Vem aí a Capela Missionária Virtual

Junto com o Mês Missionário Extraordinário, que começa no dia 1º de outubro, vamos lançar a Capela Missionária Virtual, um espaço de espiritualidade e oração, mas também de compromisso com a missão da Igreja no Brasil e no mundo. A criação da Capela Missionária é uma das ações das missionárias servas do Espírito Santo para responder ao apelo do Papa Francisco em despertar uma maior consciência da missão ad gentes “e retomar com novo impulso a transformação missionária da vida e da pastoral”. De fato, nós, como missionárias, fazemos parte da missão ad gentes, isto é, da missão além-fronteiras, porque somos uma congregação intercultural e internacional, presente em cerca de 50 países nos cinco continentes. Nesse sentido, a capela missionária é uma forma de partilharmos nossa espiritualidade e carisma missionários e dar a conhecer significativas experiências de missão aqui no Brasil e em outros países. Mas o que vem a ser a Capela Missionária Virtual? Em primeiro lugar, um espaço de oração voltado para as grandes necessidades do mundo atual e das pessoas concretas em suas lutas e sonhos por uma vida melhor. Como é virtual, não importa onde você esteja. Poderá acessá-la pelo celular, computador ou tablet, visitar nossa capela e rezar conosco a partir de um coração missionário. A Capela Missionária vai oferecer vários tipos de oração, como a leitura orante do Evangelho do dia, a oração do terço missionário, as intenções missionárias para cada dia e outras baseadas em nossa espiritualidade e na vida da Igreja. Basta conectar-se conosco e abrir-se à ação do Espírito Santo. Além de poder rezar pelas situações que atingem a humanidade e por todos os que necessitam de preces, também será possível pedir orações e, simbolicamente, acender uma vela nas intenções desejadas. Cada pedido receberá as preces de nossas irmãs das comunidades do Convento Santíssima Trindade, Santana e outras. Nós levaremos os pedidos e intenções também para a celebração da missa e nossas orações comunitárias. Um dos objetivos da Capela Missionária é ser um espaço de missão on-line, com algumas irmãs disponíveis para dialogar e interagir com as pessoas que entrarem em contato. Nossa intenção é responder a todos, oferecendo apoio, consolo, ânimo e orientação espiritual aos que o desejarem. E, como o nome já diz, trata-se de um espaço de abertura para o mundo e de encontro do diferente, de conhecimento de outras realidades. Será um convite para alargar o coração até os confins do mundo e acolher nossos irmãos de outros povos, culturas e línguas. Na Capela Missionária haverá muitas formas de interagir, até mesmo de participar da missão e apoiar obras missionárias concretas, cada pessoa segundo suas possibilidades e apelos que sentir dentro de si. Em breve, estaremos no ar e convidaremos você para fazer parte dessa nova comunidade missionária. Vamos começar aos poucos, ampliando a cada dia os conteúdos e oportunidades para nos aprofundar na fé e nos comprometer com a missão. Contamos com você. Irmã Ana Elídia Caffer Neves, SSpSJornalista, membro da Equipe de Comunicação Congregacional e coordenadora de Comunicação da Província Stella Matutina (BRN) _______

O encontro com a felicidade (Mt 5,1-12; Lc 6,20-23)

O relato das bem-aventuranças encontra sua versão em Mateus e Lucas. Estudiosos concordam que não se trata somente de um sermão, que Jesus tenha pregado em uma ocasião concreta. Antes, é o resumo dos ensinos que, em diversas oportunidades, Ele ministrara a seus discípulos. Portanto, no trecho das bem-aventuranças, encontra-se o essencial dos ensinamentos de Jesus. De tal modo, todo seguidor de Jesus precisar abraçá-las como programa de vida. Quando Jesus anuncia as bem-aventuranças, o que faz, na realidade, é descrever sua própria vida. Uma vida identificada com os desejos dos pobres, dos que carecem do indispensável para viver com dignidade. Por isso sua vida atraiu e atrai multidões. Nesse tratado, o surpreendente é Jesus colocando que o que nos faz mais felizes é aquilo que, ao “simples olhar”, parece nos fazer mais míseros. Pois a pobreza, o sofrimento, ter fome e sede de justiça, ser perseguido e insultado (Mt 5,1-12; Lc 6,20-23) é muito difícil de suportar. Onde está, então, a chave da felicidade nesse tratado Nesta breve reflexão, tentaremos responder a essa questão. Mas, antes de continuar, recomendamos a leitura do texto de Mateus (5,1-12), o qual será comentado a seguir. Notemos, logo na introdução, três importantes chaves de leitura: “Subiu à montanha e, sentando-se, começou a ensinar”; “E pôs-se a falar”; “Ensinava-lhes, dizendo”. No Antigo Testamento, a montanha evoca o lugar do encontro com Deus (Êx 19,3.10-18; 20,1-18). O gesto de sentar-se era comum aos rabinos quando ministravam seus ensinamentos. Nesse marco, a postura de Jesus para ensinar pode dizer da importância do caráter essencial de sua doutrina. “E pôs-se a falar”; a tradução mais exata é “abriu a boca”. Essa expressão, entre outros sentidos, significa abrir o coração. Abrindo seu coração, Jesus mostra os conteúdos mais íntimos àqueles que seriam seu braço direito no cumprimento da missão. “Ensinava-lhes, dizendo”. O verbo “ensinava” está no imperfeito e, portanto, descreve uma ação habitual, repetida de Jesus; entende-se que Jesus ensinava continuamente. Observemos que cada bem-aventurança tem a mesma forma: “Felizes os…”. Estudiosos concordam que, no grego, falta o elo que, em nossas traduções comuns, une cada ditado. Isso se deve a que Jesus as pronuncia em aramaico-hebraico. No Antigo Testamento, é comum encontrar uma expressão, em forma de interjeição, e que significa: “Que feliz é…!” (Sl 1,1). Essa é a mesma forma que Jesus usa nas bem-aventuranças: “Que feliz é o pobre de espírito…!”. É muito importante ressaltar essa forma, porque significa que as bem-aventuranças não são piedosas exclamações de esperança de um possível futuro, mas são de alegria e encanto por algo que já existe. São felicitações no agora, certamente alcançarão a plenitude na eternidade. Ao falar da felicidade, não podemos ignorar o desejo, pois nele se encontra a chave da felicidade. Aquele que cobiça e deseja aquilo que não pode alcançar na presente ordem das coisas, aos poucos, submerge-se na amargura, ressentimento e violência. Por outro lado, aquele que orienta suas vontades e desejos pelo bem da felicidade dos outros, esse é quem alcança a felicidade na presente ordem das coisas. De fato, é demonstrado que as pessoas que se preocupam com os demais, as pessoas que lutam para que, neste mundo, haja menos carências, menos injustiças, menos violências e mais paz, justiça e perdão são mais felizes. Pelo contrário, aqueles que se preocupam tão somente com elas mesmas se afundam no egoísmo e na infelicidade. Os desejos de Jesus se identificam sempre com os anseios dos pobres, dos doentes, dos excluídos… Por isso, multidões seguiam Jesus (Mt 4,23-24; 8,16-17; 9,35; Lc 4,18-21; 4,40-41; 6,17-19). Sem pretensões de “rebaixar” o projeto de Jesus para que cada um tome o que queira, o que buscamos é propor um apelo a subir ao monte, contemplar Jesus e escutar dele como viver nossas relações humanas. Pois, em nossa contemporaneidade, parece irreconciliável individualidade e compromisso social. A sociedade de consumo nos faz acreditar que satisfará tudo e todos, porém o que falaciosamente faz é identificar a felicidade com o estar saciado. Nessa dinâmica perniciosa, a saciedade é a prisão do desejo. Cabe aqui perguntar-se: qual é meu desejo? É interessante que se comece a falar da felicidade dizendo: “Que felizes são os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (v. 3). Devemos deixar claro que Jesus não elogia a pobreza material. Ele sempre esteve contra essa classe de pobreza que esmaga pessoas e povos. Jesus elogia os pobres no espírito, isto é, os que reconhecem sua condição humana limitada diante das exigências da vida e colocam em Deus toda sua confiança. O “pobre no espírito” é quem compreende que nenhuma coisa satisfará seu desejo mais profundo, mas somente Deus. E, portanto, faz a vontade de Deus, tornando-se, assim, feliz cidadão do Reino de Deus. “Felizes os mansos porque herdarão a terra” (v. 4). Em grego, a palavra praus é equivalente a “manso”, e era de um significado elevado na ética. Aristóteles explicou a virtude como o meio-termo entre dois extremos. A virtude da mansidão era então o meio-termo entre muita ira e pouca ira. Entende-se então que é feliz o cristão que, diante da agressão, dos insultos à sua pessoa, não reage com agressividade, porém, quando os outros são ofendidos, ele manifesta indignação. Outro significado para praus é “domesticado”. Quando o animal tinha sido treinado para obedecer ao dono, era tido como manso. Nesse marco, pode dizer-se que é feliz a pessoa que sabe dominar suas paixões e desejos, pois têm domínio sobre eles. A atual sociedade se arroga por “liberdade”, porém, muitas vezes, estamos prisioneiros de nossas paixões. É imperativo, portanto, sempre se perguntar: sou eu a governar minhas paixões e desejos ou são eles a me governar Chama-me a atenção como as redes sociais concorrem por ocupar o centro de nossa vida. Parece que conhecem nossos gostos e se interessam por nossos sentimentos e pensamentos. Como elas, há outros mecanismos que que buscam é exaltar nosso ego. Mas Deus nos quer felizes e nos convida a sê-lo: “Felizes os mansos…”. O texto das bem-aventuranças

Estudantes debatem conflitos no Morro do Alemão

O conflito do Morro do Alemão, no Rio de Janeiro-RJ, mobilizou alunos do Colégio Sagrado Coração de Jesus e de diversas escolas de Ensino Médio e universidades de Belo Horizonte e do interior de Minas Gerais, num total de 200 estudantes que participaram da SIS – Simulação Intercolegial do Sagrado, no dia 31 de agosto. A SIS faz parte do projeto pedagógico do colégio e, segundo a aluna Ana Luiza Araújo, “é um projeto criado e organizado pelos estudantes do Ensino Médio, no qual eles têm a oportunidade de mergulhar no excitante mundo diplomático”. Ela explica que os estudantes se organizam em comitês, criando um ambiente de simulação de organismos internacionais ou instituições nacionais, e se transformam em delegados para discutir temas relevantes da agenda nacional e internacional. Nesse processo, os alunos debatem, pactuam, articulam, deliberam, criam consensos e propostas de resolução para os temas em questão. Por isso a Simulação Intercolegial do Sagrado é uma oportunidade para aprimorar conhecimentos e a capacidade de relacionamento, diálogo e gerência do imprevisto.  Neste ano, a 2ª edição da SIS organizou seis comitês, cada um com um tema: questões indígenas; antirrevolucionários durante a Revolução Francesa; crime organizado; segurança marítima; crise e intervenção na imprensa e o conflito no Morro do Alemão. Emoção no relato de moradoras O workshop sobre o conflito no Morro do Alemão teve destaque na SIS com o depoimento da Ir. Maria de Fátima Marques, presidente da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo, Gilmara Soledade dos Santos, coordenadora educacional do Centro de Educação Infantil Madre Josefa e Paula da Silva Alves, moradora do Morro do Alemão. Elas narraram a chegada das irmãs missionárias servas do Espírito Santo na Serra da Misericórdia logo após um desastre ambiental que destruiu as casas. De forma imediata e comunitária, elas procuraram ajudar os moradores a reconstruírem suas vidas. Entre as muitas dificuldades que eles enfrentavam, as irmãs assumiram a necessidade de creches para atender às mães que trabalhavam fora e deram início à creche Madre Josefa. Os depoimentos de Irmã Fátima, Gilmara e Paula sobre o antes e o depois do conflito, “carregados de sentimento, já cativaram o coração dos diretores do comitê” conta Fernanda Ferreti, diretora assistente do comitê e estudante de veterinária da UFMG. Segundo ela “foi impossível conter o choro” durante o diálogo com os delegados. Fernanda conta que as convidadas relataram que o sentimento de esperança, que veio junto com a intervenção de 2010, deu lugar ao abandono ao fim das comemorações da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016, ambas sediadas na capital fluminense. Dessa forma, a entrada da segurança pública no Morro do Alemão, por não ter sido acompanhada de políticas públicas de inclusão social, foi descrita como midiática. Segundo as moradoras Gilmara e Paula, as forças de polícia deram lugar novamente ao tráfico, coexistindo em uma paz armada em todo o Complexo, deixando os moradores a mercê de acordos não divulgados e ainda mais insegurança. Para Paula, significou sobretudo, um afastamento de sua família e amigos, que já não podem visitar a sua casa no morro, além de determinar seu plano de vida: ter filhos somente após a concretização do sonho da casa própria, em outro bairro, fora do Morro do Alemão, onde nasceu e cresceu. Gilmara partilhou ainda a dificuldade de educar crianças em meio a uma guerra: “como dar a esses jovens cidadãos esperança e, principalmente, mantê-los longe do tráfico de drogas?” Experiência e aprendizado Participar do SIS foi uma experiência enriquecedora tanto para as convidadas como para os estudantes. Paula, feliz por contribuir para a formação de caráter dos jovens comenta: foi “muito marcante, porque sempre senti vergonha em falar onde moro, mas quando vi o interesse dos alunos sem olhares preconceituosos ou de pena, a vergonha se transformou em orgulho”. Amanda Antunes, do Colégio Santo Agostinho – Unidade Contagem, que nunca havia simulado em gabinete antes e estava com uma “expectativa altíssima”, relatou que “a atenção do secretariado, o apoio dos diretores e o ambiente tão leve fez da SIS uma simulação maravilhosa!” Entusiasmada com o resultado, Fernanda diz que o workshop “foi um grandioso aprendizado” num ambiente de acolhimento e que abriu novas perspectivas para o futuro. Também animada com a experiência, a estudante Ana Luiza concluiu: “o workshop foi simplesmente incrível; os relatos aproximaram os delegados ao cenário do Complexo, explorando a empatia e sensibilidade de cada um, levando a uma simulação ainda mais especial”.

Vivat Brasil promove encontro sobre Sínodo da Amazônia

O Sínodo da Amazônia está provocando muita polêmica por causa da desinformação que está sendo divulgada, confundindo o público sobre suas finalidades e importância para a Igreja e para a humanidade. De fato, o Sínodo abordará questões relacionadas à evangelização e preservação do meio ambiente pela prática de uma ecologia integral, não somente na Amazônia brasileira, mas nos nove países que integram a Pan-Amazônia. Devido à urgência de esclarecer e envolver as pessoas na proposta do Sínodo da Amazônia, a Vivat Brasil promoveu um encontro para aprofundar o Documento de Trabalho e preparar agentes de pastoral, professores e representantes de organizações, para buscarem estratégias de como trabalhar os temas relacionados com a ecologia integral em suas comunidades ou locais de base. O encontro foi realizado neste sábado, 14 de setembro, no Centro Missionário Cultural Santíssima Trindade, em São Paulo-SP. Participaram 50 pessoas, membros da Vivat Brasil e representantes de dez paróquias da Grande São Paulo. O encontro foi aberto com um momento de espiritualidade ao ar livre, para se sentir o contato com a Criação, e continuou com apresentações dos conteúdos e estudo em grupos. Irmã Maria Percila Vieira, coordenadora provincial das missionárias servas do Espírito Santo, uma das congregações fundadoras junto com a Congregação do Verbo Divino, acolheu os presentes e explicou que os membros de Vivat Brasil julgaram importante provocar “uma maior consciência nas comunidades em relação a esse importante evento convocado pelo Papa Francisco, que envolve a Igreja da Amazônia, mas que deve também ser assumido por nós que estamos mais ao sul”, explicou. O missiólogo verbita, padre Fernando Doren, e a cientista da religião, Nilda de Assis Cândido, iluminaram uma parte do encontro. Eles apresentaram a síntese de alguns capítulos do Documento de Trabalho. Outros sete padres e duas religiosas também participaram. Foi distribuído o “Guia prático para o Mês Missionário”, com sugestões de cantos, apresentações e vídeos para serem utilizados durante o mês de outubro, tanto nas celebrações e atividades paroquiais como também nas escolas e outras organizações. Os interessados no guia poderão seguir o link e ter acesso ao conteúdo. No encontro também esteve presente a liderança indígena Imaculada Lima Barreto, da Região do Rio Negro e da etnia tucana, que atualmente reside em São Paulo. Ela deu testemunho da contribuição dos povos indígenas na preservação da floresta. No estudo em grupos, os participantes conversaram sobre as sugestões concretas do Documento de Trabalho, procurando ver como aplicá-las à realidade de São Paulo. Sugeriram utilizar as motivações do Mês Missionário Extraordinário e do Sínodo da Amazônia para chamar a atenção sobre o cuidado da Criação e aproveitar as sugestões do Guia Prático antes das missas e celebrações dominicais ou mesmo durante a própria celebração, como pequenos vídeos, a Oração do Sínodo, a Oração do Mês Missionário e alguns cantos de Campanhas da Fraternidade anteriores que abordam a preservação da natureza. Outra proposta foi a instalação de painéis para dar visibilidade ao Sínodo. Padre Arlindo Pereira Dias, um dos organizadores do encontro, avaliou que os participantes “desejam encontrar formas de estar em comunhão com os membros do sínodo em Roma e apoiar concretamente essa iniciativa importante e vital, relacionada com o cuidado da casa comum que Deus nos entregou com tanto carinho”. Segundo ele, a ecologia tem sido presença constante nas Campanhas da Fraternidade desde 1979, mas precisa ser mais bem compreendida. “Queremos gerar ações concretas e, ao mesmo tempo, dar prosseguimento a esse caminho depois da realização do Sínodo”, acrescentou Pe. Arlindo. Como parte da equipe organizadora do encontro, fiquei muito feliz com o engajamento e compromisso dos participantes. Todos saíram muito motivados para trabalharem as temáticas do Sínodo em seus próprios ambientes e com muito desejo de se organizarem para que a reflexão sobre a ecologia integral se transforme em ações concretas nas comunidades. Também expressaram o desejo de continuar a se reunir para estudo e aprofundamento. Do ponto de vista da Vivat Brasil, o encontro trabalhou uma das ações imediatas propostas pela rede de congregações que fazem parte da instituição, que é o acompanhamento do Sínodo da Amazônia e também se articular melhor dentro de suas duas prioridades: sustentabilidade e cultura da paz. Para conhecer melhor as propostas da Vivat Brasil, sugerimos assistir ao vídeo produzido pela Verbo Filmes, disponível no Youtube: Vivat Brasil – workshop maio 2019. Ir. Ana Elídia Caffer Neves, SSpS, secretária executiva da Vivat Brasil, jornalista, membro da Equipe de Comunicação Congregacional e coordenadora de Comunicação da Província Stella Matutina (BRN). _______

“Este sistema não Vale!”: Grito dos Excluídos

O Grito dos Excluídos completa, neste ano, sua 25ª edição. Assumido pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) desde 1996, o Grito ocorre anualmente e é uma grande construção coletiva, com articulações que se estendem por todas as regiões do País, reunindo os mais diversos grupos, entidades, Igrejas e movimentos sociais. Contrapondo-se ao Grito da Independência, o Grito dos Excluídos tem sua culminância no Sete de Setembro, mas a sua reflexão se estende por todo o ano. Além de questionar os padrões de independência do povo brasileiro, essa grande manifestação popular tem como proposta ecoar a voz dos excluídos e marginalizados da sociedade, denunciando as mais variadas formas de exclusão e refletindo sobre os caminhos de construção para um Brasil mais justo, solidário e fraterno para TODOS os cidadãos e cidadãs. Com o lema nacional, “Este sistema não Vale! Lutamos por justiça, direitos e liberdade”, este ano o Grito propõe refletir sobre quatro eixos: • Sistema capitalista: a manifestação quer alertar para a insustentabilidade do sistema capitalista que, endossado pelo sistema político, vem gerando cada vez mais mortes e degradação. • Justiça: o Grito quer também debater sobre o sistema de justiça e proteção que almejamos, uma vez que “ainda não temos justiça que liberta e direito que protege os pobres”. • Direitos: com esse eixo, busca-se denunciar a exploração e a precarização que vêm ocorrendo no Brasil, afetando brutalmente a vida dos mais empobrecidos. • Liberdade: diante das atuais ameaças às diversas liberdades conquistadas por muita luta e sangue em nosso País, o Grito quer defender esses direitos: a liberdade de ir e vir, de ficar, de falar, de manifestar-se, de ser oposição. Os problemas sociais, às vezes, parecem muito grandes e, geralmente, sentimo-nos impotentes diante deles, sem saber o que fazer. Participar do Grito dos Excluídos, somando com outras pessoas, é uma excelente atitude que pode gerar mudança social. O Grito ocorre em muitas cidades do Brasil. Informe-se e participe! Seja protagonista da transformação de nossa sociedade! Stela Martins, SSpSCoordenadora da RedesRede de Solidariedade _______

Dia da Amazônia

Comemorando o Dia da Amazônia, 5 de setembro, queremos refletir sobre nossa atitude em relação a essa grande dádiva da criação, importante não somente para nós brasileiros, mas também para a preservação da vida e do equilíbrio climático de todo o planeta. Neste artigo, Frei Betto fala sobre o Sínodo da Amazônia e da necessidade de se cuidar da ecologia integral, incluindo os povos da floresta, que são os mais ameaçados. Como cristãos, somos convidados a adotar uma postura ética em favor da vida e da integridade da criação. Amazônia, o rosto ecológico de Deus A Igreja tem consciência de que, se agora defende a causa indígena, ainda não se libertou da influência do projeto colonizador que vigorou no passado O Sínodo da Amazônia, convocado pelo papa Francisco para outubro, terá lugar em Roma, numa decisão equivocada do Vaticano, pois fora agendado, de início, para ocorrer no coração da selva. Ali se debaterá mais do que a presença da Igreja Católica naquela região interconectada e cada vez mais violenta e desigual. O bioma amazônico engloba nove países e ocupa mais de 7 milhões de km² habitados por 34 milhões de pessoas, das quais 3 milhões são indígenas, que dominam 340 diferentes idiomas. Ali, cada metro quadrado tem mais diversidade do que qualquer outro lugar do planeta. O bioma possui três tipos de rios: os de superfície; o subterrâneo, conhecido como “alter do chão”; e os “rios voadores”, assim chamados por acumular vapor na atmosfera e distribuí-lo em forma de chuva em toda a América do Sul. A Amazônia exerce forte relevância no ciclo do carbono, ao absorvê-lo em bilhões de árvores e impedir sua liberação na atmosfera em forma de gás. Reduz, assim, o aquecimento da Terra. As quatro dádivas da região são: • povos que sabem viver da selva e na selva, sem ameaçá-la; • o ciclo das águas e do carbono; • a biodiversidade; • e a regulação do clima. Segundo o papa Francisco, “os povos amazônicos originários nunca estiveram tão ameaçados em seus territórios como agora”. Em sua sabedoria ancestral, eles nos ensinam a se relacionar com a natureza, os demais seres humanos e Deus. No entanto, agora são vítimas de assassinatos, expulsões de suas terras, ação de grileiros e mineradoras, desmatamento, e proibição de se reunir e organizar. A Igreja tem consciência de que, se agora defende a causa indígena, pela qual há tantos mártires, por outro lado ainda não se libertou da influência do projeto colonizador que vigorou no passado. O Sínodo busca justamente implantar uma Igreja pós-colonial e solidária, com rosto amazônico e indígena. Para a Igreja, a região é muito mais do que um lugar geográfico; é também um lugar teológico, no qual transparece a face de Deus criador. Não há como manter a floresta de pé sem a sabedoria dos povos que a habitam. O “capitalismo verde” não convém, pois se rege pelas leis do mercado e busca patentear princípios e essências, privatizar a água e promover a pirataria dos saberes populares. Os povos indígenas guardam ainda uma sintonia holística com o Cosmo. Seus sentidos aguçados estabelecem um diálogo permanente com a natureza. Conhecem cada ruído, prenunciam a chegada da chuva ou da seca, identificam os recursos medicinais das ervas. O índio não é um indivíduo na natureza. Seu corpo, o território no qual habita e a natureza formam uma unidade. Os indígenas respiram uma cultura que se traduz, de fato, em espiritualidade da reciprocidade. Através de ritos e festas, celebram a exuberância da natureza e exorcizam os espíritos malignos. Sem recorrer à escrita, passam de geração a geração a cultura do cuidado da floresta e do respeito a todos os seres vivos. Para eles, a terra não é um bem econômico, e sim dom gratuito de Deus no qual descansam seus antepassados, e espaço sagrado com o qual interagem para preservar sua identidade e valores. Sofrem, no entanto, sérias ameaças de uma equivocada concepção de desenvolvimento e riqueza que lhes cobiçam as terras para implantar projetos extrativos e agropecuários, indiferentes à degradação da natureza e à destruição de suas culturas. Cinco grandes sintomas da crise planetária se manifestam na Amazônia: 1) mudança climática; 2) envenenamento da água; 3) perda da biodiversidade; 4) degradação da qualidade de vida humana e da natureza; 5) conflitos sociais marcados por violência e assassinatos. A convocação do Sínodo Panamazônico pelo papa Francisco é uma boa nova para toda a humanidade. Frei Betto é escritor, autor de “A obra do artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio), entre outros livros. O texto foi publicado originalmente pelo portal O Globo.

Quem se humilha será exaltado

No Evangelho deste domingo, Jesus toma refeição na casa de um fariseu. Conhecendo bem sua maneira de pensar e de agir, Jesus propõe uma nova visão, uma nova atitude. Os fariseus eram pessoas piedosas e observavam a lei fielmente, e ao pé da letra. Por isso eram considerados justos, achavam-se melhores que as outras pessoas e merecedores dos lugares mais importantes.  Jesus desarma os esquemas farisaicos e nos convida a sermos humildes, a deixarmos para os outros os melhores lugares. Jesus mostra que é preferível ser chamado à frente do que passar a vergonha de ter de ceder o lugar a alguém mais importante, pois quem se exalta corre o risco de ser humilhado… Quem ocupa o primeiro lugar no coração de Deus? O Evangelho de Lucas deixa claro que são os pobres, os enfermos, aqueles que não têm qualquer prestígio e nem como retribuir. E no nosso coração, quem ocupa o primeiro lugar? No vídeo de hoje, o biblista Ademir Guedes Azevedo, do Centro Bíblico Verbo, mostra como as atitudes de Jesus apontam para uma nova lógica de ser e para os verdadeiros valores do Reino de Deus. A humildade e a gratuidade estão em sintonia com o coração de Deus.

O encontro na casa (Lc 10,38-42)

A narrativa sobre a visita de Jesus a Marta e Maria é própria do evangelista Lucas. Notemos que Lucas é quem mais faz questão de destacar, em seus escritos, como as mulheres, tal como os homens, são objetos da compaixão e da misericórdia divina (cf. Lc 1,46-55; 1,67-79; 7,36-37; 15,4-10). De diversas formas, Lucas insiste em apresentar a mulher, em conjunto com todos os marginalizados e sofredores deste mundo, destinatária da alegre mensagem de salvação trazida por Jesus Cristo aos pobres (cf. Lc 7,11-17; 7,36-50; 13,10-17; 18,1-8). Nesse preâmbulo, analisaremos o trecho de Lucas 10,38-42, o qual se compreende dentro da temática de todo o capítulo dez. Observemos alguns detalhes importantes da coesão entre as unidades. Nos versículos 1 a 24 (missão dos 72), Jesus enviou dois a dois; Marta e Maria também são duas. Na Parábola do Samaritano (v. 29-37), este levou o ferido à hospedaria-casa. O encontro com Marta e Maria tem lugar na casa (Igreja doméstica). Conclui-se, portanto, que o tema que percorre todo o capítulo é a diaconia e o discipulado na domus eclessiae (Igreja doméstica). No caso que nos compete, a casa é administrada e animada por mulheres: Marta e Maria. Assim, e em vista de uma compreensão mais abrangente, propomos uma tradução que nos parece mais conexa do grego. Ora, quando iam de caminho, entrou Jesus numa aldeia, e certa mulher, por nome Marta, o recebeu em sua casa. Tinha esta uma irmã chamada Maria, a qual, sentando-se aos pés do Senhor, ouvia sua palavra. Marta, porém, estava arrastada, inquieta, envolta da muita diaconia; e colocando-se por cima, disse: “Senhor, não se te dá que minha irmã me tenha deixado a viver a diaconia sozinha? Dize-lhe, pois, que me ajude”. Respondeu-lhe o Senhor: “Marta, Marta, estás ansiosa e perturbada com muitas coisas; uma, porém, é necessária; e Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada”. Os versículos 38 a 40a constituem a exposição da cena com as informações sobre os fatos: o tempo (quando iam de caminho à Jerusalém); as personagens (Jesus, os discípulos, Marta e Maria); seus estados (Jesus indo de viagem com os discípulos; Marta aflita com a diaconia; e Maria exercendo o discipulado); as primeiras ações (Jesus chegou, Marta o recebeu, Maria, a irmã de Marta, sentou-se aos pés de Jesus). É interessante observar que os outros discípulos saem da cena, ficando sós as duas irmãs e Jesus. Além do mais, o autor dirige nossa atenção para o conflito que contrapõe ambas as irmãs, por razão do Senhor Jesus. Marta recebe Jesus em sua casa, o verbo ὑπεδέξατο (receber) está no indicativo aoristo da terceira pessoa do singular. Pelo que é possível deduzir a independência familiar de Marta, ela não pertence ao pai ou ao esposo, pois então seriam eles que receberiam Jesus e a Igreja (cf. Gn 18,1-9). Logo, uma leitura que sustente que o papel de Marta é de uma empregada doméstica deve ser posto em dúvida. Além disso, no texto, não se fala de uma casa particular, mas, pelo conflito nela suscitado, o mais provável é que se trate de uma domus eclessiae da qual Marta é a autoridade. Isso deixa em claro que as igrejas, no começo, eram lideradas por ambos: homens e mulheres. Em épocas recentes, temos acompanhado reflexões sobre o papel da mulher na Igreja e sociedade. Mas, na prática, continua-se relegando a mulher aos serviços domésticos ou, o que é mais dramático, ao papel de escrava do homem e, portanto, objeto no qual ele descarrega sua violência. Percebe-se que ainda há um longo caminho para desmitificar os papéis de gênero pelo bem da igualdade. Por isso é mister, sobretudo aos cristãos, perceber a mensagem que, por meio dessas duas mulheres, Marta e Maria, ícones da comunidade, Lucas nos apresenta. Aliás, o evangelista faz questão de mostrar, ao longo de seus escritos, que, no Reino de Deus, homens e mulheres têm o mesmo lugar. Maria está sentada aos pés do Κυρίου (Senhor), escutando diretamente sua palavra. Lembremos que era costume dos judeus (homens) sentar-se para aprender dos rabinos, porém a mulher ficava longe e somente podia conhecer a lei por meio do marido. Na comunidade de Jesus, contudo, a mulher não precisa de intermediário. Ela mesma é inclusa como discípula que escuta e apreende a Palavra (o magistério de Jesus). Entretanto notemos que surge aqui a questão central do conflito, pois o tempo que Maria dedica a aprender faz com que a carga das funções recaia nas costas de Marta. “Marta, porém, estava arrastada, inquieta, envolta da muita diaconia” (v. 40a). Ora bem, entende-se a diaconia no sentido eclesial (pregação da Palavra, administração da comunidade). Marta está sobrecarregada com o serviço da administração e pede a Jesus que intervenha ante Maria, para que a ajude, porém Jesus responde inversamente e, em vez de enfrentar-se com Maria, enfrenta-se com Marta, mostrando-lhe a raiz de sua inquietação. “Respondeu-lhe o Senhor: Marta, Marta, estás ansiosa e perturbada com muitas coisas; uma, porém, é necessária; e Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada” (v. 42). Jesus não repreende Marta, mas a conduz a perceber o risco de dispersão em que se encontra. O esforço pela organização eclesial e perfeição externa das obras pode afastar da raiz da Palavra, da fonte do Senhor. Quando isso acontece, caímos no legalismo que destrói tanto a quem exerce o serviço como a quem o recebe. Diante do muito serviço que preocupa Marta, Jesus destaca o valor de uma coisa, e Maria o sabe, trata-se da busca do Reino (cf. Lc 12,31; Mt 6,33). “Uma, porém, é necessária; e Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada” (v. 42). A única coisa necessária não pode ser entendida como um simples sentar-se para rezar, mas se trata de acolher Jesus para segui-lo e viver de sua Palavra. O Evangelho, quando traduzido em formas de serviço que distraem e perturbam, provocará conflitos na comunidade. Entretanto, o Evangelho não é imposição, mas acolhida responsável; não é

À Luz do Evangelho Dominical

Jesus, ao ser interrogado se são poucos os que se salvam, fala que devemos nos esforçar para entrar pela porta estreita… Que porta é essa? Por que é difícil passar por ela? Por que muitos não conseguem entrar? O que faz a porta se fechar? O simbolismo da porta se refere à salvação, e todos nós a buscamos. No tempo de Jesus, havia os fariseus que observavam a lei nos mínimos detalhes e, por isso, consideravam-se salvos e melhores que os outros. Por isso Jesus fala que os primeiros serão os últimos e que os últimos serão os primeiros. Assista ao vídeo, descubra o significado dessa passagem e o que ela tem a dizer para nossa vida.

O encontro que me fez permanecer (Jo 1,35-42)

“No dia seguinte, João se achava lá de novo, com seus discípulos. Ao ver Jesus, que passava, disse: ‘Eis o Cordeiro de Deus’” (vv. 35-36). João Batista é uma figura-chave nas comunidades do Novo Testamento, por isso seu testemunho, ao chamar Jesus de “Cordeiro de Deus”, é de suma importância. Esse título evoca a memória do Êxodo. Naquela noite da primeira Páscoa, os israelitas aspergiram as portas de suas casas com o sangue do cordeiro imolado, em sinal de libertação (cf. Ex 12,13-14). Mais tarde, os profetas Isaías e Jeremias usaram a imagem do cordeiro como alguém que redimiria o povo por meio de seus sofrimentos e sacrifício, aceitos com humildade e amor (cf. Jr 11,19; Is 53,7). Assim, evocando o Êxodo e, em sintonia com esses profetas, João apresenta Jesus a seus discípulos; de alguma forma, expressando: “Eis aqui que chegou o novo Cordeiro Pascal, Ele vem para libertar o povo”. João soube reconhecer em Jesus o Cordeiro-Messias e imediatamente lhe cedeu o lugar que lhe correspondia (cf. Jo 1,20-28), colocando-se em segundo lugar. Na atual sociedade, ocupar o primeiro lugar, o lugar divino, tornou-se a finalidade da vida. Os sistemas ideológicos, aberta ou sutilmente, conduzem-nos a competir pelo sucesso, riqueza, segurança, poder. Mas, na realidade, acontece que o objeto desejado constantemente muda e foge de nossas mãos. No entanto, essa forma de nos comportar tem trazido efeitos desastrosos para a humanidade e a natureza. Diante dessa realidade, o testemunho do Batista é imperativo. Ele nos recorda que o caminho da humanização está em seguir Jesus, o Cordeiro de Deus. Portanto é urgente sair da ilusão de que a finalidade de nossa vida é sermos os primeiros. “Os dois discípulos ouviram-no falar e seguiram Jesus. Jesus voltou-se e, vendo que o seguiam, disse-lhes: ‘Que procurais’. Disseram-lhe: ‘Rabi, onde moras’” (vv. 37-38). André é um dos dois discípulos que, animados por João, foram em busca de Jesus. Logo ele apresenta Jesus como o “Messias” a seu próprio irmão. Seguindo a narrativa, temos uma sequência de repetições: as pessoas que encontram Jesus o apresentam a outras, e assim sucessivamente. Entretanto, analisando todos os detalhes, perceberemos que, em todos os casos, a iniciativa do chamado é divina. Quando o ser humano começa a desejar estar com Deus, o Senhor mesmo sai a seu encontro (cf. Lc 15,20). Jesus voltou-se e os viu. O verbo “voltar” indica que foi Jesus o agente da ação. Ainda o sentido da palavra completa-se pelo verbo “ver”. O verbo “ver”, nos evangelhos sinóticos, está atrelado ao relato da vocação (cf. Mc 1,16.19;2.14; Mt 4,18-19.21; Lc 5,2.27). “Que procurais” é a pergunta mais fundamental para todas as pessoas que desejam se encontrar com Cristo. Pois, sendo honestos, há pessoas que vão atrás de Jesus procurando segurança, conforto, riqueza, prestígio, sucesso. Nesse marco, não há seguimento, apenas antitestemunhos (cf. Mt 6,21-23). André e o outro discípulo não buscavam satisfazer uma simples curiosidade, mas queriam saciar sua sede mais profunda: “Mestre, onde moras”. Eles queriam entrar na morada de Jesus e permanecer com ele. Jesus os percebe e responde-lhes não com uma informação, mas com um convite: “Vinde e vede”. O encontro com Jesus, quando nasce da busca sincera, leva à saciação da mais própria nostalgia do ser humano. “Então eles foram e viram onde morava, e permaneceram com ele, aquele dia. Era a hora décima” (v. 39). O movimento narrativo se desloca do morarpermanecer de Jesus ao permanecer dos discípulos. Agora estes participam da experiência da comunidade cristã de João. André e o outro discípulo vivenciaram o encontro com Jesus de uma forma tão profunda que nunca esqueceram. “Era por volta da hora décima” quando aconteceu o ponto de virada decisivo na vida deles. Logo, a vida nova não se contém, ela cresce como uma avalanche, envolvendo cada vez mais pessoas, pois a alegria de encontrar o Senhor é tal que desborda a outros: “Encontramos o Cristo”. Temos aqui mais um título de Jesus, por meio do qual as pessoas que vão sendo chamadas professam sua fé em Jesus. E nós, também queremos experimentar, na comunidade de Jesus e com Jesus, a saciação de nossa mais profunda nostalgia? “Ele o conduziu a Jesus. Olhando-o, disse-lhe Jesus: ‘Tu és Simão, filho de João. Chamar-te-ás Cefas’” (v. 42). André leva Simão a Jesus. O Senhor o olha. A palavra usada para exprimir esse olhar é emblepein e descreve um olhar profundo, um olhar que pode ler dentro do coração. Jesus o olha, diz a ele seu nome, “Simão”, e logo lhe dá outro (em aramaico, Cefas; em grego, Pedro, ambos significam rocha). No Antigo Testamento, uma mudança de nome selava uma nova relação da pessoa com Deus (cf. Gn 17,5; 32,28). O evangelista revela, porém, a novidade que traz Jesus com a mudança do nome. Jesus olhou a Pedro e viu não somente um pescador da Galileia, mas alguém cheio de possibilidades de se converter em rocha. Rocha que abrigasse as pessoas, independentemente da etnia, religião, gênero ou condição. Alegremo-nos, pois Jesus não só nos vê como somos, mas sim como podemos chegar a ser. Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e colabora na Animação Vocacional.

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