Política e violência no Brasil

Estamos em ano de eleições neste 2022. Muitos brasileiros dizem não gostar de política ou não quererem se envolver. Porém o que é política? A palavra “política”, no grego antigo politikós (pólis + ethos) quer dizer “conduta da cidade”, comunidade de vida, dos cidadãos. Alguns exemplos: Petrópolis (cidade de Pedro), Fernandópolis (cidade de Fernando), Rondonópolis (cidade de Rondon), megalópoles (cidade grande). No Período Romano, a palavra “política” passou a equivaler à palavra “cidadania”, do latim antigo (civitas). Portanto as palavras “política” e “cidadania”, em suas origens, querem dizer a mesma coisa. Nesse sentido, desde os tempos da Grécia Antiga, o pensador Aristóteles (século IV a.C.) definiu política como a ciência de bem governar, administrar os conflitos e as necessidades para o bem comum, o que diz respeito aos cidadãos e ao governo de uma cidade. No regime democrático, como acontece no Brasil, os cidadãos capazes participam e tomam decisões nos negócios públicos por meio do voto. Infelizmente, muitos cidadãos brasileiros confundem “política” com “politicagem”, que significa, segundo o dicionário Aurélio, “política mesquinha, de interesses pessoais, desonesta”. Quando ouvimos alguém dizer que dá seu voto a um candidato em troca de cem reais, porque assim ele vai poder comprar dois quilos de carne, isso é politicagem, pois essa pessoa não está pensando na coletividade, na verdadeira política, mas só nela ou só na família dela, em vez de pensar no bem comum. Trocar o voto por um favor (cargos, emprego, dentadura, saco de cimento, etc.) não é correto. Por isso o cidadão deve ser ético, que é a virtude fundamental para combater a corrupção no governo. Cidadão é aquele que cumpre com os deveres e garante seus direitos para com o Estado. O governo, conjunto dos representantes, cobra tributos para o Estado atender às necessidades de sua população. Devemos fiscalizar, no entanto, para onde vai o dinheiro arrecado dos impostos (IPTU, IPVA, IR, ICMS, etc.). Assim, a política tem dimensões: territorial (refere-se ao espaço em que vivemos), social (diz respeito à educação, à saúde, ao transporte, às aposentadorias e outros), econômica (atividades em relação ao trabalho humano), ideológica (abrange o capitalismo e o socialismo) e a partidária (quais partidos representam os grupos da população). Quando o cidadão entende bem o que é política, ele participa, vota conscientemente, acompanha os representantes eleitos do povo e cobra deles posturas diante de reivindicações justas para todos. Daí a necessidade de debates para se conhecerem os projetos de lei apresentados em plenárias, tanto nas câmaras municipais quanto nas assembleias legislativas e no Congresso Nacional. Pode-se participar enviando e-mails ou pelas redes sociais, pelos canais de tevê (Senado, Câmara, Justiça), ou presencialmente. E devem-se denunciar os atos arbitrários à cidadania. Em 2023, muitos representantes do povo, no Poder Legislativo, ocuparão o Congresso Nacional e as assembleias legislativas para elaborarem e votarem projetos de leis que devem ser em benefício de todos os cidadãos, além de fiscalizarem o Poder Executivo. Ainda, há alguns Estados da Federação (governadores) que não foram definidos, e a disputa pela Presidência. Esse Poder tem como função executar o que está previsto em lei e representar o Estado ou o País por quatro anos. Constatamos, todavia, que a política envolve relação de poder. Desde tempos remotos, o fenômeno “poder” está enraizado na natureza do ser humano. Se, por um lado, aparentemente trouxe benefício para uns, por outro, causou e tem causado sequelas para a grande maioria da humanidade, como a miséria. Se o governo não for democrático, volta às ditaduras, aos imperialismos, à exploração dos mais necessitados, causando violência; esta gerada pelas “legitimidades” outorgadas ou promulgadas no discurso dos “direitos”. Quando o filósofo Aristóteles afirmou que o “ser humano é um animal racional, social e político”, percebeu que fazer política exige persuasão, convencimento, saber falar. O ser humano é o único animal que tem como característica a capacidade de distinguir o justo do injusto, o certo do errado, o bem do mal. No Brasil, porém, desde o Período Colonial, segundo o linguista Alfredo Bosi, a linguagem tem sido usada para violentar as mentes dos povos tradicionais, causando o etnocentrismo, a violência dos costumes. Até hoje, são violentados em suas aldeias pelo desmatamento das florestas, pela não demarcação de suas terras, pelo avanço do garimpo e das madeireiras. De acordo também com o pensador Assaman, a linguagem foi e tem sido uma forma de apagar a “memória” de grupos ou do povo. Constatamos isso nos livros de História do Brasil, nos quais não se falava dos heróis e heroínas ameríndios e afrodescendentes de nosso povo, mas somente dos vencedores europeus. A violência econômica, gerada pelo capitalismo, perpassa pela globalização produzida pela mídia, conforme outros estudiosos do assunto, atingindo não apenas a violência física, mas também psicológica diante do bombardeio tecnológico, agora informatizada, tendo os indivíduos de enfrentar problemas político-econômico e religiosos, como já alertava Freud em O mal-estar na civilização. A violência às crenças dos indivíduos, à sexualidade, atualmente controlada pela tecnologia do “metaverso”, dos robôs mal-intencionados é um desafio para a sociedade brasileira, que busca livrar-se da politicagem do egoísmo. É necessário abordar a diversidade, exercer o poder popular por meio do voto consciente, em busca de uma política do convívio social tolerante, justo e fraterno, pela qual todos possam, de fato, gozar dos direitos, sem violência, e o poder ser exercido em favor da vida. Ser cidadão é ser político. Participe conscientemente de seu dever e garanta a vida para todos. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia (USP), especialista em Ensino de Filosofia (UFSCar); graduada em Filosofia (UFJF), Pedagogia (Unitins) e Teologia (Mater Ecclesiae); filiada à ABA, APEOESP, SBPC; professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC; voluntária na Comissão de Prevenção e Combate à Tortura (ALESC) e na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis-SC; membro da diretoria da Aproffib (Associação de Professores de Filosofia e de Filósofos do Brasil).
“A única coisa perfeita do ser humano é a sua imperfeição”(Isaac Rubin)

“O publicano voltou para sua casa justificado” (Lc 18,14) Se algo fica patente no Evangelho deste domingo é a denúncia, por parte de Jesus, do perfeccionismo farisaico. Fariseus de ontem e de hoje. O tão proclamado ideal de perfeição chega a enraizar-se tão profundamente na vivência religiosa que acaba produzindo consequências desastrosas para as pessoas. A busca de perfeição torna-as rígidas, legalistas e intolerantes; seu deus é pura projeção de sua rigidez e moralismo: um “deus desumano” que cobra até o último centavo e ameaça sempre com o “inferno”. A Bíblia nunca nos apresenta, como modelos de fé, pessoas perfeitas e sem falhas, mas sim, justamente pessoas marcadas pela fragilidade e fracasso e que colocaram sua esperança unicamente em Deus, ao invocarem-no do fundo do abismo. Jesus, através de uma simples parábola, desmascara uma religião centrada no moralismo e no julgamento dos outros. Nesta parábola, Jesus contrapõe os dois extremos da sociedade judaica daquele tempo: o fariseu, expressão máxima da piedade e da moralidade, e o publicano, que por sua profissão, era a expressão máxima do pecador, distante dos ideais religiosos. Ambos vão ao templo e, na oração, cada um deles revela sua vida e seus sentimentos. De fato, é na oração que o ser humano exprime aquilo que é mais íntimo e mostra como ele se relaciona com os outros e com Deus. O risco do farisaísmo é subir o pedestal da perfeição e do legalismo, distanciando-se do amor e da misericórdia de Deus; com isso, cai no orgulho religioso e é incapaz de converter-se a Deus no seu íntimo. Na prática, a oração do fariseu significa submeter Deus a si mesmo, cobrando o prêmio pelas boas ações. Agradece porque é sem vícios, não porque se sinta amado por Deus. Seu louvor e agradecimento é apenas um pretexto para louvar a si próprio, inflar o próprio ego. Ele tem méritos e nada deve a Deus; ao contrário, Deus é quem lhe deve: a enumeração de suas boas obras implica a pretensão de uma recompensa; ele acha que pode impressionar Deus com suas qualidades aparentes, seus sacrifícios e boas obras puramente formais, sem extirpar de seu coração o orgulho e o desprezo pelos outros. A salvação que esperamos não é fruto de nosso trabalho e penitência, de nossa prática legal e de nossas virtudes. Ela é puro dom de Deus, divino presente de seu coração de Pai. Só nos resta acolhê-la em atitude de humilde gratidão. Na sua auto-suficiência e com sua oração um tanto blasfema, o fariseu está aí, de pé, para dar espetáculo, aguardando o aplauso da plateia. O publicano, no entanto, nos revela que basta redescobrir o caminho da humildade (do húmus), bem no fundo de nós mesmos: este é o lugar da oração. Esta humildade é a porta de abertura para sair de um coração fechado em si mesmo, de um coração auto-suficiente e perfeccionista, onde tudo gira em torno do próprio eu, onde não há espaço para o Outro e os outros, onde a Misericórdia não tem como agir para poder transformar a pessoa. A palavra latina humilitas está relacionada com húmus, com terra. Ser humano é reconhecer-se terroso, argiloso; é por essa razão que somos todos irmãos já que somos todos feitos de argila. Somos argilae devemos cuidá-la, cultivá-la e fornecer-lhe as condições para mantê-la aberta ao Transcendente. A humildade é a própria essência do ser humano; ela é a própria condição para ser aquilo que se é: para ser humano. Essa é a verdade de nossa humanidade. Somente o humilde, que está preparado para abraçar seu húmus, sua humanidade, sua fragilidade, sua sombra, experimentará o Deus verdadeiro. Só a aceitação de sua verdade completa conduzi-lo-á no caminho da libertação. E a verdade é que em cada um jazem unidas a luz e a sombra. Em cada santo dorme um pecador, e não reconhecer isso conduz ao farisaísmo e ao moralismo; mas em todo pecador dorme também um santo, e não o perceber supõe um empobrecimento humano, desesperança e vazio. Numa espiritualidade perfeccionista, o ideal é o ser humano puro, sem defeitos nem fraquezas. Mas isso leva a um rigorismo moral, contra quem se dirige a parábola do publicano e do fariseu. Aqui está a aparente contradição da espiritualidade cristã: nós “subimos” para Deus precisamente quando descemos à nossa realidade humana. Nesse sentido, o caminho para Deus não é visto como uma estrada de mão única que nos leva sempre para o alto, em direção às virtudes e à perfeição. Pelo contrário, o caminho para Deus passa pela limitação e fragilidade, pelos erros e desvios enganosos, pelo fracasso e pela decepção consigo mesmo. Quem se identifica com ideais muito elevados, quem se exalta a si mesmo na busca da perfeição, mais cedo ou mais tarde terá de confrontar-se com suas sombras, será forçado a tomar consciência de sua condição humana e terrena, de seu húmus. Quem desce até sua própria realidade, até os abismos do inconsciente, até a escuridão de suas sombras, até a impotência de seus próprios sonhos, quem mergulha em sua condição humana e terrena e se reconcilia com ela, este sim, está subindo para Deus, faz a experiência do encontro com o Deus verdadeiro. Na parábola acima mencionada, os dois personagens correspondem a dois aspectos de nossa própria pessoa. Vive em cada um de nós um eu prepotente, que se considera justo e rejeita todo o imperfeito; é o eu rígido, fruto da super-exigência, que se identifica com a imagem idealizada de nós mesmos e se alimenta do orgulho. Mas junto a ele, e com frequência sufocado, vive outro eu que teve de esconder-se porque não se sentiu reconhecido em sua verdade nem aceito em seus limites. A parábola revela-nos que a reconciliação virá por esse lado. Precisamos abraçar toda a nossa frágil realidade, em toda a sua verdade e, a partir dessa humildade, começar a viver em gratuidade e em gratidão. A parábola nos fala da necessidade de acolher o desprezível que descobrimos em nós, de receber amorosamente em
Educação, fé e política: uma reflexão sobre as ações

Ao observar o cenário político atual, questiono-me sobre o papel exercido pela educação, pela fé e pela política nos dias de hoje. O papel da educação, no decorrer dos tempos, foi se emoldurando de acordo com a sociedade e o objetivo específico desta. Nas sociedades primitivas, o conhecimento era transmitido de forma informal e baseado na busca pela sobrevivência. Com a divisão social, o papel da educação se transformou, uma vez que se adequou à necessidade de determinado tipo de classe. Entendo ser, nesse momento, que a política grita e determina a forma como a educação vai se dar, nesse contexto, para a manutenção das classes sociais. Mas o que, de fato, é a política e o que ela determina na educação? Aqui cabe uma conceituação: estamos falando de política como os procedimentos relativos a uma sociedade e não da política partidária ou de partidarismos. Assim, a política, desde os primórdios, influenciou a forma de transmissão de conhecimento que se desenvolveu ao longo do tempo e da história, como fonte de conhecimento e poder das classes dominantes, cujo objetivo era a perpetuação do poder daqueles que o mantinham. Agora que já falamos sobre o conceito de educação, de política e como eles conversam historicamente, vamos falar sobre fé: o que vem a ser fé? Que diálogo a fé desenvolve com a política e com a educação? Creio que, quando analisamos o contexto social em que nos encontramos hoje, vemos nitidamente a fé explícita em nossas ações. A crença de que tudo vai dar certo, a positividade nos detalhes e, mais ainda e primordialmente, em nossos pensamentos. Você acredita na educação? Você crê que a educação transforma uma sociedade? Pois aí reside o verdadeiro sentido da fé… É a crença, é o crédulo, é a chama que acende e nos faz seguir independentemente de qualquer tipo de obstáculo. O cenário político hoje nos permite entender a educação de modo mais democrático. As informações chegam mais assertivamente. Com o advento da internet, a aprendizagem se tornou um processo mais dialético, visto que o indivíduo se entende como protagonista de seu saber e busca, por si só, o conhecimento. Assim, a criticidade de quem aprende por outras vias, e não somente pela escola, vem ao encontro da forma como hoje a sociedade se desenha: permeada de pluralidade. Hoje a educação se propaga de modo mais libertário e progressista, buscando um meio mais justo e democrático de aprender sobre o mundo. Como na poesia de Vinícius de Moraes, “Não há você sem mim e eu não existo sem você”, a política organiza uma sociedade, a fé nos leva às ações intencionais, porque acreditamos que podemos realizá-las, e a educação nos traz a transformação, aquela que, há tempos, esperamos para ver explicitamente em uma educação democrática. Ver hoje a educação como uma ação transformadora e permeada de intencionalidade denota o real sentido da conversa entre esses três entes inicialmente conceituados individualmente. Educação, política e fé, por sua natureza, caminham de mãos dadas, objetivando a reflexão para a ação, na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Renata Bastos de Assunção TavaresProfessora do 2º ano do ensino fundamental do Colégio Imaculado Coração de Maria, no Rio de Janeiro-RJ, supervisora educacional da Diretoria de Educação Superior da Rede Faetec no Rio de Janeiro e especialista em Psicopedagogia Institucional e Clínica.
Canoas: voluntários do CES Mãos em Ação minimizam a fome

O Dia Internacional para Erradicação da Pobreza, lembrado em 17 de outubro, busca conscientizar governos e sociedades do mundo inteiro sobre a quantidade de pessoas expostas à miséria e à fome. A data foi instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU), que entende que acabar com a pobreza extrema está no cerne dos esforços mundiais para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, um conjunto de 17 tópicos e um apelo global à ação. Diante desse desafio, cada iniciativa que enxerga a necessidade do outro deve ser valorizada. E um desses esforços é o grupo CES Mãos em Ação, criado no Colégio Espírito Santo, de Canoas-RS, em 17 de agosto de 2021. A iniciativa envolve as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, funcionários, professores, estudantes e famílias da escola, além de motoristas de transporte escolar. O coordenador do CES Mãos em Ação, Sérgio Velasques Garcia, conta que o grupo realiza campanhas permanentes de arrecadação. Com os alimentos doados, são preparadas refeições a serem entregues para pessoas em situação de rua e moradores de comunidades carentes de Canoas e Porto Alegre. “Nossa primeira ação aconteceu em 9 de setembro de 2021, com 150 marmitas”, relembra Marta Angra de Moraes, voluntária e secretária do colégio. Ao longo do primeiro ano de atividades, o grupo preparou e distribuiu 1.952 marmitas. Roupas, calçados e materiais de higiene são outros donativos recebidos pelo grupo, em tarefas de responsabilidade social da gincana da escola. Tudo é distribuído principalmente durante as ações realizadas no inverno. Já os brinquedos doados na gincana são entregues em festividades realizadas pelo Dia da Criança e Natal. Entre os voluntários do CES Mãos em Ação estão estudantes e seus familiares, que são convidados a participar de todas as atividades do grupo, desde a arrecadação de itens, passando pela elaboração das refeições, até a distribuição das marmitas. “É muito gratificante. Quando a gente retorna para casa, a gente pensa muito que as pessoas têm fome e precisam do apoio de todos nós”, afirma Marcia Mirandola, voluntária e mãe de aluna do CES. A diretora do Colégio Espírito Santo, irmã Maria Sônia Muller, elogia a proposta do grupo, que é dar de comer a quem tem fome: “CES Mãos em Ação, eu acho que este nome é muito próprio, por tudo o que está acontecendo aqui. Fico sempre muito edificada quando vejo este grupo silencioso, que se reúne em torno daquele que está com necessidades. Então este gesto, eu tenho absoluta certeza, agrada muito a Deus”. Assista aos vídeos e saiba mais sobre o CES Mãos em Ação. Para saber mais CES Mãos em Ação: https://instagram.com/cesmaosemacao Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs Marcos Vinícius MerkerJornalista no Colégio Espírito Santo de Canoas-RS, membro da Equipe de Comunicação das SSpS Brasil.
“Das profundezas, Senhor, clamo a ti…” (Sl l30,l)

“E Deus, não fará justiça aos seus escolhidos, que dia e noite gritam por Ele?” (Lc 18,7) Na oração, mergulhamos em Deus e liberamos em nós profundidades que desconhecemos. Se a nossa oração for um autêntico face-a-face com Deus, ela deverá fazer emergir à nossa consciência as profundidades desconhecidas do nosso ser.Descobriremos recursos, potencialidades de conhecimento e de amor ainda inexploradas, que nascerão para a vida sob a ação do olhar de Deus. Ele é a verdadeira fonte do nosso ser, mais próxima de nós do que nós de nós mesmos. Quando mergulhamos nas profundidades do oceano interior ficamos fascinados pelo esplendor daquilo que contemplamos. Esse mundo de silêncio e riquezas torna-se inesquecível para nós. O evangelho deste domingo nos ajuda a buscar inspiração para a chamada “oração de petição”. Não pedimos humilhados, temerosos, como o servo diante de seu senhor. Não se trata de “informar” a Deus, mas “educar nossos olhos” para descobrir sua presença amorosa e providente; não convencer a Ele, mas convencer-nos, animar-nos e converter-nos para entrarmos no fluxo do Amor divino. Então, todos os sentimentos e desejos, situados em sua justa relação, podem brotar no nosso coração orante: agradecer, adorar, deixar-nos inundar pela confiança e perdão… O ser humano é um indigente que pede, descobrindo Deus em seu interior, pedindo com Ele e n’Ele. “Clamar” nos desperta para entrar em sintonia com a presença divina que nunca nos abandona. Toda a vida é isto: pedir, buscar, clamar… Evidentemente, aquele que pede, busca e clama está se colocando em movimento, está caminhando, está saindo de si… A oração é mobilizadora, nos arranca da passividade e nos faz entrar em sintonia com o querer e o desejo de Deus: que vivamos intensamente. Tudo é de Deus em nossa vida, mas tudo é nosso. Nós vamos nos tornando mais gente (mais humanos) na medida em que somos oração. Nessa direção se situa a parábola da viúva deste domingo, a quem a lei e o direito não lhe davam segurança; só lhe restava seu rosto indignado e seu grito suplicante para exigir justiça, sendo assim capaz de impactar e mudar o coração de um juiz iníquo. Nas parábolas de Jesus aparecem muitas mulheres: a que perdeu a moeda (Lc l15,8-10), a viúva que depositou dois trocados no cofre do templo e era tudo o que tinha (Mc 12,41-44), a pobre viúva, corajosa, que enfrentou um juiz (Lc 18,1-8). Elas nunca são apresentadas como discriminadas, mas com toda sua dignidade, à altura dos homens. Na tradição bíblica, a viúva é, junto com o órfão e o estrangeiro, o símbolo por excelência da pessoa indefesa que vive desamparada, a mais pobre dos pobres. A “viúva” é uma mulher sozinha, sem a proteção de um esposo e sem apoio social algum. Só tem adversários que abusam dela. Na parábola deste domingo, a viúva é apresentada como modelo de atitude diante de Deus pela sua persistência, pela sua coragem frente a um juiz surdo à voz de Deus e indiferente ao sofrimento dos oprimidos. Ela não desiste, continua lutando por si mesma e por seu direito à vida, indo ao juiz dia após dia. A pobre viúva, longe de resignar-se, clama por justiça; ela não tem outra coisa a não ser sua voz para gritar e reivindicar seus direitos. Toda sua vida se transforma num grito de protesto: “faze-me justiça!”. Seu pedido é o de todos os oprimidos injustamente. Um grito que vai ao encontro daquilo que Jesus dizia aos seus seguidores: “Buscai o Reino de Deus e sua justiça”. Podemos também interpretar a parábola do juiz e da viúva como uma imagem do nosso interior: lugar da nossa intuição que nos diz que possuímos um brilho divino, que somos seres originais, filhos e filhos de Deus. Nosso interior representa os sonhos que carregamos durante nossa vida, os recursos que ainda não foram mobilizados, as possibilidades que não foram ativadas… Nele se faz visível algum traço do rosto do Deus vivo, afinal, nosso eu profundo é sua morada sagrada. Mas, nosso interior carrega também um tribunal com um juiz frio e insensível, que, numa postura arro-gante, nos julga de forma excessivamente dura, e, às vezes, nos rejeita e nos condena constantemente; ele emite juízos taxativos, cortantes, condenatórios, alimentando em nós sentimentos de culpa e impotência. Ele tem o catálogo de leis nas mãos e é implacável mesmo diante dos mínimos deslizes, distribuindo prêmios (poucos) e castigos (abundância). Em cada um de nós o instinto de julgar está enraizado profundamente; podemos até dizer que todos nascemos portadores de uma cátedra de juiz. Muitos cultivam ardorosamente esta vocação de juiz e encontram abundantes ocasiões para praticar juízos, sobre si mesmos e sobre os outros, submetendo-se a um horário esgotador. Daí a proliferação de “tribunais ambulantes e permanentes”. No Evangelho, nos encontramos com algumas expressões categóricas que nos convidam a abandonar este ofício bastante perigoso. Muitos, com seu amadurecimento, ficam persuadidos de que existem coisas mais importantes a fazer do que dedicar-se a serem juízes. Embora se trate de uma grave enfermidade, esta “síndrome de juiz” é curável. Existem muitas terapias que podem arrancar a cadeira do juiz e desalojá-lo de seu ofício. Na parábola da viúva e do juiz injusto Jesus nos mostra como podemos conviver com o juiz interior. Como a viúva, nós nos vemos ameaçados por um inimigo – pode ser um inimigo interior ou exterior ou um padrão de comportamento que não nos permite viver com serenidade e paz. Nesse contexto, o juiz representaria nosso juiz interior, que nos despreza continuamente e nos julga desprezíveis por termos ideais tão altos ou exigências tão ambiciosas para nós mesmos. Nessa interpretação, a oração também passa a ser o lugar onde nosso interior encontra justiça, onde o juiz interior é desapoderado. Na oração nos tornamos cientes da nossa dignidade como seres humanos, que fomos criados por Deus e que Ele nos julga capazes de realizarmos nossos desejos. Por meio dela, entramos em contato com a imagem única e singular que o Pai tem de nós;
Nossa Senhora Aparecida: presença que toca o coração

Doze de outubro é um dia especial para nós, cristãos brasileiros. É a data em que comemoramos a festa da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. Sob esse título, cultuamos e veneramos a Mãe de Deus, Maria. Ela foi a escolhida para ser a Mãe de Deus, Jesus Cristo, nosso Salvador. Por que Deus a escolheu, não nos cabe especular sobre os critérios do Senhor, mas aceitar o mistério de Deus que se revelou na encarnação de Jesus. Nós, no Brasil, veneramos Maria sob o título de Aparecida. Todos sabemos o porquê desse “aparecida”. Ela apareceu sob forma de uma imagem quebrada, pescada no rio Paraíba do Sul. Primeiro o corpo, depois a cabeça. Juntados, tornaram-se o ícone mais importante para o culto mariano no Brasil. Uma pequena imagem que mostrou o rosto de uma “mãe morena” que, no início, tocou o coração dos pescadores e seus familiares, depois foi tocando o coração dos vizinhos e se alastrando, e atraindo mais e mais gente até se tornar a padroeira do Brasil. Que fato extraordinário foi esse que atingiu o Brasil do sul ao norte, do leste ao oeste? A devoção à Aparecida está presente em milhares de igrejas e capitéis dedicados a ela, e em milhões de imagens nas casas de famílias. A presença da imagem nas casas não é um enfeite, mas uma presença “misteriosa” que toca o coração das pessoas. Diante dela, fazem suas orações e práticas piedosas. Maria se torna presente e participante (“membro”) da família que a acolhe. Desperta confiança, proteção e fé. Ela mexe com o íntimo das pessoas que rezam diante dela suas “Ave-Marias”, em que a saúdam com a saudação do Anjo, ao anunciá-la como a agraciada de Deus; bendizem-na como Isabel, agradecida por sua visita; reconhecem-na como Santa Maria e a ela pedem que rogue por eles, agora, por suas necessidades diárias, mas também a querem na hora final, na hora da morte. Maria é esperança, é confiança, é companheira, é mãe, é amor carinhoso. É presença que traz segurança. Nós queremos bem a ela, nós a amamos. Ela é e sempre será nosso modelo de seguidora fiel de seu Filho. Por ela, vamos a ele, e Ele nos confirma que Ela é nossa Mãe: “Filho, eis tua Mãe” (João 19,27)! Ave Maria, cheia de graça… Será sempre nossa padroeira. Rogue por nós e por nosso Brasil, hoje e sempre, Santa Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe. Amém. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S
Mal do século: conheça mais sobre o transtorno de ansiedade

De repente, você se encontra irritado com pessoas que você considera lentas de raciocínio e de atitudes. É como se você fosse um carro na estrada com capacidade para correr até 200 km/h, mas tivesse de acompanhar outro carro que está correndo a 30 km/h. Pode ser também que você tenha tido insônias inexplicáveis, muito suor nas mãos e na fronte, o coração tenha acelerado facilmente. A pressão arterial não baixa mais. Surge subitamente um aperto no peito, sem explicação. Uma agonia, um medo irracional, uma tremedeira, náuseas. Talvez nada o satisfaça no dia a dia, e a vida tenha se tornado um tédio. Em casos mais graves, até o cabelo começa a cair. Então a “solução” é descontar na comida para preencher um vazio físico e psicológico. O cigarro surge como um paliativo, assim como a bebida alcoólica e outros vícios. Pode ser ainda que, para amenizar sua dor, você começa a se ferir com objeto cortante. Se você se identificou com muitos dos sintomas acima, é possível que você esteja com o transtorno de ansiedade, em nível médio, moderado ou grave. A princípio, a ansiedade é saudável. Na vida, precisamos de certo nível de ansiedade. Sem ela, seríamos pessoas lentas, entediadas, sem criatividade, passivas, preguiçosas. No entanto, ela se torna um transtorno quando afeta nossa saúde mental e nosso convívio social. A ansiedade tem sido considerada o mal do século. Só no Brasil, cerca de 9,3% da população sofre de algum transtorno de ansiedade, liderando o ranking das nações mais ansiosas do mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Ela pode ainda ser definida como excesso do amanhã e ausência do hoje. “A ansiedade se torna doentia quando assume sintomas psíquicos negativos contínuos e intensos, como irritabilidade, humor depressivo, angústia, baixo limiar para frustrações, fobias, preocupações crônicas, apreensão contínua, obsessão, velocidade exacerbada dos pensamentos”, segundo o psiquiatra, professor e escritor Augusto Cury. Ele atribui as causas da ansiedade a vários elementos: estilo de vida, ambiente, relações sociais, fatores socioeconômicos, etc. Alguns tipos de ansiedade Ansiedade socioprofissional: provocada pelo excesso de trabalho, pressões, cobranças, metas inalcançáveis, ofensas, medo do futuro, crise política, dificuldades financeiras, pressão nas provas escolares. Vivemos frequentemente em famílias ansiosas, empresas ansiosas, escolas ansiosas. Ansiedade causada pelo estilo de vida moderno: decorrente do trabalho intelectual intenso, tempo prolongado diante da tevê, excesso de informações (mas não de formação), excesso de preocupação, excesso do uso de smartphones e da internet, consumismo, necessidade neurótica de poder, de evidência social, de preocupar-se com a estética. Sugestões para amenizar a ansiedade Escreva seus pensamentos e sentimentos (crianças, jovens e adolescentes). Faça uma coisa de cada vez. Abandone a necessidade de controlar tudo. Faça exercícios físicos. Trabalhe a respiração. Concentre-se no presente. Viaje para outro ambiente, interior… (quando possível). Mudança de hábito em relação à comida e à bebida. Sintomas físicos: exercícios físicos, meditação. Psicoterapia: procure o profissional mais adequado para você. Ajuda médica. Desenvolva a assertividade e delegue tarefas. Cultive habilidades sociais de amizade, retomando a vida social. Lembre-se: descanso é diferente do lazer. Conselho de Jesus Sugestão de leitura bíblica do maior psicólogo que já existiu, Jesus Cristo (Mateus 6,24-34): “Ninguém pode servir a dois senhores; pois, ou odiará um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro. Por isso eu vos digo: não vos preocupeis com vossa vida, com o que havereis de comer ou beber; nem com o vosso corpo, com o que havereis de vestir. Afinal, a vida não vale mais do que o alimento, e o corpo, mais do que a roupa? Olhai os pássaros dos céus: eles não semeiam, não colhem nem ajuntam em armazéns. No entanto, vosso Pai que está nos céus os alimenta. Vós não valeis mais do que os pássaros? Quem de vós pode prolongar a duração da própria vida só pelo fato de se preocupar com isso? E por que ficais preocupados com a roupa? Olhai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam. Porém, eu vos digo: nem o rei Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é queimada no forno, não fará ele muito mais por vós, gente de pouca fé? Portanto, não vos preocupeis, dizendo: ‘O que vamos comer? O que vamos beber? Como vamos nos vestir?’. Os pagãos é que procuram essas coisas. Vosso Pai, que está nos céus, sabe que precisais de tudo isso. Pelo contrário, buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo. Portanto, não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá suas preocupações! Para cada dia bastam seus próprios problemas.” Aparecido Luiz de SouzaPsicólogo (CRP 08/149) e missionário da Congregação do Verbo Divino. E-mail cidosouza1@hotmail.com.
Compaixão e gratidão: sentimentos humanos mais nobres

“Mestre, tem compaixão de nós!” (Lc 17,13)“…atirou-se aos pés de Jesus, com o rosto por terra, e lhe agradeceu” (Lc 17,16) Jesus está a caminho, quase chegando à etapa final da viagem: Jerusalém. A estrada é a vida e a missão de Jesus, enviado para revelar o rosto misericordioso de Deus aos homens. A sua estrada é marcada pela solidariedade e cuidado para com os mais excluídos e sofridos. Entre Jesus e aquela estrada, que conduz a Jerusalém, há uma relação vital: Ele é o “autor” daquela estrada; Ele é a estrada do cumprimento da vontade de amor e de salvação do Pai; Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. Essa estrada deverá ser a mesma também dos discípulos, a do seguimento, a que conduz à Cidade santa, à plena bem-aventurança. Um Caminho que faz viver e realiza a comunhão em plenitude. Logo que Jesus entrou na aldeia, “dez leprosos” foram ao seu encontro. Pela narração do evangelista, temos a impressão de que não há mais ninguém na cena: Jesus parece estar sozinho com os leprosos. A aldeia se apresenta surpreendentemente vazia. É óbvio, os leprosos deviam estar separados e longe de todos. Na verdade, a lepra era entendida como manifestação de uma condição de pecado. Os leprosos, embora mantivessem a devida distância, vão ao encontro de Jesus, gritando. Aqueles pobres miseráveis O buscam como o “misericordioso”: “Jesus, mestre, tem compaixão de nós!”. É uma oração surpreendente, na qual o homem de Nazaré é chamado pelo próprio nome. Jesus, por sua vez, pousa sobre eles o seu “olhar” e os envolve com tanta atenção e sedução, que os dez não hesitam, nem um momento sequer, em pôr em prática, com confiança, a ordem que lhes foi dada: “Ide apresentar-vos aos sacerdotes”. Assim, Jesus se põe com eles na estrada da esperança, na estrada da experiência da solidariedade que cura e os acompanha, mesmo de longe, até aos sacerdotes. A recuperação da saúde deles se torna também re-inserção na sociedade, no espaço familiar e na comunidade religiosa. Eles não serão mais rejeitados. Dois sentimentos nobres são des-velados no relato deste domingo: a compaixão e a gratidão. Dois sentimentos que se expressam como duas atitudes básicas na vida; por um lado, revelam a maturidade da pessoa e, por outro, tornam possível uma convivência harmoniosa e construtiva. Mas, como toda arte, tais atitudes requerem um cuidado expresso e cotidiano. A partir do contexto e da situação em que cada um se encontra na vivência destes sentimentos nobres, sempre é possível dar passos nessa dupla direção, favorecendo conscientemente ser compassivos e agradecidos. Considerados pecadores e condenados ao ostracismo, afastados de qualquer convivência social e de todo contato humano, com proibição expressa de se aproximarem de qualquer pessoa, os leprosos padeciam, esperando a morte, em colônias mais ou menos numerosas. Compreende-se que, nessa situação, clamassem por compaixão. O ser humano sempre precisa que os demais “se coloquem em sua pele”, compreendam sua situação e seu comportamento. Mas essa necessidade se faz mais aguda quanto mais frágil e vulnerável se sente. Esse é o significado profundo do termo “compaixão”: sentir com o outro e agir como consequência, buscando uma solução para a situação de extrema necessidade. Jesus vive uma contínua travessia e sai ao encontro dos oprimidos e excluídos de todo tipo. Preocupa-se com todos os que encontra em seu caminho, sobretudo aqueles que estão atrofiados em sua vida. Sem a compaixão de Jesus, o relato seria impossível. É da margem da exclusão que brotam os clamores por compaixão; e Jesus, com sua sensibilidade ativada, deixa-se afetar pelos gritos dos excluídos. Os leprosos pedem compaixão a Jesus. Desejam ser compadecidos, perceber que sua desgraça não passa desapercebida e sentir o calor da compreensão de alguém significativo e com autoridade. Novamente, Jesus revela que só a compaixão não é suficiente e que permanecer na esfera dos sentimentos não soluciona o problema. Requer-se uma ação que ajude à pessoa a recuperar sua dignidade. Esta é a chave da misericórdia, ou seja, colocar o coração-ação na miséria humana e restaurá-la a partir de dentro. A gratidão, por sua vez, tem a ver com nosso ser essencial, pois ativa o que há de melhor em nós. Ela nasce do nosso eu profundo e flui por todos os membros, passa por todos os poros do nosso corpo. Não deixa sem tocar nenhuma parte do nosso ser. Abarca tudo o que somos e desperta o melhor que possamos imaginar ou que possamos aspirar. No evangelho de hoje é, precisamente, alguém vindo de fora, desprezado pelos de dentro, o único que sabe reconhecer o dom recebido de Deus, dando uma magistral lição àqueles que não souberam agradecer. Só um retornou para dar graças; só um se deixou levar pelo impulso vital da gratidão. Os outros nove (supõe-se que eram judeus), se sentiram na obrigação de cumprir o que a lei mandava: apresentar-se ao sacerdote para que lhe declarasse puro e pudesse ser reintegrado à sociedade. Para eles, voltar a fazer parte da instituição religiosa e social era a verdadeira salvação. Os nove voltam a submeter-se ao abrigo da instituição: vão ao encontro com Deus no templo e nos ritos. O Samaritano, no entanto, sentiu ser mais urgente voltar para agradecer. Foi aquele que se deixou conduzir pelo coração, porque, livre das ataduras da lei, se atreveu a expressar sua vivência profunda. Este, encontra a presença de Deus em Jesus. É mais importante responder vitalmente ao dom de Deus que o cumprimento de alguns ritos externos. Pois, foi Deus mesmo quem, ao criar-nos gratuitamente no amor, nos ensinou a “sermos gratuitos e gratos”. A gratidão é um sentimento que enriquece as relações e eleva o “tom vital” da pessoa agradecida. Quem vive a gratidão manifesta um dinamismo aberto, cordial e animoso, praticamente imune ao desalento. A gratidão nasce da vivência da gratuidade e caminha de mãos dadas com a aceitação de que tudo é dom. Quando se percebe que tudo é graça, não se pode viver sem agradecimento. E quando se
A educação deve conduzir ao acolhimento, à solidariedade e ao compromisso social

Sempre que pensamos na formação básica de nossos jovens e crianças, automaticamente projetamos em nossa imaginação esse momento dentro de uma sala de aula. O fato é que, atualmente, com as necessidades cada vez mais emergentes em nossa sociedade tão fragilizada, a educação precisa sair, e sobretudo agir, para além dos muros da escola. Essa ação, muitas vezes, deve acontecer em ambientes bem diferentes daqueles cenários clássicos com carteira, giz e apagador. Proporcionar ao estudante a sensação de ser um verdadeiro agente de transformação no mundo é também uma responsabilidade dos educadores e da escola do futuro. O problema é que esse futuro já bate à porta, com cenas bem reais e atuais, nos cobrando ações rápidas e eficazes. Como então levar a escola a enxergar os problemas que nos cercam fora dela? Mesmo que esse educador de um futuro tão presente ensine matemática, é possível trazer para perto realidades que aos estudantes sejam distantes, por exemplo, a má distribuição de alimentos ou até mesmo o desperdício desordenado desses alimentos. E por que não visitar uma feira livre com a intenção de conscientizar as pessoas de uma economia doméstica que não abra espaço ao desperdício e possa, de várias maneiras, colaborar com a alimentação de centenas de pessoas que vivem, à própria sorte, nas ruas dos grandes centros urbanos? A educação tem a grandeza de transformar vidas pelo conhecimento ou pelo simples fato de nos mostrar que, sozinhos, não há a possibilidade de aprender e de ensinar nada; esse movimento precisa ser coletivo. Particularmente, tenho tido a experiência de acompanhar os alunos do nono ano do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP, a visitas semanais ao Centro de Integração do Migrante (CIM), também na capital paulista. Essa experiência tem sido enriquecedora aos estudantes, sobretudo por terem a oportunidade de vivenciar realidades tão distintas daquelas que estão acostumados em seu dia a dia. No contato com as crianças atendidas diariamente no CIM, os estudantes estão desenvolvendo, junto da equipe pedagógica, atividades lúdicas e reflexivas com essas crianças. Dessa maneira, modificam não apenas a vida dos pequenos, mas também suas próprias realidades. Quando o estudante retorna de uma visita e, em casa, junto da família, partilha sua experiência, suas visões e sua reflexão pessoal, ele multiplica, dentro do próprio lar, essa ação missionária. Muitas vezes, isso faz com que ela se amplie ainda mais e de diversas outras maneiras. Assim também ocorre nos corredores da escola, onde os estudantes comentam entre si as experiências vividas e planejam, em conjunto, outras ações transformadoras. A semente da solidariedade pela educação, dentro e fora do ambiente escolar, precisa ser plantada e cultivada, para que possa florescer, daqui a um tempo, uma realidade tão clássica na sala de aula como o giz e o apagador. Oxalá podermos contemplar a transformação do mundo a partir do coração puro e generoso das crianças e jovens que vivenciam sua formação humana e acadêmica. Thiago Wolf RaimundoProfessor de Ensino Religioso no Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP.
Saúde e esperança: conheça a missão da irmã Agnes Knips

Desde dezembro de 1988, a irmã Agnes Knips, missionária serva do Espírito Santo, trabalha na Pastoral da Saúde da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, no Jardim Pedreira, em São Paulo. Ela visita em torno de 150 enfermos e, todo ano, ela e sua equipe organizam três missas para eles. Também ela dá cursos para gestantes e, duas vezes por semana, conduz aulas de ginástica para quase 60 mulheres da terceira idade. Na farmácia popular da paróquia, fornece medicamentos para pessoas carentes. Desde 1993, por meio do “Centro de Promoção Humana Nossa Senhora Aparecida”, mantém, na Comunidade Abacateiro, o “CEI Meu Abacateiro”, com atualmente 124 crianças de 0 a 3 anos. No anexo, o “Espaço Educacional Santo Arnaldo Janssen” acompanha 64 crianças e adolescentes de 6 a 14 anos, no projeto “Crê-Ser”. Sem a iniciativa, que não conta com a ajuda do governo, os adolescentes poderiam estar na rua e sujeitos a se envolverem com as drogas.