Você acredita que tolerância tem limite?

O mundo comemora em 16 de novembro o Dia Internacional da tolerância. Esta é uma data que nós, missionárias, consideramos de extrema importância, principalmente para os tempos atuais onde o fundamentalismo religioso, a xenofobia, o terrorismo, o racismo, a marginalização e discriminação contra minorias e atos de violência e de intimidação cometidos contra pessoas que exercem sua liberdade de opinião e de expressão tem se acirrado. Mas o que é tolerância? A tolerância, segundo o dicionário online de significados, é o ato de suportar’” ou “aceitar”; agir com aceitação perante algo que não se quer ou que não se pode impedir. A tolerância é uma atitude fundamental para quem vive em sociedade. O apóstolo Paulo também nos pede em Efésios 4:2 “Sejam completamente humildes e dóceis, e sejam pacientes, suportando uns aos outros com amor”. Mas será que esta tolerância pode ser infinita? Não teria um limite? Acreditamos que sim. André Comte-Sponville, no livro “O Pequeno Tratado das Grandes Virtudes” (baixe aqui), afirma: “Ao contrário do amor ou da generosidade, que não têm limites intrínsecos nem outra finitude além da nossa, a tolerância é, pois, essencialmente limitada: uma tolerância infinita seria o fim da tolerância!”. “A tolerância infinita seria o fim da tolerância” é o que Karl Popper chama de “o paradoxo da tolerância”: “Se formos de uma tolerância absoluta, mesmo para com os intolerantes, e se não defendermos a sociedade tolerante contra seus assaltos, os tolerantes serão aniquilados, e com eles a tolerância”. Tolerar o sofrimento dos outros, tolerar a injustiça de que não somos vítimas, tolerar o horror que nos poupa não é mais tolerância: é egoísmo, é indiferença, ou pior. É ser conivente com o mal. Como então ser tolerante e não ser conivente com o erro? Como dizem, “o direito do outro termina onde começa o meu”. Pois bem, trazendo isto para um contexto mais específico, vemos na Justiça Restaurativa (já tratada AQUI no nosso blog), talvez, o exemplo máximo para o entendimento e desenvolvimento da tolerância como virtude. A Justiça restaurativa é uma prática para mediação de conflitos, busca do perdão e entendimento da responsabilidade dos atos. Criada na década de 70 e 80 nos Estados Unidos e Europa, o conceito e a filosofia de justiça restaurativa têm embasado programas sociais dedicados a cuidar das vítimas, dos ofensores e das comunidades, e têm orientado para a restauração de suas vidas e de sua interação social. A justiça restaurativa surge como contraposição à concepção tradicional da justiça criminal, a justiça punitiva-retributiva. Essa nova visão de justiça propõe um novo paradigma na definição de crime e dos objetivos da justiça. Nessa perspectiva, concebe-se o crime como violação à pessoa e às relações interpessoais, e o papel da justiça deve ser o de restauração dessas violações, ou seja, a reparação dos danos causados não somente à vítima, mas também à sociedade, ao ofensor e às relações interpessoais. Enquanto, em sentido contrário, a justiça punitiva-retributiva coloca o crime como um ato meramente violador da norma estatal, cabendo, como reação a essa conduta, a imposição de uma pena. Como funciona a justiça restaurativa? Um processo restaurativo procura dar assistência às necessidades e a recuperação da vítima, dando a oportunidade do ofensor e/ou qualquer indivíduo ou comunidade afetado pelo crime, de participar junto na resolução das questões envolvidas. O quadro abaixo mostra a diferença entre a proposta retributiva e a proposta restaurativa de justiça, demonstradas pelo esquema publicado por Highton, Alvarez e Gregório em ‘Resolución Alternativa de Disputas y Sistema Penal’. Justiça Punitiva-Retributiva Justiça Restaurativa Delito Infração da norma Conflito entre pessoas Responsabilidade Individual Individual e social Controle Sistema penal Sistema penal / Comunidade Protagonistas Infrator e o Estado Vítima , vitimário e comunidade Procedimento Adversarial Diálogo Finalidade Provar delitos Estabelecer culpas Aplicar castigos Resolver conflitos Assumir responsabilidades Reparar o dano Tempo Baseado no passado Baseado no futuro O que acontece nesse processo? A vítima: Pode expor seus sentimentos e falar do dano sofrido, tem a oportunidade de fazer perguntas e contar o trauma que isto causou em sua vida. Também pode entender aspectos que levaram o ofensor a cometer o crime. O ofensor: Dá a possibilidade de conhecer o impacto de suas ações e de eventualmente seus atos e, a sua intenção, bem como o reconhecimento do erro. Quer aprender mais? Nossa irmã Petronella Maria Boonen, co-fundadora da linha de Perdão e Justiça Restaurativa do CDHEP, atualmente ministra cursos, oficinas e palestras sobre de Justiça Restaurativa, conflitos e habilidades emocionais para a área da socioeducação, área prisional, judicial e pastoral. Assista um vídeo no qual ele dá uma palestra sobre o tema no CHDEP Campo Limpo (http://cdhep.org.br/):
Irmã Missionária SSpS participa de encontro inter-religioso

“Uma visão feminina sobre a paz num encontro de mulheres de diferentes religiões e crenças” Esse foi o tema do encontro Unidas Pela Paz – Um Diálogo Inter-Religioso promovido pela Na´amat Pioneiras, uma organização de mulheres que visa contribuir para o desenvolvimento da mulher e preservar as tradições e a identidade judaica. Realizado em São Paulo no dia 27 de agosto no Hotel Meliá Jardim Europa ( Itaim Bibi, São Paulo), o encontro contou com a participação de mulheres de diferentes religiões e crenças que apresentaram suas visões sobre a paz em uma mesa redonda com a mediação da jornalista Rosana Hermann, roteirista chefe do humorista Fábio Porchat. As convidadas para a discussão foram a Monja Cohen (comunidade budista), Monica Buonfiglio (comunidade espiritualista), Pastora Merly Christina S. do Nascimento (comunidade evangélica), Paloma Awada (comunidade muçulmana), Rabina Fernanda Tomchinsky Galanternik (comunidade judaica) e a nossa Irmã Missionária Serva do Espírito Santo Nelly Boonen, co-fundadora da linha de Perdão e Justiça Restaurativa do CDHEP da área prisional, judicial e pastoral, representando a comunidade católica. Assista a reportagem sobre o encontro:
“Bandido” bom é “’bandido” perdoado

É uma conversa bem complicada quando falamos sobre dores e feridas da alma, ainda mais quando somos injustiçados por outras pessoas, não é mesmo? Quem já foi vítima de um assalto ou uma agressão física ou perdeu algum ente amado pelas mãos de outra pessoa, conhece bem os sentimentos de raiva, desejo de vingança e insegurança que ficam. Para especialistas em comportamento humano, esses sentimentos só podem ser resolvidos com a liberação do sincero perdão. E é aí que pode entrar o trabalho da Justiça Restaurativa. A Justiça Restaurativa é uma prática incrível que existe há mais ou menos 10 anos e ajuda a amenizar conflitos nas penitenciárias, nos colégios públicos de todo o Brasil e em muitos outros espaços. O que a torna tão especial é a oportunidade que ela dá para todos perdoarem e serem perdoados. Na sua dinâmica, vítimas e algozes da situação em questão são colocados cara a cara, para uma conversa franca. Neste momento, ambos, com auxílio de um mediador, podem expressar as suas emoções e perceber o outro lado da história de cada parte. Apesar do método simples, o processo pode ser longo e doloroso. Mas, ao final, liberta a alma e renova as forças. No Brasil temos uma equipe de irmãs trabalhando diretamente com Justiça Restaurativa. São elas: Ir. Nelly Boonen, Ir. Martina González, Ir. Helena Suzana Christo e, eventualmente, Ir. Stela Martins. A irmã Claudia Gonzalez, que mora no México, contou para nós em sua visita ao Brasil, um pouco sobre como a justiça restaurativa a fez ter paz de espírito novamente. Em seu depoimento, ela conta que sua irmã foi assassinada e que ela e sua família tinham muita raiva do assassino. Graças à justiça restaurativa, ela pode entender que o perdão faz bem para todos. Ela conseguiu se libertar da raiva, curar as feridas da sua alma e hoje ajuda outras pessoas a fazerem o mesmo. E você, seria capaz deste tipo de perdão?