Espiritualidade ecológica: um chamado para jovens e adultos

O cuidado com o planeta Terra não se limita às florestas e rios distantes; ele começa nas ruas, praças e comunidades onde vivemos. Cada gesto de cuidado pode ser acompanhado de oração e gratidão. A irmã Hermelinda Maria Ruschel, missionária serva do Espírito Santo, propõe algumas ações para que o zelo pela Casa Comum se transforme também em gestos de espiritualidade.
Natureza: sujeito de direitos ou valor de mercado?

Ao aceitar a lógica de atribuir preço a tudo o que existe, reafirmaríamos a histórica divisão do mundo entre donos e servidores. Financeirizar a natureza é, portanto, cair na armadilha neocolonial. Quais caminhos precisamos propor e quais iniciativas reivindicar para garantir que a natureza seja sujeito de direitos e não valor de mercado? Confira o artigo provocador do Pe. Dario Bossi!
Da fragilidade da vida, da terra e dos direitos da natureza

Se é tarde para pessimismo diante de um cenário que inclui aquecimento global, ondas de calor e ameaça à vida, então qual é a atitude requerida? Não há respostas fáceis, mas é tempo de compromisso e ação. Veja o artigo da professora Marli Teresinha Everling!
Conservação e preservação de nossa casa comum

As Ciências da Vida diferenciam “conservação” e “preservação” quando associadas à natureza ou discussões ambientais. O primeiro termo está ligado à conservação da biodiversidade e da ecologia. Em tal abordagem, os ecossistemas incluem espécies naturais, permitindo, entretanto, o uso sustentável e a participação humana, desde que orientada para a proteção, o uso racional e as gerações futuras. Já a segunda visão abrange a preservação das espécies, ecossistemas, biomas, diversidade genética, em uma perspectiva na qual o mundo natural não está à disposição dos humanos. Concebe a proteção da natureza para além do valor utilitário e econômico e visa à perenidade e à proteção integral. Ambos os significados são relevantes e pertinentes. Conservação, por possibilitar o uso sustentável, por considerar a participação humana; e preservação, por causa do valor atribuído à biodiversidade para além do utilitário, pelo compromisso com a proteção integral. Para que o cuidado com a conservação e a preservação de condições de vida na terra extrapolasse o campo das Ciências da Vida, foi percorrido um longo caminho. No trajeto, foram publicadas várias obras centradas no tema, especialmente entre as décadas de 1960 e 1970, quando nossa pegada ecológica já se fazia evidente. A hipótese de “Gaia”, tão presente nos textos de Leonardo Boff, foi formulada por Lovelock em 1969 e publicada em 1979. Para ilustrar a delicadeza, a beleza e a fragilidade do planeta, Lovelock valeu-se de uma imagem produzida um pouco antes: o planeta azul imerso no cosmos, registrado do espaço em sua primeira fotografia colorida. A partir de suas investigações sobre a biosfera, o cientista intuiu que todos os seres vivos e elementos materiais da superfície da terra constituíam uma comunidade, um megaorganismo, que, “inconscientemente”, afinava-se para manter o planeta como um sistema viável para a vida. Em sua percepção, nós, humanos, não teríamos direitos especiais, mas obrigações para com a preservação do equilíbrio do sistema, uma vez que nosso destino está conectado com o impacto de nossas ações sobre a terra. O cuidado requerido pela terra, presente em “Gaia”, também foi abordado em conferências sobre o desenvolvimento e meio ambiente, como aquelas sediadas em Estocolmo (1972), Belgrado (1975), Tbilisi (1977), Moscou (1987), Rio de Janeiro (1992 e 2012), além de orientar as conferências climáticas anuais e documentos como a Agenda 21 e a Agenda 2030. Em tais ações, nem sempre a dimensão social e ambiental consegue sobreposição à agenda econômica, o que traz ainda mais relevância à Segunda Encíclica do Papa Francisco (2015), “Laudato si’: sobre o cuidado da casa comum”. A Organização das Nações Unidas instituiu 28 de julho como Dia Mundial de Conservação da Natureza. É mais uma oportunidade para que a Equipe de Comunicação das SSpS Brasil reafirme seu compromisso de missionariedade com o uso sustentável de recursos, a valorização da biodiversidade em uma dimensão não utilitária e o cuidado integral com o planeta e a vida. ReferênciasAGENDA 2030. Plataforma agenda 2030. Disponível em: http://www.agenda2030.com.br. Acesso em: 6 jan. 2021.BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela Terra. Petrópolis: Vozes, 1999.EVERLING, Marli; KAHLMEYER-MERTENS, Roberto S. Design, educação ambiental e ser-no-mundo: elementos para uma hermenêutica da complexidade e da sustentabilidade. In: Confluências Culturais; Dossier Nossa vida, nosso planeta, nossa saúde, Joinville, v. 11, n. 2. P. 58-71, 2022. Disponível em: http://periodicos.univille.br/index.php/RCC/article/view/1809/1524. Acesso em: 17 jul. 2023.FRANCO, José Luiz de Andrade. O conceito de biodiversidade e a história da biologia da conservação: da preservação da wilderness à conservação da biodiversidade. História, Franca, v. 32, n. 2, p. 21-48, jul./dez. 2013. Acesso em: 8 jan. 2021.LOVELOCK, James. Gaia: a new look at life on Earth. Oxford: Oxford University Press, 1979.MOREIRA, Catarina. Biosfera. In: Revista de Ciência Elementar,Porto, v. 3, n. 2, jun. 2015. Disponível em: https://rce.casadasciencias.org/rceapp/pdf/2015/113/. Acesso em: 17 jul. 2023.PADUA, Suzana. Afinal, qual a diferença entre conservação e preservação? In: Jornal Eco, 2 fev. 2006. Disponível em: https://www.oeco.org.br/colunas/18246-oeco-15564/#:~:text=Conserva%C3%A7%C3%A3o%2C%20nas%20leis%20brasileiras%2C%20significa,integral%2C%20a%20%E2%80%9Cintocabilidade%E2%80%9D. Acesso em: 15 abr. 2021.PAPA FRANCISCO. Laudato si’: sobre o cuidado da casa comum. In: Vatican.va, 24 maio 2015. Disponível em: https://www.vatican.va/content/dam/francesco/pdf/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si_po.pdf&ved=2ahUKEwjXkvHWspOAAxXKIbkGHTF6ATQQFnoECDoQAQ&usg=AOvVaw2u7wRcx62LzwHk1PDCrwCY. Acesso em: 15 abr. 2021. Marli Teresinha EverlingProfessora nos cursos de Graduação e Pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville (Univille), coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica, colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental (caranguejo.org.br), colaboradora do blog SSpS Brasil para temas ambientais (blog.ssps.org.br), colaboradora das redes sociais do design para temas ambientais. Instagram: @designuniville
Os desafios da área ambiental no pós-devastação

Abordar o tema biodiversidade em 2023 passa necessariamente por um olhar retrospectivo sobre o cenário de terra arrasada, resultante das políticas ambientais promovidas nos últimos anos. Entre 2017 e 2021, período emblemático para o agravamento da metabolização da natureza em favor da economia, fui estudante do curso de especialização “Conservação da Natureza e Educação Ambiental”. Sou oriunda do campo do Design, que, em sua dimensão mais mercadológica e industrial, participa da instrumentalização da relação de exploração da Terra. Após 30 anos de convivência com a área, mais do que as leituras ou das notícias que saltavam dos jornais, a desesperança de meus jovens colegas biólogos, educadores ambientais e engenheiros florestais foi o fator sensibilizador para o contínuo desmonte das políticas ambientais. Se, em 2023, a refundação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e a criação do Ministério dos Povos Indígenas sinaliza uma mudança de rota do atual governo em relação às questões ambientais, há muito a ser reconstruído, e com urgência. Em 17 de abril último, o podcast “O Assunto”, apresentado por Julia Duailibi abordou, em seu episódio 943, o tema “A reconstrução da área ambiental no pós-devastação”. Participaram do programa Daniela Chiaretti, repórter especial de meio ambiente para o jornal “Valor Econômico”, e o professor Ricardo Abramovay, autor dos livros “Por uma economia do conhecimento da natureza” e “Infraestrutura para o desenvolvimento sustentável da Amazônia”. Daniela analisou as dificuldades enfrentadas pela ministra Marina Silva, como o combate do desmatamento da Amazônia, este entrelaçado com o crime organizado, que, entre outros mecanismos, estende-se desde o contrabando de madeira até o tráfico de pessoas e drogas. A repórter também destacou a importância da recomposição e da capacitação de equipes de fiscalização de órgãos como o Ibama para lidar com o crime organizado. Por fim, apontou progressões como o Fundo Amazônia e ações conduzidas para interromper o garimpo ilegal em Terra Indígena Yanomami. O valor do Fundo Amazônia, de acordo com a jornalista, está em atuar como freio para o desmatamento e articular ações de sustentabilidade para outros projetos Abramovay abordou a riqueza potencial da Amazônia e destacou a importância de sua extração e uso sustentável. Seu olhar é sistêmico e considera a importância de uma “agenda pós-desmatamento” ou uma “agenda verde”. O professor destaca o Ministério Indígena como uma ação socioambiental, o Fundo Amazônia como um eixo estratégico de sustentabilidade econômica da floresta, a assistência técnica aos produtores rurais como tática mais adequada de aproveitamento dos produtos da floresta, e o investimento em fontes sustentáveis de geração de renda nos espaços urbanos como estratégia de contribuição para a preservação da floresta. Tudo isso requer uma mudança de cultura. A educação para a preservação da biodiversidade assume importância fundamental para uma nova mentalidade e para considerar que a floresta se constitui em bônus e não em ônus. Isso passa por educar para a economia da sociobiodiversidade, da regeneração da floresta, do aproveitamento dos produtos oriundos da floresta e da valorização dos conhecimentos das populações quilombolas e indígenas. Referência O ASSUNTO #942. A reconstrução da área ambiental no pós-devastação. Disponível em https://open.spotify.com/episode/2NAWbpTsgYD1wUHhh4cpkp e https://g1.globo.com/podcast/o-assunto/noticia/2023/04/17/o-assunto-942-a-reconstrucao-da-area-ambiental-no-pos-devastacao.ghtml. Marli Teresinha EverlingProfessora dos cursos de Graduação e Pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville (Univille); coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica; colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental (caranguejo.org.br); colaboradora do blog SSpS Brasil para temas ambientais; colaboradora das redes sociais do design para temas ambientais (Instagram @designuniville).
Na corrida frenética pelo ouro, quem paga o preço são os indígenas e a natureza

Desde os anos 1970, a Terra Indígena Yanomami (TIY) é cobiçada para a exploração do ouro não obstante a demarcação realizada em 1992. Com quase 10 milhões de hectares, a reserva em Roraima, com uma população de cerca de 20 mil indígenas vive uma crise sem precedentes que traz à tona o descaso do governo federal nos períodos de 2019 a 2022, de acordo com testemunhas que há anos vivem e labutam na defesa dos direitos dos Povos e da floresta. Se em 2014 os dados de adoecimento não superavam 2 mil, em 2022, esse número teve uma alteração de 10 vezes mais. A extração de recursos minerais, – como o ouro -, dos solos ou cursos d’água em escala ilimitada, – associado a organizações criminosas -, por meio de técnicas manuais ou de maquinários como retroescavadeiras e dragas tem sido a maior causa da crise humanitária que se instalou entre os Yanomami. Estudo conduzido por pesquisadores pelos Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE) e da Universidade do sul do Alabama, EUA, revela que quase todo o garimpo ilegal (95%), se se dá em três terras indígenas, Kayapó, Munduruku e a Yanomami, a mais afeta pela ilegalidade. Rica em depósitos de ouro, soma uma população de 26 mil Yanomami e Ye’kwana, distribuídos em 321 aldeias. Não é um cálculo difícil de se fazer para este problema matemático, social, político e ambiental. Nesse meio de campo quem tem mais recursos e forças na disputa, sai na frente. Os garimpeiros, por sua vez, contam com uma megaestrutura favorecida por poderes econômicos, elites locais e o aumento do preço do ouro no mercado internacional, e ainda teve garantido o apoio do governo anterior que durante o mandato favoreceu o transito no parlamento de um projeto de lei para regulamentar, abrir as terras indígenas ao garimpo, o que é inconstitucional. O missionário da Consolata ugandês, no Catrimani desde 2019, padre Bob Mulega, 34, enfatiza que os garimpeiros, também eles, são vítimas de um sistema de exploração dos povos e da natureza. “Os que atuam nos garimpos ilegais são os mais pobres que não tem outra opção, pois sabemos que no garimpo as condições de vida são péssimas”, conta. Como uma ferida aberta no coração da floresta, uma estrada de 10 km que adentra o território Yanomami para o desmatamento e as grandes crateras abertas que desnudam a terra na busca de fortuna, tem consequência drástica na vida, na cultura e na espiritualidade e na saúde física dos povos indígenas e, por outro lado, uma contaminação sem precedentes que devasta a natureza na sua limpidez. “Os postos de saúde ficaram desabastecidos de remédios básicos como dipirona, paracetamol, remédios para tratamento da malária. Mais de 500 crianças morreram por patologias que são curáveis. Abandono completo do posto de saúde usado como posto de combustível pelos garimpeiros”, desabafa em entrevista o padre Corrado Dalmonego, IMC, que realiza pesquisa de doutorado sobre os impactos do garimpo no território. Como uma rede de violação dos direitos humanos, o garimpo além de prejudicar a saúde por transmissão de doenças e por favorecer a negação dos devidos cuidados, impedindo a entrada de recursos, da presença dos missionários, desestrutura a vida familiar, quando se trata das questões de prostituição imposta às mulheres em troca de benesses. Quem adentra a floresta tem uma visão de ambição pelas riquezas naturais com o objetivo de obter lucro em detrimento do bem-viver da floresta e das pessoas que ali convivem em harmonia com ela. O garimpo afeta esse modo de vida. Para o padre Mulega, “a vida do povo tem piorado por causa do contato com as doenças que vêm de fora, a extração ilegal que destrói o meio ambiente, falta de assistência e atendimento adequado à saúde”. Uma séria consequência disso é a migração dos jovens indígenas para a cidade que, segundo o missionário os atrai para o mundo das drogas e outros contra valores. “Os empresários e políticos precisam ser responsabilizados pela tragédia do garimpo” Vale recordar que juntamente com os povos originários e a natureza, as pessoas que estão com a mão na massa extraindo o ouro, pobres, marginalizadas, também elas pagam e pagarão alto preço por suas ações, porque como dizem os antigos, “a corda sempre arrebenta pelo lado mais fraco”. Mas para a liderança católica, membro do Conselho Indigenista de Roraima, Gilmara Fernandes, os verdadeiros responsáveis pela tragédia do garimpo precisam ser responsabilizados e, do outro lado, o governo precisa dar atenção aos pobres garimpeiros que estão saindo das terras Yanomami. “Os que estão lá embaixo, trabalhando no garimpo, os mineiros, são a ponta do iceberg. Aqueles que dão a logística, a manutenção, a alimentação, que financiam, – que são os empresários e os políticos -, eles é que precisam ser responsabilizados, investigados”. Sem essa infraestruta os garimpeiros não conseguem viver dentro do território. Ainda, segundo Fernandes, é preciso se perguntar sobre a vida desses garimpeiros pós- saída deste trabalho financiado. Em 1993, garimpeiros foram tirados da terra indígena, porém, se tornaram agricultores, conseguiram acesso à terra, entraram em projetos de reforma agrária, mas hoje, com a chegada da soja, os valores da terra aumentaram significativamente. “A maioria das terras em Roraima está concentrada nas mãos de políticos, empresários, grandes produtores de soja, sendo impossível compra-la. Para onde eles irão, como manterão suas famílias? O governo precisa pensar nessas pessoas que saem do garimpo e vão para os municípios, que voltam para as suas casas ou vão para outras áreas de garimpo”, enfatiza. A vida yanomani por trás das Câmeras Daquilo que as câmeras não captam, tem conhecimento de causa os missionários da Igreja Católica que há mais de 50 anos convivem com os Yanomami, no Catrimani. Para Mulega os Yanomami são uma sociedade bem estruturada à sua maneira, a partir das suas crenças, do seu modo de conceber a vida e a criação. A forma e os horários de alimentação, as regras para bem-vive em sociedade, o cuidado com a natureza, o lugar das mulheres e das crianças, o papel
Tempo da Criação: rezar e cuidar da natureza

Desde 2015, o dia 1º de setembro está inscrito no calendário católico como o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação. A iniciativa partiu da Igreja Ortodoxa, que celebra esta data desde 1970, portanto há 50 anos, e foi assumida pelo Papa Francisco com o propósito de chamar toda a humanidade a uma conversão ecológica e criar relações sustentáveis e de cuidado com o mundo que nos rodeia. A iniciativa ajuda a proteger a Criação e fortalece a comunhão com nossos irmãos ortodoxos. No domingo, após a oração do Ângelus, o Papa se referiu à comemoração de 1º de setembro: “A partir desta data, até 4 de outubro, celebraremos, com nossos irmãos e irmãs cristãos de várias Igrejas e tradições, o ‘Jubileu da Terra’, para comemorar o estabelecimento, 50 anos atrás, do Dia Mundial da Terra”. Por intermédio da Secretaria das Missões de Roma, as missionárias servas do Espírito Santo foram incentivadas a celebrar este dia e promover atividades durante o “Tempo da Criação”, que abrange o período de 1º de setembro a 4 de outubro, com a festa de São Francisco de Assis, patrono da natureza. Entre as atividades sugeridas, estão um dia de oração pelo cuidado da criação, organização de seminários na web, reflexões e retiros sobre a Encíclica Laudato Si’, atuação sobre os objetivos do desenvolvimento sustentável, participação no Dia Mundial dos Migrantes e Refugiados, entre outras. Este “Tempo da Criação” de 2020 é uma forma de nos unir aos 2,2 bilhões de cristãos no mundo inteiro, como uma família global que se compromete e cuida de sua casa comum, o planeta Terra.Para ajudar a celebrar este dia e animar a oração pessoal e comunitária, trazemos um vídeo, a “Oração para o Tempo da Criação 2020” e ainda um poema que fala da presença do Espírito Santo na criação. Louvor ao Espírito SantoLúcia Caffer Neves Toda terra canta na mais forte vibração de amor.A natureza de horizonte a horizonteentoa um salmo eterno em teu louvor. Tu, que tudo animas, que dás sabor à vida,vem, vem habitar em nós. A criação se alegra e glorifica ao mais alto Ser,num coro imenso celebrando a vida,que sempre renasce em cada amanhecer. Tu, luz peregrina, que o mundo extasia,vem, vem habitar em nós. Toda a terra ama numa exuberante explosão de cor,desde a floresta que procura o rio,desde a abelinha quando busca a flor. Tu que te derramas em graças tantas,vem, vem habitar em nós. Toda a terra ama: homens e feras e animais das matas,aves e peixes, borboletas, flores, montes e vales,fontes e cascatas. Tu, força infinita que geras a vida,vem, vem habitar em nós. Toda a criatura exulta e vibra ao bafejo teu,para beber do manancial da graçatanta delícia que lhe vem do céu. Tu, presença viva, que o mundo renovas,vem, vem habitar em nós.
Por que a reciclagem é importante para o meio ambiente?

Quando se trata de cuidar do meio ambiente, um dos vilões é a produção desenfreada de lixo. Considerando o acúmulo de resíduos sólidos que afetam a natureza e destroem o meio ambiente, a reciclagem é de vital importância, segundo a assistente social Camille Carletti, coordenadora de Projetos Socioambientais do Cefopea (Centro de Formação Profissional e Educação Ambiental), na Zona Leste de São Paulo-SP. “A reciclagem é fundamental e faz parte de uma cultura que leva em conta nossa própria sobrevivência e que se baseia no consumo consciente”, lembra Camille. Para ela, “a reciclagem não está à margem da sociedade, faz parte do dia a dia, mas a população ainda precisa ser amplamente conscientizada”. Quem pratica a separação do lixo, em sua opinião, são as pessoas com melhor formação e que conhecem os benefícios do reaproveitamento de resíduos. Ressaltou também a importância de informar continuamente a população sobre como reciclar, onde e quando há coleta seletiva, e o que pode ou não ser reciclado. O Cefopea é um projeto vinculado à Associação Reciclázaro e tem como objetivo ensinar práticas ambientais, sensibilizar e aproximar os visitantes às tecnologias sustentáveis e também à produção de alimentos naturais. Segundo Camille, “o Cefopea é um oásis na cidade de São Paulo”. Ela explica que a entidade oferece cursos profissionalizantes, workshops voltados a temas ambientais, incubação de negócios para geração de renda e visitas monitoradas para estudantes de escolas públicas e privadas. Para manter o espaço, vende os próprios produtos, como mudas, biofertilizantes, terra adubada e oferece cursos. Da incubadora de negócios surgiram a cooperativa de reciclagem, a padaria e a cooperativa de jardinagem, que funcionam no mesmo local. A Cooperativa Vitória do Belém reúne 18 cooperados que trabalham na reciclagem e tiram daí seu sustento, produzindo de 30 a 40 toneladas de material por mês. Por causa da pandemia do coronavírus, no momento, encontra-se fechada por ordem da Prefeitura de São Paulo, e os cooperados estão recebendo um auxílio financeiro. Segundo Camille, o Cefopea contribui na educação ambiental de pessoas de diferentes classes sociais e faixas etárias. Nas visitas monitoradas, os alunos de escolas públicas e particulares têm a oportunidade de estar em contato com a natureza e conhecer o processo de produção de alimentos e de reaproveitamento de resíduos orgânicos, como a compostagem de folhas e galhos resultantes da poda do próprio espaço, de restos de alimentos e o minhocário. Há também oportunidade para o voluntariado, com a participação de empresas, e um intenso trabalho social para as populações mais vulneráveis. Nestes últimos meses, a opção são os workshops on-line, já que as atividades presenciais não são possíveis. Camille destaca que a pandemia do coronavírus traz um aprendizado: “refletir sobre o que, de fato, é importante para nossa vida e o que podemos relevar”, especialmente “termos consciência dos nossos consumos, hábitos e valores” e que “qualquer atitude individual impacta no coletivo”. Como o Cefopea está ligado à Associação Reciclázaro, Camille apresenta os três eixos que pautam a entidade: social, ambiental e econômico. “Além de trabalharmos as questões relacionadas ao meio ambiente, também trabalhamos pessoas, seres humanos que, muitas vezes, foram desprezados pela vida. Nossa missão é de construir um caminho novo”, relata. Por ser uma organização sem fins lucrativos, a sustentabilidade é sempre um desafio. Mas, graças a iniciativas, como o empório orgânico Grão em Grão, localizado no bairro da Vila Romana, na capital paulista, com objetivo de oferecer produtos naturais a preços justos e o apoio de muitos doadores, o trabalho segue em frente. “Acredito que, neste momento de pandemia, a cultura da doação ficou mais evidente, e essa cultura tem que continuar”, conclui Camille. Em favor do planeta e do ser humano Camille dá algumas dicas sobre como separar e entregar resíduos para reciclagem. São ações simples que fazem grande diferença para o planeta e para a vida de muitas pessoas. Veja: • Tenha pelo menos dois cestos de resíduos em casa: um para o material reciclável e outro para o lixo comum. • Ao descartar o resíduo, é importante lavar as embalagens, para evitar atrair vetores. • Coloque o material reciclável numa embalagem de cor clara e o lixo comum num saco preto. • Atente-se aos dias da coleta seletiva em sua rua (para mais informações, consulte o site das concessionárias responsáveis pela coleta em sua cidade. Em São Paulo, é a Loga ou a Ecourbes). • Ou procure um PEV (ponto de entrega voluntária) para descartar seu material. • Quando puder, conheça o trabalho de uma cooperativa de reciclagem. Para conhecer mais sobre as diversas ações da Associação Reciclázaro e saber como contribuir, acesse www.reciclazaro.org.br.
Natureza pedagoga: as águas de março

Posso dizer que somos água, que a natureza nos aproxima do sagrado. Posso dizer que água é direito humano, que o futuro é agora. Para entender a magnitude e o alcance dessas afirmações, destaco: 71% da superfície da terra são cobertos por água; de toda água do planeta, apenas 2,5% são de água doce; os recursos hídricos no Brasil representam 12% do total mundial; o corpo humano apresenta entre 60 a 75% de água. Brasil, 2020… “São as águas de março fechando o verão, é a promessa de vida no teu coração.” Ao som de Tom Jobim, poderia intuir que o pior já passou e que o outono vai nos consolar, e que o que aconteceu passou… Mas, na imensidão das terras brasileiras, seguimos vivendo a contraditória realidade da falta da água e a emergência dos temporais. Para exemplificar, ao menos dez cidades em Minas Gerais foram afetadas, emergencial e alternadamente, pela seca e pelos temporais, duas faces de uma mesma calamidade. Trazemos na lembrança as recentes e impactantes imagens veiculadas, e muitos trazem na pele a força da mensagem das águas, seja na escassez, seja no transbordamento. É a natureza pedagoga… Só esses fatos e imagens já serviriam para nos alertar sobre a relevância de se propor essa discussão, especialmente considerando o simbolismo de 22 de março que, desde 1992, foi decretado pela ONU (Organização das Nações Unidas) como o Dia Mundial da Água. Talvez pelo acirramento da vida urbana, o cotidiano de rios tampados, nascentes submersas, hidrantes e água canalizada tenhamos “perdido” o entendimento do ciclo vital da água, do ciclo vital de todo o meio ambiente. Não dá mais para negar o problema nem seguir resignados e acomodados, e muito menos acreditando que a solução é apenas técnica. A disputa pela água, a escassez crescente pelo mundo afora é uma realidade. Há de se cuidar da racionalidade em seu uso, de forma a permitir o desenvolvimento das nações, a justiça social e a manutenção dos ecossistemas. A proteção e a preservação para garantir a quantidade, a qualidade e os múltiplos usos dos recursos hídricos envolvem também gestão, política, financiamento, diálogo e parceria. Todos e todas, cada um e cada uma, com base em sua cultura, experiência, iniciativas e capacidades, fazendo sua parte, conforme nos ensina o Papa Francisco. “São as águas de março fechando o verão, É a promessa de vida no teu coração” Ao som de Tom Jobim, prefiro entender que, onde brota a promessa de vida e onde reina o amor, o cuidado com nossa Casa Comum vai prevalecer, e isso depende de todos nós, de cada um de nós! Maria José Brant (Deka), assistente social, estudante de Antropologia, analista de políticas públicas no Programa Bolsa Família, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas. ______ Referências: Papa Francisco. Carta Encíclica “Laudato Si’” sobre o cuidado da Casa Comum. Vaticano, 25 de maio de 2015. https://brasilescola.uol.com.br/geografia/agua.htm https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-brasil/2020/02/06/dez-cidades-mineiras-enfrentam-efeitos-da-seca-em-meio-a-chuva.htm https://www.hypeness.com.br/2013/10/conheca-a-comunidade-na-turquia-que-se-comunica-atraves-do-assobio/ https://www.letras.mus.br/tom-jobim/49022/ https://www.mma.gov.br/estruturas/161/_publicacao/161_publicacao03032011025235.pdf
Espiritualidade e ecologia integral

É urgente fortalecer relações comunitárias, cooperativas de produção, trabalho colaborativo, consumo consciente, comércio justo, respeito ao próximo e à diversidade e tantos outros aspectos humanos definitivamente incompatíveis com a lógica de acumulação do capital que “coisifica”, “explora”… Vivemos tempos difíceis, com pessoas adoecidas física e espiritualmente, sistemas social, político e econômico marcados pelo egoísmo do “salve-se quem puder”, corrupção… É preciso identificar o que não convém: “Aprender o caminho do inferno para dele se afastar”, como recomendava, há cinco séculos, Nicolau Maquiavel. Não temos mais tempo a perder. Juntos podemos iluminar alguns caminhos para uma ação cotidiana, silenciosa, que pode provocar mudança para uma vida harmoniosa consigo, com o próximo, com a Natureza e com Deus. A espiritualidade e a ecologia integral nascem da prática libertadora de Jesus que fez e continua fazendo, ainda hoje, o apelo a uma profunda conversão interior e integral para vida em abundância (Jo 10,10), de inter-relação entre pessoa-espiritualidade-natureza. Está em curso uma mudança da “ecologia ambiental” para a “ecologia integral”, incluindo a ecologia político-social, cultural, educacional, ética e a espiritual (Laudato Si’) que nos leva a uma consciência do rosto humano de Deus e nos impele a uma profunda defesa e valorização da vida humana em todas as suas manifestações. Como entender a “ecologia integral” com base na realidade que nos cerca e no momento político que vivemos no Brasil? Nossa proposta oferece uma reflexão baseada em três dimensões: religioso-missionária, comunitária e econômica. Vamos a elas. Dimensão religioso-missionária Na dimensão religioso-missionária, somos provocados a refletir sobre a experiência de fé e o diálogo, os desafios e a promoção da ecologia integral. Essa dimensão caracteriza a nossa relação com Deus, o Criador. Por essa relação, pode-se adquirir uma experiência da fé profunda que deve motivar para a convivência cotidiana na relação interpessoal. A experiência com Deus não é somente para construir uma relação vertical, mas ela fundamenta nossa relação com outros seres, outra criação. Nessa relação cabe um compromisso para que as mensagens e os mandamentos divinos sejam realizados para transformar a vida em mais integrada e harmônica. Por isso a missão é fazer o bem, promover e cuidar da vida em todas as suas manifestações, colaborar e fazer acontecer o que Deus quer e deseja desde a criação o mundo. Algumas provocações para sua reflexão e aprofundamento: Como a experiência de fé ajuda no diálogo e promove uma ecologia integral? Quais os desafios da missão na perspectiva da ecologia integral? Dimensão comunitária Na dimensão comunitária, somos provocados a refletir sobre os desafios que se apresentam no dia a dia nas comunidades, na Igreja, na sociedade. Precisamos ir além das limitações pessoais, sabendo que a missão é o maior tesouro. Como criar unidade nas diferentes maneiras de ser religioso, religiosa, cristão no dia de hoje em diferentes frentes de trabalho, como formação, vivências, visão de Igreja, culturas, partilha dos bens e interesses pessoais e comunitários? Só criando um diálogo de vivências comunitárias com respeito mútuo, interesses comuns e crescimento humano que aproximam o discurso da prática de vida. Cultivar os encontros e relacionamentos onde a vida familiar vai crescendo em exemplo e testemunho de fé como evangelizadores da Família Arnaldina. Cultivar verdadeiras amizades significa buscar valores em comum, aprender a gerenciar conflitos inerentes à convivência humana, um diálogo corajoso em refazer relações, momentos de partilha da fé, cultivar sonhos em comum, celebrar acontecimentos que reforçam a identidade. A figura a seguir propõe a “ecologia integral” como centro das atividades pastorais e comunitárias. Algumas provocações para sua reflexão e aprofundamento: Acredito nos valores de uma comunidade que me faz crescer humanamente? Onde busco alimentar meu espírito comunitário? Qual a relação entre uma vida comunitária bem vivida e a contribuição ao meio ambiente? Dimensão econômica Na dimensão econômica, somos provocados a refletir sobre a urgência de uma articulação estratégica dos diferentes níveis do Poder Público para obtenção de resultados efetivos nas políticas ambientais que precisam estar presentes e articulados com as políticas educacionais, industriais, energéticas… Sabe-se da dificuldade em articular esferas de poder autônomas e com focos específicos, mas, pela ênfase na ecologia integral, pode-se estruturar uma grande transformação na realidade socioeconômica do Brasil. Estratégias para uma solução demandam uma abordagem articulada para combater a pobreza, garantir direitos e proteger a natureza. Não se trata de um documento para avaliar o índice de desenvolvimento humano (IDH), mas que o conceito de “ecologia integral” seja estruturante para todas as políticas públicas, no sentido de colocar o Brasil em outro patamar civilizatório, com geração e distribuição de renda e maior sustentabilidade. Como cidadão e cristão, a vida humana se sobrepõe a qualquer outro interesse de natureza econômica, comercial ou política. Algumas provocações para sua reflexão e aprofundamento: Como as políticas públicas podem promover a ecologia integral (CF 2019)? Como estimular o protagonismo dos cidadãos na intervenção social? Equipe de Espiritualidade Nacional SSpS e SVD: Maria Cristina Maia, Ir. Paolo Delucca e Pe. Matheus Nurak.