Espiritualidade Arnaldina é tema de encontro no Equador

Membros de várias províncias das missionárias servas do Espírito Santo (SSpS) e dos missionários do Verbo Divino (SVD) do continente americano enviaram representantes para o Encontro Panam de Espiritualidade Arnaldina, realizado em Quito, Equador. Duas SSpS e dois SVD representaram o Brasil. A Ir. Maria Inês de Aragão conta como foi o evento e quais os temas trabalhados. Confira!
Acolher Jesus de verdade

O Domingo de Ramos nos provoca a dar um passo a mais: não apenas receber Jesus, mas caminhar com ele também nas horas difíceis. Nesta Semana Maior, acompanhe conosco as reflexões propostas pelas irmãs missionárias servas do Espírito Santo (SSpS).
O Sagrado Coração de Jesus na espiritualidade de Santo Arnaldo Janssen

Aproximando-se a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, que, em 2021, celebramos no dia 11 de junho, não podemos deixar de nos lembrar de nosso santo fundador, Arnaldo Janssen, que foi profundamente influenciado por sua devoção e a levou consigo para animar espiritualmente suas fundações missionárias. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus é muito antiga e sempre foi ligada à contemplação da Paixão de Jesus Cristo. Ignorada totalmente no primeiro milênio, ela aparece, pela primeira vez, com traços claros, com a escola cisterciense e, mais tarde, na ordem franciscana. A partir do século XVII, por meio das visões de Santa Margarida Maria Alacoque, essa devoção foi popularizada, sendo um dos focos da Escola Francesa de Espiritualidade, que marcou profundamente a Igreja na Europa Ocidental. A espiritualidade do Sagrado Coração é muito simples, acessível a todas as pessoas. Ela tem como objetivo ajudar o fiel a voltar-se para seu coração e para o Coração de Jesus, como núcleo mais íntimo da pessoa, onde ela se encontra com seu Senhor. Essa devoção difunde que “O coração de nosso coração é o próprio Deus, com a sua lógica enraizada no amor”. Ela nos aproxima do amor compassivo de Cristo para com a humanidade. Nela, pedimos que sejamos revestidos das virtudes e das qualidades do Coração do Filho, deixando-nos inflamar pelo amor que o impulsionava, tornando-nos sempre mais semelhante a ele e formando com ele um só corpo. Ela contempla ainda o coração transpassado de Jesus que, na Cruz, entregou-se por nós com um imenso amor gratuito e compassivo. Em 1856, duzentos anos após as aparições de Jesus a Santa Margarida Maria, foi instituída a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, a ser celebrada, a cada ano, no mês de junho. O movimento que mais propagou sua devoção no século XIX foi o Apostolado da Oração, aprovado pelo Papa Pio IX, em 1849. Hoje o Apostolado é obra pontifícia. A consagração do mundo ao Sagrado Coração ocorreu em 16 de junho de 1875, às vésperas da fundação da Congregação do Verbo Divino. Mais de 400 institutos de vida religiosa com espiritualidade cordiana foram fundados de 1800 até o Concílio Vaticano II, em sua maioria, femininos. Como filho de seu tempo, Arnaldo Janssen foi também impregnado por essa espiritualidade afetiva e concreta que respondia às necessidades do simples cristão. Inicialmente, recebeu na família forte influência da mística da Baixa Renânia, de espiritualidade cristocêntrica e trinitária. Seu pai falava com paixão para os filhos sobre a encarnação do Verbo e rezava diariamente com eles o Prólogo de São João. Sua mãe, uma pessoa silenciosa, testemunhava uma vida de oração contínua, alimentada pela frequência diária à missa. Foi também com o pai que o menino Arnaldo conheceu o Anuário da Propagação da Fé, que o introduziu ao amor às missões estrangeiras. Como jovem padre, a devoção especial ao Sagrado Coração foi ocupando suas orações e reflexões. Inicialmente, resolveu rezar, às sextas-feiras, a missa em honra do Sagrado Coração, para glorificar seu sacerdócio. Queria homenagear a Trindade habitando nesse Coração. Para Arnaldo, o Coração de Jesus era a humano-divina Pessoa de Jesus, a face humana de Deus, seu amor incompreensível pela humanidade.A partir de 1866, ao lado das aulas que administrava, passou a dedicar uma atenção especial ao novo Apostolado da Oração em sua diocese. Esse apostolado, com forte espiritualidade cordiana, deixou suas marcas na vida de oração de Arnaldo. Sua profunda motivação passou a ser sua união fundante com as disposições do Sagrado Coração, emergindo daí o traço característico de sua espiritualidade, inicialmente assim expresso: “Viva o Coração de Jesus nos corações de todas as pessoas!”. Arnaldo foi se tornando mais e mais habitação do Sagrado Coração, e os propósitos e intenções desse Coração, assumidos como seus. Desejava ardentemente a glorificação do Deus Trino e o cumprimento de sua vontade salvífica para todos os povos. O amor e a bondade de Jesus, sua compaixão sincera, suas virtudes humanas, seu sofrimento e aflições, sua atitude de entrega incondicional, suas emoções e sentimentos íntimos, tudo tinha para Arnaldo seu lugar e centro no Sagrado Coração de Jesus. Escrevia assim no livro de admissão dos novos membros ao Apostolado de Oração: “A melhor devoção ao Coração de Jesus é conformar nossos desejos aos desejos do Coração de Jesus”. Por meio do Apostolado da Oração, Arnaldo foi também tomando consciência de uma variedade de situações eclesiais, abrindo, assim, a mente aos grandes propósitos da Igreja. Seu dinamismo missionário, na força da oração, foi se revelando com o Apostolado. Iniciou, em 1866, com 26 grupos na diocese de Münster. Após sete anos, sua missão no Apostolado tinha se espalhado por várias dioceses alemãs, alcançando um total de 600 paróquias. Dois anos depois, em 1875, em meio a muitas lutas e rejeições, Arnaldo estava pronto para iniciar a primeira casa de formação missionária na Igreja alemã. Dentro de sua espiritualidade, Arnaldo foi enxergando cada vez mais o Coração de Jesus como Tabernáculo da Trindade: “A Trindade toda reside no Coração de Jesus: a Onipotência do Pai, a Sabedoria e a Beleza do Verbo Eterno e o Generoso e Eterno Amor do Espírito Santo. Contudo o Coração de Jesus permanece um coração criado, um coração humano”. Com o tempo, Arnaldo vai explicitando assim a relação entre o Coração de Jesus e o Espírito Santo: “Durante sua vida terrena, o Coração de Jesus já era a fornalha ardente cheia do amor e da graça do Espírito Santo”. Arnaldo viu um duplo movimento entre o Coração de Jesus e o Espírito Santo: de um lado, foi o Espírito Santo que formou o Coração de Jesus e fez dele sua morada; por outro, é do Coração de Jesus que emergem todas as graças que recebemos do Espírito Santo, pois é pela encarnação de seu Filho que Deus comunica-se a si mesmo em seu insondável amor incondicional. No fim de sua vida, Arnaldo escreve: “Vou tentar chegar tão perto quanto possível dos sentimentos de Jesus, de sua vida interior, de seus ensinamentos, realizações, dores e morte.
A experiência de anunciar a Boa Notícia

Todo cristão precisa reconhecer-se um discípulo-missionário de Jesus. Essa concepção é reforçada no Documento de Aparecida, aprovado pelos bispos da América Latina e do Caribe em 2007. Cada um, conforme os próprios dons, deve colocar-se à escuta do Senhor e propagar a Boa-Nova, a partir de um intenso encontro com o Mestre. Neste Mês das Missões, conheça algumas experiências de quem responde, com gestos e palavras, ao chamado de anunciar Cristo. Testemunho na vida diária “Para mim, ser missionária serva do Espírito Santo é principalmente crescer na apropriação e na vivência do lema de nosso Fundador, Santo Arnaldo Janssen: ‘Viva Deus Uno e Trino em nossos corações e nos corações de todas as pessoas!’. Para isso, a cada dia, preciso me deixar amar por Aquele que, desde sempre, me amou e me chamou à vida, descobrindo as profundezas e as riquezas da verdadeira vida que Jesus veio nos comunicar. É irradiar a Boa-Nova e os valores do Reino, vivenciando e testemunhando-os em minha vida diária, com as pessoas que ele coloca em meu dia a dia. É descobrir também o que Deus quer mostrar a mim e a nós, crescendo na sensibilidade e no discernimento de sua vontade. É abrir-me, com generosidade e coragem, à realidade dos mais necessitados e excluídos de nossa sociedade, comprometendo-me com a construção de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária. Isso acontece quando sou mais presente a mim mesma e na relação com Deus, quando procuro viver o amor na comunidade e em minhas relações com as outras pessoas.” Irmã Maria Inês de Aragão é missionária serva do Espírito Santo, membro do Concílio Provincial e tesoureira da Rede de Solidariedade (Redes). Voz às crianças “Eu me sinto privilegiada por exercer meu papel de educadora missionária em um ambiente acolhedor, como o de nossas escolas. Sou feliz por ajudar a propiciar um crescimento baseado na construção de valores e princípios, os quais nossos alunos e alunas certamente levarão como ensinamentos para a vida toda. Isso acontece desde a educação infantil, em que os alunos protagonizam e vivenciam suas experiências cotidianamente. Encanta-me observar as crianças brincando, convivendo, partilhando, conversando e explorando, por muitas experiências diárias, a arte da vida. Quando conseguimos acolher e dar a voz às crianças, para que falem sobre suas emoções, ajudando na reflexão de suas ações e no entendimento da importância do respeito ao próximo e a si mesmo, estamos cumprindo essa missão. O agradecimento pela vida ocorre diariamente. Assim, acredito que estamos plantando sementinhas do bem, para crescerem como seres humanos fortalecidos emocionalmente que conseguirão olhar o mundo e respeitar sempre os valores de cada um.” Evelyn Joyce Molina é educadora da educação infantil no Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP. Espalhar o bem “Na sociedade atual, é muito importante estarmos atentos à realidade e à situação pela qual as pessoas estão passando a nosso redor. Muitas vezes, é difícil sairmos de nosso conforto para ir rumo a uma experiência fora de nossa realidade, sem qualquer obrigação, apenas querendo ajudar. Ser um jovem missionário é algo de extrema importância nos dias atuais, pois carregamos uma responsabilidade enorme de ser exemplo para os mais novos e até para os mais velhos. Os jovens são cheios de energia e sede de viver, e usar isso para o bem ao próximo é algo muito enriquecedor que nos faz evoluir como pessoa, aprendendo a ser gratos por tudo o que temos e sempre refletindo sobre nosso cotidiano e o impacto que cada um tem na sociedade, aprendendo a lidar com pessoas, barreiras, diferenças e falta de fé. Participar das missões solidárias é uma experiência única, marcante e muito intensa. Um simples abraço e um sorriso melhoram o dia de alguém, e nunca esquecendo que estamos todos unidos por um mesmo propósito: espalhar o bem.” Giovanna Magalhães Lourenço Carmo é aluna da 3ª série do ensino médio do Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG, e participou da Missão Sem Fronteiras em 2019. A importância de acolher “‘A tua vida, Senhor, é nossa vida; tua missão, nossa missão…’. Para mim, ser missionária aqui no Centro de Integração do Migrante é ter a consciência e a atitude de que sou chamada e enviada por Jesus Cristo a fazer uma só vida com aqueles e aquelas com quem encontro no cotidiano. Acolher, escutar, acompanhar e deixar-se acompanhar por eles nesse processo de integração e descoberta de novas culturas é sempre um eterno aprendizado mútuo. A experiência destes anos me mostra o quanto é importante acolher com um abraço, um sorriso, um olhar, uma palavra, um gesto. Parece muito simples, porém faz a diferença para quem dá e também para quem recebe.” Irmã Malgarete Scapinelli Conte é missionária serva do Espírito Santo e dedica sua vida pela causa dos migrantes. Dignidade às pessoas “Ser um jovem missionário hoje é muito importante. Isso porque desenvolver habilidades como o altruísmo e a solidariedade se torna cada vez mais urgente e necessário. Cada vez mais, acredito que uma criança e um jovem colaborativo pode melhorar e salvar a sociedade. Não basta apenas conhecer os problemas sociais, como as guerras, a fome, a sede, as doenças, mas sim colocar todas as nossas forças para combatê-los e trazer mais dignidade a todas as pessoas.” Tiago Valentim Viana é aluno da 2ª série do ensino médio do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP, e gosta de envolver-se nos trabalhos voluntários que a escola realiza.