Festas juninas: um convite para mergulhar nas muitas moradas do Brasil

As festas juninas são uma oportunidade de encontro, convivência, memória afetiva e valorização da cultura brasileira. Em 2026, a Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo se inspirou no tema transversal e na proposta da Campanha da Fraternidade para destacar “Um Brasil de muitas moradas”. Janaína Marques, coordenadora de Marketing da Rede, apresenta a proposta.
Escolas são guardiãs da tradição das festas juninas

No calendário das escolas de todo o Brasil, a chegada de junho vem acompanhada pelo colorido de vestimentas caipiras e das bandeirinhas que enfeitam pátios, salas e corredores. Em alguns casos, o período das festas juninas pode se prolongar até julho, em programações que valorizam a cultura, além de promover a alegria e a integração, sendo tudo isso parte do conteúdo pedagógico. A celebração tem suas origens em festividades da Europa que marcavam a passagem da primavera para o verão no Hemisfério Norte, sendo trazida para o Brasil por influência dos portugueses do século XVI. As danças, músicas e comidas que conhecemos hoje evidenciam a mistura de elementos típicos do interior do País e de tradições sertanejas, forjadas pela mescla das culturas africana, indígena e europeia. “A cristianização da festa está diretamente relacionada ao estabelecimento de comemorações de importantes figuras do catolicismo, entre as quais se destacam Santo Antônio (homenageado em 13 de junho), São João (dia 24) e São Pedro (dia 29)”, informa o portal Brasil Escola. Nas escolas das missionárias servas do Espírito Santo, essa tradição também vem de longa data, sendo um dos eventos mais aguardados por toda a comunidade escolar. Danças de quadrilha junina, as brincadeiras e o casamento caipira são algumas das atividades que ficam na memória de quem participa dessas festas. Saiba como é esta prática nos colégios Imaculado Coração de Maria (Rio de Janeiro-RJ), Santa Maria (Cascavel-PR), Espírito Santo (São Paulo-SP) e Espírito Santo (Canoas-RS). Festejos têm caráter pedagógico Dentro de seu planejamento pedagógico, o Colégio Imaculado Coração de Maria entende que valorizar as tradições culturais deste imenso país junto às gerações mais novas é proporcionar acesso à riqueza, beleza e diversidade dos povos originários, povos africanos e europeus. “O Brasil possui como característica reconhecida a multiculturalidade, o que nos enche de orgulho. E trazer uma festa tipicamente campestre para a cidade é dar visão, valorizar e respeitar os traços e costumes típicos desses brasileiros que transformam, em cores e passos vibrantes, as noites das festas juninas do interior do País”, assinalam os educadores. Por isso, a tradicional festa junina da escola não se resume apenas a ensaios, danças e barraquinhas. Engloba um estudo sobre esse Brasil, aparentemente distante, que colocou em evidência artistas como Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Dominguinhos, Marinês, Elba Ramalho, além de aspectos culturais e a beleza das festas de Caruaru-PE e de Campina Grande-PB, com seu teto colorido de bandeirinhas, quadrilhas, xotes, baiões e a história da força do povo sertanejo. “Esses valores são passados e debatidos com os alunos, durante as aulas em sala, e depois trazidos aos ensaios, quando professor e aluno fazem uma união entre as músicas mais tocadas nas áreas urbanas com as músicas marcadas por zabumbas, triângulos e sanfonas, para daí saírem as danças que abrilhantam nosso evento”, afirmam os professores do Colégio Imaculado Coração de Maria. A coordenadora pedagógica da educação infantil do Colégio Espírito Santo (CES) de Canoas, Elen Zimmermann, ressalta, inclusive, que as festas juninas integram a competência de Repertório Cultural na Base Nacional Comum Curricular: “Na BNCC, entra toda a parte cultural e de festividades que caracterizam cada Estado do País. Fazemos o estudo das regiões para fundamentar a festa com essas informações. Já trabalhamos como temática a biografia de Luiz Gonzaga e Elba Ramalho, por exemplo”. Essa competência da BNCC estabelece como fundamental que os estudantes conheçam, compreendam e reconheçam a importância das diversas manifestações artísticas e culturais, propondo a participação deles em práticas diversificadas da produção artístico-cultural. Outro aspecto pedagógico é a mescla da festa junina com projetos escolares e eventos como a Copa do Mundo, propondo conexões ainda mais amplas. “A festa junina é uma tradição no CES. É uma atividade muito esperada, cheia de alegria, dança, gostosuras e descontração. Aproveitamos a oportunidade para enfatizar o programa Líder em Mim, desenvolvendo os princípios dos sete hábitos trabalhados com os alunos, colocando-os em ação, de forma a desenvolver a proatividade, a estabelecer o que é mais importante, pensando o ganha-ganha, além de criar sinergia na organização, nos ensaios e na apresentação das danças”, comenta Adriana Maciel, coordenadora pedagógica do ensino fundamental I do colégio gaúcho. Também no Colégio Santa Maria, em Cascavel, a professora Rosangela Maria de Oliveira Bueno, do ensino fundamental, conta como a programação envolve todo um trabalho multidisciplinar: “As festas juninas fazem parte do calendário letivo e são momentos para o desenvolvimento de muitas atividades lúdicas, além de uma valiosa oportunidade para que os professores ensinem conteúdos relativos a diferentes disciplinas, como Geografia, História, Artes e Educação Física. O evento contribui para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, principalmente nas crianças, possibilitando a integração entre todos os envolvidos, e estimula competências impactantes para a socialização, como cooperação, paciência e respeito”. Presença da família e da comunidade A alegria das festas juninas é algo que empolga não somente os estudantes, mas também seus familiares e, em alguns casos, ex-alunos e a comunidade vizinha às escolas. “Nossa festa junina é referência no bairro, pois é um momento em que várias gerações do Colégio Imaculado Coração de Maria se reencontram para aproveitar o festejo e participar da tradicional dança de quadrilha dos ex-alunos”, dizem os professores. O evento inicia com uma procissão, tendo a imagem de Nossa Senhora Aparecida à frente, levada por um colaborador, seguida pelos estandartes dos três santos juninos: Santo Antônio, São João e São Pedro. “É lindo ver toda a comunidade escolar atrelada a esse momento em que se celebra também nossa fé. Nós, educadores deste grande colégio, colocamos nosso saber e nosso coração em prol de uma educação verdadeira, que desenvolve a empatia, o respeito e o reconhecimento por esse patrimônio cultural que são as festas juninas”. No Colégio Espírito Santo, na capital paulista, um dos propósitos também é essa integração. “A nossa festa junina significa família, diversão e tradição. É um dia cheio de brincadeiras populares, comidas típicas e danças, que dão um toque de beleza. É um momento no qual as crianças apresentam o que aprenderam e resgatam o que
Festejos populares em tempos de pandemia nas escolas

Mesmo em meio à pandemia e às necessidades de isolamento e manutenção de protocolos, as escolas da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo não pouparam esforços para realizar as tradicionais festas juninas. Seja de modo virtual ou presencial, com obediência a rígidos protocolos, não deixaram de oferecer a crianças e jovens essas vivências tão importantes da cultura popular brasileira. A prática dos festejos populares juninos está alinhada à competência três da BNCC, a Base Nacional Comum Curricular: “Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural”. Mas, qual é a importância dessa competência? Por que participar e conhecer as manifestações culturais e locais se faz tão necessário? Em tempos pandêmicos, nos quais a angústia e a incerteza predominam, qual a importância de se manter esses festejos, mesmo que de forma reinventada e auxiliada pelas tecnologias da informação e da comunicação? Primeiramente, vamos relembrar as origens dos festejos juninos, que vêm de festas pagãs das antigas civilizações, ligadas aos ciclos da natureza, às estações do ano, sobretudo nos períodos de plantio e de colheita. No século XVI, as festas “joaninas” foram trazidas pelos portugueses durante o período de colonização, em referência a São João. Com o correr dos anos, passaram a ser chamadas de festas juninas, por ocorrerem durante o mês de junho. É tradição em todo o País, principalmente no Nordeste. Atualmente, são consideradas festividades mais populares que religiosas, associadas a símbolos típicos de zonas rurais. Buscando explicação em estudiosos que pesquisaram a cultura, a educação e o desenvolvimento, podemos extrair alguns importantes significados para o trabalho com a diversidade cultural e sua vivência no ambiente escolar. Pierre Bordieu (citado por SILVA, s.d.) afirma que “a cultura é o conteúdo substancial da educação, sua fonte e sua justificação última […] uma não pode ser pensada sem a outra”, portanto atividades que tragam não somente a cultura erudita para dentro da escola, mas a multiculturalidade presente em nossa sociedade revelam o potencial de uma educação mais democrática e inclusiva. Reuvem Feuerstein, professor e psicólogo israelense, influenciado por Vygotsky, que criou a teoria da experiência da aprendizagem mediada, afirmava que o ser humano é dotado de estruturas mentais que lhe garantem a capacidade de aprender, porém a falta da apropriação de sua própria cultura (privação cultural) afetará negativamente suas capacidades cognitivas. Elvira Souza Lima, pesquisadora em desenvolvimento humano, tem realizado encontros virtuais nos quais ressalta o papel da arte e da cultura como antídoto aos danos emocionais gerados pela pandemia, as restrições e perdas impostas por ela. Nasci e cresci em um bairro pequeno de Belo Horizonte, com características de cidade de interior. Minha infância e adolescência foram marcadas por quermesses e festas de rua, incluindo as juninas, às quais tínhamos acesso com muita liberdade e segurança. Hoje, nossas crianças e jovens quase não têm acesso a esses eventos e manifestações populares fora da escola. A cidade já não oferece tantas oportunidades. Acentua-se o papel da escola como agente de mediação cultural, valorizando a enorme diversidade presente em nosso País, humanizando e formando cidadãos preparados para viver em sociedade e serem agentes de transformação, que contribuem para uma cultura de paz, respeito e valorização da diversidade. Ana Amélia Rigotto FernandesDiretora educacional do Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG. ReferênciasSILVA, Jididias Rodrigues da. A importância da cultura no processo de aprendizagem. Brasil Escola, São Paulo, s.d. Disponível em: Brasil Escola. Acesso em: 4 jul. 2021. SOUZA, Natalício de. A mediação da aprendizagem segundo Reuven Feuerstein. Revista Brasileira de Educação Básica, Belo Horizonte, v. 4, n. 14, 2009. Disponível em: Revista Brasileira de Educação Básica. Acesso em: 4 jul. 2021. VEIGA, Edison. Festa junina: a origem da celebração pagã que virou religiosa e ‘caipira’ no Brasil. BBC News Brasil, 18 jun. 2021. Disponível em: BBC News. Acesso em: 4 jul. 2021.
Festas juninas “cada um na sua casa”

Neste período de pandemia, estamos fazendo a experiência de, a cada dia, nos reinventar e, com criatividade, buscar novos caminhos para tudo o que é importante em nossas vidas. Assim, vivenciamos diferentes experiências de festas juninas virtuais e presenciais, sempre respeitando o cuidado com cada pessoa. Aqui compartilhamos algumas dessas experiências. Arraial virtual com os alunos e famílias O mês de junho tradicionalmente traz aquele clima de festa no ar. E não dá para negar que a festa junina é uma celebração muito esperada. Todos amam participar dessa festividade e, é claro, vestido a caráter, também comer guloseimas e dançar a quadrilha. Mas como foi essa experiência no último mês? Claro que não poderia ter sido diferente! No período de 15 a 26 de junho, a comunidade educativa do Colégio Imaculado Coração de Maria, no Rio de Janeiro-RJ, realizou seu 1º Arraial Virtual. Participaram os alunos da educação infantil ao 5º ano do ensino fundamental e suas respectivas famílias. A ideia foi promover um momento de leveza e descontração em suas casas, e aproximar a família da escola. Proporcionar a alegria em plena quarentena!O clima foi de pura descontração! As casas dos alunos foram decoradas com enfeites juninos, e as comidas típicas não faltaram. Crianças e adultos participaram das atividades propostas pelos professores, tais como a gincana, a corrida da colher e a dança da laranja. Tudo elaborado com muita música e diversão! Finalizamos a festa com o esperado e tradicional quadrilhão, além de uma mensagem em formato de vídeo, resgatando as muitas festas juninas realizadas no Colégio Imaculado Coração de Maria. Concluímos com a certeza de que, no próximo ano, estaremos mais uma vez reunidos para celebrar as festividades dedicadas a Santo Antônio, São João e São Pedro. Magda Nascimento, coordenadora pedagógica do ensino fundamental I. Dança da quadrilha com distanciamento social No Convento Santíssima Trindade, em São Paulo-SP, tradicionalmente é feita uma festa junina com a participação das irmãs e de todos os colaboradores e colaboradoras, com suas respectivas famílias. É uma data muito esperada e preparada com muito empenho e alegria. Este ano, precisou ser diferente, mas nem o vírus impediu a festa. As irmãs fizeram uma recreação comunitária, com gincana, sorteios, brincadeiras, comidas típicas, música em diversas línguas e danças. Não poderia faltar a quadrilha, mas como dançar quadrilha e manter o distanciamento social? Para tudo há solução. Veja no vídeo a nova modalidade de dança de quadrilha! Os colaboradores que trabalham no Convento também tiveram seu dia de festa e se divertiram muito com as brincadeiras, bingo e sorteios. Também dançaram a quadrilha, mantendo a distância. O importante é que todos se divertiram e aproveitaram a descontração para aliviar a tensão do momento atual. Vídeo juntou quem estava longe e fez a festa A equipe das educadoras do Centro Educacional Madre Theresia Messner, também na capital paulista, não pôde reunir as crianças para a festa que fazem todos os anos, mas nem por isso deixaram de celebrar. Cada uma em sua casa e também as irmãs que trabalham na creche gravaram uma cena e, tudo junto, mostrou a alegria de celebrar os santos juninos. Assista ao vídeo e sinta o clima.