrimento e perseguição por causa do Reino, mas quem experimenta na intimidade a presença da Trindade também experimenta a verdade da frase de Jesus: “Não fiquem perturbados nem tenham medo” (João 14,27), pois disse Ele: “Eu venci o mundo” (João 16,33). Frequentemente, uma leitura fundamentalista do Evangelho, fortemente influenciada por ideologias da direita, insistia que Jesus veio trazer a “paz”, entendido como “ordem e progresso”, na visão positivista das elites dominantes. Mas o próprio texto do Evangelho indica que esse tipo de paz estava longe da mente de Jesus. Ele mesmo diz, com todas as letras, em Mateus (10,34): “Não pensem que eu vim trazer paz à terra; eu não vim trazer a paz, e sim a espada”. Obviamente, Jesus não diz que veio trazer a violência, pelo contrário, veio desmascarar uma paz imposta pela força, com base ideológica numa falsa imagem de Deus, e que essa ação profética dele revelaria as divisões já existentes na sociedade, nas religiões, no coração das pessoas. Pois sua prática e pregação exigiram uma tomada de posição diante da violência, ostensiva ou ocultada. A não violência não é sinônima de não ação. Pelo contrário, levou Jesus a lançar-se em uma vida dedicada aos valores do Reino, entre os quais o shalom tinha lugar premente. Por isso, por uma aliança de poderes religiosos, políticos, judiciais e econômicos, Ele foi morto pelos interesses ameaçados por essa pregação do verdadeiro shalom. Por isso devemos sempre “fazer a memória de Jesus”, de sua pessoa e de seu projeto, para que tenhamos critérios certos para verificar a presença (ou ausência) do shalom em nossa sociedade e nos comprometermos com a criação do mundo mais justo que Deus quer. O Reino de Deus não é algo escrito em uma tábua rasa. Já existe a força contrária, a do antirreino. Assim também o shalom não nasce em um vácuo, cria-se em oposição à realidade dura da violência, mesmo quando disfarçada como paz. Por isso será sempre conflituoso, pois inevitavelmente provocará a reação dos que oprimem e violentam. A dedicação a ele exigirá uma mística profunda. Uma vida dedicada à construção do shalom tem como fundamento uma profunda experiência de Deus. A luta pela paz, pelos oprimidos, por um mundo de igualdade e solidariedade para nós cristãos não pode nascer de uma simples análise de conjuntura, nem de uma indignação ética, por tão necessárias que esses elementos possam ser. A inspiração última de nossa luta pelo shalom tem de ser enraizada em nossa fé, por ser coerente com o Deus em que nós acreditamos, o Deus que vê a miséria do seu povo, vítima da violência, que ouve o seu clamor em favor da verdadeira paz, que conhece os seus sofrimentos, e que desce para libertá-lo de todas as formas da violência que atentam contra a vida (cf. Êxodo 3,7-10). É coerência com o seguimento de Jesus, o Verbo Divino que se fez carne e armou sua tenda no meio de nós (João 1,1.14), vindo para que todos tenham a vida e a tenham plenamente (João 10,10). Por isso devemos ouvir de novo a voz profética de Jesus, que conclama todos nós à conversão: “Convertam-se e acreditem na Boa Notícia” (Marcos 1,14). As raízes da violência, do antirreino estão dentro de todos nós, como indivíduos e comunidade. Quando compactuamos com qualquer discriminação, quando defendemos a violência contra

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