Água como privilégio de poucos

A inversão de valores na nossa sociedade chega a ser espantosa, principalmente quando ela é realizada como se fosse algo “natural”. É o milagre do mercado: promover mudanças de grande impacto na vida da maioria de forma a beneficiar poucos, mas com o consentimento de todos. A água, elemento essencial para a existência, até há pouco tempo era considerada patrimônio público, mas uma simples operação do mercado a tornou privilégio de um reduzido grupo de pessoas. Dessa forma, um bem comum é transformado em propriedade privada, visando beneficiar os proprietários em detrimento do conjunto da população. Esta arrojada operação é realizada no município de Barcelos, Estado do Amazonas, por uma empresa cujos donos decidiram investir no ramo das fine waters, mercado de águas especiais. Tal empresa desenvolveu uma tecnologia capaz de captar a água lançada no ar pelas florestas amazônicas, viabilizando o seu engarrafamento em embalagens cristalinas de 750ml para serem vendidas no seleto mercado internacional por R$ 463,00 reais. Trata-se de um investimento milionário que visa render muitos outros milhões aos empresários, pois este é o objetivo principal de todo empreendimento ao entrar no mercado. Utiliza-se dos elementos da raridade e da escassez para valorizar o produto e assim, justificar os altos preços cobrados aos que podem pagar. No caso em questão, os empresários se apropriam de parte dos “rios voadores” gerados gratuitamente pela transpiração das árvores amazônicas e os revertem em lucros privados neste reduzido mercado hídrico. Em Manaus, as classes empresariais e financeiras também se apropriaram de parte das águas do Rio Negro, transformando um patrimônio público em propriedade privada para ampliar os seus lucros no mercado do abastecimento de água. Aqui também através da privatização dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário, um bem insubstituível que pertence a todos é metamorfoseado em um privilégio oferecido apenas aos que podem pagar. Dessa forma, em torno de 258.871 famílias manauenses, que auferem somente meio salário mínimo ao mês (CadUnico, Dez./2020), encontram grandes dificuldades em obter água potável em virtude dos elevados preços cobrados pela concessionária Águas de Manaus, que é controlada pela multinacional Aegea Saneamento & Participações. Não podendo responder aos interesses rentistas do mercado, tal contingente populacional é marginalizado pela empresa, usufruindo de serviços precários ou sobrevivendo com a sua total ausência. Esta operação de transformar bens públicos em privilégio de alguns é cada vez mais implantada em todo o território nacional, uma vez que a lógica do mercado avança sobre todos os setores da sociedade, sendo estimulada pelas políticas públicas adotadas pelo governo federal e cada vez mais pelas esferas estaduais e municipais. Diante das crises que vivemos hoje, espera-se que tal tendência seja revertida. E assim, os bens comuns voltem a ser propriedades da população e geridas de forma participativa e democrática para o benéfico de todos. Pe. Sandoval Alves Rocha é doutor em Ciências Sociais pela PUC-Rio, mestre em Ciências Sociais pela Unisinos/RS, bacharel em Teologia e bacharel em Filosofia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (MG). Membro da Companhia de Jesus (Jesuíta), atualmente é professor da Unisinos e colabora no Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (Sares), sediado em Manaus/AM.
Poesia: alunos e professores da Rede de Educação SSpS lançam coletânea

Segundo Cassiano Ricardo, poeta, jornalista e ensaísta, a poesia é uma ilha cercada de palavras por todos os lados. Em homenagem ao Dia Mundial da Poesia, comemorado em 21 de março, alunos e professores da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo prepararam a coletânea de poemas “De tudo um pouco”. A obra de 38 páginas contou com a participação de representantes dos ensinos fundamental e médio dos colégios Imaculado Coração de Maria (Rio de Janeiro-RJ), Espírito Santo (São Paulo-SP), Sagrado Coração de Jesus (Belo Horizonte-MG) e Stella Matutina (Juiz de Fora-MG). Acesse o e-book:
5º Domingo da Quaresma

“Se alguém quer servir a mim, que me siga!”João 12,20-33 O texto de hoje traz muitos elementos que têm eco nos textos sinóticos. Até uma leitura rápida vai trazer lembranças de seus textos sobre o seguimento de Jesus; por exemplo, Lucas (9,22-25): “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e me siga”, entre outros. João faz uma redação conforme sua teologia e enfatiza que o seguimento de Jesus se dá no serviço a ele, ou seja, na luta em favor de seu projeto. Todo o Evangelho de João manifesta que o serviço a Jesus se dá no serviço aos irmãos e irmãs. Não é possível servir Jesus sem se colocar a serviço dos outros, especialmente dos mais sofridos. Pois o projeto de Jesus de fidelidade ao Pai vai custar-lhe a vida, Ele será como o grão do trigo que, se não cai na terra e não morre, fica sozinho; “mas, se morrer, produz muito fruto” (vers. 24). Não que Jesus quisesse a morte e o sofrimento, mas são inerentes no seguimento do projeto do Pai, por causa da oposição garantida de grupos de interesse da sociedade do seu (e do nosso) tempo, e, apesar das aparências, não levam à derrota, mas à vitória. Jesus não veio para ser triunfalista, mas para dar a vida em favor de todos. Essa visão que Jesus tinha da missão do Messias não era a comum. Em geral, as pessoas daquele tempo esperavam um messias triunfante, glorioso e guerreiro. A Bíblia nos conta que Deus criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança; mas, na verdade, muitas vezes, nós criamos Deus à nossa imagem e semelhança, para que Ele não nos incomode. A nossa tendência é de querer vencer e nos impor, de seguir um messias triunfante e não o Servo Sofredor. Mas, para Jesus, não há meio-termo. O discípulo tem de andar nas pegadas de seu mestre: “Se alguém quer servir a mim, que me siga” (vers. 26). O seguimento de Jesus leva à cruz, pois a vivência das atitudes e opções dele vai nos colocar em conflito com os poderes contrários ao Evangelho. Mas é importante compreender o sentido de “carregar a cruz”. Não é aguentar qualquer sofrimento. Se fosse assim, a religião seria masoquismo! Carregar a cruz é viver as consequências de uma vida coerente com o projeto do Pai, manifestado em Jesus. Segui-lo não é tanto fazer o que Jesus fazia em sua época e situação social e cultural, mas o que Ele faria se estivesse aqui hoje, diante dos desafios de nossa sociedade, convivência e situação concreta. Isso o levou a ser assassinado, não pelo povo, mas por grupos de interesse bem claros, “os anciãos, os chefes dos sacerdotes e os doutores da Lei” (a elite dominante em termos econômicos, religiosos e ideológicos), e, do mesmo jeito, seus seguidores entrarão em conflito com os grupos que hoje representam os mesmos interesses dos oponentes de Jesus, sejam eles sociopolíticos, econômicos ou religiosos (normalmente tudo vem misturado!). Por isso, sempre haverá a tentação de criarmos um Jesus “light”, sem grandes exigências, limitado a uma religião intimista e individualista, sem consequências sociais, políticas, econômicas ou ideológicas. Seria cair na tentação de Pedro, conforme o relato sinótico, quando rejeita o seguimento de um Messias que dará sua vida (Marcos 8,32). Mas que Jesus queremos seguir? A resposta se dará não tanto com os lábios, mas com as mãos e os pés. Respondemos quem é Jesus para nós por nossa maneira de viver, por nossas opções concretas, por nossa maneira de ler os acontecimentos da vida e da história. Tenhamos cuidado com qualquer Jesus que não seja exigente, que não traz consequências sociais, que não nos engaja na luta por uma sociedade mais justa. Há pouco tempo, fiquei triste ao ouvir uma senhora que tinha deixado a Igreja Católica para aderir a uma Igreja da teologia de prosperidade (na verdade, uma empresa multinacional) e exclamar “Agora achei o Jesus que eu queria”. Sem dúvida, o Jesus que ela queria, mas não o Jesus real! Pois o Jesus real, Jesus de Nazaré, o Jesus do Evangelho, não foi assim e deixou bem claro: “Quem tem apego à sua vida vai perdê-la; quem despreza sua vida neste mundo vai conservá-la para a vida eterna” (vers. 25). É claro que aqui se usa um semitismo (o contraste com o “apegar-se” é expresso no verbo “desprezar”, o que significa “amar menos”). Essa opção é difícil. Embora João não relate a agonia no Horto, ele expressa a mesma realidade quando Jesus diz “Estou perturbado” (vers. 27). Mas o Pai lhe deu força, como dará a quem faz a opção real pelo Reino, no seguimento de Jesus, no serviço aos irmãos e irmãs, na construção de uma sociedade, Igreja e comunidade sem exclusões, onde todos tenham a possibilidade de ter a dignidade e vida plena dos filhos e filhas de Deus e de cidadãos da sociedade. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
“Com coração de pai”: um grande louvor a São José

Em 19 de março, celebramos a Solenidade de São José, patrono universal da Igreja, título que o Esposo de Maria recebeu em 8 de dezembro de 1870, pelo Bem-Aventurado Papa Pio IX. Para marcar os 150 anos dessa proclamação, o Papa Francisco convocou um ano especial dedicado ao Patriarca de Nazaré, a ser comorado até 8 de dezembro de 2021, e publicou a Carta Apostólica Patris Corde (“Com coração de pai”, em tradução livre), assinada em 8 de dezembro de 2020. A devoção a São José pode ser considerada mais uma das grandes características do atual pontificado. Por uma feliz providência, o início oficial do ministério do Papa Francisco deu-se exatamente em 19 de março de 2013. Um de seus simpáticos costumes é colocar debaixo de uma imagem de São José dormindo algumas anotações sobre temas difíceis, que pedem melhor discernimento, como explicou o próprio Papa. Desde então, a curiosa figura do santo dormindo é uma das lembranças mais procuradas tanto nos arredores da Praça São Pedro, no Vaticano, quanto em lojas especializadas em artigos religiosos ao redor do mundo. A mensagem de Patris Corde quer mais dirigir um grande louvor a São José, homem discreto, mas exemplar, que ajudou a proteger e a formar a personalidade humana de Jesus. Francisco desejou partilhar algumas reflexões pessoais sobre aquele a quem denomina de uma “figura extraordinária, tão próxima da condição humana de cada um de nós”. “Depois de Maria, a Mãe de Deus, nenhum santo ocupa tanto espaço no magistério pontifício como José, seu esposo”, explica. Assim, o Papa destaca que o Bem-Aventurado Pio IX declarou São José como “Padroeiro da Igreja Católica” (1870); o Venerável Pio XII o apresentou como “Padroeiro dos Operários” (1955); e São João Paulo II o proclamou como “Guardião do Redentor” (1989). Francisco lembra que o povo também invoca o pai adotivo de Jesus como “Padroeiro da Boa Morte” (Catecismo da Igreja Católica, cân. 1014). O texto do Pontífice sublinha sete atributos de São José: Pai amado, Pai na ternura, Pai na obediência, Pai no acolhimento, Pai com coragem criativa, Pai trabalhador, Pai na sombra. Sobre cada um, o Papa expõe meditações para reafirmar que, em sua atitude silenciosa, aquele homem deixa importantes exemplos a guiarem os cristãos no seguimento de Jesus. “São José lembra-nos de que todos aqueles que estão, aparentemente, escondidos ou em segundo plano têm um protagonismo sem paralelo na história da salvação”, diz Francisco, em tom de reconhecimento e de gratidão. Homem de fé Em Patris Corde, Francisco destaca uma atitude de José que intriga muitos de nós, homens, sobretudo quem vive o matrimônio. O Carpinteiro de Nazaré aceita Maria, mesmo tendo uma imensa angústia ante a gravidez incompreensível da noiva. Que situação complicada! Talvez possamos ter uma ideia do tamanho da decepção a invadir o coração de José! Contudo aquele operário decide não difamar Maria (o que poderia levá-la a punições indizíveis), mas, de modo secreto, deixa a gestante (veja o primeiro capítulo do Evangelho de Mateus). Mais surpreendente ainda é a fé do Patriarca. Ele dá crédito à mensagem de Deus, representado por um anjo, que lhe fala em sonho: “José, filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados” (Mateus 1,20-21). Justificativa difícil! Mas José acredita! Daí podemos inferir que esse trabalhador é um homem de oração, atento à voz de Deus; um gigante na fé. “Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor havia mandado” (Mateus 1,24). Segundo o Papa Francisco, “José acolhe Maria, sem colocar condições prévias. Confia nas palavras do anjo”. O Pontífice completa: “Com a obediência, [José] superou o seu drama e salvou Maria”. “Hoje, neste mundo onde é patente a violência psicológica, verbal e física contra a mulher, José apresenta-se como figura de homem respeitoso, delicado, que, mesmo não dispondo de todas as informações, decide-se pela honra, dignidade e vida de Maria. E, em sua dúvida sobre o melhor a fazer, Deus o ajudou a escolher iluminando seu discernimento” (homilia em Villavicencio, Colômbia, 8 de setembro de 2017). Francisco faz outra observação interessante: tal como Maria, na Anunciação (solenidade celebrada uma semana depois, em 25 de março), e Jesus, no Getsêmani (Marcos 14,36), ao longo da vida, “José soube pronunciar o seu ‘fiat’” (“que se faça”). Um “sim” dado nos desafios do cotidiano de uma família pobre, que vivia em uma periferia e tinha de lutar muito para sobreviver, tal como vemos muitas em nosso tempo. “A Sagrada Família teve que enfrentar problemas concretos, como todas as outras famílias, como muitos dos nossos irmãos migrantes que ainda hoje arriscam a vida atormentados pelas desventuras e a fome. Nesse sentido, creio que São José seja verdadeiramente um padroeiro especial para quantos têm de deixar sua terra por causa das guerras, do ódio, da perseguição e da miséria”, diz o Papa.Na Carta Apostólica, o bispo de Roma chama a atenção para um dado dos evangelhos que pode passar despercebido. Ao fim de cada passagem na qual José é protagonista, vê-se “que ele se levanta, toma consigo o Menino e sua mãe, e faz o que Deus lhe ordenou” (cf. Mateus 1,24; 2,14.21). O dom da paternidade Para o Papa Francisco sempre que alguém assume a responsabilidade pela vida de outra pessoa, em certo sentido, exercita a paternidade em relação a esta. “Não se nasce pai, torna-se tal… E não se torna pai apenas porque se colocou no mundo um filho, mas porque se cuida responsavelmente dele”, completa. A Carta Patris Corde encerra-se com uma singela prece, bem ao estilo de Francisco e do Padroeiro da Igreja: “Salve, guardião do Redentore esposo da Virgem Maria!A vós Deus confiou seu Filho;em vós, Maria depositou sua confiança;convosco, Cristo tornou-se homem. Ó Bem-aventurado José, mostrai-vos pai também para nóse guiai-nos no caminho da vida.Alcançai-nos graça, misericórdia e coragem,e defendei-nos de todo o mal.
4º Domingo da Quaresma

“Deus enviou o seu Filho ao mundo não para julgá-lo, mas para que seja salvo por ele”João 3,14-21 Podemos dizer que o texto de hoje inclui uns versículos (16 a 21) que podem ser entendidos como resumo de todo o Evangelho de João. Inclui também muitas referências ao Antigo Testamento e ao pensamento judaico da época. Inicia-se com a primeira de três frases em João sobre o “levantar” do Filho do Homem, aqui usando paralelismo com a serpente de bronze de Números (21,1-9). O termo “levantado” refere-se tanto ao ser elevado na Cruz como ao ser levantado aos céus. A Cruz é o primeiro passo na volta de Jesus ao Pai. A parte central do texto insiste no infinito amor do Pai pelo mundo. Mais uma vez, cumpre reconhecer que o termo “mundo” tem diversos sentidos em João. Muitas vezes, refere-se às forças opostas a Jesus, e, portanto, tem uma conotação altamente negativa. Aqui se refere à criação de Deus, o universo, com uma conotação positiva. Infelizmente, nos dias de hoje, muitos adeptos das religiões veem o mundo como algo negativo e pecaminoso, frequentemente se justificando com uma interpretação errônea de João e, assim, criando uma religião dualista, onde o “espiritual” é santo, enquanto o “material” é pecaminoso. Assim, o mundo se torna mais o domínio do demônio do que de Deus e cria-se uma religião de alienação e fuga das realidades terrestres. Essa visão equivocada está muito presente em certos movimentos neopentecostais e diversos programas de televisão e rádio. Tal visão se deve mais a certas religiões pagãs do que à mensagem do Evangelho. A missão de Jesus não é de condenar, mas de salvar (vers. 17). Porém a própria presença de Jesus já constitui um julgamento, pois exige uma tomada de posição da parte de cada um. Para o judaísmo, e muitos escritos do Novo Testamento, o juízo deve acontecer no fim da história, mas, para João, dá-se quando alguém se encontra na presença de Jesus e conscientemente aceita ou recusa sua mensagem. O termo que a Teologia usa para essa visão é “escatologia realizada”. Na visão de um mundo dividido entre luz e trevas, há paralelos com os documentos do Mar Morto, provavelmente da seita dos essênios. O cerne da questão é crer ou não em Jesus. Mas é importante lembrar que “crer” não é somente um exercício intelectual de aceitar que algo seja a verdade. “Crer” é assumir o projeto de vida de Jesus, é seguir em suas pegadas. É fazer que suas opções concretas sejam nossas, ou melhor, de agir como Ele agiria se estivesse entre nós hoje. Como será que Jesus agiria diante dos escândalos e crises que assolam nosso mundo? Que posição tomaria diante da acumulação de bens e terras nas mãos de poucos? O que faria diante da questão da reforma agrária ou da destruição do meio ambiente? Diante da corrupção quase endêmica e da manipulação de grande parte dos meios da comunicação de massa? O que diria diante do sofrimento de milhões de desempregos na crise atual econômico-financeira mundial, criada por gananciosos que não sofrem as consequências de sua sede sem limites de lucro? O que Ele diria diante da crise que leva dezenas de milhares de migrantes a arriscarem as suas vidas tentando escapar da miséria? “Crer” nele não é afirmar teses teológicas, mas seguir na prática Jesus de Nazaré que se colocou sempre ao lado dos excluídos e sofridos, não por serem mais “santos”, mas simplesmente por serem mais sofridos. É bom notar que Jesus, enfatizando nesse texto a necessidade do nascimento novo espiritual (estamos ainda no discurso diante de Nicodemos), nega a importância de nascer fisicamente como membro do povo eleito. Mais uma vez, como em Caná e no Templo (2,1-11.13-22), Jesus substitui um dos pilares do judaísmo de sua época. Estamos em plena Campanha da Fraternidade, procurando criar um novo mundo em que todos tenham acesso a uma vida digna, lutando pela luz contra as trevas! Agir “segundo a verdade” (vers. 21) significa fazer o bem. Quem luta pelo bem, pela vida, contra a exclusão, realmente “crê” em Jesus, seja qual for sua confissão religiosa, e “não é condenado” (vers. 18). Quem não faz essa opção opta então pelas trevas, mesmo que professe, de uma maneira ortodoxa, as teses da fé, mas realmente “não crê no nome do Filho Único de Deus” (vers. 18). Ninguém escapa de fazer essa opção concreta, pelo bem ou pelo mal, pela luz ou pelas trevas, pelo Reino ou pelo anti-Reino! É pelos frutos que se conhece a árvore! A Quaresma nos convida para revermos, de uma maneira sincera, nossas opções e também nossa contribuição em favor da criação de uma sociedade justa, de vida e não da morte. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
3º Domingo da Quaresma

“Mas Ele falava do templo do seu corpo”João 2,13-25 Nosso texto relata, na tradição do Quarto Evangelho, um dos eventos mais conhecidos na vida de Jesus: a expulsão dos vendedores do Templo. No Quarto Evangelho, esse evento está situado no início da vida pública de Jesus, enquanto, no Evangelho mais antigo, Marcos, está situado no início de nossa “Semana Santa”. Assim, os dois autores relatam o acontecido segundo o esquema de seus escritos, mas ambos trazem uma mensagem bem clara: o que vai finalmente levar Jesus à morte é seu conflito com as autoridades do Templo. Estas se sentiram ameaçadas em seu poder político, religioso e econômico pela pregação e atuação libertadora de Jesus, que revelava o verdadeiro rosto de Deus e seu projeto de vida plena, ofuscados pelo ritualismo de exploração por parte da classe sacerdotal de Jerusalém, aliada ao poder opressor romano. Para João, esse conflito estoura desde o início da vida pública de Jesus. Para Marcos, o evento é a gota d’água que desencadeou o conluio que levaria Jesus à Cruz. Na cena apresentada pelo texto, Jesus vai a Jerusalém para a primeira das três Páscoas mencionadas em João; nos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), a vida pública de Jesus só durou um ano, e eles só mencionam uma Páscoa. No Templo, que deveria ser o lugar do culto ao Deus verdadeiro da Bíblia, o Deus de libertação, o Deus dos pobres e sofridos, Ele encontra um verdadeiro mercado, onde, no pátio externo, era possível comprar os animais para os sacrifícios e trocar a moeda, uma vez que a moeda corrente do país não era aceita no Templo. Quando atacava esse comércio, Jesus estava indo além da mera condenação de um abuso. Pois os animais e o câmbio eram necessários para o funcionamento do Templo. Como Jesus substituiu a purificação dos ritos judaicos no sinal das bodas de Caná, aqui Ele demonstra que o centro do culto judaico perdeu seu sentido. Pois a presença de Deus, antes achada no Templo, agora deturpado pela elite religiosa e política, doravante residirá em Jesus, o Filho de Deus encarnado. Ele cumpre as profecias de Jeremias e Zacarias que predisseram uma religião sem um templo que fosse nacionalista e explorador econômico do povo (Jeremias 7,11-14; Zacarias 14,20-21). João entende que o verdadeiro templo é o corpo de Jesus, que será ressuscitado em três dias. Ele usa de propósito o verbo “reerguer” em lugar do “reconstruir” dos Sinóticos (Mateus 26,61). As autoridades judaicas destruíram o sentido do Templo, abusando do povo economicamente, como também vão destruir o corpo de Jesus, matando-o; mas Jesus tem o poder de reerguer o verdadeiro Templo onde habita Deus, na ressurreição, depois de três dias. Mais uma vez, Jesus, por uma ação profética, desmascara a deturpação da religião por parte das autoridades de Jerusalém. Embora o Templo fosse muito bonito e imponente, com liturgias pomposas bem frequentadas, sua religião era vazia, pois escondia o rosto amoroso e misericordioso de Deus. As Igrejas sempre correm esse mesmo risco. Além da descarada exploração financeira de seus fiéis por parte de algumas seitas e pregadores (cuidemos para não generalizarmos aqui e evitemos que a mesma coisa aconteça em nossa Igreja!), aos poucos, muitas comunidades cristãs perderam sua dimensão profética de denúncia e anúncio, configurando-se ao mundo neoliberal de consumismo e gratificação emocional imediata, tornando o Evangelho uma mercadoria a ser vendida através de um marketing, que jamais pode questionar os valores da sociedade vigente. Como escreveu anos atrás o Frei Betto, a religião assim “Brilha sob as luzes da ribalta, trocando o silêncio pela histeria pública, a meditação pela emoção, a liturgia pela dança aeróbica. Na esfera católica, torna o produto mais palatável, destituindo-o de três fatores fundamentais na constituição da Igreja, mas inadequados ao mercado: a inserção dos fiéis em comunidades, a reflexão bíblico-teológica e o compromisso pastoral no serviço à justiça. As homilias se reduzem a breves exortações que não incomodam as consciências” (O Estado de São Paulo, 3-11-1999). Assim, o texto de hoje nos traz um alerta: Jesus não veio compactuar com uma religião exploradora, alienadora e aliada ao poder, mas para encarnar as opções do Deus Javé, libertador dos males e de toda exploração. Ele veio “para que todos tenham a vida e a vida em abundância” (João 10,10). Uma religião que abandona sua função profética é tão traidora quanto a religião decadente das elites do Templo. Nos últimos anos, as vozes dos papas Francisco e Bento XVI, do arcebispo Desmond Tutu, do Dalai Lama e de outros líderes religiosos soaram profeticamente ao redor do mundo, lembrando-nos de que a religião não se confina à sacristia, mas tem de levar à prática dos princípios do Reino, que recusa a legitimar o derramamento de sangue em troca de petróleo ou minérios. Aproveitemos o “tempo oportuno” que é a Quaresma para reavaliar a nossa prática religiosa, para que não caia na desgraça do Templo, de ser uma prática bonita, atraente e emocionante, mas vazia de sentido. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Diálogo: compromisso de amor

A Campanha da Fraternidade chegou para ajudar na consciência de que o diálogo é o único caminho possível para um compromisso de amor e fraternidade. Esse é um dos motivos de ser mais um projeto de campanha ecumênica. Ao chamar a atenção para a necessidade de aceitar plenamente as pessoas que são diferentes e ver, nas diferenças, a riqueza da família humana, convida a trilhar caminhos que redescubram a força e a beleza do diálogo como compromisso de realizações mais amorosas e humanas; afinal não é possível acreditar na diversidade e, ao mesmo tempo, discriminar e desrespeitar por diferenças étnicas, religiosas ou de gênero. Muito além de pensar, avaliar e identificar caminhos para a superação, pelo diálogo, das polarizações e violências, testemunhando a unidade na diversidade, compõem os objetivos da Campanha o engajamento em ações concretas de amor ao próximo, a conversão de uma cultura de ódio para uma cultura do amor, a convivência fraterna como experiência humana irrenunciável, em meio a diferentes crenças, ideologias e concepções, e em um mundo cada vez mais plural, e a partilhar de experiências concretas de diálogo e convívio fraterno. E quando falamos em experiências concretas de diálogo, vale a pena lembrar que ele é muito mais que uma conversa pontual. O diálogo é um estilo de vida É a capacidade de compreender o outro por sua forma de ver o mundo e compreender as coisas. Assim, quanto mais crescemos no diálogo como capacidade de escuta ativa, mais a paz se torna presente em nosso meio. Em um mundo de polarizações como lembramos acima, o diálogo pode ser o caminho para a construção desse lugar que buscamos. Jesus nos ensina a capacidade da escuta, da compreensão do outro, de forma empática. Ensina ainda que, no diálogo, não existem ganhadores, afinal seu objetivo é compreender uns aos outros, o que não deixa de ser também uma forma de amar o próximo. Mesmo nas diferenças, devemos buscar sempre o que nos une, o que nos conecta como família humana, e destruir os muros de separação. Para isso, faz-se necessário favorecer espaços para a vivência do diálogo, da diversidade, da união que gera necessariamente o respeito. O maior testemunho cristão e humano que podemos dar ao mundo é nossa capacidade de acolher a diversidade e possibilitar a união e o respeito para que, assim, possamos sempre celebrar a vida. Recuperar a nobre capacidade de dialogar diante de tantas fragmentações, quando parece que já não conseguimos mais escutar uns aos outros, é sim uma das formas de amar. Fazer a opção pelo diálogo significa recuperar em nós a nobre capacidade de um coração capaz de cuidar uns dos outros, por meio de uma escuta que dá ao outro a possibilidade de ser por inteiro. Muitas vezes, alguém mal começa uma conversa, e nós já estamos pensamos na resposta a ser dada, perdendo a oportunidade de compreender o outro a partir de um espírito cristão de entendimento, de sua história de vida, de como compreende o sentido da vida e o sentido do mundo. Cada uma das campanhas sinaliza que o diálogo é nosso melhor testemunho, e nossa fé anima-nos a prosseguir pelo caminho da unidade na diversidade. Oxalá, como discípulos de Jesus, aprendamos que só o diálogo com Jesus faz o coração arder; afinal, se o coração arde em chamas pelo projeto de Jesus, os pés partem em missão. ReferênciaCONIC/CNBB. Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021: texto-base. Brasília: Edições CNBB, 2020. Agostinho Travençolo Junior é educador e assessor da Dimensão Missionária da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo.
2º Domingo da Quaresma

“Este é o meu Filho bem-amado. Ouvi-O!Mc 9,2-10 O texto de hoje vem logo após o diálogo com Pedro e os discípulos, na estrada de Cesareia de Filipe, sobre quem era Jesus e como deveria ser seu seguimento: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e me siga” (8,34). Começando essa passagem com as palavras “Seis dias depois”, Marcos quer ligar estreitamente o texto com a mensagem anterior sobre a cruz. O texto destaca um aspecto de Jesus que é muito importante, o fato de que Ele era um homem de oração. Durante a oração, aparecem Moisés e Elias, símbolos da Lei e dos Profetas. Assim, Marcos mostra que Jesus está em continuidade com as Escrituras, isto é, o caminho que Jesus segue está de acordo com a vontade de Deus. Os dois personagens, tanto Moisés como Elias, eram profetas rejeitados e perseguidos em seu tempo. Marcos aqui vislumbra, mais uma vez, o destino de Jesus: o de ser rejeitado, mas também de ser vindicado por Deus. Pedro, ao despertar do sono, faz uma sugestão descabida: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias” (v. 5). Claro, seria bom ficar ali, em um momento místico, longe do dia a dia, da caminhada, das dúvidas, dos desentendimentos, da luta. Mas é uma sugestão que Jesus não pode aceitar, pois seria uma fuga de sua missão de Servo de Javé. Terminado o momento de revelação, “Jesus estava sozinho” e, em seguida, “desceram da montanha” (v. 9). Por tão gostoso que possa ser ficar no Monte, é preciso descer para enfrentar o caminho até o Monte Calvário. A experiência da Transfiguração está intimamente ligada à experiência da Cruz. Talvez foi a força da experiência do Monte Tabor que deu a Jesus a coragem necessária para aguentar a experiência bem dolorosa do Calvário. Todos nós, seja qual for nossa vocação, precisamos de momentos de oração profunda, de união especial com Deus. Mas essas experiências não são “intimistas”. Elas aprofundam nossa fé e nosso seguimento para que possamos seguir o exemplo dele, que lavou os pés dos discípulos: “Eu, que sou o Mestre e o Senhor, lavei os seus pés; por isso vocês devem lavar os pés uns dos outros” (Jo 13,14). Também esse trecho pode nos ensinar a valorizar os momentos de “Tabor”, os momentos de paz, de reflexão, de oração. Pois, se formos coerentes com nossa fé, muitas vezes, teremos de fazer a experiência de “Calvário”. Somos fracos demais para aguentar essa experiência, por isso busquemos forças na oração, na Palavra de Deus, na meditação, mas sempre para que possamos retomar o caminho, como fizeram Jesus e os três discípulos. Para os momentos de dúvida e dificuldade, o texto nos traz o conselho melhor possível, por meio da voz que saiu da nuvem: “Este é o meu Filho bem-amado. Ouvi-o!” (v. 7). Façamos isso e venceremos os nossos calvários, como venceu Jesus e, mais tarde, seus discípulos. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
O valor do respirar

Quanto vale respirar? Ao nascer, a criança chora quando recebe oxigênio em seus pulmões, demonstrando o impacto do ar adentrando em seu órgão respiratório. Conforme crescemos, experimentamos o quanto é saudável estar em contato com a natureza e respirar ar puro. Quem mora em grandes centros industriais, geralmente poluídos, quando pode, nos fins de semana ou feriados, dirige-se a um sítio ou litoral em busca de encontrar o verde das árvores, brincar e cuidar de algum animal ou contemplar o azul do mar, e respirar fundo. Inúmeras criaturas precisam do oxigênio para respirar. E a principal produção de oxigênio para a vida do planeta Terra está presente nas árvores, nas florestas, nos bosques. Entretanto, infelizmente, nosso planeta anda sufocado com tanta poluição provocada pelas indústrias, a ponto de as pessoas, em alguns países, como a China, terem de usar máscara quando saem de casa para trabalhar, ir ao mercado ou passear, por causa do alto grau de gás carbônico. Com a pandemia, a situação se agravou. De fato, todo ser vivo precisa respirar, mas o homem moderno, ao explorar as riquezas da natureza, tornando industriais as sociedades, comprometeu o combustível fundamental para ele mesmo. Ao lermos o livro de Gênesis, que diz sobre a Criação, aprendemos que tudo foi preparado para receber o ser humano, que, ao ser modelado do barro, ganhou um “sopro de vida” em suas narinas (Gn 2,7). Esse sopro lhe deu vida, significando que se abriram os pulmões. O contrário acontece quando se diz que a pessoa deu “o último suspiro” e deixou o corpo. Você já reparou como é o formato dos pulmões? Os alvéolos e os brônquios em conjunto se parecem com raízes de uma planta, sendo a traqueia como se fosse o tronco. Maravilhas da natureza! Somos o universo em microscópio. Somos conectados. Por isso, se a saúde do planeta é afetada, também atinge a saúde de todos nós, seres vivos. A Ciência tem nos alertado a todos para a importância de preservamos a natureza, de respeitarmos o meio ambiente, para o bem de todos. O desmatamento, principalmente na Amazônia, a queima das matas, a exploração de madeiras e extração de minérios em terrenos de preservação ambiental têm afetado desastrosamente o respirar em todo o mundo, tanto dos seres humanos quanto dos animais. Há anos, o aquecimento global tem sido tema dos movimentos ambientalistas que lutam a favor da flora e da fauna, seja nacional ou internacional. Com a invasão do homem, que tem devastado o habitat dos animais, surgiu a covid-19, atacando principalmente o órgão respiratório, causando a pandemia que estamos vivendo. Desde 2020, em plena pandemia, milhões de pessoas sentiram falta de ar e, em nosso País, mais de 240 mil já morreram por falta dele. A falta de oxigênio nos hospitais do Estado do Amazonas recorda o pedido do negro sufocado para respirar. Isso tudo não deixa de ser um apelo para pararmos com a violência de asfixiar nosso semelhante. Pararmos com a violência, não só física, mas também psicológica e ideológica. Respirar é fundamental para todos nós. O que fazer para que não falte oxigênio nos hospitais e em nosso planeta? Para o planeta respirar, reflorestar onde foi desmatado. Plantando árvores, cada um de nós pode contribuir para que o bairro e a cidade tornam-se mais verdes, além de denunciar maus-tratos com a natureza, como desmatamento, poluição dos córregos, rios, mares; procurar preservar o meio ambiente; as indústrias respeitarem os acordos ambientais para diminuir a poluição. Para a saúde pública, fiscalizar e denunciar desvios de verbas, e descasos em relação ao acesso à saúde, como o caso dos cilindros de oxigênio. Individualmente, praticar ioga ou fazer exercícios respiratórios que ajudam a manter a saúde torácica. Enfim, o valor do respirar é tão grande que o Criador nos concedeu de graça… Sinta o perfume das flores, o cheiro da terra molhada, a maresia, o pasto, o suor… Seja grato por respirar! Inspire e expire! Mas, enquanto a pandemia não acabar, continue usando máscara e lavando as mãos. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP e SBPC, atualmente professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Comissão de Prevenção e combate à tortura pela ALESC, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, pertencente à Arquidiocese de Florianópolis-SC.
O silêncio na espiritualidade cristã e o tempo da Quaresma

Na Quaresma, a Igreja convida a um mergulho no mistério de nossa vida, fé, vocação e missão. As celebrações quaresmais nos motivam a uma sincera conversão. Jesus Cristo costumava retirar-se para rezar e propunha, com palavras e exemplo, o exercício do silêncio. Cultivou e ensinou aos discípulos a experiência do silêncio na vida pessoal e pastoral. Ao iniciar a missão, Jesus fez um retiro de quarenta dias, no deserto, com jejum e oração. Ensinou que é preciso alimentar-se da Palavra de Deus. Viver como criaturas novas, a caminho da Páscoa definitiva. O mandamento de Jesus reza: “Não julgueis…”. Isso significa emitir nossa opinião, sempre marcada pela verdade, mas jamais impor nosso ponto de vista. Existe a dificuldade em perceber que um jejum de comentário sobre outro, de conversas banais, possa ser mais custoso do que o jejum de chocolate… O silêncio autêntico nos eleva em prece, num gesto de amor ou penitência pela responsabilidade da vida, alimenta atitudes de delicadeza no falar com as pessoas, com atenção e carinho. A Quaresma nos orienta para prática da partilha e solidariedade. Tempo que dou a mim mesmo, no exercício do silêncio, de uma boa leitura e revisão de vida. Vivemos num mundo imerso no barulho, numa cultura de poluição sonora e visual. Atitude urgente de caridade é treinar o ouvido do coração para exercer o ministério da escuta, tão necessário a quem sofre as durezas da vida neste momento crucial da História. O desafio é calar o falatório, que abafa a paz do coração. A paz que procuramos pode estar no silêncio que não fazemos. Talvez seja por isso que, em dados momentos da vida, não entendamos o silêncio de Deus. A Igreja proporciona espaços de silêncio como meio de penitência, jejum e oração. O silêncio construtivo vem do exercício interno e externo, com esforço, avanços e recuos, paciência e perseverança. Santa Hildegarda de Bingen, doutora da Igreja, disse: “Deus marca prazerosamente encontro conosco, na casa do silêncio”. O silêncio educa à vigilância que revela a novidade. Proporciona possibilidade para observar, clarificar e concentrar-se sobre o essencial. Na espiritualidade cristã, a fé somente é possível com o exercício regular do silêncio. Pelo exercício do silêncio, os frutos da Páscoa do Senhor darão novo sentido para a vida e um relacionamento saudável com a criação, com os irmãos, irmãs, e de intimidade com Deus. Há médicos que propõem o silêncio como atitude indispensável para uma vida pessoal e comunitária saudável. Recomendam o retiro, em silêncio, como terapia preventiva dos acidentes cardiovasculares. O segredo da cura pelo silêncio é descobrir um Deus amigo, médico, que vem a nosso socorro, escuta e convida a entrar em sintonia com ele. Por vezes, pode-se dizer mais com o silêncio que com palavras. Santa Teresa de Ávila, ao contemplar as rosas no jardim, dizia: “Parem de gritar, eu já sei que Ele existe”. Silêncio não é mutismo, alienação. Ele nos capacita para um autêntico diálogo. Os mestres da vida interior ensinam a agir com calma. Silêncio no andar, silêncio dos olhos, dos ouvidos, da voz e assim criar condições para unir-nos a Deus. A imaginação é dom de Deus e alimenta nossa oração. A memória reaviva momentos de ação de graças por tanta misericórdia de Deus para conosco. De alegria, de dor, de pecado para purificar e tornar-nos aptos a acolher a graça da fonte de Deus, que jorra em nós. Adoecemos quando a imaginação nos leva para fora de nossa casa interior e faz perder o contato com a vida. Avançar para águas mais profundas, no silêncio do coração. Assim, nada poderá perturbar a paz interior, nem as criaturas, a memória nem a imaginação. Silenciar a natureza humana é fruto de trabalho lento e paciente. Silenciar o orgulho e o amor-próprio ferido. Superar desejo de vingança, por vezes revestido de aparente justiça. Remédio para não adoecer de orgulho, superioridade e considerar-se insubstituível é o silêncio do Espírito que leva a agir apenas pela glória de Deus. Quem busca viver a santidade dispensa toda duplicidade de vida. A ambiguidade é fonte de sofrimento e doenças físicas e psíquicas. O melhor de tudo é aprender a ficar em silêncio na gratuidade. Acordar bem cedo, todos os dias, para cultivar um pouco de silêncio. Sentar-se, meditar os acontecimentos do dia anterior, em sintonia com a Palavra de Deus ou apenas curtir o silêncio. É um momento inspirador e integrador. Em meio ao caos, Deus se faz presente. Irmã Marta Maria Arnhold, missionária serva do Espírito Santo na Província Divina Sabedoria (Brasil Sul), é graduada em Pedagogia, especialista em Orientação Educacional e em Aconselhamento Pastoral – Espiritualidade, pela Pontifícia Universidade Lateranense, em Roma. Trabalha na pastoral paroquial e como orientadora espiritual na Capela Missionária das SSpS.