ECA: compromisso juvenil – 30 anos em defesa do futuro do Brasil!

Ágatha, Jenifer, Kauã, Miguel, Letícia, Luane e todas as crianças e adolescentes assassinados no Brasil, presentes! Suas vidas clamam por justiça social. Ainda temos crianças inocentes sendo assassinadas, crianças e adolescentes sendo explorados, crianças sem creche, adolescentes fora da escola, muitos abandonados e sendo discriminados… Até quando nossa sociedade permitirá tamanha insanidade? Neste ano de 2020, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) completa 30 anos, sob a Lei 8.069, promulgada em 13 de julho de 1990. Seu objetivo é garantir a proteção integral da criança e do adolescente, aplicando medidas e expedindo encaminhamentos para o Poder Judiciário, sempre que for necessário. É o marco regulatório dos direitos humanos de nossos cidadãos mirins. Em seus 277 artigos, o ECA estabelece medidas de proteção contra o trabalho infantil e várias tipificações de crimes, bem como autorização para viajar, adotar, prever, desde o nascimento até a fase adulta, como sujeitos de direitos. Esse direito é estendido a todos, sem distinção de classe social, de diferentes etnias, de origem, de sexo ou de crença, como garantia de alimentação, educação, segurança a um grupo de atores ainda em formação moral e social. Diante disso, é atribuída ao Estado, à família e à sociedade o compromisso infantojuvenil como prioridade absoluta, de forma democrática. A criação de instituições, como os conselhos municipais de direitos e os conselhos tutelares, com representantes da sociedade civil, tornou-se importante para a execução de proteção e prevenção de meninos e meninas indefesas. Porém, infelizmente, ainda temos muito a alcançar quanto aos direitos de crianças e adolescentes. Além da falta de vagas em creches e escolas, é necessária a inclusão social. Durante a pandemia, constatou-se, em relação a crianças e adolescentes que estão matriculados nas escolas, quantos não possuem computador nem acesso à internet, mesmo com os professores dedicando-se ao trabalho remoto, direto de suas casas. Se antes do isolamento social havia falta de professores auxiliares para a educação especial (que atendem autistas e demais estudantes com necessidades especiais), esse agravante passou a ser um tormento para os responsáveis, pois a atenção precisa de tempo integral. Como fazer se muitos precisam trabalhar ou não têm o conhecimento para lidar com a situação? Outros desafios que ainda a sociedade civil e o Estado não cumpriram como seu dever: como socializar e reeducar os adolescentes em abrigo socioeducativos sem os discriminar? Promover tratamentos adequados para sua recuperação, seja ela psíquica ou química? Muitos são explorados por adultos mal-intencionados, sabendo da carência afetiva e material desses pequenos atores sociais vulneráveis nos interiores do Brasil ou que vivem pelas ruas sem um aconchego familiar. O que dizer, então, de crianças e adolescentes assassinados por balas perdidas ou por pais desequilibrados psicologicamente, ou pela indiferença social? Há muito ainda o que se fazer neste aniversário de 30 anos de ECA. Que possamos não somente divulgar os direitos das crianças e dos adolescentes, mas também cobrar os deveres e as responsabilidades tanto das famílias quanto dos representantes eleitos nos conselhos municipais e conselhos tutelares perante o Poder Público. Preservar o futuro da nação é buscar educar as crianças e os adolescentes com consciência de seus direitos e deveres de cidadão, para promover uma sociedade democrática justa e igualitária. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, Teologia pelo Mater Ecclesiae, professora de Filosofia, filiada à ABA, APEOESP e SBPC; membro da Comissão de Prevenção à Tortura pela ALESC, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, pertencente à Arquidiocese de Florianópolis.

Afetividade e relações

Diante de tantos fatos e feitos durante esta pandemia, como anda a afetividade? E as relações? O mundo tem passado por muitos traumas, e muitas vidas têm sido abaladas, desde crianças até idosos. Há muitas expectativas e medos. As incertezas têm operado a maioria de nossa vida. Embora haja muitos doentes por causa do contágio com o covid-19, devido a, ainda, não existir um medicamente eficaz para combatê-lo, muitas outras doenças têm causado perturbação às pessoas. A saúde, em geral, não é apenas física, mas também psíquica e espiritual. Por isso a afetividade faz parte desse “pacote” salutar. Afetividade deriva das palavras “afetivo” e “afeto”, abrange todos os fenômenos afetivos; muito importantes para o desenvolvimento humano. A afetividade, no sentido positivo, cultiva bons sentimentos, momentos prazerosos e trazem sensação de bem-estar. Por isso a importância de sermos amáveis com os outros (pessoas, animais e toda a natureza), pois afetamos, também, os demais, deixando boas impressões. No sentido negativo, a afetividade nos transmite medo, insegurança e até síndrome do pânico, pois nos transmite desconforto, momentos desagradáveis, gerando violência. Não podemos nos calar diante de tanto feminicídio (Brasil em quinto lugar no mundo), diante de tantos adolescentes, jovens e trabalhadores negros mortos, tanta desigualdade social… A palavra “pânico” vem do grego e tem um significado relacionado ao deus Pã. Na mitologia grega, essa entidade é o espírito guardião da floresta, dos bosques, protetor dos animais e dos pastores. Sua figura é representada metade homem e metade pernas de bode, e sobre sua cabeça, há chifres. O mensageiro Hermes o levou para o Olimpo quando ele era pequeno, para servir de mascote aos outros deuses, e passou a ser considerado um semideus. Mas Pã, quando cresceu, preferiu viver na floresta, já que era considerado preguiçoso. Pã gostava de brincar com as ninfas, e uma delas, por quem ele era apaixonado, disfarçou-se em caniço. Contudo Pã, quando soprou, o som que saiu de um deles foi tão lindo que fez uma flauta. Por isso, ele passava o tempo tocando flauta (flauta de Pã). Os humanos, ao atravessarem a floresta, sentiam muito medo, pois, sabendo que ele dormia lá, entravam em “pânico”, pois Pã, quando dormia, ficava muito irritado se fosse acordado. Na mitologia romana, Pã é conhecido por Lupércio. Na Idade Média, a figura foi confundida com a do Diabo, que é considerado mal. A partir da figura mítica acima ilustrada, podemos refletir nossa afetividade. Nosso interior pode estar ouvindo lindas melodias ou, de repente, entrar em pânico, porque estamos nos sentindo ameaçados por uma situação desconhecida, afetando, assim, nossas relações. A dor, quando é insuportável, restringe o uso da razão, e o que ocorre, muitas vezes, é desafeto. É importante mantermos a serenidade diante das circunstâncias que se nos apresentam e buscarmos o discernimento para agirmos de modo adequado nas relações: estamos tendo a paciência com as crianças e os idosos? Estamos sendo humildes ao aprender um serviço que não era executado? Somos compreensivos com o outro que cometeu uma pequena falta? Somos perseverantes diante da dificuldade? Ou usamos a tortura? Nossas relações têm várias dimensões: psicopessoais, sociais, culturais, socioambientais. Em cada uma delas, devemos perceber como anda a repercussão de nossas atitudes, condutas na família, no círculo de amizade, no trabalho, no lazer, na comunidade religiosa. A preocupação com o outro é um indicador importante, pois a vida é como um “bumerangue”: o que você lança voltará. Nesse sentido, nossa relação com o meio ambiente está retornando aos poucos. Procuremos cultivar mais flores e frutos, cuidar melhor dos animais, cultivar a paz a nosso redor. Cada semente plantada é uma árvore em potencial, já dizia um filósofo antigo. Então cada gesto solidário é um bem à coletividade. Cada palavra dita será uma nova história escrita. Cada oração será fruto do coração.Seja solidário, solidária! Respeite! Se preciso for, denuncie! Maria Terezinha CorrêaMestre em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, Teologia pelo Mater Ecclesiae, professora de Filosofia, filiada à ABA, APEOESP e SBPC; membro da Comissão de Prevenção à Tortura pela ALESC, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa pertencente à Arquidiocese de Florianópolis.

Marias e o trabalho para a vida

Neste tempo de quarentena ou de distanciamento social, aproveitemos para refletirmos sobre a vida social, além da pessoal e familiar. Este quinto mês do ano, conhecido por “maio”, conforme calendário juliano e gregoriano, significa “tempo de flores e alegrias; primavera” (Dicionário Novo Aurélio). Como assim? No Hemisfério Sul, estamos em plena estação do outono! No mesmo dicionário diz que outono é “tempo de cair as flores, as folhas; decadência”. O que há então em comum entre os hemisférios Norte e Sul em relação ao mês de maio? O calendário litúrgico. Maio é tempo pascal, de alegrar-se com o Ressuscitado, de preparar-se para Pentecostes, de devoção a Maria, mãe de Jesus e dos cristãos católicos, de homenagear as “Marias” mães, que dão a vida e buscam o pão como trabalhadoras junto com os trabalhadores. As “Marias” aqui representam todas aquelas que se identificam com as mulheres que anunciam a vida, geram a vida, cuidam da vida, propagam a vida. Marias mães, benzedeiras, bombeiras, carcereiras, cabeleireiras, confeiteiras, costureiras, cozinheiras, enfermeiras, engenheiras, pedreiras, rendeiras; Marias agricultoras, cantoras, cuidadoras, evangelizadoras, inventoras, pastoras, professoras; Marias cientistas, diaristas, jornalistas, recepcionistas; Marias domésticas, médicas, profissionais ou do lar, todas são essenciais. Marias afro-indígenas, ciganas, brasileiras e estrangeiras. Muitas autônomas, heroínas invisíveis, mesmo em tempos de pandemia, lutando não só contra o covid-19, mas contra as desigualdades sociais, sendo solidárias, samaritanas nas ruas, nas comunidades, nos hospitais. Muitas “Marias” fazendo máscaras, refeições, montando kits de higienização, procurando estar presente mesmo em “isolamento”, buscando um jeito de “estar presente”. Há muitas Marias que vão com as outras. Mas há outras que vão com Maria de Nazaré. Modelo de mulher orante (Lc 1,46-56; At 1,14), de mãe forte, serena e companheira (Lc 8,1-3), de disposição, de generosidade (Lc 1,39-45), de atenção e de solidariedade (Jo 2,1-5), de discípula fiel e perseverante nos cuidados com aqueles que lhe foram dados como filhos, na pessoa do apóstolo João (Lc 8,1-3; Jo 19,25-27), de anúncio, de esperança para uma vida nova (Lc 23,49; 24,9-11). Há muitas Marias de Deus, Marias da caridade, Marias que estão a caminho do túmulo, mas, ao encontrar Jesus, voltam para as veredas do anúncio da vida. Precisamos, neste tempo de pandemia, ser como Maria que, por várias vezes, apareceu aos mais humildes, anunciando a verdadeira alegria (em Fátima, em Lourdes, em Aparecida e tantos lugares). Ao cuidarmos uns dos outros, sejamos esperança, como os profissionais da saúde do corpo; sejamos trabalhadores da saúde espiritual, para nos mantermos psiquicamente saudáveis. Mesmo com a casa de porta fechada, abramos a “porta” do nosso coração, buscando, como os primeiros cristãos, os quais, mesmo fechados no Cenáculo, mantinham-se unidos em oração e nos cuidados uns para com os outros. Façamos nossa parte, que o Espírito do Senhor vem nos iluminar. Sejamos serenos como Maria, que passou pela dor vivenciando o amor, trabalhando em silêncio e harmonia com os trabalhadores do bem, sendo a serva do Espírito Santo, presente nos lugares mais necessitados. Atualmente os trabalhadores andam angustiados pelas incertezas que sondam a vida da sociedade. É nessa hora que nossa contribuição deve transformar-se em ação, em benefícios para com o próximo. Unidos, construiremos juntos um mundo melhor, onde o Amor Maio(r) florescerá, e assim, possamos alegrar nossas vidas, não como os ímpios o fazem em meio à ganância e à corrupção, mas voltados para a vida de fé e de comunhão fraterna. Que Maria nos socorra em meio a essa pandemia e socorra as Marias que cuidam dos Joões e demais irmãos trabalhadores nessa travessia. Que o Espírito Santo ilumine os cientistas para, mais uma vez, trazer-nos a cura que nos assegure a volta do convívio social em harmonia. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP e SBPC; professora de Filosofia, membro da Comissão de Prevenção à Tortura (ALESC), voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa pertencente à Arquidiocese de Florianópolis.

Páscoa: compromisso com a vida

Há muito tempo que a humanidade não parava para se perguntar: para onde estamos caminhando? Nada mais oportuno do que o período em que estamos vivendo para refletir sobre o sentido da Páscoa, que, em hebraico, significa “passagem”. Percebe-se que, ao longo da História, surgiram aqueles que têm a missão de nos lembrar da importância da vida. Desde os tempos antigos, alguns homens surgiram como líderes espirituais para orientar o povo em que viviam, sejam eles chamados de xamãs, sacerdotes, sacerdotisas ou profetas, transmitiam revelações que norteavam o caminhar das tribos, dos clãs, das primeiras civilizações rumo a um “paraíso” ou a uma “terra onde corria leite e mel”, a exemplo dos patriarcas. A passagem moral e ética do ser humano passou a significar uma melhora de vida, apesar da existência de injustiças vistas como naturais, no caso, a escravidão. Com o crescimento das desigualdades entre os povos, homens e mulheres que não tinham direitos, diante dos poderosos, além dos dirigentes religiosos, surgiram os “conselheiros”, os intelectuais que buscavam criar uma vida boa mediante os recursos da época. Porém, em nossa caminhada humana, veio a figura do “Pastor que dá a vida por suas ovelhas”, dando o exemplo de que “quem quer ser o maior que seja o menor”. O Divino que se tornou humano veio “para servir e não para ser servido”, demonstrando, desde seu nascimento, o compromisso com a missão para que todos tenham vida e vida em abundância, que a vida não é só temporal, mas também espiritual. Nesse sentido, a experiência de libertação do poder egípcio por Moisés, conforme narra o livro do Êxodo, a Páscoa judaica passou a relembrar os quarenta anos de travessia no deserto, sendo que o povo, em sua caminhada, aprendeu a obediência à Lei, a paciência uns com os outros, a repartir os bens entre as famílias, a confiar, a ser perseverante diante das amarguras e fiel ao Deus da Aliança até chegar à Terra Prometida, onde encontraram uma vida de fartura. Passados muitos séculos, contudo, antes do histórico julgamento injusto de Jesus, como o Cristo celebrou a Páscoa? Com uma nova conotação ética. A atitude do Mestre exemplificou que a vida do ser humano deve ser integral. A passagem pelos quarenta dias no deserto nos ensina que, em nossa existência, devemos aprender a viver o jejum dos desejos, a praticar a humildade no servir e a não sucumbir diante do poder (Lc 4,1-12). Além disso, os ensinamentos da Boa-Nova nos propõem exercitar o perdão das ofensas, a partir da reconciliação; o respeito e a fidelidade nas relações interpessoais; a honestidade sempre, sem usar de falácias; a orar pelos inimigos e não apenas por aqueles que nos querem bem; a viver a sinceridade, sem injúrias, para assim celebrarmos as bem-aventuranças (Mt 5,1-48). Desse modo, a prática do bem será o passaporte para a verdadeira Páscoa, em que a “senha” cristã é a caridade, o amor ao próximo. Essa caridade se torna “caridade social” que busca amar o bem comum, o bem de todas as pessoas, individual e socialmente. Por isso celebrar a Páscoa cristã é praticar a justiça que é samaritana (Texto-base CNBB CF 2020, p. 57). Em tempos de calamidades, é fundamental mantermos a fé e a união, sermos “sal e luz” (Mt 5,13-16), onde quer que estejamos, para garantirmos a vida de forma plena. Sermos solidários nos momentos de crise é uma demonstração não só de humanidade, mas também de generosidade fraterna, de compromisso com a vida de todos os que nos rodeiam. Para celebrar a Páscoa, portanto, devemos refletir: como estou caminhando? Com quem estou caminhando? Estou seguindo os passos do Mestre? Lembremos que, tanto na Páscoa judaica quanto na Páscoa cristã, foi necessário para a travessia dos desertos a relação com o outro e consigo mesmo. Percebe-se que, durante o percurso pascoal, devemos seguir com ânimo e, para isso, carregarmos no coração a memória da Eucaristia: a partilha do pão, como aconteceu com dois discípulos a caminho de Emaús (Lc 24,13-32). Assim, celebremos a Páscoa como compromisso da vida, assumindo a missão altruísta de vivenciarmos a esperança, a justiça social aos nossos semelhantes, principalmente aos mais necessitados, como fizeram os primeiros cristãos e fazem os autênticos seguidores contemporâneos do Cristo ressuscitado. Por isso nossa missão é continuar resgatando a vida, ver, sentir e cuidar uns dos outros. Uma abençoada Páscoa a todos! Maria Terezinha Corrêa, mestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à Apeoesp, ABA e SBPC.

Mulheres comprometidas com a vida

Março começa com a letra M; “M” de “mulheres”, “M” de “meninas” e, por que não, também “M” de “musas” inspiradoras da vida? Já pensou em quantas conquistas as mulheres brasileiras conseguiram ao longo dos últimos séculos? Você sabia que, em 1879, as mulheres no Brasil ganharam o direito de cursar uma faculdade? Lembrando, contudo, que eram apenas as da classe privilegiada, em tempos ainda de Monarquia. Em 1932, Período Republicano, às brasileiras foi garantido o direito de votar? Graças à reivindicação de um grupo de mulheres no Rio Grande do Norte. Nas décadas entre 1960 a 1980, muitas artistas, cantoras e atrizes revelaram-se no mercado da indústria cultural? Em 2006, criou-se a Lei Maria da Penha para combater a violência doméstica? Em 2010, escolhemos a primeira mulher presidente da República? Em 2015, a Lei de Feminicídio classifica o assassinato de mulheres como crime hediondo? Quantas mulheres lutaram pela liberdade e, até hoje, buscam pelo direito a uma vida digna, de escolher estudar, de ter uma profissão, de poder constituir sua família na paz? Mulheres de Abaeté, de Itapuã, lembradas no enredo do carnaval deste ano, mulheres quilombolas, indígenas, ribeirinhas, afrodescendentes, mulheres operárias, caminhoneiras, costureiras, cozinheiras, diaristas, domésticas, jogadoras, jornalistas, metalúrgicas, motoristas, professoras, arquitetas, médicas, engenheiras, advogadas, teólogas e tantas outras, enfim, conquistaram o espaço que antes era só masculino. Desde a Antiguidade, as mulheres ocidentais sofreram preconceitos, principalmente em relação à participação política. Ao longo da História, várias foram caçadas como bruxas, queimadas vivas, como na Inquisição, ou assassinadas por questionar atitudes desumanas e injustiças sociais. Um exemplo foi a francesa Olympie de Gouge, que criou a Declaração Universal da Mulher e da Cidadã (1791), como crítica ao Estatuto do Homem, após a Revolução Francesa. Pouco depois, foi morta (1793). No século XIX, outras tantas se comprometeram com a vida das mulheres, enfrentando até chefes, intelectuais, autoridades, como Rosa Luxemburgo. Uma fábrica em Nova Iorque, em 1911, sofreu um incêndio, e 130 operárias morreram carbonizadas, marcando, assim, a data do Dia Internacional das Mulheres. Em 1917, 90 mil operárias participaram do movimento “Pão e Paz” na Rússia. Em 1918, na Inglaterra, as mulheres conquistaram o voto e, somente em 1945, a Carta das Nações Unidas reconheceu a igualdade de direitos entre homens e mulheres, garantindo a vida, a liberdade e a segurança. Na década de 1960, os movimentos feministas possibilitaram avanços internacionais das mulheres de conquistar seu espaço na sociedade, permitindo ver, sentir e cuidar melhor da vida. Simone de Beauvoir, Bertha Lutz, Olga Benário Prestes, entre outras, foram pioneiras em pensar num mundo melhor para todos. Nossa esperança é que as “meninas-guerreiras” do século XXI continuem com coragem e comprometidas com a vida, não somente pessoal, mas também planetária, a exemplo de Malala, que luta pelo direito das meninas à educação; Gretha, que busca conscientizar mundialmente a preservação do meio ambiente, sem esquecer que muitas deram e dão a vida por um mundo de paz e justiça. O Dia internacional da Mulher é lembrado em diversas partes do mundo, gerando vida nova a todas que estão a seu redor. No Brasil, sabemos o quanto ainda temos de melhorar: a presença das mulheres na política, o combate ao feminicídio, a violência doméstica, a igualdade salarial entre os gêneros, os direitos das mulheres rurais e domésticas em se aposentar com dignidade e tantos outros projetos. Elas renunciam a fama, o sucesso, a carreira, a família, mas, com fé, lutam pelos menos favorecidos em orfanatos, em hospitais, atendem moradores de rua, atuam em casas de recuperação, vivem em favor dos indígenas em aldeias, trabalham em campos de refugiados, fazem visitas a presidiários, a idosos e tantos outros. Temos muitos exemplos como os de Ir. Dorothy Stang, Margarida Alves, Santa Paulina, Santa Teresa de Calcutá, Santa Dulce e tantas anônimas e voluntárias que ao verem a necessidade de humanos e também de animais, sentem empatia e buscam cuidar para o bem. Mulheres comprometidas geram vida! Maria Terezinha Corrêa é Mestra em Antropologia pela USP, especialista em Ensino de Filosofia pela UFSCar, graduada em Filosofia pela UFJF e em Pedagogia pela Unitins, sócia da APEOESP, ABA e SBPC. Carioca, trabalhou por 27 anos na Rede Estadual de Ensino Oficial de São Paulo, lecionando Filosofia e Sociologia, atuou entre os ribeirinhos de Humaitá-AM e em serviços voluntários e pastorais em várias comunidades.

Campanha da Fraternidade 2020: Dom e Compromisso

Quantas vezes você viu pessoas pedindo ajuda para comprar uma passagem ou um remédio? Ou viu seres humanos debaixo de viadutos, pessoas que se tornaram moradores de rua? A demanda de migrantes, de pessoas desempregadas em nosso País é grande. O que fazer? Neste ano de 2020, a Igreja Católica no Brasil propõe, a partir do período da Quaresma, a refletir sobre o nosso compromisso com a vida, com o outro, com aquele que deveríamos considerar como “irmão”, pois é nosso semelhante, já que chamamos Deus de Pai. Como ser solidário, solidária com o próximo? Jesus, no Evangelho segundo Lucas (10,25-37), dá-nos a resposta ao contar a Parábola do Bom Samaritano. Um estrangeiro que, no caminho, percebeu o outro caído, machucado, necessitado: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34). O samaritano não se omitiu ao ver o problema do outro. A importância do olhar foi fundamental para que ele sentisse compaixão, tivesse empatia. Não ficou criticando os que atacaram o transeunte nem teve preconceito com o caído, porque não era da mesma crença ou porque não era seu conhecido ou conterrâneo; preocupou-se em devolver-lhe a vida, levando-o para uma hospedaria para ser cuidado. Por isso o Mestre perguntou quem, dos três personagens da parábola, foi o mais próximo daquele homem necessitado. Em nossa sociedade brasileira, há diversas situações de dificuldades que precisam ser percebidas, vistas com os “olhos do coração”, ou seja, além das aparências, para que, por meio de atitudes solidárias e cristãs, possam ser geradas soluções, situações de paz. Pequenos gestos são muito importantes para devolver o dom da vida aos semelhantes: olhar para ver a situação do outro, do “próximo”, comover-se com a situação de outrem, não se omitir diante de injustiças, de problemas. Cuidar do outro, auxiliando no que for preciso, encaminhar se necessário; isso também é caridade. A Igreja tem vários exemplos de “samaritanos e samaritanas” comprometidos com o dom da vida, como São Francisco de Assis, São Francisco Xavier, São Vicente de Paula, Dom Hélder, Santa Paulina, Santa Teresa de Calcutá e, mais recentemente, Santa Dulce dos Pobres, que afirmou: “O importante é fazer a caridade, não falar de caridade. Compreender o trabalho em favor dos necessitados como missão escolhida por Deus”. E tantos outros anônimos que oferecem um espaço em sua casa ou num terreno e trabalham no e para o bem dos mais necessitados. Não seja indiferente, preconceituoso. Faça a diferença, outros que dedicam suas vidas aos menos favorecidos. Não adianta somente olhar o vídeo postado nas redes sociais e compartilhar as situações de misérias ou de violências. Isso é continuar na mesmice. Seja presente e comprometido com a vida, que é dom. Denuncie, caso seja necessário. Faça valer o direito à vida, à liberdade, à dignidade. Que tenhamos mais geladeiras solidárias, serviços de ouvir os que estão acamados, os deprimidos, visitas aos idosos e aos doentes, de levar conhecimento àqueles que estão em busca de apoio para aprender um ofício, dar atenção às crianças e aos jovens caídos pelas sarjetas da vida porque perderam seus pais para os desafetos da sociedade desigual. Veja, sinta, cuide de tudo que acontece a seu redor para, assim, compartilharmos e criarmos uma sociedade de justiça, de fraternidade e de paz, a partir de projetos éticos, para o bem de todos. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia pela USP, especialista em Ensino de Filosofia pela UFSCar, graduada em Filosofia pela UFJF e em Pedagogia pela Unitins, sócia da APEOESP, ABA e SBPC. Carioca, trabalhou por 27 anos na Rede Estadual de Ensino Oficial de São Paulo, lecionando Filosofia e Sociologia, atuou entre os ribeirinhos de Humaitá-AM e em serviços voluntários e pastorais em várias comunidades.

12 de fevereiro: Ir. Dorothy Mae Stang, mártir da América Latina

Irmã Dorothy Mae Stang nasceu em 7 de junho de 1931, em Dyton, Ohio, Estados Unidos. Quando jovem, entrou para a Congregação de Nossa Senhora de Namur. Veio para o Brasil em 1966, naturalizou-se brasileira e, desde a década de 1970, atuou na Amazônia, junto aos trabalhadores rurais. Fazia parte da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e defendia uma reforma agrária justa, por meio do diálogo com lideranças camponesas, políticas e religiosas. Em Anapu-PA, batalhou incansavelmente pela implantação de um projeto de desenvolvimento sustentável, que buscasse a harmonia entre as pessoas e a natureza. Mesmo ameaçada de morte, nunca se deixou intimidar. Procurava soluções duradouras para os conflitos relacionados à posse e à exploração da terra. Antes de ser assassinada com seis tiros, aos 73 anos, no dia 12 de fevereiro de 2005, declarou: “Não vou fugir e nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor numa terra onde possam viver e produzir, com dignidade, sem devastar”. O corpo da irmã Dorothy está enterrado em Anapu. Todos os anos, em sua memória, celebra-se a Romaria da Floresta a partir do local do assassinato até seu túmulo, por isso é considerada mártir da ecologia. Maria Terezinha CorrêaGraduada em Filosofia pela UFJF, mestre em Antropologia pela USP, graduada em Pedagogia pela UNITINS e Especialista em Ensino de Filosofia pela UFSCar, sócia da APEOESP, ABA e SBPC. Carioca, lecionou 27 anos na rede estadual de ensino oficial de São Paulo com Filosofia e Sociologia, trabalhou entre os ribeirinhos de Humaitá-AM, e em serviços voluntários e pastorais em várias comunidades.

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