Habilidades emocionais: irmãs SSpS conduzem atividade em abrigo

Entre os dias 22 e 26 de novembro, as irmãs Martina Gonzalez e Petronella Boonen, ambas missionárias servas do Espírito Santo, realizaram um trabalho sobre habilidades emocionais com 36 funcionários do abrigo Recanto Feliz, no Município de Aracruz-ES. A obra é parte da Associação Beneditina de Educação e Assistência Social. No período mais agudo da pandemia, devido à necessidade de isolamento, o abrigo teve de reduzir espaços de convivência e atividades escolares, esportivas, entre outras. A medida provocou uma sobrecarga emocional em crianças, jovens, famílias e nos próprios agentes educacionais. Com a estabilização da pandemia, os trabalhadores solicitaram um acompanhamento para que pudessem recuperar as energias e prosseguir na missão. Com diligência, a direção da entidade atendeu ao pedido dos colaboradores. As irmãs contam que ficaram impressionadas com o alto nível de estresse dos agentes educacionais. Ajudaram a agravar a situação as tensões intrafamiliares, a insegurança por medo do desemprego e a infecção de membros das famílias. Além disso, foi constatado, ao longo das atividades, o trauma por mortes prematuras causadas pela covid-19, por outras doenças ou por homicídios. Ao longo da semana, foi possível criar um ambiente seguro que permitiu a partilha e a acolhida dessas tensões. Por meio de psicodrama, expressões com argila, desenhos, exercícios físicos, conversas, leituras, exercícios de respiração e algumas exposições teóricas, foi possível oferecer ferramentas para as pessoas expressarem os sentimentos. Fazendo o percurso proposto, o grupo foi achando um caminho para aliviar a tensão, avaliar suas respostas às demandas externas e treinar novas possibilidades. Outra proposta foi abordar o perdão como uma forma de lidar com situações difíceis do passado. Grande parte das metodologias empregadas foram inspiradas pela Escola de Perdão e Reconciliação (Espere), metodologia de educação popular desenvolvida na Colômbia e articulada pela Rede Espere no Brasil. Os participantes agradeceram o apoio e o consideraram positivo. Os agentes, como destacaram nas avaliações, aprenderam o valor de ouvir o outro, transformar o olhar de vítima, para ter mais qualidade de vida e, assim, diminuir o estresse. Ir. Petronella Maria Boonen (Nelly) é co-fundadora da linha de Perdão e Justiça Restaurativa do CDHEP e doutora e mestra em Sociologia da Educação pela USP.)
Sobre cultura de paz

Meus olhos passeiam sobre uma linda paisagem, enquanto estou retirada para alguns dias de descanso, após um ano de trabalho intenso ao redor do tema “cultura de paz”. Cultura de paz é inseparável de ambiente saudável, garantia alimentar, educação universal e acesso a instituições eficazes e gratuitas. Assim, refletir sobre a cultura de paz desperta as mais diversas possibilidades de explorar o tema. Poderia ser via Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 16 da ONU, 1 que rege sobre “Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis”. Ou com base no Relatório de Desenvolvimento Humano (IDH), publicado no início de dezembro de 2020 pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). Segundo esse estudo, o Brasil é o sétimo país mais desigual do mundo, ficando atrás apenas de nações do continente africano. O último relatório do IDH introduziu uma novidade, ao incluir emissões de dióxido de carbono e quantidade de recursos naturais utilizados nas cadeias produtivas de países, proporcionalmente às suas populações. Esse novo índice, chamado de Índice de Desenvolvimento Humano Ajustado às Pressões Planetárias (IDHP), mostra a necessidade de ligar o desenvolvimento ao bem-estar das pessoas e à integridade do planeta. Para se ter uma ideia do peso desse indicador, observa-se que, quando incluídos a pressão planetária e os maus-tratos ao meio ambiente, a Noruega, que lidera a lista do IDH, perde 16 posições, e os Estados Unidos perdem 45. 2 Assim, o trabalho pela cultura de paz tem muitas facetas. Minha contribuição ao longo de 2020 foi na coordenação do projeto Rede Justiça Restaurativa, uma parceria entre o Centro de Direitos Humanos e Educação Popular (CDHEP), o PNUD, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Departamento Penitenciário. O objetivo é implantar uma política de justiça restaurativa em dez Estados, por meio dos Tribunais, na Justiça Criminal e no Sistema Socioeducativo. O foco das ações restaurativas está no assumir responsabilidade e reparar danos, mais do que na criminalização de condutas e no encarceramento. Foi uma grata satisfação aprofundar, junto com a equipe do CDHEP, a justiça restaurativa nesses Estados. Ao longo de muitas horas de formação, todos crescemos no conhecimento e no diálogo com novas possiblidades que o arcabouço jurídico existente oferece, também em matéria criminal. Justiça restaurativa é uma possibilidade para todos os crimes, pois a cada pessoa é oferecida a oportunidade de refletir sobres seus atos, assumir responsabilidade de reparar, na medida do possível, os danos causados. No entendimento do CDHEP, a justiça restaurativa também é uma possiblidade de restaurar vítimas de violências estruturais, o que pede uma abordagem ampla, complexa e ainda pouco usual. Quando o PNUD inclui a pressão e os danos sobre o meio ambiente de países que parecem ou pareciam ser modelo em muitos aspectos, essas novas informações fazem com que perdem algo de seu encanto. São chamados a olhar para essa verdade, que mancha sua reputação, e reparar o dano que estão causando. É assim também a justiça restaurativa, quando olha para a desigualdade social e pede que a Constituição seja aplicada em favor de todos, de forma igual. Restaurar o justo e instaurar o direito, no Brasil que ocupa a sétima posição de nação mais desigual do mundo, é um desafio para a cultura de paz. Ao mesmo tempo, trabalhar pela justiça e a paz é parte integral do mandato missionário das servas do Espírito Santo. Ir. Petronella Maria Boonen (Nelly) é co-fundadora da linha de Perdão e Justiça Restaurativa do CDHEP e doutora e mestra em Sociologia da Educação pela USP.) ______________________________1 Instituto Aurora 2 Agência Brasil
Tempo de ajudar Deus a carregar a cruz

Quando no incêndio que, em 1519, destruiu a Igreja de São Marcelo al Corso o crucifixo saiu ileso, o povo romano tomou nota. Tanto que, três anos mais tarde, quando a cidade foi atingida pela peste, o crucifixo foi levado em procissão por 16 dias, pelas ruas de Roma. A cada dia, o contágio regredia e, quando ele voltou a São Marcelo, a peste tinha desaparecido. Esse mesmo crucifixo foi exposto na sexta-feira, 27 de março último, ao dilúvio da noite romana, como arma simbólica contra o novo coronavírus. As câmeras demoravam sobre o busto antigo do Cristo, regado pelas gotas. Só na Itália estavam ligados aproximadamente 8 milhões de televisores. As imagens estavam perfeitas, e os comentários dos repórteres: oh, que poder de imagem! Oh, as lágrimas do céu se unem às do povo! Oh, trágica maravilha! Parece que o crucifixo está muito danificado, talvez irremediavelmente danificado. Dizem que a madeira pode explodir. Esse crucifixo que tinha vencido o fogo e a peste cai por uma chuva romana no fim de março. Homens de máscaras fazem o triste depoimento. E será que esse não é o verdadeiro sinal e o penoso trabalho de decifrá-lo: talvez Deus esteja tão cansado, talvez devêssemos consolá-lo? Essas frases de Leonardo Lenzi e a foto me tocaram profundamente. Lembrei-me de um dos pensamentos de Etty Hillesum, a jovem judia cujos diários e cartas descrevem a vida em Amsterdã, durante a ocupação alemã. Nascida em 1914 na Holanda, foi morta em novembro de 1943, no campo de concentração de Auschwitz. “Quero ajudar, Deus, para que você não me abandone, mas não posso garantir nada com antecedência. Apenas uma coisa está ficando cada vez mais clara para mim: que você não pode nos ajudar, mas que temos que ajudá-lo e, no final, nos ajudarmos. É a única coisa que importa: salvar um pedaço de ti dentro de nós mesmos, Deus. E talvez possamos ajudar a ressuscitar-te nos corações aflitos de outras pessoas. Sim, meu Deus, parece que também você não seja capaz de mudar muito as circunstâncias, elas simplesmente fazem parte desta vida… E, quase com cada batimento cardíaco, fica claro para mim que você não pode nos ajudar, mas que temos que ajudá-lo e defender, até o fim, sua morada dentro de nós.” Talvez, nestes tempos, seja realmente necessário ajudar Deus a carregar a cruz. Ajudá-lo, defendendo sua morada dentro de cada um, cada uma. Ajudá-lo para que sua presença volte a ser lembrada e sentida. Ajudá-lo para que o corpo possa voltar a ser digno e sagrado. Ajudá-lo para que o corpo humano possa ser compreendido como parte do corpo cósmico, digno e sagrado. Que, nesta Semana Santa, possamos ajudar Deus a levar cada um, cada uma mais perto de si e dos outros. Assim nos aproximaremos do Divino. Ir. Petronella Maria Boonen (Nelly) é co-fundadora da linha de Perdão e Justiça Restaurativa do CDHEP e doutora e mestra em Sociologia da Educação pela USP.)
A serviço da justiça, paz e reconciliação

A situação prisional do Brasil é uma catástrofe. Em julho de 2019, a população prisional era de 773.151 pessoas privadas de liberdade. Dessas, 33% não tinham qualquer condenação. A população carcerária triplicou nos últimos 20 anos. De acordo com o Departamento Penitenciário Nacional (Depen), o Estado de São Paulo ocupa a primeira colocação, com 233.755 presos; seguido por Minas Gerais, com 78.003 detentos; Rio de Janeiro, com 59.966; Rio Grande do Sul, com 40.687; e Pernambuco, com 33.555. Diante desse cenário, o Centro de Direitos Humanos e Educação Popular (CDHEP) estabeleceu uma parceria com o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD) e o Conselho Nacional da Justiça (CNJ) para implantar ações de justiça restaurativa em dez tribunais do Brasil. Esse avanço é fruto de 15 anos de trabalho e busca inquietante, de uma pesquisa de doutorado e de muitas formações oferecidas dentro e fora do Brasil com os mais diversos públicos. Pouco a pouco, fui me capacitando, ganhando experiências e enxergando lugares de atuação. Desde 2013, outras duas irmãs servas do Espírito Santo (SSpS) de minha comunidade, Martina Gonzalez e Helena Christo, dão formação em fundamentos de justiça restaurativa em presídios de São Paulo, em conjunto com a Pastoral Carcerária. Inspirada na Escola de Perdão e Reconciliação, esse curso trabalha as dimensões cognitivas e emocionais para reconhecer e lidar com sentimentos e necessidades que afetam as relações, aprofundando o perdão como um valor. Ao introduzir a justiça restaurativa, desconstrói e reconstrói conceitos e práticas já enraizadas e propõe um modelo de justiça que conecta e restaura pessoas e relações, possibilitando a reconciliação. O trabalho no presídio tem um aspecto pastoral muito importante, e agradeço minhas irmãs por assumirem essa missão. Cada curso tem dez encontros semanais de três horas de duração, e ouvimos testemunhos edificantes dos presos. Mas me inquietava que o resultado não tinha incidência na política pública. Com o número sempre crescente de encarcerados e as condições nos presídios cada vez mais desumanas, sempre questionava a comunidade: como a justiça restaurativa poderia evitar o encarceramento, a desumanização e a retroalimentação da violência causada pelas respostas punitivas do Estado? Em julho de 2017, participei de uma formação com a juíza Catarina Lima, de Planaltina-DF. Até então, ela era a única juíza criminal que levava em consideração os procedimentos restaurativos para incidir sobre a sentença. Ela estava tão aflita quanto eu em relação à bomba-relógio que o encarceramento em massa está construindo no Brasil. Depois de várias conversas buscando ver como aplicar a justiça restaurativa para ter reflexos na sentença, ela me convidou para trabalhar na Vara Criminal que ela coordena. Aceitei o desafio e a oportunidade, e, ao longo de um ano e meio, uma vez por mês, ia alguns dias a Brasília para os atendimentos. Com formação em Ciências Sociais, tive de aprender muito da área do Direito e descobrir as possibilidades da justiça restaurativa na área criminal. No CDHEP, conseguimos um financiamento para replicar e ampliar os aprendizados em uma Vara Criminal de São Paulo. Contratamos um criminalista e, após quase um ano, com outras duas juízas, iniciamos os atendimentos de casos de crimes graves. No momento, estamos com dez casos criminais e esperamos poder oferecer um bom desfecho para as vítimas, para os ofensores e para a sociedade como um todo. Paralelamente a essas ações, continuaram as reflexões sobre a possibilidade de ampliar a justiça restaurativa na Justiça Criminal. Com mais experiência e apoio de criminalistas, conseguimos oferecer esse novo projeto tendo em vista a diminuição do encarceramento. A parceria com o CNJ pretende contribuir para a implantação, estruturação e fortalecimento de órgãos e serviços de justiça restaurativa nos Tribunais de Justiça, na Rede de Garantia de Direitos e na sociedade civil para atuarem no Sistema de Justiça Criminal e Penitenciário e no Sistema de Justiça Juvenil e Socioeducativo em dez Estados da Federação. O projeto já aprovado se enquadra no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 16 da ONU, que almeja o acesso à Justiça para todos e a construção de instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis. A mim cabe coordenar a aplicação desse projeto nos dez Estados participantes. Com exceção de São Paulo, são do Norte e Nordeste, os mais pobres e com instituições públicas mais deficientes. Minha sensação é de fecharmos um ciclo de trabalho, indo a outro nível de organização. A paciência, as articulações e as formações de muitos anos produziram uma semente a ser espalhada pelo Brasil. A terra foi preparada. Agora é hora de semear. Um belo desafio e uma ótima oportunidade. Irmã Petronella Maria Boonen (Nelly) é cofundadora da linha de Perdão e Justiça Restaurativa do CDHEP e doutora e mestra em Sociologia da Educação pela USP. O projeto já aprovado: link para https://www.cnj.jus.br/justica-restaurativa-chegara-a-10-tribunais-do-pais/
Da interioridade à hospitalidade

Neste domingo, o Evangelho apresenta duas mulheres que recebem Jesus em sua própria casa: Marta e Maria. As duas queriam acolher Jesus da melhor maneira possível. Marta arrumando a casa e preparando a comida; Maria sentando-se aos pés de Jesus e escutando-o. No vídeo, Ir. Nelly Boonen comenta o sentido da hospitalidade e da interioridade, mostrando o valor de ambas e trazendo o tema para nossa realidade cotidiana. Jesus adverte Marta por ela se preocupar com tantas coisas, quando só uma realmente é importante. E nós? Com quantas coisas nos preocupamos… Vivemos ou no passado ou no futuro e não conseguimos nos fazer presentes para acolher quem chega. Só vivendo o momento presente podemos nos encontrar de verdade com a outra pessoa. Em meio a tantas preocupações da vida atual, como abrir a porta da interioridade para estar em casa dentro de nós mesmos? Acolhendo a solidão e o silêncio interior, nós nos capacitamos para acolher de fato as outras pessoas, vivendo a hospitalidade.
Ir. Nelly recebe homenagem

No dia 11 de novembro de 2018, Ir. Nelly Boonen recebeu uma Homenagem do Núcleo de Justiça Restaurativa da Prefeitura de São Vicente-SP, ao lado da Kay Pranis, Minnesota, EUA. Desde 2010, Kay vem anualmente para o Brasil para dar formações de Justiça Restaurativa. Ir. Nelly partilha o discurso que fez na ocasião, em que conta parte de sua história e de sua luta pela superação das consequências da violência e pela implantação da justiça restaurativa. “Entre matar ou morrer, prefiro morrer.” Agradeço por reconhecerem o valor dos processos formativos que oferecemos. Estendo essa homenagem ao Centro de Direitos Humanos e Educação Popular de Campo Limpo (CDHEP) no qual estamos empenhados para transformar os princípios de Justiça Restaurativa em ações. Ações na vida privada e na vida púbica, ações que fortaleçam relações comunitárias justas e que instaurem direitos. O que fazemos no CDHEP, obviamente, não está desconectado daquilo que sou, de onde venho. Vou voltar um pouco na minha história, como filha de imigrantes holandeses que foram para Luxemburgo. Eram agricultores sem-terra, pobres, com 6 filhos. Sessenta anos atrás, meus pais faziam parte de um movimento de agricultores, que não eram proprietários de terra. E não eram da esquerda, simplesmente lutavam pela sobrevivência. Conheço a vergonha de, a cada ano, ter que entregar um tipo de atestado de pobreza na escola. Conheço a raiva de ser tratada como diferente, como imigrante, cidadã de segunda categoria, excluída de possibilidades que os iguais tinham. Ao mesmo tempo, ficava tentando entender, ainda criança, os porquês dessa diferença, pois me achava tão igual a todos os outros. Com 18 anos fazia parte de um grupo de jovens cristãos politizados. Participava de demonstrações contra a corrida armamentista entre União Soviética e Estados Unidos, contra as armas nucleares, contra a obrigatoriedade do serviço militar. Um dia fomos visitar o cemitério de soldados americanos. Lá estão fincadas mais de 5.000 cruzes. Cinco mil vidas ceifadas pela guerra. Eu fiquei muito abalada diante desse cenário forte. Um pouco depois, cruzamos a rua. Fomos ao cemitério dos soldados alemães. São quase 11.000 túmulos de jovens, alguns com apenas 16 anos. Percebi-me invadida por um desespero interior. A nitidez da violência, da inutilidade da guerra, das oposições levadas às últimas consequências, da espiral da violência ascendente… Naquele lugar, fiz uma promessa interior: “Entre matar ou morrer, prefiro morrer. E que Deus me dê a força para deixar que isso aconteça.” Décadas depois, essa promessa ou esse dilema volta a ser atual. Não que eu queira morrer. Mas, a partir dos valores da Justiça Restaurativa, entendo que esse “morrer” tem a ver com acolher a própria vulnerabilidade e imperfeição. Tem a ver com o estar em contato com a própria violência, para não ter que “matar o outro”, por medo de sua violência. Ao longo dos anos, fui aprendendo uma possibilidade de resistir, a partir de minha vulnerabilidade e de minha capacidade de ser violenta. Fui compreendendo: é exatamente, minha vulnerabilidade que me capacita para me conectar com a vulnerabilidade, a insuficiência, a imperfeição, a violência do outro. Portanto, reconhecendo minha própria violência e imperfeição, não preciso matar o outro pela sua imperfeição. Essa escolha, ou rota, pede um esforço diário de transformação. Diariamente, eu tenho que tomar decisões para não entrar na espiral da violência, ou para sair dela. Às vezes, continuo, conscientemente ou inconscientemente, a reprodução da violência. A liberdade que vem do perdão Contudo, quando sou capaz de reconhecer esses movimentos do cérebro reptiliano, que só sabe atacar, fugir ou fingir, me resta uma saída: Posso me perdoar, posso presentear-me com o dom do perdão, com o perdão a mim mesma. Imaginem, vocês, como ficaria minha vida se não conseguisse perdoar-me uma falha, um gesto, uma traição, um erro, uma violência. Minha vida seria uma prisão. “Se não fôssemos perdoados, eximidos das consequências daquilo que fizemos, a nossa capacidade de agir ficaria limitada a um único ato do qual jamais nos recuperaríamos; seríamos para sempre as vítimas das consequências desse ato” (Hannah Arendt). É evidente que eu preciso perdoar-me, e ciente de vulnerabilidade, eu sou convidada a perdoar outros. Assim procuramos juntos uma forma de cuidar da dor, do dano que minha falta provocou na relação com o outro e na convivência em sociedade. Agora, imaginem, vocês, o que significa essa prisão interior para as mais de 730 mil pessoas iguais a mim, que estão nos presídios. Muitos deles estão lá sem condenação; outros estão lá condenados por um só ato. Faz seis anos que, algumas duplas treinadas pelo CDHEP, estão trabalhando em diversos presídios em diferentes cidades do Brasil. Dão formação em Fundamentos de Justiça Restaurativa, incorporando oficinas ESPERE da Fundación para la Reconciliación da Colômbia. Esse trabalho me confirma a importância do perdão – e do autoperdão – que significa aprender a aceitar a própria vulnerabilidade, que nos faz também escolher respostas equivocadas. Nesse momento, o perdão é a possibilidade de libertar-me do passado: tratando-se de minhas próprias ações e das ações que outros atribuíram a mim. Desarmar o coração e a sociedade Portanto, o perdão é uma possibilidade de desarmar o coração e desarmar a sociedade. Nesse sentido, aproveito para parabenizar a Câmara de Vereadores de São Vicente que incluiu como Princípios da Justiça Restaurativa a interdependência, o perdão como manifestação – e perdão como necessidade; digo eu, exatamente pela interdependência… Para continuar vivendo em comunidade, em sociedade, precisamos nos perdoar mutuamente, nos libertar do peso de atos passados que pesam sobre nós. Parabenizo ainda a Câmara de Vereadores por incluir nos Princípios da Justiça Restaurativa, a abolição de medida meramente punitivas e penalizantes. É um princípio ousado, corajoso, nestes tempos, quando muitas vozes bradam por armas, diminuição de maioridade penal e aumento de penas. Somente estando em paz com minha vulnerabilidade, estarei disponível para acolher a vulnerabilidade do outro. Somente acolhendo minha dor, poderei acolher a dor do outro, sem ter que matá-lo. Mas, morrendo cada dia um pouco à minha onipotência e minha violência. Ir. Petronella Maria Boonen (Nelly) é co-fundadora da