A compaixão nos desloca para a margem

“Mas um samaritano que estava viajando, chegou perto dele, viu e sentiu compaixão”Lucas 10,25-37 O cristão é um pobre que ama e cuida de outros pobres, um ferido que se faz presente junto a outros feridos. Há um ponto de partida comum: a experiência da pobreza radical de todos os que se encontram. Somos seres de relação; é a nossa essência. Nós nos definimos pela maneira como nos fazemos próximos junto aos outros. Essa relação essencial se manifesta como presença que acolhe, cuida, reforça laços, alimenta a comunhão… Há presenças impositivas, indiferentes, manipuladoras e geradoras de conflitos. E há presenças “cristificadas”, carregadas de compaixão. Uma das páginas mais belas e provocativas do Evangelho é a parábola do “bom samaritano”. Um desconhecido exemplar que nos oferece algumas chaves interessantes de leitura sobre o que significa atender as pessoas que estão em situação de exclusão e dor. Nessa parábola, Jesus destaca uma imagem que deve inspirar uma presença comprometida de todo(a) seguidor(a) seu(sua). O relato começa com uma situação dramática: um homem “ferido de morte” à beira de um caminho. Várias pessoas passam por ele: um sacerdote, “ponte” entre os homens e Deus, e um levita, dedicado ao serviço do Templo. São incapazes de atendê-lo. Dão meia-volta e se vão. Por profissão, ambos conheciam bem a Lei de Deus, a cujo serviço estavam. E, nela, está contida a exigência de humanidade no trato com o semelhante. Nada disso os moveu a vir em socorro do homem semimorto, caído no caminho. O encontro com Deus no Templo não os movia à comunhão com o semelhante em extrema necessidade. Daí terem se desviado do homem semimorto, passando pelo outro lado do caminho. Fugir do sofrimento é, certamente, quase um ato reflexo em todos nós. Mas o samaritano, pelo contrário, se deteve, talvez porque sabia o que era ser desprezado (em seu caso, por ser estrangeiro e herege). A experiência da própria dor desperta nele uma grande sensibilidade, ativa um “radar” especial que detecta a dor alheia e o anima a “inclinar-se”, de maneira quase “natural”, para o mais necessitado. Era um dos seus. A redação de Lucas reforça insistentemente os verbos “viu”, “sentiu compaixão” e “cuidou dele”. Foi suficiente ver o ferido para que se reacendesse a sua compaixão, ou seja, se enternecesse diante da triste situação daquele homem ferido, à beira da estrada. Essa comoção primeira é decisiva porque desperta o desejo de atuar. O que se revela realmente pernicioso é a indiferença, a frieza, e não o sentimento de tristeza e empatia que faz emergir uma corrente de afeto para com o sofredor. O samaritano ficou “afetado” ao contemplar o drama do outro. A sequência na maneira de agir do samaritano é preciosa e fica perfeitamente refletida na narração através dos verbos: olhar, aproximar-se, enfaixar as feridas, colocar o ferido sobre sua cavalgadura, levar, cuidar, retornar. Uma progressiva implicação que termina alterando seu caminho e sua vida. Seus planos foram mudados. Alguém ferido cruzou seu caminho e já não pode viver à margem desse encontro. Por isso, depois de cumprir com suas obrigações, retorna. Esse homem ferido “permanece” em seu coração. As vítimas da injustiça estão clamando a nós a “responsabilidade de ter olhos quando outros os perderam” (J. Saramago). Trata-se de educar o olhar que “des-vela” a mentira da realidade e, ao mesmo tempo, “re-vela” suas oportunidades históricas. Educar a visão é deixar-nos olhar pelo outro, pelo pobre, pela vítima do sistema. A honestidade com a realidade reclama de nós uma alteração de nossa visão, um movimento sutil de nossos olhos que nos conduzem a nos colocar “na mira do outro”. Mais ainda, o olhar do outro manifesta que, “fora dos pobres, não há salvação”. “Há um corpo caído no chão”: todo corpo é lugar de comunicação, de comunhão, é apelo à proximidade e ternura. Dele brota uma voz provocativa que, quando acolhida, nos introduz na trilha da “vida eterna”, do horizonte do Sentido; ao passo que, se rejeitada, como aconteceu ao sacerdote e ao levita, os exclui do espaço da vida. Mas, não basta o olhar;é preciso a “conversão das mãos”. Foi preciso mais que uma mão. Também o dono da hospedaria, possivelmente um judeu, também foi desafiado a superar o preconceito, acreditar no samaritano e aceitar colaborar com ele. O samaritano conta com a ajuda do dono da hospedaria. Este se torna parceiro na solidariedade quando aceita fazer o que lhe fora pedido. Ele prolonga os gestos humanizadores do samaritano, manifestando seu compromisso com a vida frente o ferido que aparece inesperadamente em sua pensão. Depois de apresentada a situação concreta, através de uma parábola, Jesus relança a questão para o mestre da Lei: “Qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?”. A resposta brota límpida: não é possível escolher o próximo. Este, na perspectiva de Jesus, irrompe no caminho das pessoas, sem aviso prévio, na condição de vítima, do outro sofredor, carente de socorro. Quem é capaz de romper esquemas e se transformar em servidor, com total generosidade, faz a experiência de “próximo”,no sentido do discipulado cristão. Por conseguinte, “próximo” tem um sentido bem preciso. Não é qualquer pessoa! É o outro necessitado de ajuda. Por outro lado, só quem tem uma correta imagem de Deus terá uma correta imagem de próximo. A indiferença do sacerdote e do levita deveu-se a uma falsa concepção de Deus, separado dos seus prediletos. Já o samaritano foi aquele que possuía uma fé verdadeira, expressa em atitudes de elevado padrão de misericórdia. O verdadeiro seguimento de Jesus nos faz “virar a cabeça” e dirigir nosso olhar para as “margens”, para as “periferias” da história… comprometendo-nos com os prediletos de Deus. Para Jesus, o centro está nas margens; os marginalizados e excluídos são trazidos por Ele ao centro. Por isso, Jesus derruba as barreiras de religião e raça. Para Ele, o verdadeiro culto a Deus acontece nas “margens” e não nos templos. Na perspectiva cristã, a opção pelos pobres não está vinculada a um voluntarismo ascético-moral,
A pessoa e a educação, uma relação profundamente cristã

Ao refletirmos sobre o processo educativo, nossa mente será levada a lembranças de nosso tempo escolar, amizades e tantas aventuras vividas. Não há problema algum em trazer à memória essas lembranças. Estas podem apresentar-se como brecha para refletirmos sobre a relação entre educação e pessoa. Somos seres de relação e construção de cultura, somos seres dependentes e independentes em nossa forma de pensar e existir, e, para que tudo isso tenha sentido, a “educação” tem papel fundamental. Segundo o dicionário Michaelis, educação define-se por ato ou processo de educar(-se), e no caso de uma escola missionária, afirmamos que educar é um ato ou processo de educar a partir de três palavras: escuta, mediação e compreensão. Somos uma instituição que “educa”, não de modo aleatório, mas a partir do Evangelho e de um projeto que tem a pessoa humana no centro. Valorizamos tanto suas potencialidades como suas fragilidades. Nesse processo educativo, faz-se importante “ir além dos muros da instituição de ensino e experienciar as diversas oportunidades presentes no desenho dos territórios educativos em um contexto de crescente singularidade de grupos populacionais de convivência, acelerado pelos processos de globalização, das mobilidades e geridos pelo diálogo multicultural” (Texto-Base da CF 2022, n. 137). Buscamos ensinar de modo a libertar a mente a uma reflexão humanizada, crítica e responsável. O ensino de Jesus é libertador. […] De alguma forma, ele libertou a todos com sua sabedoria e seu amor. Libertou os acusadores de matar aquela mulher e, ao lhes tocar a consciência, ocasionou a consequente revisão da própria vida. Libertou a mulher de ser apedrejada e abriu-lhe nova oportunidade de vida. Partindo de perguntas ao redor de um fato, Jesus ilumina também, com a verdade da misericórdia e do valor da pessoa humana, os membros do povo que ali estavam e assistiam à cena. Tudo nos leva a concluir que ensinar é libertar o ser humano das muitas amarras impostas pelo pecado, pelo legalismo, pela insensatez, pelo ódio, pela falta da fraternidade (Dom João Justino Silva, 2022). Portanto, nós nos perguntamos: como, porém, pensar a humanidade? Pensar a humanidade a partir da educação, a partir da experiência, a partir da solidariedade. Pensar uma nova humanidade que educa olhando para o outro, que estabelece parâmetros de justiça, paz e fraternidade. “Essa é a chave. O novo humanismo deve principiar na ‘relação’, no ‘jogo’ do ser humano com seus iguais, com a natureza e com Deus” (Ercilia Magaldi, 2022). Referências CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Campanha da Fraternidade 2022: Fraternidade e Educação: “Fala com sabedoria, ensina com amor” (cf. Pr 31,26): texto-base. Brasília: Edições CNBB, 2022. MAGALDI, Ercilia Simone D. A pandemia e um novo humanismo. Vida Pastoral, São Paulo, a. 63, n. 345, p. 36-43, maio/jun. 2022. Disponível em: https://www.vidapastoral.com.br/edicao/a-pandemia-e-um-novo-humanismo/. Acesso em 13 jun. 2022. SILVA, João Justino de Medeiros. Fraternidade e educação. Vida Pastoral, São Paulo, a. 63, n. 344, p. 4-11, mar./abr. 2022. Disponível em: https://www.vidapastoral.com.br/edicao/fraternidade-e-educacao/. Acesso em 13 jun. 2022. Lucas Fortunato Carneiro é professor de Ensino Religioso e coordenador da Dimensão Missionária no Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG.
Pedro e Paulo: duas colunas e uma pedra angular

“Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”Mateus 16,13-19 O evangelho indicado para a festa de São Pedro e São Paulo nos situa diante de uma pergunta provocativa de Jesus: “e vós quem dizeis que eu sou”. Tal pergunta, dirigida aos discípulos e a cada um de nós, não só ajuda a “des-velar” (tirar o véu) a verdadeira identidade de Jesus como também nossa identidade original. Pedro, ao responder − “Tu és o Messias…” − no fundo, estava também deixando transparecer sua própria nobreza interior, aquilo que é o fundamento e sobre a qual se pode construir toda uma vida. E Jesus, como verdadeiro “pedagogo”, explicita o que estava escondido nas profundezas do coração de Pedro. “Tu és ‘petra’ (rocha, base sólida)”. Essa é a verdadeira identidade de Pedro. Ressoa no interior de cada um de nós esta mesma voz: “Tu és rocha…”. O coração de cada um está habitado de sonhos de vida, de futuro, de projetos; sente-se seduzido pelo que é verdadeiro, bom e belo; busca ardentemente a pacificação, a unificação interior, a harmonia com tudo e com todos…; sente ressoar o chamado da verdade, o magnetismo do amor, da plenitude; sente-se atraído por um desejo irreprimível de autotranscendência, de crescimento, de maturidade. Só a partir da vivência e da solidez interior poderemos descobrir o que significa Jesus como “Messias, o Filho do Deus vivo”. Só a partir da identificação com Ele é que poderemos também descobrir nossa original filiação, fundamento de nossa vida: “somos filhos e filhas do Deus vivo”. A filiação é a solidez que nos unifica a todos; ela é a base que sustenta nossa identificação com Jesus Cristo. Não é fácil tentar responder com sinceridade à pergunta de Jesus: “Quem dizeis que eu sou?”. Na realidade, “quem é Jesus para nós?”. Sua pessoa, seu modo original de ser e viver, chega a nós através de vinte séculos de imagens, fórmulas, devoções, experiências, interpretações culturais… que vão desvelando e velando ao mesmo tempo sua riqueza insondável. Mas, além disso, cada um de nós vai revestindo a Jesus com aquilo que nós somos. E acabamos projetando n’Ele nossos desejos, aspirações, interesses e limitações. E, quase sem nos dar conta, O apequenamos e O desfiguramos, mesmo quando queremos exaltá-lo. Mas Jesus continua vivo, e sua presença, na história da humanidade, sempre se revela provocativa e surpreendente. Na realidade, o que notamos é que grande parte dos cristãos não seguem e não se identificam com a Pessoa de Jesus; seguem doutrinas, ritos, algumas obrigações legais… que não têm impacto no modo de viver de cada um. Mas Jesus não se deixa etiquetar nem se deixa reduzir a alguns ritos, algumas fórmulas ou alguns costumes. Jesus sempre desconcerta a quem se aproxima d’Ele com atitude aberta e sincera. Ele se revela sempre diferente daquilo que pensamos e esperamos. Sempre abre novas brechas em nossa vida, rompe nossos esquemas e nos atrai a uma vida nova. Quanto mais O conhecemos, mais sabemos que ainda estamos começando a descobri-lo. Responder à pergunta − “quem dizeis que eu sou?” − é “perigoso” porque nos compromete com o modo de viver de Jesus: sua liberdade perante as tradições religiosas, sua relação com os mais pobres, sua opção clara em favor de uma causa humanizadora (Reino), a vivência dos valores presentes nas Bem-aventuranças, a visibilização do mandamento do Amor… Literalmente falando, Jesus é um “subversivo”, pois “sub-verte” nosso modo fechado de viver e de nos relacionar com os outros. Percebemos nele uma entrega livre que desmascara nosso egoísmo; Ele revela uma paixão pela justiça que sacode nossas seguranças, privilégios e busca de poder; transparece n’Ele uma ternura que deixa descoberto nossa mesquinhez, uma liberdade que põe às claras nossos apegos e dependências. E, sobretudo, vemos n’Ele um mistério de abertura, proximidade e intimidade com o Deus da Vida, que nos atrai e nos convida também a abrir nossa existência à intimidade com Ele. Só iremos conhecendo Jesus na medida em que nos identificamos com Ele e nos revestimos de seus sentimentos, valores, critérios… Só há um caminho para aprofundar em seu mistério: segui-Lo; seguir humildemente seus passos, abrir-nos com Ele ao Pai, prolongar seus gestos de amor e ternura para com todos, olhar a vida com seus olhos, compartilhar sua fidelidade à causa do Reino… São Pedro e São Paulo viveram, por caminhos diferentes, um original encontro com o Mestre da Galileia. Encontro que “des-velou” e extraiu o que havia de mais nobre e humano no coração de cada um deles (“tu és rocha” – “tu és paulo”). Foi essa solidez interior, que se visibilizou na maneira original de cada um seguir Jesus Cristo, que os transformou em colunas da Nova Comunidade dos seguidores do Nazareno. A eles foi conferida uma “autoridade” como caminho para o serviço e a promoção da vida. Jesus compartilha com eles sua mesma “autoridade”, que não tem nada a ver com o poder que domina ou a liderança que se impõe. Jesus tem “autoridade” porque o “centro” está no outro; Ele veio para servir. A expressão “autoridade” vem do verbo latino “augere”,que significa literalmente: aumentar, acrescentar, fazer crescer, dar vigor, robustecer, sustentar, elevar, levantar o outro, colocá-lo de pé, impulsioná-lo para frente… É a qualidade, a virtude e a força que serve para apoiar, para alentar, para ajudar as pessoas a serem elas mesmas, para fazê-las crescer, desenvolvendo suas próprias potencialidades. “Autoridade” significa recuperar a autoria, ativar a autonomia àquele que está impedido de optar e de fazer seu caminho. Nesse sentido, a autoridade nunca é perigosa para a pessoa, jamais é imposição ou atentado contra sua legítima autonomia ou liberdade. A autoridade é essencialmente amor. Também o exercício da autoridade deve ser medido pela palavra e pela obra de Jesus Cristo. E não pode ser de outra maneira, já que, se a origem da autoridade na Igreja é divina, também deveria ser “divina” o modo de exercê-la. Se toda autoridade provém de Jesus, deveria ser exercida à maneira como Jesus a exerceu, e isso vale tanto
Rede de Educação SSpS acolhe diretrizes do Capítulo-Geral

Membros da diretoria e coordenação pedagógica, assessorias e coordenações missionárias se reuniram para refletir e aprofundar o alinhamento de metas que serão explicitadas no Projeto Político Pedagógico Missionário da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo (SSpS). O encontro foi realizado entre os dias 15 e 18 de junho, no Convento da Santíssima Trindade, em São Paulo-SP. Na manhã do dia 15, iniciamos o encontro com os coordenadores missionários dos colégios e os assessores pedagógico e financeiro da Rede. O momento foi conduzido pela Ir. Maria Percila e o assessor Agostinho Travençolo Junior. Nesse primeiro momento, fomos convidados a mergulhar na dinâmica trinitária. A oração nos levou a reconhecer nossa missão diante do mistério de Deus e renovar nosso papel como discípulos e discípulas de Jesus. Em seguida, fomos conhecer um pouco da história do Convento da Santíssima Trindade, para entendermos a missão da Congregação e nossa também. Irmã Maria Percila e Agostinho nos levaram a refletir sobre a pericorese, a dança trinitária, movimento contínuo no qual a Trindade se manifesta ao mundo e nos convida a ser um com eles, como uma ciranda, em que cada um tem seu papel, sua dinâmica pessoal, mas está no todo, sem perder sua identidade. “Por isso vem, entra na roda com a gente…”. Capítulo-Geral e as escolas O grupo refletiu maneiras de incluir nas escolas as diretrizes do Capítulo-Geral das SSpS, realizado em janeiro de 2022. Foi um momento muito rico e intenso. Com base em cada uma das diretrizes do capítulo, foram elaborados objetivos para que facilitem a compreensão e a execução da essência das diretrizes, destacando a importância de se internalizar em todos a identidade missionária de nossas escolas. Na parte da tarde, a equipe missionária se reuniu e se debruçou sobre o Projeto Político Pedagógico Missionário, o marco doutrinal. Foi um momento de muita discussão, aprofundamento e resgate de toda a reflexão feita na parte da manhã. Durante a elaboração do marco doutrinal, foi possível clarear a identidade fundamentada na espiritualidade trinitária e no carisma missionário. Após longas horas, o grupo e as irmãs chegaram a um esboço a ser apresentado, no dia seguinte, para todo o grupo de diretores e coordenadores. No dia 16, já com toda a equipe reunida, no momento da oração da manhã, a orientação para todo o dia de trabalho. Luciana e Lucas, coordenadores missionários dos colégios Stella Matutina e Sagrado Coração de Jesus, conduziram a dinâmica da partilha e da comunhão. Explorando o evangelho da multiplicação dos pães, fizeram-nos refletir sobre a importância de cada um no projeto missionário. Cada um é peça importante na proposta educativa da Rede e, juntos, somos mais fortes. João Carlos, assessor pedagógico, conduziu uma dinâmica de apresentação e nos falou sobre “A gestão educacional no mundo de hoje”. Refletiu sobre o processo da aquisição do conhecimento (significado e sentido) para que possamos (educandos e educadores) ser transformadores da realidade. Em sua fala, abordou também a importância de se compreender e vivenciar a identidade missionária, razão de ser da educação da Rede. Também na ocasião, tivemos um encontro riquíssimo com a professora Aleluia Heringer, que nos trouxe pistas para compreendermos o currículo evangelizador. Trazendo toda a sua experiência como diretora de escola católica, apresentou-nos, com base nos documentos do Papa Francisco, a importância de assumir verdadeiramente a proposta de uma educação evangelizadora nos dias de hoje. Uma educação integradora, que pense o ser humano a partir de uma conversão ecológica, pela qual nos reconheçamos parte, e não “à parte”, da Criação; estamos todos interligados. Projeto Político Pedagógico Missionário À tarde, a equipe da dimensão missionária apresentou para o grupo o esboço do marco referencial missionário e as diretrizes do XV Capítulo-Geral e sua “encarnação” nas escolas: implementar projetos pedagógicos missionários integradores e transversais; cultivar uma linguagem intimamente relacional; promover e agregar ações missionárias; redesenhar processos de gestão para que o novo possa surgir; recriar os vínculos afetivos em nossas comunidades educativas; oportunizar espaços/momentos de vivência holística das espiritualidades; abrir-se a um processo de flexibilização pessoal; experimentar um novo jeito de acolher; sistematizar as ações de conversão ecológica existentes; aderir a um estilo de vida sustentável. Em seguida, foram formados os grupos por segmentos. Cada um começou a discutir e elaborar o novo Projeto Político Pedagógico Missionário, com esse olhar mais voltado para nossa identidade missionária. No dia 17, o dia começou com a oração conduzida por Alisson e Alexandre, coordenadores missionários dos colégios Espírito Santo e Imaculado Coração de Maria. Eles trabalharam com base em palavras inspiradoras para cada participante do encontro. E assim, após a leitura do Evangelho do dia (“Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração”), convidaram os participantes a construírem, juntos, uma linda aquarela a partir do olhar de cada um, valorizando a diversidade. Irmã Fátima trouxe uma bela reflexão sobre “Olhar da Rede sobre as questões educacionais hoje”. Ela, mais uma vez, falou sobre a importância de compreender o que é uma educação missionária. Uma educação que deseja formar cidadãos realmente transformadores na sociedade. Que nosso aluno que começa lá no infantil, ao chegar no ensino médio, consiga perceber o caminho educativo-missionário percorrido por ele. O sucesso desse aluno deve ser sua capacidade de intervir e transformar sua realidade e a realidade daqueles que convivem com ele, cumprindo verdadeiramente o objetivo da educação missionária. Os grupos, divididos por segmentos, apresentaram suas análises para a elaboração do novo Projeto Político Pedagógico Missionário. A discussão levou ao entendimento da necessidade de se pensar a educação missionária permeando todos os segmentos, sendo o fio condutor entre os segmentos e suas propostas. Evitando, dessa forma, a existência de uma escola fragmentada. Outro momento importante foi o de experimentarmos o novo que se faz presente em nossas escolas, o desafio da educação maker. A assessora tecnológica Karla expôs problemas reais que se apresentam em nosso cotidiano escolar e como a proposta maker pode e deve nos ajudar a superar tais dificuldades. Compreendemos que a construção do saber de forma compartilhada é muito mais
Centro Educacional Madre Josefa: o carisma das SSpS no Complexo do Alemão

O Centro Educacional Madre Josefa (CEMJ) é uma creche sem fins lucrativos, localizada no Morro do Alemão, no Rio de Janeiro-RJ. A obra social administrada pelas irmãs missionárias servas do Espírito Santo (SSpS) foi fundada em 20 de maio de 2003, idealizada pela irmã Irmilde (Ana Katharina Smith). A patrona do CEMJ, a bem-aventurada Madre Josefa, cujo nome de batismo era Hendrina Stenmanns (1852-1903), é, ao lado de Santo Arnaldo Janssen, fundadora da Congregação das SSpS. A história de vida da religiosa é marcada pelos cuidados em favor dos mais necessitados. O CEMJ funciona em regime de externato misto, em turno integral. Hoje atende 80 crianças de 2 a 6 anos incompletos e em vulnerabilidade social. Destina-se à educação infantil e creche, e integra a Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo. Como nas outras instituições administradas pelas irmãs, a filosofia de trabalho é inspirada na Santíssima Trindade, modelo de amor e comunhão. O IDH mais baixo A obra está localizada no bairro de Inhaúma, Zona Norte da capital fluminense. O lugar compõe o conjunto de favelas do chamado Complexo do Alemão. Segundo o censo de 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o índice de desenvolvimento humano (IDH) era de 0,711, o 126º e último colocado da cidade do Rio de Janeiro. A pesquisa ainda revelou que a população do bairro era de cerca de 60 mil habitantes, divididos em 21.048 domicílios, numa área de 21.982 km². O Morro emprestou seu nome ao Complexo, embora o personagem que inspirou a alcunha fosse, na verdade, um polonês. Leonard Kacsmarkiewiez, refugiado da Primeira Guerra Mundial e de nome difícil, logo foi apelidado pelos cariocas de “alemão”. Dessa forma, a área que era de sua propriedade passou a ser conhecida como Morro do Alemão. Um dos problemas mais graves na comunidade é a violência. Há uma constante tensão imposta pela disputa armada dos territórios dominados e silenciados pela violência física e psicológica. Mesmo assim, a obra social faz o possível para manter sua presença ao lado do povo, realizado projetos educacionais que visam à perspectiva de uma vida melhor. Desenvolvimento integral O Centro é o braço social do Colégio Imaculado Coração de Maria, também pertencente à Rede de Educação SSpS. Gilmara Solidade, coordenadora, explica que entre os muitos objetivos da ação educativa do CEMJ está o de contribuir para o desenvolvimento das relações interpessoais e da cidadania, por meio de atividades lúdicas. Além disso, a obra social busca enriquecer a autoestima dos educandos e familiares, e favorecer o conhecimento do mundo externo à comunidade, compreendendo e atuando em seu entorno social. Os trabalhos educativos, pastorais e sociais são baseados no patrimônio espiritual das SSpS. Os educandos recebem diariamente quatro refeições, reforçando o desenvolvimento nutricional. O Centro promove atividades pedagógicas e recreativas. Com foco na segurança emocional e no desenvolvimento pleno, as crianças são acompanhadas pelas professoras com formação em Pedagogia e por recreadoras. O grande desafio da obra social é manter toda a estrutura física e modernizar o espaço, para deixá-lo atualizado tecnologicamente e, assim, oferecer qualidade do ensino e aprendizagem. “Encontrei no CEMJ o acolhimento que tanto precisava e aqui descobri a especificidade do meu filho. Portador de TEA (transtorno do espectro autista) e TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade), ele sempre foi incompreendido em outros espaços. O CEMJ me ajudou a aceitar a condição dele e a buscar tratamento. Só tenho a agradecer”, conta Mariman Moraes, mãe do pequeno Davi. Ana Katharina Smith (irmã Irmilde), SSpS, é a idealizadora do CEMJ. Teve atuação marcante no Complexo do Alemão durante mais de 20 anos. Conhecendo os desafios da comunidade, fundou a instituição para dar apoio às famílias que mais precisavam, gerando também emprego aos moradores. Todas as colaboradoras do CEMJ são moradoras do lugar. Em sua maioria, são o aporte financeiro de seu grupo familiar. Elas são incentivadas a estudar e a conquistar seu espaço, respeito e dignidade, assegurando o desenvolvimento de seu potencial.
13º DOMINGO DO TEMPO

“Eu te seguirei para onde quer que fores”Lucas 9,51-62 A liturgia deste 13º Domingo do Tempo Comum traz como tema central a qualidade do seguimento do projeto de Deus. O trecho de Lucas abre um novo ciclo, relatando o início da significativa viagem de Jesus a Jerusalém, onde Ele cumprirá sua missão até “ser levado para o céu” (versículo 51). Ao longo da difícil jornada, o Mestre dará muitos ensinamentos e deixará para o leitor a tarefa de avaliar e responder a alguns dilemas da vida em Cristo. O contexto geográfico não é o mais importante, mas o que ocorre ao longo da viagem e em seu desfecho. Para chegar a Jerusalém, Jesus deve cruzar a região da Samaria. Os samaritanos são tidos pelos judeus como impuros, e as hostilidades mútuas são comuns. Com história de miscigenação e vítima de muito preconceito e intolerância, esse povo não pratica o culto do Templo, e os peregrinos galileus, ao passarem por seu território rumo ao sul, são intimidados, a ponto de, às vezes, sequer conseguirem água para beber. O Senhor envia mensageiros à frente, para preparar-lhe hospedagem, demonstrando a “solenidade” do momento. A missão fracassa. Tiago e João, revoltados com a negativa dos samaritanos, fazem jus ao apelido de “Filhos do Trovão”. Ainda contaminados com a ideia de um messianismo cheio de poder, ao estilo dos opressores deste mundo, desejam vingar-se e sugerem pedir que caia fogo do céu para destruir aquela gente (vers. 54). Jesus imediatamente os repreende (mesmo termo usado para os exorcismos) e, de sua parte, quebra o ciclo de ódio. A passagem expõe um Mestre mais indignado com a reação violenta dos discípulos que com a falta de acolhida dos samaritanos. Um dado curioso: o segundo livro de Lucas, os Atos dos Apóstolos, conta que a Samaria será o primeiro lugar fora da Judeia a acolher a mensagem do Evangelho (Atos 1,8; 8,4-8). Os primeiros desafios, internos e externos, do caminho já dão o tom do difícil seguimento do Senhor. Assim, a continuação do texto deste domingo narra sobre três personagens. Eles não têm nome, talvez representando um pouco de cada um de nós. O primeiro é radical: “Eu te seguirei para onde quer que fores!”, mas o Nazareno “joga limpo”, dizendo não ter onde sequer reclinar a cabeça. A alusão às tocas das raposas e os ninhos das aves pode denunciar a “estabilidade” dos poderosos, algo contrário a quem se põe a caminho (em Lucas 13,12, por exemplo, Jesus chama Herodes de “raposa”). O segundo personagem (central entre os três) recebe o chamado do Messias. Algo muito importante, porém, impede uma resposta imediata: o drama de perder o pai e a necessidade de ir sepultá-lo antes. Esse trecho, bem delicado, é dos muitos a não serem lidos apressadamente. Em outras passagens dos Evangelhos, vemos o próprio Cristo se comovendo diante da morte e do luto, por isso haveria uma contradição em não aceitar que o filho honrasse o pai numa hora tão significativa. Assim, essa passagem pode ser compreendida na chave de ruptura com as tradições paternas judaicas e no contraste entre morte (passado) e vida (proposta do reinado de Deus). O terceiro personagem, como o primeiro, se oferece para acompanhar o Mestre, mas impõe uma condição: despedir-se dos familiares. A expressão também tem o sentido de desvincular-se de alguma tarefa, talvez de administrar um bem ou serviço, nos termos de hoje. Em suma, sugere-se um apego a algo que o impede de juntar-se livremente à missão (veja a segunda leitura: Gálatas 5,1.13-18). Um aspecto bem típico do conteúdo dessa viagem, já no excerto de hoje, é o autor não informar detalhes desses candidatos ao discipulado e qual a resposta final de cada um. O desenlace fica por conta do ouvinte, o qual tem a chance de pensar também na própria decisão. O caminhar com Jesus não é teórico, mas proveniente de decisão firme e real como a do Mestre. O reinado de Deus não tem lugar para um meio seguimento, mas para um horizonte de esperança. A primeira leitura desta liturgia (1 Reis 19,16b.19-21) dá um bom exemplo: Eliseu larga o arado logo ao ser chamado por Elias e, com coragem, segue adiante. A segunda leitura destaca a verdadeira liberdade. O apego pode nos aprisionar e paralisar, como ocorreu com a mulher de Ló, ao olhar para trás e virar uma estátua de sal (Gênesis 19,26). Possamos andar firmes nos passos do Senhor. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.
A missão de acolher quem chega ao Brasil

Três datas na segunda metade de junho nos fazem refletir sobre a movimentação humana no Brasil e no mundo. O Dia Nacional do Migrante (dia 19), o Dia Mundial do Refugiado (20) e o Dia do Imigrante (25) colocam em evidência a realidade dessas pessoas e os papéis que governos e sociedade precisam desenvolver no acolhimento dessa população. Nesse contexto, apresentamos duas frentes de trabalho das irmãs missionárias servas do Espírito Santo e favor de quem chega a nosso País. Ações para os migrantes em Alto Alegre-RR “Nosso serviço consiste em estar onde é mais necessário. Essa é a herança recebida pelos fundadores da Congregação das Irmãs Missionárias Servas do Espírito Santo.” Assim pontua a irmã Aurélia Prihodova sobre a importância das ações desenvolvidas pelas quatro religiosas pertencentes a uma comunidade intercultural e internacional na Paróquia Santo Isidoro, em Alto Alegre, Roraima. Além do apoio à paróquia, sobretudo nas áreas de formação, pastoral e administração, elas participam de ações desenvolvidas pela Diocese de Roraima e da rede de atendimento social no movimento migratório da Venezuela e da Guiana Inglesa. Também oferecem apoio nas demandas dos povos indígenas (Macuxi e Wapichana) em sua luta por direitos fundamentais e territoriais. “É um lugar desafiador, onde a gente passa por uma transformação pessoal e comunitária. Nossa missionariedade oportuniza a disposição e flexibilidade de acolher, atender, aprender e servir a humanidade encontrada e integrá-la para o meio social”, afirma a missionária. A atenção especial aos movimentos migratórios começou em meados de 2018. Naquele ano, foram cadastrados 200 estrangeiros que chegaram a Alto Alegre em busca de uma vida digna. Em 2019, os atendimentos aumentaram, com registro de 285 pessoas acolhidas pelo serviço. Apesar da covid-19, a migração não parou nos anos seguintes, mesmo com o fechamento oficial das fronteiras entre Brasil e Venezuela, devido à pandemia. Em 2020, 150 pessoas buscaram apoio na comunidade de Alto Alegre. Em 2021, foram 170 migrantes. E, em 2022, já são 100 cadastrados. “Eles passam por caminhos perigosos e ilegais, chegando ao Brasil sem nada, somente com a violência e violação dos direitos fundamentais. Atendemos aqueles que permaneceram aqui no Município e os que estão sempre chegando. A média é de 350 a 400 pessoas”, comenta Ir. Aurélia. As religiosas atuam em rede com a Diocese de Roraima e com outras instituições, como a Organização Internacional do Migrante (OIM), o Serviço da Pastoral do Migrante (SPM) e a Cáritas Diocesana e Nacional. Primeiramente, o foco do atendimento é a fome. Depois, a documentação. E, em terceiro lugar, as irmãs oferecem aulas de Língua Portuguesa para favorecer a integração das pessoas, famílias e profissionais que saíram da Venezuela devido à crise. A paróquia criou também um grupo de mulheres imigrantes para promover a troca dos saberes culturais e tradicionais, além de escutá-las e de ser um lugar onde elas possam falar. Uma das ações permanentes são os agendamentos com a Polícia Federal e com o Posto de Interiorização e Triagem (Pitrig) para confecção da documentação de refúgio ou de residência das pessoas, ou ainda a renovação dos documentos daquelas que permaneceram no Município com esperança de retornar à Venezuela. Por meio do projeto de interiorização, já foram encaminhadas 75 pessoas para outros Estados do Brasil. De acordo com Ir. Aurélia, as tratativas com o Poder Público Municipal abrem caminho para o atendimento dos migrantes nos postos de saúde bem como a integração das crianças, adolescentes e jovens para a educação. Valendo-se da plataforma da Receita Federal, a Paróquia Santo Isidoro consegue agilizar também a solicitação do CPF sem que eles tenham necessidade de gastar dinheiro com a viagem até a capital, Boa Vista. A plataforma on-line do Ministério de Trabalho facilita a confecção da carteira de trabalho e acesso a benefícios sociais e do INSS. Porém, o esforço das missionárias em acolher os migrantes também se depara com dificuldades. “O que desafia nossa missão aqui é a xenofobia. No Município (Alto Alegre), não existem alternativas de poder empregatício. A população é formada por pequenos agricultores que lutam pela sobrevivência com um olhar não muito positivo para os migrantes. Escutamos muitas críticas, mas confiamos em Deus Uno e Trino que envia seu dinamismo e coragem para podermos agir com compromisso, responsabilidade e transparência em todas as atividades na missão a nós confiada”, conta Ir. Aurélia. Da parte de quem recebe essa atenção das irmãs, o sentimento é de gratidão. “Para mim, tem existido apoio, principalmente do Serviço da Pastoral dos Migrantes, que não só me ajudou espiritualmente, mas também me deu a oportunidade laboral. No princípio, foi muito difícil para eu me adaptar a uma língua nova. Deixei tudo lá (em Caracas): casa, trabalho, família e formatura. Algumas vezes, eu me sentia muito deprimida. Mas depois começou minha resiliência. Fui começando a me acostumar com as novas formas de vivência, incluindo cultura, língua e outros costumes. Trabalhei como faxineira, babá, ajudante de cozinha e vendedora de din-din. Pouco a pouco, fui me adaptando até me converter em agente pastoral e funcionária humanitária. Hoje ajudo muitos migrantes vulneráveis como eu”, diz Orladys Enriqueta Hernandez, 44 anos, que migrou da Venezuela para o Brasil devido à crise alimentar, saúde, educação e insegurança. Hoje ela vive em Boa Vista. Centro de Integração do Migrante em São Paulo-SP Inaugurado em 12 de dezembro de 2015, o Centro de Integração do Migrante (CIM) é uma iniciativa das irmãs missionárias servas do Espírito Santo que se configura como um espaço de convivência para a integração social, orientação e capacitação profissional de imigrantes que vivem na capital paulista. O trabalho é desenvolvido em conjunto com a Pastoral do Migrante da Arquidiocese de São Paulo e da Paróquia São João Batista do Brás. A atuação das missionárias no CIM tem seu foco na acolhida, proteção, promoção e integração dos migrantes, promovendo a preservação das diversas culturas e, de modo contínuo e respeitoso, apresentando a cultura brasileira. “Em geral, nossa comunidade é composta por três irmãs. No momento, estamos em duas, coordenando o CIM, atendendo, fazendo visitas, ajudando
A educação precisa ser para todos

Acesso? Qualidade? Inclusão? Palavras muito ouvidas e, constantemente, discutidas em nosso convívio. Mas o que tem a educação a ver com isso? Tudo! Atualmente, há como não perceber as inúmeras cenas de mudanças na sociedade global? O campo educacional, particularmente, tem se articulado para garantir o direito à educação de qualidade, fundamental para promover a formação cidadã, o desenvolvimento social dos estudantes e assegurar a dignidade da pessoa humana, valorizando toda a sua diversidade. Quando falamos sobre acesso à educação, não podemos simplificar ao significado pontual da palavra: ingresso, caminho, ato de chegar ou de se aproximar ou usufruir de algo. Não é como ter uma credencial e ter acesso a algum lugar ou a alguma coisa simplesmente. A Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Nacional (Lei n.º 9.394/1996) afirma que “é direito de todo ser humano o acesso à educação básica”, assim como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a qual estabelece que “toda pessoa tem direito à educação”. Ter acesso à educação, portanto, é a capacidade de todas as pessoas de terem oportunidades iguais na educação, independentemente da sua classe social, raça, gênero, sexualidade, origem étnica ou deficiência física e mental. Apesar da evidência do direito educacional, entretanto, ainda há uma grande parte da população brasileira que não tem acesso ao ensino público. E, nesse momento, acrescentamos a palavra qualidade à palavra acesso. Há àqueles que, mesmo tendo acesso ao ensino, não adquirem conhecimentos considerados essenciais, seja por insuficientes investimentos na formação dos docentes ou pela quase inexistência de comprometimento dos governantes com essa causa. Desse modo, aquele que tem o acesso não usufrui da qualidade. Corroborando essas afirmações, o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 4, voltado especificamente para educação, visa a assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida, para todos. Conjuntamente ao acesso e à qualidade da educação, temos o desafio de adotarmos uma postura inclusiva nos processos educativos. Postura essa que pressupõe a igualdade de oportunidades e a valorização das diferenças humanas, contemplando, assim, as diversidades étnicas, sociais, culturais, intelectuais, físicas, sensoriais e de gênero dos seres humanos. À vista disso, as práticas escolares não devem ser adaptadas para alguns alunos, e sim transformadas em um ensino diferente para todos. Um ensino que garanta todas e quaisquer condições de aprender, em que as necessidades específicas não sejam ignoradas, mas que os educadores saibam quando e como usar recursos especializados para assegurar que todos aprendam. A educação dentro desse contexto vai muito além de garantir que as crianças e os jovens estejam na escola. Tem a ver com o direito ao desenvolvimento pleno e integral deles, e é nesse ponto que se destaca uma educação de qualidade. É importante mostrar que estando dentro da escola, o aluno será ouvido, valorizado, visto como único e, principalmente, construtor do seu conhecimento, dentro de suas capacidades e necessidades. A escola deve proporcionar oportunidade de desenvolvimento intelectual a todos os alunos, respeitando o tempo de aprendizagem de cada um e o modo como aprendem. Combinar o princípio da igualdade de oportunidades com o princípio da diferença fundamentará os propósitos de uma educação de qualidade, em que todos possam ser vistos com suas particularidades e que elas devem ser consideradas como diversidade e não como problema. “Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo. A educação é a única solução” (Malala Yousafzai, 2013). Liliane Alves BarcellosPedagoga, psicopedagoga e professora do 1º ano do ensino fundamental no Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG.
12º Domingo do Tempo Comum

“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia sua cruz e me siga”Lucas 9,18-24 Aqui temos a versão lucana da profissão de fé de Pedro, que Marcos põe no caminho de Cesareia de Filipe (Marcos 8,27-35) e coloca como pivô de todo o seu Evangelho. Esse trecho levanta as duas perguntas fundamentais de todos os evangelhos: “Quem é Jesus?”, “O que é ser discípulo dele?”. São duas perguntas interligadas, pois a segunda resposta depende muito da primeira. A minha visão de Jesus determina a maneira de meu seguimento dele. O Evangelho de Lucas situa o texto em um contexto diferente dos outros dois evangelhos sinóticos: diz que Jesus “estava rezando em um lugar retirado, e os discípulos estavam com ele”; enquanto, em Marcos e Mateus, o evento se dá na estrada de Cesareia de Filipe. Uma atitude típica de Jesus em Lucas. Muitas vezes, no Terceiro Evangelho, especialmente antes de momentos importantes em sua vida, Jesus se acha em oração. Pois Ele faz nada por vontade própria, mas escutando a vontade do Pai. O diálogo começa com uma pergunta um tanto inócua: “Quem dizem as multidões que eu sou?”. É inócua, pois não compromete. O “diz que” não compromete ninguém, pois expressa a opinião dos outros. Por isso, chovem respostas da parte dos discípulos: “João Batista, Elias, um dos antigos profetas que ressuscitou!”. Mas Jesus não quer parar aqui (a pergunta foi só uma introdução). Depois vem a “facada”: “E vocês, quem dizem que eu sou?”. Agora não chovem respostas, pois quem responde vai se comprometer, não será a opinião dos outros, mas a opinião pessoal. Essa opinião traz consequências práticas para a vida. Finalmente, Pedro se arrisca: “O Messias de Deus” (os termos “Messias”, em hebraico, e “Cristo”, em grego, têm o mesmo sentido: o Ungido de Deus). Mas a reação de Jesus é, no mínimo, estranha: “Ele proibiu severamente que eles contassem isso a alguém”. Que coisa esquisita! Jesus proíbe que se fale a verdade sobre ele! Como ele espera angariar discípulos desse jeito? O assunto merece mais atenção. Realmente, Pedro acertou em termos de teologia, de “ortodoxia”, conforme diríamos hoje. Ele usou o termo certo para descrever Jesus. Mas Jesus quer esclarecer o que significa ser “O Messias de Deus”. Pois cada um pode entender esse termo conforme sua cabeça, seus desejos. Jesus quer deixar bem claro que ser “messias” para ele é ser o “Servo Sofredor” de Javé. É vivenciar o projeto do Pai, que necessariamente vai levá-lo a um choque com as autoridades políticas, religiosas, e econômicas, enfim, com a classe dominante de seu tempo: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto, e ressuscitar no terceiro dia” (versículo 22). Essa visão que Jesus tinha do Messias, não era a comum. Em geral, o pessoal esperava um messias triunfante, glorioso e guerreiro. O relato em Marcos (mas não a versão em Lucas) mostra-nos que Pedro partilhava essa visão errada, ao ponto de tentar corrigir Jesus e de ganhar do Mestre uma correção dura: “Fique atrás de mim, Satanás! Você não pensa as coisas de Deus, mas as coisas dos homens” (Marcos 8,33). Não basta ter os termos e títulos certos, mas o conteúdo certo. Normalmente todos nós temos os títulos certos para descrever Jesus e sua missão. Nós os aprendemos, desde a infância, desde a catequese para a primeiro comunhão. Mas o que significam esses títulos para nós, em nossa vivência diária? Professamos que Jesus é o Cristo, o Salvador, o Redentor, o Filho de Deus, mas em que minha vida é diferente porque tenho essa crença? Ele realmente é meu Senhor, meu Salvador, da maneira que procuro reproduzir e atualizar suas soluções e atitudes em minha vida, não somente no que crio, mas nas minhas atitudes na vida pública, profissional, familiar e social? A Bíblia nos conta que Deus criou o homem e a mulher na sua imagem e semelhança, mas, na verdade, nós criamos Deus em nossa imagem e semelhança, para que Ele não nos incomode. Nossa tendência é seguir um messias triunfante e não o Servo Sofredor. Mas, para Jesus, não há meio-termo. O discípulo tem de andar nas pegadas do seu mestre: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e me siga” (Lucas 9,23). O seguimento de Jesus leva à cruz, pois a vivência das atitudes e opções dele vai nos colocar em conflito com os poderes contrários ao Evangelho. Carregar a cruz não é aguentar qualquer sofrimento. Assim, a religião seria masoquismo. Carregar a cruz é viver as consequências de uma vida coerente com o projeto do Pai, manifestado em Jesus. Segui-lo não é tanto fazer o que Jesus fazia, mas o que ele faria se estivesse aqui hoje. Como Ele foi morto, não pelo povo, mas por grupos de interesse bem claros, “os anciãos, os chefes dos sacerdotes e os doutores da Lei” (a elite dominante em termos econômicos, religiosos e ideológicos), seus seguidores entrarão em conflito com os grupos que hoje representam os mesmos interesses. Por isso sempre haverá a tentação de criarmos um Jesus light, sem grandes exigências, limitado a uma religião intimista e individualista, sem consequências políticas, econômicas ou ideológicas. Seria cair na tentação de Pedro, conforme o relato de Marcos. O texto faz ressoar, para cada um de nós, as duas perguntas de Jesus. É fácil responder ao que os homens dizem dele, o que dizem o Papa, o bispo, o catequista, os teólogos, a tevê. Mas essa pergunta não é tão importante. É a segunda que cada um tem de responder: “Quem é Jesus para mim?”. E a resposta vai se dar não tanto com os lábios, mas com as mãos e os pés. Respondemos quem é Jesus para nós por nossa maneira de viver, por nossas opções concretas, por nossa maneira de ler os acontecimentos da vida e da história. Tenhamos cuidado com qualquer Jesus que
Escolas são guardiãs da tradição das festas juninas

No calendário das escolas de todo o Brasil, a chegada de junho vem acompanhada pelo colorido de vestimentas caipiras e das bandeirinhas que enfeitam pátios, salas e corredores. Em alguns casos, o período das festas juninas pode se prolongar até julho, em programações que valorizam a cultura, além de promover a alegria e a integração, sendo tudo isso parte do conteúdo pedagógico. A celebração tem suas origens em festividades da Europa que marcavam a passagem da primavera para o verão no Hemisfério Norte, sendo trazida para o Brasil por influência dos portugueses do século XVI. As danças, músicas e comidas que conhecemos hoje evidenciam a mistura de elementos típicos do interior do País e de tradições sertanejas, forjadas pela mescla das culturas africana, indígena e europeia. “A cristianização da festa está diretamente relacionada ao estabelecimento de comemorações de importantes figuras do catolicismo, entre as quais se destacam Santo Antônio (homenageado em 13 de junho), São João (dia 24) e São Pedro (dia 29)”, informa o portal Brasil Escola. Nas escolas das missionárias servas do Espírito Santo, essa tradição também vem de longa data, sendo um dos eventos mais aguardados por toda a comunidade escolar. Danças de quadrilha junina, as brincadeiras e o casamento caipira são algumas das atividades que ficam na memória de quem participa dessas festas. Saiba como é esta prática nos colégios Imaculado Coração de Maria (Rio de Janeiro-RJ), Santa Maria (Cascavel-PR), Espírito Santo (São Paulo-SP) e Espírito Santo (Canoas-RS). Festejos têm caráter pedagógico Dentro de seu planejamento pedagógico, o Colégio Imaculado Coração de Maria entende que valorizar as tradições culturais deste imenso país junto às gerações mais novas é proporcionar acesso à riqueza, beleza e diversidade dos povos originários, povos africanos e europeus. “O Brasil possui como característica reconhecida a multiculturalidade, o que nos enche de orgulho. E trazer uma festa tipicamente campestre para a cidade é dar visão, valorizar e respeitar os traços e costumes típicos desses brasileiros que transformam, em cores e passos vibrantes, as noites das festas juninas do interior do País”, assinalam os educadores. Por isso, a tradicional festa junina da escola não se resume apenas a ensaios, danças e barraquinhas. Engloba um estudo sobre esse Brasil, aparentemente distante, que colocou em evidência artistas como Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Dominguinhos, Marinês, Elba Ramalho, além de aspectos culturais e a beleza das festas de Caruaru-PE e de Campina Grande-PB, com seu teto colorido de bandeirinhas, quadrilhas, xotes, baiões e a história da força do povo sertanejo. “Esses valores são passados e debatidos com os alunos, durante as aulas em sala, e depois trazidos aos ensaios, quando professor e aluno fazem uma união entre as músicas mais tocadas nas áreas urbanas com as músicas marcadas por zabumbas, triângulos e sanfonas, para daí saírem as danças que abrilhantam nosso evento”, afirmam os professores do Colégio Imaculado Coração de Maria. A coordenadora pedagógica da educação infantil do Colégio Espírito Santo (CES) de Canoas, Elen Zimmermann, ressalta, inclusive, que as festas juninas integram a competência de Repertório Cultural na Base Nacional Comum Curricular: “Na BNCC, entra toda a parte cultural e de festividades que caracterizam cada Estado do País. Fazemos o estudo das regiões para fundamentar a festa com essas informações. Já trabalhamos como temática a biografia de Luiz Gonzaga e Elba Ramalho, por exemplo”. Essa competência da BNCC estabelece como fundamental que os estudantes conheçam, compreendam e reconheçam a importância das diversas manifestações artísticas e culturais, propondo a participação deles em práticas diversificadas da produção artístico-cultural. Outro aspecto pedagógico é a mescla da festa junina com projetos escolares e eventos como a Copa do Mundo, propondo conexões ainda mais amplas. “A festa junina é uma tradição no CES. É uma atividade muito esperada, cheia de alegria, dança, gostosuras e descontração. Aproveitamos a oportunidade para enfatizar o programa Líder em Mim, desenvolvendo os princípios dos sete hábitos trabalhados com os alunos, colocando-os em ação, de forma a desenvolver a proatividade, a estabelecer o que é mais importante, pensando o ganha-ganha, além de criar sinergia na organização, nos ensaios e na apresentação das danças”, comenta Adriana Maciel, coordenadora pedagógica do ensino fundamental I do colégio gaúcho. Também no Colégio Santa Maria, em Cascavel, a professora Rosangela Maria de Oliveira Bueno, do ensino fundamental, conta como a programação envolve todo um trabalho multidisciplinar: “As festas juninas fazem parte do calendário letivo e são momentos para o desenvolvimento de muitas atividades lúdicas, além de uma valiosa oportunidade para que os professores ensinem conteúdos relativos a diferentes disciplinas, como Geografia, História, Artes e Educação Física. O evento contribui para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, principalmente nas crianças, possibilitando a integração entre todos os envolvidos, e estimula competências impactantes para a socialização, como cooperação, paciência e respeito”. Presença da família e da comunidade A alegria das festas juninas é algo que empolga não somente os estudantes, mas também seus familiares e, em alguns casos, ex-alunos e a comunidade vizinha às escolas. “Nossa festa junina é referência no bairro, pois é um momento em que várias gerações do Colégio Imaculado Coração de Maria se reencontram para aproveitar o festejo e participar da tradicional dança de quadrilha dos ex-alunos”, dizem os professores. O evento inicia com uma procissão, tendo a imagem de Nossa Senhora Aparecida à frente, levada por um colaborador, seguida pelos estandartes dos três santos juninos: Santo Antônio, São João e São Pedro. “É lindo ver toda a comunidade escolar atrelada a esse momento em que se celebra também nossa fé. Nós, educadores deste grande colégio, colocamos nosso saber e nosso coração em prol de uma educação verdadeira, que desenvolve a empatia, o respeito e o reconhecimento por esse patrimônio cultural que são as festas juninas”. No Colégio Espírito Santo, na capital paulista, um dos propósitos também é essa integração. “A nossa festa junina significa família, diversão e tradição. É um dia cheio de brincadeiras populares, comidas típicas e danças, que dão um toque de beleza. É um momento no qual as crianças apresentam o que aprenderam e resgatam o que