“Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor” (Lc 2,22)

Veja a reflexão bíblica elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o Evangelho de Lucas (2,22-40), proclamado na Festa da Sagrada Família.
… e Deus se fez família
Cristo Rei: um “rei” identificado com os sofredores

Veja a reflexão bíblica elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o Evangelho desta Solenidade de Cristo Rei, narrado em Mateus 25,31-46.
Alimentar a fé no “Deus do medo” é uma blasfêmia

Veja a reflexão bíblica elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o Evangelho deste 33º Domingo do Tempo Comum, narrado em Mateus 25,14-30.
O azeite que alimenta a luz é nossa essência

O azeite que alimenta a luz é nossa essência “As jovens previdentes levaram vasilhas de azeite junto com as lamparinas” (Mt 25,4) Os textos evangélicos destes últimos domingos do ano litúrgico nos convidam a velar, a estar mobilizados, numa atitude de expectativa diante do Deus que sempre está vindo ao nosso encontro. Ele não nos espera no final do caminho para nos submeter a um juízo. Não, Deus está em nós todos os instantes de nossa vida, para que possamos levá-la à plenitude, ou seja, para salvar-nos n’Ele. É preciso estar alerta, porque o tempo passa. Se estamos distraídos e adormecidos, é preciso despertar, porque do contrário perderemos a oportunidade de “entrar na festa de casamento”. Neste domingo, a parábola de Jesus nos convida a não ficarmos sem azeite em nossas humildes lamparinas, para que nossa presença cristificada brilhe como luz potente nos momentos oportunos. É o momento de nos perguntar sobre qual fundamento está assentada nossa esperança (espera ativa). Nas esperas, muitas vezes, nos esquecemos de manter a chama acesa. A parábola das dez virgens nos chama atenção para isso. Talvez porque passamos a vida esperando passivamente, sem saber o que ou quem, e não desfrutamos dos encontros que a mesma vida nos proporciona. Muitas vezes vivemos condicionados pelo anseio de algo que está à frente, de um futuro que sonhamos e que, às vezes, quando chega, não corresponde às nossas expectativas. Nestas esperas indefinidas e estéreis vamos desperdiçando o azeite das lamparinas, vamos nos gastando a nós mesmos na superficialidade e na falta de compromissos. Lida em seu sentido literal, a parábola deste domingo parece cair numa contradição, já que as jovens “sensatas” aparecem como egoístas, quando se negam a partilhar seu azeite com as do outro grupo. Mas toda parábola busca ser provocativa, e não podemos nos limitar a uma leitura literalista da mesma. Trata-se de identificar o objetivo que ela indica. E, neste caso, parece claro que ela procura destacar outra questão: a importância decisiva de ter acesso às reservas de “azeite”, como reserva de “vida” diante da vinda surpreendente do “noivo”. No relato, o azeite é aquilo que alimenta a lamparina, ou seja, que torna possível a luz. Com isso, o eixo da parábola nos remete a esta questão: que é que possibilita, mantém e alimenta a luz em nossas vidas? Qual é o azeite que faz arder a nossa lamparina existencial? Toda pessoa possui reserva abundante de azeite em seu interior, como algo próprio dela e é, portanto, intransferível: é o dom da existência, a vida em seu sentido mais profundo. O azeite não é algo que se possa dar e receber, que é oferecido a partir de fora, como uma coisa objetiva que um homem ou mulher pudessem dispor de si mesmos; o azeite é vida profunda, a mesma vida humana que o homem e a mulher devem cultivar, sendo eles mesmos. Homens e mulheres são “azeite” que ilumina enquanto se consome, fazendo-se luz diante de Deus e dos outros. Este é o distintivo mais precioso do ser humano, sua essência original: o bom azeite que ilumina. Em nossa identidade profunda, “somos luz”, afirmação que o evangelista Mateus põe na boca de Jesus: “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,14). No entanto, com frequência, desconhecemos essa realidade, desconectados dela e, como consequência, permanecemos na obscuridade da ignorância essencial, com a confusão e o sofrimento que isso traz. Nessas condições, faz-se vital esta questão: qual é o “azeite” que alimenta nossa luz e nos permite viver em conexão com ela? A resposta só pode ser esta: a compreensão experiencial daquilo que somos. Para começar, a pessoa interessada pode verificar isso por si mesma a partir de um questionamento elementar: que é o que lhe traz serenidade, paz, plenitude, amor, vitalidade, criatividade…? De onde brota tudo isso e que se mantém mesmo em circunstâncias adversas? Ou, pode-se também fazer o mesmo questionamento sob outro ângulo: o que é que o altera, o fecha, o faz sofrer, o desconecta da vida…? Em resumo: tudo se concentra no fato de vivermos ou não conectados ao que realmente somos. Essa compreensão experiencial é luz; sua carência é obscuridade. O passo seguinte surge por si mesmo: como fazermos a provisão de “azeite”? Conectar-nos continuamente, de maneira consciente, com aquilo que somos, com aquilo que está mais além do corpo, da mente, do psiquismo, do ego… Nas dimensões mais profundas de nosso ser continuam existindo lugares onde a luz permanece brilhando e nos quais o azeite transborda. São esses lugares invisíveis que só percebemos quando vivemos a partir do coração. Tais lugares invisíveis coincidem com as dimensões sadias que nos habitam: sentimentos elevados, desejos nobres, pensamentos oblativos… São sadias porque a sensatez de seu candil vai nos indicando o valor das coisas pequenas que passam quase desapercebidas. São realidades pequenas (como o grão de mostarda, uma medida de fermento ou uma moeda perdida), mas carregadas de eternidade. Quando habitamos estes lugares, o tempo se faz mais denso e palpável, a sensibilidade se torna mais refinada, a visão se amplia e um sentimento de profunda gratidão nos invade. Não estamos nas montanhas inacessíveis ou nos desertos impossíveis; estamos no cotidiano luminoso que não percebemos devidos às pressas estressantes ou pelo esquecimento de buscar o perfeito que não existe. É questão de sensatez de vida. “Há dentro de nós uma chama sagrada coberta pelas cinzas do consumismo, da busca de bens materiais, de uma vida distraída das coisas essenciais. É preciso remover tais cinzas e despertar a chama sagrada. E então irradiaremos. Seremos como um Sol” (L. Boff). No fundo, todos somos as dez jovens da parábola; todos vamos fazendo um caminho de aprendizagem para o amor. Mas, é preciso retomar a questão central: quem sou eu diante de Deus que vem, que está conduzindo minha vida? Tenho azeite o suficiente, sou portador da luz de Deus? Esta é a esperança que Jesus alimentava: Ele queria constituir um povo de pessoas luminosas, uma cidade de pessoas transformadas em luz. Assim
Santos(as) somos todos(as) porque o Divino nos atravessa

Veja a reflexão bíblica elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o Evangelho desta Solenidade de Todos os Santos, narrado em Mateus 5,1-12.
“Nosso Deus sempre vem a nós em festa”

Veja a reflexão bíblica elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o Evangelho deste 28º Domingo do Tempo Comum, narrado em Mateus 22,1-14.
A coerência modelada pelo “sim” e pelo “não”

“Qual dos dois fez a vontade do pai?” (Mt 21,31) Em nosso contexto social e religioso reina a diplomacia do “transitar entre o sim e o não”, ou seja, dissimular, não ser claro nem transparente, deixar as coisas numa certa e intencionada ambiguidade. Quando é pedido um “sim” ou um “não”, costuma-se deixar levar pela “covardia do meio-termo”. De fato, há tantos modos de evitar dar uma resposta clara, de não nos comprometer; até usamos desculpas convincentes para ocultar nossa incoerência. Dizer “sim” ou “não” é rotundo, é radical, é ser coerente. É isso que Jesus pede de seus seguidores(as). O texto do evangelho deste domingo nos convida a entrar no significado do “sim” e do “não” na vivência do seguimento e na nossa vida. Procuremos entender o texto em seu contexto: o povo judeu disse “sim” ao aceitar a Lei de Moisés, mas se negou, através de seus dirigentes, a aceitar a proposta de Jesus. No entanto, os pagãos e os pecadores, que primeiro disseram “não”, ao final são aqueles que aceitaram o Reino, pois se deixaram impactar pelo modo de ser e de agir de Jesus. O “sim” foi sendo modelado a partir do chão da vida e não da Lei. Para Jesus, a fidelidade a Deus não passa pela mera observância da Lei, mas pela prática de um amor incondicional. Ele transforma o modo de nos relacionar com o Pai, fundamentado no modo como Ele mesmo vive, não como o distante Deus do Templo, mas como o Abba próximo e comprometido com a vida. Isto desmonta o pedestal de uma religião superestruturada ao redor das normas e das leis de pureza, de impureza, de sacrifícios como pagamento pelos pecados e que foram determinados pelos hierarcas que imitam a um “deus” distante, frio, a quem é preciso acalmá-lo com oferendas, sacrifícios e mortificações. Para denunciar esta atitude petrificada e dúbia das autoridades religiosas, Jesus utiliza o inteligente e oriental recurso das parábolas. A “parábola dos dois filhos” chamados a trabalhar na vinha do pai está dirigida especialmente à infidelidade dos dirigentes religiosos: dizem, mas não fazem; são fiéis por fora, mas incoerentes por dentro. Jesus nos pede hoje mais valor, mais audácia, mais claridade. Quer que o “sim” esteja acompanhado da obediência. Mas, obediência a quê e a quem? Trata-se de uma obediência filial. O senhor da vinha convida seus próprios filhos para que vão trabalhar nela. Há um filho que tem sempre o “sim” na boca. Encanta-o viver do favor do pai e manter uma boa imagem de filho obediente. Mas, à hora da verdade, não trabalha na vinha; dedica-se a outras coisas. É um hipócrita. O filho que tem um “não” na boca vai e trabalha na vinha. Não se preocupa com sua boa imagem. Trabalha na vinha a partir do anonimato, a partir da não ostentação. Ele é verdadeiramente o filho obediente. O Evangelho deste domingo, usando a imagem de dois filhos chamados pelo pai a trabalhar na vinha, realça o verdadeiro sentido da “obediência”: significa dar audiência a quem merece. Se sabemos que Deus nos mostra um caminho incomparável, então obedecer-lhe é o melhor que podemos fazer; obedecemos por amor e não por medo. Neste caso, a obediência já não pode ser meramente formal, do tipo “sim, senhor”. Ela será um movimento do interior do coração, ela mexerá com o nosso íntimo. A obediência não se restringe a cumprir mandatos, nem a seguir leis, pois ela está profundamente unida ao crer no outro; porque “entregamos o coração”, obedecemos, ou seja, entramos em sintonia com o coração do Outro. Porque “entregamos o coração”, na obediência, nosso coração pulsa no mesmo ritmo do coração de Deus. Tal obediência, inspirada pela obediência de Jesus, não alimenta dependência nem atrofia nossa autonomia; pelo contrário, nos faz mais livres, criativos. A obediência de Jesus brota de um autêntico e pleno exercício de sua liberdade. Por isso, a verdadeira obediência só é possível a partir da autonomia da pessoa e supõe necessariamente o exercício da liberdade. Esta entrega radical só é possível no ambiente do amor e da intimidade. Assim, a obediência pressupõe a liberdade; ainda mais, é uma expressão de ser livre frente à própria liberdade, quando a pessoa reconhece um referente superior que a fundamenta, porque só a partir deste referente chega a encontrar o sentido sobre si mesmo. A originalidade da parábola está na afirmação que Jesus lança aos dirigentes religiosos daquela sociedade: “Eu vos asseguro que os publicanos e as prostitutas entrarão antes de vós no Reino de Deus”. Sem dúvida, as palavras de Jesus soaram não só provocativas, mas diretamente heréticas e inclusive blasfemas aos ouvidos das pessoas “religiosas” que o escutavam. Afirmar que “publicanos e prostitutas” vão entrar na frente no Reino de Deus causa um profundo incômodo nas pessoas que reduzem suas vidas a cumprir leis, ritos, doutrinas, sem nenhuma sensibilidade solidária com aqueles que são colocados à margem. Para a religião, o valor mais importante costuma ser a crença e a norma, não tanto a atitude nem o comportamento ético das pessoas. Para Jesus não importam as crenças e normas, mas o amor e a bondade, ou seja, aquelas atitudes e ações que são coerentes com a verdade do que somos. No nosso “eu profundo”, temos reservas de bondade, de compaixão, de mansidão… e que devem ser ativadas continuamente. Seguramente nem todos os publicanos e nem todas as prostitutas eram exemplos de amor e de bondade, mas Jesus via em seus corações mais verdade, humildade e humanidade que nos egos inflados dos chefes religiosos. Que podia ver Jesus naqueles homens e mulheres desprezados por todos? Talvez sua humilhação. Quem sabe, um coração mais aberto a Deus e mais necessitado de seu perdão; ou ainda, uma compreensão e uma proximidade maior para com os últimos da sociedade. Talvez menos orgulho e prepotência que a dos escribas e sumos sacerdotes. No entanto, hoje e sempre, vivem a verdadeira vontade do Pai aqueles(as) que traduzem em atos o evangelho de Jesus e aqueles(as) que
Gratuidade e generosidade, as atitudes do coração

“Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro” (Mt 20,12) A liturgia deste domingo nos faz encontrar com uma parábola simples, mas reveladora de uma força impactante. Chega até nós como uma Boa Notícia que nos surpreende, nos desloca e pode até provocar em nós algumas reações controvertidas, inclusive resistências. A parábola começa como muitas outras: “O Reino dos Céus é como a história do patrão…”. Ela vai desvelando o modo provocativo de agir deste personagem, o mistério mais profundo de seu ser, a profundidade e a coerência de sua bondade e de seu amor. Diante deste mistério não podemos permanecer indiferentes. A parábola nos coloca diante de um senhor que sai de sua casa e vai, pessoalmente, buscar trabalhadores para sua vinha, em diferentes horários do dia. A seguir vem o núcleo do relato, o fato que muda o tom e provoca reações diferentes. No fim do dia paga a todos o mesmo valor que lhes havia prometido. E, o mais estranho, é que começa a pagar pelos últimos. Tal atitude provoca reações de protesto nos ouvintes. O dono da vinha parece estar sendo muito injusto. Os primeiros que foram chamados trabalharam várias horas a fio e aturaram o calor do dia. Como, então, o senhor pode dar o mesmo salário àqueles que trabalharam apenas uma hora? Parece que estamos diante de uma tremenda “injustiça”. Vivemos a cultura da meritocracia; cada um deve receber segundo seu esforço ou suas conquistas. Quanta importância é dada aos méritos: na vida, na sociedade, na educação, na religião! Para isso existem as homenagens, premiações, reconhecimentos públicos, livros comemorativos, nomeações honoríficas… Escutamos com frequência: “mereceu pelo que fez!”; “depois de tanto esforço realizado, era justo que ganhasse o prêmio!”. Cremos que faz parte da justiça “ganhar quem merece, que trabalhou mais, quem se esforçou mais…”. Inclusive, quando fazemos elogio a uma pessoa que faleceu, destacamos sempre seus méritos: o que ela fez, a qualidade de suas obras, o prestígio que foi conquistando, o trabalho que realizou… A ideia do mérito perpassa todas as dimensões da existência, incluída a dimensão religiosa, onde dá lugar a uma “religião mercantilista”, que conduz facilmente ao farisaísmo: o fiel não só presume de suas boas obras, mas se considera “justo”, acima dos outros, e merecedor dos favores divinos (ou com “direitos” diante de Deus). É a “religião do ego”. Porque não é justo que “os últimos sejam os primeiros”. O evangelho deste domingo revela-se desconcertante, porque rompe o sistema vigente da retribuição dos méritos. O Senhor do Universo não é “deus mesquinho” que estabelecer uma “contabilidade” para premiar ou retribuir seus filhos e filhas. “Os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros”, afirma Jesus com contundência. “Trabalhar na vinha do Senhor” não é questão de quantidade, mas de qualidade. Já é um privilégio o fato de sermos chamados a colaborar e devemos aproveitar da oportunidade que nos é oferecida. Aqui não há lugar para comparação, competição e inveja. Os trabalhadores da primeira hora revelam que sua vida tem um sentido interesseiro. Eles trabalham e, ao final do dia, recebem um salário adequado: o pagamento combinado de um denário, que, na época, correspondia ao preço justo de uma diária. Mas, assim que começam a se comparar com aqueles que trabalharam menos do que eles, ficam insatisfeitos e pensam: “teria sido mais fácil se tivéssemos começado a trabalhar mais tarde”. Assim confessam que, para eles, o trabalho significa um fardo; e o calor, sofrimento. Há um outro aspecto interessante revelado pela mesma parábola. Aqueles de primeira hora que se queixam do mesmo tratamento dado a todos pelo senhor, mostram-se incapazes de compreender a atitude do dono da vinha. Eles não têm direito a exigir, porque foi combinado um “denário” pela diária, mas se sentem mal que os últimos recebam o mesmo tratamento que eles. Com esta parábola, o evangelho pretende fazer saltar pelos ares a ideia de um Deus que reparte seus favores segundo o grau de fidelidade às suas leis, ou pior ainda, segundo seu capricho. Salta à vista a novidade da mensagem de Jesus, uma novidade que pode ser resumida numa palavra: gratuidade. Infelizmente, continuamos cultuando a um “deus mesquinho” e que nos interessava manter. Na realidade, nada temos que “esperar” de Deus; Ele já nos deu tudo desde o princípio; basta nos abrir ao seu dom total, que é já uma realidade, embora ainda não tenhamos descoberto isso. A mensagem da parábola é evangelho, boa notícia: Deus é igual para todos: amor, dom infinito. Devemos proclamar isso para todos, sem exceção. Não podemos ter a pretensão de aplicar a Deus nosso conceito de “justiça religiosa interesseira” que consiste em sermos bons para que Deus nos premie ou, pelo menos, para que não nos castigue. No fundo, o que a parábola deixa transparecer é a queixa daqueles que se sentem “injustiçados” porque foram chamados ao amanhecer e receberam o mesmo valor daqueles que foram chamados ao longo do dia. É a queixa que brota da comparação com os outros e que expressa nossa mentalidade estreita e nossos cálculos mesquinhos. Tal atitude nos revela que não conhecemos o nosso Deus. Relacionamo-nos com Ele como o assalariado com seu empregador, ou seja, mais trabalho, mais soldo. A queixa também revela um pecado de raiz, escondido em todos nós: a inveja. Sentimos inveja porque os outros têm algo que não temos, sentimo-nos prejudicados por Deus e pelo destino. Quanto mais nos comparamos com outros, mais insatisfeitos ficamos. Sentimo-nos injustiçados e bloqueamos nossa própria vida. Poucos sentimentos humanos causam tanto sofrimento e interferências nas relações entre as pessoas como a inveja. Essa emoção negativa só serve para produzir lamúrias, queixas, amarguras naquele que é invejoso e provoca desconcerto e incompreensão naquele que é invejado. A inveja nos corrói por dentro, nos morde, nos faz dobrar sobre nós mesmos. E, ao mesmo tempo, coloca uma barreira entre nós e aqueles a quem invejamos. Assim, nos convertemos
Quando a Cruz deixa de ser “peso morto”

“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16,24) A paixão-morte de Jesus foi, para os primeiros cristãos, o ponto mais impactante de suas vidas. Seguramente, o primeiro núcleo dos evangelhos foi constituído pelo relato da paixão-morte de Jesus. Não nos deve estranhar que, ao relatar o restante de sua vida, se faça a partir dessa perspectiva. Por isso, até quatro vezes Jesus anuncia sua paixão e morte no evangelho de Mateus. Não era preciso ser profeta para dar-se conta de que a vida d’Ele corria sério perigo. O que Ele dizia e o que fazia ia contra a religião oficial, e os encarregados de sua custódia tinham o poder suficiente para eliminar uma pessoa tão perigosa para seus interesses. Até seus familiares mais próximos quiseram impedi-lo, forçando-o a levá-lo para sua casa, porque havia escolhido um caminho de loucos. Pedro se rebela só de imaginar Jesus Crucificado. Não quer vê-Lo fracassado; só quer seguir a Jesus vitorioso e triunfante. Também nossa sociedade, marcada pelo imediatismo, competitividade, busca de resultados e rejeição a todo tipo de fracasso, a presença da Cruz é um escândalo inaceitável. De fato, nela mesma, a Cruz não tem sentido. Se a Cruz é de tal modo exaltada, fazendo com que a vida e a ação de Jesus fiquem reduzidas a ela, então acontece que ela se torna angustiante e aflitiva, incapaz de motivar ao seguimento ou de acender a esperança. Jesus não morre na cruz para buscar o sofrimento, mas por ser consequente até o fim com sua mensagem: o amor incondicional do Deus da vida. Ele não fugiu, não contemporizou, não deixou de anunciar e testemunhar, embora isso o levasse a ser crucificado. Nesse sentido, a Cruz de Jesus não permanece confinada em si mesma; ela se insere no interior da paixão dolorosa do mundo e seu sentido mais profundo reside em sua solidariedade para com todos os crucificados da história. Com a Cruz “descemos” com Jesus até à cruz da humanidade. A solidariedade com os pobres, a fidelidade à vida evangélica nos fazem descer aos porões das contradições sociais e políticas, às realidades inóspitas, aos terrenos contaminados e difíceis, às periferias insalubres das quais todos fogem e onde os excluídos deste mundo lutam por sobreviver. Ali nos encontramos com o Crucificado, identificado com os crucificados da história. Como diz Jon Sobrino, não podemos crer no Crucificado de um modo coerente se não estamos dispostos a fazer descer da Cruz aqueles que estão dependurados nela. A cruz e a morte só são dignas quando são consequência da luta contra a “cruz” e a “morte” impostas às pessoas e quando expressam solidariedade com os crucificados. Aqui há espaço de transformação. A cruz se ilumina quando requer o abraço de uma situação inevitável. Se a enfermidade não tem cura, se a morte de um ser querido nos arrebata, se uma catástrofe natural nos deixa impotentes, se a denúncia profética de uma injustiça acarreta perseguições etc., crescemos quando abraçamos essa cruz e a superamos espiritualmente. A Cruz liberta quando não termina nela mesma, mas na ressurreição. Enquanto a carregamos é leve se ela aponta para um horizonte de esperança. “Vinde a mim, vós todos que estais cansados sob o peso do vosso fardo e eu vos darei descanso… Porque meu jugo é suave e meu fardo é leve” (Mt 11,28-30). Mas, para carregar a Cruz como Jesus, é preciso passar por um processo de esvaziamento de nosso “falso eu” que, continuamente, busca seus interesses, alimenta vaidades, quer ser o centro das atenções, sem nenhuma sensibilidade solidária com os sofredores e vítimas de uma sociedade que violenta e exclui. O chamado de Jesus a “renunciar a si mesmo” é um convite ao descentramento, a não viver girando obsessivamente sobre o próprio eu. Os místicos falam com frequência da “morte do próprio eu”, e da felicidade que brota do interior quando a pessoa se deixa possuir pelo amor de Deus. Há uma forma de viver agarrada ao próprio eu, que é fonte permanente de sofrimento. Muitas vezes, o que mais sofrimento gera na pessoa é precisamente esse modo de viver apegado a ela mesma, buscando cegamente e acima de tudo o próprio êxito, a boa imagem, a aprovação e a estima dos demais. Esse cultivo equivocado do ego inflado se converte em fonte de preocupação e sofrimento. Inconscientemente, a pessoa pode alimentar falsamente seu “ego” e inclusive agigantando-o de forma desproporcional, organizando todo seu entorno a partir dele: minha pátria, meu partido, minha igreja, minha ideologia; o ego vai então ficando cada vez mais seduzido e mais exposto a toda sorte de problemas. A atitude mais saudável está em tomar consciência de que a origem de tanto sofrimento inútil está no indivíduo mesmo, nesse coração cheio de egoísmo, de apegos, de invejas, de falsas ilusões, de sede de poder, de ressentimento, de vazio interior… Da mesma forma que a dor física é um sinal de alerta que avisa que algo funciona mal no organismo, existe todo um conjunto de sofrimentos que revelam modos equivocados de viver: apegos, servidões, contradições e incoerências que impedem um desenvolvimento sadio da pessoa. Este sofrimento não é uma cruz que devemos carregar, mas uma carga que devemos “soltar”, se quisermos viver com o espírito de entrega de Jesus. No que se refere à experiência específica de seguimento, deveríamos retomar o sentido da mensagem de Jesus referente ao “negar-se a si mesmo” para poder viver. “A negação de si” enquanto negação daquilo que nega a vida. “Negar-se a si mesmo”é deixar de identificar-nos com a tirania das mensagens de nossos pequenos “eus”, que se refletem em nossa própria linguagem. “Negar-se a si mesmo” é um conselho sábio: significa negar o que na realidade “não somos”, despertar da ilusão e do engano, deixar de girar em torno de um suposto “eu” que não existe, para viver a unidade de todos e de tudo em Deus e agir assim de um modo coerente na vida. Não somos
Somos Petra/rocha sobre a qual construímos nossa vida

“Tu és pedra, e sobre esta rocha eu construirei minha Igreja” (Mt 16,18) O evangelho deste domingo nos situa num destes momentos em que Pedro, com sua habitual ousadia e rapidez, responde à pergunta que Jesus lhes dirige sobre sua identidade: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Diante da pronta confissão, Jesus o chamou, em hebraico, “Kephas”. O texto grego usa duas expressões: “petros” e “petra”. Simão é por si mesmo um “petros” (pedregulho, cascalho), mas, através de sua confissão messiânica, afirmando que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo, ele realizou uma missão essencial no princípio da Igreja; assim, o mesmo Jesus acolheu esta profissão de fé e lhe chamou bem-aventurado (“makarios”), acrescentando que sobre a rocha da confissão de Pedro (“petra”) edificará sua Igreja. Por ter recebido uma revelação muito alta de Deus, o próprio Simão que em si mesmo é “petros” (pedra movediça, incapaz de ser alicerce) se converte, de maneira muito profunda, em Petra/rocha firme, revelando-se o alicerce da nova comunidade. O texto distingue e vincula assim duas palavras fundamentais: a) Petros (Pedro masculino), pedra-cascalho do caminho; b) Petra (rocha, feminino), na qual se expressa a revelação do Pai (“não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu”). A realidade de Pedro está vinculada à sua história familiar, ao mundo conhecido ao qual pertence, à sua personalidade: é Simão (“petros”). No entanto, o olhar intenso e profundo de Jesus vai mais além, “perfura” essa realidade, descobrindo em Pedro a sua verdadeira identidade para o qual foi chamado a ser, ao se abrir à Graça: é “Petra” (Cefas). A missão para a qual foi chamado a ser, Pedro ainda não a conhece, mas é um dom que lhe foi dado já desde antes de nascer. A acolhida de Jesus se expressa na palavra de verdade oferecida e não imposta, uma palavra que o leva a dialogar consigo mesmo e a aprofundar: “Tu és ‘petros’ e sobre esta ‘Petra’ construirei a minha Igreja”. Pedro aparece, então, como o primeiro discípulo que manifesta sua fé pessoal em Jesus. E o evangelho faz um convite para que cada pessoa, cada seguidor(a), expresse para si mesmo qual é sua fé em Jesus. Como consequência, essa mesma fé, que aflorou na primeira comunidade cristã, é a que emerge e se prolonga, ao longo dos séculos, em cada seguidor(a) de Jesus, com sua fortaleza (petra-rocha) e, ao mesmo tempo, com sua fragilidade (petros-pedra); sem dogmatismos nem doutrinas, mas com a modesta manifestação de alguém que se sente interpelado e animado pelo modo como Jesus viveu e pelos estímulos que Ele lhe deu para caminhar na direção da nova humanidade. Por isso, continua sendo decisiva a pergunta de Jesus: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. No entanto, não basta ter uma ideia clara sobre Ele ou um conceito teológico apurado, mas viver uma relação que se expressa como adesão a um estilo de vida cristificado. O seguimento de Jesus não é questão de razão ou um profundo conhecimento da cristologia; é questão de sedução, de atração, de paixão… Só podemos responder à sua pergunta com o coração. Se a pessoa de Jesus – seu modo de ser e viver – não provoca um impacto afetivo em nosso interior, o seguimento vai se tornando estéril e sem maiores implicações na vida. A pergunta sobre “quem é Jesus para nós” é fundamental para radicalizar nosso seguimento, e é fundamental para entendermos a nós mesmos; cada um precisa se situar de maneira única e original diante da mesma pergunta feita a todos. Em muitas ocasiões as perguntas nos ajudam a avançar mais que as nossas próprias respostas. As “perguntas existenciais” são provocativas e mobilizadoras, pois sacodem nossas vidas e despertam os recursos mais nobres que carregamos em nossa interioridade. Por isso, a pergunta por Jesus se volta a nós mesmos; perguntar por Jesus é perguntar por nós mesmos. Nesta rede de perguntas e respostas o que está em jogo não é tanto a identidade de Jesus, mas a nossa identidade de seguidores(as) seus(suas). No centro das perguntas que nos fazemos na vida vão surgindo respostas com as quais vamos configurando nossa existência, identificada com a vida de Jesus. Mas hoje, talvez num gesto de ousadia e atrevimento, poderíamos inverter as perguntas. No Evangelho, é Jesus quem pergunta e nós respondemos; agora somos nós que fazemos as perguntas a Jesus. Se Ele está interessado em saber o que os outros pensam dele, também nós estamos interessados em saber o que ele pensa de nós: “Senhor, que dizes, que pensas de mim?” “Senhor, que pensas e dizes de mim como batizado(a) e teu(tua) seguidor(a)?” “Sou realmente essa imagem do(a) homem/mulher novo(a) nascido(a) de tua Páscoa?” “Senhor, que pensas e dizes de mim como: jovem? adulto? cristão/ã? trabalhador(a)…?” “Senhor, Tu, que pensas de mim como pessoa? Porque tu me deste a vida não para que a conserve atrofiada, mas para que me realize humanamente e chegue a ser uma pessoa livre, madura e comprometida. Tenho amadurecido no amor, chegando a ser essa pessoa que Tu esperas de mim?” Talvez, de início, possamos sentir um pouco de medo da verdade que Ele dirá sobre nós. Mas, pensando bem, podemos concluir que Jesus pensa melhor sobre nós que nós sobre Ele. E se nos dá vergonha responder às suas perguntas, certamente que Jesus não sentirá vergonha alguma em responder às nossas. Ao responder nossas perguntas, Jesus nos faz ter acesso àquilo que é o fundamento, a rocha sobre a qual construímos nossa vida. Assim como Ele respondeu, afirmando a verdadeira identidade de Pedro, podemos afirmar que “petros” é o que em nós é fragilidade, incoerência, vulnerabilidade, limitação… “Petra”, ao contrário, é o que é sólido, firme, consistente, sobre o qual fundamentamos a vida. “Carregamos um tesouro em vaso de barro” (2Cor 4,7). Como seres humanos, vivemos a integração de “petros” e “petra”. Nossa própria interioridade é a rocha consistente e firme, bem talhada e preciosa que temos,