Festa da Sagrada Família

“Ele crescia cheio de sabedoria, e o favor de Deus estava com ele”Lc 2,22-40 O Evangelho na Festa da Sagrada Família é tirado dos primeiros capítulos de Lucas. Mais uma vez, encontramos um tema muito importante: o encontro entre a Antiga e a Nova Aliança. Durante o Advento, Lucas fazia um paralelo entre Isabel, Zacarias e João Batista, e Maria, José e Jesus. No texto de hoje, os justos da Antiga Aliança são representados pelas figuras de Simeão e Ana, profeta e profetiza. Outros dois temas de Lucas também se destacam nesse relato: o Espírito Santo e a opção pelos pobres. Lucas destaca que os pais de Jesus foram ao Templo, conforme a Lei (cf. Lv 12,8), para oferecer o sacrifício (dois pombinhos). Na Lei, esse sacrifício era permitido aos pobres. Mais uma vez, continuando a lição da manjedoura e dos pastores, Lucas sublinha o amor especial de Deus aos pobres. Deixa bem claro que Maria, José e Jesus eram contados entre eles; como, aliás, era toda a população de Nazaré de então! Simeão e Ana representam, em quase os mesmos termos de Zacarias e Isabel, os justos que esperavam a salvação de Deus, o grupo conhecido no Antigo Testamento como os anawim, ou “pobres de Javé”. É de notar-se que, em seu canto, Simeão proclama que ele pode “ir em paz”, simbolizando que as esperanças dos justos da Antiga Aliança agora serão realizadas em Jesus. Como na Visitação, a idosa Isabel, símbolo também dos justos, acolhia com alegria a chegada de Maria com Jesus; agora Simeão e Ana recebem, com a mesma alegria, a novidade da Nova Aliança, concretizada em Jesus. Mais uma vez, Lucas coloca juntos homem e mulher, um tema comum em seus escritos (cf. 4,25-28; 4,31-39; 7,1-17; 7,36-50; 23,55-24,35; At 16,13-34). Assim, Lucas insiste que homem e mulher se colocam juntos diante de Deus. São iguais em dignidade e graça, recebem os mesmos dons e têm as mesmas responsabilidades. Como já fez em 2,19 e fará de novo em 2,50, Lucas frisa que os pais não entendem plenamente ainda o alcance do mistério de Jesus. O versículo 33 insiste que “O pai e a mãe do menino estavam admirados do que se dizia dele”. Mais uma vez, apresentando-nos José e, especialmente, Maria como modelos de fé. Apesar de qualquer revelação que eles tivessem, também precisaram caminhar na escuridão da fé, descobrindo, passo a passo, o que significava ser discípulo de Jesus. Jesus “crescia e se fortalecia, cheio de sabedoria, e o favor de Deus estava com ele”. Mas esse crescimento foi gradual, como com todos nós, e sua família tinha um papel importantíssimo em seu crescimento. Se, como adulto, ele podia nos dar a imagem de Deus como o amoroso Pai, tema tão caro a Lucas, era porque também aprendeu isso pela experiência do pai adotivo, José. Se cresceu na espiritualidade dos anawim, era porque aprendeu isso desde o berço, junto com os pais. Se foi fiel na busca da vontade de Deus, era porque assim se aprendia no ambiente familiar. Em um mundo como o nosso, que desvaloriza a vida familiar, o texto de hoje deve nos animar e desafiar, para que, como Maria e José, na claridade e na escuridão da caminhada, criemos um ambiente onde o amor possa florescer e onde nossos jovens possam aprender, como por osmose, a importância do amor nutrido em uma fé viva, na contramão da nossa sociedade consumista e materialista, que vê na família unida uma ameaça a seus contravalores. Ninguém ignora que hoje a família tradicional enfrenta enormes dificuldades. Diante dos problemas, respostas fáceis não servem. Nem sempre é óbvio o caminho a seguir. Novas dificuldades e novas perguntas exigem um novo olhar da parte da Igreja. Há poucos anos, presenciamos algo, infelizmente, quase inédito na Igreja: um Sínodo sobre a família, em que todos os participantes eram convidados pelo Papa a expressar, abertamente e sem medo, suas opiniões. Como a Igreja precisava disso! Houve divergências, obviamente, pois nem tudo é claro. Há quem prefira ignorar a realidade, fechar os olhos diante de problemas reais que causam, muitas vezes, muito sofrimento no seio das famílias e refugiar-se em chavões legalistas em lugar de procurar descobrir o que Jesus faria em tais situações. O Espírito Santo vai iluminar a Igreja e as famílias se realmente buscarmos juntos as maneiras evangélicas a responder aos novos desafios. Rezemos pelas famílias, pelas que estão bem firmes e pelas desestruturadas, e rezemos pelo Papa Francisco, para que tenha força e saúde para continuar sua grande missão como representante de Jesus compassivo e misericordioso em nossos tempos. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
4º Domingo do Advento

“Faça-se em mim segundo a tua palavra”Lc 1,26-38 Maria de Nazaré é a terceira figura importante nas leituras do Tempo do Advento. O texto de hoje é riquíssimo e mereceria um tratamento muito mais pormenorizado. É essencial para entendermos a figura de Maria tal como apresentada nas Escrituras. No esquema de Lucas, a anunciação à Maria se contrapõe àquela feita a Zacarias (Lc 1,5-22). Naquele relato, é feita a um sacerdote, idoso, no Templo. No texto de hoje, a uma moça, jovem, no dia a dia de um lugarejo, Nazaré. O sacerdote não acredita e fica mudo, simbolizando que os ritos do Templo não têm mais nada a dizer. Maria acredita e é proclamada “bendita entre as mulheres” (1,42). Infelizmente, muitas vezes, este trecho é interpretado de maneira a nos apresentar uma Maria totalmente passiva, sem expressão. Ideologicamente, foi usado para insistir que as mulheres, no mundo e na Igreja, deveriam ficar passivas e sem expressão. Tal interpretação distorce totalmente o que Lucas quer nos dizer. Maria, embora não entenda plenamente (Lc 1,29; 2,19; 2,50ss), aceita não somente ser instrumento da vontade de Deus, mas ser protagonista da realização desse plano divino. A frase “faça-se em mim” não deve ser interpretada de uma maneira passiva, mas como o grito de entusiasmo de quem quer ser colaboradora na realização da visão que Deus tem para o mundo. Não se refere somente ao fato de engravidar (isso seria muito pouco), mas à grande visão de Deus para os seus filhos e filhas. Um pouco adiante Lucas vai mostrar o alcance dessa frase, quando, na boca de Maria, ele coloca o grande canto de libertação, que é o Magnificat. Não é possível entender a profundidade da frase de Maria, na Anunciação, sem ler também o Magnificat (1,46-55). O que Maria quer quando ela pede que seja feita nela a vontade de Deus? Ela quer a realização da viravolta no mundo, que é o advento do Reino de Deus, quando Deus vai “dispersar os homens de pensamento orgulhoso; precipitar os poderosos dos seus tronos e exaltar os humildes; cobrir de bens os famintos e despedir os ricos de mãos vazias” (1,51-53). Em um mundo onde a realidade é a prepotência e a violência dos poderosos contra pobres e indefesos, e onde as mulheres, muitas vezes, estão na liderança da resistência, Lucas nos apresenta Maria como protagonista da concretização do Reino. Como ela, quem realmente quer receber o Salvador no Natal deve comprometer-se, de uma maneira concreta, na construção de um mundo novo, de justiça e fraternidade, tão contrário ao que vivemos hoje, em tantos lugares, e que Maria canta no primeiro capítulo de Lucas. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
3º Domingo do Advento

“Aplainai o caminho do Senhor”Jo 1,6-8.19-28 Novamente a figura central do Evangelho deste domingo do Advento é o Precursor, João Batista. Desta vez, em um texto tirado do Evangelho do Discípulo Amado, o Batista é apresentado como testemunha de Jesus. Ele assume a identidade de quem veio gritar “Aplainai o caminho do Senhor”, usando uma frase tirada de Isaías (40,3). No texto de Isaías, essa frase é usada para preparar o Novo Êxodo, a volta dos exilados do cativeiro na Babilônia, no início do chamado “Livro da Consolação de Israel” (Is 40-55). A mensagem de João Batista também prepara o povo para um evento de grande alegria: a vinda do Messias, Jesus de Nazaré! Nesse texto, já no primeiro capítulo do Evangelho de João, entram em cena os que serão mais tarde os adversários de Jesus: as autoridades dos judeus. Embora, às vezes, no Quarto Evangelho, o termo “os judeus” designe o povo de Israel em geral (Jo 3,25; 4,9.22, etc.), aqui, como na maioria das vezes, o termo significa os representantes de um mundo que não compreende e, eventualmente, hostiliza a Jesus. Nesse sentido, ele caracteriza especialmente as autoridades religioso-políticas do judaísmo da época: os sacerdotes, fariseus e escribas. Atrás do texto, também dá para entrever a tensão que existia dentro da comunidade do Discípulo Amado entre os seguidores de João Batista e os de Jesus. Por isso a insistência no texto em informar que João “não era o Cristo”, mas testemunha do fato de que Jesus era o enviado de Deus. No mais, o Evangelho retoma a mensagem do domingo passado (Mc 1,1-8), um convite para que todos nós preparemos o caminho do Senhor. “Aplainai o caminho do Senhor” significa facilitar a sua chegada entre nós, tirando de nossa vida tudo que possa impedir um encontro real com Jesus. No nível individual, aqui há um convite para uma conversão pessoal, que é um processo contínuo na vida de todos nós. Mas também há o desafio para que nos empenhemos na luta contra tudo o que possa diminuir a vida humana, tudo o que causa sofrimento a nossos irmãos e irmãs. Pois o pecado que existe no mundo não é somente pessoal, mas também social, muito mais do que a soma dos erros individuais. O pecado social se manifesta nas estruturas sociais injustas e opressoras, que tiram de tanta gente a dignidade dos filhos de Deus. A voz do Precursor, como a de Isaías, quinhentos anos antes dele, nos desafia para que nossa conversão pessoal também se manifeste no esforço para a construção de um mundo mais digno, justo, humano e fraterno, o mundo que Jesus veio estabelecer. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
2º Domingo do Advento

“Começo do Evangelho de Jesus, o Messias, o Filho de Deus”Mc 1,1-8 O Evangelho de Marcos foi o primeiro dos quatro evangelhos canônicos a ser escrito, provavelmente pelo ano 70, na Síria ou em Roma. Marcos tem o grande mérito de ser o criador desse gênero literário, hoje tão conhecido, chamado “evangelho”, o que literalmente significa “boa-nova” ou “boa notícia”. Porém, no primeiro versículo de sua obra, quando ele se refere ao “começo do Evangelho”, ele não diz sobre o gênero literário, mas à própria Boa-Nova, que é a mensagem de salvação em Jesus, “o Messias, o Filho de Deus”. Pois o escrito é somente uma das maneiras viáveis para comunicar a experiência dessa boa notícia, tanto que Paulo, que nunca leu um dos quatro Evangelhos (pois morreu pelo ano 66,), pôde falar aos Gálatas do “Evangelho por mim anunciado” (Gl 1,11). Por isso devemos sempre levar em conta que os quatro Evangelhos do Novo Testamento não se propõem a nos dar uma biografia de Jesus, nem de fazer um relatório sobre a vida dele. Eles são a “boa notícia” de Jesus. Dessa forma, a pergunta que devemos ter em mente ao ler ou ouvir um trecho evangélico não é “aconteceu assim ou não?”, mas “onde está a boa notícia de Jesus neste texto?”. Como parte de nossa preparação para o Natal, o texto de hoje nos apresenta a pessoa e a mensagem de um dos grandes personagens do Advento: João Batista. Usando uma mistura de citações do Antigo Testamento, tiradas do profeta Malaquias (3,20), Isaías (40,3) e Êx (23,20), Marcos enfatiza o papel de João como Precursor, aquele que prepara o caminho do Senhor. O fato de João estar vestido com pele de camelo faz uma ligação entre ele e o “pai do profetismo”, Elias. Assim, João é a última voz profética da Antiga Aliança, anunciando a chegada da Boa-Nova na pessoa e atividade de Jesus de Nazaré. O batismo de João era um rito conhecido naquele tempo. Significava o reconhecimento dos pecados e a conversão aos caminhos de Deus. Embora o Advento não seja primariamente tempo de penitência, mas de preparação, o texto nos lembra de que não será possível a preparação para a vinda do Senhor no Natal sem que passemos pelo processo de arrependimento, conversão e experiência da gratuidade de Deus no perdão dos pecados. Mas a ênfase mesmo está na aceitação não somente do batismo de João, mas de quem viria depois dele, literalmente como ele disse, “atrás de mim”. A expressão, que denota a dignidade, como num cortejo, põe toda a importância na pessoa que vem, pois tirar as sandálias era serviço de um escravo. Jesus é o mais importante, pois, com a vinda dele, inaugura-se o tempo de salvação, esperado naquela época, por muitas pessoas e grupos (como os essênios), somente para o fim dos tempos. A voz de João ressoa de novo hoje, nos primeiros anos do novo milênio, convidando a todos nós, pessoalmente e em comunidade, Igreja e sociedade, a preparar os caminhos do Senhor, endireitando suas veredas. A preparação para o Natal implica a necessidade de um empenho de todos para que os males, individuais ou sociais, sejam tirados, para que o Natal seja experiência real da vinda do Salvador e não somente uma festinha, vazia de sentido. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
1º Domingo do Advento

“Digo a todos: fiquem vigiando!”Mc 13,33-37 Com a celebração do 1º Domingo do Advento, a Igreja inicia um novo ano litúrgico, um ciclo que celebra todos os principais eventos da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Advento é um tempo, não tanto de penitência, mas de expectativa e preparação para a vinda do Senhor no Natal. Três figuras muito importantes da liturgia do Advento são o profeta Isaías; o Precursor, São João Batista; e Maria de Nazaré, a Mãe do Senhor. Um tema constante no Advento é o da vigilância. “O que digo a vocês digo a todos: fiquem vigiando”. Obviamente, não no sentido de vigiar os outros, mas da vigilância evangélica, uma atitude constante de compromisso com o seguimento de Jesus. É preciso vigiar a nós mesmos, para que não deixemos de pôr em prática as mesmas atitudes e opções concretas de Jesus de Nazaré. É vigiar para que façamos sempre o que Jesus faria se estivesse no meio de nós hoje. É vigiar para que o comodismo não tome conta de nós, reduzindo nossa vivência cristã às práticas externas, que são indispensáveis, mas que seja uma concretização nas nossas realidades das atitudes e ações de Jesus de Nazaré. O convite à vigilância não é somente pessoal, mas também comunitário. Pois, com o decorrer dos anos, é possível que tanto os indivíduos como as instituições eclesiais (paróquias, congregações religiosas, pastorais específicas, movimentos de espiritualidade e até as próprias Igrejas) caiam na rotina cômoda, perdendo de vista a finalidade última da sua atuação, o Reino, e contentando-se com uma prática meramente externa de uma moral ou ética. O recente Sínodo ouviu muitas vezes do Papa um apelo nesse sentido, para que os prelados (e, na verdade, todos nós) saíssem de suas “torres de marfim” para sentirem as alegrias e as dores, as angústias e experiência do povo em geral. O texto de hoje convida a todos nós para que façamos do discernimento um modo de viver, sempre vigilantes para que nosso modo de ser, atuar e falar esteja coerente com as opções concretas de Jesus de Nazaré, em favor do Reino de Deus, da justiça, solidariedade e fraternidade. Daqui a quatro semanas, celebraremos o Natal. Para muitos, será simplesmente uma festa comercial ou uma oportunidade de festejar e alegrar-se. Para outros, mergulhados na miséria e na fome, endêmicas em muitas regiões do planeta, será sem sentido. A qualidade de nosso Natal dependerá, em grande parte, da qualidade de nosso Advento. Se fizermos desse tempo um verdadeiro momento de discernimento, avaliação, vigilância e renovação, então teremos realmente um Natal, um renascimento de Jesus na nossa vida. Caso contrário, somente teremos uma festa no dia 25 de dezembro, que logo acabará e passará sem deixar rastros, a não ser dívidas a pagar ou ressacas. Atendamos o convite de Jesus! Façamos do Advento deste ano um tempo de avaliação, de oração, de renovação e teremos a imensa alegria de um verdadeiro Natal, um reencontro verdadeiro com Jesus, o Emanuel, o Deus-Conosco! “O que digo a vocês digo a todos: fiquem vigiando.” Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
34º Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

“Quando fizeram isso a um dos menores dos meus irmãos, foi a mim”Mt 25,31-46 Hoje encerramos as celebrações dominicais do ano litúrgico com a Solenidade de Cristo Rei. O evangelho deste domingo é o famoso texto de Mateus 25, sobre o Juízo Final. Nesse texto, enfatiza-se a sorte eterna dos que optaram ou não pela vivência da “justiça do Reino dos Céus”. O primeiro discurso do Evangelho, o Sermão da Montanha, enfatizou que quem vivesse essa justiça seria perseguido (5,12); o segundo discurso, o missionário, insistiu que os discípulos não deveriam ter medo diante dessas perseguições, sofrimentos e rejeição (10,23.28.31); o terceiro, as parábolas do Reino, ensinou a paciência e a perseverança diante do lento crescimento do Reino e da fraqueza da comunidade (13); o quarto, o discurso eclesiológico (ou da comunidade da Igreja), traçou as características da comunidade dos que procuram essa justiça. Agora, o último discurso, o escatológico (ou do fim último das coisas), mostra que a vivência dessa justiça será o critério de Deus para o julgamento final. Ilustra-se, de uma maneira viva, o sentido da frase lapidar do Sermão da Montanha: “Se a justiça de vocês não for superior à dos doutores da lei e dos fariseus, não entrarão no Reino do Céu” (5,20). Jesus, o Rei, não pergunta sobre o cumprimento das leis de ritual e de pureza, tão caras aos doutores da lei e fariseus, mas sobre a prática da justiça do Reino, diante do sofrimento de tanta gente: famintos, sedentos, migrantes, esfarrapados, doentes e presos. A prática de solidariedade com os oprimidos é a única prova de uma verdadeira fé em Jesus e do seguimento fiel dele. Esse texto não pode deixar de nos questionar, vivendo como estamos em uma sociedade cada vez mais excludente. Celebramos hoje Jesus como “Rei do Universo”. Mas Ele se torna rei da nossa vida somente conforme fazemos essa opção real pelos oprimidos e vivenciamos “a justiça do Reino do Céu”, tema central do Evangelho de Mateus. Em um mundo que nos apresenta tantas outras opções “régias”, ou seja, opções que regem nossa vida e manifestam o que são nossos valores últimos, o texto nos leva a verificar se realmente Jesus é o Rei de nossa vida; se é o Evangelho dele que nos rege ou se o título não passa de mais um dos rótulos vazios, sem consequências práticas, tão queridos dos arautos de uma religião intimista, sentimentalista e individualista, tão em voga em nossos tempos. Será que a utopia do Reino de Deus, o seguimento de Jesus até a Cruz, a prática da justiça do Reino são os elementos que norteiam as nossas práticas, individuais e comunitárias? Se não, então Jesus Cristo ainda não se tornou o Rei de nosso universo pessoal e eclesial. É o questionamento do texto de hoje, que nos lembra que Jesus não é rei conforme os padrões deste mundo, mas o Rei pobre e justo, tão esperado pelos oprimidos de todos os tempos. A proposta de Jesus para a sociedade não é a confirmação de uma estrutura piramidal, conforme os modelos históricos, mas sua mudança radical para que o mundo seja regido por princípios de solidariedade e justiça, de partilha e fraternidade. Ele é Rei, no sentido da esperança dos “pobres de Javé” do Antigo Testamento, tão bem retratada pelo profeta Segundo Zacarias: “O seu Rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumento, num jumentinho, filho de uma jumenta. Ele destruirá os carros de guerra de Efraim e os cavalos de Jerusalém, quebrará o arco de guerra. Anunciará paz a todas as nações, e o seu domínio irá de mar ao mar, do Rio Eufrates até os confins da terra” (Zc 9,9ss). Jesus será o nosso rei conforme vivermos esses valores da verdadeira shalom, que inclui a paz, a não violência, a partilha e a justiça. A crise atual no sistema financeiro mundial, com suas cifras astronômicas de apoio a bancos e banqueiros falidos, enquanto somente migalhas são destinadas aos bilhões de famintos e sofridos do mundo, demonstra bem como a sociedade atual é dominada pelos interesses do lucro e do capital, mesmo em países que se dizem cristãos. Estamos longe de um mundo onde Jesus Cristo seja realmente o Rei, regido pelos valores que Jesus encarnou em sua pessoa, projeto, ensinamento e opções, e que nós herdamos como discípulos, discípulas dele. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
33º Domingo do Tempo Comum

“Muito bem, empregado bom e fiel”Mt 25,14-30 O Evangelho de hoje situa-se no quinto e último grande discurso do Evangelho de Mateus, o “discurso escatológico”, ou aquele que trata do fim último das coisas. O tema básico do discurso é a vigilância, ilustrada pela leitura dos sinais dos tempos (24,1-44), a parábola do empregado responsável (24,45-51), a das virgens prudentes e imprudentes (25,1-13), e que vai terminar no próximo domingo, Festa de Cristo Rei, com o texto sobre o Juízo Final (25,31-46). O texto de hoje versa sobre os empregados e os talentos. No tempo de Jesus, um talento era uma soma considerável de dinheiro. Hoje, no contexto da parábola, pode ser interpretado em termos de dons recebidos de Deus. O trecho demonstra que o importante é arriscar-se e lançar-se à ação em prol do crescimento do Reino de Deus, para que os dons que recebemos de Deus possam crescer e frutificar (de forma alguma, deve-se interpretar o texto ao pé da letra, como se ela tratasse de investimentos e lucros financeiros, pois ele é uma parábola, que é uma comparação que usa imagens e símbolos conhecidos). Jesus confiou à comunidade cristã a revelação dos segredos do Reino e a revelação de Deus como o “Abbá”, ou querido Pai. Esse dom é um privilégio, mas também um desafio e uma responsabilidade. Nem a comunidade cristã nem o cristão individual podem guardar para si essa riqueza. Embora carreguemos “esse tesouro em vasos de barro” (2Cor 4,7), como diz São Paulo, temos de partir para a missão, para que o maior número possível chegue a essa experiência de Deus e do Reino. Não é suficiente que estejamos preparados para o encontro com o Senhor (mensagem do domingo passado), o outro lado da medalha é a atividade missionária, que faz com que o Reino de Deus cresça, mediante o testemunho da nossa prática da justiça. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
32º Domingo do Tempo Comum

“Vigiai e estai preparados, porque, na hora em que não pensais, virá o Filho do homem”Mt 25,1-13 Nos capítulos 24 e 25 de seu Evangelho, Mateus apresenta o quinto e último discurso de Jesus. Para compô-lo, o evangelista reelaborou o chamado “discurso escatológico” de Marcos (cf. Mc 13) e ampliou-o com três parábolas e uma impressionante descrição do Juízo Final. Enquanto em Marcos, o “discurso escatológico” se refere especialmente aos sinais que precederão a destruição do Templo de Jerusalém, em Mateus, o mesmo discurso aborda sobretudo o tema da segunda vinda de Jesus e a atitude com que os discípulos devem preparar essa vinda. Essa mudança de perspectiva tem a ver com as necessidades da comunidade de Mateus… Estamos nos fins do século I (década de 80). Já tinha passado a “febre escatológica”, e os cristãos já não esperavam a vinda iminente de Jesus. Passado o entusiasmo inicial, a vida de fé dos crentes tinha arrefecido, e a comunidade tinha-se instalado na rotina, no comodismo, na facilidade… Era preciso algo que abanasse os discípulos e os despertasse de novo para o compromisso com o Evangelho. Nesse contexto, Mateus descobre que as palavras do “discurso escatológico” de Jesus encerram uma poderosa interpelação. Então compõe, com elas, uma exortação dirigida aos cristãos. Fundamentalmente, lembra-lhes de que a segunda vinda do Senhor está no horizonte final da história humana, mas, enquanto esse acontecimento não se realiza, os crentes são chamados a viver com coerência e entusiasmo sua fé, fiéis aos ensinamentos de Jesus e comprometidos com a construção do Reino. A isso a catequese primitiva chama “estar vigilantes, à espera do Senhor que vem”. A parábola que hoje nos é proposta alude aos rituais típicos dos casamentos judaicos. De acordo com os costumes, a cerimônia do casamento começava com a ida do noivo à casa da noiva, para levá-la para sua nova casa. Normalmente, o noivo chegava atrasado, pois antes devia discutir com os familiares da noiva os presentes que ofereceria à família de sua amada. As negociações entre as duas partes eram demoradas e tinham uma importante função social… Os parentes da noiva deviam mostrar-se exigentes, sugerindo, dessa forma, que a família perdia algo de muito precioso ao entregar a menina a outra família. Por outro lado, o noivo e seus familiares ficavam contentes com as exigências, pois, dessa forma, mostravam aos vizinhos e conhecidos o valor e a importância daquela mulher que entrava na sua família. Os que testemunhavam o acordo estavam prontos para ir avisar a noiva de que as negociações estavam encerradas, e o noivo iria chegar… Enquanto isso, a noiva, vestida a preceito, esperava na casa de seu pai que o noivo viesse a seu encontro. As amigas da noiva esperavam também, com as lâmpadas acesas, para acompanhar a noiva, entre danças e cânticos, até sua nova casa. Era aí que tinha lugar a festa do casamento. É esse pano de fundo que a nossa parábola supõe. O alegre encontro com o “Noivo” A “Parábola das dez jovens”, tal como saiu da boca de Jesus, era uma “parábola do Reino” (v. 1: “O Reino dos Céus pode comparar-se…”). O Reino de Deus é, aqui, comparado a uma das celebrações mais alegres e mais festivas que os israelitas conheciam: o banquete de casamento. As dez jovens representam a totalidade do povo de Deus, que espera ansiosamente a chegada do Messias (o noivo)… Uma parte desse povo (as jovens previdentes) está preparada e, quando o Messias finalmente aparece, pode entrar a fazer parte da comunidade do Reino; outra parte (as jovens descuidadas) não está preparada e não pode entrar na comunidade do Reino. A parábola original constituía, pois, um apelo aos israelitas, no sentido de não perderem a oportunidade de participarem na grande festa do Reino. Algumas dezenas de anos depois, Mateus retomou a mesma parábola, adaptando-a às necessidades da comunidade. A parábola foi, então, convertida numa exortação a estar preparado para a vinda do Senhor, a qual pode acontecer no momento menos esperado. A festa é, nesse novo contexto, a segunda vinda de Jesus. O noivo que está para chegar é Jesus. As dez jovens representam a Igreja que, experimentando na história as dificuldades e as perseguições, anseia pela chegada da libertação definitiva. Uma parte da Igreja (as jovens previdentes) está preparada, vigilante, atenta e, quando o “noivo” chega, pode entrar no banquete da vida eterna; a outra parte (as jovens descuidadas) não está preparada, porque apostou nos valores do mundo, guiou sua vida por eles e esqueceu os valores do Reino. O que quer dizer, na perspectiva de Mateus, “estar preparado para acolher a vinda do Senhor”? Significa, escutar as palavras de Jesus, acolhê-las no coração e viver de forma coerente com os valores do Evangelho… “Estar preparado” refere-se a, fundamentalmente, viver na fidelidade aos projetos do Pai e amar os irmãos até ao dom da vida, em todos os instantes de nossa existência. Com essa parábola, a mensagem que Mateus pretende transmitir aos cristãos de sua comunidade (e, no fundo, aos membros de todas as comunidades cristãs de todos os tempos e lugares) é esta: nós, os crentes, não podemos afrouxar a vigilância e enfraquecer nosso compromisso com os valores do Reino.Com o passar do tempo, nossas comunidades têm tendência a instalar-se no comodismo, no adormecimento, no descuido, numa vida de fé que não compromete, numa religião de “meias tintas” e de facilidade, num testemunho pouco empenhado e pouco coerente… É preciso, no entanto, que nosso compromisso com Jesus se renove a cada dia. A certeza de que Ele vem outra vez deve impulsionar-nos a um compromisso ativo com os valores do Evangelho, na fidelidade aos ensinamentos de Jesus e ao compromisso com o Reino. Adaptado de Dehonianos Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
30º Domingo do Tempo Comum

“Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas”Mt 22,34-40 No Evangelho deste domingo, temos mais uma das controvérsias do capítulo 22; desta vez, com os fariseus. De novo, a pergunta feita por um legista não é para descobrir a verdade, mas para armar uma cilada para Jesus. O verbo traduzido aqui como “para pô-lo à prova” é o mesmo usado no versículo 8 (“armar cilada”). O que seria o maior mandamento era discutido entre as diversas escolas rabínicas da época. Para alguns, o maior era o amor a Deus; para a maioria, era a observância do sábado. O Antigo Testamento enfatiza a importância de amar a Deus e de amar o próximo (Lv 19,18 e Dt 6,5). A originalidade de Jesus está no fato de Ele assemelhar um ao outro, dando-lhes igual importância e, sobretudo, na simplificação e concentração da Lei (que tinha 613 mandamentos) nesses dois elementos. A colocação de Jesus exige uma forma correta de amor próprio: não de egoísmo, mas de autorrespeito. A ligação íntima dos dois mandamentos não é atestada antes de Jesus e marca um avanço moral importante. Mais uma vez, Jesus desloca o eixo da questão, como fez no Evangelho do último domingo, na passagem sobre o imposto a César. Desta vez, Ele se recusa a entrar em discussões fúteis sobre leis, para enfatizar o papel central do amor, tanto a Deus como ao próximo. É importante frisar que o “amor” de que Jesus fala não é um mero sentimento ou emoção, como muitas vezes é na linguagem de hoje. O amor é uma atitude de vida, uma fidelidade à Aliança com Deus, uma vivência solidária com os irmãos e irmãs. Obviamente, não é possível simpatizar-nos com cada pessoa nem gostar de cada pessoa. Mas é possível superar antipatias e aversões na caminhada da construção do projeto de Deus para nosso mundo. A ligação essencial entre o amor a Deus e ao próximo se torna urgente hoje em dia, quando se dá tanto espaço a pregações intimistas e formas alienantes de “espiritualidade”, que muitas vezes não passam de uma busca disfarçada de autorrealização, mas que jamais levam a um compromisso com a transformação de nossa realidade. A frase de Jesus desautoriza qualquer pregação religiosa que separa o amor a Deus do amor ao próximo – um amor não somente afetivo (que talvez, muitas vezes, nem possa ser), mas efetivo, concretizando de maneira prática a solidariedade e a justiça. O nosso texto nos adverte contra qualquer tendência alienante ou legalista. Os mandamentos não são para serem discutidos, mas vividos, no amor e compromisso. Para os rabinos do tempo de Jesus, o mundo todo dependia da Lei, do serviço no Templo e dos atos de bondade. Mateus faz com que a própria Lei dependa dos atos de amor solidário. Esse avanço feito por Jesus desafia a todos nós para que não caiamos na tentação perene de separar os dois aspectos do amor: não é possível amar a Deus sem que amemos o irmão, e o verdadeiro amor ao próximo brota de nosso amor a Deus. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
29º Domingo do Tempo Comum

“Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”Mt 22,15-21 Com o texto deste domingo, entramos num bloco de quatro unidades tratando de diversas controvérsias com lideranças judaicas diferentes: os fariseus, os herodianos, os saduceus. A discussão de hoje talvez seja a mais conhecida, mas tem sido interpretada, muitas vezes, de maneira errada, projetando sobre Jesus os nossos preconceitos políticos e sociais. É necessário entender que não se trata de uma pergunta sincera feita a Jesus, mas de uma cilada. Quem a faz são membros de dois grupos politicamente opostos e antagônicos: os herodianos, “pelegos” da dominação romana, e os fariseus, muitos dos quais olhavam os herodianos como impuros, pela sua colaboração com o poder estrangeiro. Se Jesus responder que é lícito pagar o imposto, correrá o risco de ser apresentado pelos nacionalistas como um opressor do povo. Se Ele negar, poderá ser denunciado pelos herodianos como subversivo político. É uma situação semelhante à da pergunta de João (8,1-11, a mulher adúltera), em que qualquer resposta deixaria Jesus em maus lençóis. Como naquela ocasião, Jesus se mostra verdadeiro mestre, escapando da cilada e, por cima, dando um ensinamento importante. Primeiramente, Ele deixa claro que entende a jogada: “Hipócritas, por que me armais uma cilada?”. Coloca os seus interlocutores contra a parede, pedindo uma moeda do imposto e perguntando: “De quem são esta efígie e esta inscrição?”. A inscrição seria “Tibério César, Filho do Divino Augusto, Sumo Pontífice”, mostrando as pretensões do Império Romano à divinização. Com a resposta “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, Jesus joga para os seus ouvintes a pergunta essencial: o que pertence a César, e o que pertence a Deus? A Deus pertence a divindade, não ao Império Romano nem a César. Assim, ele evita confirmar o projeto nacionalista violento de muitos judeus de sua época, mas condena também qualquer projeto que divinizasse o poder civil. Uma advertência também para nossos dias, quando o único poder imperial hegemônico (muito semelhante à situação do Império Romano do tempo de Jesus) reivindica para si o poder de impor as suas decisões sobre todas as nações, taxando de “terrorista” quem discorda de sua dominação ideológica, econômica e militar. O poder civil existe para cuidar do povo (que é de Deus) e não para explorá-lo. Jesus assim nega as aspirações imperialistas e, evitando uma resposta direta à pergunta, enfatiza e relativiza todo e qualquer poder, pois o verdadeiro poder somente pertence a Deus. Em nossos dias, ainda existem poderes com as mesmas aspirações dos romanos. Embora não digam abertamente, os arautos do neoliberalismo desenfreado divinizam um sistema que apenas visa ao lucro, à ganância e explora o povo sofrido. As palavras de Jesus nos lembram de que nenhum cristão pode compactuar com qualquer sistema, seja político, econômico ou religioso, que atribui a si o que pertence a Deus. O texto, de forma alguma, justifica um dualismo entre o espiritual (de Deus) e o material (de César). Pelo contrário, mostra que o poder político, econômico e religioso deve estar a serviço do bem comum, pois, se não, está roubando o que é de Deus: o seu povo. Não se pode entregar às garras de um poder opressor, seja ele estrangeiro ou nacional, o que pertence ao Pai. O poder é legítimo quando está a serviço da vida e do bem-estar comum, e não de uns poucos privilegiados. “Dar a Deus o que é de Deus” não se resume em ritos religiosos, mas na construção de uma sociedade de solidariedade, justiça e fraternidade, em que todos possam “ter a vida e a vida em abundância” (Jo 10,10). Conforme lutamos por esse objetivo, estamos dando “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.Pe. Tomaz Hughes, SVD