Semana Santa: os grandes momentos de Deus em nossa história

A cada Semana Santa que celebramos, revivemos os maiores mistérios de nossa fé. Na Quinta-Feira Santa, entramos no mistério eucarístico. Jesus institui o sacerdócio e a Eucaristia. Como entender em profundidade o mistério que aí se esconde? Jesus toma pão e vinho, e sem mudar suas aparências e características físicas e químicas, transformam-nos em seu corpo e sangue. Quem deles comunga, come e bebe o corpo e o sangue de Cristo, com gosto de pão e de vinho. Se dissesse a uma criança que ali está Jesus, ela talvez não entenderia, porque ela ainda não consegue “ver” com os olhos da fé. Ela poderia dizer que comeu apenas um pãozinho e nada mais. É preciso estar imbuído da Palavra de Jesus, que afirma que ali é Ele quem está presente, em sua realidade plena. Após a consagração, ao ouvir “isto é mistério da fé”, respondemos, com convicção, que nós reconhecemos, afirmando que ali se realiza a morte e a ressurreição, e aguardamos ansiosamente a vinda de Jesus. O celebrante (padre, bispo, Papa) o faz não em seu nome, mas em nome de Cristo. Jesus conferiu esse poder ao sacerdote pelo sacramento da ordem por Ele instituído na Quinta-Feira Santa. “Todas as vezes que o fizerdes, fazei-o em memória de mim” (1 Coríntios 11,24). Eis aí os mistérios da Quinta-Feira Santa. Na Sexta-Feira Santa, celebramos a paixão e morte de Jesus. Também aí se esconde outro mistério de nossa fé. Quem poderia imaginar que o próprio Deus tomasse corpo humano e o oferecesse livremente à morte de cruz, como prova definitiva de amor por nós, num gesto salvífico que atingiu a todos os que vieram antes de dele e os que nasceram depois ou ainda virão enquanto o mundo existir? Não haverá outra redenção; a de Cristo foi definitiva. A força desse gesto ultrapassa séculos e gerações. É todo o Universo redimido nessa cruz salvadora. No Sábado Santo, celebramos o grande mistério da ressurreição. Cristo ressuscita dos mortos. O crucificado se manifesta vivo diante de testemunhas, que se tornam portadoras de sua mensagem para todos os povos, tempos e recantos do mundo. O “aleluia” proclamado manifesta a alegria do mistério aceito, no qual se coloca todo o sentido da vida e da morte. É um eco que ressoa no universo e canta o hino eterno junto com o coro dos anjos e santos. O “Exultet” (exultem) proclama a grande Páscoa, que não é mais uma passagem por águas oceânicas, mas a que vai para além dos níveis terrenos, alçando-se nos albores eternos. No Domingo da Páscoa, a grande festa cristã se estende para um perpétuo “Dia do Senhor”, recordado em cada Eucaristia celebrada em milhares de igrejas, templos, capelas e outros recantos sagrados. Resplandece, nesse dia de Páscoa, o mistério da ressurreição, que selou para sempre a redenção e a salvação. A Semana Santa, que ocorre cada ano, revive esses grandes mistérios que dão sentido à fé cristã e razão de viver para e dos cristãos. Que os mistérios de nossa fé celebrados na Semana Santa encham sua vida de um “aleluia” alegre e festivo, porque, mais uma vez, podem-se viver os grandes momentos de Deus em nossa história humana. Feliz será você quando vivenciá-la nas celebrações de que participar, celebrando os mistérios de nossa fé! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.
Jerusalém: uma “praça da alimentação”

“Quando Jesus entrou em Jerusalém, a cidade inteira se agitou, e diziam: ‘Quem é este homem?’” (Mt 21,10) Jesus participava do sonho de todo o povo de Israel que via em Jerusalém a cidade da promessa de paz e plenitude futura, lugar da acolhida, ambiente fecundo onde ninguém passaria fome, pois todos teriam o direito de participar da “grande mesa do pão”. A tradição profética havia anunciado uma “subida” dos povos, que viriam a Jerusalém para iniciar um caminho de comunhão e justiça, e adorar a Deus no Templo, que estaria aberto para todos. Toda a cidade se converteria num grande Templo, lugar da inclusão e da partilha, onde se cumpririam as esperanças dos povos. Com sua entrada em Jerusalém, Jesus quis recuperar a cidade como lugar do encontro e da comunhão, como espaço da paz e da solidariedade…, desalojando aqueles que se fechavam a qualquer tentativa de mudança. Por isso, seu gesto provocativo e escandaloso de entrar na cidade montado num jumentinho, símbolo da simplicidade e do despojamento de qualquer pretensão de poder e força, causou violenta reação naqueles que se beneficiavam da estrutura política e religiosa da cidade. Jesus entrou em Jerusalém rodeado pelo povo simples. Este povo, escravo e oprimido, o aclamou porque viu n’Ele uma luz de esperança, de vida, de libertação; escutou seus ensinamentos e viu seus feitos durante alguns anos; sentiu-se tocado pelas palavras de vida, de justiça, de amor, de misericórdia, de paz… Também viu seus gestos de cura dos enfermos, de defesa dos fracos, de oferta de alimento aos famintos, de reabilitação dos desprezados, de acolhimento dos marginalizados, de denúncia dos opressores… Jesus quis continuar anunciando e realizando na cidade de Jerusalém aquilo que fizera na região excluída da Galileia; quis também humanizar esta cidade para que ela fosse sol de justiça e paz para todos os povos. Esta é a cidade que Deus deseja: uma praça da alimentação, uma mesa celebrativa para todos. A praça é de todos e todos podem ter acesso a ela, todos podem circular livremente, criar relações e convivência, fazendo a experiência de serem aceitos e reconhecidos como humanos. A mesa, no centro da praça, é lugar de hospitalidade, de festa e de memória, lugar da partilha do pão e dos frutos da terra. Ali ninguém passa fome. Compartilhar a mesa é o grande símbolo da convivialidade, da reconciliação e da inclusão. O ritual da mesa rompe as distâncias e garante a proximidade, estabelece o estreitamento dos vínculos com o diferente. Junto à mesa, cada um se coloca diante do outro, não importando as diferenças de vida, de opções. A comunhão acontece por meio de um gesto que não é de poder, mas de esvaziamento, não é de apropriação, mas de partilha, não é de fechamento, mas de abertura das mãos que acolhem, que distribuem… A mesa da refeição se torna lugar de humanização do ser humano. Espaço de verdadeira reserva de humanidade. Muitos são aqueles que sabem abrir as mãos, partir o pão, saciar a fome do irmão. Com o gesto do “re-partir” se estabelece uma rede de relações entre as pessoas que aceitam conspirar, co-inspirar,o mesmo ar, o mesmo sonho, a mesma causa. E nada fica como estava… encantamento que faz ressuscitar a vida que já estava morta; refeição que transforma os desertos em mananciais de água. Fazer memória da entrada de Jesus em Jerusalém pode ser uma ocasião privilegiada para transitarmos por nossa Jerusalém interior, um bom espaço onde encontrar a nós mesmos, identificar-nos com os diferentes personagens e sentir-nos parte daquela história. O relato da Paixão de Jesus revela ser também a história de cada um de nós. Porque, afinal de contas, é uma história que aconteceu no passado e continua acontecendo também hoje, em nossa interioridade. E é a partir do hoje que nós temos de vivê-la, numa atitude contemplativa. E é a partir de nós, e não a partir daqueles personagens de então, que teremos de assumi-la. Vamos, então, com Jesus montado num jumentinho, transitar pelas ruas de nossa Jerusalém interna, reconhecendo os diferentes personagens que ali atuam e que significam diferentes atitudes vividas por cada um de nós. Cada personagem do evangelho é um espelho onde nos vemos. Jerusalém não é só uma cidade geográfica, situada na Palestina. Domingo de Ramos nos motiva a fazer o percurso em direção à nossa Jerusalém interior. Mas, para descer em direção a esta cidade, é preciso despojar-nos da vaidade, do prestígio e do poder, montado no jumentinho da simplicidade. Nossa Jerusalém interior é também lugar das contradições e ambiguidades; ali dentro experimentamos a trama de relações conflitivas, ali nos deparamos com as angústias, carências e dúvidas… É preciso cuidar o coração da nossa “Jerusalém interior”, esvaziá-lo, limpá-lo, aquecê-lo, transformá-lo em humilde e acolhedor espaço, para que o Espírito do Senhor possa aí descer e habitar, transmitindo-lhe vida, luz, calor, paz, ternura… É preciso voltar a pôr o “coração de Deus no coração de nossa Jerusalém”. Faz-se necessária uma opção corajosa, como Jesus, para entrar e estar no interior de nossa Jerusalém, para aí descobrir o verdadeiro coração de Deus, que pulsa no ritmo dos excluídos, dos sofredores, dos sedentos. A Campanha da Fraternidade deste ano quer despertar em nós uma sensibilidade solidária com aqueles que são vítimas de uma estrutura social e política que concentra os bens nas mãos de poucos, de maneira especial os alimentos. “Fraternidade e fome” denuncia a vergonhosa chaga social dos famintos em um país que é grande produtor de alimentos. A fome clama aos céus e ressoa em nosso coração; ela é expressão de uma profunda incoerência dos cristãos que se dizem seguidores d’Aquele que veio multiplicar os alimentos. Estamos muito distantes das primitivas comunidades cristãs que “tinham tudo em comum, partiam o pão pelas casas com alegria e simplicidade de coração” (At 2,46). Nosso coração deve se revelar como “praça da alimentação”. O lema da Campanha da Fraternidade deste ano – “dai-lhes vós mesmos de comer” – nos revela que nosso interior é uma reserva de
CF 2023: aprendizados práticos sobre o aproveitamento dos alimentos

A Campanha da Fraternidade de 2023 leva para a sala de aula diferentes possibilidades de abordagem do tema “Fraternidade e Fome”. No Colégio Espírito Santo (CES), de Canoas-RS, por exemplo, as professoras do 4º ano do ensino fundamental aproveitaram para relacionar a temática da campanha ao conteúdo trabalhado neste primeiro trimestre, além de sensibilizar os estudantes para a doação de alimentos para famílias e comunidades em vulnerabilidade social, por meio dos projetos desenvolvidos pela escola. Com o livro didático, os alunos aprenderam sobre os nutrientes dos alimentos e a importância do consumo dos diferentes grupos alimentares para o desenvolvimento saudável. “Depois realizamos conversas sobre o reaproveitamento dos alimentos, a fome no Brasil e no mundo, além de situações em que as pessoas não têm como comprar o que comer”, conta a professora Marcia Cardoso dos Santos. Uma estimativa global, elaborada pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), em 2011, apontou que cerca 30% dos alimentos produzidos do mundo são perdidos ou desperdiçados a cada ano, desde o cultivo até a comercialização. “No Brasil, toneladas de alimentos, que poderiam ser aproveitados por famílias carentes, são jogadas fora todos os dias”, cita a professora Roberta Estivanin Ferreira. Em casa, o desperdício de alimentos ocorre quando se preparam refeições que não são totalmente consumidas e quando se esquecem alimentos guardados na geladeira e no armário até que estraguem ou que o prazo de validade expire. Além de falar a respeito, os alunos participaram de uma atividade prática com a nutricionista do CES, Vânia Pagliarini Alves. Ela ensinou o preparo de suco com a casca do abacaxi e de batatas assadas com casca, salientando a importância de aproveitar bem os nutrientes. “A cozinha é um lugar de muita criatividade”, afirma. Para o melhor aproveitamento dos alimentos, Vânia salienta que é importante observar as sazonalidades. “Alimentos da estação têm maior disponibilidade de nutrientes e são mais saborosos. Frutas e tubérculos que podem ser consumidas com casca também são uma boa medida, como a maçã e a batata. No caso do abacaxi, laranja, bergamota (tangerina ou mexerica), podemos fazer chá ou suco com a casca”, exemplifica. As sobras de legumes de uma refeição podem ser reaproveitadas como parte de sopas ou de tortas salgadas. “Todo o alimento que não for consumido na primeira preparação e que tiver controle de temperatura e de exposição poderá agregar sabor e valor nutricional em outras preparações, como suflês, tortas, sopas e purês”, diz a nutricionista. As turmas também colaboraram com donativos para o projeto Páscoa Solidária, que entregará cestas básicas para as famílias de pessoas com deficiência atendidas pela Acadef, no bairro Nossa Senhora das Graças, em Canoas. Outras doações também serão distribuídas pelo projeto CES Mãos em Ação em comunidades carentes e pessoas em situação de rua. Conheça, no vídeo a seguir, mais detalhes da atividade. Marcos Vinícius MerkerJornalista no Colégio Espírito Santo de Canoas-RS, membro da Equipe de Comunicação das SSpS Brasil.
Missionárias servas do Espírito Santo falam sobre os dez anos do pontificado do Papa Francisco

“Conduzido pelo Espírito Santo, Papa Francisco é um profeta, capaz de chorar por seu povo e também de falar com firmeza quando necessário. Sua coragem e sua autenticidade são virtudes que os cristãos e o mundo apreciam”, afirma a irmã Adriana da Silva, SSpS. Por ocasião dos dez anos do pontificado do Papa Francisco, celebrados em 13 de março de 2023, as irmãs missionárias servas do Espírito Santo (SSpS) manifestaram suas impressões sobre a missão de Francisco como líder da Igreja Católica. “Desde que assumiu seu pontificado, embora num contexto desafiador, mostrou ao mundo a importância da solidariedade, da esperança e do amor, por meio de documentos, cartas, discursos, catequeses e homilias”, acrescenta Ir. Adriana. De acordo com a conselheira-geral, a indiana Ir. Tressa Sebastian Nayathuda, Francisco tem marcado seu pontificado pelas virtudes da humildade, da simplicidade e da abertura. “Esses valores se tornaram visíveis quando lavou e beijou os pés de 12 pessoas, tanto mulheres como homens, na prisão, pouco depois da sua eleição como Papa”, afirmou. Irmã Hermelinda Ruschel ressalta, ainda, a grande capacidade de Francisco de se comover com o sofrimento humano causado pela guerra, pela pobreza. Ela também destaca a preocupação dele com o cuidado da natureza e enfatiza seu esforço em favorecer que as mulheres ocupem seu espaço na Igreja. “Aprecio muito a sua iniciativa de fazer ouvir a voz das mulheres na Igreja e seus esforços para realçar as contribuições delas”, declara. Para a irmã Maria Inês Aragão, o caminho da sinodalidade proposto pelo Papa Francisco é um convite a responder, de forma mais adequada, aos desafios de uma época turbulenta e conflitiva: “Como bom pastor, orienta-nos dia a dia, com lucidez”. Nascida na Indonésia, missionária no Brasil há mais de dez anos, a Ir. Theodora Illi sublinha: “Desde o início de seu pontificado, o Papa Francisco tem se mostrado sempre ao lado dos pobres e marginalizados, cheio de ternura para com os que sofrem”. Acrescenta que “embora respeite os dogmas e as doutrinas, é pela vivência do amor que ele tem chegado ao coração do povo”. “O Francisco da misericórdia e da compaixão, acolhedor e atento aos sofrimentos da pessoa. Como pastor zeloso, ensina e orienta o povo de Deus de como vier a sua fé, no concreto da vida”, diz a Ir. Hermelinda Ruschel, de Ponta Grossa-PR. Papa Francisco carrega, em seu nome, o amor pelos pobres e pela criação de Deus, segundo Ir. Juliana de Andrade. “Apesar de estar longe fisicamente, ele se faz tão próximo de nós e nos convida a sermos Igreja em saída que toca o seu povo com misericórdia.” Assista, a seguir, ao depoimento de Ir. Juliana. Dez anos de pontificado Em 2023, a Igreja Católica celebra os dez anos do pontificado do Papa Francisco, o 266º Sumo Pontífice da maior instituição de caridade do mundo, somando 1,2 bilhão de fiéis. Natural de Buenos Aires (Argentina) e eleito Papa em 13 de março de 2013, Jorge Mario Bergoglio é o primeiro Papa não europeu em mais de 1.200 anos. O Papa, ao recordar sua eleição, sempre fala, com reconhecimento e admiração, sobre o amigo brasileiro, Dom Cláudio Hummes, OFM como a inspiração primeira para o nome Francisco. “Na eleição, eu tinha ao meu lado o arcebispo emérito de São Paulo, um grande amigo. Quando a coisa começou a ficar um pouco perigosa, ele começou a me tranquilizar. E, quando os votos chegaram a dois terços, aconteceu o aplauso esperado, pois, afinal, havia sido eleito o Papa. Ele me abraçou, me beijou e disse: ‘Não se esqueça dos pobres’. Aquilo entrou na minha cabeça. Imediatamente lembrei-me de São Francisco de Assis.” É o primeiro Papa que ousa tomar para si o nome de Francisco de Assis. Assumindo sua identidade espiritual, eclesial, teológica e pastoral, torna-se reconhecido por suas encíclicas que convocam o mundo à fraternidade universal e ao cuidado da Casa Comum, e por desafiar a Igreja à saída de si para uma evangelização ampla, fundada na simplicidade, na pobreza na misericórdia. Rosa M. MartinsMestra em Jornalismo, Imagem e Entretenimento pela Fundação Cásper Líbero, licenciada em Filosofia pela Universidade Salesiana de Lorena (Unisal), bacharela em Teologia pela Pontifícia Universidade São Boaventura de Roma. É missionária scalabriniana e vive em Santo André-SP. Indicada ao Prêmio Tarso Genro de Jornalismo em 2020, foi vencedora do Prêmio Papa Francisco, categoria mestrado, do Prêmio CNBB de Comunicação com a dissertação “Menores estrangeiros não acompanhados: uma análise da representação no fotojornalismo italiano”, em 2021.
Os sinais de Páscoa no horizonte da vida

“Eu Sou a Ressurreição e a Vida” (Jo 11,25) O tempo quaresmal caminha para o ponto culminante: a vivência do Mistério Pascal, a celebração da Vida plena, sem as amarras e os condicionamentos que travam o fluir de nossa vida. Tal como um sentinela, situado numa posição estratégica, já estamos vislumbrando no horizonte os sinais da Páscoa. Por isso, a liturgia deste domingo nos traz um relato inspirador, onde Jesus se revela como a Porta da Vida. Cruzar essa porta é apelo Seu, mas é decisão nossa empurrá-la suavemente para dentro e avançar em direção à vida que, a partir do mais íntimo, deseja ser despertada e vivenciada em plenitude. No contexto anterior à ressurreição de Lázaro, aparece de novo o tema das obras, desta vez em relação com o verbo crer: “Se não faço as obras do meu Pai, não acrediteis em mim. Mas, se eu as faço, mesmo que não queirais crer em mim, crede nas minhas obras, para que saibais e reconheceis que o Pai está em mim e eu no Pai” (Jo 10,37-38). Na cena deste domingo, Jesus vai realizar a obra por excelência do Pai que é comunicar Vida, destravando-a das faixas e tirando-a do túmulo da morte. A beleza e a sabedoria do relato deste 5º Domingo da Quaresma consistem em integrar, na pessoa mesma de Jesus, uma dupla afirmação: “Jesus chorou” e “Eu sou a ressurreição e a vida”. Essa é, justamente, nossa condição humana: somos seres frágeis, sensíveis, a quem nos afeta o que acontece e, ao mesmo tempo, somos Vida que se encontra sempre a salvo. Nós nos percebemos como pura necessidade e carência – portanto, vulneráveis -, mas, ao mesmo tempo, somos plenitude à qual nada lhe falta. Como Jesus, somos, ao mesmo tempo, sensibilidade – por isso choramos -, e somos Vida. E isto é o que na tradição cristã se expressou com o termo “ressurreição”. Assim fez Jesus em Betânia: mostrou sua vulnerabilidade humana frente o amigo “que dorme”. A morte será sempre uma história de dor e lágrimas. Quem não experimentou dor diante do sofrimento e morte de um ser querido? Quem não se sentiu, como Marta e Maria, em muitos momentos? Também Ele sente os golpes da vida, sente a dor de quem perde um irmão e se faz solidário. O sofrimento pode nos despertar para a dimensão de profundidade da realidade e de nós mesmos. Mas necessitamos passar por um processo de transformação para que o sofrimento e a dor nos abram ao Mistério e não nos afundem no desespero. Jesus vai ajudar Marta e Maria a passar por este processo. Voltar à casa de seus amigos, num momento em que eles estão tão feridos, supõe também a Jesus deixar-se ferir. Algo terá Ele que perder para dar-lhe ao amigo. A amizade nos faz vulneráveis: “Mestre, ainda há pouco, os judeus queriam apedrejar-te, e agora vais outra vez para lá?”. Jesus vai abraçar a perda de seu amigo até o fundo; e quando a dor e a perda se abraçam, deixam de ser nossos inimigos. “Ficou interiormente comovido e se aproximou do túmulo”, que um dia acolherá também seu corpo. Percorreu assim o caminho que depois percorreriam as mulheres depois de sua morte. As perdas, a dor, a morte, aproximam uns dos outros. Marta e Maria já não estão numa relação de competição nem de rivalidade, e enviam, juntas, uma mensagem a Jesus. Mensagem que revela uma confiança profunda nas possibilidades do amor: “Senhor, aquele que amas está doente”. Não lhe dizem “nosso irmão”, porque querem vinculá-lo a Jesus. A amizade leva-as a crer nas possibilidades latentes no amigo, em seu potencial ilimitado, em sua capacidade de amar e ser amado, em toda a novidade que quer irromper nele. E é nesta situação de vulnerabilidade onde Marta se deixa ordenar e faz sua aprendizagem de verdadeira discípula. Que foi aprendendo Marta desde aquela vez que pedia ajuda à sua irmã? Agora é uma mulher que cresceu e que se atreve a expressar uma petição maior, não mais para si mesma, mas para seu irmão, e diz a Jesus: “Senhor, se estivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido… Mesmo assim, eu sei que tudo o que se pede a Deus, Ele te concederá”. Este contato com seu amigo Jesus, num momento em que ambos compartilham a dor pela perda da pessoa querida, vai fazer Marta amadurecer. Daí em diante será uma mulher desperta, capaz de despertar a outros, e por isso pode dizer à sua irmã: “O Mestre está aí e te chama”. Jesus foi “traído” pelo seu afeto. Aquele que é o Senhor da Vida, o vencedor da morte, tem um coração que ama como o coração do irmão mais fiel, do pai mais sensível… Jesus é atingido pela dor, é agitado por uma perturbação que brota de dentro dele mesmo e que não consegue controlar; a causa da sua emoção é a presença trágica da morte nos que o rodeiam, mas também com a sua morte iminente, que será devastadora. Diante da morte, todos sentimos nossa impotência. Queremos que o enfermo fique curado e viva. A ciência médica hoje pode ampliar alguns anos de nossa vida, mas, no final, a morte termina vencendo o enfermo. No texto evangélico deste domingo, Jesus, na força do Espírito, comanda a ação: pede às pessoas que afastem a pedra e que soltem as amarras de Lázaro, para que ele possa andar. A ação de Jesus é expansiva, pois mobiliza as pessoas para que, por meio de sua cooperação, a vida seja destravada. A vida com as amarras da fome, da exclusão, da violência… não pode ser chamada de vida. Diante de uma sociedade que se especializa em impor pesadas pedras e faixas imobilizadoras, defender a vida é caminhar na contramão de tudo que nos diminui como seres humanos. Há ainda aqueles que vivem a resignação do “quarto dia”,o dia da morte da esperança (para o judeu, o 4º dia representava o começo da decomposição do corpo).
Irmã Roselene Ventura terá experiência missionária nas Filipinas

Alunos e professores do 4º ano do ensino fundamental à 3ª série do ensino médio do Colégio Espírito Santo, em Canoas-RS, lotaram a Paróquia Nossa Senhora das Graças, na manhã de 23 de março, para participar da missa de envio da irmã Roselene Ventura. Em abril, ela parte para uma experiência missionária de seis anos nas Filipinas. A celebração também promoveu o 3º Ano Vocacional do Brasil, convidando os estudantes a conhecerem mais sobre as quatro vocações: vida religiosa consagrada, ministério ordenado, matrimônio/família e laical. Natural de Rondônia, Ir. Roselene sentiu seu chamado vocacional quando ela tinha por volta de 18 anos. A preparação para ingressar na Congregação das Irmãs Missionárias Servas do Espírito Santo iniciou-se em 2008. Em 2020, ela fez a sua consagração definitiva, com os votos perpétuos. “A experiência missionária ocorreria logo após os meus votos perpétuos, porém, em função da pandemia, acabou sendo adiada”, conta. No Colégio Espírito Santo desde 2021, Ir. Roselene atuou como professora de Ensino Religioso, no programa Escola da Inteligência, na Pastoral Escolar e em outras frentes de trabalho, como o grupo CES Mãos em Ação. “A missa de envio foi um momento emocionante e surpreendente. Tudo o que fiz na escola foi com amor, carinho e dedicação. O afeto tão puro e verdadeiro das crianças e dos jovens são um ânimo a mais para a missão”, afirma a religiosa. O embarque para as Filipinas está previsto para o dia 11 de abril. “Ficarei em Cebu. Os primeiros meses são para aperfeiçoamento dos idiomas inglês e cebuano, que é a língua local”, diz a irmã. Depois disso, ela será enviada para as frentes de missão nas áreas da educação e pastorais. “Será uma oportunidade de aprender com a experiência de lá e de conhecer outras frentes de missão antes de retornar para a Província Brasil”, comenta. Veja o vídeo da missa de envio e assista também ao vídeo com depoimentos das irmãs missionárias servas do Espírito Santo sobre a vocação à vida religiosa. 3º Ano Vocacional O 3º Ano Vocacional se iniciou no dia 20 de novembro de 2022 e terá conclusão em 26 de novembro próximo. Neste período, diferentes iniciativas buscam promover a cultura vocacional nas comunidades, nas famílias e na sociedade, a fim de despertar todas as vocações, como graça e missão, a serviço do Reino de Deus. Com base no tema “Vocação: graça e missão” e no lema “Corações ardentes, pés a caminho”, toda a comunidade escolar do Colégio Espírito Santo é chamada a estar com Jesus e a assumir a missão recebida dele. Edições anteriores O primeiro Ano Vocacional foi realizado em 1983 e mobilizou todo o povo de Deus na reflexão vocacional, aprofundando o tema “Vem e segue-me”, recordando que o chamado de Jesus é personalizado, e a resposta é pessoal. Em 2003, um novo Ano Vocacional foi celebrado. O tema “Batismo, fonte de todas as vocações” desejou avançar na reflexão vocacional na Igreja, compreendida com uma assembleia de vocacionados e vocacionadas. O sonho foi de uma Igreja com fisionomia vocacional, em que todos foram e são convocados pela Trindade ao serviço em favor da vida e da humanidade, e, assim, consciente do chamado à missão, pudessem agir com ânimo e coragem em sua ação evangelizadora. Marcos Vinícius MerkerJornalista no Colégio Espírito Santo de Canoas-RS, membro da Equipe de Comunicação das SSpS Brasil.
Narcisismo em tempo de Quaresma

Refletindo sobre a proposta da Igreja Católica para a Quaresma, a de viver um tempo de sobriedade por meio da oração, do silêncio e da abstinência, e olhando a dificuldade das cidades, inclusive onde moro (que tem 14 mil habitantes somente), indiferente diante desta proposta; olhando perplexo (sempre) aos apelos da mídia em tempo de carnaval, pré-carnaval e pós-carnaval, achei oportuno refletir sobre este tema da Psicologia: o narcisismo. Esse conceito foi mencionado por Freud em 1910. A Psicologia define o narcisismo quanto às duas fases: conforme o desenvolvimento saudável e o patológico. O desenvolvimento saudável é descrito como narcisismo primário. Este é identificado nos primeiros meses do desenvolvimento do bebê, no relacionamento com os pais, especialmente com a mãe. É elemento constitutivo do amor-próprio e da autoestima; portanto, destinado à autopreservação do sujeito e formação dos laços sociais. Já o narcisismo patológico, é encontrado no estudo das neuroses, perversão e psicose (Araújo, 2010). Assim, o que vemos na mídia, nos tempos atuais, é a manifestação de um narcisismo patológico, marcado pela necessidade de ser visto, notado e curtido. Nas redes sociais, cresce o número de digital influencers, cujo pesadelo é a possibilidade de perder seguidores ou serem cancelados. No carnaval, há uma neurose em relação ao corpo que vai ser exibido nas ruas, praças, avenidas e programas de tevê, tanto em pequenas cidades como em metrópoles. Gastam-se uma fortuna para realizar cirurgias plásticas, para mudar o formato do corpo. Absurdamente, faz-se harmonização facial em adolescentes de 15 anos, que ainda nem têm o corpo definido pela natureza. Num certo programa de tevê, um jovem brasileiro, que naturalmente corresponde ao padrão de beleza europeu, gastou mais de 100 mil reais para ficar parecido com um boneco chamado Ken. Outra “celebridade” aplicou substâncias gelatinosas nos glúteos para ficar famosa por ter os maiores glúteos do mundo. Outras não aguentam mais o peso dos seios aumentados, têm dores de coluna. Todos estão cientes do risco de morte que correm, mas, mesmo assim, atribuem a Deus a proteção que esperam. Nem percebem que estão brincando de serem Deus, assim como a Eva e o Adão da Bíblia. Os narcisistas patológicos estão entre nós. Eles estão na sociedade, na política, na religião, na vida consagrada, na vida sacerdotal, no trabalho e dentro de casa, na família. Uma ou outra destas características podem servir para identificá-los: insegurança, sentimento de superioridade, falta de empatia, necessidade constante de admiração e atenção, sensação de ser o centro de tudo e de todos, notável superficialidade, manipulação, grandiosidade, papel de vítima, agressividade, etc. O período da Quaresma é um tempo que inevitavelmente nos faz refletir sobre esse conceito. Para os cristãos católicos, este é um momento de nos converter, nos fortalecer espiritualmente contra essa patologia que chamamos de uma das tentações de Jesus no deserto: a tentação do ser. Para os nãos católicos ou não cristãos, este momento pode ser chamado de vacina contra esse mal, ou mesmo como antídoto. O fato é que a pedagogia que a Igreja usa, celebrar este tempo litúrgico logo após o carnaval, ajuda-nos a refletir sobre o sentido de nossa vida aqui neste mundo. Para se fortalecer contra a tentação que, na Bíblia, venceu o primeiro homem e a primeira mulher, a tentação de dispensar Deus, sendo igual a ele ou pondo-o a serviço da humanidade, Jesus se fortalece pelo esvaziamento, pela oração e pela penitência. É oportuno destacar também o fato de a tentação ter se manifestado justamente no momento em que Jesus sentia fome. Podemos associar esse momento, hoje em dia, ao vazio existencial, à fome de ser amado, de encontrar sentido na vida, que leva muitas pessoas a tentar preenchê-lo com o exibicionismo ou egocentrismo, com elementos externos e até mesmo pondo Deus a seu serviço. Isso nos leva a outro conceito filosófico, o hedonismo, que merece um artigo à parte. Como lidar com um narcisista neurótico? A primeira sugestão é convencê-lo a procurar ajuda terapêutica para ser diagnosticado quanto ao grau de seu narcisismo. Embora se acredite não haver cura para essa patologia, ela pode ser amenizada, buscando-se o autocontrole das ações para evitar danos a terceiros. Quando se trata de amigos, namorados ou namoradas, colegas de trabalho ou de estudo, o afastamento pode ser uma maneira de se autopreservar e preservar de danos à sua autoestima. No entanto, quando se trata de parentes, como pai, mãe, filhos ou irmãos, é preciso buscar até mesmo a ajuda terapêutica para se conscientizar de que o problema não está com você, como o próprio narcisista sugerirá quando confrontado. Para os religiosos, busque na espiritualidade, especialmente no estilo de vida de Jesus Cristo, o “antídoto” para esse mal, essa tentação. ReferênciaAraújo, M. G. (2010). Considerações sobre o narcisismo. Estudos Psicanalíticos, 34, 79-82. Pe. Aparecido Luiz de Souza, SVDPsicólogo.
Olhares sobre a floresta

Ao buscar bem-estar e conexão com o natural e o sagrado, estar em meio à floresta sempre me vem à mente. As suas trilhas, a temperatura, o jogo de luz e sombra, a sinfonia de vento e pássaros criam uma experiência estética indescritível. Não deixa de ser um templo, e há inclusive quem defenda que a arquitetura das catedrais góticas é inspirada na sensação de êxtase e enlevo produzida pela combinação da verticalidade dos troncos, da luminosidade filtrada por abóbadas formadas de copas. A floresta é muito mais que misteriosa, essencial e concreta; sua existência não pode ser reduzida à produção de encantamentos. Em uma visão sistêmica de mundo, uma árvore não é compreendida apenas pela subdivisão de suas partes em raiz, caule, folha, flor, fruto e semente. Sua importância está na relação que a fotossíntese estabelece entre a água do solo e a umidade do ar, na vida que habita sua sombra, na copa que abriga outros seres, na alimentação concedida a outras criaturas e nas conexões com a floresta; também está na serrapilheira, habitat de micro-organismos e fundamental para adubação do solo. Já em uma perspectiva mais econômica, que situa o capital e a lógica do lucro como justificativa para quase tudo que orienta nossas ações, as partes das árvores, assim como as propriedades medicinais, muitas vezes, são reduzidos a commodities. A mesma razão se aplica à vida e à riqueza que se esconde na floresta e em seus rios, em suas entranhas e no solo cuja extorsão fundamenta contínuas violações, algumas que se tornam notícia e outras que avançam oculta(da)s, sem que lhes seja dada importância. Construímos um reino para nossa sobrevivência em um recorte feito no mundo natural. Nós nos apartamos da floresta, embora os tentáculos desse reino já não respeitam seus limites e, com o poder de nossa ação sobre a terra ampliado pelo braço tecnológico, nós a usurpamos em escala industrial e nos tornamos risco à sua saúde. A cobiça estimulada pela publicidade, estratégias de comunicação e de design (aqui considerado em sua dimensão estética), ao mesmo tempo em que estimula tal processo, abstrai-nos do que realmente é valioso e imprescindível em nossas vidas: ar puro, água limpa, alimentos não processados e vida comunitária. Os povos da floresta, que vivem uma relação de sensibilidade mais aguda com o meio, parecem ter uma percepção mais clara e mais concreta de sua dependência em relação a ela e da importância do cuidado para preservação de suas condições de vida. Muito temos a aprender com eles; inclusive a considerar que a importância das florestas não pode ser reduzida à celebração de um dia no calendário de datas comemorativas, mas que a mudança deve iniciar-se em nós, com a construção de outra mentalidade que situe a preservação de condições de vida na terra acima da satisfação de necessidades artificiais e de nossa vaidade. Referências BRUM, Eliane. Banzeiro Òkòtó: uma viagem à Amazônia centro do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2021. CAPRA, Bernt Amadeus. O ponto de mutação. Filme produzido pela Atlas Company e Mindwalk Production. 110 min. 1991. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=iUkSmjXfEO8 CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 1986. JONAS, Hans. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto; Editora PUC-Rio, 2006. VIVAT INTERNATIONAL. Disponível em https://www.vivatinternational.org/. Marli Teresinha EverlingProfessora nos cursos de Graduação e Pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville (Univille), coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica, colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental.
Cego de nascença: “passagem” da margem à iluminação

“Enquanto estou no mundo, Sou a Luz do mundo” (Jo 9,5) A cura do cego de nascença (Jo 9) revela-se como uma instigante narrativa que requer ser lida em seu contexto imediatamente anterior; ali encontramos uma discussão de Jesus com os judeus e que começa com esta afirmação: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12). Frente à cegueira cultural-religiosa, Jesus se mostra como Luz na vida. O relato deste domingo nos põe em contato com Jesus que traz Luz-Vida. Ele não só se revela como Luz, mas, através de seu “toque”, ativa a luz presente naquele que não podia ver a luz do dia. Como no caso da samaritana, é Jesus quem toma a iniciativa, mas o interessado deve responder pessoalmente. Todo o relato é simbólico; as alusões ao batismo são constantes. A Igreja primitiva chamava o batismo “photismós”, que significa “iluminação”. Trata-se de indicar aos catecúmenos o caminho que precisam percorrer antes do batismo. Este cego de nascença representa toda a humanidade, porque, em certo sentido, todos somos cegos enquanto não acolhamos Aquele que é Luz. Esta cegueira é a que impede ver a verdade que nos fará livres. Somos cegos quando nos fechamos em nossa mentalidade, critérios, ideologias… Somos cegos quando nos petrificamos no fanatismo, na intolerância e na resistência em perceber a luz que habita naquele que pensa e sente de maneira diferente. “Jesus ia passando, quando viu um cego de nascença.” O “passar” é uma evocação do caminho do Êxodo, caminho de liberdade. No deserto, Deus é o “clarão” que orienta e move o povo de Israel a fazer a travessia da terra da escuridão para a terra da liberdade. Jesus é Luz que “passa” em meio ao mundo da marginalidade e da exclusão, reacendendo a luz da esperança e da vida em cada pessoa. Jesus é a “Luz que toca”;aqui aparece, com muita força, o símbolo do contato físico.O contato nos faz despertar. Existe a idade da palavra, a do ouvido, a do olhar…, mas neste momento Jesus se detém na idade do contato; é a idade da comunhão, a idade da ternura materna. O caminho do tato é o da mais profunda comunhão. Jesus tocava pessoas feridas, quebradas… e sua gestualidade prolongava o sexto dia da Criação. Sabemos pouco da riqueza de nosso contato. O contato nos cura. É um caminho de comunicação maravilhoso. Na enfermidade, muitas pessoas não buscam mais que o contato. Um verdadeiro contato nos envia sempre para dentro. Não é o contato da pele, mas o que nos põe em marcha para nosso interior. Existem forças reconstrutoras presentes em todos nós. Através de suas palavras e do seu toque, o Mestre da Galileia restabelece o contato do cego com a fonte, com os seus recursos interiores. Esses recursos existem em cada pessoa, e cada um pode aproveitá-los. Através do encontro com Jesus e do seu toque, as pessoas descobrem os recursos interiores que devem ser mobilizados. Ele confia nas forças de autocura do ser humano; não precisa fazer tudo sozinho. No encontro com Jesus, o doente entra em contato consigo mesmo, com as fontes interiores que o Pai lhe deu: estas são as fontes das forças de autocura, de dons e habilidades, de força e de esperança. Jesus não explica, não faz uma teoria sobre a origem da cegueira (quem pecou?). Realiza algo muito maior: ajuda o cego, afasta-o da cidade alta (dominada por sacerdotes e escribas) e o convida a descer à fonte da vida, abaixo, no manancial de Siloé, que é sinal profético de abundância e de iluminação futura. Este cego é o homem que não consegue ver desde o nascimento; não se trata de pecado, mas da própria situação vital, da cegueira humana que se expressa, de um modo claro, neste ser humano. Há muitos que o querem ensinar a ver (os mestres da lei), mas o deixam na cegueira. É uma cegueira que começa sendo externa (não ver as coisas, não compreender o sentido da vida) e que termina sendo interior (não saber quem é, em quem pode confiar, viver sendo manipulado por outros). Podemos, então, afirmar que o relato de João é um “texto de rebelião”, um texto que denuncia toda religião que aprisiona as pessoas nas trevas do sentimento de culpa, de medo e de impotência. É o testemunho de Jesus que se rebela contra aqueles que querem manter as pessoas cegas, travando a verdadeira identidade delas que se revela como participação na luz divina, presente no interior de cada uma. Contra tal situação Jesus diz ao cego de Siloé que se rebele, que não permaneça cego à beira do caminho, que veja por si mesmo, que decida, que confesse sua nova liberdade mesmo que isto lhe custe a rejeição das autoridades religiosas, inclusive de seus próprios familiares. Junto ao cego de nascença se faz visível o pecado de todas as pessoas que não o ajudam, que não querem entendê-lo, que o submetem às suas leis e conveniências. Pois bem, Jesus não consola o cego (em sentido superficial), mas lhe diz para ser ele mesmo, que assuma sua própria vida, que desça à água, que se purifique… Jesus mesmo põe barro nos olhos do cego (terra com saliva, alento vital) e lhe diz que vá, que veja, que não tenha medo, que assuma seu destino… Jesus não cria dependência; ativa no cego sua autonomia para que ele seja autor de sua própria vida, inclusive correndo riscos de ser rejeitado. No fundo, Jesus pede ao cego que se rebele contra uma lei de cegueira, que o obriga a mendigar, sob a “caridade” dos mestres cegos que vivem à custa da cegueira dos outros. Pede-lhe que se rebele, que deixe seu lugar de mendigo, que saia da margem e que recupere sua verdadeira identidade. Trata-se de uma rebelião para a liberdade, para a vida. É uma rebelião que conduz ao encontro com Jesus que é simplesmente “filho do homem”, o homem em plenitude. O cego passa a crer em Jesus como “filho do homem”,
Ter compaixão

Ter compaixão é um indicativo para quem tem o desejo de sintonizar-se com outro. A compaixão abre as portas para uma saída em direção ao coração de quem sofre e precisa de solidariedade. A palavra traduz, mais ou menos, o significado de pôr-se na pele do outro e sentir o que sua vida pede quando está em sofrimento. Para tanto, é necessário treinar-se na sensibilidade para perceber o que se passa na vida do outro. Em nós, existem duas tendências: uma de ficar encarcerado em si, pensando apenas nas próprias necessidades, indiferentes ao sofrimento alheio; e a outra tendência que se abre para o convívio solidário com o outro. Jesus viveu a compaixão ao extremo. Ele treinou seus discípulos, muitas vezes, para serem compassivos. Por exemplo, quando eles queriam que Jesus dispersasse a multidão que foi até ele em busca de saúde e alívio dos sofrimentos. Jesus teve compaixão da multidão e disse aos discípulos: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Como? Só tinham cinco pães e dois peixes! Era tudo o que tinham de provisão para si próprios. Jesus lhes disse que colocassem à disposição aquela pequena reserva. Multiplicados os pães e os peixes, saciada a multidão e com sobras de sete cestos, a compaixão de Jesus se tornou gesto educativo. Os discípulos estavam no aprendizado de como serem compassivos. A compaixão está associada à misericórdia; ambas se tornam um sinônimo de soerguimento do outro que está fragilizado. A compaixão aproxima, e a misericórdia compreende e salva. É uma fórmula concreta do amor ativo em ação. É uma linguagem compreensível para todos, porque visa, em primeiro lugar, a salvar a vida e a reconhece como dom acima de qualquer outro. Ter compaixão é ser humano, lá onde a dor desumana está presente, debilitando as forças e ameaçando as resistências da sobrevivência. No fundo, todos, em algum momento da vida, precisam da compaixão de alguém. Ninguém se basta a si mesmo. Por isso a compaixão é tão natural que devia estar presente nas ações humanas, sempre! Contudo a experiência nos diz que não é assim. Como explicar que possa haver tanta gente, por exemplo, morrendo de fome? Cadê a compaixão? Se estivesse ativa, isso não aconteceria. Ela deve estar adormecida ou inebriada por outras coisas, deu lugar à indiferença e à insensibilidade, e assim essa força tão humana se torna tão desumana que não vê o outro necessitado, que fica ignorado em sua fome. Todos aprovamos gestos compassivos porque eles mexem com a sensibilidade e nos aproximam uns dos outros, e resgatam em nós o desejo de fraternidade impresso em nossa alma. Nascemos para isso, pena que, frequentemente, adormecemos em relação a ela e ficamos absortos, olhando para o próprio umbigo, desviando o olhar dos que gritam por compaixão. Ter compaixão, eis um exercício altruísta para o Tempo da Quaresma e um treino para sermos mais humanos e solidários. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.