Deus perdoa em nós

Veja a reflexão elaborada pelo jesuíta padre Adroaldo Palaoro, comentando o Evangelho proclamado na liturgia deste 24º Domingo do Tempo Comum. A passagem está em Mateus 18,21-35.

Perdão em tempos de fragmentação

O que fazer diante do contexto de fragmentação em que vivemos? Sentir-nos afetados por essa situação pode ser um chamado a estar atentos. Isaías nos convida a alargar a tenda de nossa vida, afundando as estacas, para que possam segurar bem a tenda (Is 54,2) Há uma epidemia que silenciosamente se espalha e nos coloca uns contra os outros, criando inimigos e culpados para as crises que vivemos hoje, como humanidade. Essas crises podem chegar a nós como uma ameaça e despertar forças ocultas de violência, movidas pelo medo e instinto de defesa. Por outro lado, temos hoje movimentos que vivem e anunciam o perdão e que também se percebem como uma irradiação que leva cura e transformação ao mundo. O perdão é um deles. Antes de tratar do perdão, olhamos para a vitimização como raiva, ressentimento sedimentado principalmente em nosso inconsciente. No estado de vitimização, a pessoa fica desconectada dos sentimentos da dor e das perdas que sofreu; fica no medo, na baixa autoestima e na repetição de comportamentos compulsivos. Esse ressentimento pode ser projetado para fora de si como vingança em pensamentos, palavras, ações e omissões, achando que isso resolve. Mas a dor reprimida continua pulsando para dentro e para fora de si. A dor não curada atua como um véu através do qual avaliamos, de maneira distorcida, a realidade que nos rodeia e, assim, ficamos projetando condicionamentos de nossa mente, acreditando ter razão e agindo em consequência. É sobre essa energia violenta, alojada em nosso consciente e principalmente em nosso inconsciente, ativada pela manipulação das fake news, dos medos e insegurança de nosso tempo, que pode vir uma das causas das divisões e polarizações que vivemos atualmente. O ressentimento dificulta também aceitar os diferentes modos de ser e viver; dificulta lidar com a pluralidade o que explica a intolerância presente em nossos dias. Estamos ante um chamado a tomar consciência e discernir nossas escolhas. Perdão é uma escolha que pode resgatar nossa profunda dignidade e conduzir-nos ao que realmente somos em nossa essência. Perdão, para Robin Casarjian,1 é uma decisão, um processo e um modo de vida. A palavra “per-dão” significa doar, doar a dor que pede passagem para ser liberada; desapego do que nos prende ao ressentimento. Nas Escolas de Perdão e Reconciliação,2 é oferecida a possibilidade de fazer um exercício sobre esse processo que permite olhar-se como vítima, num espaço seguro onde a dor é reconhecida, acolhida e compreendida. Temos dificuldade de entrar em relação com a dor causada pelas ofensas e expressá-la pela necessidade de aparecer bem, não parecer fraco; por medo, vergonha, pelo viver no automático e na inconsciência. O processo do perdão passa pela expressão da dor e pede a habilidade de olhar para dentro de nós, conhecer-nos, perdoar-nos e amar-nos; um processo que nos leva à autocompaixão conosco e, ao mesmo tempo, com as outras pessoas; um caminho que nos conduz a descobrir quem somos. Essa é uma possibilidade de alargar nossa tenda e fincar mais profundamente as estacas na imagem que nos apresenta o profeta Isaías. É um chamado fundamental diante da ameaça de nos considerarmos bons e projetar no outro, no diferente, o que escondemos de nós mesmos e atribuir aos outros a causa dos males do mundo, e, assim, justificar a violência até em nome de Deus, como estamos vendo em nosso tempo. Perdoar nos permite avançar como humanidade, viver com mais saúde, liberdade e felicidade; permite ser criadores da história no momento presente, único em que podemos escolher a vida e o amor. Recentemente celebramos a Páscoa, passagem da morte para a vida, festa do perdão; grande convite a olhar-nos como Deus nos olha. Notas1 Casarjian, Robin. O livro do perdão. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.2 Escolas de Perdão e Reconciliação (Espere). Há vinte anos, nasceram na Colômbia e logo se espalharam por vários países da América Latina, chegando também ao Brasil. Irmã Martina Maria González Garcia, SSpS

Nossos antepassados presentes

Você acredita em vida pós-morte? Como presta homenagem a seus antepassados? “Finados”, “falecidos”, “desencarnados”, “espírito”, “alma”, enfim, os entes queridos que foram desta vida para outra são nossos ancestrais que se tornam presentes em nossas memórias. Todos geralmente têm algum parente, vizinho ou amigo próximo que partiu, mas sua memória permanecemos a “cultuar”, em nossos corações, com lembranças vividas em momentos significativos. Neste ano de 2020, com a pandemia, milhões de pessoas no mundo partiram por causa da covid-19, uns com idade avançada, outros ainda jovens, além dos que se foram devido a outras doenças, os que foram pela violência na sociedade ou por motivos diversos. Ninguém sabe a hora que vai. A partida pode acontecer a qualquer momento. Muitos acreditam que somente na velhice se deve pensar no assunto. Porém o tempo não nos pertence. Por isso cada instante deve ser vivido com intensidade no bem, na prática da virtude. A morte é uma experiência que o ser humano vivencia desde que o mundo é mundo. Para uns, pode significar liberdade; para outros, o fim. A verdade é que não nos acostumamos com a ideia, pois ainda somos muito apegados à nossa vida material. Para os cristãos, o Dia de Finados é uma data de prestar homenagem aos que nos antecederam nesta vida e oferecer-lhes orações fervorosas. Um dos modos de representação religiosa para o fenômeno é acender vela, oferecer flores. Cada povo tem seus costumes para homenagear as pessoas amadas. Certas culturas andinas levam comida para o túmulo de seu ente querido, algumas asiáticas cultuam uma planta próxima ao jazigo, outras fazem rituais de dança. Os antigos egípcios já tinham o hábito de cultuar seus mortos em túmulos significando “casa da eternidade”. O que há em comum é que todas têm a crença de que existe vida após a morte e que os espíritos necessitam de preces, sejam de gratidão ou de perdão. Na Grécia Antiga, a morte já era um assunto filosófico. Pitágoras, Sócrates, Platão, entre outros pensadores, defendiam a imortalidade da alma, por isso a busca da prática das virtudes é vista como a única certeza que levaremos conosco para a vida futura após nossa despedida terrena. Alguns definem esse fenômeno como a separação de átomos do corpo, deixando a alma livre, conforme Epicuro (341-271 a.C.). Cícero (I a.C.) e Sêneca (65 d.C.), influenciados por seus antecessores, tratavam sobre a passagem da velhice e a brevidade da vida, reafirmando a importância de uma conduta ética. Arthur Schopenhauer (1768-1860) resgataria o assunto, ao escrever, em sua obra Da morte, que o ser humano é o único entre os animais ter consciência de sua finitude terrena. Independentemente da simbologia que usarmos para homenagear nossos antepassados, o cristianismo nos deu a certeza de que a morte não existe, pois Cristo a venceu. E ainda disse: “Na casa do meu Pai, há muitas moradas”. Então confiemos que, um dia, todos nós nos encontraremos na eternidade.Roguemos aos mártires, aos santos, aos nossos intercessores coragem para continuarmos a vida sempre na esperança, na fé e na prática do bem a caminho da vida eterna. Um texto de Henry Scott Holland, ministro anglicano, mas costumeiramente atribuído a Santo Agostinho, diz: A morte não é nada. Eu somente passei para o outro lado do caminho. Eu sou eu, vocês são vocês. O que eu era para vocês, eu continuarei sendo. Me deem o nome que vocês sempre me deram, falem comigo como vocês sempre fizeram. Vocês continuam vivendo no mundo das criaturas, eu estou vivendo no mundo do Criador. Não utilizem um tom solene ou triste, continuem a rir daquilo que nos fazia rir juntos. A vida significa tudo o que ela sempre significou. O fio não foi cortado. Eu não estou longe, apenas estou do outro lado do caminho. Você que aí ficou, siga em frente! A vida continua, linda e bela como sempre foi. Celebremos a vida! Sejamos gratos a nossos antepassados e rezemos por todos os entes queridos e também àqueles que se recomendam nossas orações. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia (USP), especialista em Ensino de Filosofia (UFSCar), graduada em Filosofia (UFJF) e Pedagogia (Unitins), Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP e SBPC, atualmente professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Comissão de Prevenção e Combate à tortura pela ALESC, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa pertencente à Arquidiocese de Florianópolis.

Escola de Perdão e Reconciliação tem nova gestão

O VI Encontro Nacional Espere (Enespere), realizado em Belo Horizonte-MG, de 23 a 25 de maio, contou com a participação de voluntários de todas as regiões do Brasil, que acolheram a metodologia da Escola de Perdão e Reconciliação (Espere) como uma das formas de encontrar caminhos e estratégias para uma cultura de paz. O evento teve as presenças do fundador do projeto, padre Leonel Narvaez, e da presidente da Fundación para la Reconciliación, Paula Monroy, ambos procedentes de Bogotá, Colômbia. A programação permitiu a contribuição de todos os inscritos no Seminário Internacional de Cultura de Paz, promovido na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Palestras, diálogos e partilhas com temas relacionados à alteridade, verdade, ódio e a justiça restaurativa nos âmbitos Judiciário e comunitário marcaram o primeiro dia do encontro. A palestra da dr.ª Petronella Boonen, mais conhecida como Ir. Nelly, missionária serva do Espírito Santo (SSpS), encerrou o dia. Ela convidou professores, alunos, representantes do Judiciário e demais participantes do Seminário a refletirem sobre a “Justiça restaurativa na perspectiva comunitária”. A programação no segundo dia, desta vez, na Casa de Retiros São José, propôs diversas oficinas temáticas. Entre elas a do “Autoperdão”, conduzida por Joana Blaney, do CDHEP (Centro de Direitos Humanos e Educação Popular) de Campo Limpo, e Ir. Helena Suzana Christo, também SSpS, da mesma comunidade de Ir. Nelly, localizada na periferia de São Paulo-SP. Os voluntários se envolveram na experiência e puderam reavaliar fatos que deixaram marcas em suas vidas, as quais podem ser vividas com uma melhor compreensão do autoperdão. Por fim, houve a reunião dos coordenadores regionais, a apresentação do levantamento da realidade nacional e a eleição para o novo modelo de coordenação da Espere Brasil para o biênio 2019-2021. As regiões puderam indicar nomes para a nova modalidade de gestão. O grupo reconheceu o esforço e o trabalho desenvolvido pela Ir. Nelly em mais de dez anos de atuação com perdão e justiça restaurativa. Ela foi eleita como articuladora nacional dos núcleos Espere. Essa gestão será compartilhada com a assessoria de Minas Gerais, na área de comunicação, e do Distrito Federal, na secretaria, em diálogo com as cinco coordenações regionais. Mesmo participando pela primeira vez no Enespere, percebo que o encontro fortaleceu a reflexão sobre a importância do perdão e da mediação de conflitos para as comunidades, em especial, as esquecidas pelo Poder Público. Nesse sentido, gostaria de salientar que, nessa missão, a coerência e a ética são primordiais para a efetiva aceitação da proposta. Participar do encontro foi motivo de alegria, especialmente pela oportunidade de conhecer parte daqueles que, em diferentes esferas da sociedade, dinamizam voluntariamente ações que contemplam a metodologia Espere, pois os voluntários e voluntárias nos animam e nos levam a ter esperança na construção de uma realidade verdadeiramente justa e fraterna. Miriam de Souza, São Paulo-SP, voluntária no CDHEP e missionária leiga.

“Bandido” bom é “’bandido” perdoado

É uma conversa bem complicada quando falamos sobre dores e feridas da alma, ainda mais quando somos injustiçados por outras pessoas, não é mesmo? Quem já foi vítima de um assalto ou uma agressão física ou perdeu algum ente amado pelas mãos de outra pessoa, conhece bem os sentimentos de raiva, desejo de vingança e insegurança que ficam. Para especialistas em comportamento humano, esses sentimentos só podem ser resolvidos com a liberação do sincero perdão. E é aí que pode entrar o trabalho da Justiça Restaurativa. A Justiça Restaurativa é uma prática incrível que existe há mais ou menos 10 anos e ajuda a amenizar conflitos nas penitenciárias, nos colégios públicos de todo o Brasil e em muitos outros espaços. O que a torna tão especial é a oportunidade que ela dá para todos perdoarem e serem perdoados. Na sua dinâmica, vítimas e algozes da situação em questão são colocados cara a cara, para uma conversa franca. Neste momento, ambos, com auxílio de um mediador, podem expressar as suas emoções e perceber o outro lado da história de cada parte. Apesar do método simples, o processo pode ser longo e doloroso. Mas, ao final, liberta a alma e renova as forças. No Brasil temos uma equipe de irmãs trabalhando diretamente com Justiça Restaurativa. São elas: Ir. Nelly Boonen, Ir. Martina González, Ir. Helena Suzana Christo e, eventualmente, Ir. Stela Martins. A irmã Claudia Gonzalez, que mora no México, contou para nós em sua visita ao Brasil, um pouco sobre como a justiça restaurativa a fez ter paz de espírito novamente. Em seu depoimento, ela conta que sua irmã foi assassinada e que ela e sua família tinham muita raiva do assassino. Graças à justiça restaurativa, ela pode entender que o perdão faz bem para todos. Ela conseguiu se libertar da raiva, curar as feridas da sua alma e hoje ajuda outras pessoas a fazerem o mesmo. E você, seria capaz deste tipo de perdão?  

Papa se despede da Armênia: unidade, perdão e futuro sem divisões passadas

O Papa encerrou sua Viagem Apostólica à Armênia na tarde de domingo, 26 de junho. Uma peregrinação marcada pelo ecumenismo e pelo esforço de Roma e Armênia em caminharem juntas à plena união. Desejo expresso pelo Papa mais de uma vez durante a permanência nas terras do primeiro país do mundo a acolher o Evangelho. “No caminho rumo à unidade, somos chamados a ter a coragem de deixar as nossas convicções rígidas e os interesses próprios, em nome do amor de Cristo”, disse Francisco. “Mas a unidade entre Católicos e Apostólicos não é submissão de um ao outro nem absorção, mas um acolhimento de todos os dons que Deus deu a cada um.” – sublinhou o Papa. Francisco convidou o povo armênio a perdoar o genocídio perpetrado no início do século passado: “Prestemos atenção aos anseios das gerações mais jovens, que pedem um futuro livre das divisões do passado. Que, deste lugar santo, se difunda novamente uma luz radiante! Que à luz da fé, que desde São Gregório Narek iluminou estas terras, se una a luz do amor, que perdoa e reconcilia”. Fonte: Rádio Vaticano

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