Covid-19: socorro aos mais vulneráveis é luz em meio à tragédia

A pandemia causada pelo covid-19 aterroriza o mundo inteiro. As vítimas são contadas em centenas de milhares. A economia de muitos países sofre fortes golpes, e as relações sociais estão sendo transformadas como nunca. Não foi poupada nem a própria religião, com suas teologias, dogmas, métodos. Vai demorar muito tempo para que todas as lições advindas do fenômeno sejam assimiladas por esta e as futuras gerações. A doença deixou às claras ou mesmo acentuou muitos problemas sociais, ambientais, científicos, econômicos, espirituais que já existiam e, por ignorância ou má-fé, eram omitidos. No início, pensava-se que o vírus seria “democrático”. Todos corriam o mesmo risco de serem contaminados e de se tornarem vítimas. Aos poucos, contudo, as estatísticas mostram que as populações mais pobres, os excluídos, as minorias são os mais vulneráveis. Sem acesso pleno a políticas públicas de saúde, moradia, emprego, educação, alargam o subnotificado índice de atingidos. Entre os mais frágeis está o povo em situação de rua. Muitos sequer foram informados da gravidade da pandemia, como se queixou um homem que dormia sob uma marquise, em Belo Horizonte-MG. Ele reclamou que agentes de segurança chegaram e deram ordem para que ele e os companheiros não se aglomerassem, porém não lhes disseram o motivo. “Não sei o que fazer”, protestou. Nem tudo, porém, são trevas neste cenário de caos. Várias iniciativas de apoio à população mais vulnerável se destacam. Algumas já o fazem há muito tempo, outras surgiram como resposta aos danos causados pelo covid-19. Conheça três desses projetos. Rede Rua Em São Paulo-SP, a Rede Rua participa da ação “S.O.S. povo da rua contra o covid-19”, que envolve outras organizações. Numa das atividades, realizada no início de junho, foram distribuídos às famílias da região do Brás 46 cestas básicas, kits de higiene, máscaras e sabonetes. Os atendidos foram os que se encontram em situação de rua ou em ocupações. A equipe da Rede Rua acompanhou cada caso e redirecionou os alimentos aos que têm espaço para cozinha. A prioridade foi dada a mulheres chefes de família, desempregados e pessoas que ainda não tiveram acesso ao benefício emergencial, precariamente concedido pelo governo federal. A iniciativa não se reduziu apenas à entrega de donativos. Os agentes também deram dicas de como se proteger do covid-19 e organizaram atividades de recreação. A rua também é memória Na segunda-feira, 22, a ação de apoio foi com as pessoas que vivem debaixo do Viaduto Governador Roberto Abreu Sodré. No local, há uma comunidade de coletores de materiais recicláveis. Apesar de contribuírem para o desenvolvimento econômico e sustentável da maior metrópole da América do Sul, não são reconhecidos como trabalhadores. Não têm direitos e lutam cotidianamente pela sobrevivência. Eles receberam dos agentes 11 cestas de alimentos e produtos de limpeza. O viaduto em si já diz muito sobre a realidade da população pobre e injustiçada. A via é batizada com o nome de um dos políticos eleitos indiretamente à época da ditatura civil-militar (1964-1985). “Pode parecer bobagem, mas nomes de ruas e monumentos carregam uma carga de preconceito e desumanidade, a rua também é monumento, a rua também é memória”, diz uma nota do movimento. “A dor mais profunda da pessoa de rua é ter o olhar furtivo, evitado, não ser visto. Penso que o primeiro passo é este: dar visibilidade, dizer que são importantes”, afirma a irmã Maria Inês, missionária serva do Espírito Santo e membro da diretoria da Rede Rua. Alta demanda faz Inova pedir socorro Também em São Paulo, o Instituto Novos Valores (Inova) é especializado em atender famílias em situação de vulnerabilidade social e em conflitos. A obra existe há dois anos e está localizada na Vila Nova das Belezas, na Região do Campo Limpo, extremo sul da capital paulista. Normalmente, o Inova acompanha 300 famílias cadastradas, as quais recebem cestas básicas, material de limpeza e higiene pessoal. O socorro, contudo, começa a ser insuficiente para atender a uma demanda cada vez maior. Rosita da Cruz, que é assistente social e presidente da entidade, afirma que mais de 500 famílias foram socorridas entre os dias 26 e 29 de maio, em parceria com a organização não governamental Banco de Alimentos. Rosita assinou um comunicado, pedindo doações de cestas básicas e de outros itens de que as famílias necessitam. Ela relata que, até o dia 23 de junho, não houve resposta, nem mesmo do Poder Público. A diretora afirma que toda contribuição é bem-vinda. “Não vamos permitir que nenhuma família fique sem o alimento de cada dia”, convoca. No fim desta reportagem, veja como doar. Canto da Rua Emergencial Em Belo Horizonte, foi organizado o Canto da Rua Emergencial, um conjunto de ações de garantia e defesa dos direitos da população em situação de rua e dos catadores de materiais recicláveis. A iniciativa, prevista para durar dois meses, foi inaugurada em 13 de junho. Atende pessoas da capital mineira e de outros municípios da região metropolitana. Segundo dados do CadÚnico, em fevereiro deste ano, a capital mineira tinha 9.060 pessoas vivendo nas ruas. Já se sabe que, como ocorre na maior parte do Brasil, esse número tem aumentado rapidamente. Além de não terem onde se abrigar, essas pessoas são vítimas de várias violações de direitos, entre elas o pouco acesso a políticas públicas. O Canto da Rua Emergencial é uma parceria da Pastoral de Rua da Arquidiocese de Belo Horizonte e do Instituto Unibanco. O projeto envolve também outras entidades dos setores público e privado, como Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, Vicariato para a Ação Social, Política e Ambiental, Movimento Nacional da População de Rua, Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), Faculdade Arnaldo, Arcelor Mittal, Fiat Automóveis, Localiza, Transforma BH, Inaper e Colégio Santo Antônio. Cada uma, à sua maneira, busca fazer sua parte para dar suporte aos socorridos. Entre as ações está a articulação de um espaço, organizado na histórica e emblemática Serraria Souza Pinto, localizada no Centro da capital, onde os destinatários são acolhidos. No lugar, há serviços de escuta, alimentação, higiene pessoal e encaminhamentos diversos, como saúde
Uma nova masculinidade, menos violenta

Em uma sociedade não violenta, e neste texto preferirei o termo menos violenta, parece-me importante compreender não apenas aspectos individuais que compõe uma pessoa violenta neste século XXI, como estresse, impaciência, ansiedade e mais. Prefiro entender a violência como algo que fala também, e principalmente, de relações humanas. Como quem afirma que “não se é violento sozinho, mas na relação com o outro”. Ou seja, existem aspectos econômicos, sociais, culturais que se referem à relação de um humano com outro que também podem contribuir na composição de uma pessoa violenta. Assim, vou destacar dois tipos de violência que costumam causar grande comoção social, a violência contra mulher e a violência sexual contra crianças e adolescentes. Os dados das duas últimas edições do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2018 e 2019), que faz um levantamento dos registros de boletins de ocorrência das Secretarias Estaduais de Segurança Pública e, ou, Defesa Social de todos os Estados e do Distrito Federal, mostram que o número de vítimas de feminicídio (quando o homicídio de uma pessoa ocorre por ela ser mulher) no Brasil aumentou de 929, em 2016, para 1.206, em 2018. Isso equivale a dizer que três mulheres são vítimas de feminicídio por dia no País. E o número de registros de lesão corporal dolosa, considerada como violência doméstica (a violência que ocorre dentro da casa da vítima), foi de 194.273, em 2016, para 263.067, em 2018, o que equivale dizer que, a cada dois minutos, uma mulher foi vítima de violência doméstica no Brasil. Sabe-se que, em se tratando de feminicídio, em 88% dos casos, o autor foi o companheiro ou ex-companheiro da vítima, conforme índices de 2018. A última edição do Anuário destaca o perfil dos estupros no Brasil e indica que esse crime aumentou de 43.869, em 2011, para 66.041, em 2018, sendo 63% destes considerados estupros de vulneráveis, ou seja, praticados contra crianças ou adolescentes. A faixa de idade mais vitimada foi a de 5 a 13 anos. Em comum, na maioria dessas violências, não está apenas o fato de serem contra mulheres ou meninas, ou de serem praticadas por homens, mas também de ocorrerem na casa da vítima e efetuadas por homens de sua confiança, que lhes deviam afeto ou mesmo cuidado, no caso de crianças e adolescentes. Por isso parece importante que, ao refletir sobre essas violências, e em uma sociedade menos violenta, consideremos como o homem deste século exerce sua masculinidade. Nós, homens, crescemos aprendendo, ou melhor, ouvindo que “em mulher não se bate nem com uma pétala de rosas”. Buscaram nos ensinar a cortejar a mulher, oferecer-lhe flores, abrir-lhe a porta do carro. A sociedade se responsabilizou em ensinarmos que a mulher é mais frágil, e por isso cabe ao homem protegê-la. E mesmo quanto a crianças e adolescentes, essa mesma lógica se estende, e o homem assume a responsabilidade de chefe de família, responsável pela provisão da casa. Assim se constrói a masculinidade, quase que como um contrário da feminilidade da mulher: homem forte, mulher fraca; homem valente, mulher medrosa; homem bruto, mulher dócil; o homem poderoso, mulher submissa. Sem saber dos números de violência aqui descritos, a filósofa Simone de Beauvoir e outros pensadores já defendiam que a masculinidade desta época foi ensinada não apenas como diferente da feminilidade, mas sim como superior a ela. Por isso o homem que é fraco, medroso, dócil ou submisso é chamado de “afeminado”. Ele é menos homem e por isso ele “perde seu valor” diante da sociedade machista. E essa reflexão tem tudo a ver com as violências descritas, pois dizem do lugar que a mulher ocupa em relação ao homem: um lugar de desigual, de menor valor. Por isso não basta nos chocarmos com os inúmeros casos, e digo isso porque os dados aqui apresentados são apenas com relação aos registros de boletim de ocorrência e não se referem às violências que ocorrem, há anos, em absoluto sigilo, no ambiente privado dos lares. Precisamos reconhecer que a masculinidade deste século precisa se reinventar, talvez não sobre o princípio da superioridade sobre a feminilidade, mas sim considerando as simples diferenças, não na concorrência, mas na cumplicidade entre elas. Uma nova masculinidade que vá, de fato, no sentido de uma sociedade menos violenta. Everton Borges, assistente social no Projeto Construindo Novos Valores, do Instituto Novos Valores.