Uma oração revolucionária

“Quando rezardes, dizei: ‘Abba’”Lucas 11,1-13 Os evangelhos nos revelam que Jesus, em muitas ocasiões, se afastava de seus discípulos, do povo, dos espaços habituais, das atividades missionárias… para orar, sem se deixar prender pelas necessidades urgentes, pelas expectativas de seus amigos e pelas ameaças de seus inimigos. Essa distância, que o fazia entrar em intimidade o Pai, ia gerando nele uma nova sensibilidade para perceber os acontecimentos e a ação do Pai no centro da realidade, e assim poder anunciar a surpreendente notícia do Reino. Sabemos que Jesus vivia uma profunda sintonia com o Pai; e essa sintonia se manifestava no seu modo de orar: Ele orava nos momentos difíceis; dava graças ao Pai e o louvava por ter revelado os mistérios do Reino aos pequenos; orava solicitando o perdão na Cruz para aqueles que o crucificavam; rezava nos momentos decisivos da missão: batismo, pregação, eleição dos discípulos, transfiguração… Sua oração contagiava, despertava interesse nos outros até o ponto de seus amigos lhe pedirem que lhes ensinassem a orar, porque viam que Ele tinha outra profundidade e superava os formalismos e as orações recitadas de memória. O que é mais original e revolucionário em Jesus é a atitude de dirigir-se abertamente ao Pai com palavras simples e emotivas, na linguagem de todos os dias. Na sua oração, Jesus revela um Deus Pai-Mãe, cheio de ternura e compaixão, que toma iniciativa e rompe as distâncias, entrando em comunhão com seus filhos e filhas. Por isso, a primeira palavra da oração de Jesus expressa um grito que ecoa além dos limites do espaço e do tempo. Jesus não disse “Deus nosso que estais no céu”, ou “Criador nosso”, ou “Todo-poderoso nosso”. É significativo que tenha dito “Abba”. Uma característica comum na construção da “imagem” de Deus em todas as religiões é que Ele é intocável, incompreensível, todo-poderoso, transcendente… A oração de Jesus deixa transparecer não o Deus todo-poderoso, onipotente e onipresente, mas o Deus desejoso de interagir com seus filhos e construir uma rede de relações. A oração de Jesus mostra um Deus que possui uma enorme sede de relacionamentos; Ele é um Pai que deseja entrar em diálogo com todos. É significativo que Jesus comece a falar de um Pai que quer se aproximar de todos, sem barreiras e preconceitos. Fixando-nos em Jesus, os nossos olhos e o nosso coração aprendem, na graça do Espírito Santo, o caminho para o Pai. No nosso interior, devemos sentir que rezamos continuamente. Na oração de Jesus, nenhum ser humano foi excluído, nenhum errante foi rejeitado, nenhum sacrifício foi pedido, nenhum dogma proclamado, nenhuma lei estabelecida… Sua oração é instigante e provocativa, que nos liberta do cárcere da rotina, resgata-nos do entorpecimento e nos dá um choque de lucidez: a consciência de que somos conduzidos por uma presença amorosa. Não se pode rezar de qualquer jeito e com qualquer disposição a oração que o Senhor nos ensinou. Para Jesus de Nazaré, Deus não quer que os seres humanos tremam em sua presença, mas que tenham intimidade com ele; não quer demonstrar poder que desperta medo, mas sensibilidade que alimenta proximidade; não quer controlá-los, mas fomentar sua liberdade. Segundo Jesus, o Deus que se esconde atrás da cortina do tempo e do espaço não é um Deus juiz a ser temido, mas um Pai sensível, providente, cuidadoso, que quebra distâncias e se aproxima de todos. Aproximando-nos da oração de Jesus, percebemos que tudo se concentra em torno à expressão vocativa que abre a oração: “Abba!”. É sempre em torno da descoberta do Pai que nos situamos. Mais do que rogar por esta ou por aquela necessidade ou interceder pela satisfação de qualquer carência, o que se pede a Deus é que Ele seja “Pai”. Segundo o cardeal José Tolentino, “Pai!” é um grito íntimo e aberto de fé, de alegria, esperança e amor; um canto de reconhecimento pelo fato de sermos verdadeiros(as) filhos(as) de Deus. Mas é também uma súplica, um gemido, que brota do nosso ser mais profundo, reconhecendo a nossa distância, a nossa pequenez, a nossa fragilidade… Através de sua oração, Jesus comunica aos seus discípulos e a todos nós o direito de também dizer “Abba”. Ele ativa em todos nós a participação na sua condição de Filho e, porque somos seus discípulos(as), abre a oportunidade de nos dirigir ao Pai celeste com a confiança de uma criança. Aqui, o nosso desejo se orienta fraternalmente em direção ao próprio desejo de Jesus. Temos a mesma Origem, a mesma Fonte que Jesus: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30); essa é uma frase que nós também podemos repetir. Porque, neste momento, a vida que respira em nossos pulmões, que pulsa em nossos corações, não está separada da Fonte da Vida. É preciso, pois, tomar consciência dessa relação com a Fonte do Ser que Jesus chama “Abba”,que é seu Pai e nosso Pai, é sua Origem e nossa origem, e também origem do mundo. O coração do ser humano é este lugar onde o universo inteiro clama: “Abba, Pai-Mãe”. Um monge do monte Athos dizia: “Quando eu digo ‘Abba’, o mundo inteiro está presente”. A oração revolucionária de Jesus, portanto, nos descentra e nos move em duas direções: na primeira, nosso olhar e nosso coração se dirigem ao Pai (santificação do seu Nome, vinda do seu Reino). Na segunda, movidos por uma atitude filial, nos dirigimos às nossas necessidades (o pão, o perdão, a força contra a tentação). Essas duas dimensões não devem jamais ser separadas, porque o Senhor as uniu em sua oração. Invocar Deus como “Abba” nos irmana a todos, reforça nossos vínculos e nos expande a viver a comunhão com todos. Por isso, a invocação do “pão de cada dia” é um ato de fé e de abandono ao Pai celeste, o qual “bem sabe que precisais de tudo isto” e nos alimenta (Mt 6,28-32). É necessário pedir o pão, reconhecendo a nossa dependência para com a divina Providência. O fato de que Deus cuida de cada um de nós não
O ativismo trava a mística do encontro

“Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas”Lucas 10,18-42 No Evangelho de Lucas, o caminho de Jesus a Jerusalém marca uma progressiva manifestação do Reino. À medida que avança em seu percurso, Ele vai despertando e preparando seus(suas) seguidores(as) a viver as atitudes indispensáveis de um(a) verdadeiro(a) discípulo(a): a presença compassiva, o espírito de acolhida, o abandono das pretensões de poder, a escuta de sua Palavra… Tais atitudes exigem romper com o ritmo estressante da vida para que todos se coloquem, serena e atentamente, aos pés do Mestre. Essa eleição, que, aos olhos da eficiência, pode parecer superficial e inútil, é uma condição fundamental para chegar a ser um(a) autêntico(a) discípulo(a). No seu caminho em direção a Jerusalém, o Evangelho deste domingo nos revela que Jesus é recebido por duas irmãs, numa casa de família. Esse episódio é algo surpreendente. Os discípulos que acompanham Jesus desaparecem da cena. Lázaro, o irmão de Marta e Maria, está ausente. Na casa da pequena aldeia de Betânia, Jesus se encontra a sós com duas mulheres; ao hospedarem Jesus, o cotidiano de Marta e Maria se altera por completo; elas precisam modificar os próprios hábitos, os próprios ritmos, reordenar as próprias atenções e ocupações. Com o “Senhor” em casa, tudo muda; graças a Ele, tudo deve encontrar uma nova “ordem”.Jesus, o peregrino sem casa, está no centro de todas as atenções que uma verdadeira hospitalidade exige. No entanto, Marta e Maria reagem de maneira diferente no encontro com o Mestre ilustre. Aqui nos deparamos com duas atitudes diferentes. Uma, de total atenção e escuta; outra, de ansiedade, devido aos afazeres habituais e distração. Maria, sentada aos pés de Jesus, põe-se à escuta das suas palavras; Marta, ao invés, fica totalmente tomada pelas tarefas e preocupações. Acolhendo-o e escutando-o, Maria encontra paz, serenidade, tempo, expectativa; Marta, ao contrário, não consegue encontrar a paz;agita-se, preocupa-se, fica insatisfeita, desconcentrada, em contínua ação. Ativismo sem sentido, sem intenção, sem motivação… O ritmo da vida cotidiana tinha aprisionado a Marta, tornando-a surda à escuta da Palavra. Ela recebe Jesus, mas não o escuta. Embora Jesus entre em sua casa, ela o deixa à porta. Maria, ao contrário, compreende bem o projeto de Jesus e rompe com os preconceitos culturais de sua época. Sua atitude é surpreendente, pois está ocupando o lugar próprio de um “discípulo”, que só correspondia aos homens. Em lugar de andar atarefada com as atividades domésticas “próprias das mulheres”, “sentou-se aos pés do Senhor e escutava sua palavra”. Esse gesto, reservado culturalmente aos discípulos varões, a confirma como discípula. De fato, Maria fez a melhor opção: decidiu aprender a escutar a Palavra e se deixa interpelar pela presença do Mestre. Marta, ao fadigar-se com o interminável trabalho da casa, questiona a contraditória atitude de Maria e interpela o Mestre para que sua irmã, como mulher, se “coloque no seu devido lugar”. No fundo, o que ela pede a Jesus é que mande sua irmã voltar às tarefas próprias de toda mulher e deixe de ocupar o lugar reservado aos discípulos varões. Jesus lhe dá uma resposta inesperada: felicita Maria porque acertou em sua eleição e repreende Marta por deixar-se envolver pelas preocupações cotidianas, sem atender ao que é mais importante. Em nenhum momento, Jesus critica Marta por sua atitude de serviço, tarefa fundamental em todo seguimento dele, mas a convida a não se deixar absorver por seu trabalho a ponto de perder a paz. E recorda que a escuta de sua Palavra deve ser prioritária para todos, também para as mulheres, e não uma espécie de privilégio dos varões. Jesus não despreza a acolhida de Marta, mas seu modo de trabalhar, nervosa, sob a pressão de muitas ocupações. Ele a alerta, e a todos nós, do perigo de viver absorvidos pelo excesso de atividades, apagando em nós a paz, contagiando nervosismo e cansaço e esvaziando a mística da acolhida. Tem sido frequente ler este texto em chave dualista, reforçando a superioridade da “vida contemplativa” sobre a “vida ativa”.No entanto, o sentido original do texto está no fato de afirmar a primazia do discipulado acima de qualquer outra atividade. Com efeito, a expressão “estar sentado(a) aos pés de Jesus” constitui a atitude fundamental do “ser discípulo(a)”. O texto imediatamente anterior, onde o bom samaritano aparece como um modelo por sua ação solidária, impede interpretar a cena de Betânia como uma desqualificação da ação em favor da contemplação; o contexto chama a atenção diante de uma maneira de agir que não nasce da escuta da Palavra, mas do próprio ativismo compulsivo. A escuta da Palavra inspira e dá sentido a toda ação. Ativismo ou ação insensata (sem sentido) revela autocentramento, comparação, competição, queixa… Marta se precipita em “fazer”, e esse “fazer” não nasce de uma escuta atenta da palavra de Jesus, correndo o perigo de se converter em um estéril girar sobre si mesma. Ela se limita, apesar de sua boa intenção, a acolher Jesus em sua casa. Maria, no entanto, o acolhe “dentro de si mesma”, oferece-lhe hospitalidade naquele espaço interior, secreto, e que está reservado só para Ele. Marta oferece “coisas” a Jesus; Maria oferece a si mesma; ela elegeu a “melhor parte”. Marta, ao querer que não faltasse nada ao hóspede importante, acaba deixando passar clamorosamente por alto “a única coisa necessária”. Podemos pensar que Marta e Maria, mais que duas pessoas, são duas atitudes, duas tendências que todos temos e somos na vida. Muitas vezes vivemos num ativismo desenfreado e acabamos perdendo o fluxo de uma vida mais harmoniosa, integrada e pacificada. Somos seres de ação, mas também somos seres necessitados de calma, serenidade, contemplação… Como integrar Marta e Maria, como harmonizar ação e contemplação? Eis a questão! Segundo o místico Eckhart, trata-se de deixar subir o que vem do fundo, de executar ações assinaladas pelo selo da interioridade e da profundidade. “Vai para o teu próprio fundo e lá age! Com efeito, todas as obras que aí executas, vivem!” Não se trata, portanto, de qualquer ação, mas daquela que vem das
A compaixão nos desloca para a margem

“Mas um samaritano que estava viajando, chegou perto dele, viu e sentiu compaixão”Lucas 10,25-37 O cristão é um pobre que ama e cuida de outros pobres, um ferido que se faz presente junto a outros feridos. Há um ponto de partida comum: a experiência da pobreza radical de todos os que se encontram. Somos seres de relação; é a nossa essência. Nós nos definimos pela maneira como nos fazemos próximos junto aos outros. Essa relação essencial se manifesta como presença que acolhe, cuida, reforça laços, alimenta a comunhão… Há presenças impositivas, indiferentes, manipuladoras e geradoras de conflitos. E há presenças “cristificadas”, carregadas de compaixão. Uma das páginas mais belas e provocativas do Evangelho é a parábola do “bom samaritano”. Um desconhecido exemplar que nos oferece algumas chaves interessantes de leitura sobre o que significa atender as pessoas que estão em situação de exclusão e dor. Nessa parábola, Jesus destaca uma imagem que deve inspirar uma presença comprometida de todo(a) seguidor(a) seu(sua). O relato começa com uma situação dramática: um homem “ferido de morte” à beira de um caminho. Várias pessoas passam por ele: um sacerdote, “ponte” entre os homens e Deus, e um levita, dedicado ao serviço do Templo. São incapazes de atendê-lo. Dão meia-volta e se vão. Por profissão, ambos conheciam bem a Lei de Deus, a cujo serviço estavam. E, nela, está contida a exigência de humanidade no trato com o semelhante. Nada disso os moveu a vir em socorro do homem semimorto, caído no caminho. O encontro com Deus no Templo não os movia à comunhão com o semelhante em extrema necessidade. Daí terem se desviado do homem semimorto, passando pelo outro lado do caminho. Fugir do sofrimento é, certamente, quase um ato reflexo em todos nós. Mas o samaritano, pelo contrário, se deteve, talvez porque sabia o que era ser desprezado (em seu caso, por ser estrangeiro e herege). A experiência da própria dor desperta nele uma grande sensibilidade, ativa um “radar” especial que detecta a dor alheia e o anima a “inclinar-se”, de maneira quase “natural”, para o mais necessitado. Era um dos seus. A redação de Lucas reforça insistentemente os verbos “viu”, “sentiu compaixão” e “cuidou dele”. Foi suficiente ver o ferido para que se reacendesse a sua compaixão, ou seja, se enternecesse diante da triste situação daquele homem ferido, à beira da estrada. Essa comoção primeira é decisiva porque desperta o desejo de atuar. O que se revela realmente pernicioso é a indiferença, a frieza, e não o sentimento de tristeza e empatia que faz emergir uma corrente de afeto para com o sofredor. O samaritano ficou “afetado” ao contemplar o drama do outro. A sequência na maneira de agir do samaritano é preciosa e fica perfeitamente refletida na narração através dos verbos: olhar, aproximar-se, enfaixar as feridas, colocar o ferido sobre sua cavalgadura, levar, cuidar, retornar. Uma progressiva implicação que termina alterando seu caminho e sua vida. Seus planos foram mudados. Alguém ferido cruzou seu caminho e já não pode viver à margem desse encontro. Por isso, depois de cumprir com suas obrigações, retorna. Esse homem ferido “permanece” em seu coração. As vítimas da injustiça estão clamando a nós a “responsabilidade de ter olhos quando outros os perderam” (J. Saramago). Trata-se de educar o olhar que “des-vela” a mentira da realidade e, ao mesmo tempo, “re-vela” suas oportunidades históricas. Educar a visão é deixar-nos olhar pelo outro, pelo pobre, pela vítima do sistema. A honestidade com a realidade reclama de nós uma alteração de nossa visão, um movimento sutil de nossos olhos que nos conduzem a nos colocar “na mira do outro”. Mais ainda, o olhar do outro manifesta que, “fora dos pobres, não há salvação”. “Há um corpo caído no chão”: todo corpo é lugar de comunicação, de comunhão, é apelo à proximidade e ternura. Dele brota uma voz provocativa que, quando acolhida, nos introduz na trilha da “vida eterna”, do horizonte do Sentido; ao passo que, se rejeitada, como aconteceu ao sacerdote e ao levita, os exclui do espaço da vida. Mas, não basta o olhar;é preciso a “conversão das mãos”. Foi preciso mais que uma mão. Também o dono da hospedaria, possivelmente um judeu, também foi desafiado a superar o preconceito, acreditar no samaritano e aceitar colaborar com ele. O samaritano conta com a ajuda do dono da hospedaria. Este se torna parceiro na solidariedade quando aceita fazer o que lhe fora pedido. Ele prolonga os gestos humanizadores do samaritano, manifestando seu compromisso com a vida frente o ferido que aparece inesperadamente em sua pensão. Depois de apresentada a situação concreta, através de uma parábola, Jesus relança a questão para o mestre da Lei: “Qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?”. A resposta brota límpida: não é possível escolher o próximo. Este, na perspectiva de Jesus, irrompe no caminho das pessoas, sem aviso prévio, na condição de vítima, do outro sofredor, carente de socorro. Quem é capaz de romper esquemas e se transformar em servidor, com total generosidade, faz a experiência de “próximo”,no sentido do discipulado cristão. Por conseguinte, “próximo” tem um sentido bem preciso. Não é qualquer pessoa! É o outro necessitado de ajuda. Por outro lado, só quem tem uma correta imagem de Deus terá uma correta imagem de próximo. A indiferença do sacerdote e do levita deveu-se a uma falsa concepção de Deus, separado dos seus prediletos. Já o samaritano foi aquele que possuía uma fé verdadeira, expressa em atitudes de elevado padrão de misericórdia. O verdadeiro seguimento de Jesus nos faz “virar a cabeça” e dirigir nosso olhar para as “margens”, para as “periferias” da história… comprometendo-nos com os prediletos de Deus. Para Jesus, o centro está nas margens; os marginalizados e excluídos são trazidos por Ele ao centro. Por isso, Jesus derruba as barreiras de religião e raça. Para Ele, o verdadeiro culto a Deus acontece nas “margens” e não nos templos. Na perspectiva cristã, a opção pelos pobres não está vinculada a um voluntarismo ascético-moral,
Pedro e Paulo: duas colunas e uma pedra angular

“Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”Mateus 16,13-19 O evangelho indicado para a festa de São Pedro e São Paulo nos situa diante de uma pergunta provocativa de Jesus: “e vós quem dizeis que eu sou”. Tal pergunta, dirigida aos discípulos e a cada um de nós, não só ajuda a “des-velar” (tirar o véu) a verdadeira identidade de Jesus como também nossa identidade original. Pedro, ao responder − “Tu és o Messias…” − no fundo, estava também deixando transparecer sua própria nobreza interior, aquilo que é o fundamento e sobre a qual se pode construir toda uma vida. E Jesus, como verdadeiro “pedagogo”, explicita o que estava escondido nas profundezas do coração de Pedro. “Tu és ‘petra’ (rocha, base sólida)”. Essa é a verdadeira identidade de Pedro. Ressoa no interior de cada um de nós esta mesma voz: “Tu és rocha…”. O coração de cada um está habitado de sonhos de vida, de futuro, de projetos; sente-se seduzido pelo que é verdadeiro, bom e belo; busca ardentemente a pacificação, a unificação interior, a harmonia com tudo e com todos…; sente ressoar o chamado da verdade, o magnetismo do amor, da plenitude; sente-se atraído por um desejo irreprimível de autotranscendência, de crescimento, de maturidade. Só a partir da vivência e da solidez interior poderemos descobrir o que significa Jesus como “Messias, o Filho do Deus vivo”. Só a partir da identificação com Ele é que poderemos também descobrir nossa original filiação, fundamento de nossa vida: “somos filhos e filhas do Deus vivo”. A filiação é a solidez que nos unifica a todos; ela é a base que sustenta nossa identificação com Jesus Cristo. Não é fácil tentar responder com sinceridade à pergunta de Jesus: “Quem dizeis que eu sou?”. Na realidade, “quem é Jesus para nós?”. Sua pessoa, seu modo original de ser e viver, chega a nós através de vinte séculos de imagens, fórmulas, devoções, experiências, interpretações culturais… que vão desvelando e velando ao mesmo tempo sua riqueza insondável. Mas, além disso, cada um de nós vai revestindo a Jesus com aquilo que nós somos. E acabamos projetando n’Ele nossos desejos, aspirações, interesses e limitações. E, quase sem nos dar conta, O apequenamos e O desfiguramos, mesmo quando queremos exaltá-lo. Mas Jesus continua vivo, e sua presença, na história da humanidade, sempre se revela provocativa e surpreendente. Na realidade, o que notamos é que grande parte dos cristãos não seguem e não se identificam com a Pessoa de Jesus; seguem doutrinas, ritos, algumas obrigações legais… que não têm impacto no modo de viver de cada um. Mas Jesus não se deixa etiquetar nem se deixa reduzir a alguns ritos, algumas fórmulas ou alguns costumes. Jesus sempre desconcerta a quem se aproxima d’Ele com atitude aberta e sincera. Ele se revela sempre diferente daquilo que pensamos e esperamos. Sempre abre novas brechas em nossa vida, rompe nossos esquemas e nos atrai a uma vida nova. Quanto mais O conhecemos, mais sabemos que ainda estamos começando a descobri-lo. Responder à pergunta − “quem dizeis que eu sou?” − é “perigoso” porque nos compromete com o modo de viver de Jesus: sua liberdade perante as tradições religiosas, sua relação com os mais pobres, sua opção clara em favor de uma causa humanizadora (Reino), a vivência dos valores presentes nas Bem-aventuranças, a visibilização do mandamento do Amor… Literalmente falando, Jesus é um “subversivo”, pois “sub-verte” nosso modo fechado de viver e de nos relacionar com os outros. Percebemos nele uma entrega livre que desmascara nosso egoísmo; Ele revela uma paixão pela justiça que sacode nossas seguranças, privilégios e busca de poder; transparece n’Ele uma ternura que deixa descoberto nossa mesquinhez, uma liberdade que põe às claras nossos apegos e dependências. E, sobretudo, vemos n’Ele um mistério de abertura, proximidade e intimidade com o Deus da Vida, que nos atrai e nos convida também a abrir nossa existência à intimidade com Ele. Só iremos conhecendo Jesus na medida em que nos identificamos com Ele e nos revestimos de seus sentimentos, valores, critérios… Só há um caminho para aprofundar em seu mistério: segui-Lo; seguir humildemente seus passos, abrir-nos com Ele ao Pai, prolongar seus gestos de amor e ternura para com todos, olhar a vida com seus olhos, compartilhar sua fidelidade à causa do Reino… São Pedro e São Paulo viveram, por caminhos diferentes, um original encontro com o Mestre da Galileia. Encontro que “des-velou” e extraiu o que havia de mais nobre e humano no coração de cada um deles (“tu és rocha” – “tu és paulo”). Foi essa solidez interior, que se visibilizou na maneira original de cada um seguir Jesus Cristo, que os transformou em colunas da Nova Comunidade dos seguidores do Nazareno. A eles foi conferida uma “autoridade” como caminho para o serviço e a promoção da vida. Jesus compartilha com eles sua mesma “autoridade”, que não tem nada a ver com o poder que domina ou a liderança que se impõe. Jesus tem “autoridade” porque o “centro” está no outro; Ele veio para servir. A expressão “autoridade” vem do verbo latino “augere”,que significa literalmente: aumentar, acrescentar, fazer crescer, dar vigor, robustecer, sustentar, elevar, levantar o outro, colocá-lo de pé, impulsioná-lo para frente… É a qualidade, a virtude e a força que serve para apoiar, para alentar, para ajudar as pessoas a serem elas mesmas, para fazê-las crescer, desenvolvendo suas próprias potencialidades. “Autoridade” significa recuperar a autoria, ativar a autonomia àquele que está impedido de optar e de fazer seu caminho. Nesse sentido, a autoridade nunca é perigosa para a pessoa, jamais é imposição ou atentado contra sua legítima autonomia ou liberdade. A autoridade é essencialmente amor. Também o exercício da autoridade deve ser medido pela palavra e pela obra de Jesus Cristo. E não pode ser de outra maneira, já que, se a origem da autoridade na Igreja é divina, também deveria ser “divina” o modo de exercê-la. Se toda autoridade provém de Jesus, deveria ser exercida à maneira como Jesus a exerceu, e isso vale tanto
13º DOMINGO DO TEMPO

“Eu te seguirei para onde quer que fores”Lucas 9,51-62 A liturgia deste 13º Domingo do Tempo Comum traz como tema central a qualidade do seguimento do projeto de Deus. O trecho de Lucas abre um novo ciclo, relatando o início da significativa viagem de Jesus a Jerusalém, onde Ele cumprirá sua missão até “ser levado para o céu” (versículo 51). Ao longo da difícil jornada, o Mestre dará muitos ensinamentos e deixará para o leitor a tarefa de avaliar e responder a alguns dilemas da vida em Cristo. O contexto geográfico não é o mais importante, mas o que ocorre ao longo da viagem e em seu desfecho. Para chegar a Jerusalém, Jesus deve cruzar a região da Samaria. Os samaritanos são tidos pelos judeus como impuros, e as hostilidades mútuas são comuns. Com história de miscigenação e vítima de muito preconceito e intolerância, esse povo não pratica o culto do Templo, e os peregrinos galileus, ao passarem por seu território rumo ao sul, são intimidados, a ponto de, às vezes, sequer conseguirem água para beber. O Senhor envia mensageiros à frente, para preparar-lhe hospedagem, demonstrando a “solenidade” do momento. A missão fracassa. Tiago e João, revoltados com a negativa dos samaritanos, fazem jus ao apelido de “Filhos do Trovão”. Ainda contaminados com a ideia de um messianismo cheio de poder, ao estilo dos opressores deste mundo, desejam vingar-se e sugerem pedir que caia fogo do céu para destruir aquela gente (vers. 54). Jesus imediatamente os repreende (mesmo termo usado para os exorcismos) e, de sua parte, quebra o ciclo de ódio. A passagem expõe um Mestre mais indignado com a reação violenta dos discípulos que com a falta de acolhida dos samaritanos. Um dado curioso: o segundo livro de Lucas, os Atos dos Apóstolos, conta que a Samaria será o primeiro lugar fora da Judeia a acolher a mensagem do Evangelho (Atos 1,8; 8,4-8). Os primeiros desafios, internos e externos, do caminho já dão o tom do difícil seguimento do Senhor. Assim, a continuação do texto deste domingo narra sobre três personagens. Eles não têm nome, talvez representando um pouco de cada um de nós. O primeiro é radical: “Eu te seguirei para onde quer que fores!”, mas o Nazareno “joga limpo”, dizendo não ter onde sequer reclinar a cabeça. A alusão às tocas das raposas e os ninhos das aves pode denunciar a “estabilidade” dos poderosos, algo contrário a quem se põe a caminho (em Lucas 13,12, por exemplo, Jesus chama Herodes de “raposa”). O segundo personagem (central entre os três) recebe o chamado do Messias. Algo muito importante, porém, impede uma resposta imediata: o drama de perder o pai e a necessidade de ir sepultá-lo antes. Esse trecho, bem delicado, é dos muitos a não serem lidos apressadamente. Em outras passagens dos Evangelhos, vemos o próprio Cristo se comovendo diante da morte e do luto, por isso haveria uma contradição em não aceitar que o filho honrasse o pai numa hora tão significativa. Assim, essa passagem pode ser compreendida na chave de ruptura com as tradições paternas judaicas e no contraste entre morte (passado) e vida (proposta do reinado de Deus). O terceiro personagem, como o primeiro, se oferece para acompanhar o Mestre, mas impõe uma condição: despedir-se dos familiares. A expressão também tem o sentido de desvincular-se de alguma tarefa, talvez de administrar um bem ou serviço, nos termos de hoje. Em suma, sugere-se um apego a algo que o impede de juntar-se livremente à missão (veja a segunda leitura: Gálatas 5,1.13-18). Um aspecto bem típico do conteúdo dessa viagem, já no excerto de hoje, é o autor não informar detalhes desses candidatos ao discipulado e qual a resposta final de cada um. O desenlace fica por conta do ouvinte, o qual tem a chance de pensar também na própria decisão. O caminhar com Jesus não é teórico, mas proveniente de decisão firme e real como a do Mestre. O reinado de Deus não tem lugar para um meio seguimento, mas para um horizonte de esperança. A primeira leitura desta liturgia (1 Reis 19,16b.19-21) dá um bom exemplo: Eliseu larga o arado logo ao ser chamado por Elias e, com coragem, segue adiante. A segunda leitura destaca a verdadeira liberdade. O apego pode nos aprisionar e paralisar, como ocorreu com a mulher de Ló, ao olhar para trás e virar uma estátua de sal (Gênesis 19,26). Possamos andar firmes nos passos do Senhor. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.
12º Domingo do Tempo Comum

“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia sua cruz e me siga”Lucas 9,18-24 Aqui temos a versão lucana da profissão de fé de Pedro, que Marcos põe no caminho de Cesareia de Filipe (Marcos 8,27-35) e coloca como pivô de todo o seu Evangelho. Esse trecho levanta as duas perguntas fundamentais de todos os evangelhos: “Quem é Jesus?”, “O que é ser discípulo dele?”. São duas perguntas interligadas, pois a segunda resposta depende muito da primeira. A minha visão de Jesus determina a maneira de meu seguimento dele. O Evangelho de Lucas situa o texto em um contexto diferente dos outros dois evangelhos sinóticos: diz que Jesus “estava rezando em um lugar retirado, e os discípulos estavam com ele”; enquanto, em Marcos e Mateus, o evento se dá na estrada de Cesareia de Filipe. Uma atitude típica de Jesus em Lucas. Muitas vezes, no Terceiro Evangelho, especialmente antes de momentos importantes em sua vida, Jesus se acha em oração. Pois Ele faz nada por vontade própria, mas escutando a vontade do Pai. O diálogo começa com uma pergunta um tanto inócua: “Quem dizem as multidões que eu sou?”. É inócua, pois não compromete. O “diz que” não compromete ninguém, pois expressa a opinião dos outros. Por isso, chovem respostas da parte dos discípulos: “João Batista, Elias, um dos antigos profetas que ressuscitou!”. Mas Jesus não quer parar aqui (a pergunta foi só uma introdução). Depois vem a “facada”: “E vocês, quem dizem que eu sou?”. Agora não chovem respostas, pois quem responde vai se comprometer, não será a opinião dos outros, mas a opinião pessoal. Essa opinião traz consequências práticas para a vida. Finalmente, Pedro se arrisca: “O Messias de Deus” (os termos “Messias”, em hebraico, e “Cristo”, em grego, têm o mesmo sentido: o Ungido de Deus). Mas a reação de Jesus é, no mínimo, estranha: “Ele proibiu severamente que eles contassem isso a alguém”. Que coisa esquisita! Jesus proíbe que se fale a verdade sobre ele! Como ele espera angariar discípulos desse jeito? O assunto merece mais atenção. Realmente, Pedro acertou em termos de teologia, de “ortodoxia”, conforme diríamos hoje. Ele usou o termo certo para descrever Jesus. Mas Jesus quer esclarecer o que significa ser “O Messias de Deus”. Pois cada um pode entender esse termo conforme sua cabeça, seus desejos. Jesus quer deixar bem claro que ser “messias” para ele é ser o “Servo Sofredor” de Javé. É vivenciar o projeto do Pai, que necessariamente vai levá-lo a um choque com as autoridades políticas, religiosas, e econômicas, enfim, com a classe dominante de seu tempo: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto, e ressuscitar no terceiro dia” (versículo 22). Essa visão que Jesus tinha do Messias, não era a comum. Em geral, o pessoal esperava um messias triunfante, glorioso e guerreiro. O relato em Marcos (mas não a versão em Lucas) mostra-nos que Pedro partilhava essa visão errada, ao ponto de tentar corrigir Jesus e de ganhar do Mestre uma correção dura: “Fique atrás de mim, Satanás! Você não pensa as coisas de Deus, mas as coisas dos homens” (Marcos 8,33). Não basta ter os termos e títulos certos, mas o conteúdo certo. Normalmente todos nós temos os títulos certos para descrever Jesus e sua missão. Nós os aprendemos, desde a infância, desde a catequese para a primeiro comunhão. Mas o que significam esses títulos para nós, em nossa vivência diária? Professamos que Jesus é o Cristo, o Salvador, o Redentor, o Filho de Deus, mas em que minha vida é diferente porque tenho essa crença? Ele realmente é meu Senhor, meu Salvador, da maneira que procuro reproduzir e atualizar suas soluções e atitudes em minha vida, não somente no que crio, mas nas minhas atitudes na vida pública, profissional, familiar e social? A Bíblia nos conta que Deus criou o homem e a mulher na sua imagem e semelhança, mas, na verdade, nós criamos Deus em nossa imagem e semelhança, para que Ele não nos incomode. Nossa tendência é seguir um messias triunfante e não o Servo Sofredor. Mas, para Jesus, não há meio-termo. O discípulo tem de andar nas pegadas do seu mestre: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e me siga” (Lucas 9,23). O seguimento de Jesus leva à cruz, pois a vivência das atitudes e opções dele vai nos colocar em conflito com os poderes contrários ao Evangelho. Carregar a cruz não é aguentar qualquer sofrimento. Assim, a religião seria masoquismo. Carregar a cruz é viver as consequências de uma vida coerente com o projeto do Pai, manifestado em Jesus. Segui-lo não é tanto fazer o que Jesus fazia, mas o que ele faria se estivesse aqui hoje. Como Ele foi morto, não pelo povo, mas por grupos de interesse bem claros, “os anciãos, os chefes dos sacerdotes e os doutores da Lei” (a elite dominante em termos econômicos, religiosos e ideológicos), seus seguidores entrarão em conflito com os grupos que hoje representam os mesmos interesses. Por isso sempre haverá a tentação de criarmos um Jesus light, sem grandes exigências, limitado a uma religião intimista e individualista, sem consequências políticas, econômicas ou ideológicas. Seria cair na tentação de Pedro, conforme o relato de Marcos. O texto faz ressoar, para cada um de nós, as duas perguntas de Jesus. É fácil responder ao que os homens dizem dele, o que dizem o Papa, o bispo, o catequista, os teólogos, a tevê. Mas essa pergunta não é tão importante. É a segunda que cada um tem de responder: “Quem é Jesus para mim?”. E a resposta vai se dar não tanto com os lábios, mas com as mãos e os pés. Respondemos quem é Jesus para nós por nossa maneira de viver, por nossas opções concretas, por nossa maneira de ler os acontecimentos da vida e da história. Tenhamos cuidado com qualquer Jesus que
Solenidade da Santíssima Trindade

“O Espírito não falará em seu próprio nome”João 16,12-15 Hoje celebramos o mistério insondável de Deus, a Santíssima Trindade. Durante os primeiros séculos de sua existência, a Igreja tinha dificuldade para expressar em palavras o inexprimível: a natureza do Deus em que acreditamos. Chegou à expressão belíssima do Credo Niceno-Constantinopolitano, tão pouco usado nas celebrações de hoje, o qual celebra o Pai “criador de todas as coisas”; o Filho, “Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado’; e o Espírito que “dá a vida e procede do Pai e do Filho”. Mas, mesmo essas expressões tão profundas não conseguem explicar a Trindade, pois, se Deus fosse compreensível à mente humana, não seria Deus. O Quarto Evangelho nos traz formulações muito bonitas referentes à Trindade, especialmente no último discurso de Jesus. Nesses capítulos (13 a 17), Ele é representado como o Paráclito, uma palavra grega que significa, em nossa linguagem, o Advogado da Defesa. Em diversos textos, João expressa a função do Espírito dentro da comunidade pós-ressurrecional. No capítulo 16, de onde se tira o texto de hoje, existe um trecho trinitário: os versículos 13 a 15 se referem ao Espírito; os versículos 16 a 22, a Jesus; os versículos 23 a 27, ao Pai. No texto de hoje, é enfatizada a função do Espírito de ensinar. Como no capítulo 14, num texto paralelo, esse ensinamento não trará nada de novo. Jesus já recebeu tudo do Pai, e o Paráclito recebe tudo de Jesus. Mas o ensinamento dele vai fazer com que os discípulos compreendam melhor o que significa o ensinamento que receberam de Jesus. Vai fazer com que eles “recordem” suas palavras e, assim, consigam colocá-las em prática. O termo “verdade” que se usa nesse trecho tem o mesmo sentido de outros textos do Quarto Evangelho, isto é, a fé em Jesus como a revelação de Deus e quem fala as palavras de Deus (João 3,20.33; 8,40.47). Dentro das limitações da linguagem humana, tentamos expressar o mistério da Trindade como “três pessoas em uma única natureza”. Mais importante do que encontrar fórmulas abstratas para expressar o que, no fundo, é inexprimível é descobrir o que a doutrina da Trindade pode nos ensinar para nossa vida cristã. Talvez o livro de Gênesis possa nos ajudar. Lá se diz que Deus “criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus Ele o criou; e os criou homem e mulher” (Gênesis 1,28). Se somos criados na imagem e semelhança de Deus, é de um Deus que é Trindade, que é comunidade perfeita, na diversidade. Assim, só podemos ser pessoas realizadas conforme vivemos comunitariamente. Quem vive só para si é destinado à frustração e à infelicidade, pois está negando sua própria natureza. O egoísmo é a negação de quem somos, pois nos fecha sobre nós mesmos, enquanto fomos criados na imagem de um Deus que é o contrário do individualismo, pois é Trindade. No mundo pós-moderno, onde o individualismo social, econômico e religioso é tido como critério fundamental da vida, a doutrina da Trindade nos desafia para que vivamos nossa vocação comunitária, criando uma sociedade de partilha, solidariedade e justiça, no respeito do diferente do outro, pois fomos criados na imagem e semelhança desse Deus que é amor e comunhão. A festa de hoje não é de um mistério “matemático” (como pode ter três em um?), mas do mistério do amor de Deus, que nos criou para que vivêssemos comunitariamente na sua imagem e semelhança. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Solenidade de Pentecostes

“Todos ficaram repletos do Espírito Santo”Atos dos Apóstolos 2,1-11 A liturgia de hoje nos descreve a descida do Espírito Santo sobre a comunidade dos discípulos, em duas tradições: a de Lucas (Atos dos Apóstolos) e a da Comunidade do Discípulo Amado (João 20). Salta aos olhos que uma leitura fundamentalista da Bíblia (infelizmente ainda muito comum entre nós) leva a gente a um beco sem saída, pois, no Evangelho de João, a Ressurreição, a Ascensão e a descida do Espírito se dão no mesmo dia (a Páscoa), enquanto Lucas separa os três eventos, dentro de um período de cinquenta dias. Por isso devemos ler os textos dentro dos interesses teológicos dos diversos autores: os 40 dias de Lucas, por exemplo, entre a Ressurreição e a Ascensão, correspondem aos 40 dias da preparação de Jesus no deserto, para a sua missão. Pois, como Jesus ficou “repleto do Espírito Santo” (Lucas 4,1) e se lançou na sua missão “com a força do Espírito” (Lucas 4,14), a comunidade cristã se preparou durante o mesmo período e, na festa judaica de Pentecostes, também experimentou que “todos ficaram repletos do Espírito Santo” (Atos dos Apóstolos 2,4). Uma leitura superficial do texto de Atos dá a impressão de um relato uniforme e coeso, mas isso se deve à habilidade literária do autor. Na verdade, ele costurou um relato só, tecendo elementos de duas tradições. Uma leitura cuidadosa nos mostra essas duas tradições: a primeira está nos versículos 1 a 4, uma tradição mais antiga e apocalíptica; a segunda está nos versículos 5 a 11, mais profética e missionária. Nos primeiros versículos, estamos no ambiente de uma casa, onde os discípulos se reuniram. Atos nos faz lembrar que estavam reunidos três grupos distintos, os Onze, as mulheres (entre as quais Maria, a mãe de Jesus), e os irmãos do Senhor. Embora talvez representem três tradições cristológicas diferentes no tempo de Lucas, ele faz questão de enfatizar que todos estavam reunidos com “os mesmos sentimentos e eram assíduos na oração” (Atos 1,14). Quer dizer, a descida do Espírito não é algo mágico, mas consequência da unidade na fé e no seguimento do projeto de Jesus. O primeiro relato (versículos 1 a 4) usa imagens apocalípticas, símbolos da teofania, ou da manifestação da presença de Deus: o som de um vendaval e as línguas de fogo. A expressão externa da descida do Espírito é o “falar em outras línguas” (não o “falar em línguas” – glossolalia – tão valorizado por muitos grupos de cunho neopentecostal). A segunda tradição muda o enfoque. O ambiente muda da casa para um lugar público, provavelmente o pátio do Templo. O sinal visível da presença do Espírito não é mais o falar em outras línguas, mas o fato de que todos os presentes possam “ouvir, em sua própria língua, os discípulos falarem” (Atos 1,6). O termo “ouvir” aqui implica também “compreender”. Por três vezes, o relato destaca o fato de os presentes poderem “ouvir” em sua própria língua (versículos 6, 8, 11). Assim, Lucas quer enfatizar que o dom do Espírito Santo tem um objetivo missionário e profético: de fazer com que toda a humanidade possa ouvir e compreender a nova linguagem que une todas as raças e culturas, ou seja, a do amor, da solidariedade, do projeto de Jesus, do Reino de Deus. A lista dos presentes tem um sentido especial: estão mencionadas raças, áreas geográficas, culturas e religiões. Todos ouvem as maravilhas do Senhor. Assim, Lucas ensina que a aceitação do Evangelho não exige o abandono da identidade cultural. Contesta a dominação cultural, ou seja, a identificação do Evangelho com uma cultura específica. Durante séculos, esse fato foi esquecido nas Igrejas, e identificava-se o Evangelho com sua expressão cultural europeia. Nos últimos anos, a Igreja tem insistido muito na necessidade da “inculturação”, de anunciar e vivenciar a mensagem de Jesus dentro das expressões culturais das diversas raças e etnias. O texto é uma releitura da Torre de Babel, onde a língua única era o instrumento de um projeto de dominação (uma torre até o céu!) que foi destruído por Deus pela diversidade de línguas. Nenhuma cultura ou etnia pode identificar o Evangelho com sua expressão cultural a respeito dele. Hoje é uma grande festa missionária. Marca a transformação da Igreja de uma seita judaica em uma comunidade universal, missionária (mas não proselitista), comprometida com a construção do Reino de Deus “até os confins da terra”. Lucas insiste que a experiência de Pentecostes não se limita a um evento; é uma experiência contínua, por isso relata novas descidas do Espírito Santo: em uma comunidade em oração, dentro de uma casa (Atos 4,31); sobre os samaritanos (Atos 8,17); e, para o espanto dos judeu-cristãos ortodoxos, sobre os pagãos, na casa de Cornélio (Atos 10,4). Pois o Espírito Santo sopra onde quer, sobre quem quer, em favor do Reino de Deus. Aprendamos do texto de Atos e celebremos nossa vocação missionária, não a de falar em línguas, mas a de falar a língua única do amor e do compromisso com o Reino, para que a mensagem do Evangelho penetre todos os povos, culturas, raças e etnias. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Solenidade da Ascensão do Senhor

“Afastou-se deles e foi levado para o céu”Lucas 24,46-53 Aqui temos o último trecho do Evangelho de Lucas. Quase todo o conteúdo deste capítulo é encontrado somente em Lucas e revela bem seu pensamento. Podemos dizer que o Evangelho todo culmina na postura dos discípulos, descrita no versículo 52: “Eles o adoraram”. Essa é a primeira e única vez que Lucas diz que os discípulos adoraram Jesus. Aqui há uma aproximação entre a cristologia de Lucas e a de João, em João 20,28. O trecho inicia-se com uma frase que faz lembrar os dois discípulos na estrada de Emaús: “Jesus abriu a mente deles para entenderem as Escrituras” (vers. 45). Vale a pena salientar que Ele fez com que eles “entendessem” as Escrituras, não que as “conhecessem”, pois estavam bem a par de tudo que as Escrituras falavam. O problema deles, como dos dois de Emaús, era entender como as Escrituras podiam iluminar sua caminhada, em sua situação concreta. Lucas frisa que o anúncio do Evangelho incluirá a grande Boa-Nova do perdão dos pecados. Essa Boa Notícia “será anunciada a todas as nações, começando por Jerusalém” (vers. 47). Aqui explica como a salvação chegará aos outros povos: pela pregação e testemunho das comunidades cristãs. Por isso devemos entender a frase “E vocês são testemunhas disso” (vers. 48) como referente não apenas aos Onze, mas a todos os discípulos e discípulas de Jesus. Podemos lembrar-nos de Lucas (24,9.33), o qual enfatiza que, além dos Onze, estavam também presentes “os outros”. Isso é importante para que não caiamos na cilada de achar que a missão de testemunhar os valores do Reino seja algo reservado aos ministros ordenados. O Documento de Aparecida insiste muito que não é possível ser discípulo, discípula de Jesus sem ser missionário, missionária. Essa incumbência, e privilégio, vem de nosso batismo. As comunidades poderão contar com um poderoso ajudante nessa missão gostosa, mas árdua, o Espírito Santo, prometido pelo Pai: “Agora eu lhes enviarei aquele que meu Pai prometeu” (vers. 49). O cumprimento dessa promessa será graficamente descrito na continuação da obra de Lucas, nos primeiros dois capítulos dos Atos dos Apóstolos. O último parágrafo contém numerosas referências a Lucas 1,5-2,25. O texto grego emprega o verbo que, no Antigo Testamento, é usado para descrever o Êxodo, quando diz: “Jesus levou os discípulos para fora da cidade” (vers. 50). Para Lucas, Jesus está prestes a completar seu Êxodo para o Pai. Mas, antes, “Ergueu as mãos e os abençoava” (vers. 50b). É a única vez que, no Evangelho de Lucas, se diz que Jesus abençoou alguém. No fim da liturgia de sua vida, Jesus dá sua bênção final aos que vão continuar sua missão. Os discípulos sentem grande alegria, um tema destacado no início da vida de Jesus, em seu nascimento em Belém, quando os anjos trouxeram notícias de grande alegria. A alegria prometida no início está presente no fim. Por isso, os discípulos se encontram no Templo, onde Jesus foi apresentado e onde Simeão louvou a Deus. O Evangelho de Lucas conclui afirmando que eles também “Estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus” (vers. 53). O autor termina, enfatizando a resposta que seus leitores devem dar, visto que eles aceitam que, em Jesus, chegou nossa salvação, mediante a ação gratuita do Deus misericordioso. Esta resposta de bendizer a Deus não é somente com os lábios, mas com uma vida dedicada e missionária, no seguimento de Jesus de Nazaré e comprometida com a construção de comunidades e sociedades alternativas, baseadas na partilha e na solidariedade. Esse é um dos grandes temas da segunda parte do Evangelho de Lucas, que nós conhecemos como “Atos dos Apóstolos”, um dos livros preferidos no estudo bíblico nas comunidades de hoje. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
6º Domingo da Páscoa

“Eu lhes dou a minha paz”João 14,23-29 A porta de entrada do texto é o versículo anterior, em que Judas (não o Iscariotes) pergunta a Jesus, durante a Última Ceia, “Por que vais se manifestar a nós e não ao mundo?” (vers. 22). Jesus dá a resposta: o Pai vem morar no cristão que guarda sua Palavra, pois suas palavras são as do Pai. O mundo (aqui entendido como o antirreino, não o mundo físico) não ama a Deus. A presença de Deus somente pode ser experimentada por quem o ama. Não é possível amar Deus sem guardar sua Palavra. O versículo 26 traz a segunda predição no Último Discurso da vinda do Paráclito (João 14,15). Aqui se focaliza mais seu papel de ensinamento, um ensinamento que clarifica o que Jesus ensinou. Ele vai fazer com que os discípulos “lembrem” tudo o que Jesus disse. Aqui, “lembrar” significa a capacidade de entender o verdadeiro sentido das palavras e ações de Jesus, depois da ressurreição (João 2,22; 12,16). O Espírito Santo, aqui descrito como Paráclito (no sistema judicial grego, o Paráclito era o advogado da defesa), não trará ensinamento que seja independente da revelação de Jesus. Ele vai preservar os discípulos de erro e guardá-los perto de Jesus. Com esse dom, Jesus deixa sua paz a sua comunidade. Ele usa a palavra tradicional dos judeus para a paz: shalom. É uma paz baseada na vinda do Espírito, que será atualizada na noite de Páscoa, quando dirá “A paz esteja com vocês! Recebam o Espírito Santo” (João 20,21-22). Enfatiza que não é a paz como o mundo a entende, muitas vezes simplesmente como a ausência de briga. Com frequência, a paz que o mundo dá é aquela falsa, que depende da força das armas para reprimir as legítimas aspirações do povo sofrido, como tantos países experimentaram durante as ditaduras de direita e de esquerda. O shalom é tudo o que o Pai quer para seu povo. Somente existe quando reina o projeto de vida de Deus. Implica a satisfação de todas as necessidades básicas da pessoa humana, da libertação da humanidade do pecado e de suas consequências. Como dizia o saudoso Papa São Paulo VI, “Justiça é o novo nome da paz!”. O shalom dos discípulos não pode ser perturbado pelo fato de sua partida, pois é pela volta do Filho para o Pai que o shalom vai se instalar. A verdadeira paz, o shalom, é um dom de Deus, mas precisa da colaboração humana. Diante de tantas barbaridades hoje, de tanta violência no campo e na cidade, da exploração do latifúndio, da impunidade, qual deve ser a atitude do cristão? Se nós acreditamos no shalom, nunca podemos compactuar com sistemas repressivos ou elitistas que tiram da maioria (ou de uma minoria) os direitos básicos que pertencem a todos os filhos e filhas de Deus. Às vezes, esse shalom convive ao lado do sofrimento e perseguição por causa do Reino, mas quem experimenta na intimidade a presença da Trindade, também experimenta a verdade da frase do texto de hoje: “Não fiquem perturbados nem tenham medo” (vers. 27), pois, disse Jesus, “Eu venci o mundo”. Por isso devemos sempre “fazer a memória de Jesus” (aqui se destaca o momento privilegiado da celebração eucarística), de sua pessoa e de seu projeto, para que tenhamos critérios certos para verificar a presença (ou ausência) do shalom em nossa sociedade e nos comprometemos com a criação do mundo mais justo que Deus quer. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.