“Talitá cum”: levanta-te!

Sem a fé, não há esperança diante das “hemorragias” e outros males que nos fazem moribundos. É a fé que nos possibilita encontrar alguém que nos diga “Talitá cum!” (levanta-te!). Confira a reflexão proposta pelo padre Deolino Pedro Baldissera!

Nuvens e brilho do sol

Quando você olha para o “céu” de sua vida, o que encontra? Só nuvens carregadas (problemas e mais problemas) ou percebe brechas (fé, esperança) em que o sol aparece? Veja a reflexão do Pe. Deolino Pedro Baldissera!

Uma pipa no céu

Estava eu numa cidade do interior de São Paulo. Era meia-tarde! Caminhava num jardim cercado de muros da casa onde me hospedava. Olhei para o céu e logo vi duas pipas (papagaios, pandorgas). Não vi quem as empinava. Era alguém que estava na rua. O céu estava ensolarado, com um azul de arrancar suspiros de tão bonito estava! O vento não era forte, mas refrescante. Parecia que a natureza, naquela hora, convidava a elevar o pensamento. Foi o que fiz. Comecei a observar as pipas, ziguezagueando no ar. Elas subiam e desciam. Suas caudas se espraiavam no ar, fazendo como uma onda suave, balançando, despertando em mim uma vontade de voar. Distraidamente, quase sem querer, comecei a pensar. Quem estaria lá na ponta da linha, manobrando com tanta maestria aquelas pipas? Poderiam ser umas crianças; elas gostam de brincar com pipas. Mas há também adultos que o fazem. Comecei a imaginar que aquelas pipas poderiam ser, além de objetos para brincar, símbolos daquilo que vai no coração das crianças e também da gente adulta. Subir para o céu e lá permanecer, num balancear suave, é um anseio do coração humano que não se contenta nem se satisfaz com aquilo que é só da terra! A alma humana precisa de algo que seja mais sublime, mais transcendente, mais eterno! Que mora lá no céu! Quando me veio esse pensamento, comecei a imaginar mais coisas. Por exemplo, não é todo dia nem toda hora que se empinam pipas! Se não houver vento, se o dia estiver chuvoso, se for noite, a pipa não sobe! Assim também na vida! Se ela não tiver “alma” que a eleve além dos horizontes que as mãos alcançam, ela fica sem graça e sem beleza. Se ela for como dia chuvoso, cheia de problemas, o sol não brilha, fica sem sentido, afundada no lamaçal das dificuldades. Se ela for como a noite escura, vivendo nas sombras, nos subterfúgios, ninguém a verá. A pipa é para viver no céu. Para ela ir lá e ficar, precisa de alguém que a manobre, alguém que lhe dê direção, alguém que a controle. Se a deixar ao léu, ela some, cai! É necessário um fio que a mantenha ligada à terra e, ao mesmo tempo, a conduza para o céu! Nossa vida também é assim. Tem sentido se vive para transcender-se, mantendo-se com os pés na realidade. Seu sentido está em alcançar o céu, mas não pode desligar-se daquilo que está na terra. Para manter o equilíbrio entre o céu e a terra, a linha tem de ser boa e flexível. Contudo há quem empine pipas e se veste de más intenções. Pode querer cortar a linha do outro. Passa cerol, e a linha fica perigosa. Quando se encosta à outra, corta, rompe, e a pipa se perde do rumo, e começa despencar. Um bando de crianças corre atrás, desesperado para agarrar a pipa que vai trambolhando sem lugar certo para cair. Quem a pega continua correndo, com medo de que alguém a tome, e assim, aquilo que era pura diversão e beleza torna-se competição, agressão. Não devia ser assim, pois, na vida, cada um tem o direito de cuidar da sua, levá-la para onde quiser, sem ameaças e sem medo de que o outro lhe roube o prazer de viver. As pipas só descem quando quem a empina enjoou da brincadeira ou quando cai a noite. A vida fica enjoada quando perde seu encanto ou quando fica escura, vazia, quando não se sabe mais o que fazer com ela. Aí é como o empinador de pipa: enrola sua linha, e ela fica amontoada em algum canto. A vida assim é ruim, fica sem sua graça e sem sua beleza. A vida é bela quando cada dia pode realizar seus sonhos, ficar com um pé na terra e outro no céu. Só na terra perde o sentido. Pior fica quando alguém, com o fio com cerol, encosta nela não para brincar junto, mas para cortar a linha. Este não só rouba o prazer da vida do outro como lhe tira as chances de continuar no céu e de lá voltar quando quiser. Tira-lhe a liberdade de escolher. Fere o prazer de viver seu momento de alegria. Quando a vida se torna isso, um derrubando o outro, alegrando-se com a desgraça alheia, ela perde o encanto e a poesia. Pipa é bonita no céu, balanceando sua cauda sem pressa para voltar e sem sofreguidão para subir demais! Só até onde a linha permite. Uma pipa no céu é sinal de uma criança (adulto) na terra feliz, é lá que a alma humana um dia quer morar para sempre! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

Mudança de paradigmas

Mudança de paradigma é uma expressão de Thomas Kuhn (1962) para dizer que, quando há mudança em um determinado padrão, é necessário reaprender a lidar com a nova realidade, começando do zero. Isto é, aprender a fazer de um jeito novo. Nós estamos vivendo uma mudança de paradigma que foi ocasionada pela pandemia. Como alguém disse, “agora que eu sabia as respostas, mudaram as perguntas!”. Parece ser isso que está acontecendo nesse tempo em que estamos vivendo uma situação inusitada provocada pelo novo coronavírus. Todos estávamos habituados às lidas de cada dia, numa rotina que nos fazia quase robôs, automáticos. Já acordávamos sabendo o que, como e onde ocupar nosso dia. De repente, veio uma ordem para “ficar em casa”, coisa que poucos estavam acostumados. E esse ficar em casa foi se modificando, com restrições aqui e ali, com a necessidade de se adaptar a novos hábitos, usar máscaras, álcool em gel, ficar longe, entre outras. Ainda estamos nesse compasso, esperando que a situação melhore, que o vírus seja vencido.As esperanças, porém, vêm e vão. Uma hora a vacina resolve, mas vai demorar; logo depois, não resolve, e angústia vai tomando conta. Somos forçados a aprender a lidar com essa nova realidade, de um jeito ou de outro. Todos fomos atingidos na parte emocional, na parte financeira, na parte de planos, na parte de como será depois… Descobrimos meios novos de nos comunicar via internet que resolveram vários problemas, desenredamos as lives que nos entretiveram em muitos momentos. Elas se multiplicaram em enxurradas, que foram sensação no início e agora começam a cansar. Vamos descobrindo que, apesar do benefício que isso trouxe, não pode substituir o contato físico. Não conseguimos amar só virtualmente, porque o coração humano não mudou de paradigma, continua pulsando dentro de cada um, em seu ritmo constante, pedindo espaço para viver humanamente. O que vai resultar dessa experiência de mudança de paradigma ainda não sabemos bem. Temos expectativas ainda não testadas. Todos ainda meio perdidos no meio de tantos desafios. A mudança de paradigma exige aprendizados novos, não podemos fazer as coisas como sempre as fizemos, porque isso não funciona mais. Como não temos ainda um conjunto de experiência feitas que dê segurança na nova forma de viver, ficamos esperando que algum “Aladdin” diga como funciona a “nova lâmpada” que ilumine nossos caminhos. Essa espera angustiante cria ansiedade e até desequilibra muita gente em seu funcionamento psíquico. Cada um de nós está vivendo ou sobrevivendo nessa situação, porque a força da vida é maior que aquilo que a ameaça. Faz-se necessário tomar consciência de que isso um dia vai passar e seremos capazes de trilhar os novos caminhos que irão fazer-se aos poucos; aliás, que já estão em andamento. Como está havendo mudança em nosso padrão antigo, então não adianta ficar lamentando o “como era” que não se consegue mais vivê-lo. A saída é ter paciência e, ao mesmo tempo, coragem e confiança de nos adaptarmos ao novo paradigma e permitir que a vida continue ziguezagueando por caminhos novos até que eles se tornem habituais sem precisar angustiar-se tanto diante deles. Vamos também acreditar em nossa capacidade de resistência e criatividade para sairmos mais fortes, com novos padrões de convivência e solidariedade, tornando-nos mais humanos e menos robôs. As crises, se bem administradas, são sempre oportunidades de crescimento. Elas podem também trazer a bancarrota para muita gente que desanima e se submete, sem reação, ao fracasso. Novos paradigmas propiciam rumos novos para se trilharem, andando por estradas antes não percorridas, mas que podem levar para mais longe, porque agregam experiências novas. Abracemos as novas oportunidades, mesmo que custem um pouco de ansiedade e exijam um esforço. É o preço que precisamos pagar por novas conquistas. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

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