O amigo fiel

Hoje, Dia do Amigo, padre Expedito Lopes de Castro, membro da Pastoral Missionária do Colégio Stella Matutina e pároco da comunidade Nossa Senhora de Fátima, na cidade de Juiz de Fora-MG, nos presenteia com uma linda mensagem sobre a amizade. Trata-se de uma oração intitulada “O amigo fiel”. Padre Expedito testemunha que “Deus é nosso amigo”. “Os amigos são uma grande influência na vida de cada pessoa” e “um bom amigo é uma bênção”, explica. Recordando o Livro do Eclesiástico (6,14), que diz “Amigo fiel é poderoso refúgio, quem o descobriu, descobriu um tesouro”, ele nos mostra, neste vídeo, o quanto a amizade de Deus nos dá força nos momentos difíceis de nossa vida. Quem não precisa de um amigo? Nestes tempos de distanciamento social, em que não podemos nos aproximar de tantas pessoas que amamos, que não podemos sentir o calor de seu abraço, a amizade é ainda mais crucial… Quem não precisa de um amigo, uma amiga para desafogar o que arde no coração ou pesa na alma? Quem não precisa de alguém para quem não é necessário se explicar, pois basta um olhar para se sentir acolhido, amado, compreendido? Quem não precisa de alguém com quem é possível se sentir sempre em casa? De alguém que não vai nos julgar ou condenar, nem mesmo quando erramos? Alguém que nos encoraja nas horas difíceis e nos ajuda a crescer quando “pisamos na bola”? Quem não precisa de alguém com quem sempre podemos contar? Que se alegra conosco quando estamos felizes e compartilha as lágrimas diante dos dramas da vida? Quem não precisa de alguém com quem podemos confiar sem medo e até mesmo dizer coisas que parecem sem sentido, mas que há momentos em que precisamos expressar, nem que for para colocar as ideias em ordem e entender o que se passa dentro de nós? Eu sei que você precisa e eu também preciso. Mas sei também que, por melhor que sejam nossos amigos e amigas, nenhum deles é perfeito. Um dia, não poderão atender a todas essas necessidades… Um dia, você ou eu também vamos falhar e decepcionar um amigo ou amiga… Ou, quem sabe, será você ou eu que se sentirá decepcionado ou magoado… O caminho da amizade, em certos momentos, tem desafios e é preciso encará-los. Às vezes, é preciso dar tempo ao tempo e permitir amadurecer dentro de nós o que impede viver a verdadeira amizade. Às vezes, é preciso esperar pelo tempo do outro, da outra. Não importa… A amizade também é feita de perdão. Mas seja quem for seu amigo ou sua amiga, por melhor que seja, jamais conseguirá satisfazer tudo o que está em seu coração. Porque somos humanos e limitados, mas nosso coração tem uma sede infinita…Então lembremos que temos um amigo com quem sempre podemos contar. Não importa o que aconteça em nossa vida, Ele estará sempre conosco, se o permitirmos. Ele não nos julga, não nos condena e sempre dá forças para recomeçarmos. Esse amigo é Jesus, e Ele nunca nos abandonará. Cultivemos nossas amizades, porque são verdadeiros tesouros! E reservemos tempo para nosso principal amigo, pois Ele vai nos ajudar a dar mais sabor à nossa vida e a encontrar o caminho da verdadeira amizade. Irmã Ana Elídia Caffer Neves, SSpSJornalista, membro da Equipe de Comunicação Congregacional, coordenadora de Comunicação da Província Stella Matutina (BRN) e terapeuta floral.

16º Domingo Comum

“Os justos brilharão como sol”Mt 13,24-43 Esse texto continua o capítulo 13 de Mateus, no qual se proclamam as parábolas do Reino. Hoje lemos três parábolas que comparam o Reino de Deus a um campo de trigo, um grão de mostarda e o fermento na massa, quando se faz pão. Termina com uma explicação alegórica do sentido da parábola do trigo e do joio. Podemos entender essas parábolas todas como uma mensagem de esperança para a comunidade pequena mateana (e para nós, hoje). Uma leitura atenta delas deve nos reanimar para nossa caminhada e luta em favor do Reino, sem desânimo nem desesperança. Isso fica patente nas pequenas parábolas do grão de mostrada e do fermento na massa. A semente de mostarda é minúscula, mas, quando brota, forma um arbusto viçoso. Quando se faz pão, não se usa mais do que uma pequena porção de fermento, mas é o suficiente para levedar a massa toda. O efeito é desproporcional ao tamanho ou peso do grão e do fermento. Pois eles têm um dinamismo interno que dá resultados inesperados. Jesus aplica essas observações ao Reino de Deus. Seu crescimento depende de pessoas e coisas que aparentemente são insignificantes. Porém, onde existe uma real comunidade de discípulos, há um dinamismo interno que causa efeitos muito maiores do que sua força humana, pois é movido pela força do Espírito de Deus. Com certeza, no tempo da redação desse evangelho, a comunidade mateana estava sentindo-se fraca demais para enfrentar a polêmica e a luta com o judaísmo rabínico formativo. Diante das expulsões das sinagogas e das famílias, da rejeição dos discípulos por seus pares, e diante da ameaça de perseguição real, muitos devem ter desanimado, sentindo-se fracos demais para essa caminhada. Algo semelhante facilmente ocorre hoje. Diante do rolo compressor da globalização do mercado, do projeto neoliberal, muitos acham que nós não temos forças para resistir, pois somos fracos e insignificantes aos olhos dos donos do poder. Mas isso é julgar somente com critérios humanos. É fácil esquecer a ação do Espírito e que, para Deus, nada é impossível. Essas duas parábolas nos ensinam a valorizar o nosso grão de mostarda e a nossa medida de fermento, ou seja, as pequenas ações e gestos de solidariedade, que trazem o dinamismo do Espírito e podem alcançar resultados surpreendentes. Olhando as estatísticas da diminuição da mortalidade infantil no Brasil, diante das quais os governantes se ufanam, quem não sabe que, em grande parte, é resultado do trabalho humilde e perseverante dos membros da Pastoral da Criança, que, mesmo diante de décadas de descaso governamental com a saúde pública, fazem verdadeiros milagres em favor da vida? E poder-se-iam multiplicar os exemplos. Olhemos com os olhos de fé e de Deus e não com os olhos do mundo, que só valoriza a força do dinheiro, do poder e da dominação. Nesse contexto, pode-se ler a parábola do campo onde foi semeado joio (erva daninha) junto com o trigo. Os servos querem arrancar à força o joio, mas o patrão não permite, pois talvez faça mais mal do que bem. Aqui o campo é o mundo, a comunidade, a Igreja. Somos uma comunidade santa e pecadora, como reza a oração eucarística. Cada comunidade, cada pessoa é, ao mesmo tempo, trigo e joio. A parábola alerta contra dois perigos muitas vezes presentes nas Igrejas. Uma é a tendência do puritanismo, de formar uma comunidade de “santos” ou “eleitos”, intolerante com os pecadores e com as fraquezas humanas, criando uma religião rígida e fria, que esconde o rosto misericordioso de Deus. O outro perigo é o oposto: simplesmente ignorar o joio, e assim correr o perigo de que a erva daninha (os males e erros) sufoquem o trigo na comunidade. A parábola aconselha paciência e cautela, e assim quer evitar os dois entremos de “elitismo” e de laissez-faire, pois ambas as atitudes teriam como resultado a destruição da comunidade. O Reino é de Deus, e Ele não falha. Somos convidados a caminhar juntos na construção lenta, mas segura, desse Reino, apesar de sermos joio e trigo, confiantes no dinamismo do Espírito que faz com que nosso grão de mostarda e fermento na massa deem frutos muito além das expectativas humanas. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Somos a favor da vida!

Nós, missionárias servas do Espírito Santo, estamos acompanhando com muita preocupação tudo o que está acontecendo no Brasil e sofrendo com o número espantoso de mortes, especialmente entre os mais pobres e com mais dificuldade de acesso a tratamento. Estamos profundamente indignadas com a situação dos povos indígenas e quilombolas e queremos manifestar nosso apoio à Conferência dos Bispos do Brasil em sua Carta aberta ao Congresso Nacional, que publicamos aqui na íntegra. Publicamos também o artigo do Frei Betto, pois ele denuncia com dados e fatos, explicando de maneira muito clara o que está acontecendo em nosso país. Respeitamos a opinião de quem pensa diferente, mas o Evangelho exige de nós, como consagradas e missionárias, que nos coloquemos a favor da vida, pois esta é nossa missão. Carta da CNBB Queridos amigos e amigas: No Brasil ocorre um genocídio! No momento em que escrevo, 16/7, a Covid-19, surgida aqui em fevereiro deste ano, já matou 76 mil pessoas. Já são quase 2 milhões de infectados. Até domingo, 19/7, chegaremos a 80 mil vítimas fatais. É possível que agora, ao você ler este apelo dramático, já cheguem a 100 mil. Quando lembro que na guerra do Vietnã, ao longo de 20 anos, 58 mil vidas de militares usamericanos foram sacrificadas, tenho o alcance da gravidade do que ocorre em meu país. Esse horror causa indignação e revolta. E todos sabemos que medidas de precaução e restrição, adotadas em tantos outros países, poderiam ter evitado tamanha mortandade. Esse genocídio não resulta da indiferença do governo Bolsonaro. É intencional. Bolsonaro se compraz da morte alheia. Quando deputado federal, em entrevista à TV, em 1999, ele declarou: “Através do voto você não vai mudar nada nesse país, nada, absolutamente nada! Só vai mudar, infelizmente, se um dia partirmos para uma guerra civil aqui dentro, e fazendo o trabalho que o regime militar não fez: matando uns 30 mil”. Ao votar a favor do impeachment da presidente Dilma, ofertou seu voto à memória do mais notório torturador do Exército, o coronel Brilhante Ustra. Por ser tão obcecado pela morte, uma de suas principais políticas de governo é a liberação do comércio de armas e munições. Questionado à porta do palácio presidencial se não se importava com as vítimas da pandemia, respondeu: “Não estou acreditando nesses números” (27/3, 92 mortes); “Todos nós iremos morrer um dia” (29/3, 136 mortes); “E daí? Quer que eu faça o quê?” (28/4, 5.017 mortes). Por que essa política necrófila? Desde o início ele declarou que o importante não era salvar vidas, e sim a economia. Daí sua recusa em decretar lockdown, acatar as orientações da OMS e importar respiradores e equipamentos de proteção individual. Foi preciso a Suprema Corte delegar essa responsabilidade a governadores e prefeitos. Bolsonaro sequer respeitou a autoridade de seus próprios ministros da Saúde. Desde fevereiro o Brasil teve dois, ambos demitidos por se recusarem a adotar a mesma atitude do presidente. Agora, à frente do ministério, está o general Pazuello, que nada entende de questão sanitária; tentou ocultar os dados sobre a evolução dos números de vítimas do coronavírus; empregou 38 militares em funções importantes do ministério, sem a requerida qualificação; e cancelou as entrevistas diárias pelas quais a população recebia orientação. Seria exaustivo enumerar aqui quantas medidas de liberação de recursos para socorro das vítimas e das famílias de baixa renda (mais de 100 milhões de brasileiros) jamais foram efetivadas. As razões da intencionalidade criminosa do governo Bolsonaro são evidentes. Deixar morrer os idosos, para economizar recursos da Previdência Social. Deixar morrer os portadores de doenças preexistentes, para economizar recursos do SUS, o sistema nacional de saúde. Deixar morrer os pobres, para economizar recursos do Bolsa Família e de outros programas sociais destinados aos 52,5 milhões de brasileiros que vivem na pobreza e aos 13,5 milhões que se encontram na extrema pobreza. (Dados do governo federal). Não satisfeito com tais medidas letais, agora o presidente vetou, no projeto de lei sancionado a 3/7, o trecho que obrigava o uso de máscaras em estabelecimentos comerciais, templos religiosos e instituições de ensino. Vetou também a imposição de multas para quem descumprir as regras e a obrigação do governo de distribuir máscaras para os mais pobres, principais vítimas da Covid-19, e aos presos (750 mil). Esses vetos, no entanto, não anulam legislações locais que já estabelecem a obrigatoriedade do uso de máscara. Em 8/7, Bolsonaro derrubou trechos da lei, aprovada pelo Senado, que obrigavam o governo a fornecer água potável e materiais de higiene e limpeza, instalação de internet e distribuição de cestas básicas, sementes e ferramentas agrícolas, para aldeias indígenas. Vetou também verba emergencial destinada à saúde indígena, bem como facilitar o acesso de indígenas e quilombolas ao auxílio emergencial de 600 reais (100 euros ou 120 dólares) por três meses. Vetou ainda a obrigação de o governo oferecer mais leitos hospitalares, ventiladores e máquinas de oxigenação sanguínea a povos indígenas e quilombolas. Indígenas e quilombolas têm sido dizimados pela crescente devastação socioambiental, em especial na Amazônia. Por favor, divulguem ao máximo esse crime de lesa-humanidade. É preciso que as denúncias do que ocorre no Brasil cheguem à mídia de seu país, às redes digitais, ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, e ao Tribunal Internacional de Haia, bem como aos bancos e empresas que abrigam investidores tão cobiçados pelo governo Bolsonaro. Muito antes de o jornal The Economist fazê-lo, nas redes digitais trato o presidente por BolsoNero – enquanto Roma arde em chamas, ele toca lira e faz propaganda da cloroquina, remédio sem nenhuma eficácia científica contra o novo coronavírus. Porém, seus fabricantes são aliados políticos do presidente… Agradeço seu solidário interesse em divulgar esta carta. Só a pressão vinda do exterior será capaz de deter o genocídio que assola o nosso querido e maravilhoso Brasil. Fraternalmente, Frei Betto Frei Betto é frade dominicano e escritor, assessor da FAO e de movimentos sociais.

Catequese familiar on-line

Uma das prioridades da Rede de Educação é, sem dúvida alguma, o cuidado para com a espiritualidade e a evangelização da comunidade escolar. Tal anseio motivou a equipe missionária a continuar as atividades em plena pandemia. Evidentemente, o meio utilizado é o virtual, por meio dos recursos tecnológicos educacionais disponível a docentes e discentes. À primeira vista, para quem acredita na força da interação pessoal para a transmissão da fé e que o testemunho é imprescindível para a evangelização, a exemplo das antigas comunidades cristãs, algumas objeções não seriam fáceis de superar. Uma catequese on-line teria efeito? O que pensariam os alunos? E os pais? De fato, a catequese tem sua origem nas primeiras comunidades cristãs. A palavra “catequese” significa explicação oral e sistemática dos mistérios da fé. Nesses pequenos grupos, a exemplo dos primeiros cristãos, os estudantes partilham suas vidas e celebram suas crenças e aspirações em comunhão com a Igreja. A preparação para a primeira Eucaristia tem como objetivo uma formação na fé, com impacto positivo para a vida da criança, da família e da sociedade. A catequese possibilita o amadurecimento e experiência da criança e do adolescente na fé. Além disso, há o grupo da Infância Missionária e da Perseverança, com o objetivo de manter o espaço de encontro para os que já receberam os sacramentos. Os grupos são estimulados a participar de projetos de voluntariado, inclusive em outras instituições. Logo após a interrupção das atividades presenciais, alguns alunos já entraram em contato por meio do Google Classroom, para saber se continuaríamos as atividades missionárias e de catequese. Com efeito, após um debate na própria equipe missionária do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP, foi decidido implantar encontros quinzenais e uma experiência de espiritualidade para os grupos. A atividade foi aberta à participação das famílias, pois a Igreja afirma que a família é o berço da fé. Os pais são os primeiros catequistas. A escola abriu então a possibilidade de os pais ou responsáveis participarem junto com os filhos na caminhada da Igreja em família. Mesmo no período da quarentena, os grupos foram mantidos por meio dos recursos tecnológicos disponíveis aos alunos, especialmente o Google Suíte. Os encontros têm momentos dinâmicos, com metodologia ativa, com partes expositivas, momentos de partilha e escuta dos alunos, trechos de vídeos, confecções artísticas, momentos de oração, dramatização, leituras bíblicas, atividades dinâmicas que movimentam o corpo e muita música. Os comentários de gratidão tanto por parte dos alunos quanto dos familiares, que assistem e participam dos encontros na telinha, fizeram com que a equipe alterasse a frequência dos encontros, agora semanais. A frequência dos convidados é impecável, inclusive porque foi aberta a possibilidade de dois horários facultativos. Para um educador-missionário, não tem preço ver crianças e adultos com olhinhos brilhando e experimentando a aquela paz de Cristo que provém de encontros com o Transcendente. Dessa forma, famílias, estudantes e educadores aprimoram sua espiritualidade. Professor Marcos Melo é doutor em História da Filosofia pela Unicamp, mestre em Literatura pela USP e mestre em Teologia pela PUC-SP. No Colégio Espírito Santo, contribui na equipe missionária e leciona para os ensinos fundamental e médio.

Noviciado Panam em tempos de pandemia

Nas Américas, as missionárias servas do Espírito Santo (SSpS) estão presentes no Brasil, Argentina, México, Estados Unidos, Cuba, Bolívia, Chile, Paraguai, Equador, São Cristóvão e Névis, Jamaica e Antígua e Barbuda. Há vários anos, a formação das noviças do continente vem sendo realizada no Paraguai, com a colaboração das irmãs das 11 províncias e regiões, que é a forma como estão organizadas. No momento, são três noviças no primeiro ano e mais três do segundo ano em estágio missionário. São quatro brasileiras: Crislaine Mayra Lopes Pereira, Valdirene Pereira da Silva, Janice Santos de Santana e Patrícia Zeponi, uma do México, Tania López Silva, e outra da Argentina, Gilda Leguizamón. As formadoras são as irmãs Graciela Castro e Eva Tapia. As noviças do primeiro ano entraram no dia 9 de fevereiro. Elas receberam as Constituições SSpS e uma medalha para usar como sinal de pertencimento e compromisso de seguir a Cristo nessa etapa de formação. Assim descrevem a rotina delas: “Em um ambiente comunitário e fraterno, compartilhamos nossas experiências pessoais, culturais e espirituais, bem como a ajuda mútua no trabalho e estudo”. Além disso, elas se encontram com as comunidades vizinhas do postulantado e da Casa de Retiros, para participar da missa, comemorar os aniversários e as grandes festas da Igreja e da Congregação. Por causa da pandemia do novo coronavírus, as noviças não têm aulas fora, mas continuam normalmente com os estudos em casa e acompanham o que está acontecendo no mundo. “Como comunidade, seguimos as ordens sanitárias específicas e nos unimos à Igreja e às necessidades do mundo com nossas orações diárias e adoração ao Santíssimo. Participamos de celebrações eucarísticas diárias pelos meios de comunicação.” Elas também seguem as notícias e refletem como vivenciar a situação atual. Janice, que está no primeiro ano de noviciado, diz que está bem e aproveitando o tempo para rezar mais e estar mais presente na comunidade. Para ela, a pandemia não é só física, mas também espiritual. Experiência intercultural nas comunidades Durante o segundo ano de noviciado, as noviças são enviadas para um estágio de seis meses em comunidades SSpS, em diferentes realidades de missão. A experiência é em outro país, favorecendo a vivência da interculturalidade. Aqui trazemos um breve relato das experiências das duas noviças brasileiras. Crislaine está na pequena cidade de Governador Roca, em Missiones, Argentina. Segundo ela, um local bem organizado, mas onde se sente “a diferença entre poloneses e indígenas”, fruto “de uma história que não foi construída a partir da comunhão, mas por uma separação bem intensa”. Ela vive na Comunidade Nossa Senhora de Fátima, dentro de um colégio, com outras cinco irmãs que se dedicam à educação, casa de acolhimento para idosos abandonados e pastoral indígena. Antes de iniciar a quarentena, ela foi com uma das irmãs ajudar nas escolas das comunidades aborígenes e sente não poder continuar por causa da pandemia. “Foi forte para mim e intenso perceber o quanto são marginalizados e excluídos pela mesma sociedade, e a luta que têm para conseguir seus direitos”, conta Crislaine. A noviça ficou com as crianças de primeira a terceira série e se sentiu muito tocada: “O brilho no olhar de cada uma delas é fascinante; a confiança que têm nos professores me faz sentir a presença amorosa de Deus que vem todos os dias ao nosso encontro”, diz. No colégio das irmãs, colaborou com uma turma da primeira série e também acompanhou como as irmãs partilham a espiritualidade com os professores, alunos e famílias. Mas, na Argentina, durante a pandemia, as irmãs estão fechadas em casa e ninguém sai à rua sem motivo, sob pena de prisão… Enquanto isso, Crislaine está ajudando no trabalho na casa dos idosos, na cozinha, na limpeza e “em tudo o que for necessário para atender melhor nossos avozinhos”, explica. “Para mim, está sendo um momento bem reflexivo poder estar com eles. São lindos! E o que mais querem é que alguém que os escute e esteja ao lado deles segurando seu braço”, afirma. Valdirene foi enviada para a cidade de Nova Esperança, Argentina Norte, numa pequena comunidade com três irmãs que atuam em diversas pastorais, principalmente na catequese familiar e com crianças, Infância e Adolescência Missionárias (IAM), pastoral familiar, formação bíblica, liturgia, trabalho social numa enfermaria e com Cáritas. Ela começou muito animada o trabalho pastoral, as visitas às comunidades pertencentes à Paróquia Nossa Senhora das Mercês e a conhecer as pessoas. Conta que “o povo é muito simples, gentil e acolhedor”. Pediram-lhe que acompanhasse as catequistas e as famílias da periferia. Veio então o tempo de quarentena, e ela, junto com as demais irmãs, tiveram de interromper as atividades e seguir as orientações do governo, ficando em casa. Mas isso não impediu que a comunidade encontrasse outras formas de serem missionárias. Valdirene conta que, na comunidade, as irmãs estão fazendo uma hora de adoração de segunda a sexta-feira para rezar pelas famílias e pelo mundo durante o tempo de pandemia. Criaram também grupos pelas redes sociais para enviar mensagens de ânimo e de evangelização, a liturgia diária e vídeos. “Para estarmos conectadas uns com os outros e para levar fé e esperança àqueles que mais necessitam”, explica a noviça. A pesar de a pandemia ter mudado seus planos e expectativas, Valdirene diz que “está sendo uma oportunidade para aprender e experimentar a interculturalidade”, uma característica tanto da comunidade onde está como também da Congregação. Ela conta que se sente desafiada a lidar “com o sentimento de impotência frente o covid-19 e a incerteza de quando tudo isso termina, porque ninguém está livre de contaminação”, e conclui afirmando que está fazendo seu processo de aceitação.

15º Domingo Comum

“Quem tem ouvidos para ouvir ouça”Mt 13,1-23 Com o texto de hoje, entramos no capítulo 13 de Mateus, que, estruturalmente, é o centro do Evangelho. Tudo se concentra no ponto central da mensagem de Jesus: o Reino de Deus, que continua algo misterioso (v. 11). O capítulo consiste de sete parábolas (as parábolas do Reino) e alguma explicação delas. O trecho de hoje nos relata a parábola que é conhecida como a do semeador (embora o texto enfatize mais a semente), junto com uma explicação de seu sentido. O que é uma parábola? Um exegeta, C. H. Dodd, deu a seguinte definição: “Parábola: uma metáfora tirada da vida diária ou da natureza, que chama a atenção do ouvinte pelas imagens vivas ou estranhas, e que o deixa com dúvida suficiente sobre o seu sentido exato, para que seja estimulado a refletir por si mesmo”. A parábola de hoje usa imagens conhecidas na Palestina rural de então (a semeadura) e, em sua forma original, não trazia explicação. Terminava com o desafio de Jesus para que os ouvintes aprofundassem por si mesmos o seu sentido: “Quem tem ouvidos para ouvir ouça”. Para entender as imagens, é bom lembrar que, na Palestina antiga, jogava-se a semente antes de arar a terra. Por isso alguma semente caía nas picadas que atravessavam os campos “à beira do caminho”; outra parte seria logo queimada pelo sol terrível do país; outra parte, comida pelas aves; outra parte perdida, porque a terra era rala e cheia de ervas daninhas. Mas uma parte cairia em terra fértil, que dava frutos, conforme a sua possibilidade. Provavelmente a explicação dada nos versículos 18 a 23 nasceu mais tarde, durante a catequese da Igreja primitiva. Assim, no início, podemos supor que o semeador era Deus, Jesus, ou um emissário deles; a semente seria a Palavra de Deus; e os tipos diferentes de solo, as respostas diferentes dos ouvintes. Alguns deixam o fascínio do mal, em suas diversas formas, roubar a semente; outros acolhem a Palavra, mas de uma maneira superficial, e não demora muito para que ela se torne infrutífera em suas vidas. Outros aceitam a revelação divina, mas a colocam em segundo plano, enquanto correm atrás das riquezas de um mundo consumista. Relegando assim Deus e seu projeto, fazem com que a religião se torne algo de fachada, que em nada ajuda o Reino a crescer. Mas a finalidade da história é de dar esperança. Embora haja muitos fracassos, em última instância, o trabalho do semeador dá certo: sempre há pessoas que recebem com entusiasmo a Palavra, e suas vidas, baseadas na fé viva, dão muitos frutos. Não é necessário que todos deem frutos iguais, mas que todos deem conforme suas possibilidades, cem, sessenta e trinta por um. Depois de 2 mil anos de semeadura, cabe perguntar sobre os frutos da semeadura em nossa sociedade, dita cristã. Depois de 500 anos das Igrejas no Brasil, será que o solo (nós, cristãos) tem dado os frutos de uma sociedade justa e fraterna, conforme o desejo de Deus? Estamos sendo, individualmente e comunitariamente, que tipo de solo? Deixamos a semente penetrar no solo de nossos corações, ou deixamos a semente na superfície, como a que caiu à beira do caminho? Ou a aceitamos pela catequese sacramental e a tradição familiar, sem aprofundá-la, ficando numa prática estéril para manter aparências e tradição, mas que não afeta em nada a sociedade? Ou deixamos os espinhos modernos (as tentações de uma sociedade materialista, consumista, de competitividade) sufocar as reações de fraternidade e solidariedade que devem marcar os que acolhem a Palavra? Ou, com a graça de Deus, procuramos ser solo fértil, onde a fertilidade inerente na semente possa brotar em frutos de bondade e justiça, conforme as nossas possibilidades, deixando acontecer o que profetizou Segundo Isaías: “Assim acontece com a minha Palavra que sai de minha boca: ela não volta para mim sem efeito, sem ter realizado o que eu quero e sem ter cumprido com sucesso a missão para a qual eu a mandei” (Is 55,11). O semeador é Deus, a semente é boa, mas que tipo de solo sou eu, somos nós? “Quem tem ouvidos para ouvir ouça!” Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

ECA: compromisso juvenil – 30 anos em defesa do futuro do Brasil!

Ágatha, Jenifer, Kauã, Miguel, Letícia, Luane e todas as crianças e adolescentes assassinados no Brasil, presentes! Suas vidas clamam por justiça social. Ainda temos crianças inocentes sendo assassinadas, crianças e adolescentes sendo explorados, crianças sem creche, adolescentes fora da escola, muitos abandonados e sendo discriminados… Até quando nossa sociedade permitirá tamanha insanidade? Neste ano de 2020, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) completa 30 anos, sob a Lei 8.069, promulgada em 13 de julho de 1990. Seu objetivo é garantir a proteção integral da criança e do adolescente, aplicando medidas e expedindo encaminhamentos para o Poder Judiciário, sempre que for necessário. É o marco regulatório dos direitos humanos de nossos cidadãos mirins. Em seus 277 artigos, o ECA estabelece medidas de proteção contra o trabalho infantil e várias tipificações de crimes, bem como autorização para viajar, adotar, prever, desde o nascimento até a fase adulta, como sujeitos de direitos. Esse direito é estendido a todos, sem distinção de classe social, de diferentes etnias, de origem, de sexo ou de crença, como garantia de alimentação, educação, segurança a um grupo de atores ainda em formação moral e social. Diante disso, é atribuída ao Estado, à família e à sociedade o compromisso infantojuvenil como prioridade absoluta, de forma democrática. A criação de instituições, como os conselhos municipais de direitos e os conselhos tutelares, com representantes da sociedade civil, tornou-se importante para a execução de proteção e prevenção de meninos e meninas indefesas. Porém, infelizmente, ainda temos muito a alcançar quanto aos direitos de crianças e adolescentes. Além da falta de vagas em creches e escolas, é necessária a inclusão social. Durante a pandemia, constatou-se, em relação a crianças e adolescentes que estão matriculados nas escolas, quantos não possuem computador nem acesso à internet, mesmo com os professores dedicando-se ao trabalho remoto, direto de suas casas. Se antes do isolamento social havia falta de professores auxiliares para a educação especial (que atendem autistas e demais estudantes com necessidades especiais), esse agravante passou a ser um tormento para os responsáveis, pois a atenção precisa de tempo integral. Como fazer se muitos precisam trabalhar ou não têm o conhecimento para lidar com a situação? Outros desafios que ainda a sociedade civil e o Estado não cumpriram como seu dever: como socializar e reeducar os adolescentes em abrigo socioeducativos sem os discriminar? Promover tratamentos adequados para sua recuperação, seja ela psíquica ou química? Muitos são explorados por adultos mal-intencionados, sabendo da carência afetiva e material desses pequenos atores sociais vulneráveis nos interiores do Brasil ou que vivem pelas ruas sem um aconchego familiar. O que dizer, então, de crianças e adolescentes assassinados por balas perdidas ou por pais desequilibrados psicologicamente, ou pela indiferença social? Há muito ainda o que se fazer neste aniversário de 30 anos de ECA. Que possamos não somente divulgar os direitos das crianças e dos adolescentes, mas também cobrar os deveres e as responsabilidades tanto das famílias quanto dos representantes eleitos nos conselhos municipais e conselhos tutelares perante o Poder Público. Preservar o futuro da nação é buscar educar as crianças e os adolescentes com consciência de seus direitos e deveres de cidadão, para promover uma sociedade democrática justa e igualitária. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, Teologia pelo Mater Ecclesiae, professora de Filosofia, filiada à ABA, APEOESP e SBPC; membro da Comissão de Prevenção à Tortura pela ALESC, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, pertencente à Arquidiocese de Florianópolis.

Empatia, compaixão e cuidado na Rede de Educação SSpS

A Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo está promovendo uma série de atividades on-line como parte do projeto “Tecendo Relações”. O próximo webinar ao vivo é nesta quinta-feira, 9 de julho, às 19h, com o tema “Caminhos para viver bem: empatia, compaixão e cuidado!”. A convidada é a Monja Coen, reconhecida como autoridade na abordagem de práticas vivenciais baseadas na sabedoria, na compaixão e na empatia. A webinar será transmitida no endereço https://www.youtube.com/channel/UCJkRvCAyci2WxskppPEidEQ. O tema faz parte da proposta do projeto “Tecendo Relações” que, de acordo com a diretora-presidente da Rede de Educação, Ir. Maria de Fátima Marques, “Nasceu das reflexões realizadas em rede e da preocupação sensível e cuidadosa com as pessoas que fazem parte de nossa missão educativa, como o samaritano que viu, sentiu e se compadeceu”. Dessa forma, o projeto está alinhado com o tema da Campanha da Fraternidade deste ano e busca cuidar do emocional da comunidade educativa, incluindo alunos, educadores, familiares e interessados em aprofundar assuntos que possam ser iluminadores, especialmente durante este período de pandemia. A primeira webinar foi com a psicóloga Aline Souki, que desenvolveu o tema “Gerindo as emoções durante o isolamento social”. O encontro está disponível no Youtube, pelo link https://www.youtube.com/watch?v=rce0Rflu7io. Diante da necessidade de cuidar do emocional e das relações humanas, a Monja Coen vai dialogar e apontar caminhos do bem-viver, tendo a empatia, a compaixão e o cuidado como práticas possíveis e que fazem parte dos valores que iluminam a ação pedagógica das escolas da Rede de Educação SSpS e que ganharam reforço por causa do tema transversal deste ano, que é “Escola viva: vê, sente e cuida”. Coen é uma monja zen budista brasileira de ascendência portuguesa e missionária oficial da tradição Soto Shu, com sede no Japão. Ela vem ajudando muitas pessoas a pensar e a dar à vida um novo significado, com base na espiritualidade, motor que move cada ser humano.“Refletir sobre esses temas se torna necessário e oportuno para que saiamos ainda melhores deste momento de distanciamento social”, afirma Patrícia Campos, assessora de comunicação da Rede de Educação. Ela acredita que, “diante de tantas tribulações, parar um pouco, serenar o coração e ouvir se torna essencial”. O webinar está aberto também ao público em geral. Será uma oportunidade de refletir a partir de uma perspectiva inter-religiosa que certamente ajuda a abrir horizontes para uma compreensão mais ampla da realidade atual e da universalidade do ser humano.

Estou me guardando para (quando) a pandemia passar…

Vivemos tempos desafiantes. Nunca antes vi nem vivi nada parecido. De tudo, somado o assustador, o patético, o impactante, o alentador, o dolorido, o que acalma, o que assombra, misturado ao que virá, restam muitas emoções. Um certo mal-estar que insiste em zumbir o dia todo, aliado a momentos de encantamento pela simplicidade das coisas cotidianas. Aos que não podem estar em casa por suas ocupações essenciais, meus agradecimentos. Aos que não podem ficar em casa porque a vida urge e as desigualdades se agigantam, nossa solidariedade e compromisso de não desistir de mudar as coisas como elas estão. Aos que podem ficar em casa, um alento e a certeza de que estamos fazendo a coisa certa, mesmo nesse ambiente de tantas incertezas. Certo é que nada será como antes, e vem aí um “novo normal” que nenhum de nós sabe ao certo o que será. Certo é, também, que há coisas que são perenes e permanentes. Mais especificamente, digo das coisas vividas e desejadas. É com esse arsenal particular e subjetivo que vamos nos superar e fazer planos pra (quando) a pandemia passar. Digo da memória viva dos nossos afetos, digo da memória crítica para reinventar o que foi vivido até aqui. Não é nem o caso de escolher muita coisa para mudar. É deixar agigantar-se o que há de bom em nós… Que nossa generosidade nos surpreenda com atos concretos e solidários. Que aqueles abraços não dados fiquem na ponta dos dedos, prestes a encontrar outros braços abertos. Que nossa fé e espiritualidade nos guie para o campo fértil da crença fortuita e gratuita. Que o volume do som quase estoure os tímpanos com sua música preferida. Que a natureza siga nos inspirando em cada flor que nasce, em cada rebento. Que o perdão encontre o caminho e construa pontes. Que sejamos presença mesmo na distância. Que a gente seja criativa para se fazer presente mesmo na distância. Que nossa indignação nunca se apague. Que se agigante o que há de bom em nós… Só assim a impaciência, a desesperança, o desencantamento, a angústia e aquele mal-estar vão ganhando proporções de um componente paradoxal e essencial, e que não nos imobiliza. Estou me guardando para (quando) a pandemia passar… Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.

14º Domingo Comum

“Eu te louvo, ó Pai, … porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” Mt 11,25-30 Os três primeiros versículos desse texto não têm uma vinculação muito estreita com o contexto em que Mateus os coloca (Lucas situa o ditado num outro contexto), e por isso “estas coisas” não se refere ao que veio antes no capítulo (a condenação de Corozaim e Betsaida), mas aos “mistérios do Reino”, que são revelados aos pequenos e humildes (nesse contexto, os discípulos), e escondidos aos que se acham autossuficientes na sua sabedoria e estudo: os fariseus e doutores da Lei (Mt 13,11). Essa oração de louvor de Jesus brota de sua própria experiência na missão. Enquanto sua pessoa, ensinamento e projeto de vida são rejeitados pela elite política, econômica e religiosa da época, os pobres e massacrados pelo sistema o acolhem. A autossuficiência da elite impede que ela possa reconhecer a verdade de Jesus. Os pobres, com a sua espiritualidade do Servo de Javé, conseguem, em grande parte, acolhê-lo, mesmo sem compreender inteiramente a profundeza de sua identidade. O texto tem ecos da literatura sapiencial e apocalíptica. Dos Sapienciais, podemos ver reflexos de Provérbios (8), onde a Sabedoria é personificada; Eclesiástico (51,1-12,13-30); e Sabedoria (6-8). Mas também nos faz lembrar textos apocalípticos, como Daniel, em que os sábios são incapazes de decifrar o sentido do sonho de Nabucodonosor (Dn 2,3-13), enquanto o humilde Daniel, confiando na revelação divina, louva a Deus por lhe ter dado a sabedoria (Dn 2,23) e revela que se trata do Reino fundado pelo próprio Deus (Dn 2,44). No tempo de Jesus, os sábios também não conseguem decifrar os mistérios do Reino de Deus, um dom que é dado aos humildes. Em Mateus, os pequenos são os discípulos (Mt 10,42) a quem são revelados o mistério do Reino dos Céus (Mt 13,11). Os versículos 26 a 28 são importantes, pois afirmam o relacionamento único entre Jesus e o seu “Abbá”, Pai. Aqui, a comunidade mateana expressa sua fé em Jesus como Filho Absoluto do Pai Absoluto. É uma das três passagens, em Mateus, nas quais Jesus expressa, de uma maneira indireta, ter uma relação única com Deus, seu Pai. As outras são Mt 21,37 e 24,36. A imagem do “jugo” era bastante conhecida já no Antigo Testamento (Jr 2,20; Jr 5,5; Os 10,11). No judaísmo do tempo de Jesus, era usada como imagem da Lei de Deus, escrita e oral (Eclo 6,24-30; 51,26s). O termo não tinha necessariamente uma conotação de peso ou opressão quando usado assim. O nosso texto usa a imagem corrente para contrastar a interpretação farisaica da Lei, que oprimia o povo com exigências casuísticas e conceitos que excluíam muitos, com a interpretação de Jesus, que não rejeita a Lei, mas lhe devolve o seu sentido original: uma garantia de manter vivo na comunidade o projeto libertador de Javé. O problema não estava na Lei, mas em sua interpretação. Para os doutores, as práticas externas eram tão exigentes que ofuscavam o rosto misericordioso de Deus, tornando a vivência religiosa um pesadelo para muitos. A interpretação de Jesus não é “light”; é exigente, pois exige uma vivência de fraternidade, uma luta pela solidariedade e libertação e a rejeição de todo egoísmo e individualismo. No fundo, é mais exigente do que a dos fariseus, pois não se esgota em práticas externas, mas em um processo infinito de doação de si. Mas Ele garante que esse projeto de vida, por tão exigente que seja, trará a alegria do Reino de Deus. Esses últimos versículos nos levam a rever nossa pregação, nossa interpretação da Lei de Deus, nossa prática pastoral. Pois, ao longo da história, muitas vezes, a pregação nas Igrejas e na catequese tem sido uma série de legalismos moralizantes, reduzindo o cristianismo a uma prática externa de normas. Não poucas vezes, colocando fardos pesados sobre os menos fortes, sem que fosse oferecida a eles qualquer ajuda para carregá-los. Frequentemente, o seguimento de Jesus se reduzia ao cumprimento de leis, ou à vivência de uma moral ou ética, sem a revelação do Deus misericordioso e compassivo, o Deus de vida. Jesus nos mostra que, embora a religião exija leis e moral, fundamentalmente é uma mística, uma experiência do amor de Deus que nos convida a assumir o seu jugo como resposta, um jugo que não mata, mas que liberta, que não esconde o rosto de Deus, mas que traz a alegria do Reino. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

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