A Ideologia do Movimento Escola sem Partido

Os defensores da “escola sem partido” (ESP) partem de uma premissa inquestionável. A de que a doutrinação em sala é um coisa ruim. Verdade. Também é verdade que, num universo de 2 milhões de professores, existem maus profissionais (aliás, isso é verdade para qualquer ocupação). E pronto. Isso é tudo que o movimento tem. O resto é só fragilidade. O ESP tem falhado em questões básicas. Falta uma definição clara do que se entende por doutrinação. Faltam evidências concretas de que se trata de um problema disseminado. Faltam indicações de seu tamanho e de seus efeitos. Precisa de tudo isso? Sim. Quem quer ser levado a sério tem de tratar seus argumentos com seriedade. No caso da Educação, significa fazer pesquisas para entender melhor até questões que parecem ter uma resposta muito evidente. Vou dar um exemplo: se eu perguntar “será que a escola influencia a Educação de um aluno?”, a resposta óbvia de um educador será “claro que sim!”. Mas mesmo essa pergunta simples merece muita pesquisa. A influência da escola é maior ou menor do que a familiar, o entorno social, o nível econômico? Com a doutrinação, deveria acontecer a mesma coisa. Mas, até o momento, não há qualquer investigação que nos permita entender o suposto problema. Seria o mínimo. Para que a questão tenha importância de fato, precisaríamos de várias pesquisas, comprovações independentes, um campo de estudo e de debate sobre o tema. Aí está a questão. O ESP não tem intenção nem de pesquisar nem de discutir. Colocando os professores como adversários e optando pela agressividade no discurso, a destruição de Paulo Freire, alimenta ódios. As poucas reuniões com opositores terminam em confusão. Não é debate, é briga, e isso interessa ao ESP. O “fla-flu” gera memes nas redes sociais, demonização e vitimização de ambos os lados. O movimento segue sob os holofotes, e a luz saturada impede que se vejam suas enormes fragilidades. Se estivessem de fato interessados em resolver o problema da alegada doutrinação, poderiam tomar outro caminho: o do diálogo pedagógico, aberto aos pontos de vista contrários, a examinar causas e consequências e, acima de tudo, a procurar uma solução conjunta. Quem quer entender dialoga. Quem quer impor grita! Para o ESP, o poder dos docentes sobre os alunos é imenso. A ideia é de que o estudante estaria “submetido à autoridade do professor” e que educadores doutrinadores seriam “abusadores de crianças e adolescentes”. A imagem de jovens passivos não encontra paralelo com a realidade das escolas brasileiras. Eles são questionadores e não aceitam facilmente o que se diz. Exemplo desse protagonismo é a recente onda de ocupações, lideradas por estudantes, de escolas públicas de ensino médio. Ao conceber crianças e jovens manipuláveis, o ESP se inspira em modelos teóricos ultrapassados há pelo menos 50 anos. Desde a década de 1960, pesquisas mostram que as pessoas, mesmo as mais jovens, escutam uma mensagem e refletem sobre o significado dela. Podem aceitá-la ou não após cruzarem o que ouvem, com influência da família, de outros professores, de amigos, da mídia, na Igreja e em outros grupos sociais dos quais participam. Outro equívoco é atribuir uma força imensa à escola na formação do pensamento das pessoas. Estudos indicam que, na sociedade atual, a escola perdeu força diante de outros grupos e instituições. As pessoas se formam em cursos livres, debates abertos, igrejas, empresas, movimentos sociais. As visões de mundo divulgadas por essas entidades podem ser diferentes, contraditórias e até concorrentes. Aliás, quem nunca se viu soterrado com um mundo de informações contraditórias, sem saber o que pensar sobre um assunto? O ESP se refere aos educadores brasileiros como um “exército organizado de militantes travestidos”, amparado na pesquisa de 2008, encomendada pela revista Veja ao Instituto CNT/Sensus. Na sondagem, 78% dos professores disseram que a principal função da escola é “formar cidadãos”. Para o ESP, isso equivale a “apenas e tão somente martelar ideias de esquerda na cabeça dos estudantes”. Tal definição não se enquadra nos múltiplos significados dos termos formação e cidadania. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), por exemplo, dizem que cidadania deve ser compreendida como “participação social e política, assim como exercício de direitos e deveres políticos, civis e sociais”. Sua adoção no dia a dia se exprime em “atitudes de solidariedade, cooperação e repúdio às injustiças, respeitando o outro e exigindo para si o mesmo respeito”. Isso se aplica tanto a um militante quanto a um diretor de uma grande empresa. Até o momento, as medições sobre filiação a partidos políticos não confirmam a tese do ESP. O IBGE realizou dois levantamentos sobre o tema. Ambos são bem antigos, de 1988 e 1996. Na primeira, 10% dos professores da educação básica disseram ser filiados a partidos. Era um índice superior à média brasileira (4%), mas, ainda assim, muito distante de ser um exército. A julgar pela pulverização partidária, também é improvável que os professores estejam concentrados numa única legenda. Felizmente as vozes contrárias às propostas do ESP são numerosas entre educadores, intelectuais, jornalistas, parlamentares, ativistas de movimentos sociais, cidadãos e cidadãs identificados com valores democráticos, com os direitos das populações discriminadas historicamente, com o papel central da escola na formação de sujeitos críticos, com o princípio da igualdade, da cidadania. Irmã Luciana Rzepka, SSpS – Professora universitária, educadora, teóloga, bióloga, palestrante, pós-graduada em Ciências da Religião, mestranda em Teologia Bíblica.
O encontro entre o amor e a etiqueta (Lc 7,36-50)

O encontro de Jesus com mulheres pontua seu caminho entre o anúncio da paixão, morte e ressurreição. A seguir, vamos refletir a aproximação de Jesus com “uma pecadora”, como é denominada pelo evangelista Lucas. O episódio deve ser lido em paralelo com o encontro com “Simão, o Fariseu”. Pois ambos ocorrem na casa deste. O primeiro dado que recebemos é que Jesus foi convidado por um fariseu para comer com ele (v. 36). Tratava-se de um convite formulado e, portanto, formal, mas não privado. Nessa recepção, com certeza, houve outros convidados. O costume, nesse caso, era deixar abertas as portas da casa. Isso possibilitava o aceso aos comensais. Dessa forma, a irrupção da mulher na casa era possível, embora não fosse “normal”. O autor apresenta-nos a justificativa do surgimento da mulher: o alabastro com perfume que ela trazia e com o qual ungiu os pés de Jesus. O interessante desse encontro é que ela não falava com palavras, mas com a linguagem corporal. Em outras palavras, podemos dizer que se colocava toda ela em movimento e ia ao encontro e acolhimento de Jesus. A mulher não se limitava pela etiqueta e formalidade, pelo contrário, descobriu seu cabelo e, com ele, secou os pés de Jesus (lembremos que, naquele tempo, descobrir os cabelos diante de desconhecidos era motivo de desonra para as mulheres). Diante do Amor, o amor sentiu-se livre e quebrou condicionamentos. O choro dessa mulher fala-nos da mais profunda expressão de seu ser. E suas lágrimas substituem a água da acolhida formal que lhe faltou a Simão. Imaginemos o desconforto e a indignação que a presença e o agir dessa “intrusa” causou ao anfitrião. Pois o deixou exposto, na sua rigidez e subordinação aos ritualismos do puro e impuro. Quando pessoas, grupos e sociedades tornam costumes e ritos normas e formalidades a ser cumpridas, o encontro e a acolhida das pessoas podem se diluir, deixando-os rígidos e endurecidos como Simão, o Fariseu. Logo, a presença de alguém que veja além e que atue de forma diferente (a mulher pecadora) necessariamente questionará e fará com que sejam revisados certos padrões de vida. Por isso, podemos ler, no pano de fundo do encontro de Jesus com Simão, a rejeição à grande novidade de Jesus, pois o Cristo apresentou uma nova forma de ser. Ele acolheu, tocou, aproximou os que a etiqueta religiosa rejeitava. As pessoas que enfrentam, dia após dia, o drama da fome, da rejeição, da doença esperam ansiosas a visita de Deus. A figura da mulher mostra isso. Nela podemos ver essas multidões famintas, doentes, marginalizadas, as quais Jesus toca e liberta. O fato de Jesus se deixar tocar pelos “pecadores”, aqueles que outros excluem, rompe formalismos frios e desumanos, mostrando-nos que Deus não recusa as pessoas. Deus nos ama e aceita, com alegria, nossa mais profunda expressão de amor. Tenhamos a coragem dessa mulher, que, perdoada, acolheu o Amor com amor. E com ela levemos o alabastro com perfume às pessoas carentes de Deus e necessitadas de inclusão, amor e perdão. Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e, atualmente, além de animadora vocacional, acompanha as jovens aspirantes na Comunidade Madre Josefa, em Belo Horizonte-MG. Referência MENDONÇA, José Tolentino. A construção de Jesus: a dinâmica narrativa de Lucas. São Paulo: Paulinas, 2018.
Para começar bem o novo ano

Cada novo ano traz consigo sonhos, esperanças e muitos desafios, especialmente em tempos de crise, como é o cenário sócio, político e econômico que enfrentamos no Brasil. Apesar disso, é possível iniciar 2019 com alegria, esperança e fé num futuro melhor? Enfrentar a vida com realismo não significa ser pessimista, mas descobrir novas oportunidades e caminhos, usando a criatividade para transformar medos em experiências de superação e dificuldades em trampolim para o crescimento. Aqui vão algumas dicas para acolher o novo ano com muita fé e esperança, e assim, alcançar as metas que desejamos, transformando nossa vida, nossa família e tudo o que nos rodeia em oportunidade para ser feliz e viver melhor. 1 – Decidir ser feliz. Sou responsável pela minha vida e as outras pessoas e os acontecimentos não tem poder para impedir que eu seja feliz. O segredo é, diante de cada situação, decidir o que realmente quero e transformar os limões azedos em deliciosa limonada. 2 – Ter metas claras. Se quero chegar a algum lugar, preciso saber para onde vou. Quais são os meus planos para este novo ano? Que sonhos desejo realizar? Que dificuldades quero superar? Fazer uma lista dos meus objetivos ajuda a clarear as metas e a eliminar as que não são viáveis. 3 – Dar os passos necessários. Cada meta requer ações concretas que necessito fazer de maneira organizada. Daí a importância de administrar o tempo e ser fiel às decisões que tomei. Cuidar primeiro do que é mais importante, sem deixar para depois aquilo que é urgente e necessário. Ninguém é feliz sozinho, por isso preciso das outras pessoas para que 2019 seja bom. Aqui vão algumas perguntas para checar se este é o caminho: • Estou bem comigo mesmo? Sou fiel aos meus sonhos? Cultivo a liberdade interior e uma vida saudável? • Como está minha vida familiar? Dou tempo para estar com as pessoas que amo? Expresso o quanto são importantes para mim? Valorizo o que elas têm de bom? • Como está meu círculo de amizades? Meus amigos compartilham dos mesmos valores e ideais? Eles me ajudam a ser uma pessoa melhor? Cultivo a amizade e o bem querer? • Qual a contribuição que dou para a sociedade? Exerço a cidadania? Sinto-me responsável pelo mundo ao meu redor? Cuido da natureza? Respeito as pessoas e colaboro com a justiça e a paz? • Como me relaciono com Deus? Sinto-me uma pessoa amada e chamada para realizar uma missão neste mundo? Participo de uma comunidade de fé? Sou solidário com as pessoas que sofrem? • Como está minha vida familiar? Dou tempo para estar com as pessoas que amo? Expresso o quanto são importantes para mim? Valorizo o que elas têm de bom? • Como está meu círculo de amizades? Meus amigos compartilham dos mesmos valores e ideais? Eles me ajudam a ser uma pessoa melhor? Cultivo a amizade e o bem querer? • Qual a contribuição que dou para a sociedade? Exerço a cidadania? Sinto-me responsável pelo mundo ao meu redor? Cuido da natureza? Respeito as pessoas e colaboro com a justiça e a paz? • Como me relaciono com Deus? Sinto-me uma pessoa amada e chamada para realizar uma missão neste mundo? Participo de uma comunidade de fé? Sou solidário com as pessoas que sofrem? Então, mãos à obra para que 2019 seja um ano muito abençoado para todos nós! Ir. Ana Elídia Caffer Neves é jornalista, pós graduada em formação holística pela Unipaz e membro da Equipe de Comunicação SSpS.
Testemunho Missionário – Maria Cristina Maia

O testemunho missionário deste mês traz o depoimento de Maria Cristina Maia, missionária leiga de Deus Uno e Trino.
Confraternização de final de ano

Oração, alegria e muito entrosamento marcaram a confraternização de Natal no Convento Santíssima Trindade. Irmãs e colaboradores (as) refletiram sobre o sentido do Natal, partilharam a refeição e se divertiram com bingo e brincadeiras. Reflexão sobre o sentido da celebração do Natal Irmãs e colaboradores (as) partilham a refeição Alegria e descontração durante bingo e sorteios
Família: a instituição por excelência

Quem nunca pediu algum tipo de ajuda a um parente? Todo brasileiro sabe que, nas horas mais difíceis, a família sempre dá aquele famoso jeitinho. Não nos referimos aqui apenas às famílias nucleares, obviamente, mas também às que não seguem o modelo tradicional. De acordo com as pesquisadoras Clarice Peixoto e Gleice M. Luz (professora e doutoranda da UERJ, respectivamente), a família desempenha um papel muito importante no Brasil, uma vez que as políticas sociais de apoio não são universais e as existentes são bastante precárias. Situações como o desemprego, salários baixos, divórcio, viuvez, aposentadoria reduzida e renda baixa são comuns em nosso país e são fatores que afetam todo o grupo familiar. Por essa razão, tem aumentado a prática de coabitação, na qual, normalmente, pais passam a morar com filhos ou filhos retornam à casa paterna. A coabitação é um sinal claro da solidariedade familiar, tão típica no caso brasileiro. Nas famílias em que diferentes gerações passam a dividir o mesmo teto, são feitos rearranjos para possibilitar a convivência: há partilha do espaço físico, compartilhamento da renda, cuidado das crianças, ajuda mútua nos trabalhos domésticos, transporte comum, entre tantos outros ajustes. No entanto a coabitação também afeta os papéis familiares, cria tensões e gera certa sobrecarga para alguns membros da família. Como menciona Peixoto e Luz, é comum que as mulheres, especialmente as idosas, encarreguem-se de cuidar dos membros dependentes: crianças, velhos e doentes. Outra realidade que vem se tornando mais recorrente é a de aposentados continuarem trabalhando para ajudar os filhos que passam por dificuldades financeiras. Apesar disso, devido à ausência do Estado, como apontamos no início deste pequeno artigo, a família tem sido a grande instituição que possibilita a vida cotidiana de milhares de brasileiros. E, sem essa atitude de reciprocidade e solidariedade entre os parentes, a subsistência seria, em muitos casos, impossível. Isso revela uma riqueza própria do nosso povo, mas também mostra a omissão do Estado, que deveria garantir o bem-estar da sociedade. Irmã Stela Martins, SSpS – Graduanda em Ciências Sociais (PUC Rio) e Diretora Presidente da Redes – Rede de Solidariedade
A promessa se cumpriu (Lc 2,1-14)

O Messias, há tanto tempo prometido ao povo de Israel, chegou da forma mais surpreendente. Ele não veio como um guerreiro investido de poder, mas se fez presente na fragilidade de um recém-nascido. Ninguém esperava que o Salvador viesse dessa maneira. Os elementos sublinhados nas narrativas do nascimento do Messias têm forte sentido teológico, por exemplo, a cidade de Belém, a manjedoura e os pastores. E devem ser lidos à luz da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Nesse marco é compreensível que o evangelista Lucas, na sua narrativa do nascimento de Jesus, cite várias vezes Belém. Pois Belém era a cidade de Davi, o povo judeu esperara, entre tantas provações, a vinda de um novo Messias, descendente de Davi. O nascimento do Salvador se desencadeia justo aí, na periferia, no ambiente dos pobres, pleno das esperanças do AT (cf. Lc 1-2). Não é por acaso que o Papa Francisco tem insistido muito para que saiamos às periferias territoriais e existenciais. Isso não significa que Deus limite sua ação, mas ele tem especial preferência com os que mais sofrem sob o jugo da opressão e vem em seu auxílio. Mas Deus também conta conosco. Outro dado interessante é que não havia lugar para José e Maria nas hospedarias, sendo que Maria, em seu estado avançado de gravidez, deveria ter sido acolhida em alguma casa. O fato de o evangelista sublinhar que não tinham lugar para eles pode estar entrevendo já a sombra da cruz. Logo, a imagem da manjedoura vem reforçar a acolhida ou rejeição que Jesus teria por parte das pessoas. Em um mundo onde se busca todo tipo de honras, fama e domínio de outros seres humanos e da natureza, é quase inaceitável pensar em Deus despido do poder. Por isso se torna compreensível que nem todos acolham o Messias, Menino, nascido pobre. Pois vê-lo deitado numa manjedoura necessariamente contradiz as nossas expectativas de poder, fama e domínio. Diante desse Messias, é preciso muita humildade e sinceridade para contemplar sua presença misteriosa e salvadora. O Anjo disse aos pastores: “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria que o será para todo o povo. Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2,10-11). Os pastores ficaram maravilhados, surpresos e até assombrados. As palavras do Anjo os comovem profundamente, pois ele lhes anuncia a Boa Notícia, da tão esperada chegada do Messias Salvador. Como os pastores, abramos nosso coração à Boa Notícia e deixemos que Deus, na pessoa de seu Filho Jesus, sacie nossos anseios mais profundos e nos humanize! Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e, atualmente, além de animadora vocacional, acompanha as jovens aspirantes na Comunidade Madre Josefa, em Belo Horizonte-MG.
Ir. Nelly recebe homenagem

No dia 11 de novembro de 2018, Ir. Nelly Boonen recebeu uma Homenagem do Núcleo de Justiça Restaurativa da Prefeitura de São Vicente-SP, ao lado da Kay Pranis, Minnesota, EUA. Desde 2010, Kay vem anualmente para o Brasil para dar formações de Justiça Restaurativa. Ir. Nelly partilha o discurso que fez na ocasião, em que conta parte de sua história e de sua luta pela superação das consequências da violência e pela implantação da justiça restaurativa. “Entre matar ou morrer, prefiro morrer.” Agradeço por reconhecerem o valor dos processos formativos que oferecemos. Estendo essa homenagem ao Centro de Direitos Humanos e Educação Popular de Campo Limpo (CDHEP) no qual estamos empenhados para transformar os princípios de Justiça Restaurativa em ações. Ações na vida privada e na vida púbica, ações que fortaleçam relações comunitárias justas e que instaurem direitos. O que fazemos no CDHEP, obviamente, não está desconectado daquilo que sou, de onde venho. Vou voltar um pouco na minha história, como filha de imigrantes holandeses que foram para Luxemburgo. Eram agricultores sem-terra, pobres, com 6 filhos. Sessenta anos atrás, meus pais faziam parte de um movimento de agricultores, que não eram proprietários de terra. E não eram da esquerda, simplesmente lutavam pela sobrevivência. Conheço a vergonha de, a cada ano, ter que entregar um tipo de atestado de pobreza na escola. Conheço a raiva de ser tratada como diferente, como imigrante, cidadã de segunda categoria, excluída de possibilidades que os iguais tinham. Ao mesmo tempo, ficava tentando entender, ainda criança, os porquês dessa diferença, pois me achava tão igual a todos os outros. Com 18 anos fazia parte de um grupo de jovens cristãos politizados. Participava de demonstrações contra a corrida armamentista entre União Soviética e Estados Unidos, contra as armas nucleares, contra a obrigatoriedade do serviço militar. Um dia fomos visitar o cemitério de soldados americanos. Lá estão fincadas mais de 5.000 cruzes. Cinco mil vidas ceifadas pela guerra. Eu fiquei muito abalada diante desse cenário forte. Um pouco depois, cruzamos a rua. Fomos ao cemitério dos soldados alemães. São quase 11.000 túmulos de jovens, alguns com apenas 16 anos. Percebi-me invadida por um desespero interior. A nitidez da violência, da inutilidade da guerra, das oposições levadas às últimas consequências, da espiral da violência ascendente… Naquele lugar, fiz uma promessa interior: “Entre matar ou morrer, prefiro morrer. E que Deus me dê a força para deixar que isso aconteça.” Décadas depois, essa promessa ou esse dilema volta a ser atual. Não que eu queira morrer. Mas, a partir dos valores da Justiça Restaurativa, entendo que esse “morrer” tem a ver com acolher a própria vulnerabilidade e imperfeição. Tem a ver com o estar em contato com a própria violência, para não ter que “matar o outro”, por medo de sua violência. Ao longo dos anos, fui aprendendo uma possibilidade de resistir, a partir de minha vulnerabilidade e de minha capacidade de ser violenta. Fui compreendendo: é exatamente, minha vulnerabilidade que me capacita para me conectar com a vulnerabilidade, a insuficiência, a imperfeição, a violência do outro. Portanto, reconhecendo minha própria violência e imperfeição, não preciso matar o outro pela sua imperfeição. Essa escolha, ou rota, pede um esforço diário de transformação. Diariamente, eu tenho que tomar decisões para não entrar na espiral da violência, ou para sair dela. Às vezes, continuo, conscientemente ou inconscientemente, a reprodução da violência. A liberdade que vem do perdão Contudo, quando sou capaz de reconhecer esses movimentos do cérebro reptiliano, que só sabe atacar, fugir ou fingir, me resta uma saída: Posso me perdoar, posso presentear-me com o dom do perdão, com o perdão a mim mesma. Imaginem, vocês, como ficaria minha vida se não conseguisse perdoar-me uma falha, um gesto, uma traição, um erro, uma violência. Minha vida seria uma prisão. “Se não fôssemos perdoados, eximidos das consequências daquilo que fizemos, a nossa capacidade de agir ficaria limitada a um único ato do qual jamais nos recuperaríamos; seríamos para sempre as vítimas das consequências desse ato” (Hannah Arendt). É evidente que eu preciso perdoar-me, e ciente de vulnerabilidade, eu sou convidada a perdoar outros. Assim procuramos juntos uma forma de cuidar da dor, do dano que minha falta provocou na relação com o outro e na convivência em sociedade. Agora, imaginem, vocês, o que significa essa prisão interior para as mais de 730 mil pessoas iguais a mim, que estão nos presídios. Muitos deles estão lá sem condenação; outros estão lá condenados por um só ato. Faz seis anos que, algumas duplas treinadas pelo CDHEP, estão trabalhando em diversos presídios em diferentes cidades do Brasil. Dão formação em Fundamentos de Justiça Restaurativa, incorporando oficinas ESPERE da Fundación para la Reconciliación da Colômbia. Esse trabalho me confirma a importância do perdão – e do autoperdão – que significa aprender a aceitar a própria vulnerabilidade, que nos faz também escolher respostas equivocadas. Nesse momento, o perdão é a possibilidade de libertar-me do passado: tratando-se de minhas próprias ações e das ações que outros atribuíram a mim. Desarmar o coração e a sociedade Portanto, o perdão é uma possibilidade de desarmar o coração e desarmar a sociedade. Nesse sentido, aproveito para parabenizar a Câmara de Vereadores de São Vicente que incluiu como Princípios da Justiça Restaurativa a interdependência, o perdão como manifestação – e perdão como necessidade; digo eu, exatamente pela interdependência… Para continuar vivendo em comunidade, em sociedade, precisamos nos perdoar mutuamente, nos libertar do peso de atos passados que pesam sobre nós. Parabenizo ainda a Câmara de Vereadores por incluir nos Princípios da Justiça Restaurativa, a abolição de medida meramente punitivas e penalizantes. É um princípio ousado, corajoso, nestes tempos, quando muitas vozes bradam por armas, diminuição de maioridade penal e aumento de penas. Somente estando em paz com minha vulnerabilidade, estarei disponível para acolher a vulnerabilidade do outro. Somente acolhendo minha dor, poderei acolher a dor do outro, sem ter que matá-lo. Mas, morrendo cada dia um pouco à minha onipotência e minha violência. Ir. Petronella Maria Boonen (Nelly) é co-fundadora da
A genealogia de Jesus Cristo, Filho de Deus (Mt 1,1-18)

O Messias da justiça e da misericórdia vem derrubar padrões de exclusão e de injustiça. Ele também nos apresenta um caminho novo, em que a prática do amor e da misericórdia aproxima o reinado de Deus. Na introdução ao Evangelho, a genealogia (Mt 1,1-17) apresenta nomes concretos de cinco mulheres. Por meio dessas pessoas, o autor nos conduz à origem, identidade e missão do Messias dos excluídos.Mas quem são essas mulheres que aparecem junto com Maria na genealogia? Será que estão aí por acaso ou propositalmente? Busquemos as possíveis respostas no mesmo texto: “Genealogia de Jesus – Livro da origem de Jesus Cristo filho de Davi filho de Abraão” (versículo 1). A seguir, os versículos 2 a 16 apresentam uma lista de 42 nomes, dentre os quais 5 são de mulheres, algo incomum na cultura dos antigos judeus. Por isso os versículos 3, 5 e 6 são uma importante chave de leitura do texto. É neles que se estabelece uma relação de sentido. Pois, no meio de destacadas figuras de patriarcas, reis e sacerdotes do povo de Israel, o evangelista insere os nomes de mulheres estrangeiras. Assim, temos Jesus inscrito numa genealogia abrangente de distintos varões da história de Israel (Abraão, Isaac, Jacó, Davi…), reafirmando com isso sua origem judaica, sua identidade e missão. E, ao mesmo tempo, entre essas personalidades destacadas, citam-se mulheres pouco conhecidas que, aliás, fizeram parte dos grupos mais marginalizados (Tamar, Raab, Rute, a mulher de Urias). Nesse sentido, podemos concluir que seus nomes não estão por acaso no texto; pelo contrário, essas mulheres aparecem com o sentido expresso de apontar a Jesus como o Messias da justiça e da misericórdia, o Messias dos excluídos. Outro detalhe interessante nessa genealogia é o destacado nome de Maria. A mulher era considerada secundária na dinâmica de gerar a vida. A citação do nome de Maria em consonância com o verbo gerar (Maria é quem gera a vida e José é o esposo) rompe com aquela estrutura patriarcal (androcêntrica). Nessa genealogia, Maria se torna sujeito, serva do Senhor, e não mais servidora submissa de um sistema injusto. Numa sociedade que marginaliza e exclui até em nome de Deus, o texto da genealogia de Jesus Cristo é convite ousado contra o sistema inumano. É urgente que, com Tamar, Raab, Rute, a mulher de Urias e Maria, recuperemos nossa origem e identidade em Jesus, para abrirmos espaços de justiça, igualdade, amor e misericórdia. Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e, atualmente, além de animadora vocacional, acompanha as jovens aspirantes na Comunidade Madre Josefa, em Belo Horizonte-MG.
CIM comemora 3 anos de acolhida aos migrantes

O Centro de Integração do Migrante (CIM) festejou três anos de serviços. Houve uma grande festa e a entrega de diplomas aos 78 alunos que concluíram os cursos de Informática, Língua Portuguesa, Língua Inglesa e Culinária. A confraternização, realizada no dia 16, reuniu alunos, professores, voluntários e amigos, além das missionárias servas do Espírito Santo que levam adiante o trabalho do CIM, no bairro do Brás, em São Paulo. Neste artigo, Thales Speroni nos ajuda a refletir o que é ser migrante e o que temos em comum com todos os que estão longe de casa e do país. Vale a pena ler! Somos todos migrantes Para comemorar estes três anos do CIM, lugar de refúgio e amor, eu queria lembrar uma frase que se escuta frequentemente: “Todos somos migrantes”. Cabe perguntar: o que isso significa? Não seria eu, nascido neste país, no território deste Estado, um nacional, um local? Alguém poderia dizer: você é migrante porque algum parente seu veio de outro país. Mas isso basta? Pois bem, eu queria dizer que todos somos migrantes, e isso inclui todos mesmo, porque o mundo é um lugar estranho, um lugar de risco, de perigos, de maldade. Todos somos estrangeiros, porque o que temos dentro (a possibilidade de cuidar, de proteger e de fazer o bem) não é deste mundo: é de fora e de dentro, do que foi e do que pode ser. O que temos dentro nos faz migrantes, pois nos faz iguais ao sermos estranhos a um mundo em que a vitória da justiça não é garantida. O que temos dentro é estranho, não porque é raro, mas porque não é algo que existe de forma automática. O mundo não é um lugar que incentiva o cuidado do próximo, pelo contrário. O trabalho (ou a falta dele), as fronteiras, os preconceitos nos dividem e nos fazem sentir excluídos. Nós nos esquecemos de que, ao fim e ao cabo, somos todos estrangeiros, pois carregamos com a gente um mundo que ainda não existe, mas que pode existir. Basta acreditar e lutar para isso. Admitir que somos migrantes significa negar as falsas divisões entre as pessoas e assumir o compromisso, rotineiro, diário e permanente, de ajudar, apoiar e cuidar do outro, seja quem ele for, venha de onde ele vier. Ser migrante não se trata de uma bandeira, de um país, de um passaporte. Trata-se de fazer desse lugar, que pode ser qualquer lugar, o nosso. As fronteiras entre os países, mas também entre os credos, as cores de pele, os gêneros, que não foram colocadas por nós, dificultam essa tarefa. Faz a gente facilmente esquecer que, ao sermos todos migrantes, não existe “eles” e “nós”. O Centro de Integração do Migrante é um lugar de acolhida e hospitalidade, de segurança e de troca, um lugar também de aprendizado e amor. Um convite permanente para que entrem todos os migrantes (ou seja, todos nós). O centro leva a sério a mensagem de que somos todos migrantes, porque ele é um lugar em que o “nós” está acima do “eu”, um lugar em que a ajuda ao outro é sempre uma ajuda a si mesmo, porque como migrantes que somos, “o outro sou eu e eu sou o outro”. O centro representa um compromisso de vida, das irmãs, dos voluntários e dos colaboradores, mas também daqueles que passaram por aqui. Representa um compromisso que fica marcado na pele, de multiplicar, de fazer o cuidado recebido chegar àqueles que ainda não o recebem. No ano em que eu estive perto do Centro, eu me senti marcado por esse significado e, mesmo não estando mais por perto, eu sempre vou levar comigo esse compromisso e essa mensagem. Thales Speroni, doutorando em Sociologia, é do Rio Grande do Sul e trabalhou durante três meses como voluntário no Centro de Integração dos Migrantes. _____________________________________________________________________________________________ Principais momentos da confraternização do CIM