Fardos pesados X fardos leves

A psicologia e a religião, historicamente, sempre tiverem embates. O pai da psicologia, Freud, considerava a religião como uma muleta para o ser humano lidar com o medo. Há preconceito dos dois lados. Parte também de religiosos, em geral, em relação à psicologia. No entanto, na história, houve psicólogos cristãos que contrariaram Freud e provaram que é possível usar a espiritualidade como ferramenta de cura. O mais conhecido deles é o neuropsicólogo Victor Frankl, o fundador da logoterapia, contemporâneo de Freud. Ele nasceu em 1905 e faleceu em 1997. Como ele, muitos outros reconhecem, nos ensinamentos de Cristo, elementos da psicologia. O escritor e religioso americano Mark W. Baker tornou-se muito conhecido ao publicar uma obra na qual reconhece a psicologia na atuação de Jesus. A obra, muito conhecida pelos brasileiros, chama-se Jesus, o maior psicólogo que existiu, publicado no País pela Editora Sextante, em 2005. Como psicólogo cristão, eu também encontro, em minhas reflexões dominicais dos evangelhos, elementos que podem ser usados como psicoterapia na busca da cura da alma. Tenho sempre a preocupação de não relativizar nem uma, nem outra: religião e psicologia. Assim, neste artigo, eu gostaria de apresentar minha reflexão sobre uma passagem bíblica que se encontra no Evangelho de Mateus (11,25-30). Esse texto narra que Jesus louva o Pai, Deus, por ter revelado (tirado o véu dos olhos) algumas coisas aos pequeninos, aquilo que os intelectuais da época não puderam compreender, pois estavam cheios da ciência da Lei antiga. Em seguida, Jesus faz um convite: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados pelo peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso”. Que fardos seriam esses? Sabemos que um fardo de materiais, principalmente cereais e alimentos, conforme os carregamos, tornam-se pesados. Por exemplo, um fardo de algodão ou de arroz, ou de feijão, ou de farinha pode começar pesando 60 quilos, mas, enquanto o carregamos, ele pode dar a sensação de pesar muito mais. Quanto mais tempo o carregarmos, mais pesado pode parecer. Olhando os sofrimentos da alma que as pessoas trazem até ao atendimento de psicoterapia, assim como ao atendimento do confessionário, posso associá-los metaforicamente a esses fardos mencionados por Jesus. Um fardo muito comum que as pessoas carregam por anos é o fardo da mágoa. A falta de perdão e a falta de ser perdoada pesam em tudo o que a pessoa faz. Alguns persistem por anos, até décadas. A doença da alma então se transforma em doenças físicas, somáticas, neuróticas. Tais pessoas se queixam de doenças, no entanto os exames laboratoriais não confirmam os lamentos. Há ainda outro fardo muito presente nos pacientes hoje. Trata-se da ansiedade. Essas pessoas vivem focadas no medo do futuro, do que de ruim possa acontecer. É difícil convencê-las de que o “perigo” é imaginário. Esse fardo se torna tão pesado que se transforma em alergias, quedas de cabelo, taquicardia, tremores, insônias, falta de apetite. Muitas vezes, desencadeiam uma depressão leve, moderada ou grave. Um terceiro fardo que gostaria de mencionar é o fardo da necessidade de visibilidade. Alguns pacientes têm medo de perder admiradores, seguidores, curtidores, etc. Por esse motivo, perdem o sono, perdem a paz. É uma mistura de vaidade, narcisismo e vazio interior. Isso pode evoluir a um quadro de arrogância, prepotência. Alternativa oferecida por Jesus E qual seria o fardo leve que Jesus oferece com alternativa a esses fardos pesados? Para o primeiro fardo, o das feridas produzidas pela mágoa, pela falta de perdão, Jesus propõe o oposto: o perdão. Um perdão sem limites. Ele afirma: “Não perdoe só sete vezes, mas setenta vezes sete vezes” (Mateus 18,21-22). Ensina ainda: “Se seu irmão tiver alguma coisa contra você, deixe a tua oferta e vá se reconciliar com ele enquanto ainda há tempo”. Quem já perdoou sabe a verdade dessas palavras. Após uma reconciliação, um reconhecimento de suas falhas, as pessoas sentem certa leveza. Após uma confissão, por meio do sacramento da reconciliação, a alegria se torna contagiante. Para o fardo da ansiedade, o Mestre propõe o fardo leve: “Por isso vos digo: não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida maior que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário? A cada dia basta a sua preocupação” (Mateus 6,25-34). Para o terceiro fardo mencionado, o do desejo de visibilidade, Jesus adverte: “Sabeis que os chefes das nações a dominam e os grandes fazem sentir seu poder. Entre vós, não deve ser assim. Quem quiser ser o primeiro entre vós seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o maior entre vós seja o vosso escravo” (Mateus 20,20-28). “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” (Mateus 11,29). Com esta reflexão, penso que se pode desvelar, revelar, tirar o véu a respeito da importância da espiritualidade e da religião como aliada da psicologia. Revela que a religião não é cafona, antiga, retrógrada, alienada, como muitos críticos o afirmam. Há muitas outras passagens bíblicas em que Jesus convida o ser humano a olhar para dentro de si mesmo, deixando-o livre para segui-lo ou não. Para aceitar sua ajuda ou não. Muitas vezes, ao afirmar “A tua fé te salvou”, ou “O que você quer que eu faça?”, Ele atua como um psicoterapeuta que leva o paciente a elaborar seus conteúdos. Como Ele próprio afirmava sempre, “Não tenha medo”. Faça uma sessão de terapia com o maior psicólogo que existiu. Não custa nada. Pe. Aparecido Luiz de SouzaMissionário do Verbo Divino e psicólogo.

Violência nas escolas: o ponto de vista da psicanálise

Neste artigo refletiremos sobre esta triste realidade e buscaremos luzes, na linha da psicanálise, para amenizar e ajudar a lidar com os impactos das notícias e imagens veiculadas exaustivamente pela mídia. Nos últimos 21 anos, calcula-se que aconteceram em torno de 25 ataques a escolas, ceifando a vida de cerca de 30 alunos, 6 professoras, 2 outros profissionais da educação. Cinco agressores foram mortos. O que podemos encontrar, nos escritos da psicanálise, que tenha relação com esses tristes fatos? No volume 13 das Obras psicológicas completas de Sigmund Freud, ao falar sobre o interesse educacional da psicanálise, Freud comenta, em 1913, que “somente alguém que possa sondar a mente das crianças será capaz de educá-las, e nós, pessoas adultas, não podemos entender as crianças, não entendemos nossa própria infância” (p. 132). Nós não entendemos, pois há uma espécie de amnésia em nós, adultos, que nos torna estranhos à nossa infância, segundo Freud. Para ele, somente a psicanálise pode trazer à luz detalhes dessa primeira fase de nosso desenvolvimento. Quanto ao universo escolar, podemos relacionar a repressão escolar com a seguinte afirmação do Pai da Psicanálise: “A supressão forçada dos fortes instintos por meios externos […] conduz à repressão, que cria uma predisposição a doenças nervosas no futuro” (p. 132). O autor descreve ainda o que ele chama de ambivalência. Isso seria o sentimento de amor e ódio, de críticas e de respeito em relação ao professor. Segundo ele, podemos cortejá-lo ou virar-lhe as costas, vê-lo como simpático ou como antipático. Ainda, ter prazer em encontrar nele suas fraquezas e, ao mesmo tempo, orgulhar-nos de sua excelência, competência e sabedoria. Freud explica que isso tudo tem base nos seis primeiros anos de vida da criança, na relação com os pais, irmãos, irmãs e até babás. Mais tarde, todos os que substituírem essas pessoas serão os “imagos” dessas figuras paternas e maternas. Segundo Freud, na mesma obra de 1913, todas as escolhas posteriores de amizade e amor seguem a base das lembranças deixadas por esses primeiros protótipos. Com o desenvolvimento natural, já na segunda infância, o menino (especialmente) começa a se desligar da imagem perfeita dos pais e começa a transferir para o professor esse papel. “Descobre que o pai não é o mais poderoso, sábio e rico dos seres, fica insatisfeito com ele, aprende a criticá-lo, a avaliar o seu lugar na sociedade; e então, em regra, faz com que ele pague pesadamente pelo desapontamento que lhe causou […], é nessa fase do desenvolvimento de um jovem que ele entra em contato com os professores, de maneira que agora podemos entender nosso relacionamento com eles. Estes homens, nem todos pais, na realidade, tornaram-se nossos pais substitutos […] começamos a tratá-los como tratávamos nossos pais em casa” (Freud, 1913, p. 164). Motivações complexas Que relação podemos estabelecer entre esse estudo da psicanálise com os fatos que aconteceram, nestes tempos, mais de cem anos depois dos escritos de Freud? Muito se especula sobre as causas dos ataques, o que teria influenciado os adultos e os adolescentes a serem os autores de tais tragédias. Alguns afirmam que isso é resultado dos jogos violentos da internet. Como sabemos, não há sustentação segura para essa afirmação, tendo em vista que os jogos sempre existiram e nem todos os que tiveram acesso a eles se tornaram violentos. No entanto, convenhamos, alguns dos ataques filmados por câmeras de segurança reproduzem a ação, a vestimenta, os gestos e os armamentos presentes em alguns personagens de jogos atuais viciantes. Há afirmações que transferem totalmente a responsabilidade para o ambiente familiar. Outros ainda, ao ambiente escolar. O fato é que não há um único cenário responsável. O artigo de Freud menciona o desenvolvimento saudável de uma criança. No entanto, ao falar da transferência da figura paterna, materna e fraterna, cita a possibilidade de um desenvolvimento patológico. Este, hoje, encontra suporte na internet, em alguns grupos on-line de apologia ao crime. Há incentivo, por parte de influencers, ao armamento, ao racismo, à misoginia, à xenofobia, à homofobia e a outras formas de preconceito. Soma-se a isso o bullying praticado pelo agressor e pela vítima no ambiente escolar. Trabalho multidisciplinar O governo de Porto Alegre-RS publicou um protocolo de prevenção à violência nas escolas (Previne). No documento, é apresentado um estudo feito pela Flacso (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais), revelando que, em seis cidades do Brasil, 84% dos estudantes consideram a escola violenta; 70% reportaram serem vítimas de violência escolar (física, discriminatória e de exclusão social). Em se tratando de Porto Alegre, 7% são vítimas de crimes convencionais; 18% revelaram ser maltratados; e 32% sofrem agressão familiar. Apesar de aversivos, esses números servem de base para uma correlação com alguns pensamentos da psicanálise, segundo o pensamento de Freud em 1913. Embora o Pai da Psicanálise não tenha abordado o tema violência nas escolas, alguns pensamentos dele nos dão luzes para compreender o universo escolar cem anos depois. A família, a escola e a sociedade brasileira estão pedindo socorro. A escola sozinha se torna impotente diante dessa insegurança. Um aluno convive somente quatro horas, em média, no ambiente escolar. As outras 20 horas são divididas entre a família, a rua e a internet. Por isso é necessário um trabalho multidisciplinar envolvendo o Estado, a sociedade, profissionais da Psicologia, da Assistência Social, da Pedagogia e da Segurança Pública. Como apoiar pessoas afetadas por uma tragédia em escola • Ofereça apoio incondicional à criança ou outra pessoa atingida pelos acontecimentos. • Deixe a pessoa afetada expressar os sentimentos, emoções, medos, inseguranças. • Use a linguagem adequada para falar com a pessoa afetada. • Não negue os fatos, mas também não dramatize com detalhes. • Informe a pessoa sobre as medidas de segurança que estão sendo tomadas na escola. • Monitore as redes sociais frequentadas por seu filho ou aluno. • Se for necessário, procure um profissional de saúde mental. Referências Freud, S. O interesse científico da psicanálise. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud, Totem e tabu e outros trabalhos (vol. 13). Rio de Janeiro:

Narcisismo em tempo de Quaresma

Refletindo sobre a proposta da Igreja Católica para a Quaresma, a de viver um tempo de sobriedade por meio da oração, do silêncio e da abstinência, e olhando a dificuldade das cidades, inclusive onde moro (que tem 14 mil habitantes somente), indiferente diante desta proposta; olhando perplexo (sempre) aos apelos da mídia em tempo de carnaval, pré-carnaval e pós-carnaval, achei oportuno refletir sobre este tema da Psicologia: o narcisismo. Esse conceito foi mencionado por Freud em 1910. A Psicologia define o narcisismo quanto às duas fases: conforme o desenvolvimento saudável e o patológico. O desenvolvimento saudável é descrito como narcisismo primário. Este é identificado nos primeiros meses do desenvolvimento do bebê, no relacionamento com os pais, especialmente com a mãe. É elemento constitutivo do amor-próprio e da autoestima; portanto, destinado à autopreservação do sujeito e formação dos laços sociais. Já o narcisismo patológico, é encontrado no estudo das neuroses, perversão e psicose (Araújo, 2010). Assim, o que vemos na mídia, nos tempos atuais, é a manifestação de um narcisismo patológico, marcado pela necessidade de ser visto, notado e curtido. Nas redes sociais, cresce o número de digital influencers, cujo pesadelo é a possibilidade de perder seguidores ou serem cancelados. No carnaval, há uma neurose em relação ao corpo que vai ser exibido nas ruas, praças, avenidas e programas de tevê, tanto em pequenas cidades como em metrópoles. Gastam-se uma fortuna para realizar cirurgias plásticas, para mudar o formato do corpo. Absurdamente, faz-se harmonização facial em adolescentes de 15 anos, que ainda nem têm o corpo definido pela natureza. Num certo programa de tevê, um jovem brasileiro, que naturalmente corresponde ao padrão de beleza europeu, gastou mais de 100 mil reais para ficar parecido com um boneco chamado Ken. Outra “celebridade” aplicou substâncias gelatinosas nos glúteos para ficar famosa por ter os maiores glúteos do mundo. Outras não aguentam mais o peso dos seios aumentados, têm dores de coluna. Todos estão cientes do risco de morte que correm, mas, mesmo assim, atribuem a Deus a proteção que esperam. Nem percebem que estão brincando de serem Deus, assim como a Eva e o Adão da Bíblia. Os narcisistas patológicos estão entre nós. Eles estão na sociedade, na política, na religião, na vida consagrada, na vida sacerdotal, no trabalho e dentro de casa, na família. Uma ou outra destas características podem servir para identificá-los: insegurança, sentimento de superioridade, falta de empatia, necessidade constante de admiração e atenção, sensação de ser o centro de tudo e de todos, notável superficialidade, manipulação, grandiosidade, papel de vítima, agressividade, etc. O período da Quaresma é um tempo que inevitavelmente nos faz refletir sobre esse conceito. Para os cristãos católicos, este é um momento de nos converter, nos fortalecer espiritualmente contra essa patologia que chamamos de uma das tentações de Jesus no deserto: a tentação do ser. Para os nãos católicos ou não cristãos, este momento pode ser chamado de vacina contra esse mal, ou mesmo como antídoto. O fato é que a pedagogia que a Igreja usa, celebrar este tempo litúrgico logo após o carnaval, ajuda-nos a refletir sobre o sentido de nossa vida aqui neste mundo. Para se fortalecer contra a tentação que, na Bíblia, venceu o primeiro homem e a primeira mulher, a tentação de dispensar Deus, sendo igual a ele ou pondo-o a serviço da humanidade, Jesus se fortalece pelo esvaziamento, pela oração e pela penitência. É oportuno destacar também o fato de a tentação ter se manifestado justamente no momento em que Jesus sentia fome. Podemos associar esse momento, hoje em dia, ao vazio existencial, à fome de ser amado, de encontrar sentido na vida, que leva muitas pessoas a tentar preenchê-lo com o exibicionismo ou egocentrismo, com elementos externos e até mesmo pondo Deus a seu serviço. Isso nos leva a outro conceito filosófico, o hedonismo, que merece um artigo à parte. Como lidar com um narcisista neurótico? A primeira sugestão é convencê-lo a procurar ajuda terapêutica para ser diagnosticado quanto ao grau de seu narcisismo. Embora se acredite não haver cura para essa patologia, ela pode ser amenizada, buscando-se o autocontrole das ações para evitar danos a terceiros. Quando se trata de amigos, namorados ou namoradas, colegas de trabalho ou de estudo, o afastamento pode ser uma maneira de se autopreservar e preservar de danos à sua autoestima. No entanto, quando se trata de parentes, como pai, mãe, filhos ou irmãos, é preciso buscar até mesmo a ajuda terapêutica para se conscientizar de que o problema não está com você, como o próprio narcisista sugerirá quando confrontado. Para os religiosos, busque na espiritualidade, especialmente no estilo de vida de Jesus Cristo, o “antídoto” para esse mal, essa tentação. ReferênciaAraújo, M. G. (2010). Considerações sobre o narcisismo. Estudos Psicanalíticos, 34, 79-82. Pe. Aparecido Luiz de Souza, SVDPsicólogo.

Luto “saudável” e desenvolvimento humano

Estamos vivendo um mês de euforia para milhares de brasileiros, devido às expectativas para a festa do carnaval. Para outros milhares, há a expectativa para o início do grande retiro espiritual da Igreja Católica: a Quaresma. Para muitos, o tema deste artigo não seja apropriado para o momento. No entanto, ele é relevante, porque perpassa todas as fases de nossa vida. Até mesmo porque luto não tem a ver somente com a morte física de uma pessoa. Por esse motivo, é importante pensar no assunto antes que ele se torne realidade em nossa vida, pois é quase impossível pensar numa pessoa que não vivenciou tal momento. Quando pensamos em luto, a primeira memória que temos é a do luto pela perda física de uma pessoa. Imagens antigas nos vêm à mente, principalmente aquela do ritual após a morte de um ente querido: o de vestir-se de preto e respeitar a memória do falecido, nos primeiros dias e até meses. Isso varia de acordo com cada cultura. Embora o ritual faça parte de todo tipo de luto, nem todo luto é igual ou se limita somente à perda física de uma pessoa. Para a psicanálise, “O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante” (Freud, 1915/1917). Com base nessa conceituação psicanalítica, podemos constatar que várias situações que já vivemos tiveram a característica de um luto, sem termos necessariamente vivenciado uma morte física de uma pessoa querida. Outras situações de luto: o término de um relacionamento amoroso, o rompimento de uma amizade, uma separação matrimonial, uma mudança para outro país ou outra cultura. Até mesmo uma transferência de um local de trabalho, uma mudança de faixa etária, uma demissão do emprego, uma aposentadoria, etc., podem ser vividas como um luto. O luto “saudável” nos ajuda no desenvolvimento humano. Ele deveria ser superado sempre. É o curso normal da vida. Para isso precisa de elementos internos e externos. Por elementos internos, subentende-se nossa bagagem histórica, nossos valores, nossas crenças, nossos projetos de vida, nossa educação familiar e intelectual. Por elementos externos compreende-se a cultura e o ambiente em que vivemos; o meio externo. As amizades, a família e a comunidade social na qual estamos inseridos são essenciais. Às vezes, com a melhor “das intenções”, podemos atrapalhar o processo de elaboração do luto de uma pessoa querida por nós. Muitas vezes, apressamos o processo, exigindo que a pessoa se apresse a “voltar ao normal”. Frases como “você é uma pessoa jovem, alegre, bonita, tem um bom emprego…” mais atrapalham do ajudam. Isso porque a pessoa se sente mais culpada ainda por estar vivendo esse período. É preciso lembrar que cada um tem seu processo particular. “Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derrubar e tempo de edificar. Tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de dançar” (Eclesiastes 3,1-4). Pe. Aparecido Luiz de Souza, SVDPsicólogo.

“Mindfulness”: a arte da atenção plena

O fim do ano se aproxima. Na Igreja, celebra-se o tempo de espera, chamado Advento. Depois virá o Natal, o réveillon. Dezembro e janeiro são marcados por muitas festas, confraternizações, passeios, férias. Haverá muitas reuniões de amigos e parentes. Muita gente estará presente fisicamente, mas será que, de fato, estará presente? Haverá sempre aquela pessoa que estará apenas fisicamente ali em cena, porque a mente estará divagando sabe-se lá por onde. Em tempos de ansiedade, algumas mentes estarão pensando na próxima refeição, no dia seguinte, no ano seguinte… Alguns estarão conversando de olho no celular. Muitos estarão conversando com alguém à sua frente, mas, ao mesmo tempo, observando o celular, navegando pelo Youtube, Facebook, Instagram, Twitter, TikTok, Kwai, etc. Cada sinal sonoro de notificação será capaz de interromper até mesmo a melhor experiência de convivência física. A melhor conversa, a melhor partilha, a melhor atividade, a melhor refeição. Quanto a você: já esqueceu o nome de alguém minutos após ser apresentado a essa pessoa? Muitas vezes, você já leu uma página da Bíblia ou de um livro e teve de voltar ao início da página porque já esquecera o que estava escrito no início? Já teve de usar o controle remoto para voltar o filme, porque você estava olhando, mas não estava assistindo às últimas cenas? Mais de uma vez, você já se distraiu numa missa, como celebrante ou como participante, e se perguntou se já tinha rezado uma determinada parte da liturgia? Já rezou o terço no automático, pensando nos afazeres logo após? Quantas vezes você tomou um suco ou comeu alguma comida sem observar o sabor? Já conversou com alguém olhando para o relógio ou bocejando durante a conversa? Se mesmo estando bem de saúde isso acontece com você frequentemente, eu o convido a pensar comigo sobre o significado de mindfulness. Em inglês, essa palavra significa atenção plena. Sugere estar atento, ter atenção e lembrar; estar alerta a todo o momento; manter nossa consciência viva para a realidade presente; estar clara e determinadamente alerta ao que realmente nos acontece em momentos sucessivos da percepção, ou seja, “sair do piloto automático”. É uma ferramenta muito útil na psicoterapia. Dá importância ao momento presente. É muito usada também na meditação. Na prática terapêutica, chama a atenção para a necessidade de estar por inteiro diante do paciente. Na prática pastoral, seja por parte dos religiosos, missionários, confessores, diretores espirituais, seja por parte das lideranças e coordenações leigas de comunidades, pastorais, grupos ou movimentos, esse conceito nos lembra do cuidado que deveríamos ter para com o outro diante de nós. É tratar a pessoa diante de você como se fosse o próprio Jesus. Esse conceito tem sido usado ultimamente, com frequência, para controlar a ansiedade, o estresse, a depressão e até a obesidade. Tem chamado a atenção também para a necessidade de sentirmos autocompaixão. Como podemos exercitar a atenção plena? Uma prática formal necessita da ajuda de um profissional de Psicologia. No entanto, práticas informais são possíveis, como o treinamento diário dos cinco sentidos (audição, visão, tato, olfato e paladar). Assim, dando atenção ao caminhar, ao comer, ao meditar, ao dirigir, ao ouvir o outro. Até mesmo olhar para nós mesmos e sermos mais compassivos com nossos próprios limites, problemas, incapacidades, medos e frustrações. Por que somos compassivos com os outros e rígidos com nós mesmos? Vale a pena pesquisar mais sobre o assunto. Pe. Aparecido Luiz de Souza, SVDPsicólogo.

Envelhecimento saudável versus envelhecimento melancólico

A vida, o envelhecimento, é comparável a uma grande viagem. Se nos prepararmos, teremos uma chegada tranquila e poderemos desfrutar da estada final. Se, porém, viajarmos de qualquer jeito, teremos de aceitar o que encontrarmos e até poderemos ficar frustrados e arrependidos de não termos nos preparado devidamente. Então, a canção-tema de nossa viagem para a velhice poderá ser: Devia ter amado mais,ter chorado mais,ter visto o sol nascer.Devia ter arriscado mais e até errado mais,ter feito o que eu queria fazer. […]Queria ter aceitado a vida como ela é.A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier” (Titãs, Epitáfio, composição de Sérgio Britto). Nesse sentido, a Psicologia diferencia dois tipos de envelhecimento: o saudável e o melancólico. O envelhecimento saudável é marcado por sentimentos de gratidão e de realização pela vida pessoal, afetiva, familiar, social e profissional. Idosos saudáveis são aqueles que têm um projeto de vida para executar após a aposentadoria; têm apoio da família; têm uma rede de amigos; retomam contatos antigos; viajam; participam de clubes para a terceira idade; estão bem com o corpo, aceitam as perdas, fazem curso, etc. Já o envelhecimento melancólico é marcado pela presença do luto, ansiedade, depressão, suicídio, suicídio lento, apego à doença, solidão, inveja da juventude, lamentações, entre outros sentimentos melancólicos. Desde nossa juventude, é necessário discutir e planejar a fase da velhice, para que o envelhecimento seja vivido de uma maneira saudável. No âmbito socioprofissional, percebe-se a falta de preparação por parte das empresas e do próprio indivíduo para a vivência do momento da aposentadoria. Constata-se: A velhice é um território desconhecido e particular a cada um. O homem vivencia a passagem do tempo com espanto, surpresa, desconcerto. […] Ele não reconhece em si as metamorfoses advindas, passo a passo, com a senescência. Reconhece-as no outro, é o outro que envelhece. Mas, com surpresa, não mais que de repente, ele vê sua velhice no olhar do outro, que tal como um espelho lhe retorna aquele “estrangeiro” em que se tornou (Peres, 2004, apud Candice Roque, 2017). A fase da velhice é uma fase de colheita de frutos do que se plantou na juventude e na adolescência. Para a psicanálise, é um tempo de acertar as contas com o passado, especialmente com a infância. É um tempo de superação, de elaborações e de adaptações. Pesquisas mostram que o tema não é atraente nas discussões cotidianas nem mesmo nas acadêmicas. Nossa cultura ocidental, muito ao contrário da cultura oriental, não dá o valor merecido para as pessoas que estão nessa última fase do desenvolvido. Os idosos sofrem preconceitos. Foi necessário, inclusive, criar um estatuto do idoso para garantir seus direitos. A mídia supervaloriza a juventude, alvo predileto do capitalismo, com o seu consumismo. Ainda estamos muito distantes da cultura indígena, africana e asiática. “A vida é uma peça teatral com um último ato muito mal escrito” (Cícero). Para saber maisROQUE, Candice. A Psicologia pensando o envelhecimento. 2017. 52 f. (Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação em Psicologia) – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí) – Santa Rosa, 2017. Disponível em: https://bibliodigital.unijui.edu.br:8443/xmlui/bitstream/handle/123456789/4931/Candice%20Roque.pdf?sequence=1 Pe. Aparecido Luiz de Souza, SVDCRP 08/149Tel.: (93) 99128-3042

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