Bispos se manifestam diante da crise atual

No último dia 26 de julho, foi divulgada a “Carta ao Povo de Deus”, assinada por 152 bispos da Igreja Católica no Brasil. Enfatizando a missão evangelizadora da Igreja e com um tom altamente profético, os bispos deixam claro o posicionamento deles diante da atual conjuntura brasileira. Leia a íntegra da carta a seguir. CARTA AO POVO DE DEUS “Somos bispos da Igreja Católica, de várias regiões do Brasil, em profunda comunhão com o Papa Francisco e seu magistério e em comunhão plena com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que no exercício de sua missão evangelizadora, sempre se coloca na defesa dos pequeninos, da justiça e da paz. Escrevemos esta Carta ao Povo de Deus, interpelados pela gravidade do momento em que vivemos, sensíveis ao Evangelho e à Doutrina Social da Igreja, como um serviço a todos os que desejam ver superada esta fase de tantas incertezas e tanto sofrimento do povo. Evangelizar é a missão própria da Igreja, herdada de Jesus. Ela tem consciência de que ‘evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no mundo’ (Alegria do Evangelho, 176). Temos clareza de que ‘a proposta do Evangelho não consiste só numa relação pessoal com Deus. A nossa resposta de amor não deveria ser entendida como uma mera soma de pequenos gestos pessoais a favor de alguns indivíduos necessitados […], uma série de ações destinadas apenas a tranquilizar a própria consciência. A proposta é o Reino de Deus […] (Lc 4,43 e Mt 6,33)’ (Alegria do Evangelho, 180). Nasce daí a compreensão de que o Reino de Deus é dom, compromisso e meta. É neste horizonte que nos posicionamos frente à realidade atual do Brasil. Não temos interesses político-partidários, econômicos, ideológicos ou de qualquer outra natureza. Nosso único interesse é o Reino de Deus, presente em nossa história, na medida em que avançamos na construção de uma sociedade estruturalmente justa, fraterna e solidária, como uma civilização do amor. O Brasil atravessa um dos períodos mais difíceis de sua história, comparado a uma ‘tempestade perfeita’ que, dolorosamente, precisa ser atravessada. A causa dessa tempestade é a combinação de uma crise de saúde sem precedentes, com um avassalador colapso da economia e com a tensão que se abate sobre os fundamentos da República, provocada em grande medida pelo Presidente da República e outros setores da sociedade, resultando numa profunda crise política e de governança. Este cenário de perigosos impasses, que colocam nosso país à prova, exige de suas instituições, líderes e organizações civis muito mais diálogo do que discursos ideológicos fechados. Somos convocados a apresentar propostas e pactos objetivos, com vistas à superação dos grandes desafios, em favor da vida, principalmente dos segmentos mais vulneráveis e excluídos, nesta sociedade estruturalmente desigual, injusta e violenta. Essa realidade não comporta indiferença. É dever de quem se coloca na defesa da vida posicionar-se, claramente, em relação a esse cenário. As escolhas políticas que nos trouxeram até aqui e a narrativa que propõe a complacência frente aos desmandos do Governo Federal não justificam a inércia e a omissão no combate às mazelas que se abateram sobre o povo brasileiro. Mazelas que se abatem também sobre a Casa Comum, ameaçada constantemente pela ação inescrupulosa de madeireiros, garimpeiros, mineradores, latifundiários e outros defensores de um desenvolvimento que despreza os direitos humanos e os da mãe terra. ‘Não podemos pretender ser saudáveis num mundo que está doente. As feridas causadas à nossa mãe terra sangram também a nós’ (Papa Francisco, Carta ao Presidente da Colômbia por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente, 05/06/2020). Todos, pessoas e instituições, seremos julgados pelas ações ou omissões neste momento tão grave e desafiador. Assistimos, sistematicamente, a discursos anticientíficos, que tentam naturalizar ou normalizar o flagelo dos milhares de mortes pela covid-19, tratando-o como fruto do acaso ou do castigo divino, o caos socioeconômico que se avizinha, com o desemprego e a carestia que são projetados para os próximos meses, e os conchavos políticos que visam à manutenção do poder a qualquer preço. Esse discurso não se baseia nos princípios éticos e morais, tampouco suporta ser confrontado com a Tradição e a Doutrina Social da Igreja, no seguimento Àquele que veio ‘para que todos tenham vida e a tenham em abundância’ (Jo 10,10). Analisando o cenário político, sem paixões, percebemos claramente a incapacidade e inabilidade do Governo Federal em enfrentar essas crises. As reformas trabalhista e previdenciária, tidas como para melhorarem a vida dos mais pobres, mostraram-se como armadilhas que precarizaram ainda mais a vida do povo. É verdade que o Brasil necessita de medidas e reformas sérias, mas não como as que foram feitas, cujos resultados pioraram a vida dos pobres, desprotegeram vulneráveis, liberaram o uso de agrotóxicos antes proibidos, afrouxaram o controle de desmatamentos e, por isso, não favoreceram o bem comum e a paz social. É insustentável uma economia que insiste no neoliberalismo, que privilegia o monopólio de pequenos grupos poderosos em detrimento da grande maioria da população. O sistema do atual governo não coloca no centro a pessoa humana e o bem de todos, mas a defesa intransigente dos interesses de uma ‘economia que mata’ (Alegria do Evangelho, 53), centrada no mercado e no lucro a qualquer preço. Convivemos, assim, com a incapacidade e a incompetência do Governo Federal para coordenar suas ações, agravadas pelo fato de ele se colocar contra a ciência, contra estados e municípios, contra poderes da República; por se aproximar do totalitarismo e utilizar de expedientes condenáveis, como o apoio e o estímulo a atos contra a democracia, a flexibilização das leis de trânsito e do uso de armas de fogo pela população, e das leis do trânsito e o recurso à prática de suspeitas ações de comunicação, como as notícias falsas, que mobilizam uma massa de seguidores radicais. O desprezo pela educação, cultura, saúde e pela diplomacia também nos estarrece. Esse desprezo é visível nas demonstrações de raiva pela educação pública; no apelo a ideias obscurantistas; na escolha da educação como inimiga; nos sucessivos e grosseiros erros na escolha dos

18º Domingo do Tempo Comum

“Dai-lhes vós mesmos de comer”Mt 14,13-21 O Evangelho de hoje vem logo após a história da morte de João Batista, ligada à festa de aniversário do tetrarca Herodes Antipas. Mateus contrasta o “banquete da morte”, promovido por Herodes, com o “banquete da vida”, protagonizado por Jesus. O milagre, normalmente chamado “A Multiplicação dos Pães”, é o único milagre de Jesus relatado em todos os quatro evangelhos. Isso aponta para a importância dada nas primeiras comunidades a esse relato, tanto que sua memória persistiu não somente nas comunidades da tradição sinótica (Marcos, Mateus e Lucas), mas também na comunidade do Discípulo Amado. Mesmo fazendo uma leitura superficial dos quatro relatos (Mc 6,30-44; Lc 9,10-17; Mt 14,13-21; Jo 6,1-15), alguns elementos importantes soltam aos olhos: a reação dos discípulos diante do problema da fome da multidão. Nos sinóticos, a solução sugerida por eles foi a de despedir a turba, para que pudesse comprar pão. Assim, ignoraram a situação dos que não tinham possibilidade de comprar. É a solução de muita gente hoje, diante do escândalo da pobreza no mundo: que se virem! Cada um para si! Quem não tem condições que se lasque! Jesus rejeita claramente essa “solução”: “Dai-lhes vós mesmos de comer!”. Em João, Marcos e Lucas, a proposta de comprar pão para doá-lo também se revela uma solução inadequada. Jesus insiste “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Ele não aceita nem a solução de “lavar as mãos” diante da fome alheia ou de cair em um assistencialismo. Ele desafia a comunidade dos discípulos a achar uma saída baseada numa nova proposta de vida, a da partilha. Em nenhum dos quatro relatos se usa o verbo “multiplicar”. O motivo é simples. Se a ênfase caísse sobre o “multiplicar” milagroso, teria poucas consequências para os discípulos (nós, hoje), pois não temos possibilidade de “multiplicar” as coisas. Os verbos são bem escolhidos: “benzer, partir, dar, distribuir”, porque todos nós podemos partilhar os bens materiais e espirituais que temos.O Brasil não precisa “multiplicar” terras, bens ou renda. Tem mais do que o suficiente. Mas é urgente partilhar e redistribuir os bens que Deus nos deu para o sustento de todos. Menos do que João, mas muito mais do que Lucas e Marcos, Mateus liga a sua narrativa à instituição eucarística (Mt 26,26). Também concentra a atenção nos pães, pois, nesse relato, somente eles são distribuídos. Assim, o texto nos lembra que a participação eucarística exige compromisso com uma visão social baseada na partilha dos bens necessários para a vida e não na acumulação da parte de alguns, junto com a falta do básico para muitos. O cristão não pode compactuar com uma sociedade organizada conforme os princípios de Herodes, mas deve lutar para a construção de uma sociedade em favor da vida, seguindo as pegadas de Jesus de Nazaré. O texto de hoje relê Êxodo 16 (sobre o maná), Números 11 (as codornas) e 2Rs 4,1-7.42-44 (em que Eliseu distribuiu óleo e pão). O texto de Êxodo 16 enfatiza que a avareza de acumular coisas às custas dos outros leva à podridão. É claro que, diante do enorme sofrimento da maioria da população do mundo, a gente pode sentir-se tão impotente como se sentiram os discípulos no Evangelho de hoje. Mas o texto nos ensina que não devemos cair na cilada de aceitar as saídas falsas propostas pela sociedade vigente e hegemônica: ou de “lavar as mãos” ou de cair somente num simples assistencialismo. O cristão, sustentado pela Eucaristia, a Mesa da Palavra e a Mesa do Pão, deve se comprometer com uma visão cristã da sociedade, que exige que nós façamos o que é possível para a construção de um mundo de justiça e fraternidade. Há dois mil anos, Jesus olhou a multidão, teve compaixão dela e agiu. Com certeza, Ele olha hoje a situação de tantos irmãos e irmãs, e pede que seus seguidores façam algo para mudar a situação. É comum os jornais trazerem notícias do aumento assustador da fome no mundo, por causa da crescente falta de alimentos e do aumento dos preços de alimentos básicos. Paira sobre nós, cristãos, o desafio do texto de hoje: “Dai-lhes vós mesmo de comer!”. O que significa isso na prática para mim, para você, para as nossas Igrejas, na situação concreta da nossa vida? Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Pássaros voam em direção à luz

Estava com um grupo de jovens em um retiro. Fomos ver o nascer do sol! Celebrar a luz! Enquanto o sol não despertava, ainda havia noite. Aos poucos, os albores matinais foram invadindo tudo. Os pássaros começaram a acordar, e os maiores, ainda em silêncio, começavam a sair de seus dormitórios e voavam ao encontro da luz. Todos eles alçavam voo. Voavam em direção à claridade que vinha chegando do Sol, surgindo lá longe, no horizonte. O Sol ainda não tinha tomado conta de tudo, mas bastou começar a mostrar um novo dia, e os pássaros saíram em pequenos grupos, em grupos maiores, voando para mais perto dele. Era curioso: todos pareciam ir ao encontro da luz! Não sei se isso é instintivo dos pássaros. Eles devem ter uma razão que desconheço. Talvez os ornitólogos saibam. Contudo percebo que, assim como ocorre ao amanhecer, também se dá ao cair da tarde. Os pássaros voltam, ou melhor, voam em direção ao Sol novamente. São livres porque vivem segundo os ciclos da natureza, da vida. Para cada dia, basta o que o dia oferece, sem ganância, sem sofreguidão. Todos sabem que, após uma noite, outra alvorada vem. Poderão voar de novo em direção à luz. Esse vaivém dos pássaros suscitou-me algumas perguntas. Será isto um desejo inato dos seres vivos, desejarem a luz? Ela tem a ver com a vida? Quando se nasce, se diz que a “mãe deu à luz um filho” e se celebra um nascimento. Então é bem provável, porque, sem luz, ficamos às escuras, sem rumo e sem norte. E aí podemos ficar rodopiando como peão do jogo das crianças: roda, roda até cansar e aí se deita, e não sai do lugar. Viver a vida sem sair do lugar é ficar tonto e não perceber os horizontes que se abrem a cada manhã. É ficar parado, esperando o dia passar e não ir ao encontro da luz. Pássaro que é pássaro sabe que a vida está perto da luz, lá é onde ele encontra comida mais fácil, sente-se mais protegido, pode ficar alerta diante de algum perigo. É a partir dela que ele sabe quando o dia começa e quando termina. Sabe a hora de sair e a hora de voltar. Nós, humanos, nem sempre observamos isso. Aliás, no mundo de hoje, as pessoas andam meio atrapalhadas. Há uma inversão de sentido das coisas. Estamos perdendo muito daquilo que a vida sempre nos ensinou: que ela somente tem sentido se for em direção à Luz. Mas hoje parece que vivemos numa escuridão, e o medo toma conta de nós. Veja-se em São Paulo, Rio de Janeiro, por exemplo. A violência está assustando todo mundo, o medo começa a governar a vida, já não se pode sair com liberdade de ir e vir, porque, em qualquer esquina, pode haver alguém com segundas intenções, querendo assaltar, roubar, sequestrar. Veja-se também o que se faz com a natureza. Destroem-se as árvores, envenenam-se os rios, polui-se o ar, invadem-se os espaços livres. Muitos já entram em desespero, a depressão é um dos sinais. Como sair dessa? Onde está a solução? Certamente a resposta é difícil e complexa. Mas tudo não poderia se resumir nisto: é porque não sabemos mais observar os pássaros? Todos os dias, eles nos dizem: “A vida está onde há luz”. É para lá que precisamos ir. Aliás, alguém já nos disse isso há dois mil anos, “Eu sou a luz do mundo, quem anda por mim não fica nas trevas”. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

Rede um Grito pela Vida: “Enfrentar o tráfico de pessoas é nosso compromisso”

A “Rede um Grito pela Vida” é um espaço de articulação, ação profética e solidária da vida religiosa consagrada do Brasil. É uma rede intercongregacional de enfrentamento ao tráfico de pessoas e suas consequências que, sem dúvida, são desastrosas e impedem a vida e a dignidade de milhares de pessoas no mundo todo, especialmente no Brasil. Nosso país já está entre os que mais praticam esse “crime vergonhoso” que deve ser combatido por todos, como nos alerta o Papa Francisco. O tráfico de seres humanos fatura, por ano, mais de 150 bilhões de dólares em todo o mundo. Depois do tráfico de drogas, é o mais rentável. Por isso o desafio é grande e nos pede uma destemida resposta profética e missionária. Tecendo e formando esta rede, somos aproximadamente 350 religiosas e religiosos de diversas regionais e congregações. Ultimamente vêm se somando conosco 90 leigas e leigos comprometidos com essa desafiante situação. Como parte constitutiva da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB Nacional), a Rede atua de forma descentralizada e articulada com as organizações e iniciativas afins, nas diversas localidades, Estados e Municípios. Integra a Talitha Kum – Rede Internacional da Vida Religiosa Consagrada. As religiosas e os religiosos que integram a Rede, bem como as leigas e os leigos, atuam voluntariamente nas diversas regiões do País. Os membros estão articulados em 29 núcleos e 5 regionais, integrados com as organizações eclesiais e civis, fomentando, promovendo e, ou, participando de atividades e processos de prevenção, assistência e intervenção política, buscando instruir e instrumentalizar a sociedade, a fim de impedir o avanço desse mal que vem crescendo a cada ano. A “Rede um Grito pela Vida” nos permite ampliar alianças intercongregacionais em prol da vida ameaçada e ferida das pessoas traficadas e violentadas em seus direitos. Possibilita-nos ensaiar passos de encarnação em novos espaços sociais, políticos e teológicos. Com o lema “Enfrentar o tráfico de pessoas é nosso compromisso”, procuramos desenvolver um conjunto de atividades de: • sensibilização e informação com grupos de jovens, adolescentes, priorizando os que se encontram em situação de vulnerabilidade, lideranças comunitárias, agentes de pastoral e outros; • organização de grupos de reflexão e estudo, debates, aprofundando as causas e situações que o favorecem como questões de gênero, violência, modelo de desenvolvimento, grandes construções e projetos, grandes eventos, hedonismo midiático, desemprego, corrupção, impunidade e outros; • capacitação de multiplicadores e multiplicadoras, visando a ampliar a ação de enfrentamento ao tráfico de pessoas, principalmente para fins de exploração sexual; • participação e mobilização social e política de incidência na definição e efetivação de políticas públicas de prevenção e enfrentamento ao tráfico de pessoas. Sobre um pouco de nossa atuação como núcleo da “Rede um Grito pela Vida” na desafiante realidade de São Paulo, posso dizer que somos “uma gotinha no oceano”, mas, como diz a irmã Maria Inês, presidente e animadora da vida religiosa nacional, sem essa gotinha, a vida estaria mais ameaçada. Realizamos atividades de conscientização e prevenção em nossas realidades de missão: escolas, centros de acolhidas, grupos de reflexões nas paróquias, também a formação de professores e educadores, para que sejam multiplicadores de uma proposta educativa de prevenção e encaminhamentos de possíveis situações de vulnerabilidade em que muitas crianças se encontram, inclusive sofrendo abusos dentro de suas próprias casas. Para alimentar a mística da solidariedade e do cuidado com a vida à luz da Palavra de Deus, elaboramos celebrações mensais, enviando às comunidades para que, fortalecidas, fortalecidos pela oração, possamos ampliar nosso olhar confiante da presença de Deus em nossa missão, como nos confirma Êxodo (3,7-8); é o próprio Deus criador e defensor da vida que nos diz: “Estou vendo muito bem a aflição de meu povo… Ouvi seu clamor… Tomei conhecimento de seus sofrimentos… Desci para libertá-lo…”. Com certeza, o Senhor conta conosco, consagradas e consagrados, cristãos leigos e leigas, para combater essa chaga terrível do abuso e tráfico de seres humanos em nossa realidade concreta. O Papa Francisco, sem dúvida, é nosso grande aliado. Ele nos motiva incansavelmente a continuarmos com nosso compromisso. Incentiva todos os institutos de vida consagrada a apoiarem o compromisso de suas religiosas e seus religiosos na luta e prevenção desses males que não param de crescer. Concluo este artigo fazendo eco às palavras do Papa no Seminário da Rede, em Roma, em 2019. Numa mensagem às Congregações, ele diz: “Temos tantos problemas para resolver dentro, não podemos… Diga-lhes que o Papa disse que os problemas ‘internos’ são resolvidos saindo para a rua. Que entre ar fresco”. Irmã Cirley Covatti, religiosa da Congregação de Jesus, CJ, coordenadora do Centro de Espiritualidade Mary Ward, em Itapecerica da Serra-SP; atual referencial da “Rede um Grito pela Vida”, pela Regional de São Paulo.

Novo espaço de espiritualidade na internet

Há mais de um ano, estamos trabalhando num projeto de evangelização que se tornou um sonho para nós… Um sonho porque, ao contrário do que imaginávamos inicialmente, surgiram muitos obstáculos no caminho… Mas agora temos a alegria de anunciar que estamos prestes a alcançar nossa meta e será um presente para você que acompanha nossas publicações. Imagine um espaço na internet para vivenciar a espiritualidade, acompanhar a liturgia diária, rezar, aprofundar a fé e até mesmo encontrar uma comunidade para rezar com você e por você… Gostou? Então imagine que você sinta vontade de conversar com alguém, esclarecer dúvidas, partilhar algo que está em seu coração ou simplesmente receber orientação em seu caminho espiritual… Pense que você está indo para o trabalho e, no caminho, ouve pelo celular a leitura orante do Evangelho do dia… Ou reza o terço junto com as missionárias servas do Espírito Santo. Você também encontrará orações variadas, o santo do dia, testemunhos missionários, reflexões e vídeos que ajudarão a aprofundar a fé e o compromisso com o Reino de Deus. Tudo isso estará disponível, em breve, em nossa Capela Missionária virtual. Uma capela real no mundo virtual A Capela será um espaço de oração e de espiritualidade acessível a todas as pessoas que desejarem, em meio à correria e desafios da vida cotidiana. Será uma oportunidade de dedicar alguns momentos do dia para crescer na relação com Deus e se conectar com a humanidade, num espírito missionário. Antes de iniciar o projeto, pesquisamos na Internet e não encontramos nenhuma capela virtual católica que tivesse uma identidade explicitamente missionária. Por isso temos a alegria de lançar a primeira e queremos contar com seu apoio para nos ajudar a torná-la um espaço de oração não apenas virtual, mas real, que possa acompanhar você em seu dia a dia. A Capela Missionária é uma iniciativa das missionárias servas do Espírito Santo do Brasil, que inclui duas sedes provinciais, uma em São Paulo-SP, no Convento Santíssima Trindade, e outra em Ponta Grossa-PR, no Convento Espírito Santo, além das quase 30 comunidades de irmãs espalhadas de norte a sul do Brasil, oito escolas, uma faculdade, cinco centros educacionais, um hospital, um centro de fisioterapia e diversas obras sociais. Seguindo as pegadas de Santo Arnaldo Para mim, é realmente uma alegria poder seguir as pegadas de nosso fundador, Santo Arnaldo Janssen, que, no século XIX, já utilizava o que havia de mais moderno em comunicação para a evangelização. Em seu tempo, existia apenas a imprensa e foi por meio dela que propagou a obra missionária de Steyl, através de revistas e almanaques que ofereciam formação religiosa, cultural e entretenimento às famílias. Tenho certeza de que, se Santo Arnaldo vivesse hoje, ele daria continuidade à obra missionária por intermédio das redes sociais, do rádio, da televisão e de todos os meios de comunicação disponíveis. Assim, o trabalho que fazemos por intermédio do blog, do Facebook, do site, do Twitter, Instagram e, em breve, também pela Capela Missionária está em profunda sintonia com nosso carisma missionário e contribui com o trabalho de evangelização da Igreja. Missão on-line Estamos trabalhando com muito carinho na Capela Missionária para, além de oferecer um espaço de oração e de vivência da espiritualidade, que ela seja também um ambiente de missão on-line. Por detrás da tecnologia, teremos quatro irmãs bem preparadas para interagir com as pessoas que frequentam o site da capela, oferecendo orientação espiritual. Também haverá duas orientadoras vocacionais à disposição. Além disso, todo pedido de oração será atendido pelas comunidades das irmãs dos nossos dois conventos, que rezarão nas intenções e necessidades encaminhadas pela Capela Missionária. Ofereceremos também a oportunidade para colaborar concretamente com a missão, por meio de nossas diversas obras sociais e missionárias. Muito em breve, será o lançamento da nossa Capela Missionária. Aguardem! Irmã Ana Elídia Caffer Neves, SSpSJornalista, membro da Equipe de Comunicação Congregacional e coordenadora de Comunicação da Província Stella Matutina (BRN)

17º Domingo Comum

“Vocês compreenderam tudo isso?”Mt 13,44-52 Hoje terminamos a leitura do capítulo 13 de Mateus, com as últimas três parábolas do Reino: a do tesouro escondido, a da pérola preciosa e a da rede lançada ao mar. Nas primeiras duas, podemos notar duas ênfases: uma sobre o grande valor do achado (simbolizando o Reino) e outra sobre a atitude de quem o acha. A parábola da rede no mar ecoa a mensagem da parábola do campo de trigo e joio, que fez parte do texto do domingo passado.| O contexto histórico do tesouro achado é o do Oriente Médio antigo, palco de tantas invasões e guerras. Era prática comum enterrar os valores diante da ameaça de uma invasão ou guerra. Só que, muitas vezes, o dono morria na violência, e o tesouro ficava escondido por muito tempo, até ser achado por acaso. Usando esse exemplo, Jesus nos ensina algo sobre o Reino e sobre a atitude do discípulo diante dele. O Reino de Deus é um valor tão incalculável que uma pessoa sensata daria tudo para possuí-lo. É importante notar que o texto enfatiza que, “cheio de alegria”, ele vende todos os seus bens para poder possuir o valor maior, que é o Reino. A vivência dos valores do Reino, do seguimento de Jesus, deve ser uma alegria e não um peso. Sem dúvida, é exigente, pois meias medidas não servem (ele vende tudo o que tem), mas o resultado é uma alegria enorme. Não a alegria superficial de um programa de Faustão ou Sílvio Santos, mas uma alegria que brota da profundeza de nosso ser, pois descobrimos a única coisa que não passa e que dá sentido a toda a nossa vida: o Reino de Deus. É pena que, com tanta frequência, conseguimos fazer do seguimento de Jesus um peso, uma chatice, um legalismo, que afasta de Deus em lugar de atrair para ele. É impressionante como se consegue fazer a Palavra de Deus algo tão chato e irrelevante! Mais uma vez, como na parábola do campo de trigo e joio, a última parábola ensina que o Reino, que subsiste na Igreja, congrega santos e pecadores (os bons e maus peixes). A separação final deve ser deixada para a justiça de Deus, enquanto, na vivência diária, devemos mostrar paciência e tolerância, mas sem indiferença ou comodismo. O último versículo talvez indique que o autor do Evangelho que denominamos Mateus era um escriba ou doutor da Lei, convertido ao discipulado de Jesus (é bom lembrar que os títulos tradicionais dados aos Evangelhos são somente atribuições. Nenhum evangelho identifica o seu autor, é e consenso entre os exegetas que o Evangelho de Mateus não tenha sido escrito pelo apóstolo daquele nome). Ele está bem enraizado nas “coisas antigas”, ou seja, no Antigo Testamento. Mas está aberto às coisas novas, ou seja, a nova interpretação da Lei que Jesus trouxe. Assim nos ensina algo valioso para o mundo de hoje, tão inconstante e sem raízes, de um lado, e com a tentação de fechamento no fundamentalismo e intolerância, do outro. Nem tudo o que é antigo é ultrapassado e nem tudo o que é novidade é bom. Igualmente, nem tudo que é antigo tem de ser preservado e nem toda a novidade deve ser rejeitada. É importante ter critérios, para que não percamos os valores, nem da sabedoria antiga, nem da busca de atualização para os dias de hoje. Quem tem ouvidos para ouvir ouça! Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

O idoso é fonte de inspiração e sabedoria

O Dia dos Avós foi criado em Portugal, graças à campanha de Dona Aninhas, uma avó de quatro netas e dois netos. Na década de 1980, ela acreditava que ninguém dava o valor merecido aos avós e decidiu se tornar uma missionária da causa. Para isso, visitou vários países, entre eles o Brasil, e sempre defendeu que ocorresse a comemoração do Dia dos Avós. A data escolhida, 26 de julho, tinha um forte motivo. É quando a Igreja Católica celebra São Joaquim e Santa Ana, pais de Maria e avós de Jesus. As figuras de Santa Ana e São Joaquim dizem muito sobre o papel fundamental dos avós na estruturação de uma família, seja qual for o problema ou a felicidade que partilham. Além disso, a figura dos avós revela aos jovens seu próprio futuro, isto é, dá-lhes a imagem do que um dia serão. Isso pode fazê-los refletir sobre suas ações ao longo de suas vidas. O idoso é fonte de inspiração e de sabedoria, e deve ser reconhecido como tal. O dia dedicado aos avós é uma oportunidade para reflexão sobre o futuro que nos aguarda e sobre os caminhos traçados. Comemorar o Dia dos Avós significa celebrar a experiência de vida, de trabalho, de honestidade, de fé, de firmeza, de amor e de reconhecer o valor da sabedoria adquirida no convívio com as pessoas e com a própria natureza. Ser avó e avô é sentir felicidade. É resumir nos netos seu mundo. Assim são os avós do Colégio Imaculado Coração de Maria, no Rio de Janeiro-RJ. Eles não se cansam de dar um amor doce e profundo, de estarem presentes no dia a dia de nossos alunos e voltando a experimentar a infância por meio deles, distribuindo esperança e revivendo todo o seu passado. Por isso o Colégio Imaculado Coração de Maria promove, com muito afeto, essa homenagem, e os alunos do integral, nas aulas de artesanato ou cozinha experimental, preparam a surpresa para essa figura tão amada no seio familiar. A cada ano, nós nos reinventamos para homenageá-los: um porta-chá, um pacote de biscoitos amanteigados feitos pelos netos, um livrinho compilado com várias receitas sugeridas pelas vovós… Enfim, adoçar e fazer com que nossos alunos percebam o valor de terem seus avós caminhando a seu lado. Desejamos a cada vovô e vovó o carinho de seus familiares e o amor espontâneo de seus netos, pois os avós são preciosidades. A eles nossos sinceros votos de felicidade. Avós e netos: a alegria de compartilhar Para ilustrar a relação de proximidade do Colégio Imaculado Coração de Maria, trazemos o vídeo da vovó Vilma Corrêa Zóchio, que partilha sua alegria de sentir-se parte da vida de seus netos e ser reconhecida pela escola. Cláudia Corrêa Zóchio, coordenadora do Integral do Colégio Imaculado Coração de Maria, Rio de Janeiro-RJ.

Navio-hospital Papa Francisco reforça combate à pandemia na Amazônia

Há um ano, o navio-hospital Papa Francisco vem percorrendo o rio Amazonas, levando assistência médica às populações ribeirinhas. O equipamento juntou-se agora ao combate ao novo coronavírus na região, segundo informações publicadas pelo Vatican News. A população da Pan-Amazônia vem sofrendo com a pandemia, que atinge tanto áreas urbanas como as mais isoladas. Os indígenas e ribeirinhos são considerados um grupo de alto risco, sobretudo por causa da baixa imunidade e o abandono histórico por parte do Estado. A embarcação, que começou a navegar em agosto de 2019, tem 32 metros de comprimento e conta com 23 profissionais de saúde. Entre os serviços oferecidos estão sala de operações, laboratório de análise, farmácia, sala de vacinação, consultórios médicos, oftalmológicos e odontológicos, além de leitos hospitalares e salas para exames de raios X, mamografia, ecocardiograma e testes de estresse. Um acordo entre o Vaticano e o Estado do Pará tornou possível a construção do navio-hospital. Para a realizar o projeto, o governo paraense destinou indenizações pagas pelas empresas Shell e Basf, após um acidente ambiental que causou 60 vítimas e sérios danos. “Não poderíamos ficar de fora desta luta. Nós nos unimos, nos reorganizamos em nossos serviços para que, juntos, lutemos contra o covid-19”, explicou o frei Joel Sousa, membro da coordenação do navio, numa entrevista ao Vatican News. Ele conta que os profissionais do navio estão atendendo principalmente as pessoas que apresentam sintomas de gripe ou sinais leves do covid-19. “Os doentes podem consultar com o médico e também entregamos os medicamentos, em colaboração com a Secretaria de Saúde local”, relatou o religioso. __________ Milhares de indígenas estão infectados Indígenas de vários países da América Latina estão entre os mais vulneráveis à pandemia. A doença causada pelo covid-19 está matando membros de diversas comunidades nativas. Além de terem defesas imunológicas precárias contra doenças, os indígenas também são vítimas de negligências por parte do Estado, conforme já denunciado neste blog. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), em meados de junho, pelo menos 20 mil indígenas estavam infectados na bacia do rio Amazonas. A área abrange Brasil, Peru, Colômbia, Bolívia, Equador, Venezuela, Guiana e Suriname. “Esses grupos vivem tanto em aldeias isoladas, com acesso mínimo a serviços de saúde, como em cidades densamente povoadas, como Manaus, Iquitos (Peru) e Letícia (Colômbia)”, disse a diretora da OPAS, Clarissa Etienne. No dia 13 de julho, a América Latina se tornou a segunda região mais atingida pela pandemia no mundo, em número de vítimas fatais. A área está atrás somente da Europa. O número de mortos já alcançou 150 mil e mais de 3,7 milhões de infectados. Os índices podem ser bem maiores, pois há relatos de subnotificação em diversos países, inclusive no Brasil.

O amigo fiel

Hoje, Dia do Amigo, padre Expedito Lopes de Castro, membro da Pastoral Missionária do Colégio Stella Matutina e pároco da comunidade Nossa Senhora de Fátima, na cidade de Juiz de Fora-MG, nos presenteia com uma linda mensagem sobre a amizade. Trata-se de uma oração intitulada “O amigo fiel”. Padre Expedito testemunha que “Deus é nosso amigo”. “Os amigos são uma grande influência na vida de cada pessoa” e “um bom amigo é uma bênção”, explica. Recordando o Livro do Eclesiástico (6,14), que diz “Amigo fiel é poderoso refúgio, quem o descobriu, descobriu um tesouro”, ele nos mostra, neste vídeo, o quanto a amizade de Deus nos dá força nos momentos difíceis de nossa vida. Quem não precisa de um amigo? Nestes tempos de distanciamento social, em que não podemos nos aproximar de tantas pessoas que amamos, que não podemos sentir o calor de seu abraço, a amizade é ainda mais crucial… Quem não precisa de um amigo, uma amiga para desafogar o que arde no coração ou pesa na alma? Quem não precisa de alguém para quem não é necessário se explicar, pois basta um olhar para se sentir acolhido, amado, compreendido? Quem não precisa de alguém com quem é possível se sentir sempre em casa? De alguém que não vai nos julgar ou condenar, nem mesmo quando erramos? Alguém que nos encoraja nas horas difíceis e nos ajuda a crescer quando “pisamos na bola”? Quem não precisa de alguém com quem sempre podemos contar? Que se alegra conosco quando estamos felizes e compartilha as lágrimas diante dos dramas da vida? Quem não precisa de alguém com quem podemos confiar sem medo e até mesmo dizer coisas que parecem sem sentido, mas que há momentos em que precisamos expressar, nem que for para colocar as ideias em ordem e entender o que se passa dentro de nós? Eu sei que você precisa e eu também preciso. Mas sei também que, por melhor que sejam nossos amigos e amigas, nenhum deles é perfeito. Um dia, não poderão atender a todas essas necessidades… Um dia, você ou eu também vamos falhar e decepcionar um amigo ou amiga… Ou, quem sabe, será você ou eu que se sentirá decepcionado ou magoado… O caminho da amizade, em certos momentos, tem desafios e é preciso encará-los. Às vezes, é preciso dar tempo ao tempo e permitir amadurecer dentro de nós o que impede viver a verdadeira amizade. Às vezes, é preciso esperar pelo tempo do outro, da outra. Não importa… A amizade também é feita de perdão. Mas seja quem for seu amigo ou sua amiga, por melhor que seja, jamais conseguirá satisfazer tudo o que está em seu coração. Porque somos humanos e limitados, mas nosso coração tem uma sede infinita…Então lembremos que temos um amigo com quem sempre podemos contar. Não importa o que aconteça em nossa vida, Ele estará sempre conosco, se o permitirmos. Ele não nos julga, não nos condena e sempre dá forças para recomeçarmos. Esse amigo é Jesus, e Ele nunca nos abandonará. Cultivemos nossas amizades, porque são verdadeiros tesouros! E reservemos tempo para nosso principal amigo, pois Ele vai nos ajudar a dar mais sabor à nossa vida e a encontrar o caminho da verdadeira amizade. Irmã Ana Elídia Caffer Neves, SSpSJornalista, membro da Equipe de Comunicação Congregacional, coordenadora de Comunicação da Província Stella Matutina (BRN) e terapeuta floral.

16º Domingo Comum

“Os justos brilharão como sol”Mt 13,24-43 Esse texto continua o capítulo 13 de Mateus, no qual se proclamam as parábolas do Reino. Hoje lemos três parábolas que comparam o Reino de Deus a um campo de trigo, um grão de mostarda e o fermento na massa, quando se faz pão. Termina com uma explicação alegórica do sentido da parábola do trigo e do joio. Podemos entender essas parábolas todas como uma mensagem de esperança para a comunidade pequena mateana (e para nós, hoje). Uma leitura atenta delas deve nos reanimar para nossa caminhada e luta em favor do Reino, sem desânimo nem desesperança. Isso fica patente nas pequenas parábolas do grão de mostrada e do fermento na massa. A semente de mostarda é minúscula, mas, quando brota, forma um arbusto viçoso. Quando se faz pão, não se usa mais do que uma pequena porção de fermento, mas é o suficiente para levedar a massa toda. O efeito é desproporcional ao tamanho ou peso do grão e do fermento. Pois eles têm um dinamismo interno que dá resultados inesperados. Jesus aplica essas observações ao Reino de Deus. Seu crescimento depende de pessoas e coisas que aparentemente são insignificantes. Porém, onde existe uma real comunidade de discípulos, há um dinamismo interno que causa efeitos muito maiores do que sua força humana, pois é movido pela força do Espírito de Deus. Com certeza, no tempo da redação desse evangelho, a comunidade mateana estava sentindo-se fraca demais para enfrentar a polêmica e a luta com o judaísmo rabínico formativo. Diante das expulsões das sinagogas e das famílias, da rejeição dos discípulos por seus pares, e diante da ameaça de perseguição real, muitos devem ter desanimado, sentindo-se fracos demais para essa caminhada. Algo semelhante facilmente ocorre hoje. Diante do rolo compressor da globalização do mercado, do projeto neoliberal, muitos acham que nós não temos forças para resistir, pois somos fracos e insignificantes aos olhos dos donos do poder. Mas isso é julgar somente com critérios humanos. É fácil esquecer a ação do Espírito e que, para Deus, nada é impossível. Essas duas parábolas nos ensinam a valorizar o nosso grão de mostarda e a nossa medida de fermento, ou seja, as pequenas ações e gestos de solidariedade, que trazem o dinamismo do Espírito e podem alcançar resultados surpreendentes. Olhando as estatísticas da diminuição da mortalidade infantil no Brasil, diante das quais os governantes se ufanam, quem não sabe que, em grande parte, é resultado do trabalho humilde e perseverante dos membros da Pastoral da Criança, que, mesmo diante de décadas de descaso governamental com a saúde pública, fazem verdadeiros milagres em favor da vida? E poder-se-iam multiplicar os exemplos. Olhemos com os olhos de fé e de Deus e não com os olhos do mundo, que só valoriza a força do dinheiro, do poder e da dominação. Nesse contexto, pode-se ler a parábola do campo onde foi semeado joio (erva daninha) junto com o trigo. Os servos querem arrancar à força o joio, mas o patrão não permite, pois talvez faça mais mal do que bem. Aqui o campo é o mundo, a comunidade, a Igreja. Somos uma comunidade santa e pecadora, como reza a oração eucarística. Cada comunidade, cada pessoa é, ao mesmo tempo, trigo e joio. A parábola alerta contra dois perigos muitas vezes presentes nas Igrejas. Uma é a tendência do puritanismo, de formar uma comunidade de “santos” ou “eleitos”, intolerante com os pecadores e com as fraquezas humanas, criando uma religião rígida e fria, que esconde o rosto misericordioso de Deus. O outro perigo é o oposto: simplesmente ignorar o joio, e assim correr o perigo de que a erva daninha (os males e erros) sufoquem o trigo na comunidade. A parábola aconselha paciência e cautela, e assim quer evitar os dois entremos de “elitismo” e de laissez-faire, pois ambas as atitudes teriam como resultado a destruição da comunidade. O Reino é de Deus, e Ele não falha. Somos convidados a caminhar juntos na construção lenta, mas segura, desse Reino, apesar de sermos joio e trigo, confiantes no dinamismo do Espírito que faz com que nosso grão de mostarda e fermento na massa deem frutos muito além das expectativas humanas. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Política de Privacidade

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações de cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.

Mais informações sobre: Política de Privacidade