Ano Novo: o “novo” que nos habita

Ano Novo: o “novo” que nos habita. Veja a reflexão elaborada pelo jesuíta padre Adroaldo Palaoro, comentando o Evangelho proclamado nesta Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, abrindo o ano civil. A passagem está em Lucas 2,16-21. Feliz 2026!

Na Sagrada Família, tudo fala de Deus

No fim de cada ano, a Igreja celebra a Festa da Sagrada Família, composta por Jesus, Maria e José. É sagrada porque ali mora a predileção de Deus na escolha de seus membros. Maria, por ter sido eleita para ser a mãe de Jesus; José, por ser descendente de Davi; e Jesus, por ser o Filho de Deus. Essa família se reveste do sagrado porque nela tudo fala de Deus e de seu projeto para nos salvar. Nas três pessoas que a compõem, encontramos o lado humano plenamente “humanizado” em todas as suas dimensões biológicas, psíquicas, espirituais. Essa família viveu na aldeia de Nazaré, como as demais que lá estavam. Exercendo o trabalho do dia a dia, ficou escondida e só apareceu (nos Evangelhos) quando nasceu o Menino em Belém; quando o Menino foi apresentado no Templo oito dias após seu nascimento; quando foram em peregrinação à festa, em Jerusalém. Por trinta anos, viveram no anonimato, como viviam todas as famílias da aldeia, embora um fato fizesse a diferença entre as demais famílias: ali morar o Filho de Deus, e seus pais, José e Maria, terem sido escolhidos para a missão de cuidar do “Menino” até que Ele, aos 30 anos, pudesse iniciar publicamente sua missão de revelar o Reino de Deus entre nós. A Sagrada Família nos é apresentada como modelo para todas as outras. Em primeiro lugar, porque foi ali vivido, em plenitude, o amor entre seus membros. Não havia brigas nem dissensões, mas se conjugavam a harmonia e o zelo de uns para com os outros. Mantinham suas relações com a parentela conforme a tradição judaica. Viviam seus compromissos religiosos, frequentando a sinagoga em dia de sábado. José exercia sua profissão de carpinteiro, coadjuvado por seu filho aprendiz. Não temos informação se fabricava móveis, casas ou outros afins, mas certamente era desse trabalho que provia o sustento da família. A Família de Nazaré é modelo para todas, porque viveu o ideal de família humana, unida pelos laços de sangue e por sua particularidade, realizando uma missão especial de visibilizar a salvação de Deus presente no Filho como enviado do Pai. No Filho, mostrou-se o rosto humano de Deus no meio de nós, como o Emanuel. Cada uma das pessoas que a compunham, viveu a missão que recebera de Deus. José, pai adotivo, zeloso nos cuidados de Jesus e de Maria, trabalhador, justo, humilde, cumpridor das leis, que assumiu a vontade de Deus como sua vontade. Maria, a virgem escolhida sem pecado, gestou durante nove meses a obra do Espírito Santo que se realizava em seu ventre. Prestativa, foi ajudar sua prima Isabel, grávida do precursor João Batista; após o nascimento deste, voltou para sua Nazaré, até que o tempo se completasse. Foi recensear-se com o esposo em Belém e lá deu à luz o Filho de Deus, envolveu-o em panos, amamentou-o, recebeu a visita dos Magos, que confirmaram que aquele menino era “luz para as nações”. De volta para sua aldeia, cuidou com zelo de mãe, guardou e meditou, em seu coração, a obra que Deus realizava em seu Filho. Angustiou-se com o extravio do Menino, quando Jesus ficou entre doutores, em Jerusalém, enquanto ela e José voltavam da peregrinação. José, completados seus dias, morreu como justo; não sabemos quando. Maria esteve com seu Filho até a morte dele na Cruz. Lá estava ela, de pé, corajosa, sabedora do gesto salvador do Filho. Permaneceu com os discípulos, aguardou a vinda do Espírito Santo prometido, em Pentecostes. Com os apóstolos, iniciou a Igreja de seu Filho. Quando chegou sua hora, foi assunta ao céu com corpo já glorificado. E assim, permanece para nós o exemplo a ser seguido na vida em família. Família de Nazaré, abençoe nossas famílias! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S

Festa da Sagrada Família

“Por que me procuravam? Não sabem que eu devo estar na casa do meu Pai?”Lucas 2,41-52 Na Igreja Católica, hoje é celebrada a Festa da Sagrada Família. Portanto o trecho de Lucas põe em relevo os três membros da família de Nazaré, mas tem como seu tema principal um ensinamento sobre quem é Jesus, sua relação com o Pai e com sua família humana. A história começa enfatizando a identidade da família humana de Jesus como judeus piedosos. Os regulamentos sobre as peregrinações ao Templo de Jerusalém, para a festa da Páscoa, encontram-se em Êxodo 23,17; 34.23; Levítico 23,4-14. Como consequência, entendemos que o ambiente em que Jesus cresceu (e no qual descobriu sua vocação e missão) é aquele dos “pobres de Javé”, os devotos que esperavam a libertação de Israel, por meio da vinda do Messias davídico prometido. Essa viagem prefigura a grande viagem de Jesus a Jerusalém em Lucas 9,51 a 19,27, que Ele fará com seus discípulos e na qual revelará, por palavras e ações, seu relacionamento com o Pai, prefigurado aqui no versículo 49. O texto salienta certas atitudes de Jesus. É bom prestar bem atenção aos verbos. Lucas diz que Jesus estava no Templo entre os doutores: “escutando e fazendo perguntas” (vers. 46). A atitude de Jesus é a de um aluno muito inteligente e não de um mestre (Ele não está “ensinando no Templo”, como muitas vezes dizemos em nossas tradições). Aqui Lucas antecipa para os doze anos o que realmente ocorrerá mais tarde, quando Jesus realmente ensina no Templo e sofre a rejeição e a perseguição por parte dos doutores de Lei e dos sumos sacerdotes. O ponto central do texto se acha em versículo 49: “Por que me procuravam? Não sabiam que eu devo estar na casa do meu Pai?”. Aqui Lucas relata as primeiras palavras de Jesus em seu Evangelho. Agora não é Gabriel nem Zacarias, nem Maria quem diz quem é Jesus, mas Ele mesmo. A palavra que traduzimos como “devo”, em grego “dei”, transmite o tema de “necessidade”, que aparece 18 vezes no Evangelho e, nos Atos dos Apóstolos, 22 vezes, e “expressa um senso de compulsão divina, frequentemente visto como obediência a uma ordem da Escritura ou profecia, ou na conformidade de eventos com a vontade de Deus. Aqui a necessidade consiste no relacionamento inerente de Jesus com Deus, que exige obediência” (Marshall, The Gospel of Luke). No versículo 50, fica claro que seus pais não entendem que o relacionamento de Jesus com o Pai celeste tomava precedência sobre sua relação com eles: “Eles não compreenderam o que o menino acabava de lhes dizer”. A “espada”, a dor de sentir esse distanciamento sem poder compreendê-lo e da que falou Simeão em 2,35, já começa a aparecer. Maria não compreende plenamente (retomando o tema do vers. 19) e tem de continuar sua caminhada de fé, meditando sobre o sentido e identidade de seu filho. Fato encorajador para nós. Quantas vezes acontecem coisas em nossas vidas que não compreendemos e nelas nem conseguimos ver a vontade de Deus? A exemplo de Maria e José, aceitemos essa escuridão, continuemos a caminhada, mas nunca deixemos, com atitude de oração de contemplação, de “conservar em nosso coração todas essas coisas”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.Pe. Tomaz Hughes, SVD

Festa da Sagrada Família

“Ele crescia cheio de sabedoria, e o favor de Deus estava com ele”Lc 2,22-40 O Evangelho na Festa da Sagrada Família é tirado dos primeiros capítulos de Lucas. Mais uma vez, encontramos um tema muito importante: o encontro entre a Antiga e a Nova Aliança. Durante o Advento, Lucas fazia um paralelo entre Isabel, Zacarias e João Batista, e Maria, José e Jesus. No texto de hoje, os justos da Antiga Aliança são representados pelas figuras de Simeão e Ana, profeta e profetiza. Outros dois temas de Lucas também se destacam nesse relato: o Espírito Santo e a opção pelos pobres. Lucas destaca que os pais de Jesus foram ao Templo, conforme a Lei (cf. Lv 12,8), para oferecer o sacrifício (dois pombinhos). Na Lei, esse sacrifício era permitido aos pobres. Mais uma vez, continuando a lição da manjedoura e dos pastores, Lucas sublinha o amor especial de Deus aos pobres. Deixa bem claro que Maria, José e Jesus eram contados entre eles; como, aliás, era toda a população de Nazaré de então! Simeão e Ana representam, em quase os mesmos termos de Zacarias e Isabel, os justos que esperavam a salvação de Deus, o grupo conhecido no Antigo Testamento como os anawim, ou “pobres de Javé”. É de notar-se que, em seu canto, Simeão proclama que ele pode “ir em paz”, simbolizando que as esperanças dos justos da Antiga Aliança agora serão realizadas em Jesus. Como na Visitação, a idosa Isabel, símbolo também dos justos, acolhia com alegria a chegada de Maria com Jesus; agora Simeão e Ana recebem, com a mesma alegria, a novidade da Nova Aliança, concretizada em Jesus. Mais uma vez, Lucas coloca juntos homem e mulher, um tema comum em seus escritos (cf. 4,25-28; 4,31-39; 7,1-17; 7,36-50; 23,55-24,35; At 16,13-34). Assim, Lucas insiste que homem e mulher se colocam juntos diante de Deus. São iguais em dignidade e graça, recebem os mesmos dons e têm as mesmas responsabilidades. Como já fez em 2,19 e fará de novo em 2,50, Lucas frisa que os pais não entendem plenamente ainda o alcance do mistério de Jesus. O versículo 33 insiste que “O pai e a mãe do menino estavam admirados do que se dizia dele”. Mais uma vez, apresentando-nos José e, especialmente, Maria como modelos de fé. Apesar de qualquer revelação que eles tivessem, também precisaram caminhar na escuridão da fé, descobrindo, passo a passo, o que significava ser discípulo de Jesus. Jesus “crescia e se fortalecia, cheio de sabedoria, e o favor de Deus estava com ele”. Mas esse crescimento foi gradual, como com todos nós, e sua família tinha um papel importantíssimo em seu crescimento. Se, como adulto, ele podia nos dar a imagem de Deus como o amoroso Pai, tema tão caro a Lucas, era porque também aprendeu isso pela experiência do pai adotivo, José. Se cresceu na espiritualidade dos anawim, era porque aprendeu isso desde o berço, junto com os pais. Se foi fiel na busca da vontade de Deus, era porque assim se aprendia no ambiente familiar. Em um mundo como o nosso, que desvaloriza a vida familiar, o texto de hoje deve nos animar e desafiar, para que, como Maria e José, na claridade e na escuridão da caminhada, criemos um ambiente onde o amor possa florescer e onde nossos jovens possam aprender, como por osmose, a importância do amor nutrido em uma fé viva, na contramão da nossa sociedade consumista e materialista, que vê na família unida uma ameaça a seus contravalores. Ninguém ignora que hoje a família tradicional enfrenta enormes dificuldades. Diante dos problemas, respostas fáceis não servem. Nem sempre é óbvio o caminho a seguir. Novas dificuldades e novas perguntas exigem um novo olhar da parte da Igreja. Há poucos anos, presenciamos algo, infelizmente, quase inédito na Igreja: um Sínodo sobre a família, em que todos os participantes eram convidados pelo Papa a expressar, abertamente e sem medo, suas opiniões. Como a Igreja precisava disso! Houve divergências, obviamente, pois nem tudo é claro. Há quem prefira ignorar a realidade, fechar os olhos diante de problemas reais que causam, muitas vezes, muito sofrimento no seio das famílias e refugiar-se em chavões legalistas em lugar de procurar descobrir o que Jesus faria em tais situações. O Espírito Santo vai iluminar a Igreja e as famílias se realmente buscarmos juntos as maneiras evangélicas a responder aos novos desafios. Rezemos pelas famílias, pelas que estão bem firmes e pelas desestruturadas, e rezemos pelo Papa Francisco, para que tenha força e saúde para continuar sua grande missão como representante de Jesus compassivo e misericordioso em nossos tempos. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

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