Navio-hospital Papa Francisco reforça combate à pandemia na Amazônia

Há um ano, o navio-hospital Papa Francisco vem percorrendo o rio Amazonas, levando assistência médica às populações ribeirinhas. O equipamento juntou-se agora ao combate ao novo coronavírus na região, segundo informações publicadas pelo Vatican News. A população da Pan-Amazônia vem sofrendo com a pandemia, que atinge tanto áreas urbanas como as mais isoladas. Os indígenas e ribeirinhos são considerados um grupo de alto risco, sobretudo por causa da baixa imunidade e o abandono histórico por parte do Estado. A embarcação, que começou a navegar em agosto de 2019, tem 32 metros de comprimento e conta com 23 profissionais de saúde. Entre os serviços oferecidos estão sala de operações, laboratório de análise, farmácia, sala de vacinação, consultórios médicos, oftalmológicos e odontológicos, além de leitos hospitalares e salas para exames de raios X, mamografia, ecocardiograma e testes de estresse. Um acordo entre o Vaticano e o Estado do Pará tornou possível a construção do navio-hospital. Para a realizar o projeto, o governo paraense destinou indenizações pagas pelas empresas Shell e Basf, após um acidente ambiental que causou 60 vítimas e sérios danos. “Não poderíamos ficar de fora desta luta. Nós nos unimos, nos reorganizamos em nossos serviços para que, juntos, lutemos contra o covid-19”, explicou o frei Joel Sousa, membro da coordenação do navio, numa entrevista ao Vatican News. Ele conta que os profissionais do navio estão atendendo principalmente as pessoas que apresentam sintomas de gripe ou sinais leves do covid-19. “Os doentes podem consultar com o médico e também entregamos os medicamentos, em colaboração com a Secretaria de Saúde local”, relatou o religioso. __________ Milhares de indígenas estão infectados Indígenas de vários países da América Latina estão entre os mais vulneráveis à pandemia. A doença causada pelo covid-19 está matando membros de diversas comunidades nativas. Além de terem defesas imunológicas precárias contra doenças, os indígenas também são vítimas de negligências por parte do Estado, conforme já denunciado neste blog. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), em meados de junho, pelo menos 20 mil indígenas estavam infectados na bacia do rio Amazonas. A área abrange Brasil, Peru, Colômbia, Bolívia, Equador, Venezuela, Guiana e Suriname. “Esses grupos vivem tanto em aldeias isoladas, com acesso mínimo a serviços de saúde, como em cidades densamente povoadas, como Manaus, Iquitos (Peru) e Letícia (Colômbia)”, disse a diretora da OPAS, Clarissa Etienne. No dia 13 de julho, a América Latina se tornou a segunda região mais atingida pela pandemia no mundo, em número de vítimas fatais. A área está atrás somente da Europa. O número de mortos já alcançou 150 mil e mais de 3,7 milhões de infectados. Os índices podem ser bem maiores, pois há relatos de subnotificação em diversos países, inclusive no Brasil.

Criada Conferência Eclesial da Amazônia

Na segunda-feira, 29 de junho, a Igreja ganhou a Conferência Eclesial da Amazônia. O anúncio foi feito após dois dias de deliberações a distância, devido à pandemia do covid-19. O comunicado foi assinado por Dom Miguel Cabrejos Vidarte, presidente do Celam (Conselho Episcopal Latino-Americano), e pelo cardeal Cláudio Hummes, presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam) e eleito presidente da nova conferência. O novo órgão eclesial responde, como afirma a mensagem, à proposta dos padres sinodais, no Documento Final (DF) do Sínodo da Amazônia (realizado de 6 a 27 de outubro de 2019), pedindo um rosto amazônico da Igreja e a continuação da busca de novos caminhos para a missão evangelizadora (cf. DF 115). A necessidade foi reforçada pelo Papa Francisco na Exortação Apostólica Pós-Sinodal Querida Amazônia. A Conferência Eclesial Amazônica vai fomentar iniciativas de evangelização na área que abrange nove países da América Latina. A ideia é que o organismo aumente o intercâmbio e mobilidade de missão entre religiosos, leigos e padres dentro da mesma região, independentemente de cada país. “Nestes tempos difíceis e excepcionais para a humanidade, quando a pandemia do coronavírus afeta fortemente a região Pan-Amazônica, e as realidades de violência, exclusão e morte contra o bioma e os povos que o habitam clamam por uma conversão integral urgente e iminente, a Conferência Eclesial da Amazônia quer ser uma boa notícia e uma resposta oportuna aos gritos dos pobres e da irmã mãe Terra”, diz o texto. A nova Conferência Eclesial será formada por um bispo de cada país da Pan-Amazônia, com exceção do Brasil, que terá dois. Também farão parte representantes da Cáritas da América Latina e do Caribe, da Confederação Latino-Americana de Religiosos (CLAR) e da Repam, além de três representantes dos povos originários. Por ser um órgão oficial da Igreja, também será composto por autoridades vaticanas, como o secretário-geral do Sínodo dos Bispos, do prefeito da Congregação dos Bispos, do prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos e o subsecretário do Dicastério para o Serviço Integral de Desenvolvimento Humano. Veja a íntegra do comunicado no link abaixo: Com informações da CNBB e Vatican News.

Você sabe quais as principais conclusões sobre o Sínodo para Amazônia?

O Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica, realizado em outubro, no Vaticano, teve como tema “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. O encontro ganhou muita repercussão não apenas nos países que compõem a região. Conforme o desejo do Papa Francisco, houve liberdade para o diálogo, e as decisões poderão ter reflexos em outros lugares. A Igreja reza “Enviai, Senhor, o vosso Espírito, e tudo será criado, e renovareis a face da terra”. Caminhos novos para a Igreja seguir, abrindo portas, construindo pontes e anunciando a novidade do Cristo Vivo “ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8) para todos, especialmente para os que vivem nas periferias, os migrantes, os invisíveis, os sofridos e esquecidos. No dia 21 de novembro, no Colégio Santa Teresa de Jesus, na Tijuca, Rio de Janeiro-RJ, o cardeal Dom Cláudio Hummes, relator-geral do Sínodo, apresentou algumas conclusões. Vejamos: Sobre os indígenas Foi extraordinária a grande presença de povos indígenas a caráter na Basílica de São Pedro. Ninguém jamais tinha visto aquilo dentro da Basílica; certamente indígenas, sim, mas não a caráter. Muitos na Cúria colocaram interrogações: o que estava acontecendo? Viram algo que a Igreja na Europa não conhecia sobre a periferia do mundo (América do Sul, Brasil, Amazonas…), que não tinha importância e agora passou a ter. Agora somos iguais a vocês! Isso não foi fácil assimilar. Foi um choque muito grande, segundo o Dom Cláudio. A Cúria tinha uma ideia vaga. O Papa Francisco disse: vocês estão dizendo que estou sozinho? Olha só quanta gente comigo que vocês não conhecem! Tinham uma ideia vaga de que isso existia. Mandavam missionários e, cada vez menos, porque há cada vez menos padres. O pedido aprovado é que a Igreja seja uma aliada e defenda os povos indígenas. A Igreja tem de reconhecer que os povos nativos devem ser sujeitos, protagonistas de sua história, devem decidir seu futuro. Não são objeto de nossos projetos, por mais importantes que sejam e por mais dinheiro que se tenha para as ações. Isso é colonização, seja politicamente, seja religiosamente. É a pior coisa que se pode fazer. O neocolonialismo é uma tragédia, e isso ficou muito claro no Sínodo. Os indígenas querem acolher, estar juntos com a Igreja. “Vamos caminhar juntos. Que o Evangelho seja pregado, oferecido, mas não imposto. Que possamos, pelo diálogo, identificar de que forma podemos inculturar essa fé. Todos os missionários são bem-vindos, mas dentro de nossa mentalidade, de nossa história. Que cada um possa ir decidindo ser cristãos ou não, mas dentro de uma Igreja indígena.” Depois se falou muito sobre novos modelos de desenvolvimento. Os indígenas têm o direito de progredir, desenvolver-se. Não podemos obrigá-los a ficar ali, na fase que estão, como um museu, mas são eles que devem ter o direito de dizer o que é importante para seu desenvolvimento, o que constrói e destrói, incomoda e coloniza. Sobre ordenação de padres casados Exercer o vicariato apostólico, como se diz em países de língua espanhola. Saem e vão para as comunidades. Mas, de fato, deveriam viver e conviver ali, e isso não se dá por decreto, porque não se pode obrigar ninguém a fazer isso, não se consegue fazer. Você pode fazer grandes retiros, tentar converter, mas isso de fato não acontece. Há pouquíssimos padres que vivem com as comunidades indígenas, ribeirinhas, aquelas mais retiradas, mais isoladas. Nesse contexto, surge a demanda da ordenação de homens casados, gente da comunidade que vive ali e se compromete a permanecer ali. Somente poderiam exercer seu sacerdócio ficando na comunidade e não indo para outras dioceses depois de ordenados. Que a Igreja invista mais em diáconos permanentes indígenas e outros, e que tenham experiência fecunda como diáconos. Entre eles poderiam ser escolhidos os que tivessem condições de serem ordenados padres. Foi aprovado e está com o Papa para decidir se é possível ou não, mas foi pedido. Sobre a presença da mulher Houve uma participação grande das mulheres. Não foi o Sínodo para as mulheres, mas elas tiveram realmente uma presença muito grande, bonita e valente. Falaram o que queriam falar, e o Papa as ouvia. “Nós temos de escutar vocês, porque precisamos dar passos para frente”, disse Francisco. Isso foi muito bem acolhido. Muito preparadas, elas abriram o jogo porque sabiam que o Papa as apoiava, e elas se sentiam ainda mais à vontade para expor os pensamentos. Foi muito bonito! Todos agradecemos essa participação, porque ajudou dentro desse contexto e vai iluminar a Igreja mundo afora. Há necessidade de fazer com que cada vez mais passos sejam dados em relação às mulheres na Igreja. Segundo Dom Cláudio Hummes, o diaconato feminino não avançou, mas os estudos devem continuar, porque não há clareza ainda. O que foi aprovado é que houvesse ministérios instituídos, porque existem os ordenados e os instituídos, mas os instituídos também são estáveis, portanto dá uma estabilidade também litúrgica e eclesial dentro da comunidade. Cristina Maia, doutoranda em Educação, professora de Ensino Religioso, com estudos aprofundados em Teologia e Bibliodrama, membro da equipe nacional de espiritualidade SVD e SSpS.

Sínodo: missionário verbita defende uma Igreja como rosto amazônico

Neste domingo, 27 de outubro, concluiu-se um dos mais importantes eventos do pontificado do Papa Francisco, no que se refere à América Latina. O Sínodo da Amazônia reuniu no Vaticano centenas de pessoas, entre eles representantes de povos nativos dos nove países que compõem a Pan-Amazônia, missionários e missionárias leigos e consagrados, padres e diáconos, e especialistas de diversas áreas. Entre os convidados estava o padre José Boeing, missionário verbita que trabalha no Pará. Ele representou o superior-geral da Congregação, o Pe. Paulus Budi Kleden. Paranaense, o padre atua na Paróquia São José Operário, em Trairão-PA, e há 29 anos luta pelos direitos dos povos da floresta. Em entrevistas ao Vatican News, o religioso da Família Arnaldina apresenta suas impressões e expectativas quanto ao Sínodo. Igreja feminina Padre Boeing salienta que há um esforço grande para que os leigos sejam sujeitos da missão. “Faltam missionários, mas estamos aqui defendendo uma Igreja ministerial; quer dizer, não queremos somente consultar os leigos, mas que eles tenham o poder de decisão”, defende. Ele relata, por exemplo, que 70% das comunidades cristãs são guiadas por mulheres, sejam religiosas, sejam leigas. Por isso acha justo que o papel delas seja discutido mais profundamente no encontro. Justiça eficiente Também destacou a luta em favor dos direitos humanos. Ele denuncia que o Brasil propaga aos outros países uma criminalização dos movimentos sociais. “As pessoas que lutam são taxadas como inimigas do progresso, do capitalismo, portanto são perseguidos em suas comunidades, sejam líderes sindicais, das associações, inclusive da Igreja”, relata. O missionário defende que a Igreja também incentive que o Estado, por meio do Judiciário, possa julgar efetivamente os crimes. “Nós temos uma impunidade na Amazônia. Não existe boletim de ocorrência, não tem processo. Por isso é fácil eliminar o outro, com interesses econômicos, políticos, sociais”, afirma. E continua: “Que não possamos nos calar diante dessa situação. Que nós sejamos solidários com quem está sendo ameaçado. A Igreja deve, sim, se posicionar e exigir que o Estado assegure o direito das pessoas”. O próprio verbita, advogado e mestre em Direito, já recebeu ameaças de morte. Ele mantém o projeto “Agentes Comunitários de Justiça e Paz”, de incentivo à justiça restaurativa, para ele mais eficiente que a punitiva. Diálogo “Lá já estava o Espírito de Deus”, por isso o Pe. Boeing afirma que os evangelizadores precisam ter uma cuidadosa atitude de escuta, para compreenderem as culturas que eles encontram na Amazônia. “Por que não, na liturgia, falar de um rito amazônico? Respeitando, assim, as culturas e as tradições que lá existem”, propõe. O religioso conta que os verbitas atuam na Região Amazônica desde 1980, com o compromisso de ser uma Igreja inculturada a serviço do povo. “O que a Congregação defende está sendo discutido aqui: diálogo intercongregacional, diálogo inter-religioso, com as culturas, defesa dos territórios, dos povos”, diz ao jornalista Silvonei José Protz, de quem o missionário foi colega no Seminário de Ponta Grossa-PR. Diácono Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor de Língua Portuguesa de aspirantes e verbitas estrangeiros na Província Brasil Norte, revisor de textos para as irmãs servas do Espírito Santo.

Guia Prático para o Mês Missionário Extraordinário

A Vivat Brasil, durante o encontro sobre o Sínodo da Amazônia, ofereceu este guia prático com sugestões e indicações de materiais para ser usados em outubro, para as atividades do Mês Missionário Extraordinário. Agora disponibilizamos na versão eletrônica, com os links para os materiais disponíveis na internet. Motivações e sugestões Para uso nas celebrações paroquiais, nas escolas, nos grupos de base e nas diversas instituições sociais das (arqui)dioceses. Motivação para o Mês Missionário Extraordinário (MME) e o Sínodo para a Amazônia (usar também o material do Mês Missionário):a. contextualizar a partir da Vivat Brasil;b. contexto atual do Brasil / importância do Sínodo e sua relação com o MME. 2. Sugestões práticas: Aproveitar o tempo antes das missas ou celebrações dominicais, para uma maior sensibilização a respeito do Sínodo, com vídeos e canções relativos ao tema da ecologia integral. Usar símbolos ecológicos durante a liturgia. Trabalhar a mesma temática nos diversos encontros e atividades da paróquia, escola ou instituição ao longo do mês de outubro. Utilizar atividades escolares para divulgar e discutir as questões relativas à ecologia integral e à realidade da Amazônia. 3. Durante o Mês Missionário Extraordinário, colocar banners com a temática da Amazônia em frente à comunidade ou instituição. 4. Usar Power Point com fotos e canções durante as missas ou encontros de formação e animação. 5. Sugestão prática para os domingos do mês de outubro:Orações do Mês Missionário Extraordinário e do Sínodo da Amazônia para serem rezadas no fim de celebrações e encontros. Dia 29 de setembro – Vídeo: Preparação para o Sínodo Dia 6 de outubro – Abertura solene do MME – Vídeo: Sínodo para a Amazônia Dia 13 de outubro – Canonização da Ir. Dulce – Vídeo: Mãos Carinhosas Dia 20 de outubro – Domingo das Missões – Vídeo: O Mês Missionário e a Amazônia Dia 27 de outubro – Encerramento do Sínodo da Amazônia – Vídeo: Repam – documentário 6. Orações do Mês Missionário Extraordinário e do Sínodo da Amazônia para serem rezadas no fim de celebrações e encontros.

Vivat Brasil promove encontro sobre Sínodo da Amazônia

O Sínodo da Amazônia está provocando muita polêmica por causa da desinformação que está sendo divulgada, confundindo o público sobre suas finalidades e importância para a Igreja e para a humanidade. De fato, o Sínodo abordará questões relacionadas à evangelização e preservação do meio ambiente pela prática de uma ecologia integral, não somente na Amazônia brasileira, mas nos nove países que integram a Pan-Amazônia. Devido à urgência de esclarecer e envolver as pessoas na proposta do Sínodo da Amazônia, a Vivat Brasil promoveu um encontro para aprofundar o Documento de Trabalho e preparar agentes de pastoral, professores e representantes de organizações, para buscarem estratégias de como trabalhar os temas relacionados com a ecologia integral em suas comunidades ou locais de base. O encontro foi realizado neste sábado, 14 de setembro, no Centro Missionário Cultural Santíssima Trindade, em São Paulo-SP. Participaram 50 pessoas, membros da Vivat Brasil e representantes de dez paróquias da Grande São Paulo. O encontro foi aberto com um momento de espiritualidade ao ar livre, para se sentir o contato com a Criação, e continuou com apresentações dos conteúdos e estudo em grupos. Irmã Maria Percila Vieira, coordenadora provincial das missionárias servas do Espírito Santo, uma das congregações fundadoras junto com a Congregação do Verbo Divino, acolheu os presentes e explicou que os membros de Vivat Brasil julgaram importante provocar “uma maior consciência nas comunidades em relação a esse importante evento convocado pelo Papa Francisco, que envolve a Igreja da Amazônia, mas que deve também ser assumido por nós que estamos mais ao sul”, explicou. O missiólogo verbita, padre Fernando Doren, e a cientista da religião, Nilda de Assis Cândido, iluminaram uma parte do encontro. Eles apresentaram a síntese de alguns capítulos do Documento de Trabalho. Outros sete padres e duas religiosas também participaram. Foi distribuído o “Guia prático para o Mês Missionário”, com sugestões de cantos, apresentações e vídeos para serem utilizados durante o mês de outubro, tanto nas celebrações e atividades paroquiais como também nas escolas e outras organizações. Os interessados no guia poderão seguir o link e ter acesso ao conteúdo. No encontro também esteve presente a liderança indígena Imaculada Lima Barreto, da Região do Rio Negro e da etnia tucana, que atualmente reside em São Paulo. Ela deu testemunho da contribuição dos povos indígenas na preservação da floresta. No estudo em grupos, os participantes conversaram sobre as sugestões concretas do Documento de Trabalho, procurando ver como aplicá-las à realidade de São Paulo. Sugeriram utilizar as motivações do Mês Missionário Extraordinário e do Sínodo da Amazônia para chamar a atenção sobre o cuidado da Criação e aproveitar as sugestões do Guia Prático antes das missas e celebrações dominicais ou mesmo durante a própria celebração, como pequenos vídeos, a Oração do Sínodo, a Oração do Mês Missionário e alguns cantos de Campanhas da Fraternidade anteriores que abordam a preservação da natureza. Outra proposta foi a instalação de painéis para dar visibilidade ao Sínodo. Padre Arlindo Pereira Dias, um dos organizadores do encontro, avaliou que os participantes “desejam encontrar formas de estar em comunhão com os membros do sínodo em Roma e apoiar concretamente essa iniciativa importante e vital, relacionada com o cuidado da casa comum que Deus nos entregou com tanto carinho”. Segundo ele, a ecologia tem sido presença constante nas Campanhas da Fraternidade desde 1979, mas precisa ser mais bem compreendida. “Queremos gerar ações concretas e, ao mesmo tempo, dar prosseguimento a esse caminho depois da realização do Sínodo”, acrescentou Pe. Arlindo. Como parte da equipe organizadora do encontro, fiquei muito feliz com o engajamento e compromisso dos participantes. Todos saíram muito motivados para trabalharem as temáticas do Sínodo em seus próprios ambientes e com muito desejo de se organizarem para que a reflexão sobre a ecologia integral se transforme em ações concretas nas comunidades. Também expressaram o desejo de continuar a se reunir para estudo e aprofundamento. Do ponto de vista da Vivat Brasil, o encontro trabalhou uma das ações imediatas propostas pela rede de congregações que fazem parte da instituição, que é o acompanhamento do Sínodo da Amazônia e também se articular melhor dentro de suas duas prioridades: sustentabilidade e cultura da paz. Para conhecer melhor as propostas da Vivat Brasil, sugerimos assistir ao vídeo produzido pela Verbo Filmes, disponível no Youtube: Vivat Brasil – workshop maio 2019. Ir. Ana Elídia Caffer Neves, SSpS, secretária executiva da Vivat Brasil, jornalista, membro da Equipe de Comunicação Congregacional e coordenadora de Comunicação da Província Stella Matutina (BRN). _______

Sabedoria indígena em terras amazônicas 

Em preparação ao Sínodo da Amazônia, que será realizado em outubro, estamos publicando uma série de artigos que nos ajudam a conhecer um pouco da realidade pan-amazônica e compreender a importância do sínodo para a Igreja Católica, os povos amazônicos e a sociedade em geral. O documento preparatório “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e uma ecologia integral” está organizado em três partes, seguindo o método “ver, julgar (discernir) e agir”. Já apresentamos uma síntese sobre a primeira parte do ver (https://blog.ssps.org.br/diversidade-cultural-e-ambiental-da-pan-amazonia) e, agora, publicamos sucintamente a segunda parte, que fala sobre a história eclesial, direito dos povos e sua sabedoria. Memória histórica  A presença humana na Pan-Amazônia tem mais de 10 mil anos, quando o território passou a ser habitado por diferentes povos, incluindo as principais civilizações pré-colombianas. Com o processo de ocupação colonial de Portugal e da Espanha, a partir de 1500 d.C., estes povos sofreram “um agigantado processo de dominações”, cheio de “contradições e dilacerações”, conforme reconhece o Documento de Puebla (DP 6). O próprio documento preparatório do Sínodo afirma: “Lamentavelmente, ainda hoje, existem restos do projeto colonizador que criou manifestações de inferiorização e demonização das culturas indígenas”. A consequência disso é o enfraquecimento das estruturas sociais indígenas e o desprezo de seus saberes e de sua expressão. Os 400 anos de missão e evangelização passaram pelas contradições da mentalidade colonizadora e, apesar dos cerca de 200 anos de independência dos países da Pan-Amazônia, “processos semelhantes continuam se alastrando sobre o território e seus habitantes, hoje vítimas de um novo colonialismo feroz com máscara de progresso”. Essa realidade levou o Papa Francisco a afirmar, em Puerto Maldonado, que, “provavelmente, nunca os povos originários amazônicos estiveram tão ameaçados nos seus territórios como estão agora”. Direito dos povos Em visita a Puerto Maldonado, o Papa Francisco falou que a Amazônia é vista como despensa de recursos naturais, sem levar em conta seus habitantes. As relações harmoniosas entre o Deus Criador, os seres humanos e a natureza foram quebradas pelas consequências nocivas do neoextrativismo de recursos como petróleo, gás, madeira e ouro, e pelos megaprojetos, como hidrelétricas, eixos viários e monoculturas agroindustriais. Francisco denunciou o modelo de desenvolvimento anônimo, obcecado pelo consumismo que transforma o “planeta num lixão”. Os novos colonialismos ideológicos, em nome do progresso, destroem as identidades culturais indígenas, portadoras de sabedoria ancestral de relação harmoniosa com a natureza. Além disso, segundo o Papa, há também políticas perversas de conservação da natureza que não levam em conta seus habitantes, que também têm direito ao desenvolvimento social e cultural.  O direito ao território dos povos indígenas, campesinos e outros setores populares ainda gira em torno da falta de regularização de terras e de reconhecimento de suas propriedades ancestrais e coletivas, sem articular a dimensão cultural e a cosmovisão dessas comunidades. Para a Igreja, “Proteger os povos indígenas e seus territórios é uma exigência ética fundamental e um compromisso básico dos direitos humanos”, o que está de acordo com o enfoque da “ecologia integral” da encíclica Laudato Si’ (cf. LS, cap IV). Espiritualidade e sabedoria    Na região amazônica, os povos indígenas buscam a sabedoria do bem viver, o que significa estar em comunhão com as outras pessoas, com o mundo, os seres em seu entorno e com o Criador, o que somente será alcançado “quando se realizar o projeto comunitário em defesa da vida, do mundo e de todos os seres vivos”. Dentro da grande diversidade cultural e religiosa, as comunidades são chamadas a se unir em defesa da vida e cuidar da Casa Comum. As famílias, como instituição social, têm dado uma grande contribuição para manter vivas as culturas. Mas há também a presença de algumas seitas motivadas por outros interesses que nem sempre favorecem uma ecologia integral.

Urgência da questão ecológica e Sínodo da Amazônia

O Sínodo da Amazônia, com o tema “Novos caminhos para uma ecologia integral”, segundo o cardeal Dom Cláudio Hummes, é importante não somente para a Igreja na Pan-Amazônia, mas para todos os países, porque amplia a discussão do cuidado com a natureza num momento “em que o mundo está passando por uma crise de máxima gravidade, porque está em risco o planeta”. Como presidente da Repam (Rede Pan-Amazônica), Dom Cláudio Hummes tem dado palestras pelo Brasil, esclarecendo sobre o Sínodo da Amazônia e alertando sobre sua importância. No Instituto São Paulo de Estudos Superiores (Itesp), em São Paulo-SP, ele destacou, no dia 10 de junho, a urgência da preservação da natureza e a busca de novos caminhos para enfrentar os desafios pastorais que a Igreja enfrenta na região amazônica. Embora seja um encontro de bispos marcado para Roma, em outubro próximo, o sínodo vai ouvir lideranças das comunidades da Pan-Amazônia, especialmente indígenas, que falarão sobre suas realidades. Embora a Igreja não vá refletir a respeito de fronteiras nem com questões de soberania nacional, o governo brasileiro reagiu… Para Dom Cláudio, o receio do governo é que o sínodo mexa com seus interesses e o das grandes empresas que tratam a Amazônia como um grande negócio. Que futuro você quer para seu filho? Partindo do tema da ecologia integral, Dom Cláudio falou sobre as mudanças climáticas que já estão ocorrendo no planeta por causa do aquecimento global, causado pelo efeito estufa. Ele lembrou que, se a temperatura subir mais de 1,5 grau, o processo será irreversível. O planeta ficará tão aquecido que não terá mais condições de vida. Para evitar que isso aconteça, será necessário abandonar o uso do petróleo, do carvão mineral e do gás mineral, principais fontes de energia utilizadas atualmente, e substituí-las por energia limpa. Isso é possível, mas requer investimentos altíssimos e vai contra os interesses dos que vivem da exploração dessas energias fósseis, que produzem o gás carbônico, um dos principais responsáveis pelo efeito estufa. Dom Cláudio alertou que, se essas medidas forem deixadas para depois, “será tarde demais”. Salientou que se trata de uma questão ética: o direito das próximas gerações de ter um planeta saudável. E questionou: “Que futuro você quer para seu filho? O futuro será não ter futuro só porque você não tem coragem de mudar?”. Discorrendo sobre o paradigma tecnocrático e o processo exploratório com o uso de novas tecnologias, reforçado pela ideologia do liberalismo, a terra tem sido explorada até o limite e de maneira irresponsável. Por isso é necessário e urgente buscar novos modelos de desenvolvimento para reverter o processo, porque o planeta está dizendo que não dá mais. Desafios pastorais na Amazônia Dom Cláudio situou alguns dos problemas que a Igreja na Amazônia enfrenta, especialmente por ser uma Igreja com muitas dificuldades econômicas e que enfrenta grandes distâncias para alcançar as comunidades. Embora haja muitas comunidades, há poucos pastores, e estes não conseguem estar presentes. Apenas visitam os povoados, em muitos casos, apenas uma vez por ano. “Um pastor que aparece uma vez por ano não pastoreia”, afirmou ele. “As comunidades têm o direito de celebrar a Eucaristia e ter os sacramentos, ter um pastor que reza com o povo, celebra, acompanha… Mas isso não existe, o que é muito sério!”, lembra. Ele afirmou que, “depois de 400 anos de evangelização, ainda não conseguimos passar a Igreja para eles; não temos um clero autóctone, inculturado… E isso é um direito deles”. Daí a urgência de se buscarem novos caminhos e de se discutir sobre os ministérios ordenados, para que a Igreja possa realizar uma pastoral de permanência, com ministros das próprias comunidades. Para Dom Cláudio, o cuidado com a preservação da Amazônia também é parte importante da ação pastoral da Igreja naquela região, pois do cuidado do meio ambiente depende a sobrevivência das próprias comunidades, “uma vez que tudo está interligado, e o que fazemos contra a terra o fazemos contra nós mesmos”, completou o cardeal.

Diversidade cultural e ambiental da Pan-Amazônia

A Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Pan-Amazônia será realizada em Roma, no mês de outubro deste ano, mas já vem sendo preparada por um amplo processo de diálogo e escuta dos povos que vivem na Região Amazônica. Com base no documento preparatório “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”, vamos trazer uma síntese dos principais aspectos da realidade amazônica que nos ajudará a entender a importância do Sínodo e a nos aproximar mais dos povos indígenas e demais comunidades da região. O território pan-amazônico A Pan-Amazônia é composta por nove países (Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela e Guiana Francesa). São mais de 7 milhões e meio de quilômetros quadrados que constituem o bioma amazônico. Além de ser uma das maiores reservas de biodiversidade do mundo, com 30 a 50% da flora e da fauna do planeta, concentra 20% da água doce não congelada e mais de um terço das florestas primárias de todo o planeta. Também é significativa pela captação do carbono. Diversidade sociocultural Na Amazônia convive uma grande variedade de povos. Originariamente, a população indígena vivia às margens dos rios e lagos. Contudo, para se protegerem dos colonizadores que queriam escravizá-los, muitos povos se refugiaram no interior da selva e outros contingentes populacionais vieram habitar essas áreas. Os povos tradicionais vivem em profunda comunhão com a natureza. Caçam, pescam e coletam o que a selva lhes oferece, e cuidam de seus rios e matas. Mas esse equilíbrio vem sendo destruído pelos grandes interesses econômicos, que provocam desmatamento e contaminação dos rios pelo uso indiscriminado de agrotóxicos, derrame de petróleo, rejeitos de mineração e derivados da produção de drogas. As cidades cresceram muito rapidamente e receberam migrantes e deslocados de suas terras, especialmente indígenas, ribeirinhos e afrodescendentes. Essas comunidades formam as periferias, marcadas pela pobreza e desigualdade social. Atualmente, de 70 a 80% da população pan-amazônica vivem nas cidades. Muitos são indígenas sem documentos e sofrem pela discriminação e atitudes de xenofobia. De acordo com o documento preparatório, “O crescimento desmedido das atividades agropecuárias, extrativistas e madeireiras da Amazônia não só danificou a riqueza ecológica da região, de suas florestas e de suas águas, mas também empobreceu sua riqueza social e cultural, forçando um desenvolvimento urbano não ‘integral’ nem ‘inclusivo’ da bacia Amazônica” (n.º 16). Identidade dos povos indígenas A população indígena da Pan-Amazônia é de aproximadamente 3 milhões, oriundos de 390 povos e nacionalidades diferentes. Entre eles há de 110 a 130 “povos livres”, ou “povos indígenas em situação de isolamento voluntário”. Outra situação é a dos povos indígenas que vivem nas cidades e perdem suas características culturais. Para enfrentar as ameaças à sua sobrevivência e manutenção de suas culturas, os povos indígenas e as comunidades amazônicas se organizam e lutam por seus territórios e seus direitos. Essas organizações não apenas buscam o fortalecimento de seus povos e o resgate de seus costumes, tradições e saberes, mas lutam também pela conservação da floresta e do meio ambiente, que é fonte de vida e de sustento. Em muitos desses contextos, a Igreja Católica vem marcando presença ao longo dos séculos, por missionários e missionárias comprometidos com as causas dos povos indígenas e amazônicos. Também busca, baseada em sua presença encarnada e sua criatividade pastoral e social, responder aos desafios da realidade amazônica.

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