Interculturalidade: uma dimensão contemplativa

A contemplação diária do Divino perpassa pelas diferentes expressões culturais, as quais nos conduzem à abertura ao novo, a uma dimensão sinodal. Quando refletimos sobre a interculturalidade, logo pensamos que esse processo pode resultar em significativos benefícios sócio-histórico-religiosos; ou, pelo contrário, pode deixar marcas negativas, que, muitas vezes, tornam-se questões inconciliáveis. Ao trabalhar em uma escola de ensino médio, na cidade de Tocantínia-TO, na qual quase 50% dos estudantes eram da etnia Xerente (Akwẽ), percebi que existe uma via de mão dupla na dimensão intercultural. A começar pela comunicação visual, linguística e comportamental. Para esse processo, existe a necessidade de acolhida e abertura de ambas as partes. Como todo grupo humano, boa parte dos povos indígenas está mergulhada na influência do consumismo, mercantilismo, tecnologia e mudanças drásticas de costumes e valores originários, o que altera significativamente as raízes culturais. Porém, é importante, para quem tem a missão e deseja “con-viver” com outra cultura (neste caso, indígena), dispor-se à prática do respeito, da humildade, da abertura para o aprendizado, livre de preconceitos. Dispor-se à compreensão da humanidade presente em cada uma dessas pessoas-cidadãs-filhas de Deus. Segundo o professor indígena Valteir Tpêkru Xerente (licenciatura intercultural e mestre em Letras – Ensino de Língua e Literatura), para quem quer se aproximar do indígena, é necessário ter interesse em conviver com esse povo. “É preciso conhecer a cultura por meio de pesquisas, ouvindo as histórias dos antigos, aproximando-se da realidade, convivendo dia a dia. E isso começa pelo aprendizado da língua, que é a identidade de um povo.” Por mais justo que seja o argumento linguístico, isso nem sempre é possível, por inúmeros motivos: estrutura física, financeira, recursos humanos e tempo, o aprendizado de uma nova língua para se criar laços de interculturalidade. Por isso, contemplar e valorizar, com a alma, os olhos e as mãos, uma nova cultura poderá tornar-se a linguagem que mais aproximará seres de uma única espécie e destino. Miriam de SouzaProfessora de Linguagem e missionária leiga.

Passos bíblicos da interculturalidade

A interculturalidade na Bíblia segue um caminho muito peculiar. Apresenta os processos de inclusão e exclusão, acolhida e repúdio, abertura e fechamento, mostrando, assim, uma íntima ligação com a vivência intercultural do mundo contemporâneo. O mundo bíblico era tão intercultural quanto o de hoje, onde se pode perceber tanto inúmeros bons exemplos de interculturalidade quanto de intolerância em relação a outras culturas. É evidente que o Antigo Testamento é uma coleção de livros agrupados conforme os temas: Pentateuco e proféticos, nos quais se encontram também os livros históricos e sapienciais. Já o Novo Testamento inicia-se com os Evangelhos, depois os Atos dos Apóstolos e diversas cartas, finalizando com o Apocalipse. Em ambas as partes, não há um único autor, mas a coletânea de livros é resultado de um longo processo redacional e de transmissão da tradição do povo de Israel. Para ser um texto vivo, no entanto, pressupõe-se um leitor, e a leitura é feita pessoalmente e também pelas diversas comunidades de fé. Por isso fundamental é que, para se compreender a interculturalidade na Bíblia, como aponta Walter Vogels (2015), dois aspectos devem ser examinados: o contexto intercultural da produção da Bíblia e o contexto intercultural de sua leitura. O Antigo Testamento conta a história da caminhada do povo de Israel, e o Novo Testamento apresenta o processo intercultural iniciado por Jesus, continuado eficientemente por Paulo e, posteriormente, pela comunidade apostólica. O missionário do Verbo Divino Roger Schroeder (2020) aponta que o Antigo e o Novo Testamento refletem como as pessoas viveram a experiência de Deus e expressaram sua fé e espiritualidade por meio de seu contexto cultural e histórico, conforme épocas distintas. Podem-se citar como exemplo o chamado e a resposta de Abraão e Sara; o êxodo pascal, a travessia do Mar Vermelho; os ensaios e bênçãos na peregrinação de fé no deserto; as proclamações dos profetas e a literatura sapiencial; a adoração no Templo e na sinagoga; a experiência religiosa de Simeão e Ana no Templo; o chamado e a resposta dos primeiros discípulos; o encontro transformador de Jesus com um cobrador de impostos, um centurião romano e uma mulher samaritana; a travessia de limites culturais em Atos dos Apóstolos; a vida cristã e os desafios entre as comunidades de Paulo. Assim, o caminho intercultural da Bíblia se torna uma inspiração para nossa caminhada como batizados, em direção à atividade missionária promovida por Jesus. Além disso, a Família Arnaldina tem o dever de seguir o caminho intercultural bíblico em nossos contextos da missão. Padre Joachim Andrade, SVDMissionário do Verbo Divino natural da Índia, atua no Brasil desde 1992. Tem pós-doutorado pela PUC-PR, doutorado em Ciências da Religião pela PUC-SP e mestrado em Antropologia Social pela UFPR. É professor na PUC-PR, no Studium Theologicum e na Faculdade Vicentina, membro da equipe interdisciplinar da CRB Nacional. Foi provincial do Brasil Sul de 2008 a 2013.

SSpS: 118 anos de presença missionária no Brasil

No dia 20 de agosto, as missionárias servas do Espírito Santo (SSpS) recordam a chegada das seis primeiras irmãs ao Brasil, em 1902. Naquela época, com apenas 13 anos de fundação, a jovem Congregação experimentava uma vitalidade missionária extraordinária. Fundada em Steyl, na Holanda, já havia enviado missionárias para Argentina (1895), Togo (1897), Papua-Nova Guiné (1899) e Estados Unidos (1891). A disposição de vir para o Brasil partiu do próprio fundador, Santo Arnaldo Janssen. Após muita oração e discernimento, ele decidiu pelo envio do grupo pioneiro. Madre Josefa era a Superiora-Geral e ajudou a preparar as irmãs. Eram elas as irmãs Walburgis, Laurência, Bonifácia, Crescência, Regina e Córdula. O objetivo principal das missionárias na América Latina era reavivar a fé nas famílias cristãs. No Brasil, havia também a grande necessidade de escolas. Por isso, as irmãs já vieram focadas em iniciar um colégio, a partir do qual poderiam estar em contato com muitas pessoas. É surpreendente a coragem das primeiras missionárias. Em janeiro de 1903, poucos meses após a chegada, ainda mal falando o português, deram início a uma escola que depois viria a se tornar o Colégio Stela Matutina, em Juiz de Fora-MG. Depois delas, outras irmãs foram chegando, não somente para as escolas, mas também para trabalhar em hospitais e nas pastorais. Muito rapidamente, espalharam-se pelo Brasil, assumindo diferentes frentes missionárias, especialmente em locais onde as necessidades eram maiores. Em 1963, quando decidiram estabelecer uma segunda província no Brasil, já somavam um total de 461 irmãs, entre missionárias vindas da Europa e irmãs brasileiras. Sempre atentas aos apelos do Espírito Santo, as missionárias SSpS acompanharam as grandes transformações pelas quais passou a Igreja, com o Concílio Vaticano II e as conferências de Medellín e Puebla. Foram ao encontro dos mais pobres nas periferias das grandes cidades e para o interior, nos locais onde a Igreja ainda não estava devidamente estabelecida. Desde então, marca presença também com populações indígenas. Atualmente, o número de missionárias SSpS no Brasil está em torno de 200, organizadas nas províncias Stela Matutina (Estados de São Paulo, Tocantins, Rio de Janeiro e Minas Gerais) e Divina Sabedoria (Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Pará, Amazonas e Roraima). Um aspecto marcante da Congregação, e que sempre esteve presente nestes 118 anos no Brasil, é a interculturalidade. No início, isso se dava pela presença de irmãs europeias e brasileiras. Atualmente, a variedade cultural está crescendo, com a chegada de irmãs de outros continentes, especialmente da Ásia. O compromisso com a vida e a busca de construir comunhão se fortalecem com as práticas cotidianas de “Justiça, Paz e Integridade da Criação”, conhecidas pela sigla Jupic, e que fazem parte do estilo de vida das missionárias. Concretamente, significa que as irmãs priorizam o cuidado com a ecologia, defendem os direitos humanos e os grupos menos favorecidos, assumem as principais causas sociais e promovem uma cultura de paz, fundamentadas nos valores do Evangelho. Os campos de missão são muito diversificados em cada uma das províncias. Mas, ao viverem o carisma missionário e a espiritualidade trinitária, seja qual for a obra social, educacional, pastoral ou da área da saúde, as irmãs sempre buscam vivenciar o lema de nossa congregação “Viva Deus Uno e Trino em nossos corações e nos corações de todas as pessoas”. Irmãs SSpS Brasil Norte em sua história…

Irmã Zilda Hornai: confiança em Deus e desafios em nossa cultura

A irmã Zilda Maria Cofitalan Hornai pertence à Congregação Missionária das Servas do Espírito Santo. Ela é natural do Timor Leste, um país insular, localizado na Ásia, que conquistou sua independência de Portugal no ano de 1975 e, em 2002, da Indonésia, com o fim da ocupação. Sua população é composta por vários grupos étnicos e fala cerca de dezesseis línguas. A primeira vez que irmã Zilda sentiu o chamado foi quando participava do grupo de coroinhas e assistiu ao filme sobre Santa Teresa de Calcutá. Ela ficou profundamente tocada. “Queria também me tornar uma freira para servir ao povo de Deus e, como as irmãs, ter uma vida muito simples”, narra. Um dia, ela encontrou uma missionária serva do Espírito Santo e expressou sua vontade de entrar numa congregação. “Nunca perdi de vista esse desejo até que terminei meus estudos e entrei. Tinha 19 anos”, conta Ir. Zilda. Ela passou quatro anos em formação religiosa antes de se tornar freira. Ao falar sobre os primeiros votos, seus olhos brilham e, com muita alegria, diz: “Deus me escolheu!”. Naquele dia, os pais, os parentes e os paroquianos foram para testemunhar sua consagração religiosa, realizada na paróquia. “Foi uma festa muito especial, com comidas deliciosas e danças, que foi até o sol se pôr”, lembra Ir. Zilda. Antes de entrar na congregação, Ir. Zilda achava que freira não precisava estudar, mas, durante seu estágio pastoral em uma escola das irmãs, percebeu que queria ser professora. Na formação, aprendeu sobre a Congregação, sua missão, carisma, internacionalidade e que as irmãs são enviadas para onde são mais necessárias. Só não imaginava que sairia do país para estudar e que viria para o Brasil, a fim de fazer faculdade e passar por uma experiência intercultural de seis anos. Para isso teria de deixar sua cultura, sua família, suas irmãs, sua comida e adaptar-se a uma nova vida. Chegando ao Brasil, sentiu muita saudade de seu país, porque tudo era diferente: a linguagem, a comida e as irmãs, muito mais idosas do que ela. Com o tempo, Ir. Zilda começou a gostar da vida no Brasil. “As irmãs são simpáticas e carinhosas, cuidando com muita atenção para que não me sentisse fora da comunidade”, conta. O que a ajudou foi lembrar-se sempre de São José Freinademetz. Enviado como missionário para a China, ele se tornou chinês com os chineses, a ponto de afirmar que queria ser chinês até mesmo no céu. “A vida dele se tornou uma inspiração para mim, pois me ensina a me adaptar, acolher e aceitar esta nova cultura”, afirma. A vida comunitária com irmãs de faixas etárias, nacionalidade, pensamentos, sentimentos e temperamentos diferentes não é fácil, mas ela explica que é possível: “Quando nos ajoelhamos diante de Deus, em oração, Ele nos dá força e paciência para nos entender umas com as outras e aceitar, com todo o coração, sem julgar e sem preconceito”. No dia 11 de agosto, Ir. Zilda renovou, pela quinta vez, seus votos religiosos, sendo a terceira vez aqui no Brasil. Relata que foi uma grande alegria ter uma Eucaristia presencial depois de meses de missa só pela televisão, por causa da pandemia. “Sinto-me privilegiada e grata por poder continuar o legado de nossa Congregação e de nossas irmãs. Cada vez que renovo meus votos, coloco-me à disposição como Nossa Senhora: ‘Eis-me aqui, Senhor, faça-se em mim segundo sua vontade’”, partilha. Sobre seus estudos na faculdade, Ir. Zilda confessa que, no início, estava com muito medo e nervosa, pois não conhecia ninguém, mas disse a si mesma que enfrentaria seu medo, conversando com os outros alunos. Aproximou-se dos demais, e o medo foi embora. Com o passar dos dias, começou a sentir-se confiante. Agora ela tem uma relação muito boa com os colegas e também com os professores. O Timor Leste tem dois idiomas oficiais, o português e o tétum. Embora as escolas ofereçam aulas de língua portuguesa, como esta não é a língua falada, os alunos, segundo Ir. Zilda, não levam a sério para aprendê-lo bem. Mas agora, cursando Pedagogia, ela tem de se esforçar e trabalhar muito para dominar o idioma e compreender a linguagem dos livros. Mas, com determinação, conseguiu passar em todos os semestres, sem falhar em nenhuma disciplina. Nas horas de descanso, a irmã pratica violão e toca nas orações e recreações da comunidade. Além disso, está sempre disposta a ajudar em tudo o que precisa. Para outras irmãs que chegam ao Brasil, Ir. Zilda é uma inspiração, pois percebem que elas também podem aprender, pois, como crê, “É Deus quem conduz nossa vida quando colocamos nossa confiança nele”.

Noviciado Panam em tempos de pandemia

Nas Américas, as missionárias servas do Espírito Santo (SSpS) estão presentes no Brasil, Argentina, México, Estados Unidos, Cuba, Bolívia, Chile, Paraguai, Equador, São Cristóvão e Névis, Jamaica e Antígua e Barbuda. Há vários anos, a formação das noviças do continente vem sendo realizada no Paraguai, com a colaboração das irmãs das 11 províncias e regiões, que é a forma como estão organizadas. No momento, são três noviças no primeiro ano e mais três do segundo ano em estágio missionário. São quatro brasileiras: Crislaine Mayra Lopes Pereira, Valdirene Pereira da Silva, Janice Santos de Santana e Patrícia Zeponi, uma do México, Tania López Silva, e outra da Argentina, Gilda Leguizamón. As formadoras são as irmãs Graciela Castro e Eva Tapia. As noviças do primeiro ano entraram no dia 9 de fevereiro. Elas receberam as Constituições SSpS e uma medalha para usar como sinal de pertencimento e compromisso de seguir a Cristo nessa etapa de formação. Assim descrevem a rotina delas: “Em um ambiente comunitário e fraterno, compartilhamos nossas experiências pessoais, culturais e espirituais, bem como a ajuda mútua no trabalho e estudo”. Além disso, elas se encontram com as comunidades vizinhas do postulantado e da Casa de Retiros, para participar da missa, comemorar os aniversários e as grandes festas da Igreja e da Congregação. Por causa da pandemia do novo coronavírus, as noviças não têm aulas fora, mas continuam normalmente com os estudos em casa e acompanham o que está acontecendo no mundo. “Como comunidade, seguimos as ordens sanitárias específicas e nos unimos à Igreja e às necessidades do mundo com nossas orações diárias e adoração ao Santíssimo. Participamos de celebrações eucarísticas diárias pelos meios de comunicação.” Elas também seguem as notícias e refletem como vivenciar a situação atual. Janice, que está no primeiro ano de noviciado, diz que está bem e aproveitando o tempo para rezar mais e estar mais presente na comunidade. Para ela, a pandemia não é só física, mas também espiritual. Experiência intercultural nas comunidades Durante o segundo ano de noviciado, as noviças são enviadas para um estágio de seis meses em comunidades SSpS, em diferentes realidades de missão. A experiência é em outro país, favorecendo a vivência da interculturalidade. Aqui trazemos um breve relato das experiências das duas noviças brasileiras. Crislaine está na pequena cidade de Governador Roca, em Missiones, Argentina. Segundo ela, um local bem organizado, mas onde se sente “a diferença entre poloneses e indígenas”, fruto “de uma história que não foi construída a partir da comunhão, mas por uma separação bem intensa”. Ela vive na Comunidade Nossa Senhora de Fátima, dentro de um colégio, com outras cinco irmãs que se dedicam à educação, casa de acolhimento para idosos abandonados e pastoral indígena. Antes de iniciar a quarentena, ela foi com uma das irmãs ajudar nas escolas das comunidades aborígenes e sente não poder continuar por causa da pandemia. “Foi forte para mim e intenso perceber o quanto são marginalizados e excluídos pela mesma sociedade, e a luta que têm para conseguir seus direitos”, conta Crislaine. A noviça ficou com as crianças de primeira a terceira série e se sentiu muito tocada: “O brilho no olhar de cada uma delas é fascinante; a confiança que têm nos professores me faz sentir a presença amorosa de Deus que vem todos os dias ao nosso encontro”, diz. No colégio das irmãs, colaborou com uma turma da primeira série e também acompanhou como as irmãs partilham a espiritualidade com os professores, alunos e famílias. Mas, na Argentina, durante a pandemia, as irmãs estão fechadas em casa e ninguém sai à rua sem motivo, sob pena de prisão… Enquanto isso, Crislaine está ajudando no trabalho na casa dos idosos, na cozinha, na limpeza e “em tudo o que for necessário para atender melhor nossos avozinhos”, explica. “Para mim, está sendo um momento bem reflexivo poder estar com eles. São lindos! E o que mais querem é que alguém que os escute e esteja ao lado deles segurando seu braço”, afirma. Valdirene foi enviada para a cidade de Nova Esperança, Argentina Norte, numa pequena comunidade com três irmãs que atuam em diversas pastorais, principalmente na catequese familiar e com crianças, Infância e Adolescência Missionárias (IAM), pastoral familiar, formação bíblica, liturgia, trabalho social numa enfermaria e com Cáritas. Ela começou muito animada o trabalho pastoral, as visitas às comunidades pertencentes à Paróquia Nossa Senhora das Mercês e a conhecer as pessoas. Conta que “o povo é muito simples, gentil e acolhedor”. Pediram-lhe que acompanhasse as catequistas e as famílias da periferia. Veio então o tempo de quarentena, e ela, junto com as demais irmãs, tiveram de interromper as atividades e seguir as orientações do governo, ficando em casa. Mas isso não impediu que a comunidade encontrasse outras formas de serem missionárias. Valdirene conta que, na comunidade, as irmãs estão fazendo uma hora de adoração de segunda a sexta-feira para rezar pelas famílias e pelo mundo durante o tempo de pandemia. Criaram também grupos pelas redes sociais para enviar mensagens de ânimo e de evangelização, a liturgia diária e vídeos. “Para estarmos conectadas uns com os outros e para levar fé e esperança àqueles que mais necessitam”, explica a noviça. A pesar de a pandemia ter mudado seus planos e expectativas, Valdirene diz que “está sendo uma oportunidade para aprender e experimentar a interculturalidade”, uma característica tanto da comunidade onde está como também da Congregação. Ela conta que se sente desafiada a lidar “com o sentimento de impotência frente o covid-19 e a incerteza de quando tudo isso termina, porque ninguém está livre de contaminação”, e conclui afirmando que está fazendo seu processo de aceitação.

Pentecostes: dom da comunhão na diversidade

A vinda do Espírito Santo aos discípulos de Jesus foi um marco na vida dos primeiros cristãos e pode ser considerada o nascimento da Igreja. Os Atos dos Apóstolos (At 2) narram que os discípulos estavam fechados em oração e, de repente, o Espírito se manifestou como vento forte e línguas de fogo. Imediatamente eles saíram e podiam se comunicar com pessoas de diversas nações, línguas e culturas, e entender cada uma em sua própria língua. Assim foi o primeiro Pentecostes. Assim é a ação do Espírito Santo, amor que gera comunhão, inclusão, aproximação das pessoas e convívio entre diferentes. Graças à sua presença, o cristianismo se expandiu para além do povo judeu e se espalhou pelo mundo. Consagradas ao Espírito Santo, nós, missionárias SSpS, participamos dessa ação dinâmica de ir além-fronteiras e criar laços de comunhão entre diferentes povos e culturas. Uma das principais características da Congregação é a internacionalidade e interculturalidade: somos quase 3.000 irmãs de 50 nacionalidades diferentes, em 47 países, nos cinco continentes. Em nossas comunidades, é comum conviver com irmãs de outras culturas. No Brasil, ao longo dos anos, recebemos irmãs de vários países da Europa, da Ásia, da África e das Américas. Só falta da Oceania. Muito nos perguntam como conseguimos nos entender… Para nós, o Espírito Santo nos faz superar as barreiras da língua e da cultura, e construir uma só família. Num mundo onde há tanta intolerância, contribuímos com o dom da comunhão na diversidade. Desafios e riquezas da interculturalidade A comunidade do Convento Santíssima Trindade, em São Paulo-SP, é bem intercultural. São 20 irmãs de várias idades e oito nacionalidades. Além das brasileiras, temos irmãs da Alemanha, Bélgica, Áustria, Iugoslávia, Índia, Timor Leste e Indonésia. Para sentir mais de perto a diversidade, entrevistamos as três últimas irmãs que chegaram ao Brasil. “Convivência e integração” Irmã Albérsia Hope Tapoona, 33 anos, é de Kalimantan, Indonésia, e chegou ao Brasil em maio do ano passado. Já tinha experiência de conviver com culturas e línguas diferentes em sua própria terra natal. Para ela, “a interculturalidade é a interação entre diferentes culturas em vista da convivência e integração”, e exige adaptação e a observação de como os brasileiros se expressam. Para quem vem de fora, sempre há coisas que podem chocar. Irmã Albérsia passou por essa experiência. Logo que chegou e a chamaram com gestos, parecia-lhe o jeito de chamar os animais domésticos em seu país… Também não sabia como cumprimentar abraçando um homem, pois, na Indonésia, é impensável. Por outro lado, gostou muito da alegria, abertura, facilidade de se aproximar e familiaridade do povo brasileiro. A irmã já se comunica bem em português, mas quer adquirir mais fluência para servir à missão onde for necessário. O Espírito Santo é a sua força, e ela sempre o invoca, especialmente nos momentos difíceis. “Tudo novo e diferente” Irmã Elizabeth Rani Mani, 34 anos, é da Índia Nordeste. Chegou ao Brasil em julho passado para experiência intercultural e estudos em Teologia e Comunicação. Conta que, ao chegar, tudo era novo e diferente: as irmãs, o povo, a língua, a cultura, a comida… Chamou-lhe a atenção que aqui a maioria da população é cristã, enquanto que, na Índia, é apenas 2,3%, predominando o hinduísmo e o islamismo. Estranhou os casamentos de segunda e terceira união, e os jovens poderem escolher com quem se casar. Na Índia, especialmente no interior, são as famílias que indicam os noivos. Apreciou a liberdade e a abertura que encontrou no Brasil. Em relação à língua, aqui só há o português, enquanto que, em seu país de origem, há mais de mil idiomas diferentes. A irmã espera passar a pandemia para integrar a comunidade SSpS que será aberta na Zona Leste de São Paulo, próxima à Creche Madre Theresia, onde ela trabalha. Lá, um fato que a assustou muito foi a violência doméstica: um pai assassinou a mulher na frente da criança. “Como é fácil acabar com a vida!”, lamentou. “Sentir-se em casa” Irmã Severina do Carmo Amaral, 46 anos, está apenas há três meses no Brasil. Veio do Timor Leste fazer uma experiência missionária e aprender o português. Apesar de ser o idioma oficial de seu país, não é conhecido, pois o povo fala o tétum. Ela conta que se sentiu bem acolhida e que os brasileiros são muito amigos. Sua grande alegria foi conhecer o Santuário Nacional, em Aparecida-SP. Irmã Severina confessa que se encantou com a beleza da basílica e a quantidade de gente. No Timor Leste, os locais de peregrinação são, em geral, pequenas capelas em meio à natureza. O início do aprendizado é difícil, pois faltam as palavras para expressar o que deseja. Por causa da pandemia, as aulas são por Skype. A irmã já viveu na Indonésia e Filipinas, e conhece os desafios da internacionalidade. Mesmo assim, sente falta do arroz no café da manhã. Na comunidade, está à vontade. “A cultura é diferente em cada país, mas, como irmãs servas do Espírito Santo, temos uma cultura congregacional, um estilo de vida, de oração, de vida comunitária que nos faz sentir em casa aonde quer que vamos”, afirma. Irmã Ana Elídia Caffer Neves, SSpSJornalista, membro da Equipe de Comunicação Congregacional e coordenadora de Comunicação da Província Stella Matutina (BRN)

Espiritualidade da convivência intercultural

Antigamente era normal passar a vida num mesmo local, com pessoas da mesma origem e conviver apenas com as que praticavam a mesma religião e compartilhavam os mesmos princípios. Hoje vivemos numa sociedade multicultural. Com o aumento das migrações e da globalização, aliado à rapidez das comunicações e à facilidade de transporte, não precisamos mais nos deslocar para outros países para encontrar pessoas com línguas e costumes diferentes dos nossos. Elas estão em nossas cidades e até mesmo em nossas famílias. Conviver com outras culturas é um desafio, pois, apesar de sermos todos humanos, temos maneiras diferentes que vão desde o jeito de preparar a comida e educar os filhos até o modo expressar sentimentos, celebrar a alegria e enfrentar os sofrimentos. Como nascemos e crescemos imersos em nossa própria cultura, tudo o que fazemos nos parece natural, enquanto que o comportamento de outros povos nos parece estranho quando é apenas diferente. Na sociedade atual, a convivência multicultural é fonte de conflitos e de mal-entendidos, mas também é oportunidade de enriquecimento e abertura para novos horizontes. Acolher, conviver e aprender com as diferenças faz parte de uma nova maneira de estar no mundo e exige a superação de nosso etnocentrismo, dos preconceitos e da tendência à exclusão. Do multicultural ao intercultural Para as missionárias servas do Espírito Santo, com comunidades formadas por irmãs de diversos países e de distintas regiões, o desafio é ainda maior, pois somos chamadas a superar o multicultural para vivenciar o intercultural. Qual a diferença? Num grupo multicultural, cada pessoa mantém a própria cultura, mas não há um verdadeiro intercâmbio, e as pessoas ficam isoladas umas das outras; moram juntas, mas, no fundo, estão sozinhas. Por outro lado, se cada pessoa renunciasse à própria cultura para se adaptar aos costumes do país onde está, haveria um empobrecimento cultural e um sentimento de mal-estar reprimido, pois não podemos negar a raiz de onde viemos ou deixar de ser quem somos. Então, o que fazer? É possível construir comunidades com gente tão diferente? Sim, é possível, mas não é fácil. O caminho da interculturalidade é um processo de conversão constante que nos ajuda a perceber que há outras maneiras de viver e de agir tão boas como as nossas, e outras que, tanto como as nossas, precisam de aperfeiçoamento e de transformação. Com base na espiritualidade trinitária, é possível alcançar a interculturalidade. Como Deus é um só, mas, ao mesmo tempo, Pai, Filho e Espírito Santo, cada pessoa divina, em sua diversidade, está de tal forma unida pelo amor às demais que formam uma única realidade. Assim é a Trindade. Também nós somos chamadas a viver em comunhão com Deus, com as pessoas e com toda a criação. Isso significa construir uma convivência que vai além de nossas diferenças, reconhecendo no outro a beleza e a grandeza de nosso Criador, que se expressa de múltiplas formas. Numa comunidade intercultural, as pessoas não estão justapostas em sua maneira de ser e de pensar, mas vivenciam relações dinâmicas nas quais cada uma pode se expressar a partir do que é e da cultura de onde vem, e são aceitas, acolhidas e respeitadas em sua diversidade. Ninguém é melhor que a outra: todas têm dons a oferecer e muito a aprender. Quando isso ocorre, a comunidade se transforma e cria uma nova cultura que é diferente da cultura original de cada uma, mas incorpora elementos de todas elas de acordo com o que promove a vida e o desenvolvimento humano. Chamamos isso de comunidade intercultural, e o resultado é o amor mútuo e a celebração de nossas diferenças como dádivas para o enriquecimento de todos. Seminário de Espiritualidade e Interculturalidade Para aprofundar a vivência da interculturalidade, com base na ótica da espiritualidade trinitária, um grupo de cerca de 35 missionárias servas do Espírito Santo, missionários verbitas e leigos participaram de um seminário internacional em Steyl, na Holanda, de 26 de janeiro a 14 de fevereiro. Éramos de 20 nacionalidades, atuando em diferentes países da África, Ásia, Oceania, Europa e Américas. Assim tivemos a oportunidade de vivenciar intensamente a interculturalidade não somente nos conteúdos e dinâmicas, mas principalmente na convivência entre nós. A primeira parte foi dedicada ao aprofundamento dos conceitos teóricos; a segunda para integrar a espiritualidade pela oração e o silêncio; e a terceira para colocar em prática o que aprendemos e vivenciamos, por meio da produção de materiais para retiros, reflexões e atividades comunitárias. Participar desse seminário em Steyl, local da fundação da família religiosa de Santo Arnaldo Janssen, foi uma experiência inesquecível. Tivemos o privilégio de beber da fonte espiritual que alimentou nossa geração fundadora e que, até hoje, inspira-nos a deixar tudo para anunciar o Evangelho em qualquer país aonde somos enviadas. Viver a interculturalidade, para nós. SSpS, SVD e missionários leigos e leigas, é viver a cultura do Evangelho, abrindo o coração para acolher as diferenças e superar todas as formas de discriminação e exclusão. Em outras palavras, vivenciar a cultura do amor universal e do encontro que abre as portas para a cultura da paz. Irmã Ana Elídia Caffer Neves, SSpSJornalista, membro da Equipe de Comunicação Congregacional e coordenadora de Comunicação da Província Stella Matutina (BRN)

Missionárias realizam Formação em Interculturalidade

Em maio de 2018 as Missionárias Servas do Espírito Santo – Brasil Norte realizaram um Encontro de Formação sobre Interculturalidade, visando aprimorar seus conhecimentos para trabalhar as relações interpessoais nas diferentes realidades nas comunidades em que se encontram. O encontro aconteceu em São Paulo e Belo Horizonte e foi assessorado pela Irmã Missionária SSpS Adriana Carla Milmanda. No encontro, a Província SSpS do Brasil Norte organizou uma série de oficinas que agruparam as irmãs por idades. De acordo com a realidade de cada grupo, o workshop proporcionou uma introdução aos temas interculturais, como o atual conceito de multiculturalismo e  de cultura, compreensão das diferenças fundamentais entre culturas, estilos culturais de resolução de conflitos e espiritualidade da interculturalidade como estilo de vida e caminho de conversão permanente. Ir. Adriana nos apresenta um resumo do que ela compartilhou com as irmãs: “Em um mundo cada vez mais globalizado e interligado, mas também cada vez mais polarizado e dividido, é essencial refletir e discernir nossa atitude para com o “outro” que é diferente (cor da pele, religião ou posição teológica, idade, sócio econômico, etc). Humanamente, tememos as diferenças, os conflitos e os desafios que eles geram. No entanto, é urgente abordar essas diferenças e conflitos como oportunidades de crescimento e um chamado à conversão. Em um mundo que sobe cada vez mais paredes e leva a um abismo profundo entre os que “têm” e os que são sistematicamente excluídos e marginalizados, o multiculturalismo nos desafia para fora de nossas zonas de conforto, a atravessar intencionalmente essas barreiras tentando me colocar no lugar do outro para que eu possa me comunicar de uma maneira mais empática. Apenas o encontro profundo com o “outro” pode tocar nossos corações e nos abrir a uma transformação interior, de modo que encontramos juntos novas respostas e novas formas de inclusão, compaixão e solidariedade radical, como é proposto no Projeto do Reino que Jesus inaugurou. Multiculturalismo, não é apenas viver ou trabalhar com pessoas de diferentes culturas, mas é estabelecer relações igualitárias que promovem o enriquecimento de cada uma das partes. Interculturalismo é essencialmente encontrar formas e meios para estabelecer verdadeiras relações de reciprocidade e diálogo; para descobrir estilos de vida alternativos em um mundo cada vez mais violento, intolerante, indiferente e dividido. A chave para viver este desafio é conhecer as diferenças e aceitá-las e até mesmo desejá-las, para que elas se tornem um caminho de transformação pessoal e comunitária. O maior perigo é ignorar, minimizar ou se acostumar a simplesmente a tolerar as diferenças culturais. Como Congregação, as Missionárias Servas do Espírito Santo receberam o chamado à vida e missão intercultural como carisma e estilo de vida. Com nossas luzes e sombras, temos vivido e desenvolvido por mais de 100 anos este carisma, que hoje é uma dádiva e responsabilidade perante a Igreja e o mundo.” Sobre a palestrante Adriana Carla Milmanda é Missionária Serva do Espírito Santo na Argentina, é bacharel em Teologia e mestranda em Estudos Interculturais e Bíblia. Atualmente mora na periferia da cidade de San Carlos de Bariloche, onde leciona Teologia e coordenana o Projeto “Ser Mulher” que acompanha mulheres em situação de vulnerabilidade.

Irmãs SSpS falam sobre como é viver em outras culturas

A interculturalidade e a internacionalidade fazem parte da identidade das Missionárias Servas do Espírito Santo. Neste vídeo apresentamos os depoimentos de algumas irmãs de outros países e de algumas missionárias brasileiras que realizaram missão fora do Brasil. Todas elas narram os desafios e as alegrias da vivência intercultural que experimentaram em sua própria vida e missão. 5

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